Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

DO CRISTAL-PEDRA DE TEOFRASTO À FÍSICA DO ESTADO SÓLIDO

PRIMEIRA PARTE: DA ANTIGUIDADE AOS FINAIS DO SÉCULO XVIII



Aristóteles (384-322 a. C.) chamava cristal ao gelo (krystallos, em grego) e é sabido que, desde então e até ao século XVIII, se acreditou que os cristais de quartzo hialino, isto é, o incolor e transparente, eram ocorrências de água no estado sólido, num grau de congelação tão intenso que era impossível fazê-los voltar ao estado líquido. E foi assim, sob este nome, que a variedade hialina de quartzo passou aos domínios da alquimia, primeiro, e da mineralogia, depois.

Theofrasto (372-287 a. C.) distinguia o cristal-água (o gelo) do cristal-pedra (o quartzo hialino). Os romanos mantiveram este entendimento, latinizando o nome para cristallus, como se pode ler num dos 38 volumes da “História Natural”, de Plínio, o Velho (23-79 d. C.).

A expressão cristal-de-rocha, aplicada ao quartzo hialino, surgiu muito mais tarde (no séc. XIX) para distinguir o mineral do vidro de alta qualidade, produzido e comercializado sob o nome de cristal. A palavra cristal aplicou-se, depois, aos corpos sólidos, poliédricos, minerais ou orgânicos, naturais ou artificiais, e acabou por se generalizar a toda a porção de matéria sólida, limitada ou não por faces planas, cuja estrutura interna se caracteriza pela repetição periódica de um motivo (composto por átomos) nas três direcções do espaço.

O termo cristal foi, assim, usado como étimo do nome da disciplina – cristalografia – que estuda a matéria cristalina, afirmada como ciência, em finais do século XVIII, em França, com Romé de l'Isle e René-Just Haüy. Domínio de investigação nascido da mineralogia e inicialmente de cariz puramente geométrico e matemático, habitualmente referido por cristalografia morfológica, deu apoio, como complemento, tido por indispensável, à caracterização e diagnose dos minerais, até às primeiras décadas do século XX.

Alargou-se, depois, com o advento dos raios X e com o desenvolvimento da cristaloquímica, para, a partir daí, se irmanar com a física do estado sólido, com recurso às modernas tecnologias de análise. Constituiu-se, então, como um nova linha de investigação, a cristalografia estrutural, de âmbito alargado a todos os sólidos cristalinos, sejam eles inorgânicos ou orgânicos, naturais e artificiais ou sintéticos.

No século XVII, o anatomista dinamarquês Nicolau Steno (1638-1696) revelou, em 1669, que os “ângulos diedros, formados pelas faces homólogas dos cristais de quartzo, são constantes e independentes da forma e da dimensão das mesmas”. Esta sua revelação, que ainda tem um âmbito restrito, mas que alguns referem com Lei de Steno, está na base da conhecida Lei da Constância dos Ângulos (esta, sim, uma verdadeira lei), formulada um século mais tarde, pelo francês Romé de l'Isle.

Um pouco mais recente, Domenico Guglielmini (1655-1710), matemático e médico italiano, foi o primeiro a interessar-se pelos sais e pela cristalização destes, tendo chamado a atenção para a constância das formas cristalinas próprias de cada um deles, dando mais um passo no caminho do conhecimento dos cristais.

Na Rússia, Mikhayl Vasilyevich Lomonosov (1711-1765) produziu valioso trabalho de prospecção mineira e foi autor de um catálogo de minerais com várias centenas de espécies e variedades. Independentemente de Nicolau Steno, apercebeu-se da constância dos ângulos diedros entre faces homólogas de cristais da mesma espécie mineral.

Lomonosovite, um silicato complexo, co titânio, sódio e fósforo, é uma homenagem à sua memória.

Jean-Baptiste Louis Romé de l'Isle (1736-1790), antigo oficial de marinha francês, desenvolveu o gosto pela mineralogia durante um período de cerca de três anos em que, juntamente com Georges Balthazar Sage (fundador da École Royale des Mines de Paris), ficou prisioneiro dos ingleses nas Índias Orientais. Influenciado pelas ideias de Lineu, procurou estabelecer uma sistemática dos minerais em função das respectivas formas externas, em especial, dos seus cristais, tendo enunciado o conceito de “forma primitiva”. A mineralogia abriu-lhe, assim, o caminho da cristalografia. Autodidacta de génio, de l’Isle rodeou-se de colaboradores de grande craveira, como o naturalista e mineralogista francês, Arnould Carangeot (1742-1806), inventor do goniómetro de aplicação.

Servindo-se deste instrumento rudimentar, de l’Isle mediu os ângulos diedros dos cristais, o que lhe permitiu conceber a Lei da Constância dos Ângulos, que formulou com carácter genérico, na sequência dos estudos anteriores de Nicolau Steno, Domenico Guglielmini e Mikhail Lomonosov. Esta lei fundamental diz que “os ângulos diedros formados por faces homólogas são constantes para os cristais da mesma espécie mineral”.

Reforça-se, assim, o início de uma nova disciplina que, durante mais de dois séculos, como se disse atrás, constituiu um precioso complemento na diagnose mineralógica. Romé de l'Isle teve, ainda, o apoio de Swebach Desfontaines, escultor que, com base nos elementos que lhe forneceu, produziu a primeira colecção de modelos cristalográficos, em barro, num total de 448 “cristais” de referência.

O “Essai de Cristallographie”, de Romé de l'Isle, editado em 1772, teve uma segunda edição, em 1783, em 3 volumes, acompanhada de um atlas, tendo sido esta edição que o tornou conhecido e lembrado como o “Pai da Cristalografia”.

Sendo um mineralogista, celebrizou-se como cristalógrafo, distinção que lhe valeu ser eleito membro estrangeiro da Academia Real das Ciências da Suécia.

Romeíte, um antimoniato de cálcio, é uma homenagem à sua memória.

Um outro francês, seu contemporâneo, o abade René Just Haüy (1743-1822) deu grande desenvolvimento à cristalografia morfológica que caracterizou o século XIX e boa parte do XX ao enunciar, em 1784, a Lei da Racionalidade dos Índices. Também conhecida por Lei de Haüy, corresponde a uma abordagem matemática, entendida como um passo significativo no sentido da cristalografia moderna e que diz: “as relações paramétricas que definem as faces possíveis dos cristais são sempre números racionais geralmente pequenos”.

Uma outra contribuição deste pioneiro da cristalografia foi a sua concepção de “molécula integrante” que definiu como um paralelepípedo ínfimo e indivisível, característico de cada espécie mineral que, em justaposição com outros idênticos, edificava os cristais das respectivas espécies.


Esta inovação é considerada uma notável antevisão da estrutura triperiódica da matéria cristalina, estrutura confirmada mais tarde por Bravais, em 1847. Haüy foi ainda pioneiro no estudo e na compreensão da piroelectricidade. No seu “Traité de Minéralogie” descreve mais de uma centena de espécies, muitas delas conservando o nome original que lhes deu.

Haüy foi nomeado, em 1802, ao tempo de Napoleão, professor de mineralogia no Museu Nacional de História Natural de Paris, mas, em 1814, foi afastado desse lugar pelo Governo da Restauração.

Entre os seus discípulos conta-se o luso-descendente José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), um dos introdutores da mineralogia e da metalurgia em Portugal e patriarca da independência do Brasil.

Hauyna ou hauynite, um tectossilicato.
A. Galopim de Carvalho

Finalmente um país de falhados mas não um país falhado.

A propósito do estudo do D&B que refere um aumento ímpar do número de empresas criadas no primeiro semestre deste ano, tem-se debatido a onda de empreendedorismo que parece ter-se instalado em Portugal.

