quinta-feira, 9 de julho de 2020

Defender o Herbário da Universidade de Coimbra

Ontem circulou a notícia, no website da Universidade de Coimbra, de que o Herbário da Universidade poderia fechar. Em causa está a falta de financiamento da Universidade que impede a contratação de funcionários. Como todos sabemos, sem pessoas não se faz trabalho e como consequência os serviços fecham. Entretanto a notícia foi retirada do site, mas a mensagem que lá estava foi guardada pelos internautas, fazendo jus ao lema "o que vai para a internet, fica na internet". A notícia pode ser encontrada em baixo: 


Se isto vier a acontecer é lamentável. O herbário tem várias coleções de plantas, algas, fungos e líquenes com cerca de 800 mil exemplares de todo o mundo, incluindo coleções de frutos e sementes. O que está em causa é um património científico importantíssimo e que ainda hoje é utilizado para o estudo de várias disciplinas, da botânica à ecologia, passando pela genética até à evolução. 

Numa altura em que temas como a preservação da biodiversidade e o combate às alterações climáticas são tão falados e estão no centro da política global e da investigação académica, não se entende como é que uma importante Universidade do nosso país está pronta a desistir de um espólio central para a investigação nessas áreas. 

Mas há mais: para além do material do Herbário ser importante para a pesquisa de várias disciplinas e ser consultado por diversos investigadores - que é uma aplicação prática e que gera resultados (produção de conhecimento e publicações científicas) - há ainda o valor patrimonial que é intrínseco às próprias coleções e que são património de todos nós. 

Sejamos intransigentes: há que defender o Herbário da Universidade de Coimbra!

terça-feira, 7 de julho de 2020

O PORTUGAL QUE AINDA SOMOS

A propósito do momento político que estamos a viver pergunto: como é que a democracia consente o crescimento de um poder que a irá destruir?

O protagonismo que, em especial, as televisões estão a prestar ao partido neonazi (a cumprir muito bem o seu papel) está a dar-lhe, precisamente, o que ele pretende: crescer. A resposta só pode ser uma: elevar o nível cultural e civilizacional dos cidadãos.
“Fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz”, 
está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. 

A verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e outro venenos, e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias. Basta, aquando dos congressos partidários, estar à entrada e entrevistar os participantes que vão chegando.

A Revolução de Abril, escancarou as portas, os portões e as janelas ao conhecimento dos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas a grande maioria do povo (a maioria que dá vitórias em eleições) continua a viver de costas voltadas para estes valores, entretida com futebol e três televisões que nos entram portas adentro, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo.

É de justiça dizer que não é o que se passa com a RTP2, com propostas muito louváveis, mas que, infelizmente, não conseguem captar audiências. Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que “a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja 
“munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, 
a verdade é que, com as sempre existentes, mas raras excepções, são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade, tendo faltas notórias de todas as culturas, sem saberem escrever português. 

Entre os objectivos da referida escolaridade pretende-se que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, 
“seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, 
mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito. 

Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a
“colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. 
Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.

Ninguém da geração dos homens e mulheres com mais de 60 anos duvida que a revolução iniciada com o 25 de Abril nos trouxe grandes progressos materiais e sociais, por demais apontados pelos profissionais do comentário e das análise políticas, aos quais não pretendo acrescentar nada que eles não saibam. Mas há um sector para o qual basta estar atento para se ter opinião. Pouco ou nada mudámos nas mentalidades.

Vimos um vislumbre de um real propósito de elevação do nível cultural dos portugueses no fugaz e efémero programa da 5ª Divisão de Estado-Maior-General das Forças Armadas, logo após a Revolução dos Cravos, chefiada pelo saudoso primeiro-tenente médico Ramiro Correia, mas não vimos nada que se lhe comparasse em nenhum dos governos constitucionais destes quarenta e quatro anos de democracia.

À semelhança do sempre esquecido mundo rural, as nossas cidades têm, ainda, uma lamentável percentagem de analfabetos funcionais, a par de uma classe média a que a escola deu diplomas mas não deu cultura nem o gosto pelo saber, marcada pela iliteracia de quase tudo, alienada, como disse atrás, pelo futebol e pelos programas televisivos de entretenimento que nos impõem e nos entram pela casa dentro a toda a hora.

Com um povo assim, não admira assistir ao crescimento, ou melhor, ao reaparecimento da extrema direita, a mesma que matou a democracia e nos privou da liberdade e nos manteve em pobreza nos quarenta anos do Estado Novo. Basta pensar em Trump e Bolsonaro para ver como é que um povo inculto se deixa arrastar por populismos e tudo o que eles escondem. 

