The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

ATENÇÃO: UNIDADES CHUMBADAS TÊM QUE RECLAMAR ATÉ 23 DE OUTUBRO

As unidades que tiveram o seu recurso desfavorável no âmbito da audiência prévia, têm recebido informações contraditórias por parte da FCT. Alguma têm sido informadas que a contestação formal só poderá ser feita depois de terminada a 2º fase, outras têm tido a indicação de que o poderão fazer nos 15 dias úteis a seguir à notificação da decisão. À luz do Código de Processo Administrativo a hipótese correcta é a segunda. Apesar da FCT não ter aberto, para esta fase, a possibilidade de contestar através da plataforma, esta deve ser feita fora da plataforma e dirigida ao Presidente da FCT.

Transcrevemos uma mensagem do SNESup acerca deste assunto:

Estimados Coordenadores de Unidades de Investigação,

(...)

O SNESup vem por este meio informar que, de acordo com o artigo 23º do regulamento do concurso, as unidades que não viram o seu recurso favorável após a audiência de interessados podem (e devem), apresentar reclamação, nos 15 dias uteis após a notificação da decisão, junto do conselho diretivo da FCT. Assim, para as unidades que foram notificadas no dia 2 de outubro, o prazo para apresentar esta reclamação termina no próximo dia de 23 Outubro. Esta reclamação tem a grande vantagem de obrigar a FCT a nomear um novo júri para fazer a avaliação, pelo que incentivamos todas as unidades que se sintam prejudicadas com o processo a apresenta-la.

A direção da FCT tem a obrigação de dar resposta a esta reclamação no prazo de 30 dias uteis, ou seja, até 5 de Dezembro de 2014.

As unidades de investigação que vierem a ter resposta desfavorável à sua reclamação, assim como todas aquelas que não tiverem resposta até 5 de dezembro, tem mais 90 dias consecutivos para interpor uma ação em tribunal com o objetivo repor a justiça e legalidade no processo.

Também Informamos que:

1 - O SNESup disponibiliza apoio jurídico a todas as unidades de investigação que necessitem de recorrer aos tribunais para repor a justiça;

2 - As unidades de investigação (mesmo sem número fiscal) têm legitimidade para interpor a Acão em tribunal;

3 - Os custos associados a um processo deste tipo só se aplicam se a decisão vier a ser desfavorável às unidades e, correspondem a 612 euros (resolução numa primeira instância, distribuídos em duas partes: 306 euros no início mais 306 euros no final) ou no máximo de 1800 euros se se apresentar recurso, esgotando todas as possibilidades legais para um processo deste tipo.


SNESup - Sindicato Nacional do Ensino Superior
Associação Sindical de Docentes e Investigadores
www.snesup.pt

Av. 5 de Outubro,104, 4º - 1050-060 LISBOA - Telefone 217 995 660 - snesup@snesup.pt 
Pr. Mouzinho Albuquerque, 60, 1º - 4100-357 PORTO - Telefone 225 430 542 - snesup.porto@snesup.pt 
Estrada da Beira, 503, R/C, A - 3030-173 COIMBRA - Telefone 239 781 920 - snesup.coimbra@snesup.pt

domingo, 19 de Outubro de 2014

“O Moedas, o Moedas! Eu punha já o Moedas a funcionar”

O título de cima foi uma frase de um membro da família Espírito Santo, numa reunião gravada do grupo Espírito santo. Ricardo Salgado, o chefe do BES ,  pegou no telefone e ligou imediatamente a Carlos Moedas "para o pôr a funcionar": Queria que facilitasse ao BES um contacto com um ministro do Luxemburgo e com o Presidente da Caixa Geral de Depósitos. O Eng. Moedas, funcionando, anuiu e afirmou que ia fazer o que lhe era pedido.

Não fui uma das pessoas que vituperou Moedas quando ele foi indigitado comissário europeu para a ciência. Mas, com notícias destas, o começo dele não está a ser nada bom. Esta informação relativa ao seu passado recente mostra a sua estreita ligação a grandes banqueiros responsáveis por calamidades financeiras. Alguém imagina algum grande cientista, um prémio Nobel ou à nossa escala um colaborador de prémios Nobel como Nuno Peres, a telefonar ao Eng. Moedas? Mas os banqueiros telefonam devido  talvez  à passagem do comissário indigitado pela Goldman Sachs. O Eng. Carlos Moedas não conhece a grande ciência  (nem sequer conhecia Nuno Peres, o cientista português mais citado da última década, conforme revelou  ao jornal I). mas, em contrapartida, conhece a grande banca. Começamos a recear pela ciência europeia.