Durante muitos anos, o termo empreendedorismo vivia apenas em livros e trabalhos académicos. Porém, nos últimos anos, muita coisa mudou no panorama nacional. Ser-se empreendedor tornou-se quase uma moda. Foram criadas incubadoras, aceleradoras e parques de tecnologia por quase todo o país, algumas com enorme sucesso como o caso da UPTEC e o Instituto Pedro Nunes. O financiamento começou também a ser uma realidade, quer nas sociedades de business angels, quer nos programas QREN e mais recentemente no programa Portugal Ventures.

Começam a aparecer empresas lideradas por jovens talentosos e ambiciosos, que tiveram ousadia de sair da sua zona de conforto e criar projectos já com projecção  internacional, como a Modelo 3, que no Reino Unido se chama Simpletax.

Mais importante, a mentalidade mudou. Há uns anos eram raros os jovens que mostravam vontade de criar um projecto próprio. Hoje os melhores alunos já não ambicionam apenas trabalhar numa multinacional ou um lugar na carreira académica (tarefa quase impossível nos dias de hoje). Eles querem inventar os seus próprios empregos e mudar o mundo.

Muitas destas empresas vão falhar? Muitos destes empreendedores estão impreparados e vão perder muito dinheiro e tempo das suas vidas? O nosso mercado é pequeno para tantas empresas? O empreendedorismo tornou-se quase uma religião onde se criou a ilusão que qualquer pessoa com um computador pode ser milionária? Sim, tudo isso é verdade. Estatisticamente sabe-se que a maioria destas empresas falham com grandes prejuízos financeiros e morais para os empreendedores.

Mas, e este é um grande mas, este frenesim à volta do empreendedorismo é um sinal que, finalmente, o país está a sair da crise. Que há pessoas que acreditam, que lutam, que abdicam de um salário certo ao fim do mês por algo que dentro de uns anos as pode tornar milionárias. Finalmente perdemos o medo de correr riscos. Estamos a perder o medo de falhar e isso é um sinal de vitalidade e esperança.

Apenas há meia-dúzia de anos, acreditava-se que eram as grandes obras financiadas pelo Estado (com recurso a dívida) que iriam projectar o nosso país na senda da modernidade. Hoje já percebemos onde nos levou esse caminho. E nisso o povo português é extraordinário, já aprendemos rapidamente que somos capazes de atingir esses objectivos por uma outra via. Uma via orgânica e sustentada, não uma via feita de auto-estradas mas de pequenos carreiros e veredas que vão crescendo e um dia se hão-de tornar grandes. Mas por mérito próprio.

Individualmente podemos falhar, mas no seu todo o sistema, neste caso o país, vai tornar-se mais forte, mais inovador, mais dinâmico e muito mais rico. Assim como se honram os mortos em combate, devíamos nós também honrar os empreendedores que falharam nas suas lutas e fazer dessa “morte” uma força para que outros continuem a sua missão. Uma missão nobre de tornar o mundo um local melhor, de apostar nas possibilidades e não nos lamentos, de todos os dias, fazer com que a palavra impossível fique cada vez mais pequena.

Aquilino Ribeiro 50 anos depois

Os autores – os melhores, diga-se – fazem eco dentro de nós, deixam rasto. Alguns ressoam na nossa memória e acompanham-nos pela vida fora.

No meu caso, Aquilino é um deles. Dizer que comecei a interessar-me por ele em virtude da aura política que lhe veio do processo movido pelo Estado Novo, quando da publicação de Quando os lobos uivam, talvez seja exagero. É sabido como uma perseguição da PIDE salazarista dava ânimo a qualquer livro, mas Aquilino não precisava disso. A minha sedução pela sua obra é anterior.

Quando comecei a ganhar gosto pelos livros, Aquilino era então um dos maiores nomes da nossa literatura, se não mesmo o maior, e daí a obrigação de o ler, o dever de o apreciar e o alegre esforço para alcançar esse nível e, consequentemente, essa satisfação, esse puro prazer. Aquilino exigia (e exige) esforço; mas qual o grande autor (o grande amor) que o não exige?

Há quem o acuse de falta de profundidade psicológica, de uma trama pouco densa e estimulante, de falta de dramaticidade nos seus romances, e até de um formalismo já algo tardio, e, portanto, serôdio. Talvez seja verdade. Não esquecer, porém, outros da mesma época, de grande qualidade, como Tomaz de Figueiredo, João de Araújo Correia, por exemplo, onde o que se manifesta é esse gosto da forma a dar a ler uma realidade social e cultural muito forte e nítida, que se lhes impunha e que eles procuravam traduzir e recriar.

É pois o tipo de argumento que, face à obra em causa, sempre me pareceu algo deslocado, difícil de integrar na realidade sistémica que, sobretudo no caso de Aquilino, o seu estilo impunha. Porque ele não era fácil, hoje talvez ainda menos, mas o sabor da sua prosa valia (e vale) bem o trabalho de o ler, compensando-nos largamente de tudo.

Não era de pressas. A sua ação pausada, as suas lentas e gongóricas descrições, os seus largos excursos eruditos ou evocativos, as suas sintaxes envolventes e de frases longas e, sobretudo, o seu léxico rico, vastíssimo, inesperado, inventivo, amiúde extravasando o melhor dicionário, entre o popular, o regionalista e o vernáculo, nunca esquecendo os clássicos (traduzindo, vertendo), nem a latinidade, a sacralidade, a santanidade, e até a liturgia, com sua parafernália de ternos e expressões, numa mistura muito própria que a sua filigrana estilística única e inimitável exigia.

Não era fácil, não. Mas deleitava. Em Aquilino, como disse, o enredo, interessando talvez menos, não é, todavia o livro sem história à moda de alguns atuais, sobretudo da área do já antigo “novo romance”, ou do desconstrutivismo posterior. Não, o enredo existe e prende, mas é sempre submetido ao seu modo de contar, e este à exigência de uma sintaxe elaborada, frequentemente retorcida, ao seu vocabulário que não perde a oportunidade de pôr ao sol termos esquecidos, de endireitar outros, empenados pelo mau uso, de criar muitos, ali mesmo, para a necessidade do momento, e sempre sob a aba inspiradora de sabor oitocentista e setecentista, que as frases e as palavras evocam, e de uma ancestralidade que ressoa nas nossas reminiscências dir-se-ia que platónicas, se não fosse quase escandaloso dizê-lo hoje.

É pois uma escrita sempre subordinada ao classicismo da construção, à riqueza e originalidade do vocabulário, ao gosto de uma descrição que não permite uma prosa dinâmica, e menos ainda desestruturada e desconstruída que a literatura contemporânea nos veio propor.

Aquilino Ribeiro é talvez o nosso último grande clássico. Mas, passados cinquenta anos sobre a sua morte, e depois de tanta experiência, de tantos experimentalismos, artísticos e outros, ainda bem que o foi, e valha-nos isso! É pois um autor para ler devagar, que não se casa bem com a diluição atual duma certa identidade que foi tão nossa, nem com a desestruturação cultural a que se assiste, nem com muitas das regras gramaticais que a moderna literatura começou a praticar, ou a despraticar, nem com a aridez vocabular corrente, nem com a pesporrência da literatura televisiva dominante, nem com a incultura transformada em cultura, nem com o palavrório ininterrupto, embora construído com meia dúzia de palavras. Menos ainda com a moderna vertigem substitutiva dos estímulos, que tira o sabor à vida, e ainda menos com uma era de eletrónicas em que tudo desaparece no momento em que aparece, etc. etc.

Nesta sentido Aquilino é hoje uma força conta a corrente, e, portanto, uma rocha a que nos podemos agarrar. Em suma, um autor com um valor educativo hoje altamente acrescentado.

