FCT head resigns, amid Portuguese research community survival plea

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Exercício profissional e publicidade

Vale muito a pena ler um artigo do Público de hoje cujo título é Ser discreto, ser ético, assinado por Rosalvo Almeida, médido neurologista aposentado. Começa assim:
Andamos na rua. Fora de portas. Vemos cartazes nas paragens dos transportes públicos e não queremos acreditar. Médicos em fotografias grandes que fazem propaganda a um hospital (...) alguém está a esquecer que o Código Deontológico da Ordem dos Médicos, que a todos obriga, estabelece (no artigo 11.º) que "na divulgação da sua atividade o médico deve abster-se de propaganda e de autopromoção" e proíbe (no artigo 12.º), por ser "particularmente grave [,] a divulgação de informação suscetível de ser considerada como garantia de resultados ou que possa ser considerada publicidade enganosa".
Quem diz médicos, diz professores. Tenho percebido, com surpresa, a tendência crescente de pessoas apresentadas como professores aparecerem em anúncios de escolas privadas ou de editoras de livros escolares. associadas a promessas maravilhosas de aprendizagem. O mesmo acontece com crianças ou adolescentes que são apresentadas como alunos.

Se este tipo de publicidade funciona em termos sociais - e, certamente, funciona -, isso significa que os princípios deontológicos básicos de certas profissões não são conhecidos ou reconhecidos.

Alguma coisa as Ordens profissionais deveriam fazer nesta matéria que está bem à vista de todos.

O conhecimento não pertence à direira nem à esquerda

Num certo país europeu não distante do nosso, o ensino da cultura e das línguas clássicas, sobretudo do latim, tem-se mantido no centro do currículo. Essa situação vai mudar já a partir do próximo ano lectivo, em virtude da reforma educativa que passará a vigorar.

Grande contestação de académicos, professores, pessoas comuns. Isto nas mais diversas formas: cartas, artigos de jornal, debates, petições... Claro está que os partidos políticos, de direita e de esquerda, não podiam deixar de intervir: uns a favor de esse ensino continuar em primeiro plano; outros a favor de ele ser relegado para um plano secundário.

Em finais de Maio passado surgiu no Parlamento Europeu uma proposta de resolução bem escrita, invocando argumentos adequados. Mandaram-ma com entusiamo e recebi-a do mesmo modo: até que enfim uma questão relativa ao conhecimento fundamental, ao conhecimento que deve chegar a todos, ia ser debatida numa instituição que se tem mostrado mais preocupada com a preparação escolar que se ajuste ao mercado de trabalho!

Habituada à ideia de que, em política educativa, quando uma coisa se afigura boa há muitas probabilidades de ser, realmente, o contrário, procurei informação suplementar...

Lamentavelmente, mais uma vez, confirmei o meu "pré-conceito": a proposta de resolução era de um partido (o leitor já terá adivinhado) de extrema direita.

Que tristeza quando o conhecimento fundamental é defendido pelas direitas e é ignorado ou negado pelas esquerdas, e não apenas nem principalmente neste país mas um pouco por toda a Europa.

É que o conhecimento fundamental, com valor, que devemos preservar e ter a pretenção de ampliar não é das esquerdas nem das direitas é de todos.



FUTEBOL: "HÁ LIMITES PARA TUDO"

Do crítico literário Eugénio Lisboa, nosso muito prezado amigo, se transcreve mais um artigo recentemente publicado no “Jornal de Letras”:


“Pro football is like nuclear warfare.

There are no winners, only survivor”s.

Frank Gifford

“No Público de 8 do mês de Junho, o estimado colunista Rui Tavares, que leio sempre com interesse e apreço, publicou um interessante artigo intitulado “Monocultura”, acerca do mundo do futebol profissional, tal como existe em Portugal (e no resto do mundo, aliás). Subscrevo tudo quanto ali se diz, excepto a escusada canelada às “críticas pseudo-intelectualizadas ao futebol”, que me parece uma condescendência populista, mas talvez compreensível em ano eleitoral… Eu assumo-me, sem pudor, como um dos “pseudo-intelectuais” que tem lutado repetidamente contra o atentado ao verdadeiro “espírito do desporto”, que é todo o desporto profissional e o futebol profissional, em particular. Os gregos das Olimpíadas, da Antiguidade, devem estar a dar voltas ininterruptas, no túmulo, perante esta infâmia que diariamente se planta diante dos nossos olhos e ouvidos.

Mas o curioso no interessante e justiceiro artigo de Rui Tavares é ele, Rui Tavares, ter chegado, só agora  perante a cómica e sinistra opereta que foi a transferência de Jorge Jesus, do Benfica para o Sporting – à conclusão de que “há limites para tudo”. Meu caríssimo Rui Tavares, esses limites foram transgredidos, não agora, mas há muito tempo. Esta ópera bufa que agora tanto o enojou vem-se repetindo pelo mundo todo e também pelo Portugalinho, desde que o futebol se tornou um negócio mafioso e profundamente malcheiroso.

Como V., também eu gosto de ver um bom jogo de futebol e também o joguei, na minha adolescência, em Lourenço Marques. Rever o Eusébio, meu conterrâneo, a fulgurar, em Liverpool, ainda me causa arrepios de prazer e admiração. Mas nada disto tem que ver com a venda de jogadores e treinadores, por milhões de euros, como “produtos de luxo”, nem com “clubes”, cuja identidade, de tão diluída e conspurcada, muito difícil se torna definir – sem falar nas indescritíveis – e muito noticiadas em horário nobre  “alocuções”  dos inefáveis donos do futebol. Este nojo é antigo e ofende mortalmente o nobre jogo do futebol, que só pode ser não-profissional, para ser limpo e escorreito. Dizia Orwell que “o desporto à séria [isto é, encarado profissionalmente] nada tem que ver com o fair-play: está intimamente relacionado com o ódio, o ciúme, a gabarolice, o desprezo por todas as regras e o prazer sádico de ser espectador da violência – por outras palavras, é a guerra, menos o tiroteio.” Ou, se preferir, e utilizando a diatribe em epígrafe a esta crónica, “o futebol é como a guerra nuclear – não há vencedores, há apenas sobreviventes.”

Este futebol – o dos Brunos de Carvalho, dos Luises Filipes Vieiras, dos Pintos da Costa – tem suficientes bardos e tenores ao seu serviço, para dispensar a condescendência, mesmo marginal, de um Rui Tavares, que tem merecido e ganho o respeito de muitos de nós. O domínio dos meios de comunicação por esta infecção que é o delírio futebolístico, em dia de confronto “clássico” (clássico?!!!) é suficientemente vasto e nefasto para  nos confranger ver um intelectual rigoroso como Rui Tavares fazer-lhe nem que seja um tímido aceno, en passant. Os do futebol profissional não se cansam de apregoar – para que conste, como aviso – a excelsa e avassaladora importância desse sinistro "poder". O “football manager” Bill Shanky, por exemplo, foi ao ponto de dizer que “o futebol não é assunto de vida ou de morte – é muito mais importante do que isso.” Acredite quem puder.

O verdadeiro espírito do desporto, disse-o eu algures, sem vergonha nenhuma de me juntar à corte dos pseudo-intelectuais que Rui Tavares mordiscou, “não rima com este concerto grotesco de bravatas, de gritaria, de agressões públicas, de trafulhices com impostos, de dinheiros, dinheiros, dinheiros… O desporto é esforço desinteressado e elegante, é exemplo de autodomínio e beleza.”

O que se passou, recentemente, com a vitória do Benfica, em Guimarães, no que respeita tanto ao comportamento de alguns polícias, como ao de uma larga camada de povo, na Praça do Marquês de Pombal – é um descrédito para a civilização. Como contribuinte rigoroso, ressinto que os meus impostos sejam desbaratados com obscenos cordões de polícia a guardar os estádios e os lugares públicos de manifestação, onde hordas desconjuntadas de energúmenos nos causam vergonha de pertencermos à espécie humana. Para isto, meu caro Rui Tavares, não pode haver qualquer espécie de condescendência – nem da parte de intelectuais, nem da parte de pseudo-intelectuais. A esta cultura infame e alienadora, a esta hidra em expansão – há que se lhe cortar, sem hesitação, a cabeça. Isto não é futebol, é tumulto, é orgia, é arruaça, é anarquia, é tudo quanto uma democracia adulta não deve acolher.

O verdadeiro desporto é outra coisa e tem outras motivações. Perguntaram, um dia, a George Mallory por que é que tinha querido trepar o Monte Everest. Respondeu com formidável simplicidade definidora: “Porque ele estava ali.” Não para ganhar dinheiro, não para embaraçar quem, antes dele, não tinha conseguido, não por bravata: apenas porque havia um desafio que estava ali e talvez valesse a pena enfrentar. É isto o desporto, que nada tem que ver com as marcas de carro que o Ronaldo compra nem com as meninas com quem se deita. “O futebol, segundo me parecia”, observou ainda Orwell, “não é realmente jogado pelo prazer de chutar a bola de um lado para o outro, mas é antes uma espécie de combate.” Vai-se para esta guerra suja porque dá muito dinheiro. E, de caminho, infecta-se o espírito de toda uma juventude, formada à sombra destes “valores”.  