Censura europeia e lápis azul na ciência

O professor universitário de Economia Francisco Lousã escreve no Público sobre a censura europeia à ciência: aqui.

CONSELHO CIENTÍFICO DA FCT AFIRMA QUE AVALIADOR FOI FORÇADO A DESCER NOTA

Num documento de 6 de Outubro intitulado "Relatório-síntese Reações das Unidades de I&D à 1.ª  Fase de Avaliação", o Conselho Científico para as Ciências Sociais e Humanas da Fundação para a Ciência e Tecnologia - FCT critica duramente o processo de avaliação em curso das unidades de investigação, ao dar voz às posições de unidades dessa área, que foram auscultadas. A maior parte das que respondera apontaram  erros graves no processo.

O documenta elenca três aspectos positivos e nove aspectos negativos, entre os quais:
h) Condicionamento dos/as avaliadores/as. Este aspeto foi referido por uma única unidade de I&D. No entanto, a gravidade do que foi relatado leva-nos a incluir esta referência. No contributo da unidade respetiva, cita-se o seguinte comentário, com indicação concreta do Reviewer: “5/5 overall for C would be right; since I am not allowed this mark, it has to be 4”.
É significativo que um dos Conselhos Científicos da própria FCT expresse duras críticas ao processo (afinal, a maioria silenciosa, evocada por Miguel Seabra como defensora da avaliação, nem dentro das paredes da FCT se faz ouvir). Mas, como o próprio Conselho Científico afirma, é de particular gravidade o comentário do avaliador revelado. Mostra, sem margem para dúvidas, que as classificações das unidades de investigação tiveram que ser ajustadas de modo a se encaixarem na quota de 50% de passagens à segunda fase definida no contrato entre a FCT e a European Science Foundation. Era preciso baixar a nota a uma unidade, independentemente do seu mérito, para que outra pudesse passar.

O relatório completo está aqui:

sábado, 18 de Outubro de 2014

JOÃO GRANCHO, PLÁGIO E DOXOMANIA


“Quem o alheio veste na praça o despe”
Ditado popular. 

A recente notícia do Público (17/10/2014), em título de 1.ª página – “Secretário de Estado plagia textos sobre ‘dimensão moral’ da profissão docente” –, ainda que de forma indirecta, chama a atenção para a necessidade da criação de uma Ordem dos Professores para consubstanciar, num código deontológico, a “dimensão moral da profissão docente”, de que João Grancho se fez arauto público, em nítida doxomania (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “impulso excessivo e mórbido de alcançar glória”), porquanto teve ele unicamente um papel pouco relevante para a consecução desse desiderato relativamente à forte acção desenvolvida, nesse sentido, pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados.

Aliás, acção essa posta em destaque pelo Estudo Nacional, coordenado por João Ruivo (com a honestidade, a isenção e o rigor cientifico que devem presidir a trabalhos desta natureza), intitulado “Ser Professor-Satisfação Profissional e Papel das Organizações Docentes”, edição do Instituto Politécnico de Castelo Branco e Associação Nacional de Professores ((Maio 2008).

Desse estudo (ao que julgo, baseado num meu artigo de opinião no “Jornal de Notícias”, em 8 de Março de 2006, intitulado ”Ordem dos Professores e AR”), respigo: De acordo com Baptista (2006), já em Junho de 1996 o SNPL submeteu à Assembleia da República uma proposta de estatutos da possível Ordem a criar. Mais tarde, a 25 de Fevereiro de 2004, este sindicato submeteu, também à Assembleia da República, uma petição para a criação da ordem, contendo 7857 assinaturas. 

Por último, e de acordo com o autor supra mencionado, no dia 2 de Dezembro de 2005 debateu-se na Assembleia da República a petição n.º 74/IX (2.ª) do SNPL e outros para a criação da Ordem. As várias intervenções proferidas pelos deputados dos diversos grupos parlamentares também não denotaram convergência de opinião relativamente a esta matéria.