A classe política, particularmente interessada nas lutas pelo poder, esqueceu de facultar, aos cidadãos, cultura civilizacional e humanística.

Assim, continuamos a ser o mesmo povo que, embora materialmente mais avançado, permanece maioritariamente alheado dos valores da democracia e do conhecimento científico e cultural, o mesmo povo que a minha geração viu encher Praças, como a do Comércio, em Lisboa, ou a da Liberdade, no Porto, com vivas a Salazar. 

Termino com outra pergunta: como é que, em democracia. um partido antidemocrático, que, todos sabemos, nega a liberdade, pode crescer e, até, conquistar o poder? 

Foi o que aconteceu na Alemanha, em 1933.
A. Galopim de Carvalho

domingo, 5 de julho de 2020

NOVIDADES EDITORIAIS DOS CLASSICA DIGITALIA

Duas novas publicações dos Classica Digitalia com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes são editados em formato de papel e digital, em acesso aberto. Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa encontra-se disponível nas lojas Amazon.

Série “Humanitas Supplementum” [Estudos] 

- A. Carneiro, N. Christie & P. Diarte-Blasco (eds.), Urban Transformations in the Late Antique West: Materials, Agents, and ModelsCoimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, 384 p. 
 [This volume is the fruit of a highly productive international research gathering academic and professional (field- and museum) colleagues to discuss new results and approaches, recent finds and alternative theoretical assessments of the period of transition and transformation of classical towns in Late Antiquity. Experts from an array of modern countries attended and presented to help compare and contrast critically archaeologies of diverse regions and to debate the qualities of the archaeology and the current modes of study. While a number of papers inevitably focused on evidence available for both Spain and Portugal, we were delighted to have a spread of contributions that extended the picture to other territories in the Late Roman West and Mediterranean. The emphasis was very much on the images presented by archaeology (rescue and research works, recent and past), but textual data were also brought into play by various contributors.] 

Série “Ideia” [Estudos] 

- Mário Santiago de Carvalho, Manuel Lázaro Pulido & Simone Guidi (eds), Francisco Suárez: Metaphysics, Politics and EthicsCoimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, 580 p.
[This volume publishes the Proceedings of the 1st International Meeting "Thinking Baroque in Portugal" (26-28 June 2017), which dealt with the metaphysical, ethical and political thinking of Francisco Suárez. Counting on the collaboration of some of the greatest international specialists in the work and thought of this famous professor of the University of Coimbra in the 17th century, this volume celebrates the 400th anniversary of his death and marks the productivity of his philosophical-theological legacy.] 

 Votos de boas leituras. Delfim Leão (Classica Digitalia)

REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA NO BÁSICO E NO SECUNDÁRIO

Mesmo durante os 40 anos em que ensinei nas licenciaturas em Geologia, na Faculdade de Ciências de Lisboa e nas Universidade do Algarve e dos Açores, e na licenciatura em Geografia na Faculdade de Letras de Lisboa, nunca deixei de estar muito próximo das nossas escolas, agora ditas do básico e do secundário. 

Quer como orientador de estágios pedagógicos, anos a fio, quer proferindo palestras e dando aulas, a convite dos professores, por todo o País, de Norte a Sul, nas Ilhas e, até, em Macau. Continuo a fazê-lo por dever cívico, independente de tutelas, pelo que me sinto capacitado para partilhar com os leitores as reflexões que aqui deixo à atenção dos interessados. 

Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior da Geologia estão ao nível dos que caracterizam os países mais avançados, é confrangedor assistir à iliteracia neste domínio do conhecimento da quase totalidade dos portugueses, incluindo os das classes sociais ditas cultas, e constatar a pouquíssima importância, nos ensinos básico e secundário, deste mesmo domínio científico, essencial como motor de desenvolvimento, mas também como componente da formação cultural do cidadão.

De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a pouca importância dada ao ensino da Geologia nas nossas escolas dos ensinos básico e secundário. Isto porque, em minha opinião, quem decide sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, parece desconhecer que a geologia e as tecnologias com ela relacionadas estão entre os principais pilares sobre os quais assentam a sociedade moderna, o progresso social e o bem-estar da humanidade.

As minhas repetidas e insistentes diligências junto dos sucessivos governantes, no sentido de inverter esta deplorável situação, nunca surtiu efeito, o que é desesperante e lamentável. Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos ministros, secretários de estado e deputados não conhecem nem a natureza, nem a história do chão que pisam e no qual assentam as fundações dos edifícios onde vivem e trabalham.