Quando se atiram petardos dentro dos estádios de futebol ou neles se agridem barbaramente os jogadores, está-se apenas a dar vazão  à pressão produzida por toda uma “cultura” que não preserva um único valor digno de ser preservado. Este futebol mafioso e doentio há-de desaguar sempre nos prélios nas ruas e nas praças e não há volta a dar-lhe, se não aparecer um governo corajoso e determinado a pôr fim a tudo isto, de uma vez por todas: basta ter a ousadia de definir e aplicar um conjunto de sanções que façam doer. Mas que façam doer mesmo.

O grande romancista britânico E. M. Forster, de que algumas belas obras foram transpostas para o cinema, observou isto, que eu assino por baixo: “É o desporto internacional que tem atirado o mundo pela ladeira abaixo. Iniciado por atletas tontos, que pensavam promover ‘compreensão’, e hoje sustentado pelo desejo de prestígio político e pelos interesses ligados à bilheteira. É absolutamente pernicioso.”

É com este futebol, Rui Tavares, que se não pode pactuar. Os Joseph Blatter não aparecem por acaso: são um corolário”.

Eugénio Lisboa

Para além de Blatter

Texto que nos foi enviado pelo leitor Fernando Tenreiro, economista do desporto, e que muito agradecemos.

A Europa está no seio do turbilhão criado pelos eventos desportivos e defronta-se com interesses emergentes e processos económicos insuficientemente conhecidos que agora pretende melhorar.

Durante mais de 100 anos a Europa criou e desenvolveu o produto e a imagem mítica dos eventos desportivos e o mundo primeiro participava nos eventos europeus e depois aspirou a fazer os seus. O poder da Europa mantém-se pelo ‘conhecimento das coisas’ que sempre teve e que continua a manter. Se há países com princípios éticos, outros usam-nos com benefícios duvidosos e outros ainda não receiam subvertê-los. Nem todos aceitam eventos desportivos a qualquer preço, a contestação de multidões cresceu no Brasil e Blatter é a emanação má que a Europa oferece no momento que quer transformar um dos produtos por si criado.

As características económicas dos eventos desportivos são complexas e a sua importância económica cresce mais do que proporcionalmente à medida que a população mundial desfruta de um maior bem-estar material e acede a níveis de literacia desportiva que exige o seu consumo crescente.
A essência competitiva dos eventos desportivos são um bem privado e, no limite superior dos produtos desportivos, tem características de bem de luxo como são os lugares cativos para os consumidores VIP. Na gestão do evento os seus produtos são diferenciados, a federação discrimina os preços e extrai em cada segmento de consumo o máximo de renda económica que os consumidores estão dispostos a pagar.

Os eventos desportivos oferecem oportunidades de rendas económicas de curto prazo no momento da competição. Na fase de pré-evento há um período de incubação e investimento relativamente longo e no pós-evento há benefícios positivos que se formam também no longo prazo. Estes períodos longos de investimento e geração de benefícios são um outro produto económico com maturações das rendas económicas diferenciadas e, por este motivo, os investimentos para além do evento desportivo são deixados para os Estados que suportam as federações nacionais. As externalidades positivas tornam-se maiores na medida em que o investimento do Estado for mais conhecedor e determinado visando o bem-estar social e suportando a resolução das componentes que os parceiros privados não pretenderão assumir. Este foi o lapso do Euro2004 que organizámos com distinção desportiva mas que fomos incapazes de estruturar e desenvolver bem toda a componente de longo prazo. É comum a crítica ao evento nacional, os estádios vazios e a falência das autarquias que assumiram maior risco do evento.

O que aconteceu a Portugal com o Euro2004 é o paradigma de muito que se devia evitar. Fizemos 10 estádios e quase chegámos ao extremo da Grécia onde o desperdício foi imenso nos Jogos Olímpicos de 2004 e ficámos longe da virtude da Suíça e da Áustria que dominaram com eficiência económica o investimento no Euro2008 construindo apenas 5 estádios com uma capacidade média de 30.000 lugares.

As maiores federações europeias, mundiais e o Comité Olímpico Internacional são proprietárias de eventos que são únicos e diferentes, rodando-os por países dos cinco continentes e gerindo a restrição da oferta a fim de maximizar as rendas recebidas de diferentes produtos como sugere existir nas grandes empresas o prémio Nobel da Economia de 2014, o francês Jean Tirole. As diferentes plataformas de venda de bilhetes, de patrocínios e publicidade, de transmissão televisiva e informática, e a gestão dos espaços permitem gerir interesses concorrentes para a maximização das rendas de monopólio que se tornam ainda maiores em condições de ausência de informação e de custos de transacção elevados que afectam os consumidores dos bens gerados pelo evento. As rendas económicas surgem pela criação de monopólios cujo único vendedor é a organização desportiva europeia, mundial ou olímpica. Os poderes públicos têm um papel importante porque são o garante dos investimentos de longo prazo que as organizações privadas não assumem incentivando as federações nacionais a pressionar os políticos e os governos nacionais a assumirem as obrigações de longo prazo do evento desportivo.

Falta aos poderes públicos nacionais terem um melhor conhecimento das suas possibilidades de investirem com sucesso e da mecânica do projecto para serem bem-sucedidos em ambiente de concorrência e transparência de procedimentos. Nomeadamente os poderes públicos deveriam assumir a existência de um cabaz de eventos desejáveis para o seu país e um conhecimento exacto do produto, do seu processo de produção, das suas relações nas distintas plataformas envolvidas. A Alemanha, Reino Unido, França, Suíça e Áustria, por exemplo, dominam bem todo o processo de produção dos eventos desportivos enquanto outros países não o conseguem. Os países bem-sucedidos possuem uma governação de longo prazo incluindo estudos e desenvolvimento sustentado do seu desporto, processos, esses, que não são de hoje e que melhoram à medida que a sua experiência se enriquece.
Blatter é um filho da Europa, mesmo que Platini tenha com ele conversas de amizade que nunca mais serão esquecidas pelo eterno presidente eleito. A UEFA teve desde a presidência de Lennard Johanssen uma actuação pioneira de estudo e governance que serve o futebol e a União Europeia. Com as eleições a UEFA dividiu-se e a FPF fez bem em estar ao lado das posições assumidas por Michel Platini e Luís Figo.

Fernando Tenreiro,
Linda-a-Velha, 4 de Junho de 2015

"CATEDRAIS DA TERRA"

Texto da autoria do professor Galopim de Carvalho, que o De Rerum Natura muito agradece.


Foi assim que Louise Young (1983) se referiu às grandes montanhas, comparando-as às magníficas expressões arquitectónicas da religiosidade humana . Disse a autora, doutorada em Geofísica pela Universidade de Chicago, em bom estilo literário: "Gradualmente, pico após pico, toda a cordilheira [os Himalaias] se embebia de luz, enquanto o Sol se espraiava e dourava as cúpulas e os pináculos desta catedral de terra".

Um dos problemas que, durante mais tempo, intrigou filósofos, naturalistas, geógrafos e, mais tarde, geólogos, foi, sem dúvida, a OROGÉNESE, maneira erudita de dizer "a formação das cadeias de montanhas".

Inicialmente, os trabalhos e reflexões destes últimos incidiram sobre as estruturas particulares de algumas delas, tomadas isoladamente, combinando-as com o estudo das respectivas rochas e dos fósseis nelas encontrados. Uma tal abordagem permitiu conhecer partes das suas histórias, sem que delas constassem as forças que as haviam elevado.

O árabe Avicena, no século X, afirmava que um tremor de terra elevava o solo, podendo criar uma montanha. Dois séculos mais tarde, o filósofo e teólogo alemão, Alberto, o Grande, admitia que o calor libertado pelo interior da Terra erguia o relevo, fazendo nascer as montanhas. No séc. XIII, o filósofo italiano Ristoro d’Arezzo ensinava que as estrelas, ao atraírem a Terra (como o íman atrai o ferro), as elevavam. No século XV, Leonardo da Vinci afirmava que os fósseis encontrados nas montanhas eram restos de seres vivos depositados no fundo do mar, no que foi corroborado, dois séculos depois, pelo dinamarquês Nicolau Steno. Estes dois ilustres mestres do saber deram corpo a uma ideia vinda da Antiguidade, concebida por Estrabão (63 a.C. - 24 d.C.). Para este geógrafo grego, a existência de conchas marinhas, nas camadas rochosas das montanhas, eram prova da formação destas a partir da elevação de materiais acumulados no mar, elevação que atribuía ao mesmo fogo central que alimentava os vulcões.

Parecia, pois, evidente, que as montanhas eram porções da crosta terrestre que se haviam elevado muito acima da superfície geral. Que forças colossais poderiam, então, ter edificado tão extensas e volumosas porções de crosta?