A deputada do PCP, Luísa Mesquita, centrou a sua intervenção na necessidade de haver uma maior autonomia profissional, cabendo aos professores a decisão de se criar um código deontológico para essa classe profissional. Por sua vez, para João Teixeira Lopes, deputado do Bloco de Esquerda, deveria caber ao Estado a definição dos critérios de acesso à profissão, bem como os códigos de natureza ética e deontológica. O seu argumento assenta no pressuposto de que a profissão docente assume-se como sendo um serviço público, pelo que deve ser tutelado pelo Estado. 

Já o deputado do Partido Socialista, João Bernardo, referiu que a criação de uma ordem profissional carece de uma reflexão profunda, para que não fiquem dívidas acerca das suas funções e competências, e de modo a não colidir com outras entidades profissionais.

Por último, as intervenções dos deputados do Partido Social Democrata e do CDS/PP. Fernando Antunes e Abel Baptista, respectivamente, foram muito favoráveis à criação de uma Ordem dos Professores, alegando o primeiro que “a ambição de criar uma Ordem dos Professores surge, pois, aliada a um forte sentimento de união de classe” (Baptista, 2006), e o segundo que “[…] a criação da ordem dos Professores, acrescentaria, desde logo, a dignificação da actividade docente […]” (Baptista, 2006). 

Reporto-me, novamente, a João Grancho, ex-secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, diplomado pela Escola do Magistério Primário do Porto (1980), habilitado com o Curso de Estudos Superiores em Administração Escolar, pelo Instituto Superior de Ciências Educativas, e antigo presidente da actual Associação Nacional de Professores (antiga Associação Nacional de Professores do Ensino Básico, representativa de professores diplomados pelas antigas Escolas do Magistério Primário e de Educadores de Infância) por ele ser eterno reclamante da criação de uma Ordem dos Professores, tendo anunciado, inclusivamente, “num seminário, realizado em 91, em Viseu, o firme propósito de se transformar em Ordem” (“Diário de Coimbra”, 07/05/91).

Debruço-me, agora, sobre o texto da notícia em título de 1.ª página do Público, citada no 1.º § deste meu post. Nela lê-se: “João Grancho copiou [em acrescento meu, verbo pro verbo], sem citar, partes de dois textos sobre educação numa comunicação que apresentou num seminário espanhol em 2007. O secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário recusa a acusação”.

Ou seja, João Grancho usou do seu pleno direito em ser ouvido, mas como escreveu Hubert Humprhey, “o direito de ser ouvido não inclui automaticamente o direito de ser levado a sério”. Essa recusa em aceitar a acusação recaída sobre vários textos por si copiados sem referência aos académicos seus autores, nem sequer na respectiva bibliografia, ou assinalados, no mínimo dos mínimos, com simples aspas, é fundamentada por João Grancho com a “afinidade entre o pensamento da ANP e do professor” [Reis Monteiro, professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa] que, “depois de consultar os trabalhos em causa, optou por não se alongar. Admitiu a ‘reprodução’, mas escusou-se a fazer um juízo de valor sobre o sucedido”.

Já outro dos plagiados, “João Pedro da Ponte, director do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa foi mais assertivo. ‘Isto é uma cópia integral, nem sequer houve trabalho de disfarçar, disse ao Público. ´É um tipo de prática que deve ser condenada na nossa sociedade e é de assinalar que tenha sido feito por uma pessoa com responsabilidades na Educação’, afirmou. E mais acrescentou, João Pedro da Ponte, “sobre a gravidade do acontecido”: “Nós no Instituto da Educação consideramos que – e explicamos isso aos alunos – é intelectualmente desonesto copiar um texto como se fosse feito por nós, seja um texto científico ou qualquer outro texto”.

Dado o facto de “a originalidade ser a única coisa cuja utilidade não podem compreender os espíritos vulgares” (John Stuart Mill), penso que o código deontológico de uma Ordem dos Professores serviria de travão a procedimentos de necessitados de uma bússola do que lhes indicasse os procedimentos éticos a seguir e que não se coadunam - mais do que isso, são recriminados e incriminados - com o plágio por parte dos professores de posse de uma futura cédula profissional que lhes impusesse direitos e deveres.

Aquilo que o próprio João Grancho, ao demitir-se, tem, segundo a 1.ª página do Público de hoje, como um “imperativo de consciência”. Imperativo esse, embora por si mitigado pela desculpa esfarrapada de “motivos de ordem pessoal”, como se, ao contrário de que nos diz George Bernanos, houvesse meias verdades

O medo de não cometer um erro

Existe um fenómeno no nosso sistema educativo que não consigo entender e muito menos explicar: a persistência em práticas contraproducentes, e isto mesmo quando são reconhecidas como tal.