É, por outro lado, a imagem dum Portugal que existiu, e de que pouco ou nada já resta: rural, pobre, política e economicamente injusto, mas ativo, habitado e animado, demograficamente vivo, humano e humilde, mas teso, finório e boçal, afável e velhaco, troca-tintas e honrado. Disso, desta mistura donde todos descendemos, Aquilino nos dá testemunhos através de tipos humanos inigualáveis, em inúmeras histórias e situações pitorescas, cruéis, hilariantes, traiçoeiras, amenas…

Mas o melhor de Aquilino está no gosto de descrever as paisagens beirãs, as aldeias, as festas, os trabalhos, as pessoas, os bichos; o amor na procura das raízes vocabulares e sintáticas, no trabalho da língua, de sentirmos o formão e a goiva da sua marcenaria fina afeiçoando uma madeira dura e macia, que deixa, depois de bem trabalhada, obra feita. Para durar. E perfeita.

Aquilino Ribeiro é sobretudo um prosador, a gente sente-o a saborear o que escreve e a amar o que descreve e conta. E ao lê-lo, assim como mergulhamos numa portugalidade antiga que nos moldou os ossos e os sentimentos, para o melhor e o pior, e de que andamos esquecidos, ou a tentar fugir, cheios de prosápia, também usufruirmos de uma espécie de reorganização interior, uma reformulação de alma que todo o sentimento estético nos provoca e engrandece.

A grande literatura é essa forma incessante de nos reorganizarmos, de acrescentarmos ao que éramos uma outra nova e mais rica forma de ser, de sentir por nós dentro esse oxigénio que a funda enxada, cavando, fortalece e revigora.

Ler Aquilino é mergulhar nesse Portugal desaparecido, rural, duro, resistente, devoto e anticlerical, macio e cruel, atrasado e finório, que era o mundo que foi o dos nossos pais, avós e tetravós. Para os mais novos é um modo de ter notícia desse tempo perdido, de conhecer os sentimentos, as vozes, os olhares, os valores estéticos e morais de que era feito, e, ao mesmo tempo, ter a experiência de um País profundo, ancestral, resultante da acumulação de muitos sedimentos de gentes, hábitos, culturas, lugares, ocorrências, e que é, desta terra pobre e castigada, muito da sua melhor herança.

Se todos os portugueses, hoje, pudessem ler, gostar e interpretar Aquilino Ribeiro, pelo que significaria de amor à Pátria, de conhecimento dela e de sentido crítico para os seus defeitos e qualidades, que grande, que incomparável mudança nas mentalidades não sofreríamos todos.

João Boavida

Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Jardim das Tormentas

(Em continuação: aqui)

"Tinha Deus aposentado Adão e Eva no Jardim das Delícias, onde viviam como os mais desabusados regalões. O homem era esbelto e sólido, embora nunca houvesse exercitado os tendões da marcha, nem  apurado os bíceps a colher o antílope no laço; ela um lambisco de primeira, esgalgada e especiosa, a quem os cabelos vestiam de oiro à maravilha, sem pensar na folha de parra para a nudez, num cinábrio para a boca, que de seu sinal era rubicunda.

Não sabiam de onde eram, nem como estavam ali, nem tão pouco se importavam de saber, acharam-se dentro do horto uma boa manhã, e todas as demais manhãs, na plenitude de um gozo inapreciável, porque nunca espinho, sol mais destemperado ou hora amarga lhes ensinara que aquilo era o sumo bem. Se alguma coisa soubessem desejar, o seu Senhor provê-los-ia instantânea e abundantemente como o mais solícito mordomo; mas nem desejos nem cobiças, nem necessidades picavam os seus corações inocentes; não admiravam, porque tudo era admirável; jublilos, ternuras, esperanças não sentiam que Deus gerara a vida, mas ainda não concebera a morte. No ceú, sempre azul, o sol trazia o dia, levava o dia, sem que sombras ou raios mais vivos ferissem as suas pupilas bem-aventuradas. Eram uns felizes felizardos, usufrutuários dum regalo tão sem balizas que não o sabiam avaliar, mas em que criam de boa fé porque assim lhes fora dito. De beatitude tão absorta, apenas um aviso de Deus os distraía, se a isso se chama distrair, numa punção doce, mais leve que a sombra dum reflexo de cuidado."

O extracto é do Jardim das Tormentas, um extraordinário livro de contos de Aquilino Ribeiro, publicado em 1913. Completa um século, mas as palavras são frescas como se tivessem acabado de chegar da tipografia pela primeira vez.

Carlos Malheiro Dias escreveu a pedido de Aquilino, num tom intimista e comovente, uma Carta-Prefácio que lhe é dirigida:

"(...) Porque, entre tantos que na sua estima convivem, me escolheu a mim, esquecido novelista romântico, para que as minhas palavras coubessem no mesmo livro perto das suas? Porque havemos nós dois de nos dar as mãos no átrio deste volume? Por que acidentados, sinuosos caminhos andou a nossa simpatia atrás de mim para encontrar-me neste isolamento agreste em que vivo? Que houve, que há, que haverá de comum entre os nossos destinos, aparentemente contraditórios, para que assim tenhamos de aparecer juntos, numa aliança inverosímil, perante os que o afagam e me injuriam, diante dos que o louvam e me agride, em face dos que o exaltam e me deprimem?  (...)

Dir-se-ia, a um primeiro e superficial exame, que as nossas existências, por seguirem trajectórias diversíssimas, nunca se encontrariam. E, contudo, eis-nos aqui, fraternalmente juntos - e esta fraternidade não é a de Abel e Caim. Porquê? Nenhum de nós fez às suas opiniões o mínimo sacrifício em benefício desta camaradagem. Eu me conservo fiel ás convicções em que se educou o meu espírito, e nelas venero um património familiar. O sr. Aquilino Ribeiro não necessita que eu venha servir de fiador à constância inquebrantável da sua fé de revolucionário (...)."

Maria Helena Damião

Terça-feira, 21 de Maio de 2013

AÇORDAS E MIGAS

Texto que nos foi gentilmente enviado pelo Professor do Galopim da Carvalho.

«Terra de grandes barrigas
onde só há gente gorda. 
Às sopas chamam açorda,
à açorda chamam-lhe migas.» 


Foi com estas coplas que, na revista «Palhas e Moínhas», o poeta alentejano João Vasconcelos e Sá, nos começos do século passado, cantou a diferença entre os usos destas palavras no Alentejo e fora dele; hoje mais conhecidas graças à bela interpretação do seu neto, o fadista António Pinto Basto. Estreada em Évora, em 1939, esta representação musical, em dois actos, tem por tema a mais extensa província de Portugal, as suas gentes e o seu modo de estar e viver naquela época. Entre os muitos participantes, todos recrutados entre a população da cidade, figurou o meu irmão Francisco José que, logo aí, revelou as suas excepcionais qualidades como intérprete da canção.

No seu livro, “Para uma História da Alimentação no Alentejo” (1997), o saudoso Alfredo Saramago revelou-nos que, durante o período de ocupação romana, se comia no Alentejo uma sopa feita de ervas aromáticas, alho, azeite, pão e água bem quente. Esta confecção atravessou as culturas dos povos invasores que se seguiram, tendo sido os árabes que a fixaram e lhe deram a importância que teve entre eles e ainda tem entre nós. A ath thurda (açorda) é, pois uma herança antiga, valorizada pela presença muçulmana neste Garb al Andaluz, entre os séculos VII a XIII.

As açordas do pobre não têm acompanhamento. São as açordas de mão no bolso (como já escrevi noutro local) comidas pelos mais carenciados que, não tendo conduto, só precisam da mão que leva a colher à boca. São as açordas peladas, não fazem mal nem bem, é só pão e água... caem nas calças e não põem nódoas, escreveu Falcato Alves, em “Os Comeres dos Ganhões” (1994).

Mas há também, para quem pode, açordas bem temperadas, feitas com a água de cozer bacalhau, pescada ou amêijoas, e com outros produtos de grande valor nutritivo e requintado paladar, com destaque para os ditos condutos e, ainda, o ovo cozido ou escalfado, as azeitonas e, até, nalgumas famílias, os figos frescos. Açordas são quase sempre as de alho e coentros ou de poejos.