Uma outra interrogação, à época, era suscitada pela ocorrência de camadas de rochas, que sabiam ser rígidas, mas que se apresentavam intensamente dobradas, testemunhando uma plasticidade (ductilidade) que, aparentemente, não têm. Foram diversas as teorias que tentaram explicar as causas destes enrugamentos e das forças misteriosas a elas associadas.

No século XVII, o filósofo e matemático francês, René Descartes explicava a formação das montanhas como uma consequência do arrefecimento da Terra, uma ideia retomada pelo seu conterrâneo, o matemático e astrónomo, Pierre Simon Laplace, nos começos do século XIX e pelo, igualmente francês, Émile de Beaumont, a meados do mesmo século. Nesta hipótese admitia-se que, inicialmente formada por rochas em fusão, a Terra, ao arrefecer, teria formado uma crosta sólida. Na continuação do seu arrefecimento, o globo terrestre teria reduzido o seu volume e, portanto, também a sua superfície. Tal diminuição implicaria que, por exemplo, dois ou mais pontos da superfície se aproximassem entre si, criando as forças tangenciais de compressão necessárias ao enrugamento. Podemos ter uma imagem susceptível de visualizar esta concepção numa maçã, cuja pele engelha, devido à redução de volume, em resultado da secagem do fruto. Esta hipótese era ainda aceite pela generalidade dos geólogos de finais do século XIX, entre os quais o americano James Dwight Dana e o austríaco Edward. Swess, dois geólogos de grande prestígio no seu tempo.

Em resultado deste tipo de enrugamento por contracção tangencial da crosta estimava-se que, por exemplo, a largura actual da cadeia alpina, na Europa, correspondia apenas a um quqarto da largura total dos seus estratos, imaginando-os desdobrados. Tinha havido, portanto, uma contracção tangencial, de cerca de três quartos, um valor que apontava para um arrefecimento do planeta demasiadamente acentuado (cerca de 2400ºC), para ser admissível. Por outro lado, uma tal contracção exigiria uma redução de cerca de 2 km, no raio da Terra, o que, segundo os cálculos do geofísico americano de origem alemã, Beno Gutenberg, necessitaria de cerca de 200 milhões de anos, um valor incompatível com a modernidade, conhecida, desta cadeia de montanhas.

Em começos do século XX, a Teoria das Translações Continentais, do geógrafo e meteorologista alemão, Alfred Wegener, trouxe uma nova explicação para a génese das montanhas. Segundo esta teoria, que mobilizou a comunidade científica com apoiantes e opositores, os continentes ocupam actualmente uma posição diferente da que ocuparam no passado e acrescentava que, na sua deslocação, à superfície da Terra, iam empurrando e levando à sua frente os sedimentos depositados no mar, enrugando-os, edificando, assim, as montanhas. Por exemplo, a cordilheira dos Andes, que margina a oeste o continente sul-americano, parece coadunar-se a este modelo concebido para uma deriva de Este para Oeste, modelo que, também ele, acabou por ser abandonado.

Em 1939, David Griggs deu a conhecer a sua explicação da orogénese, assente, sobretudo, na ideia das correntes de convecção do manto, imaginada pelo geofísico inglês Osmond Fisher, no século XIX. Griggs admitia que, numa faixa de convergência deste tipo de correntes, se formava uma depressão alongada que se enchia de sedimentos, constituindo uma massa de materiais erodidos a partir das terras emersas e, portanto, menos densa do que o substrato oceânico em que se afundara. Terminada a convecção, esta massa tenderia a elevar-se para alcançar o inevitável equilíbrio isostático . Segundo ele, por um lado, a convecção criava a bacia de sedimentação e, por outro, a isóstase, ao elevar os sedimentos ali acumulados, gerava a correspondente cadeia montanhosa.

Nos anos 60 do século XX, a Teoria da Tectónica de Placas não só encontrou explicação para a deriva dos continentes, mas também para a orogénese, relacionando-a com as faixas de aproximação ou de colisão de duas placas. É o que se passa na cintura orogénica peripacífica, com relevância para os Andes e as Montanhas Rochosas, e na cintura mesogea a que pertencem os Alpes e os Himalaias. Estas cinturas constituem zonas instáveis, essencialmente formadas por crosta jovem, de idade mesocenozóica. Inicialmente horizontais, como é regra da sedimentação, as camadas desta crosta jovem encontram-se intensamente pregueadas pela compressão actuante nessas faixas.

São conhecidas várias cadeias orogénicas antigas, escalonadas no tempo e anteriores à formação da Pangea. Duas delas tiveram lugar ao longo dos trezentos milhões de anos de duração do Paleozóico e as restantes no decurso dos milhares de milhões de anos dos tempos pré-câmbricos. Das duas orogenias paleozóicas, a mais recente, referida entre os geólogos por hercínica ou varisca , teve lugar entre o Devónico e o Pérmico. As correspondentes cadeias tiveram extensão mundial, encontrando-se hoje fragmentadas e deslocadas, em consequência da deriva mesocenozóica (ainda actual). Na Europa, a cadeia hercínica estende-se pela Alemanha, França, sul de Inglaterra, de onde inflecte para a Península Ibérica e Marrocos. Um ramo desta cadeia está hoje do outro lado do Atlântico, fazendo parte dos Montes Apalaches. Todo o maciço antigo português, à semelhança do de Espanha, é formado por rochas sedimentares metamorfizadas e por rochas magmáticas, em especial, granitos, que integraram essa cadeia, cujo relevo já está muito reduzido pela acção erosiva do tempo que se lhe seguiu (cerca de 280 Ma). Testemunhos ainda imponentes da orogenia hercínica são, entre outros, os Montes Urais, na Rússia.

Mais antiga, a orogenia caledónica desenvolveu-se ao longo de cerca de cem milhões de anos, entre o final do Câmbrico e o Devónico. Na Europa está representada na Escandinávia, na Escócia e na Irlanda, territórios que são parte de uma cadeia mais longa que se continua na América do Norte, constituindo a outra parte dos Montes Apalaches. De extensão igualmente global, a orogenia caledónica é testemunhada por cadeias montanhosas já muito degradadas pela erosão, na Ásia, na Austrália, na América do Sul e na Antárctica. Ainda mais antigas, as cadeias orogénicas do Pré-câmbrico encontram-se totalmente arrasadas pela erosão, constituindo os escudos e o substrato das plataformas.

São as cadeias antigas, anteriores à actual deriva, isto é, as paleozóicas e as pré-câmbricas, total ou parcialmente esventradas e, de há muito, estabilizadas (cratonizadas), que possibilitaram a exposição, à superfície, de rochas geradas em profundidade, no decurso dos respectivos processos orogénicos. Foram estas antigas montanhas que permitiram aos geólogos compreender a transformação das rochas sedimentares em metamórficas, a deformação plástica (dúctil) de rochas que se comportam, à superfície, como materiais rígidos e quebradiços e, ainda, o magmatismo profundo (plutonismo) e a correspondente formação dos granitos. Uma tal exposição à superfície dificilmente acontece nas montanhas alpinas, ainda demasiado jovens para revelarem o que ainda guardam nas suas entranhas .

A uma cadeia de montanhas correspondeu, anteriormente a ela e durante muitos milhões de anos (250, em média), um oceano funcionando como bacia de sedimentação, complexa e alongada, na ordem dos milhares de quilómetros, que se encheu de sedimentos, oriundos das terras emersas adjacentes, cujas espessuras ultrapassam, frequentemente os 10 km. Estas bacias foram muito mais largas do que a cadeia a que deram origem por compressão lateral e o correspondente enrugamento.

A fase orogénica, que se segue à fase de afundamento e acumulação sedimentar, é relativamente mais curta, não ultrapassando, em média, os 50 milhões de anos. Os sedimentos depositados nestas bacias têm fácies marinhas. Porém, nos casos em que o mar não invadiu as terras emersas, os sedimentos revelam fácies continental.

O Mediterrâneo é exemplo de uma bacia de oceano residual entre dois continentes que se aproximam, a África e a Eurásia. O fecho desta bacia continua a elevar os Alpes e conduzirá a um orógeno de colisão continental como são os Himalaias.
A. Galopim de Carvalho

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ciência em Portugal: ASCENSÃO E QUEDA

Meu artigo no número mais recente do Boletim de Ensino Superior da FENROF:

O nosso sistema de ciência e tecnologia desenvolveu-se extraordinariamente nas décadas de 1990 e 2000. O Ministério da Educação e Ciência (MEC) foi criado em 1995 por António Guterres, tendo José Mariano Gago como titular. Em 2005, Mariano Gago voltou, tendo o Ministério passado a ser da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Em 2011, no governo de Pedro Passos Coelho, Nuno Crato assumiu a pasta de Educação e Ciência: passados quatro anos, é hoje consensual que tanto a ciência como o ensino superior estão piores. É justo sublinhar o papel que Gago desempenhou no desenvolvimento da ciência nacional. Convicto de que a ciência era uma mola para o desenvolvimento, ele colocou a ciência na agenda política. E, de facto, nessa área, o país conheceu enorme transformação. O braço armado do ministério foi a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), fundada em 1996. No mesmo ano nasceu a Agência Ciência Viva para a Cultura Científica e Tecnológica, por Gago considerar a cultura científico-tecnológica essencial para o florescimento da ciência. Contrariando a política anterior, Crato é o responsável por um óbvio retrocesso quer na ciência quer na cultura científica.