Uma das práticas que me deixa mais desconcertada é a passagem, no início do ano escolar, de um questionário/ficha biográfica/de caracterização do aluno/de caracterização sócio-económica do aluno/do aluno e da família (as designações variam, as perguntas nem tanto). Falei várias vezes dela neste blogue (por exemplo aqui, aqui, aquiaqui), por isso, desculpem-me os leitores a insistência.

Há muitos anos que abordo o assunto na universidade, em centros de formação, em escolas, e, do que me é dado perceber, em geral, os professores, alguns deles directores de turma, entendem os argumentos (de ordem, psicológica, pedagógica, ética, legal...) que permitem afirmar tratar-se de uma prática sem qualquer suporte no conhecimento pedagógico e a que se imputam diversos efeitos nocivos para a aprendizagem. Logo, é um erro.

Quando, passado um tempo, procuro saber os "efeitos da formação", o que vejo? Que a ficha, o questionário continua a ser passado, tal e qual como era. Mais recentemente comecei a perguntar: Porquê? A resposta é desconcertante: porque tem de ser, porque alguém manda, porque a avaliação..., porque tem de constar no dossier, porque caso não se faça... Em suma, o medo!

O medo de não cometer um erro! Cometer um erro é uma segurança!
Haverá outras profissões, que não o ensino, onde isto aconteça?

ADESÃO AO MANIFESTO EUROPEU PELA CIÊNCIA CRESCE EM PORTUGAL




Portugal já é o terceiro país da Europa com maior número de assinaturas na carta aberta sobre a ciência do Euroscience. A essa posição não será estranha o enorme descontentamento que grasse entre nós a respeito da actual política de ciência em geral (o Presidente do CRUP diz que o ministro quer fazer "nata sem leite") e da "avaliação" da European Science Society em particular.

Para continuar a mostrar a toda a Europa o nosso descontentamento contra os cortes e as arbitrariedades na ciência bastará clicar aqui: .http://openletter.euroscience.org/open-letter-portuguese/

A ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PROFESSORES E O PLÁGIO

A Helena tem razão no post anterior. A atitude da Associação Nacional de Professores, de "branqueamento" do plágio de João Grancho é incompreensível. A dirigente daquela associação chegou a afirmar que a notícia do Público pretendia  impedir a subida de Grancho em breve a ministro da Educação e Ciência (mas alguém é capaz de a imaginar o ex-secretário de Estado, com o currículo limitado que tem, a ministro da Ciência?). E acrescentou que não há "fundamento efectivo" para a denúncia.  

Do Público on-line:´
Num comunicado divulgado este sábado, a direcção da ANP considera que a esses motivos [os motivos pessoais invocados]  “não será alheia a denúncia de plágio” e classifica-a como “um vil ataque pessoal, com fins inconfessáveis, e sem fundamento efectivo”. 
Em declarações ao PÚBLICO, Paula Carqueja afirmou estar “absolutamente certa” de que Grancho "seria incapaz de se apropriar intencionalmente do trabalho alheio" e disse acreditar que ele "não citou os autores na bibliografia por esquecimento". “É daquelas coisas que dizemos “faço mais logo” e depois passam”, considerou. Isso terá acontecido, reforçou, “por as ideias explicitadas nos extractos coincidirem totalmente, e se confundirem, com a posição da associação sobre a matéria que estava em causa”.
Quer dizer, para aquela Associação, que pretende representar os professores portugueses, se existir uma coincidência total de posições alguém terá uma boa desculpa para  plagiar  livremente qualquer autor. Se, por exemplo, eu estiver plenamente de acordo com Descartes poderei dizer "penso, logo existo" sem as aspas, como se fosse meu. E o mesmo para qualquer outra afirmação do filósofo francês, bastando eu concordar. É assim que a Professora Paula Carqueja ensina os seus alunos?

Neste caso o que mais me faz impressão não é isso, mas uma outra coisa. Por que é que o ministro não demitiu logo João Grancho, tendo antes esperado que ele se tivesse demitido por "razões pessoais"? Não deveria o ministro ser o guardião supremo, entre nós, da ética educativa e científica?  Não haveria neste caso razões institucionais antes das razões pessoais?

Plágio e compreensão

Escrevi, por diversas vezes, neste blogue, sobre a «grande tentação» que é o plágio académico.

