quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Porque o fazemos?


A Gradiva acaba de publicar "HOT. A Ciência debaixo dos lençóis" da italiana Alice Page. Transcrevemos o início do cap. 1 sem caixas de texto nem ilustrações:

Porque o fazemos?

"ESTOU COM SONO. AMANHÃ TENHO DE ACORDAR CEDO. DÓI‑ME A CABEÇA. CADA UM DE NÓS, QUANDO NÃO PODE OU NÃO QUER FAZÊ‑LO, TEM A SUA PRÓPRIA LISTA DE MOTIVOS RACIONAIS E FISIOLÓGICOS DA QUAL PESCA UM PARA PODER DIZER QUE NÃO. MAS SE, PELO CONTRÁRIO, VOS PARASSEM NO MEIO DA RUA E PERGUNTASSEM POR QUE RAZÃO NÓS, SERES HUMANOS, NA INTIMIDADE DOS NOSSOS QUARTOS, NA CAMA, NOS BANCOS DESCONJUNTADOS DE UM AUTOMÓVEL OU NO MEIO DE UMA PRAIA DESERTA, SOMOS ARREBATADOS PARA O SEXO E O FAZEMOS LOGO ALI, DARIAM SEM DÚVIDA UMA RESPOSTA BEM DIFERENTE DA QUE VAI AQUI ABAIXO. E, MUITO PROVAVELMENTE, MAIS SEXY. MAS PODERIAM DEMONSTRÁ‑LO CIENTIFICAMENTE?

 Porque os genes querem Agora que já terá pensado um pouco no assunto, talvez lhe tenha passado pela cabeça que, se elaborámos esta estratégia tão agradável para estarmos juntos, é para nos reproduzirmos e garantirmos a sobrevivência da espécie. E pronto, eis‑nos perante o caso mais clássico de incompreensão de toda a teoria da evolução. Sim, é um conceito errado — nenhum organismo se reproduz apenas para garantir a sobrevivência da espécie. Quem, por seu lado, se dedica ao estudo da evolução vai direito ao ponto: a razão pela qual, tal como a quase totalidade dos mamíferos — ou melhor, dos vertebrados —, o ser humano encontra o tempo e o desejo de copular é porque se trata do sistema mais eficiente para passar os próprios genes às gerações futuras, recombinando de forma particular as duas metades do património dos pais.

O contributo genético que homem e mulher disponibilizam para gerar a prole é repartida a 50 por cento entre os cromossomas de cada um, ou seja, 23 dos 46 cromossomas totais, encerrados, respectivamente, no núcleo do espermatozóide e  no óvulo — os chamados gâmetas. Somente pela reprodução sexuada os gâmetas entram em contacto uns com os outros e têm oportunidade de fundir os próprios núcleos numa célula completamente nova, chamada zigoto. Desta célula, por meio de um mecanismo de multiplicação — a mitose — irá desenvolver‑se um indivíduo independente, dotado de um conjunto de cromossomas completo e nunca idêntico ao pai e à mãe, como cada um de nós.

A montante desta cascata de eventos está a meiose, o processo de divisão que, «rasgando» ao meio o conjunto cromossómico de uma célula parental (diplóide), leva à formação dos gâmetas. Estes acabam por possuir um conjunto cromossómico reduzido a metade (são por isso chamados haplóides), mas em combinações sempre novas, abrindo caminho à variabilidade genética que está subjacente à selecção natural e à evolução. E quando eles se encontram, dando origem à fertilização, surge ainda outra combinação de cromossomas. Através desta alternância entre meiose e fusão de gâmetas, as anteriores combinações de genes desfazem‑se e dão lugar, no fluxo das gerações, a novas combinações, que se reflectem em características sempre diferentes de indivíduo para indivíduo e assim são «testadas».

Sexo, quanto me custas

Durante as férias na praia já lhe aconteceu seguramente ver, deitada numa pedra ou num fundo de areia, uma estrela‑do‑mar. Ou em cestas, nos lugares do mercado, as esponjas naturais, muito suaves, com os seus mil poros. Sabia que algumas destas estrelas são capazes de se regenerar completamente, nem que seja de apenas um braço? E que aquelas esponjas, em determinadas circunstâncias, se multiplicam a partir de pequenos rebentos que se libertam da sua superfície?