Para verificar como o sistema de ciência cresceu, basta consultar a PORDATA, base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O investimento em investigação e desenvolvimento subiu de 0,4% para 1,5% do PIB desde 1986, ano da entrada de Portugal na União Europeia (UE), para 1,5% em 2011. Dois bons indicadores dos resultados desse investimento são o número anual de novos doutorados formados e o número de novas publicações científicas. Em 1996 obtiveram o diploma de doutor 216 pessoas, mas em 2011 já foram 1845. O número de publicações científicas em revistas indexadas, que era de 664, passou para 15233 em 2011. Se o investimento subiu quase quatro vezes, o número de novos doutores subiu nove vezes e o número de publicações subiu 23 vezes. Poucas coisas subiram tanto em Portugal em tão pouco tempo! 

Em 2011 parou o crescimento no investimento. A percentagem do PIB investida em ciência, depois de ter atingido o cume em 2009 com 1,6%, tem descido nos últimos anos, com a agravante de o PIB português estar comparável ao que era no final do século passado. O impulso vindo de trás fará crescer no imediato tanto o número de pessoas formadas ao mais alto nível como o número de artigos científicos, mas receia-se que, a médio prazo, à enorme ascensão do passado recente se siga uma queda nos resultados. O número de doutorados continua a crescer em bom ritmo, graças ao esforço dos próprios e das famílias, mas o crescimento do número de artigos já abrandou significativamente.

 Por que razão é preciso continuar o crescimento do sistema científico nacional? Pela simples razão de que, apesar de termos dado um grande salto no ranking europeu, ainda não estamos perto da média da União Europeia (EU). Vejamos, do lado do input: em média, a UE investiu, em 2012, 2,1% do PIB em ciência e tecnologia, falando-se de uma meta de 3%. E, do lado do output, o número médio de doutoramentos na UE foi, em 2011 de 23 por cem mil habitantes, ao passo que em Portugal foi de apenas 15 por cem mil habitantes. Por sua vez, o número de artigos por cem mil habitantes na UE é hoje de mais de 250 por cem mil habitantes, bem acima do nosso valor. 

O que se passou nos últimos quatro anos? Para Crato a ciência não foi uma prioridade política. Mandou fazer cortes e mais cortes, esquecendo que a ciência representava o meio por excelência de ganhar o futuro. Mas foi bastante pior do que o desinvestimento no sistema científico. Os recursos disponíveis deviam ter sido atribuídos de uma maneira aberta e racional. Mas, com uma tenebrosa gestão na FCT, passaram a ser atribuídos de um modo secreto e irracional, completamente ao revés do espírito científico. Em vez de uma política participada, houve um exercício autocrático de poder. Em vez de uma política inteligente houve uma lassidão mental. 

Um exemplo do descalabro 

A pseudo-avaliação das unidades científicas foi um dos exemplos mais evidentes do descalabro. A FCT, com o apoio do ministro, encomendou à European Science Foundation (ESF) uma avaliação das unidades científicas nacionais que, soube-se depois, continha uma cláusula escondida: Metade das unidades devia ser excluída logo na 1.ª fase do processo. Quando houve a percepção de que os resultados catastróficos dessa “avaliação” provinham dessa regra nunca anunciada e nunca justificada, a FCT tentou iludir a realidade, mentindo a esse respeito. Não se tratou apenas da eliminação sumária de metade das unidades. Acontece que a metade escolhida não era formada pelos melhores centros em várias áreas (bastava consultar a produção científica). Acontece que os peritos da ESF eram em número insuficiente e, em muitos casos, pouco qualificados. Não existiu, em muitos casos, uma avaliação por especialistas. Muitos pareceres não faziam qualquer sentido. Tal resultou em parte do facto de, na 1.ª fase, as unidades nem sequer terem sido visitadas, como manda a lei. O Conselho de Reitores (CRUP), reconhecendo a validade de muitas reclamações, afirmou que o processo era um “falhanço pleno”. 

Na 2.ª fase, a arbitrariedade continuou, com atropelo das regras estabelecidas pela FCT e visitas feitas, nalguns casos, por não especialistas. Em suma, a “avaliação” da ESF não teve nunca a necessária qualidade. Em verdade se diga que os financiamentos também não seguiram a avaliação, tendo sido feitos para os centros apurados na 2.ª fase com base nos pedidos que eles tinham efectuado. Não admira que os protestos tenham de novo chovido. Das 178 unidades da 2.ª fase (eram 322 à partida) 123 protestaram. Tal como na 1.ª fase, a reclamações da 2.ª fase permaneceram sem resposta atempada e adequada. Só para dar um exemplo do despautério governamental: numa altura de austeridade do orçamento de Estado, a FCT decidiu atribuir chorudos financiamentos públicos a fundações privadas. Lá fora, as fundações privadas ajudam o Estado, em Portugal é o Estado que ajuda as fundações privadas. 

A “avaliação” da FCT 

Em 7 de Abril, demitiu-se o presidente da FCT, confrontado não só com os continuados protestos perante o desconchavo, mas também com a sua ocupação do cargo a tempo parcial. A manifesta falta de qualidade da gestão da FCT poderia ter a ver com a falta de tempo do seu presidente, que continuava professor no Imperial College de Londres. Foi então nomeada uma presidente interina, que ainda não reconheceu os erros que prejudicaram gravemente o sistema científico. A “avaliação” da FCT caucionada por Crato lançou o descrédito sobre a FCT e o Ministério, não podendo ser reparada com remendos. Não há, de facto, nenhuma maneira de endireitar a sombra de uma vara torta. Resumindo: é preciso agora restaurar a confiança na FCT, como pilar do sistema científico. É preciso que a nova presidente trabalhe a tempo inteiro para reparar os estragos enormes já feitos. Por outro lado, é preciso restaurar a credibilidade do Ministério da Educação e Ciência. Nuno Crato, ao manter durante demasiado tempo o ex-presidente da FCT, viu a sua reputação manchada. De início, os cientistas acreditavam no ministro, hoje quase ninguém acredita. Sentem que é um político como os outros, um entre tantos outros que não realizam as expectativas que criam. Neste momento é claro para a maioria dos investigadores que não existe, como já existiu no passado, um representante da ciência à mesa do Conselho de Ministros.

Estimular a emigração de jovens…

A mesma FCT não errou apenas ao tentar eliminar metade das unidades de investigação Errou também ao efectuar colossais cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. O crescimento da ciência foi feito com base no crescimento dos bolseiros e, com a política de recuo nessa área, a produtividade científica vai ser afectada. A FCT e o ministro podiam ter pedido desculpa, reconhecendo a falha. Mas não, ao defender o indefensável, o que fizeram na prática foi estimular a emigração de jovens altamente qualificados. 

Ao mais alto nível – foi o próprio primeiro-ministro a fazê-lo – o governo lançou um anátema sobre os cientistas, dizendo que o investimento feito na ciência não tinha dado frutos. Está profundamente equivocado e o ministro da Educação e Ciência podia ter esclarecido o primeiro-ministro. A ciência em Portugal tem dado frutos e vai continuar a dar. Existe, é certo, um problema de emprego científico nas empresas, mas essa questão não foi ajudada pela “avaliação”, que não valorizou a contribuição que muitas unidades têm dado nessa área, designadamente unidades ligadas a politécnicos. A preocupação mais visível do governo consistiu em favorecer um sector, a biomedicina, no qual de facto não são patentes resultados na indústria. Mas nessa como noutras áreas há que esperar, pois a aposta na ciência é muito recente em Portugal.

Por último: a ciência só poderá ser sustentada se a sociedade tiver consciência da relevância da actividade dos cientistas, isto é, se houver suficiente cultura científica. As sociedades modernas baseiam-se na ciência, embora nem sempre haja percepção pública dessa íntima ligação. Há que continuar os esforços feitos até agora em favor da cultura científica. A ciência pode parecer cara, mas a ignorância é-o muito mais.