O facto de vermos o plágio dessa maneira (como uma tentação, uma grande tentação, uma tentação irresistível) desencadeia, reactivamente, a nossa compreensão pelo plagiador. Esquecemos o que é o plágio - alguém apresentar a obra ou parte da obra de outrem como se fosse sua - e a sua tipificação na lista dos comportamentos académicos mais reprováveis, isto para não falar no enquadramento legal que tem.

Compreendemos a fraqueza humana, aceitamo-la e desculpamo-la. Raras são as excepções em que tal não acontece e as razões muitas vezes não se prendem com o comportamento de plágio mas com outras pouco confessáveis. Esta é a conclusão que tiro de tudo aquilo a que tenho assistido como professora e investigadora em Portugal.

Não, este texto não é para falar do caso de um Secretário de Estado da Educação que "alegadamente" (como é comum os jornalistas dizerem) terá plagiado dois autores, um dos quais é reconhecido especialista em ética e deontologia das profissões da educação. A comunicação social deu destaque ao caso (diversos artigos que lhe são dedicados estão on-line. Por exemplo, aqui), o texto desse Secretário de Estado encontra-se publicado (aqui), os trabalhos do especialista em causa encontram-se também publicados, em papel. A seguir-se o caminho dos tribunais, suponho que os juristas terão os dados à mão. Além disso, o Secretário de Estado da Educação, invocando razões pessoais, demitiu-se de imediato, saiu de cena.

O que me traz ao blogue é outra razão: a tal compreensão. A tal compreensão que se equipara em gravidade ao plágio.

No caso, ela é mesmo muito grave, e isto pelo facto de ser veiculada pela Associação Nacional de Professores. A carga simbólica não poderia ser mais desfavorável a uma classe profissional - os professores - que tem por dever educar no sentido da "honestidade intelectual".

Repare-se: uma associação de professores, com abrangência nacional, falando por todos os seus associados, vem declarar, em comunicado enviado a uma agência de notícias (não foi, portanto, a reacção espontânea e inconsequente de um membro), que a pessoa em causa:
..."é um profundo conhecedor das questões da Educação", "um referencial importante para os professores, mas também para toda a comunidade educativa, independentemente de todos os problemas com que o Ministério da Educação se defronta". 
Ora, o que é que estes atributos - "profundo conhecedor das questões da Educação, "referencial importante para os professores", etc. - têm a ver com o plágio que eventualmente tenha cometido?

Não estamos na praça pública para acusar ou para defender: a suspeita existe, as devidas instâncias poderão apurar a verdade; quem está convencido da falsidade da suspeita terá de socorrer-se de provas e não deitar mão a elementos marginais que nada contribuem para esclarecer o que quer que seja, antes parecem servir para desviar a atenção de um aspecto para outro ou, até, para desculpar o indesculpável.

Se o leitor estivesse no lugar desse Secretário de Estado não gostaria, certamente, que alguém, sobretudo se fosse professor, enaltecesse o seu carácter ou trabalho, gostaria, sim, que o ajudasse a defender-se de uma acusação concreta.

"DEMISSÃO NA EDUCAÇÃO": UM MINISTÉRIO QUE SE DESFAZ

Este é um título de primeira página do Expresso, que dá conta da demissão do secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, na sequência do caso de plágio revelado pelo Público. A  notícia remete para a p. 19. Abrimos e ficamos a saber no título: "Equipa de Educação pronta a ficar". E na conclusão do texto: "E, afinal, está tudo bem." O ministério da Educação e Ciência está a desfazer-se tão rapidamente e a tal ponto que os jornalistas já nem tempo têm para actualizar as notícias no interior dos seus jornais. Agora o ministro vai nomear mais uma pessoa, a terceira nesta legislatura naquele lugar,  e vai dizer aos jornalistas que está tudo bem. Não está. Infelizmente não está. A Educação está mal. E a Ciência ainda está pior. No mesmo Expresso o Reitor dos Reitores, Prof. António Cunha, diz, preto no branco e em titulo de letras garrafais, "Houve esforços do governo para acabar com a Ciência". É verdade, mas esses esforços prosseguem: o desacreditado processo de "avaliação" das unidades científicas continua, à pressa e de uma forma atabalhoada, violando as regras mais elementares do que deve ser uma avaliação.

UM PLANETA ROCHOSO


A nossa Terra, um dos quatro planetas rochosos ou telúricos do Sistema Solar, tem nas rochas os seus principais constituintes. O estudo destes “documentos” naturais é, pois, tema central da geologia.