À falta destas ervas há quem as faça com pimento verde esmigalhado no almofariz (no geral, de madeira), ou graal, como nós dizemos. Mas há outras, como as de tomate e muitas mais, a ponto de o termo ser considerado sinónimo de “sopas de pão”.

Para nós, alentejanos, o termo migas designa um alimento à base de pão migado, embebido num caldo e a seguir esmigalhado e amassado. Esta confecção é aquilo que, em Lisboa e noutras regiões do país, se chama açorda. As ”açordas de marisco”, as boas e as menos boas, que se servem de Norte a Sul do país, são, na realidade, migas, pois correspondem melhor à etimologia e ao significado da palavra.

Temos ainda as migas de batata, também elas esmigalhadas e amassadas. Assinale-se aqui, porque nunca é demais saber, que migas e mica, o mineral, radicam no mesmo étimo latino, mica, que significa migalha.

As migas da minha mãe, trazidas de casa da mãe dela, eram quase sempre feitas no pingo do toucinho ou da carne de porco com mais gordura e no dos enchidos.

Ao contrário do ditado que reza «migas de pão, duas voltas e já estão», as nossas velhas migas as que ainda hoje se fazem no Alentejo são enroladas na sertã, continuamente, até tostarem levemente e ganharem uma casquinha estaladiça. Prato tradicional e frequente na mesa de ricos e pobres, com a diferença de que as migas de uns tinham mais carne magra e linguiça, e as de outros, mais toucinho e farinheira.

Galopim de Carvalho

O Pequeno Mundo



Por vezes, nos romances, surgem reflexões sobre as leis da física e surgem referências a físicos.

Em “O Pequeno Mundo” de Luísa Costa Gomes - romance que se desenrola através de missivas escritas entre as personagens- às páginas tantas, Leonardo escreve  ao amigo João Manuel:
«Por isto, já vês, não foi a morte de Camila que me assustou mas o aperceber-me, a súbitas, no que me tinha tornado; rompendo através das gordurosas do corpo os untos diversos que me corriam no cérebro, tinha que, em vez das lubrificações aéreas que eu antecipara, me apatizavam os cada vez mais ralos pensamentos de um espírito que padecia de boa-vontade e colaborativo na correnteza dela, os mortais empuxões da inércia. Que é, se bem te lembras, a lei mais funda de toda a realidade. Deixando-me levar pela correnteza dela, havia de estar hoje sentado com Esmeralda a fazer meia e a conversar do tempo frutuoso das colheitas do ano passado»

A lei da inércia aparece a Leonardo como intangível e como o estado deste mundo - isto apesar de o pequeno mundo continuar acelerado.

A estrutura e até a moral de “O Pequeno Mundo” são análogas ao romance “Boquitas Pintadas” do argentino Manuel Puig - salvo que a história do primeiro é dominada por relações amorosas e traições, enquanto a do segundo é dominada pela denúncia, por parte de um jornalista, da hipotética corrupção de um caudilho –, ambos se baseiam em epístolas e dão a imagem de um mundo sem ética, regido pela astúcia e perpassado de traições, de hipocrisia, de desejos de poder e de corrupção.

João Miguel chega a escrever a Manuela:
«Leonardo transformou-se num socialista utópico pós-catastrofista, o que, se considerarmos o processo todo com olho equânime, é um passo adiante daquelas ideias do século ΧІΧ conservador que sempre defendeu. Não perco a fé em vê-lo transitar um dia para o socialismo científico e depois à social-democracia, para se afogar nos títulos e nas acções e ir para Lisboa gesticular na Bolsa, refazendo em si mesmo o percurso da própria História.»

Esta última etapa da história é inegavelmente a que estamos agora a viver.

No término do romance Manuela escreve este episódio maravilhoso, que desconhecia, sobre Arquimedes:
«Noli turbare círculos meos, disse ele que parece que foi a forma de Arquimedes pedir a quem o vinha matar que lhe não pisasse as figuras que ele tinha desenhado na areia.»

De facto apagar a obra de um génio é um crime, e o actual governo de Portugal e o Presidente da República não têm feito outra coisa se não apunhalar a cultura e, por arrasto, a obra dos génios. Tudo o que peço a estes senhores é que tenham um pouco de atenção e poupem os círculos na areia, uma vez que a sua sede de extermínio da cultura é imparável. Contra a opinião de muitos cronistas, eu considero que a omissão do nome de José Saramago na Colômbia, por parte do senhor Presidente da República, foi propositada e vergonhosa. Mais, este senhor deveria ser obrigado a ler o único Nobel da literatura portuguesa, porque foi um prémio justo e não obra do céu. É verdade que as aparições deixam os portugueses a ver apenas branco, uma vez que são inexplicáveis, e que se perpetuam pelo tempo afora; agora esta de misturar Religião com Euros é de quem anda completamente perdido.

Não fugindo deste pequeno mundo, já vejo o senhor Cavaco Silva em peregrinação para Fátima com o actual treinador do Porto, levando algumas vitaminas na sacola, e a recitarem o Evangelho pelo caminho.

O romance acaba com uma carta de João Miguel a Leonardo:
«Duvido que voltemos a falar-nos. Lembras-me um dito do tutor de Stendhal – perdoa-me esta anedota – a quem perguntavam por que ensinava ele ainda o sistema ptolomaico, sabendo-o falso. «Senhor», respondeu o sábio, «ele explica tudo o que é preciso e ainda por cima tem a aprovação da Igreja.» É assim que eu te vejo, fincado no teu sistema ptolomaico, nem que para isso tenhas de ir espezinhando quem não te inclui no arranjo das coisas.»

É no sistema hodierno de Copérnico que os portugueses vivem divididos, porque uns se recusam a ver os seus falhanços, enquanto outros se esquivam das suas responsabilidades na crise actual. E, deste modo, tenho que revezar a imagem de José Sócrates com a de M. Rebelo de Sousa no meu televisor, e ficar com os cabelos dos braços arrepiados face à comiseração e ao catolicismo do senhor Paulo Portas.

Para mim é evidente que o neo-liberalismo é a máscara do fascismo e que o socialismo português rasgou todos os seus valores e aplicou os do neo-liberalismo. Assim, estamos prestes a regressar ao Estado Novo. Empobrecer o todo para depois, faminto e em desespero, suar de sol a Sol para o senhor da espreguiçadeira. 

Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Mateus DOC - convite à apresentação de propostas

O Mateus DOC é um programa que tem como objectivo estimular o diálogo interdisciplinar entre jovens investigadores de diferentes áreas científicas, confrontando-os com temas de actualidade e interesse geral. Pretende-se, desta forma, encorajar os participantes a encararem os seus temas de  investigação numa perspectiva alargada, que inclua sistematicamente pontos de vista exteriores à área científica respectiva.


No seguimento de edições anteriores do “Mateus DOC”, o Instituto Internacional Casa de Mateus propõe-se este ano organizar encontros sobre os conceitos de “Fronteira” e “Código“. O objectivo é reunir um pequeno grupo de entre 10 a 15 investigadores, dispostos a discutir em conjunto durante um fim de semana na Casa de Mateus, temas comuns a cada um deste tópicos, convergindo ou divergindo perspectivas e pontos de vista de áreas diversas.



(carregue nas imagems para ampliar)

A sua proposta de abordagem do tema é muito bem vinda: consulte o regulamento e candidate-se on-line até ao dia 18 de Junho.

O Instituto Internacional Casa de Mateus é uma associação cultural internacional que congrega universidades e sócios particulares, com sede na Casa de Mateus, e que tem por objectivo contribuir para fomentar o debate e o intercâmbio científico e cultural tirando partido das condições logísticas e operacionais da Fundação da Casa de Mateus. As suas actividades desenvolvem-se em torno de temas da actualidade científica, social e cultural contando com a participação de especialistas de uma grande diversidade de áreas e nacionalidades.