Conferência sobre o Futuro da Fundação Francisco Manuel dos Santos na Casa da Música

Texto recebido há já alguns dias de Augusto Kuettner Magalhães:

Finalmente a Fundação Francisco Manuel dos Santos organizou - e muito bem - a sua Conferência anual, fora de Lisboa. Foi no Porto e na Casa da Música.  
Pontualmente às 9h00 do dia 12 de Junho começou a Conferência O Futuro Chegou Cedo Demais? – Admirável Mundo Novo. José Alberto Carvalho referiu a evolução tecnológica que tem ocorrido desde sempre. O ser humano está sempre entre o zero e infinito.
1) Nuno Garoupa fez as apresentações da Conferência, pela primeira vez fora de Lisboa. Pedro Magalhães explicou o tema: “ Vamos hoje prever o futuro, e se calhar vamos falhar”; “ O esforço de prever o futuro, pelos exemplos anteriores, não é fácil”; “ Mas prever o futuro é útil  hoje para tomarmos as decisões certas”.
2) Manuela Veloso – Mais uma portuguesa nos EUA , leader mundial na sua especialidade,  na Carnegie Mellon University. Criadora dos CoBots, robôs colaborativos e autónomos que interagem com humanos. Ela falou enquanto mostrava vídeos sobre:
 - Autonomia humana nos robôs.
- Robôs dentro de um edifício sabem localizar-se. Os robôs terão sempre mais limitações que os humanos e precisarão de ajuda destes. O robô, quando não sabe automaticamente, liga-se à internet para pedir informações. E como não tem braços – no caso em questão – pede a humanos que o ajudem.
- Coexistência entre robôs e humanos.
3) David Brin e Evgeny Morozov: Moderador: Gonçalo Almeida Ribeiro
David Brin – Há muito a fazer quanto ao lixo que produzimos,  ao clima que estamos a modificar,  e às revoluções que estão a acontecer em vários locais. Há câmaras que nos filmam por todo o lado, controladas sempre por alguém. Sempre que houve algum progresso, previu-se que o ser humano o poderia aproveitar e controlar.  Aconteceu com livros, rádio, televisão.  Porém hoje tudo parece ser excessivo. Só a total transparência nos pode ajudar a aguentar a actual “onda”.
Evgeny Morozov   Como viver numa sociedade digital? As tecnologias mais avançadas são controladas por empresas privadas americanas. Estas plataformas são-nos úteis, mas não sabemos analisar bem os seus conteúdos. Muitas empresas vivem de publicidade, facultando-lhes nós informação ao navegar nas suas plataformas. Quando não estamos dentro puxam-nos para dentro. Como criar um mundo, com todas estas tecnologias, mas que também beneficia as pessoas? Temos que desenhar processos tecnológicos que não sejam controlados por empresas ou Estados. Não podemos estar dependentes das empresas tecnológicas americanas. A Europa tem que se tornar mais presente neste panorama.
4) Ellen Jorgensen e Pedro Lima; Moderador: Diogo Queiroz Andrade
Ellen Jorgensen - A engenharia genérica está por todo o lado. Há laboratórios em todo o lado nos EUA e na Europa e espera-se que tenham o necessário controlo. Os estudantes já no ensino mais elementar começam a aprender genética. Pode-se “mexer” no ambiente desde que isso não prejudique ninguém.
Pedro Lima  Vivemos no admirável mundo dos robôs. Alguns robôs industriais são inspirados pela Biologia.  Os robôs sociais conseguem entrar em interacção com pessoas. O fito tem sido tentar fazer robôs mais humanos, pelo que há necessidade de trabalhar entre a Ciências Sociais e a Robótica. Os robôs em hospitais podem servir para  animar crianças doentes.
O almoço foi num espaço reservado para o efeito na Garagem da Casa da Musica. O almoço estava incluído no valor não exagerado pago para assistir à Conferência. No fim do almoço encontrei-me, por mero acaso, com o Carlos Fiolhais, que conhecia do online por ler os seus textos no Público e por contribuir por vezes para o seu blogue Rerum Natura. E assinou-me com uma dedicatória o seu ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos organizadora desta Conferencia, A Ciência Em Portugal. Ao tomarmos um café na Casa da Música, passámos de amigos virtuais a amigos reais, algo que me tem vindo a acontecer.
 A Introdução à tarde foi novamente de José Alberto de Carvalho, sobre a percepção da tecnologia que nos rodeia e  o modo como ela  está a mudar as nossas vidas.

5) Tyler Cowen; Comentador: Filipe Santos; Comentador: José Carlos Caldeira; Moderador: Pedro Magalhães.
Tyler Cowen - O mundo do trabalho vai mudar e muito. Mas a produtividade não tem aumentado à mesma velocidade. Pode trabalhar-se contra a tecnologia? Claro que quem for contra, vai perder! Por exemplo, a Uber, que virá mais cedo ou mais tarde a substituir os actuais táxis. O Uber está a avançar na China e vai progredir em todo o lado,  goste-se ou não.
Todos os sectores estão a ser influenciados pelas tecnologias. Marketing e persuasão serão ainda mais relevantes no futuro. Como cativar a atenção das pessoas?
A auto-aprendizagem revelar-se-á muito proveitosa no tempo próximo.
Filipe Santos – Cada pessoa tem de trabalhar o seu talento e se, se for muito bom no que faz, pode conseguir ganhar muito. Para isso importa descobrir cedo o talento de cada um, em criança, e praticar-se esse talento. É necessário comunicar aquilo que se faz, para valorizar o talento individual.
Há outras formas de fazer andar a economia, que hoje estão a prejudicar a economia institucionalizada,  mas que virão a entrar no sistema. Por exemplo, se estou fora posso arrendar o meu quarto, e não é ocupado um quarto de hotel. Contudo, com o tempo tudo entrará no sistema. E a economia como um todo voltará a crescer.
José Carlos Caldeira – Deu o exemplo da fotografia. Começou por profissionais mas foi passando para as pessoas de posse de máquinas pessoais, e cada um passou a ser o seu próprio fotógrafo. Com a digitalização, a fotografia ainda mais se modificou. Com as impressoras individuais, imprime-se agora em casa. Com a “cloud” já nem se imprimem as fotografias.
Estamos a assistir ao aparecimento de pequenas “produções” nos centros das cidades, que ficam mais próximas dos locais de consumo e do consumidor.
A impressão 3D está em grande desenvolvimento, juntando o consumidor ao produtor.

6) Andrew Chadwick, Francesca Bria, Mário Campolargo; Moderador: Ana Neves
Andrew Chadwick - Alguns no mundo digital defendem que os antigos média deixarão de existir e que o online vencerá. Porém, nada será assim tão linear… Os antigos média aproximar-se-ão dos actuais. São já hoje interdependentes. As notícias nas televisões nomeadamente nas eleições, são comentadas no online, no momento. O público e os jornalistas, hoje, interagem ao momento, face a notícias actuais. Haverá readaptações, de todos.
Francesca Bria – As tecnologias possibilitam novas formas de fazer política no século XXI. Os jovens perderam a confiança na política e nos políticos, que confundem com corrupção. A crise veio ajudar a sedimentar esta ideia. O “Podemos" em Espanha apareceu no digital, mas depois surgiu também no mundo real como um partido político.
Em Itália há paralelismo no real e no online. Na Islândia conseguiu-se rever a Constituição, com muitas opiniões vinda do online, mas nem todas foram aceites pelos membros eleitos do Parlamento. Algo de novo está a acontecer e a fortalecer-se. E espera-se que a tecnologia consiga colaborar com a democracia.
Mário Campolargo - Estávamos habituados a viver num mundo offline e vamos passar a viver mais online.  Estaremos permanentemente online.
Pelas 17h30 dei por terminada a minha assistência a esta interessante Conferência, ficando um orador e a síntese de fora. Estão de parabéns, todos os que organizaram esta Conferência muito bem conseguida, muito pontual – algo tão raro aqui e agora.

Espero o próximo encontro em Braga.

Augusto Küttner de Magalhães
14 de Junho de 2015

LIVROS PARA FÉRIAS

Informação recebida da Gradiva:

De 1 a 10 de Julho, por cada compra na loja online da Gradiva, receba grátis 1 livro de 5 títulos disponíveis. Vá de férias com grandes livros!

Contacte-nos através do endereço de email encomendas@gradiva.mail.pt, refira o seu n.º de encomenda e indique qual o título que pretende receber pela sua compra através do site da Gradiva.

Inauguração de Biblioteca de Física e Química

“A sessão de inauguração da Biblioteca conjunta da Física & Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia  da Universidade de Coimbra (FCTUC)  terá lugar no dia 7 de julho às 17h30, na sala de leitura da Biblioteca, no Departamento de Química, num evento aberto a toda a comunidade académica.

Incluirá uma intervenção do Diretor da FCTUC, Prof. Luís Neves e duas comunicações:

- Prof. Carlos Fiolhais, "A luz: fenómeno e metáfora";
- Prof. Luís Arnaut, "Luz, Lasers e Ligações – o que nos liga na descoberta"

"Médicos Judeus portugueses ao tempo da expansão

Informação recebida dos organizadores:

Conferencia :
Professor Doutor Germano de Sousa
"Médicos Judeus portugueses ao tempo da expansão"

2 de Julho pelas 18.30
Aud. Armando Guebuza na Un. Lusófona, Campo Grande, Lisboa

Entrada Livre

Organização:
- Associação de Amizade Portugal-Israel
- Área de Ciência das Religiões da Un. Lusófona
- Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Univ. de Lisboa

Novo número da revista Atlantis

A "Atlantís - review" acaba de publicar o seu último número. Convidamos a
navegar no sumário da revista para aceder à informação facultada.