 Se o nosso olhar nos permitisse então observar de perto, como fazemos com o microscópio, as formas de vida mais pequenas, como as bactérias, perceberíamos que imensos organismos podem reproduzir‑se sem acasalamento. Entre estes, encontram‑se muitas plantas e alguns animais, como, por exemplo, a planária, um pequeno verme plano que, se cortado ao meio, pode regenerar‑se, dando origem a dois novos indivíduos distintos, sendo um o espelho do outro.

 É evidente que na Natureza não é estritamente necessário acasalar para produzir novos indivíduos da sua própria espécie e colonizar novos ambientes. Ainda por cima, fazendo um balanço meramente económico, a reprodução assexuada é muito menos dispendiosa do que a sexuada. Do ponto de vista do tempo, é claramente mais rápida, já que o processo de formação de gâmetas não é necessário. Quanto aos recursos, não requer o aparato complicado no qual assenta o caminho da fertilização, como, por exemplo, os machos, que de facto em algumas espécies nem sequer existem. Além disso, este tipo de reprodução pode ser considerado mais seguro: envolvendo processos mais simples a cargo do genoma, deveria ser menos susceptível a erros.

Mas se é tão dispendioso, e se há uma alternativa, por que razão segue a esmagadora maioria dos organismos a via sexuada? Trará na verdade benefícios tão importantes? Como referimos, a reprodução não sexual é um fenómeno conservador: gera filhos geneticamente idênticos aos pais. A reprodução sexuada, que determina a mistura ao acaso dos genomas dos dois pais, pelo contrário, introduz novas características, isto é, mudanças potenciais nas espécies. Isto significa que, se uma criatura assexuada tem genes bem adaptados a um ambiente preciso, os seus filhos (no mesmo ambiente) sobreviverão bem. Mas quando o ambiente muda, o que por norma acontece de forma imprevisível, os organismos sexuados, graças precisamente às novas características, terão maiores hipóteses de sobrevivência, ou seja, uma maior capacidade de adaptação a novas condições.

Em suma, a reprodução permite‑nos formar uma combinação ideal de genes, ainda que, é certo, ela seja inevitavelmente recombinada na geração seguinte. A vantagem particular da recombinação está, acima de tudo, na eliminação de mutações deletérias e na formação de novas e diferentes combinações que permitam resistir cada vez melhor à capacidade de os parasitas e doenças de evoluírem mais rapidamente do que seus hospedeiros.

Ainda que não exista por enquanto uma resposta universalmente aceite no campo do debate científico (e, na verdade, nem sequer saibamos exactamente quando ela surgiu entre os seres vivos), a hipótese de que a via sexual seja a mais difundida precisamente porque aumenta a variabilidade genética e, portanto, a velocidade de adaptação das populações permanece, em suma, do ponto de vista evolutivo, a mais creditada. Fazer sexo, na prática, não seria simplesmente uma maneira de nos reproduzirmos, mas antes a estratégia que desenvolvemos para abarbatarmos o bilhete de entrada no próximo estádio de evolução.

As 1001 formas do desejo

Mas ainda não respondemos ao porquê de gostarmos de fazer isto, ou seja, qual a razão por que o desejo sexual é gerado, ou melhor, qual a razão evolutiva pela qual o desejo sexual foi escolhido. Uma explicação comummente aceite é que este será o resultado da selecção em ambos os sexos para aumentar a confiança de paternidade nos machos da nossa espécie (isto é, a ideia de ser realmente o pai de uma putativa criança), e que isto aconteça graças a um contacto físico prolongado entre macho e fêmea ligado, fundamentalmente, à impossibilidade de o macho determinar o momento da ovulação, isto é, o momento certo da concepção.

