
O blogue "Comer bem até aos 100" informa aqui que Hitler não comia carne porque o animal mais forte da selva - o elefante - também não o fazia. É o que se pode chamar pseudo-ciência da nutrição...


A revista “Time” ao escolher, no final do século passado, o físico Albert Einstein para “Pessoa do Século” prestou homenagem a uma das pessoas que mais contribuíram para a compreensão do Universo em que vivemos.
[1] Abraham Pais, “O Senhor é Subtil. Vida e Pensamento de Albert Einstein”, 1ª edição, Gradiva, Lisboa, 1991,
[2] Roland Barthes, “Mitologias”, Edições 70, Lisboa, 1987.
[3] Alice Calaprice (coordenação e edição), “The New Quotable Einstein”, Princeton University Press,
[4] Max Jammer, “Einstein e a Religião”, Contraponto, Rio de Janeiro, 2000.
[5] Carlos Fiolhais, “Curiosidade Apaixonada”, Gradiva, Lisboa, 2005.
[6] Michio Kaku, “O Cosmos de Einstein. Como a visão de Einstein transformou a nossa concepção do espaço e do tempo”, Gradiva, Lisboa, 2005.
[7] Albert Einstein, “Como Vejo o Mundo, a Ciência e a Religião”, Relógio d’Água, Lisboa, 2004.
[8] Stephen Hawking, “O Fim da Física”, Gradiva, Lisboa, 1994, prefácio de Carlos Fiolhais.
[9] Stephen Hawking, “Uma Breve História do Tempo”, edição actualizada e aumentada, Gradiva, Lisboa, 2000, prefácio de Carl Sagan.

Segunda parte da minha intervenção no Porto em 2005 a convite da Casa-Museu Abel Salazar (a imagem é do cartaz da exposição que a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra fez nesse ano):
Einstein chegou bem longe movido pela sua curiosidade. O que ficou para a cultura científica? A cultura científica é a apropriação que a sociedade faz dos conhecimentos e dos métodos da ciência. Não há dúvida que Einstein estendeu a cultura científica ao estender as fronteiras da ciência. E participou pessoalmente nessa extensão, ao procurar comunicar de uma forma simples e acessível tanto as novas como as velhas ideias.
“A escola sempre foi o mais importante veículo para a transmissão da riqueza da tradição de uma geração para a seguinte. (...) Às vezes vemos na escola apenas o instrumento para transferir uma certa quantidade de conhecimentos à geração seguinte. Mas é errada essa concepção. O conhecimento é algo de morto, ao passo que a escola está ao serviço dos vivos. A sua missão é desenvolver nos jovens capacidades e qualidades que contribuam para o bem-estar da comunidade.”
Já falámos no De Rerum Natura sobre automóveis movidos a lítio. Agora é a vez do alumínio, outro metal leve e muito «plebeu», ser considerado como «combustível» alternativo.
ALUMINIUM, the Bright Star of Metals,



Texto sobre "Vida de Galileu" de Bertold Brecht (na foto) suscitado pela minha participação no colóquio sobre "Retórica e Teatro" realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto no ano passado:Mostrar a ciência em palco constitui uma das melhores formas de fazer cultura científica, isto é, de levar a ciência à sociedade [1, 2]. Nas peças do chamado “teatro científico” (teatro sobre temas de ciência, entenda-se, pois o teatro é uma forma de arte e, por isso, pouco tem de científico) encontram-se boas illustrações tanto do discurso científico como do discurso contrário. Esse teatro, que inclui peças como “Copenhagen” [3] do inglês Michael Frayn, ou “Oxigénio” [4] dos norte-americanos Carl Djerassi e Roald Hoffmann, tem conhecido ultimamente um grande interesse em todo o mundo e também em Portugal.