Sessão de apresentação do programa Mateus DOC e convite à apresentação de propostas para as duas próximas edições:

- Braga - 22 de Maio, 11h30 - Universidade de Braga - Sala dos Professores do CP II
- Coimbra - 23 de Maio, 12h - Rómulo - Centro Ciência Viva  da Universidade de Coimbra
- Vila Real - 23 de Maio, 17h - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Auditório de Geociências

PREFÁCIO A “DOIS DEDOS DE CONVERSA SOBRE O DENTRO DAS COISAS”


Meu prefácio ao livro de Bruno Nobre e Pedro Lind, da nova editora Frente e Verso, que vai ser lançado amanhã, pelas 18h30m, na Livraria Férin, em Lisboa:

Bruno Nobre e Pedro Lind têm em comum o facto de pertencerem à mesma geração – a geração que tem hoje trinta e poucos anos – e de terem feiro um doutoramento em Física. E têm em comum o gosto pela troca de ideias e posições. Os dois apresentam-se, nas páginas deste livro, com atitudes opostas perante o divino: o primeiro, padre jesuíta, é evidentemente crente, ao passo que o segundo se declara convictamente ateu. A conversa entre eles anda à volta das relações entre ciência e religião, da realidade dos milagres e do lugar de Deus no mundo, da origem e destino do ser humano, dos valores e do sentido da vida, da fé e do seu proselitismo, do racionalismo e do relativismo. A forma é a epistolar. Os argumentos são esgrimidos pelos dois em prosa sábia, fluida e elegante. Ao contrário do que é costume nos debates entre nós, cada um escuta o outro com atenção e responde-lhe com honestidade. É um prazer, depois da agradável leitura, escrever um prefácio, na companhia inspiradora do Doutor João Lobo Antunes.

Nas suas primeiras cartas o Bruno e o Pedro interrogam-se sobre a compatibilidade entre ciência e religião. A respeito desta questão, o físico e teólogo Ian Barbour (com obras clássicas sobre o tema, que de resto o presente livro não se esquece de citar [1]) ensaiou uma tipologia que sistematiza as diversas posições. A primeira é a visão de incompatibilidade e conflito, defendida entre outros pelo físico Francis Crick, o descobridor da estrutura do ADN, e, mais modernamente, pelo biólogo Richard Dawkins, o polemista que apoiou a ideia dos autocarros britânicos com anúncios ateus. A segunda é a da compatibilidade entre ciência e religião por estas serem “magistérios distintos”. Esta é a tese defendida, entre outros, pelo teólogo protestante Karl Barth, e pelo biólogo Stephen Jay Gould: ciência e religião perseguem objectivos diferentes, usando meios diferentes, pelo que pouco terão a dizer uma à outra. A terceira é uma visão que, afirmando ainda a compatibilidade, vai mais longe, vendo na ciência e na religião uma certa margem de sobreposição: as duas podem, por isso, ganhar ao falar uma com a outra. Defendem uma posição desse tipo John Polkinghorne, que de professor de Física passou a padre anglicano vendo conexões entre a teoria do caos e a teologia natural, ou o físico Fritjof Capra, que descortina conexões entre a física moderna e religiões orientais. Por última, a quarta, e mais temerária, procura a integração ou conciliação completa das duas actividades humanas: neste caso a compatibilidade seria  total, assegurada pela convergência. Esta é a posição do naturalista  Edward O. Wilson, fundador da sociobiologia e defensor da ideia de “consiliência”, para quem a ciência acabará de certo modo por explicar a religião, ou, num plano bastante diverso, do paleontólogo e teólogo jesuíta Teilhard de Chardin, para quem o mundo é melhor descrito por um olhar sincrético. Onde se situam, neste quadro, os nossos interlocutores?

A virtude está no meio. Estão entre a segunda e a terceira, entre a independência e o diálogo. Os dois concordam que ciência e religião são independentes, não se podendo por isso confrontar como num jogo em que só um pode ganhar.. De facto, não surge neste livro um embate frontal entre ciência e religião. Tendo os dois autores formação e experiência científica, seria aliás difícil que algum deles permitisse que a ciência saísse ferida. A compatibilidade entre ciência e religião é aliás demonstrada pela existência de sacerdotes que fazem ciência. O Bruno não vê, na fé que professa e transmite, qualquer dificuldade em cultivar a física das partículas elementares, tal como o padre católico belga Georges Lemaître, um dos proponentes do modelo do Big Bang da origem do Universo, não considerava o seu exame do céu primordial uma procura de Deus. Foi ele que afirmou:

“O investigador cristão tem de dominar e aplicar com sagacidade a técnica apropriada para o seu problema. Os seus meios de investigação são os mesmos que os do seu colega não-crente... Num certo sentido, o investigador abstrai da sua fé na sua investigação. Ele faz isso não porque a sua fé lhe poderia causar dificuldades, mas sim porque ela não tem diretamente nada a ver com a sua actividade científica. Afinal, um cristão não age de forma diferente do que qualquer não-crente, quando se trata de  caminhar ou de correr." [2]

Está aqui bem expressa a ideia do “duplo magistério”. Esta separação de águas, possível dentro da mesma pessoa, pode ser remontada a Galileu, um homem de fé que não perdeu a fé diante do Tribunal da Inquisição, quando se viu no lugar de actor principal num drama que marcou a história das relações entre igreja e ciência, hoje já resolvido após o papa João Paulo II ter admitido um erro de juízo. Para Galileu, e como ele próprio escreveu numa carta à grã-duquesa Cristina de Lorena citando o cardeal Baronius, bibliotecário do Vaticano, “a intenção do Espírito Santo é  ensinar-nos como ir para o céu e não como o céu se move” [4]. Um outro cardeal italiano, este moderno, Gianfranco Ravasi, que preside à Congregação da Cultura, considera que esta frase, mais do que digna de um cientista, é digna de um teólogo. No seu livro Breve História da Alma, numa secção significativamente intitulada “Tinha razão Galileu, o teólogo”, escreve: “Tinha razão Galileu – que, neste caso, se revelava melhor teólogo do que os seus opositores teólogos”. [4]

Por outro lado, os dois autores deste livro abordam, na sua discussão, algumas questões sensíveis na zona de contacto entre ciência e religião, às quais respondem com a sua mundividência  individual.. Percebe-se que há, ou pode haver, algum interacção entre ciência e religião. Ravasi, depois de apontar a independência entre ciência e religião, observa que há elementos que a ciência e a religião partilham: “Como aconteceu também no debate sobre a evolução, a tentação do derrube das fronteiras é sempre forte, até porque é idêntico o objecto examinado pela ciência e pela teologia ou filosofia, quer dizer, o homem.”  Tem razão, Ravasi, o teólogo. Tanto a ciência como a religião são pertença do humano, constituindo-se como dimensões diferentes do mesmo ser. É tão humano querer conhecer o mundo como aspirar ao outro mundo. E só se pode compreender o homem quando se olha para tudo aquilo que ele faz. É o facto de ciência e religião terem por origem e destinatário o ser humano que permite que as duas coloquem por vezes questões semelhantes ou mesmo idênticas, embora lhes respondam de modos diferentes, dadas as diferenças não só dos seus objectivos mas também da sua metodologia.

O diálogo entre crentes e ateus vai, claro, muito além das relações entre ciência e religião. Tal acontece quando está em causa o modo diferente de olhar a vida por pessoas que receberam o dom, ou graça, de acreditar no transcendente, quer dizer, a fé, e por outras que não o receberam. O que é a fé? Santo Agostinho disse que “fé é acreditar naquilo que não se vê; a recompensa é ver aquilo em que se acredita”.  Há decerto um hiato, um salto, entre a crença e a não crença. Pode-se tê-la ou não tê-la. Pode-se ganhá-la ou perdê-la. Mas será que só esse dom ou graça pode dar sentido à vida? Será que os valores individuais e sociais, a ética, têm de radicar apenas na religião? É óbvio, e fica mais óbvio após ler uma carta do Pedro, que não. É possível uma ética que não entronque na ideia de Deus. Ninguém poderá dizer que, por exemplo, o físico Albert Einstein, que não acreditava em Deus (pelo menos no Deus pessoal do Antigo Testamento, acreditando antes numa religiosidade cósmica à moda de Espinosa), não tivesse um sentido da existência humana extremamente impregnado de ética. Mas foi ele que afirmou, numa linha seguida aqui pelo Pedro, que a ética era um assunto puramente humano:

“Eu não acredito na imortalidade do indivíduo, e considero a ética como uma questão exclusivamente humana sem qualquer autoridade sobrehumana por trás." [5]

Foi Einstein que o disse, mas o mesmo poderia ter sido dito por alguém sem formação científica. Tal posição nada tem a ver com a ciência de Einstein.