Sobre o mecanismo que depois, em cada um de nós, gera desejo sexual, o discurso torna‑se (se possível) ainda mais complicado. Os mais desinibidos já o terão exclamado, muitos outros o confirmarão agora: seguramente que, na grande maioria dos casos, não é a intenção de procriar. Com todo o respeito pela recombinação dos genes. De outra forma não se explicaria a existência de contraceptivos, tal como de sexo fora da idade fértil. Ou de todas as práticas e posições (sim, mais tarde vamos descrevê‑las em pormenor) que em nada estão relacionadas com a concepção e que, no entanto, fazem parte integrante da esfera íntima.

 O facto é que, se é verdade que é necessário para a reprodução, o sexo é também uma componente fundamental de situações nas quais a reprodução é o último dos nossos pensamentos e em que o que se busca é exclusivamente o prazer em si mesmo.

Uma das hipóteses avançadas é que somos levados a fazê‑lo precisamente, e acima de tudo, porque gera prazer. Uma ideia que à primeira vista não pareceria descabida, mas que mesmo assim não é exaustiva: o sexo não é sempre, e automaticamente, agradável. E pensemos na masturbação: se é mesmo só o prazer que desejamos, não podemos alcançá‑lo também sozinhos? Seria até muito mais fácil. Porquê preocuparmo‑nos em encontrar um parceiro ou uma parceira?

Uma das teorias mais interessantes formuladas por cientistas para explicar a nossa necessidade é que, além da necessidade de resolver uma tensão física, o desejo de amalgamar o nosso corpo com o de outra pessoa faz parte de outro muito mais amplo: o de estabelecer vínculos e pôr em movimento dinâmicas interpessoais. E, com efeito, pensando bem, mesmo enquanto procuramos o prazer com a masturbação dificilmente fantasiamos com prados de flores ou céus azuis, mas antes, mais provavelmente, com o contacto com outra pessoa. Segundo alguns estudiosos, o que nos leva acima de tudo a fazer sexo será, em suma, a busca de uma ligação com os outros, e, portanto, um efeito do contexto e do espírito sociais próprios do ser humano.

Na tentativa de procurar respostas no terreno, uma intrépida dupla de investigadores da Universidade de Austin, no Texas, conduziu há alguns anos um inquérito numa grande amostra, constituída por estudantes da instituição e voluntários, perguntando‑lhes os motivos principais pelos quais faziam ou tinham feito sexo. A lista, depois publicada na revista Archives of Sexual Behavior, foi, no mínimo, interminável — um sinal de que, mesmo apenas entre os mecanismos psicológicos, as respostas são na verdade muito menos óbvias do que o esperado. Do generoso «queria satisfazer o meu parceiro», ao espiritual «Queria sentir‑me mais perto de Deus», passando pelo pérfido «Queria vingar‑me do meu parceiro por ele me ter mentido» até ao honesto «Estava bêbado», os cientistas recolheram neste estudo até 237 razões diferentes, num total de 444 inquiridos. Analisadas mais de perto, podem ser agrupadas de acordo com quatro tendências principais, cada uma com declinações internas:
·· Razões físicas, como a necessidade de reduzir o stress («É como fazer um bom exercício»), proporcionar prazer («É excitante »), experiência («Fiquei curioso») e atracção física pelo parceiro («A pessoa com quem o fiz dançava bem»).
 ·· Um objectivo preciso a alcançar, relativo ao plano prático («Queria ter um bebé»), estatuto social («Queria ser popular ») ou vingança («Queria passar uma doença venérea a alguém»).
·· Emoções como o amor, o estabelecer de um relacionamento («Queria sentir‑me ligado») e gratidão («Queria agradecer»).
 ·· Insegurança, ou seja, questões relacionadas com a auto‑estima («Queria ser objecto de atenções»), um sentido do dever ou pressões («A outra pessoa continuava a insistir»), o medo de ser abandonado («Queria impedir o meu parceiro de me deixar»).

 Quais as mais populares? Interrogando mais de 1500 candidatos para obter uma lista completa, foi possível elaborar uma verdadeira classificação das razões mais frequentes, divididas entre homens e mulheres. Pode consultá‑las abaixo. (...)"


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