Atlantís - review
v. 4 (2015)
Sumário
http://impactum-journals.uc.pt/index.php/atlantis/issue/view/128

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[Recensão a] SANTOS (2012) PLATÃO: A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMETO. SÃO PAULO,
PAULUS
 Rodrigo Araújo

[Recensão a] ZHMUD, L. Pythagoras and the Early Pythagoreans. Oxford:
Oxford University Press, 2012. Pp. xxiv, 491, Archai, n. 13, jul - dez, p.
157-160
 Richard McKirahan

[Recensão a] Araújo, Luís Manuel, Erotismo e Sexualidade no antigo Egito,
Lisboa: Edições Colibri, 2012, 614 pp., ISBN 978-989-689-270-8
 Rogério Sousa

[Recensão a] Schettino, Maria Teresa & Pittia, Sylvie, Les sons du pouvoir
dans les mondes anciens (Besançon, Presses Universitaires de Franche
­Conté, 2012). 478 p.
 Delfim F. Leão

[Recensão a] Silva, Carlos Guardado, coord., XV Encontro Turres Veteras:
Judiarias, Judeus e Judaísmo, Lisboa/Torres Vedras, Edições Colibri/Câmara
Municipal de Torres Vedras/Instituto de Estudos Regionais e do
Municipalismo ³Alexandre Herculano², 2013
 Maria Fernandes

[Recensão a] FERREIRA, ELIANE FERNANDA CUNHA. PARA TRADUZIR O SÉCULO XIX:
MACHADO DE ASSIS. SÃO PAULO: ANNABLUME, 2004
 Fernanda Maria Alves Lourenço

[Recensão a] CRAIG A. WILLIAMS, Reading Roman Friendship, Cambridge:
Cambridge University Press, 2012, 378 pp. ISBN 978-1-107-00365-1
 Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] LIN FOXHALL, Studying Gender in Classical Antiquity,
Cambridge: Cambridge University Press, 2013, 188 pp. ISBN 978-0-521-55739-9
 Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] SHARON L. JAMES AND SHEILA DILLON, eds., A Companion to Women
in the Ancient World. Blackwell Companions to the Ancient World, Oxford:
Blackwell Publishing Ltd., 2012, 616 pp. ISBN 978-1-4051-9284-2
 Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] BERYL RAWSON, ed., A Companion to Families in the Greek and
Roman Worlds. Blackwell Companions to the Ancient World, Oxford: Blackwell
Publishing Ltd., 2011, 643 pp. ISBN 978-1-4051-8767-1
 Nuno Simões Rodrigues

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Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis


Minha entrevista à Revista de Ciência Elementar

Publicada no último número da Revista de Ciência Elementar, editada pela Casa das Ciências, realizada por Manuel Silva Pinto.


Quem é David Marçal? Se, ao cruzar-se com alguém que o não conhecesse, tivesse a súbita necessidade de lhe dizer quem é, o que diria?
Que é um comunicador e um defensor da ciência, que sabe que a ciência tem falhas porque é feita por pessoas, mas que por assentar em princípios robustos, como a transparência e a reprodutibilidade de resultados, permite obter conhecimento fiável de modo consistente. À medida que foi sabendo mais sobre a ciência, descobriu que tinha motivação para procurar envolver outras pessoas nesse entusiasmo.

Sabe que hoje é conhecido sobretudo pelo que tem feito na área da divulgação da Ciência, usando a sua faceta humorística. Porquê o Humor e a Ciência? Surgiu do conhecimento da realidade e da História da Ciência, ou foi resultado de uma reflexão sobre a necessidade de “humanizar” a Ciência no sentido comum do termo? Ou não tem nada a ver com isto?
São duas coisas de que gosto, fundamentalmente diferentes, embora talvez tenham em comum a procura de novas perspectivas da realidade. Tem a ver com meu percurso. Durante o doutoramento era também colaborador do Inimigo Público, a dada altura as duas coisas convergiram e comecei a escrever piadas sobre ciência. Mais tarde isso levou aos Cientistas de Pé e a outras coisas. O humor é uma excelente ferramenta de comunicação, muitos dos bons comunicadores usam o humor.

E a escrita? Nomeadamente a escrita nos jornais e, já agora, a escrita um pouco corrosiva, porque satírica, do inimigo público. É fácil encontrar temas e ideias? É um desafio permanente ou acontece apenas quando o tema incita à escrita? De outro modo, procura a escrita ou espera por ela?
As duas coisas acontecem. Quanto temos um compromisso de escrever regularmente para um fim específico, como no caso do Inimigo Público, é inevitável procurar temas e abordagens. Por vezes também há coisas que despertam uma urgência de intervir no debate público, é o que acontece quando envio espontaneamente uma crónica para um jornal, por exemplo.

De um modo geral a maioria das pessoas, mesmo as que possuem uma razoável formação científica, associam os químicos, os físicos, biólogos, etc. a seres humanos sisudos, embrenhados no seu pensamento e nas suas conjecturas, nomeadamente os investigadores. Como dizer de forma consistente a todos os que nos rodeiam que a Ciência pode ser divertida, podemos rir, e muito, com ela e mesmo divertirmo-nos com os cientistas e os seus laboratórios?
A forma de contrariar isso é através da intervenção no espaço público, para que as pessoas saibam quem são os cientistas de carne e osso e que a sua única referência não sejam os personagens loucos da ficção. Não haverá uma fórmula universal para promover a cultura científica, mas um conjunto de abordagens, em que escola tem  um papel fundamental, mas que abarca também os centros e museus de ciência, jornalistas de ciência, eventos e obras de divulgação científica, etc. É uma questão complexa, tanto, que o modo como se pode promover a cultura científica é, em si mesmo, um tema de investigação.

Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciências, é hoje uma obra de referência que escreveu com Carlos Fiolhais e que leva ao leitor comum, e também aquele que se interessa pela Ciência uma visão muito interessante dos “acidentes” das curiosidades e dos “devaneios” que muitas vezes se faz à volta dela. Que ecos têm do que escreveu e como é que gente da Ciência e gente que não o é apreciou esse trabalho.
As reacções são muito positivas, o livro já vai na oitava edição. É um livro de histórias, com algum humor, que aproveita as histórias para abordar alguns conceitos científicos. Mesmo pessoas ligadas à ciência encontram facilmente nele histórias que não conheciam. 

A sua ligação ao Teatro, nomeadamente à 'stand-up comedy', permite-lhe ter uma visão do que é que o público mais aprecia em termos de conteúdo e forma do que é a Ciência a rir. Pode dar-nos um pouco o retrato da sensibilidade do espectador padrão no que respeita a uma visão critica, por vezes caustica mesmo, do que é a evolução do conhecimento?
Quando duas pessoas se riem de uma mesma coisa é porque têm algo em comum. Nós rimo-nos mais quando estamos acompanhados do que quando estamos sozinhos, e ainda mais quando estamos com amigos do que com desconhecidos. Num espectáculo ao vivo procuramos o riso como experiência social. Assim, temos que encontrar referências comuns, algo que nós e a maioria do público possa reconhecer como familiar, e que possamos partilhar. Nos Cientistas de Pé procuramos cruzar temas de ciência com coisas que não precisamos de explicar o que são, porque fazem parte da cultura popular e da nossa identidade comum. Por exemplo, se eu disser que se as proteínas fossem mono-volumes, então o ribossoma seria a Autoeuropa, eu não tenho que explicar o que é um mono-volume ou a Autoeuropa. Se tivesse, estaria a usar referências que não resultam para esse público. Esta piada não poderia ser feita assim na Austrália. Teria que fazer referência a uma grande fábrica de qualquer coisa, que fosse conhecida, para comparar com a fábrica de proteínas da células.

Hoje, David Marçal é, para além de um cientista,sobretudo um divulgador de Ciência, através das formas que podem trazer ao destinatário um modo mais interessante e sobretudo alguma componente lúdica. Qual o papel do cientista neste caminho da divulgação. O “fazedor” de informação? Ou o instrumento dessa mesma divulgação? E, Já agora, qual a eficácia dessa divulgação em forma de espectáculo? Fica algo ou, isso acontece apenas quando o público é seleccionado?
Um dos papéis do cientistas é sempre de comunicar a ciência. Pode fazê-lo através de artigos e conferências para especialistas, mas também é necessário comunicar ciência para outros públicos, como decisores políticos, empresários, jornalistas, etc. Disso depende o papel da ciência no mundo. Os cientistas não são os únicos agentes com responsabilidade na promoção da ciência. Mas a sua participação, como classe, é importante, afinal são os protagonistas da ciência. Quanto aos Cientistas de Pé, os estudos de público que fizemos indicam que a quase totalidade das pessoas se declara satisfeita ou muito satisfeita com o espectáculo e que este melhora a imagem dos cientistas. Cerca de 70% consideram ter ficado a saber mais sobre os temas abordados. É verdade que o público que vai a eventos de divulgação científica tem tendêncialmente qualificações bastante elevadas, com uma grande percentagem de pessoas com ensino superior. Mas também já actuámos noutros contextos, não identificados com a ciência, como centros comerciais, bares e festivais de humor. A resistência do público nesses casos é um bocadinho maior, começa desconfiado e demora mais a começar a rir-se. Mas acaba por resultar e o balanço desses espectáculos  costuma ser muito positivo.