O diálogo entre crentes e não crentes tem sido cultivado nos últimos tempos pela Igreja Católica. O papa emérito Bento XVI ainda só era cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, quando, num diálogo público no ano 2000, em Roma, com o filósofo ateu Paolo Flores d’Arcais sobre se Existe Deus?, declarou que a “fé não deve impor-se com o poder – isso é um grande pecado e um grande erro – mas propor-se à evidência da razão e do coração”, ao que o seu interlocutor respondeu que ”é possível viver sem fé: a fé não é necessária para dar sentido à própria existência, pode conferir-se sentido à existência de muitas formas” [6].  Mais modernamente, o cardeal Ravasi tem organizado o chamado Pátio dos Gentios, um lugar de discussão com toda a gente fora do templo, numa alusão ao famoso sítio no exterior do templo de Salomão, em Jerusalém, destinado aos não judeus (num episódio dos Actos dos Apóstolos, S. Paulo é acusado de ter feito entrar um grego no templo). Esses encontros disseminaram-se, a partir de Itália, no mundo, tendo chegado a Portugal. Os livros que retratam esses debates [7] e a presente obra mostram como podem ser enriquecedores os diálogos desse tipo. Revelam-se afinidades que não eram à partida evidentes. Tanto um crente como um não crente podem acreditar (uma palavra a que nenhum deles nem quer nem pode renunciar!) que o mundo de amanhã pode ser melhor, pelo menos um bocadinho melhor. Esta é uma crença que conduz à acção, que preside à acção. Podemos, de facto, tornar o mundo de manhã melhor. Se esse esforço se chama redenção, a redenção é uma vontade comum de pessoas que pareciam estar em campos diametralmente opostos. E a acção pode ser comum.

NOTAS:

[1] Ian Barbour, Religion and Science: Historical and Contemporary Issues, New York HarperCollins, 1997, e  When Science Meets Religion, Enemies, strangers, or partners, ibid., 2000. Ver também Peter Harrison (ed.), The Cambridge Companion to Science and Religion, Cambridge: Cambridge University Press, Cambridge, 2010
[2] Odon Godart and Michał Heller, Cosmology of Lemaitre, Tucson: Pachart Publishing House, 1985.
[3] Carlos  Fiolhais, “Em busca de sentido: ciência e religião”, in Secretariado Diocesano de Evagelização e Catequese, Em Busca de um sentido: Ateísmo e crença na construção da pessoa que ama, Coimbra:  Gráfica de Coimbra 2, 2012
[4] Gianfranco Ravasi, Breve História da Alma, Lisboa: D. Quixote, 2011.
[5] Alice Calaprice (ed.), The Ultimate quotable Einstein, Princeton: Princeton University Press, 2011, with a Foreword by Freeman Dyson.
[6] Joseph Ratzinger e Paolo Flores d’Arcais: Existe Deuis? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo, Lisboa: Pedra Angular, 2009.
[7] Gianfranco Ravasi et al., O Átrio dos Gentios. Crentes e não-crentes perante o mundo e hoje, Lisboa: Edições Paulinas. 2012., e Lorenzo Fazzini, Diálogos no Pátio dos Gentios. Onde os Laicos e os Católicos se encontram, Braga: Diário do Minho, 2012.

I Colóquio Luso-brasileiro de História da Alimentação

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Nos próximos dias 31 de Maio e 1 de Junho, decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Montemor-o-Velho e Tentúgal o I Colóquio Luso-brasileiro de História da Alimentação. 

Trata-se de um primeiro grande passo no sentido de aproximar as pessoas que dos dois lados do Atlântico têm dado visibilidade, em português, a esta temática de reflexão.

Apresentação:

Os estudos sobre o que vulgarmente se tem chamado de “História e Culturas da Alimentação” vêm assistindo, nas últimas décadas, a um crescente impulso, tanto em Portugal como no Brasil. O interesse do meio académico e do público em geral sobre a percepção do fenómeno alimentar (nas suas vertentes social, cultural, histórica e artística, sem descurar a dimensão nutricional/dietética) revela-se um tema de discussão cada vez mais atractivo e capaz de criar novas formas de diálogo entre os universos da investigação e do ensino académicos e as esferas civis dos profissionais do sector do turismo cultural e gastronómico, bem como da busca da certificação de produtos regionais, que se distingam pela pertença a um património histórico identitário digno de preservação, visibilidade e divulgação nacional e internacional. Entendemos, pois, ser o momento de iniciarmos um diálogo, a partir dos investigadores e docentes do ensino universitário português, com os investigadores e profissionais ligados à temática da gastronomia no Brasil. Este evento permitirá uma troca fecunda de conhecimentos, mas também uma aproximação, que naturalmente brota de uma história (também alimentar!) comum, que se desejam ilustrativas dos avanços a que, dos dois lados do Atlântico, unidos por um idioma e um património, se tem assistido no domínio de uma “História da Alimentação” dialogante com o mundo actual.

Mais informações aqui.

Estudos sobre a filosofia na Europa e em Portugal: De Antero de Quental a Leonardo Coimbra

Informação chegada ao De Rerum Natura. 


Apresentação do livro de Henrique Jales Ribeiro, Estudos sobre a filosofia na Europa e em Portugal: De Antero de Quental a Leonardo Coimbra, Coimbra: MinervaCoimbra, 2013

Pelo Prof. Doutor Mário Santiago de Carvalho, na sala Victor de Matos (6.º piso da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), no dia 30 de Maio de 2013, às 18:00 horas,

Seguida de conferência pelo autor com o título: Filosofia e Ciência na segunda metade do século XIX.

Sobre o livro:

Praticamente pela primeira vez na historiografia sobre a filosofia em Portugal das últimas décadas, e tendo em vista o estudo do pensamento e das obras de Antero de Quental e Leonardo Coimbra, bem como das respetivas conexões, mostra-se exaustivamente neste livro como e porque é que o contexto fundamental das ideias filosóficas no nosso país – da segunda metade do século XIX ao primeiro quartel do XX – é geralmente o mesmo dos outros grandes países europeus, como a Alemanha, a França, a Inglaterra e a Itália. Uma caraterização e cuidadosa análise deste contexto é apresentada ao longo de quatro capítulos, e, com ela, é oferecida uma reconstrução das filosofias desses e de outros autores portugueses do mesmo período, que não só ilumina a sua leitura de uma perspetiva inteiramente nova e original, como mostra a sua eventual atualidade para nós hoje em dia. Este livro – contra uma historiografia nacionalista e patrioteira – é uma ferramenta indispensável para todos aqueles que se interessam pelo estudo da filosofia em Portugal, e que acreditam que o verdadeiro terreno desse estudo não é outro senão o da filosofia na Europa e no Ocidente no seu conjunto.

XV Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico

Informação chegada ao De Rerum Natura.


Está aí o XV Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico.
Começou em Abril e prolongar-se-á até 18 de Julho.
São 18 iniciativas desenvolvidas em múltiplos espaços.

Será um prazer podermos contar com a vossa presença.
A entrada é livre.