As rochas a que temos acesso directo representam uma pequeníssima mas importante parcela das resultantes da respectiva diferenciação e, à semelhança da água, do ar e dos seres vivos, são o resultado de imensas transformações, numa vasta e complexa rede de interacções ocorridas ao longo dos cerca de 4670 milhões de anos da sua história, plena de energia interna (sob a forma de calor) a que se adiciona toda a que lhe chega através da radiação solar. Como escreveu, em 1998, o malogrado Prof. Maurice Mattauer (1928-2009), “as rochas nascem, vivem e morrem. Como nós, elas têm uma idade e uma história”.

Os conhecimentos directos de que dispomos relativos às rochas da Terra limitam-se aos que se obtêm do estudo dos afloramentos rochosos de que dispomos à superfície, das amostras recolhidas em dragagens e perfurações nos fundos marinhos e das retiradas do subsolo, quer em minas, quer através de sondagens. As respectivas profundidades, que andam à roda de 3 km no primeiro caso e 11 km no segundo (na península de Kola), podem considerar-se insignificantes, se comparadas com as três a quatro dezenas de quilómetros de espessura média da crosta continental.

A imensa maioria das rochas que podemos observar e colher (para estudar) nos referidos afloramentos foram geradas na crosta continental em resultado de afundamentos próprios da génese das montanhas, que podem ir até os 60 ou 70 km abaixo dos nossos pés e, posteriormente, trazidas à superfície, na sequência da elevação das mesmas e, subsequentemente, postas a descoberto pela erosão. Esta realidade permite-nos inferir acerca da generalidade das rochas que integram a totalidade da crosta continental.

Abaixo da crosta, algumas rochas, oriundas dos níveis mais periféricos do manto superior, afloram, por vezes, incluídas em ofiolitos [1]. Outras, existentes a muito maiores profundidades, inclusivé do manto inferior, têm, em certas situações, possibilidade de ascender à superfície do planeta, onde as podemos observar. É, nomeadamente, o caso encraves ou xenólitos [2] incluídos em lavas próprias dessas profundidades.

Em qualquer dos casos, há, certamente, diferenças entre o material chegado e exposto à superfície e o que ele foi no local de onde foi trazido. Mesmo assim, desprezando possíveis diferenças, os conhecimentos obtidos por esta via continuam a referir-se a uma delgada capa externa, mínima quando comparada com os cerca de 6370 km de raio desta quase esfera que é o nosso planeta. Na ilha da Madeira, por exemplo, são frequentes os xenólitos olivínicos [1] (à semelhança do da figura) que ascenderam à superfície no seio das lavas envolvidas no processo que originou esta ilha.

Um outro exemplo deste processo é o da presença de xenólitos de peridotito [3] e de eclogito [4] no seio de uma rocha vulcânica conhecida por kimberlito [5], nome alusivo a Kimberley, um dos mais importantes centros de exploração diamantífera da África do Sul. Ambos com diamantes nas respectivas composições, os xenólitos de peridotito e os de eclogito ascenderam, rápida e violentamente, de zonas do manto superior, no geral, entre 150 e 200 km de profundidade, através de chaminés vulcânicas (pipes). Muitas vezes referido (erroneamente) por “rocha-mãe do diamante”, o kimberlito é, sim e apenas, a rocha que, enquanto fluida, o transportou da profundidade para a superfície. O kimberlito alterado tem coloração amarela, sendo localmente referido por yellow ground, contrastando com a cor azulada da rocha sã, designada por blue ground. É conhecido vulcanismo kimberlítico no Arcaico, há mais de 2600 milhões de anos. Actualmente não existe actividade desta natureza, tendo a erupção mais recente ocorrido há cerca de 55 milhões de anos.

Igualmente do manto, conhecemos, ainda, o lamproíto, designação genérica de um conjunto de rochas vulcânicas ultrabásicas, ricas em magnésio, potássio, crómio e níquel, bem conhecidas na Austrália, por serem potenciais jazigos económicos de diamante.

Com um raio de 3470 km e cerca de 1/3 da massa da Terra, a participação do núcleo na génese e evolução das rochas do planeta constitui um tema de investigação em curso. Sendo esta geosfera interna uma entidade com cerca de 1/3 da massa da Terra, particularmente quente (na ordem dos 6000 a 7000 oC ), a sua influência na petrogénese, ainda que indirecta, é um facto. Admite-se que do calor libertado pelo núcleo, 90% é transferido através do manto até à base da litosfera, por convecção. O dos 10% restantes é transportado por plumas mantélicas [6].