Uns mais, outros menos, sabem o que neste território se passou desde a fundação da nacionalidade, centenas de anos atrás, mas muitíssimo pouco ou nada, sobre os milhões de anos de história deste torrão que é o nosso. Não sabem que o lioz, ou seja, a pedra calcária usada na cantaria e na estatuária de Lisboa e arredores, nasceu num mar que aqui existiu há cerca de 95 milhões de anos, um mar muito pouco profundo e de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Não sabem que o basalto das velhas calçadas da capital brotou, como lava incandescente, de vulcões que aqui extrudiram há uns 70 milhões de anos, nem que o granito, a pedra que integra o belo barroco da cidade invicta, tem centenas de milhões de anos. Não imaginam que o Tejo já desaguou mais a Sul, por uma série de canais entrançados, numa larga planura entre a Caparica e a Aldeia do Meco.

Não sabem que a serra de Sintra é o que resta de uma montanha bem mais imponente e ignoram que, por pouco, não rebentou ali, há uns 85 milhões de anos, um grande vulcão. Sou levado a pensar, e não estou só nesta ideia, que grande parte da confrangedora situação que caracteriza o ensino da Geologia em Portugal radica, precisamente, no conjunto dos que, pedagogicamente têm assessorado o Ministério da Educação neste domínio.

Nunca conheci nenhum destes elementos, mas é a eles e, também, necessariamente, a quem lhes foi dando posse, que se deve este estado de coisas que, oiço dizer, não é exclusivo da disciplina pela qual me venho batendo há décadas.

É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si meia dúzia de professores desta disciplina capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais escolares, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame e, a terminar, na conveniente formação dos respectivos professores. 

A imagem que aqui mostro (capa de uma publicação do Gabinete de Avaliação Educacional, do Ministério da Educação) confirma o que ando a dizer há anos: Mercê dos programas, dos manuais usados, das orientações superiores e do tipo de exames, os professores, em vez de poderem ensinar e formar cidadãos, são levados a "amestrar" os alunos a acertar nas questões que lhes são colocadas nos exames. É bom para as estatísticas, mas é mau para os alunos e para o País.

Galopim de Carvalho

sexta-feira, 3 de julho de 2020

“ARTE RUPESTRE NO CERRADO”




ARTE RUPESTRE NO CERRADOé o título da próxima palestra do ciclo de divulgação científica “Ciência às Seis”, que ocorrerá no dia 7 de Julho, terça-feira, pelas 18h00, por vídeo conferência. O palestrante é o arqueólogo António Batarda Fernandes, Chefe da Divisão de Inventariação, Estudo e Salvaguarda do Património Arqueológico (DIESPA), Departamento de Bens Culturais, Direção-Geral do Património Cultural.

Os interessados podem seguir a vídeo conferência através do link:

O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.


Sinopse da palestra:

Situado no Brasil Central, o Cerrado formou até algumas décadas atrás o ecossistema típico de aproximadamente 20% da área do país. Até ao presente, estima-se que mais da metade dessa cobertura original tenha sido perdida para a agricultura e criação de gado, com apenas 2,2% do seu total protegido por leis federais. O município de Serranopólis, estado de Goiás, acumula a presença de zonas de Cerrado razoavelmente bem preservadas, com um complexo arqueológico significativo, abrangendo arte rupestre e locais de ocupação humana. No total, 26 locais são conhecidos, apresentando arte pré-histórica e camadas arqueológicas que remontam a 11.000 BP. Trabalhos de emergência de conservação da arte rupestre criaram a oportunidade de estabelecer um projeto de longo alcance dedicado à pesquisa, gestão, conservação e envolvimento público dos valores do património cultural e natural negligenciados e ameaçados da região: a arte rupestre pré-histórica e o Cerrado. Dada a atual situação mundial (sustentabilidade de recursos, alterações do clima, persistência de políticas económicas “business as usual”), o lema "Pense globalmente, aja localmente" nunca terá sido tão verdadeiro como no caso de Serranopólis. Num mundo global, a atuação local, tomando partido das riquezas naturais e culturais únicas e endógenas da região, poderá contribuir para moldar um futuro mais respeitador dos valores patrimoniais?