Domingo, 19 de Maio de 2013

LANÇAMENTO DO LIVRO "DOIS DEDOS DE CONVERSA SOBRE O DENTRO DAS COISAS"

No dia 21 de Maio de 2013, às 18h30, na Livraria Ferin, no Chiado – Lisboa, tem lugar a apresentação do livro Dois Dedos De Conversa Sobre o Dentro das Coisas – Um Crente, Um Ateu e a Verdade Como Provocação.


O evento conta com a presença dos autores, Bruno Nobre e Pedro Lind e a intervenção do professor Carlos Fiolhais.

João Lobo Antunes e Carlos Fiolhais são os autores dos prefácios que introduzem esta obra, que reporta a correspondência entre os dois físicos, um crente, jesuíta, e um ateu, num diálogo intenso e sugestivo sobre o modo de entender a relação entre a ciência e a religião.


Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

O que é um filme de ciência? (A)Mostra tenta encontrar resposta

(Informação recebida da Associação Viver a Ciência)



Resposta à pergunta "O que é um filme de ciência?" procura-se na (A)MOSTRA | Filmes e Ciência, a realizar no domingo, dia 26 de Maio, no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa.

A busca faz-se através da projecção de sete filmes portugueses com características bem distintas, desde longas-metragens documentais a vídeos educativos e episódios de séries televisivas.A (A)Mostra é comissariada pela Associação Viver a Ciência (VAC) e promovida pela organização do Congresso de Comunicação de Ciência Sci Com PT 2013 (que acontece a 27 e 28 de Maio).

Programa:

26 de Maio*, Auditório do Pavilhão do Conhecimento (PACO)
*Evento aberto ao público e de entrada livre

14h: Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um geógrafo (2010; António João Saraiva e Manuel Carvalho Gomes)

15h: ANGST (2010; Graça Castanheira)

16h15: Curtas-metragens
:: A flor, a formiga e a borboleta ameaçada (2008; Bruno Cabral, Ivânia West e Patrícia Garcia-Pereira)
:: EX VIVO, aquilo que tem lugar fora do organismo (2012; Júlio Borlido, André Macedo e Augusto Gomez)
:: Nós, os fantásticos seres vivos: uma breve história sobre Evolução (2012; Osvaldo Medina)
:: LPDJLQH D VHFUHW (2010; Armindo Albuquerque Moreira)
:: A tabela é mesmo periódica (Antestreia: 2013; Rui Brás)

17.20h: DEBATE: O que é um filme de ciência?
Com:
Graça Castanheira (ANGST),
Bruno Cabral (A flor, a formiga e a borboleta ameaçada),
André Macedo (EX VIVO, aquilo que tem lugar fora do organismo)
Osvaldo Medina (Nós, os fantásticos seres vivos)
Rui Brás (A tabela é mesmo periódica)
Manuel Carvalho Gomes (Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um geógrafo)
Armindo Albuquerque Moreira (LPDJLQH D VHFUHW)

Moderação:
Martin Pawley (produtor, programador, crítico de cinema e divulgador de ciência. Responsável  pela Mostra de Ciencia e Cinema da Coruña).


A próxima sessão de milplanaltos é já na próxima terça, 21 de Maio.
Carlota Simões apresenta 'O número de ouro. De Camões a Almada Negreiros'.

Contamos com a vossa presença no Museu da Ciência, às 16 horas.



“A proporção áurea ou razão de ouro aparece regularmente na Arte desde pelo menos o Séc. V a.C., quando o arquitecto Phideas a utilizou na concepção do Parténon. Desde então, este número tem surgido pela mão de artistas de diversas épocas e formas de arte, seja na pintura de Giotto, na música de Bartok, na poesia de Camões, na arquitectura do Iluminismo, nas construções de Le Corbusier ou nas obras de Almada Negreiros.
Data de 1509 a obra De Divina Proportioni de Luca Paciolli. Pedro Nunes refere-a nos seus livros, e pode tê-la feito chegar a Camões, que, alegadamente, terá utilizado a razão de ouro na sua obra. Finalmente, e celebrando os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros, iremos conhecer a sua obsessão com as proporções – entre as quais o número de ouro – culminando na última obra da sua vida, Ode à Geometria.”
Nota biográfica
Carlota Simões é Professora Auxiliar do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, é membro do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e actualmente é Vice-Directora do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. 
Um dos seus principais interesses é a divulgação da Matemática, que concretiza através de artigos, palestras ou actividades interdisciplinares.

Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

A CIÊNCIA LUSA


MEU ARTIGO NO ÚLTIMO JL (JORNAL DE LETRAS):

A exposição 360º Ciência Descoberta, que está na  Fundação Gulbenkian, comissariada por Henrique Leitão, é imperdível. Pela primeira vez o público pode ver uma grande mostra, bem planeada e apresentada, sobre o período de ouro da ciência portuguesa, a época dos Descobrimentos, que teve lugar nos séculos XV e XVI. Não se trata de uma exposição sobre os Descobrimentos – outras houve como Encompassing the World, que esteve há anos em Washington antes de vir para o Museu da Arte Antiga – mas sim sobre a ciência dos Descobrimentos, que inclui tanto a ciência náutica que permitiu as navegações em mar aberto, como as descobertas que, nos domínios da geografia, da meteorologia e da história natural, acrescentaram saber ao saber anterior sobre o mundo.

Num volume sobre a história do mundo, Portugal aparece numa página, ou pelo menos nuns parágrafos, precisamente por causa do seu papel na expansão marítima do Ocidente. Os portugueses estavam no sítio certo na hora certa. E os navegadores lusos aventuraram-se sem vacilar, nos vastos oceanos, primeiro o Atlântico e depois o Ìndico e o Pacífico.  Alguns autores chamam justamente  a esse período o da primeira globalização. Foram os primeiros ocidentais a ver novos céus, novas terras, novas espécies e novas gentes. Isso não se conseguiu fazer sem ciência e tecnologia e não se fez sem se acrescentar ciência e tecnologia à que já se tinha. Ora, se o papel das descobertas explorações portuguesas consta dos livros de história mundial, já o mesmo não se pode dizer em relação à história da ciência do papel que os portugueses desempenharam nesse período. Se se abrir um livro estrangeiro de história da ciência, a ciência portuguesa não aparece ou quase não aparece. Uma das razões foi o facto de a história da ciência se ter centrado talvez excessivamente na Revolução Científica, que eclodiu convencionalmente em 1543, o ano em que saíram os livros de Copérnico (A Revolução dos orbes celestes) e de Vesálio (A Fábrica do corpo humano), quando a epopeia portuguesa já começava a esmorecer. A tal ponto que algumas histórias da ciência começam só nessa altura o seu relato. Depois desses grandes nomes seguem-se outros como Galileu, Kepler, Newton e Harvey, numa narrativa  pontuada pelas obras desses heróis da ciência.

Ora, como bem ilustra a exposição, a Revolução Científica não só foi precedida pela expansão portuguesa como.não teria sido possível sem esta. Os portugueses – e também os espanhóis – protagonizaram uma Pré-Revolução Científica, sem nomes tão sonantes mas numa acção decisiva para se adquirir uma nova visão do mundo, caracterizada pelo empirismo. “Vi, claramante visto”, escreveu Camões, ecoando Garcia da Orta, o seu amigo na Índia. O livro recente de história da ciência mundial que começa muito antes da Revolução Científica Science: a four thousand years history, da autoria da historiadora de ciência inglesa Patrick Fara,  é um dos poucos que refere os portugueses dos séculos XV e XVI. Fala da qualidade dos mapas lusitanos (dos “portulanos” do Mediterrâneo passou-se para as cartas da costa de África e a seguir para a cartografia da costa asiática), fala do rinoceronte que Duerer desenhou com base num esboço do exótico animal que o rei D. Manuel I tentou oferecer ao Papa, e fala ainda das plantas da América do Sul, que portugueses e espanhóis trouxeram para a Europa, modificando o regime alimentar da cristandade. A exposição da Gulbenkian exibe em destaque alguns livros raros, alguns únicos porque manuscritos, como o Ars nautica e o Liuro da fabrica das naus de Fernando Oliveira, ou o Esmeraldo de situ orbis, de Duarte Pacheco Pereira. Mas, em consonância com Fara, mostra os mapas mais sofisticados de há quinhentos anos, um rinoceronte embalsamado e várias das espécies vegetais que cruzaram os oceanos em direcção à Europa. E mostra também as tecnologias da construção naval (a caravela) e da navegação astronómica (o astrolábio). Embora não elabore muito sobre a medicina e farmácia da época (há sobre isso um livro recente: Germano de Sousa, História da Medicina Portuguesa durante a Expansão, Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2013), tem patentes algumas obras médicas e vasos de botica..