Em Josephine County (Oregon, EUA) aflora uma porção do manto e da crosta oceânica na sequência de um carreamento por obducção. À rocha peridotítica desta ocorrência está associada uma outra, a que foi dado o nome de josefinito, formada por uma liga de ferro-níquel e por uma granada com cálcio e ferro (andradite). Rocha muitíssimo rara, é interpretada por alguns autores como uma amostra oriunda de regiões de alta pressão do manto inferior ou, mesmo, da fronteira com o núcleo, transportada por plumas mantélicas até níveis mais superficiais. Estudos geoquímicos focalizados nos isótopos de ósmio (186 Os e 187 Os) levaram os seus autores (Brandon et al., Nature, Julho, 1998) a admitir que os basaltos das ilhas havaianas resultam de uma pluma mantélica que traz para a superfície materiais oriundos do núcleo metálico terrestre.

Xenólito de rocha olivínica (dunito) proveniente do manto, encravado em basalto, na ilha de Lanzarote (Canárias)
[1] Ofiolito – associação de rochas ígneas básicas e ultrabásicas (gabros, basaltos, peridotitos) mais ou menos alteradas em serpentina (serpentinizados), correspondente a porções de crosta oceânica e de manto superior, na sequência de importantes deformações tectónicas em orógenos ou em processos de obducção, isto é, cavalgamento da crosta oceânica sobre a crosta continental.

[2] Encraves ou xenólitos - fragmentos de uma dada rocha englobados ou encravados em magmas que lhe são posteriores.

[3] Peridotito - Rocha magmática ultramáfica de profundidade (ao nível do manto), essencialmente constituída por olivina (peridoto), por outros minerais máficos como piroxena (peridotito piroxénico) e anfíbola (peridotito anfibólico) e, às vezes, feldspato (peridotito feldspático). Esta rocha tem um papel importante na formação do diamante no manto terrestre.

[4] Eclogito - Rocha metamórfica ultramáfica granular de profundidade, essencialmente constituída por granada (piropo) e piroxenas (onfacite), que em certas regiões do Mundo está associada à génese do diamante no manto terrestre.

[5] Kimberlito – Rocha vulcânica híbrida, rica em potássio, de raiz muito profunda (superior a 150 km de profundidade), essencialmente constituída por olivina, contendo também, em geral, flogopite, diópsido, granada e ilmenite.

[6] Pluma mantélica – coluna ascendente de material do manto, a temperaturas 200 a 400 oC mais elevadas do que as do encaixante e, por esta razão, menos denso e menos viscoso, num estado considerado ainda não fundido. Geradas na fronteira com o núcleo, estas plumas atingem a base da litosfera, nos chamados hot spots (pontos quentes), onde o fluxo de calor é susceptível de gerar vulcanismo. Este conceito foi criado em 1971, por W, J. Morgan.

A. Galopim de Carvalho

UM PLÁGIO É UM PLÁGIO


Um plágio é um plágio, é um plágio. Não tem que ser apenas num artigo científico. No caso o texto assinado por João Grancho colocado na pasta de "ponencias" das Jornadas de Murcia é, como bem descobriu o Público, um caso grave de plágio. O irónico é que o tema do texto assinado pelo professor seja a deontologia dos professores. E mais irónico ainda é que o autor plagie um texto de um grupo dirigido por João Pedro da Ponte, a quem o ministro Nuno Crato, no seu livro "O eduquês em discurso directo", criticava pelo sua adesão ao "eduquês": quer dizer, independentemente da questão de falta de deontologia profissional, o ministro tinha escolhido para seu colaborador próximo um representante do grupo que sempre atacou. Não se pode dizer que o ministro esteja isento de responsabilidade, uma vez que foi ele que propôs ao primeiro-ministro a nomeação do secretário de Estado que agora se demitiu. Já antes tinha escolhido Isabel Leite (alguém se lembra?), que pouco fez, e agora vai ter de escolher uma terceira pessoa. Isto nunca se passou com nenhum outro ministro da Educação e Ciência. E a verdade é que nenhuma outra equipa da Educação e Ciência foi tão frágil.
 

O POST SOBRE A AMEAÇA A AMAYA É O MAIS VISTO DE SEMPRE!

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