Sendo frequente a sua ida, com os espectáculos obviamente, a escolas e instituições de formação, diga-me como é recebido e, sobretudo, o que fica no fim? As pessoas interessam-se pelo conteúdo das peças? Ou são mais dedicadas à forma como vêem o que lhes é oferecido?
Os espectáculos que apresentamos nas escolas não são dos Cientistas de Pé, mas outros, interpretados por actores profissionais, no formato de falsa conferência humorística. Na maior parte das vezes, após o espectáculo, que dura cerca de 20 a 30 minutos, há uma conversa entre um especialista no tema e os alunos. Depende um pouco  do contexto, da idade dos alunos e do tema, mas em geral os alunos fazem perguntas, interessam-se bastante. O espectáculo funciona como um estímulo para a sua participação. Os Cientistas de Pé também resultam muito bem com público escolar, mas infelizmente essas apresentações são muito raras, porque os horários escolares são difíceis de conciliar com as obrigações profissionais dos Cientistas de Pé, que são investigadores.

A exemplo do que aconteceu num passado recente, nomeadamente no séc. XX, muito do que hoje se estuda nos grandes centros de investigação, mesmo que comprovado perante a academia, só vai chegar ao conhecimento da população em geral daqui a alguns (por vezes muitos) anos. Acha que a comédia, o texto de um jornal, um livro, poderão ser instrumentos que potenciem o interesse sobre a investigação?
Apenas uma parte muito pequena da investigação alguma vez chegará ao conhecimento do público em geral. E isso é normal. Mesmo um físico, por exemplo, terá conhecimento de uma fracção pequena da investigação noutras áreas, como biotecnologia ou sociologia. Penso que às vezes o problema é o contrário, é chegar cedo de mais. Muitas vezes publicam-se notícias que têm como base um único estudo, ou até uma especulação ou opinião de um cientista ou médico. As novas ideias em ciência precisam de tempo para se afirmarem, é necessário que haja vários grupos de investigação a trabalhar no tema, que confirmem ou refutem os resultados uns dos outros. Muitas novas ideias em ciência estão, pura e simplesmente, erradas. Não necessariamente por má fé, simplesmente porque são indicações ténues que acabam por não se confirmar. Por vezes chagam ao conhecimento do público coisas como “Casais que bebem vinho juntos são mais felizes” ou “Dançar o tango é a melhor dança para o coração”, que são o que eu chamo a ditadura do engraçadismo. Em muitos casos nem há investigação suficiente sobre o tema para que ela possa adquirir alguma maturidade, é só uma coisa engraçada. Mas isto traça um retrato errado sobre a ciência, como um conjunto de curiosidades avulsas e delirantes, em que tudo e o seu contrário é possível. E esse retrato é prejudicial. É o terreno fértil para a pseudociência. O bom jornalismo científico, as boas colecções de livros de divulgação de ciência podem, sem dúvida, ajudar a traçar um melhor retrato da ciência junto do público. 

Um dos seus temas predilectos é um combate contínuo à pseudociência. Quer explicar-nos, na sua leitura, qual o mal efectivo que a pseudociência traz para a evolução do pensamento e, de uma forma porventura mais crítica ao processo de aprendizagem daqueles que percorrem esse caminho de forma nem, sempre fácil?
Quando são apresentadas como ciência coisa que não têm um fundamento científico, isso projecta uma imagem distorcida da ciência, faz com que se perceba pior o que é a ciência e o que não é, e isso tem consequências graves. Por exemplo, quando alguém não vacina os filhos porque pensa que as vacinas não funcionam ou que são a causa de doenças como o autismo (o que é totalmente falso), está a pôr em risco não só a saúde dos filhos como a de todos nós, porque a protecção das vacinas assenta em boa parte na imunidade de grupo. Quando alguém compra remédios homeopáticos para a gripe está a deitar dinheiro à rua, porque a gripe em condições normais passa sozinha e os remédios homeopáticos nenhum efeito têm para além do placebo, porque são só água e açúcar. As consequências da pseudociência são a criação de grandes mentiras, que até podem ser muito sofisticadas e por causa disso parecer que são mesmo verdade.

Na sequência da questão anterior, tem alguma ideia que queira partilhar connosco do modo como a Comunidade Científica e Educacional na sua articulação, poderão fazer para que muito do conhecimento transversal em Ciência que não é fiável nem cientificamente válido possa ser de algum modo mostrado como tal sobretudo a quem aprende?
O ensino experimental das ciências é fundamental para que os alunos saibam que a base do conhecimento científico é a observação e a experiência, e não a autoridade de gúrus ou o uso de jargão científicos sem qualquer significado, que é o que faz a pseudociência. Infelizmente hoje em dia pede-se à escola, nomeadamente ao ensino superior, que ensine pseudociência. Num conjunto de portarias publicadas no dia 5 de Junho de 2015 em Diário da República, definem-se os requisitos para os graus em várias medicinas alternativas. Por exemplo, para o grau de licenciado em naturopatia elenca-se a formação em auricologia e iridologia. A primeira parte do princípio que na orelha estão representados todos os órgãos do corpo humano, e a segunda parte do mesmo princípio para a íris. Que sentido faz convidar as universidade portugueses, com graves problemas de financiamento, a venderem licenciaturas em banha da cobra? A comunidade científica e educativa deveria recusar esse papel e deixar as pseudociências remetidas aos seus guetos de incenso e cítaras.

Em poucas linhas, como seria capaz de se descrever a si próprio?
Uma pessoa com um grande interesse pela ciência, mas que sabe que há mais coisas que interessam na vida, que nada têm de científico nem pretendem ter. E com uma grande motivação para partilhar esse interesse pela ciência com outras pessoas.

Manuel Silva Pinto

terça-feira, 30 de junho de 2015

CONFERÊNCIA DE LUZ EM LISBOA

É já esta quinta e sexta-feira que o Pavilhão do Conhecimento recebe a grande conferência internacional Light, from the earth to the stars, organizada pela Ciência Viva e pela Academia Europaea - Barcelona Knowledge Hub.

 O papel da luz nos nossos dias e a sua ligação com a arte, a ciência, a tecnologia, as comunicações ou a história serão discutidos por um painel de investigadores, artistas e empresários portugueses e estrangeiros. Desde o fotão, que o investigador do CERN Álvaro de Rújula chama "a partícula da vida", até ao satélite Hipparcos da ESA que mapeou mais de 100 000 estrelas, passando pelas células solares e LEDs de baixo custo que mudarão a forma como iluminamos as nossas casas e a vida nos países emergentes, todo um arco-íris de temas se abre à nossa curiosidade. De que forma a luz deu origem à vida, como é que a natureza comunica através da bioluminescência e de que forma a arte faz uso da luz, serão outras questões que irão iluminar estes dois dias de discussão viva e aberta.

 Reserve já o seu lugar em www.cienciaviva.pt

OS MARCIANOS SOMOS NÓS - INTRODUÇÃO

Trancrevo a Introdução do livro "Os Marcianos somos nós" de Nuno Galopim, que acaba de sair na colecção Ciência Aberta na Gradiva:

Creio que o meu interesse por Marte terá começado com Carl Sagan. Num episódio da série Cosmos,
que ele concebeu e apresentou, a sua grande nave da imaginação caminhava sobre o Valles Marineris, ao som da suite Os Planetas, de Gustav Holst. Sagan dava então conta de uma história feita de ligações entre o mundo real que a ciência vai descobrindo e o mundo imaginário que há muito ali tínhamos sonhado (e continuamos a sonhar). Num episódio centrado no Planeta Vermelho, tanto evocava as observações de Percival Lowell no seu observatório em Flagstaff, no Arizona, ou nas (então) recentes revelações das duas sondas Viking, como lembrava as histórias de invasores criadas por H. G. Wells em A Guerra dos Mundos ou o mundo de aventuras tendo John Carter por protagonista, que Edgar Rice Burroughs inventara com cenário em Barsoom, o nome ficcionado que em 1912 deu ao quarto planeta do sistema solar, no qual falou, entre outros povos, de homens verdes, nascendo aí uma das mais célebres ideias da representação do que poderiam ser os marcianos, que assim quase usurparam uma cor de pele antes já referida entre gnomos e outros seres imaginários de histórias do folclore de várias culturas ocidentais (note‑se que a pele verde não seria nunca um exclusivo marciano e foi frequentemente atribuída pela literatura e cinema a outros povos alienígenas igualmente ficcionados).