A exposição invoca os grandes cientistas portugueses: Pedro Nunes, Garcia da Orta e D. João de Castro. O primeiro, sem nunca ter entrado num barco, criou com base na matemática a ciência da navegação astronómica, o segundo escreveu em português sobre as plantas da Índia, e o terceiro, na carreira da Índia, realizou  as primeiras medidas de geomagnetismo global. De Nunes pode o visitante ver o “manuscrito de Florença”, o único que chegou aos nossos dias, de Orta os Colóquio dos simples da Biblioteca a Nacional, e de D. João de Castro um manuscrito conservado na Biblioteca de Évora. Para perceber melhor a exposição, o leitor não pode deixar de levar para casa o excelente catálogo, com um excelente preço, onde sencontram reproduções destas e doutras peças expostas.

- Henrique Leitão (coordenador), 360º Ciência Descoberta, Lisboa: Fundação Gulbenkian, 2013.

HISTÓRIA DA CIÊNCIA NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Meu texto que acaba de sair na revista RESISTANCE dos alunos de Física da Universidade de Coimbra:

Tem aumentado muito o interesse entre nós pela história da ciência, em particular a história da ciência em Portugal e, dentro desta, pelo papel essencial desempenhado pela Universidade de Coimbra. Em Coimbra esse interesse é ampliado pela candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial, cujo resultado vai ser conhecido em Junho.

O Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra submeteu com êxito um projecto sobre este tema que tem produzido abundantes frutos. Com efeito, meia centena de investigadores das Universidades de Aveiro, Coimbra e Évora têm trabalhado desde 2000 no projecto História da Ciência na Universidade de Coimbra (1547-1933), que beneficia do apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia. No âmbito desse projecto, procedeu-se à recolha de fontes documentais sobre o tema em causa. Foi efectuada nos ricos acervos das bibliotecas e arquivos de Coimbra uma selecção de fontes históricas a digitalizar, tendo sido contratada uma bolseira que ficou a trabalhar na Biblioteca Geral. Os documentos digitalizados foram colocados no sítio http://almamater.uc.pt (Repositório de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra), onde estão acessíveis a todos. Por outro lado fez-se uma selecção de peças das colecções do Museu da Ciência para inventariar e fotografar, tendo sido contratada uma segunda bolseira que ficou a trabalhar no Museu de Ciência.  As imagens foram colocadas no sítio Museu Digital.

Dois encontros internacionais foram realizados no quadro do projecto. Teve lugar em 2010, na Biblioteca Joanina um Colóquio e uma Exposição sob o tema Membros Portugueses da Royal Society organizado em colaboração com a Royal Society, que deu origem a um livro bilingue com esse mesmo título. E, em 2011, ocorreu em Coimbra o Congresso Internacional de História da Ciência. Participaram cerca de 200 investigadores de Portugal e do Brasil, tendo sido publicadas actas em formato electrónico.

O congresso foi um êxito pela oportunidade que constituiu de divulgar estudos recentes assim como pelo encontro de historiadores da ciência dos dois lados do Atlântico. Um livro contendo as comunicações principais vai aparecer em breve do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra: História da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil. Ainda no domínio da edição, foram publicados em 2010 o livro Breve História da Ciência em Portugal, a primeira síntese em livro da história da ciência nacional, e o catálogo Ver a República referente a uma exposição realizada na Biblioteca Geral, no Museu da Ciência e no Museu Nacional Machado de Castro sobre o centenário da República, e foram concluídas várias teses doutorais. Para além disso, foram publicados numerosos trabalhos de investigação em revistas internacionais e nacionais. A página Web do projecto encontra-se aqui, podendo lá ler-se algumas sínteses históricos sobre vários aspectos da história da Universidade de Coimbra, algumas das quais vão também sair em breve num volume intitulado História da Ciência na Universidade de Coimbra. 

Relacionado com o trabalho realizado neste projecto, foi aprovado um novo programa doutoral em História das Ciências e Educação Científica, organizado em conjunto pelas Universidades de Aveiro e Coimbra. Agora todos os interessados em aprofundar estudos sobre história da ciência têm mais uma possibilidade para o fazer.

"Do meu lavrar na areia..."

(Em continuação: aqui)

S. Bababoião, Anacoreta e Mártir, romance de Aquilino Ribeiro, dado à estampa em 1937, foi dedicado ao amigo advogado, que declara muito estimar, José Gomes Mota. É a ele que se dirige para explicar que, nesta obra, decorrente de "imaginária pura", quis dar, muito modestamente, sem intelectualismos filosóficos, metafísicos ou outros, voz a uma preocupação que, por ser tão simples deve ser tratada de modo simples. "A minha preocupação foi dar o conflito do espiritual e do humano de modo concreto, qual deles por baixo, qual deles por cima". E assim, no seu "lavrar na areia", o fez...


"Leva que leva por atalhos e caminhos esgarrados, daqueles em que os santos soltavam palavrões e as cabras rompiam o casco, veio-lhes vontade de comer. Beltrasanas, instruído nas produções da pródiga natureza, pôs-se à busca de pútegas, que se estava na sazão. esta planta é a parasita dos sargaços , consistindo a sua frutescência em gomos leitosos, ordenados em pinha, dum vermelho, de ananás maduro, emergindo da terra o que basta para se dar a perceber a sua coroa radiosa. Os pastores espremem-nos entre as polpas dos dedos e com regalo lhe chupam a massa tenra, levemente acidulada. Com o fruto desta planta e de panaqueijas que, em despeito da haste fina, delicada como alfinetes, deitam tubérculos brancos, maiores que ovos de tanjasno, restauraram as forças e puseram-se novamente a caminho, mais além."

Andar nas nuvens para sempre...

Li hoje que uma escola (privada) do nosso país despediu dois dos seus professores. A razão é uma fotografia que terão publicado no Facebook. A revista Visão online informa que é "o primeiro caso de conflito laboral que chega a julgamento em Portugal".

A propósito, em boa hora, os jornalistas Mário David Campos e Luís Ribeiro perguntam: Qual a fronteira entre a vida pessoal e a vida profissional? 

E especificam: Num mundo cada vez mais online (...) que ética deve seguir um funcionário, mesmo fora do horário de trabalho? Como se defende um dos valores fundamentais de uma sociedade democrática (...) a liberdade de expressão? Como ter um perfil (mesmo) privado?

A terminar, lembram aquilo que todos os utilizadores da internet deveriam saber:
Depois de cair na rede é quase impossível sair de lá. E mesmo que feche o perfil, os seus dados vão andar na "nuvem" para sempre. Por isso tome algumas precauções:
- Tenha atenção às definições de privacidade. Isso não o protege daquilo que comenta nas páginas de outros mas dá-lhe mais garantias na sua página;
- Um dos truques para evitar problemas com colegas de trabalho (ou com os chefes) é organizá-los em listas, colocando-os como conhecidos e não como amigos. Assim, se lhe sair um desabafo menos agradável sobre o chefe, ele não o lê;
- Adicione apenas pessoas que conheça e não amigos de amigos;
- Tenha cuidado com o que escreve e com as fotografias que coloca, inclusive a de perfil. Mesmo que retire o que lá colocou, a informação pode já ter sido partilhada;
- Reveja as definições periodicamente. Quando surgem novas funcionalidades, por vezes sofrem alterações.