Mas esse tipo de teatro é mais antigo. A peça “Vida de Galileu” do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956) é perfeita para recolher exemplos da relação entre retórica teatral e retórica científica. “Vida de Galileu”, como o próprio nome indica, mostra o percurso biográfico do matemático e físico Galileu Galileu (1564 - 1642) desde os seus tempos de jovem professor de Matemática na Universidade de Pádua até aos tempos de reclusão domicilária em Arcetri, perto de Florença, depois de ter sido condenado pela Inquisição em 1633 e de ter abjurado publicamente as suas teses mais polémicas. A acção situa-se no início do século XVII, precisamente no tempo de Revolução Científica. Brecht, baseado em factos reais mas não se inibindo de tomar as suas liberdades literárias, põe na boca do sábio pisano (nasceu e estudou em Pisa) algumas das afirmações que abalaram verdades estabelecidas na época, nomeadamente ao advogar a mudança do sistema de Ptolomeu para o sistema de Copérnico, o que significa uma mudança de uma visão estritamente religiosa do mundo natural, baseada numa leitura literal da Bíblia, para uma visão científica, baseada na observação e na experimentação. O papel de Deus passou a ser diferente; num certo sentido, pode dizer-se que se esvaziou.
Na cena três, que se passa na cidade de Pádua em 10 de Janeiro de 1610 (lembre-se que em 2009 se celebra o quarto centenário das primeiras observações celestes com o telescópio, realizadas nos últimos dois meses de 1609), Galileu declara ao seu amigo Sagredo, depois de ter espreitado o céu com o telescópio, instrumento que ele aperfeiçou e que foi o primeiro a utilizar para observações astronómicas, e de ter descoberto as luas de Júpiter, que eram astros que de certa forma confirmavam o sistema de Copérnico (não giravam em redor da Terra):
“Não pare de olhar, Sagredo. O que você vê é que não há diferença entre céu e terra. Hoje, 10 de Janeiro de 1610, a humanidade regista em seu diário: aboliu-se o céu.”
Uso para a citação a edição brasileira [5], uma vez que se aguarda a publicação entre nós de uma tradução recente de “Leben des Galilei” na colecção de obras quase completas de “Teatro” de Brecht que está em curso na Cotovia (há uma tradução portuguesa de 1970, feita por Yvette Centeno [6], e há traduções de alguns excertos feitas por esse grande germanista que foi Paulo Quintela [7]). A versão original da peça foi escrita em 1937-1939, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, mas há mais duas, escritas uma imediatamente após a a guerra (1945-1947) e a outra no pós-guerra (1956-1957), sendo muito interessante notar a evolução do texto da peça em paralelo com a evolução dos acontecimentos históricos a meio do século XX, nomeadamente a explosão da primeira bomba atómica que põe fim à guerra e o período de paz na chamada “guerra fria”. Esta evolução encontra-se bem descrita e comentada no livro “Do Pobre B.B. em Portugal” [8], que resultou de trabalhos de investigação efectuados pelo Centro de Estudos Germanísticos da Universidade de Coimbra, que também faz a história das várias representações da peça em Portugal. Recentemente, a peça foi representada no Teatro Aberto, de Lisboa, em versão de João Lourenço e Vera San Payo de Lemos e encenação de João Lourenço.
Mais adiante, na mesma cena, há um diálogo entre Galileu e Sagredo (este amigo existiu mesmo, sendo também o nome do leigo inteligente que surge nos “Diálogos sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo”), que é bem elucidativo das dificuldades de ordem teológica que a “nova ciência” vinha trazer:
“Sagredo - Mas você não tem um pouco de juízo? Não percebe a situação em que fica se for verdade o que está vendo? Se você andar por aí gritando pelas feiras que a Terra é uma estrela [sic, aqui no sentido de astro] e que não é o centro do universo?”
Galileu - Sim senhor, e que não é o universo enorme, com todas as suas estrelas, que gira em torno de nossa Terra, que é ínfima – o que aliás era de imaginar.
Sagredo – E que, portanto, só existem estrelas! E Deus, onde é que fica?
Galileu – O que é que você quer dizer?
Sagredo – Deus, onde é que fica Deus?
Galileu em fúria – Lá não! Do mesmo jeito que ele não existe aqui na Terra, se houver habitantes de lá que queiram achá-lo aqui!
Sagredo - Então onde é que fica?
Galileu - Eu sou teólogo? Eu sou matemático.
Sagredo – Antes de tudo você é um homem, e eu pergunto: onde é que está Deus no sistema do mundo?
Galileu – Em nós, ou em lugar algum.
Sagredo gritando - A mesma fala do queimado-vivo!
Galileu - A mesma fala do queimado vivo!
Sagredo – Por causa dela ele foi queimado! Não faz dez anos!
Galileu - Porque ele não tinha como provar! Que ele só afirmava!”