Sagan sublinhava nesse episódio como tinham sido estas aventuras entre John Carter, a princesa Dejah Thoris e os gigantes e verdes tharks que o levaram a desenvolver um encanto especial por Marte, que acabaria por guiar boa parte do seu trabalho como astrofísico. Para contar a história de Marte é por isso importante juntar os factos que a ciência tem observado e interpretado não só às antigas mitologias mas também às numerosas histórias de ficção que, sobretudo a partir do século xix, usaram esse planeta para falar de lugares e seres exóticos, lançar utopias, temer invasores, respirar o fulgor das aventuras, acreditar na força da tecnologia que nos pode lá levar um dia (e mesmo permitir habitar a sua superfície) ou lançar o debate ético sobre se devemos ou não agir sobre o seu ambiente com vista à sua eventual adaptação às nossas exigências biológicas. No fundo, e como sempre em ficção científica, usámos Marte para falar de nós, do nosso mundo e dos nossos desejos e medos. Entre a literatura, o cinema e a música, inventámos, para além da ciência — mas sempre tendo em atenção a história das suas descobertas — um mundo que ainda não visitámos. Mas que nos habituámos assim a conhecer.

Ao longo destas páginas cruzamos as várias narrativas, notando como a ficção científica se foi sempre adaptando e reinventando à medida que a ciência trazia, primeiro, novas observações e, depois, conclusões baseadas nelas.

Não se trata de uma história da exploração científica e tecnológica de Marte. Nem de uma abordagem do foro da crítica literária à muita (e muitas vezes bem interessante) ficção científica que se foi escrevendo. Os filmes e discos que aqui se evocam juntam‑se aos livros escolhidos entre uma vasta literatura «marciana» e também aos dados colhidos pela ciência para, acima de tudo, assinalar como evoluiu a nossa representação de Marte e como fomos tomando este planeta como cenário para falar do que somos, do que nos seduz ou nos assusta e do que queremos ou não queremos ser.

Nuno Galopim

LUZ INVISÍVEL

Texto primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Há mais luz para além da luz visível. Para além do arco-íris, há muita mais luz que é invisível aos nossos olhos.

A luz solar influenciou e permitiu o desenvolvimento da vida tal qual a conhecemos no planeta Terra. A vida adaptou-se ao intervalo de energias em que a radiação emitida pelo Sol é mais intensa. A evolução dos olhos, iniciada há cerca de 560 a 520 milhões de anos durante o Câmbrico (caracterizado por uma intensa revolução na vida na Terra em que se formaram quase todos os grandes grupos de animais), permitiu aos seres vivos detectar essa luz solar, torná-la um sentido visível e receber muita informação sobre o meio envolvente. Permitiu aos seres que desenvolveram olhos localizar predadores e prezas à distância, evitar obstáculos, potenciar uma ágil mobilidade. 

À luz solar a que os nossos olhos são sensíveis e que está belamente resumida no arco-íris, chamamos naturalmente luz visível. Mas esta constitui um pequeno intervalo no largo espectro de luz (ou radiação electromagnética) que hoje conhecemos e detectamos científica e tecnologicamente.

A zona visível do espetro, compreendida entre o vermelho e o violeta, situa-se entre o infravermelho (invisível, de frequência ou energia menor que a radiação visível) e a luz ultravioleta (também invisível, mas de frequência ou energia mais elevada que a radiação visível). Diga-se que frequência é o número de repetições, ou ciclos, da onda por unidade de tempo. Os cientistas descobriram que há uma relação proporcional entre a frequência e a energia: quanto maior a frequência de uma dada radiação electromagnética (aqui genericamente designada por luz) maior a sua energia.

Foi em 1800 que o físico inglês William Herschel descobriu a luz infravermelha. Um termómetro colocado na zona invisível, perto da zona vermelha do espetro visível, revelou uma nova radiação. Esta experiência clássica expandiu o conhecimento para a existência de luz invisível. A luz infravermelha é usada hoje, por exemplo, nos comandos da televisão. 

Em 1801, o físico alemão Johann Wilhelm Ritter investigou o outro lado do espectro visível e detectou a existência do que ele chamou de "raios químicos" (raios de luz invisíveis que provocavam reações químicas). Estes raios comportavam-se de forma semelhante aos raios de luz violeta visíveis, mas estavam para além deles no espectro. O termo "raios químicos" foi posteriormente mudado para radiação ultravioleta. A luz ultravioleta, tal como outros tipos de radiações, é emitida pelo Sol. Mas é absorvida pela atmosfera, excepto no famoso “buraco de ozono” na Antártida.

O espetro eletromagnético compreende ainda radiações invisíveis de mais baixa frequência como as ondas de rádio, de televisão e as micro-ondas – com aplicações nas telecomunicações - e de muito mais elevada frequência, como os raios X e os raios gama – que têm aplicações médicas tanto em diagnóstico como em terapia.

Os raios X foram descobertos em dezembro de 1895 pelo físico alemão Wilhelm Roentgen, quando estudava a passagem de correntes elétricas em tubos cheios de determinados gases (tubo de Crookes). Essa experiência foi repetida em Coimbra cerca de um mês depois, uma vez que os instrumentos necessários (bobina de Ruhmkorff e o tubo de Crookes) existiam no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra.

Os raios gama foram descobertos em 1900 pelo químico e físico francês Paul Ulrich Villard, ao estudar uma das propriedades do Urânio. Mas foi só em 1910 que o físico britânico William Henry Bragg mostrou que essa forma de energia era realmente radiação electromagnética muito energética. Por outras palavras, os raios gama são a luz invisível que conhecemos com a frequência mais elevada.

Temos assim e simplificadamente o espectro de luz que conhecemos no universo, distinguido em regiões, ordenadas da menor para a maior energia: ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho, visível, ultravioleta, raios X e raios gama.


António Piedade

segunda-feira, 29 de junho de 2015

OS MARCIANOS SOMOS NÓS




Sessão de lançamento do livro OS MARCIANOS SOMOS NÓS de Nuno Galopim – LISBOA

A Fnac Chiado, o Autor e a Gradiva têm o prazer de convidar V. Ex.ª para o lançamento do livro
A sessão terá lugar no dia 29 de Junho, pelas 18h30, na Fnac Chiado (Rua Nova do Almada, 102, lj. 3.02.), em Lisboa.
A apresentação da obra ficará a cargo de Eurico de Barros e de Carlos Fiolhais. O autor convida-nos depois a recordar algumas viagens marcianas feitas com livros, filmes e música.
Seguir-se-á uma sessão de autógrafos.
ENTRADA LIVRE
Para contar a história do planeta Marte temos de juntar o que a ciência descobriu ao que a ficção imaginou ao longo dos séculos. Porque uma aprendeu sempre com a outra, como o observou.
Carl Sagan.


Para contar a história do planeta Marte temos de juntar o que a ciência descobriu ao que a ficção imaginou ao longo dos séculos. Porque uma aprendeu sempre com a outra, como o observou Carl Sagan.

Marte desperta a curiosidade desde há séculos. As descobertas científicas que se têm vindo a fazer em muito contribuem para manter aceso o interesse sobre o planeta vermelho. Dos tempos em que era apenas um ponto avermelhado nos céus ao momento em que uma sonda descobriu água no solo deste astro, a história da nossa relação com Marte somou séculos de fantasias e descobertas. Ao que se conhece do passado, associa-se o que se espera do futuro, onde parece abrir-se um mundo de possibilidades. É a oportunidade de viajar até lá, no momento presente, através de páginas cheias de referências, exemplos e histórias, que este livro oferece.

As visões dos invasores de H. G. Wells ou dos seres imaginados por Edgar Rice Burroughs cativaram muitos jovens para a ciência. Mas se Marte continua a despertar a ficção, capta igualmente o interesse de cientistas, cujas observações têm permitido acumular conhecimento sobre o planeta.

Carl Sagan defendeu que para contar a história de Marte é preciso juntar a ciência e a imaginação. Este livro faz essa reunião de modo convincente. O olhar do autor cruza as sondas Viking ou Mariner com as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury, as canções de David Bowie com o hilariante Marte Ataca!, de Tim Burton. E fornece bons motivos para manter o leitor atento às páginas, incluindo pequenos marcianos que chegam à Terra maldispostos e colónias humanas que encontram em Marte uma nova casa.

SOBRE O AUTOR


Nascido em Lisboa em 1967, começou por projectar um futuro na ciência, e chegou a apresentar comunicações em encontros científicos, mas o jornalismo, a rádio e, sobretudo, a música e o cinema falaram mais alto. Tem 25 anos de carreira na rádio (Antenas 1, 2 e 3, XFM e Radar) e na imprensa (Independente e Diário de Notícias, escrevendo hoje no Expresso, Blitz, Time Out e Metropolis). Tem trabalho na música (do álbum Humanos à série O Melhor do Pop-Rock Português) e no cinema (como actor, produtor, consultor e programador).

Nos livros, estreou-se, era ainda aluno de Geologia, com Vida e Morte dos Dinossáurios, em co-autoria com o pai, o Professor Galopim de Carvalho. É o autor de Retrovisor: Uma Biografia Musical de Sérgio Godinho e colaborou na Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa. É autor dos blogues Sound + Vision e Máquina de Escrever.