O "queimado-vivo" era o filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600) que tinha sido condenado à morte por heresia pela Inquisição e executado na fogueira na cidade de Roma. Repare-se como Galileu expõe a diferença entre a retórica, ou “técnica ou arte de convencer”, baseada no conhecimento certo (“ele não tinha como provar”) e a retórica pura e simples (“ele só afirmava”). Mais adiante, na cena quatro, Galileu está na sua casa de Florença, cidade para onde entretanto se tinha mudado, e é visitado por professores da universidade local. No diálogo entre um filósofo e um matemático, que defendiam as posições da Igreja, e Galileu, o papel da observação, possibilitada pelo novo instrumento, é convenientemente enfatizado:
O filósofo - ... Mas eu receio que isso tudo não seja tão simples. Senhor Galileu, antes de aplicarmos o seu famoso telescópio, gostaríamos de ter o prazer de uma disputa. Assunto: E possível que tais planetas existam?
O matemático - Uma disputa formal.
Galileu - Eu achava mais simples os senhores olharem pelo telescópio para terem a certeza”.
Neste diálogo curto está sumariada a posição científica que Galileu advogava e que acabou, como é sabido, por triunfar. Ainda mais adiante, na mesma cena, a supremacia da observação, baseada no novo instrumento, relativamente ao conhecimento puramente livresco, baseado em Aristóteles:
“Matemático - Meu caro Galileu, por mais antiquado que pareça ao senhor, eu ainda tenho o hábito de ler Aristóteles, e lhe garanto que acredito nos meus olhos quando leio.
Galileu - Eu me acostumei a ver como os senhores de todas as faculdades fecham os olhos a todos os factos, fazendo de conta que não houve nada. Eu mostro as minhas observações e eles sorriem, eu ofereço o meu telescópio para que vejam, e eles citam Aristóteles”.
Um exemplo final do diálogo brechtiano sobre o espírito científico, ou melhor, a falta dele, encontra-se na cena sete, passada em 5 de Março de 1616 quando a Inquisição coloca a obra de Galileu no Index. A cena passa-se em casa do cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), em Roma, curiosamente durante um baile de máscaras. Galileu encontra o dono da casa, no século XX nomeado santo e doutor da Igreja, e o cardeal Maffeo Barberini (1568-1644), mais tarde papa com o nome de Urbano VIII :
“Galileu, tomando impulso para uma explicação – Eu sou um filho devoto da Igreja...
Barberini – Pessoa incorrigível. Ele quer provar, com toda a candura, que, em matéria de astronomia, Deus escreve asneiras! Deus então não estudou astronomia como convinha, antes de redigir a Sagrada Escritura? Caro amigo!
Bellarmino - Mesmo ao senhor, não lhe parece provável que o Criador saiba mais que a sua criatura a respeito da criação?
Galileu - Mas, meus senhores, afinal, se o homem decifra mal o movimento das estrelas, poderá errar também quando decifra a Bíblia?
Bellarmino - Mas, meu senhor... afinal, decifrar a Bíblia é da competência dos teólogos da Santa Igreja, ou não?
Galileu não responde.”
Galileu é calado com um argumento de autoridade e, em seguida, Bellarmino ordena-lhe que abjure das suas posições heliocêntricas. Na sequência, Barberini remata: “Bem, vamos repor as nossas máscaras. Mas o pobre Galileu não tem nenhuma”. Há aqui um teatro dentro do teatro e só Galileu não tem fuga: está condenado a fazer o seu próprio papel.
BIBLIOGRAFIA
[1] Carlos Fiolhais, “Ciência em Palco”, in “Partilha de Cena”, nº 0, Coimbra: Mafia – Federação Cultural de Coimbra, 2007.
[2] Mário Montenegro, “Texto dramático sobre tema científico: o caso particular de Carl Djerassi”, Tese de mestrado em texto dramático, Porto: Universidade do Porto, 2007.
[3] Michael Frayn,
[4] Carl Djerassi e Roald Hoffmann, “Oxigénio”, Porto: Editora da Universidade do Porto, com prefácio de José Ferreira Gomes e tradução de Manuel João Monte.
[5] Bertold Brecht, “Teatro Completo”, vol. 6 (de um total de 12), “Os fuzis da Senhora Carrar, Vida de Galileu e Mãe Coragem e os seus filhos”, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 3ª edição, 1991, tradução de Roberto Schwartz da versão original da "Vida de Galileu".
[6] Bertold Brecht, “Vida de Galileu”, Lisboa: Portugália, 1970, tradução de Yvette Centeno.
[7] Paulo Quintela, “Obra Completa”, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 5 volumes, 1996-2001, com organização de Ludwig Scheidl, António Sousa Ribeiro, Carlos Guimarães e Maria Helena Simões.
[8] Maria M. Gouveia Delille (coordenação), “Do Pobre B. B. Em Portugal : a recepção dos dramas Mutter Courage und ihre Kinder e Leben des Galilei”, Coimbra: Minerva, 1998, estudos de M. Antónia Teixeira e M. Fátima Gil.

Brian Greene, professor de física e matemática da Universidade de Columbia, é um destacado físico teórico e divulgador de ciência, autor de dois best-sellers, «The Elegant Universe» (finalista do Pulitzer e vencedor do Aventis Prize), e «The Fabric of the Cosmos: Space, Time and the Texture of Reality», que permaneceu seis meses na lista de best-sellers do New York Times.
O primeiro livro serviu de base a uma mini-série de três horas (galardoada com um Emmy) da PBS NOVA, «The Elegant Universe», (disponível na totalidade online). A série, narrada por Greene da forma simples e com o entusiasmo contagiante que este pequeno excerto ilustra, duplicou os níveis de audiência da NOVA, que conta com outras séries muito boas como a «Origins» de outro comunicador fabuloso, Neil deGrasse Tyson. O programa, que introduz o público em geral à teoria de cordas de uma forma magistralmente simples, recebeu o prémio Peabody 2004 por excelência em transmissão.
Hoje, o New York Times publica um artigo simplesmente imperdível de Greene sobre o ensino de ciência. O artigo, intitulado «Put a Little Science in Your Life», versa sobre «o papel poderoso que a ciência pode ter a dar contexto e significado à vida», usando como exemplo uma carta de um soldado norte-americano destacado no Iraque. Este soldado escreveu a Greene explicando que um dos seus livros foi a bóia de salvação que lhe deu alento num ambiente hostil e solitário.
Para Greene, «ao mesmo tempo, a carta do soldado enfatizou algo em que eu tenho vindo a acreditar: o nosso sistema educacional falha no ensino de ciência de forma que permita aos estudantes integrá-la nas suas vidas».
O físico considera ainda que a principal razão porque a ciência é importante não é na maioria das vezes compreendida: «A razão porque a ciência é realmente importante é mais profunda. Ciência é uma forma de vida. Ciência é uma perspectiva. Ciência é o processo que nos leva da confusão à compreensão numa forma que é precisa, prevísivel e confiável - uma transformação, para aqueles felizardos que a experienciam, que é poderosa e emocional. Ser capaz de pensar e agarrar explicações - para tudo, de porquê é o céu azul a como se formou a vida na Terra -, não porque foram declarados dogmas mas porque revelam padrões confirmados pela experiência e observação, é uma das mais preciosas das experiências humanas».
Gostei especialmente da forma como Greene termina o artigo, que traduz de forma fabulosa o que penso e que tenho tentado em vários posts transmitir:
«Nós roubamos a vida à ciência quando nos focamos somente nos resultados e procuramos treinar os alunos para resolver problemas e recitar factos sem ênfase em transportá-los para lá das estrelas.
A ciência é a maior de todas as histórias de aventuras, uma história que se desenrola há milhares de anos à medida que nós procurámos percebermo-nos e ao mundo que nos rodeia. É necessário ensinar ciência aos mais novos e comunicar aos menos novos de uma forma que capture este drama. Nós precisamos embarcar numa mudança cultural que coloque a ciência no seu lugar devido, ao lado da música, arte e literatura como uma parte indispensável do que faz valer a pena viver.
É o direito de toda a criança, é uma necessidade para cada adulto, olhar para o mundo como o soldado no Iraque o fez e ver que as maravilhas do cosmos transcendem tudo o que nos divide».
Quando o cis-retinal é excitado por um fotão, isomeriza para a forma (all)trans. A proteína complexada com a forma trans do cromóforo é designada por batorodopsina. Esta forma trans do retinal não se encaixa bem na proteína de forma que adopta uma conformação torcida e, ao fim de uma série de passos muito rápidos, é «expulso» da proteína ( explicando a perda de cor descoberta por Boll).

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...