Nota biográfica:
Arqueólogo de formação, António Batarda Fernandes (https://batarda.wordpress.com/) exerce atualmente funções de Chefe da Divisão de Inventariação, Estudo e Salvaguarda do Património Arqueológico (DIESPA), Departamento de Bens Culturais, Direção-Geral do Património Cultural.
Até Fevereiro de 2020, exerceu funções no Museu e Parque Arqueológico do Vale do Coa onde coordeneou o Programa de Conservação da Arte Rupestre do Coa, co-coordenou os Serviços Educativos e geriu o website da Fundação Coa Parque além da presença nas chamadas redes sociais: Facebook, Youtube, Twitter, Instagram e TripAdvisor.
Na formação académica destaca-se o Mestrado em Gestão de Sítios Arqueológicos pelo Instituto de Arqueologia da University College London, apresentando tese sobre a gestão das visitas aos sítios de arte rupestre do Vale do Coa, e o Doutoramento em Arqueologia pela Escola de Ciências Aplicadas da Universidade de Bournemouth, apresentando tese sobre a conservação também dos sítios de arte rupestre do Vale do Coa.


Público alvo: todo(a)s o(a)s interessado(a)s em conhecimento e cultura científica!

A LOUCURA FUNDAMENTALISTA

Publica-se, com o agrado de sempre, este oportuno texto de Eugénio Lisboa, saído no “Jornal de Letras”: 
“Vai, por esse mundo fora, uma loucura fundamentalista, que sopra como um vendaval destrutivo dos marcos milenares da História. Tudo, a pretexto do horrível assassinato de um negro americano por um polícia violento e racista. Há poucos crimes tão repulsivos e mesmo hediondos como o racismo, que existe, implantado – mesmo quando escondido – em todas as sociedades. 
Como há poucos ressentimentos tão irracionais e grotescos como os que atormentam os temperamentos misóginos. Mas, infelizmente, o mundo está cheio de uns e de outros. É profundamente natural e até saudável que tenham aparecido, por todo o lado, movimentos de protesto contra o que se passou nos Estados Unidos e se poderia ter passado noutros países. O ódio racial ofende a ética, ofende a estética e ofende o simples bom senso. 
É, repito, um crime repulsivo. 
Dito isto, não se justifica que a reacção a este crime sirva para promover a indiscriminada e pouco democrática destruição, a torto e a direito, de estátuas comemorativas de determinados personagens de vulto da história universal. Não há heróis perfeitos e as imperfeições que põem, aos nossos olhos de hoje, alguma nódoa nos currículos desses gigantes de ontem, devem ser vistas com a devida perspectiva, que nos sussurra terem sido tais defeitos menos inaceitáveis no tempo em que se manifestaram. 
Nenhum ser humano, nem mesmo de excepção, é feito de uma só peça. 
A estátua de Churchill, para dar um só exemplo, foi vandalizada e aumentam as pressões de grupos radicais no sentido de ser apeada. Churchill foi um político conservador – e nessa política não me revejo – e um apologista da supremacia da raça branca. Seja dito de passagem que, nessa época, mais de noventa por cento da população branca do globo pensava exactamente o mesmo, ainda que o não confessasse. Mas Churchill não foi só isto. Foi também o homem que, sozinho, nos primeiros tempos da segunda guerra mundial, quase sem armas, com poucos aviões e pouquíssimas munições, enfrentou o poderoso, vitorioso e imparável agressor nazi. Com uma Europa totalmente conquistada e amordaçada e com uma América inicialmente paralisada, este espantoso orador e homem de uma coragem de buldogue, afrontou a máquina militar alemã e infligiu-lhe a primeira estrondosa derrota, na famosa Batalha da Inglaterra em que nunca tantos ficaram a dever tanto a tão poucos pilotos da Real Força Aérea, que, em grande desvantagem numérica, escreveram páginas inesquecíveis. Inesquecíveis, disse: e eu não sou dos que se esqueceram. 
Apear a estátua deste homem a quem a humanidade tanto deve, só porque acarinhou ideias que, no seu tempo, eram as que prevaleciam – é, quanto a mim, monstruoso. Como seria igualmente monstruoso “apagar”, dos manuais, o século de Péricles e o fulgor de toda a Grécia Antiga, só porque os gregos tinham escravos e tanto estes como as mulheres não tinham direito de voto. Lá se iam pela borda fora Platão, Aristóteles, Pitágoras, Arquimedes… 
As exigências éticas do século XX (e XXI) não estavam em vigor nos séculos passados. Platão teve treze escravos mas legou-nos portentosos diálogos filosóficos. E não se limitou a ter escravos: deixou-nos inequívocas declarações de misoginia. Exemplos? 
Aqui vão dois: “A natureza da mulher é inferior à do homem, na sua capacidade para a virtude” ou este: “Os homens cobardes que foram injustos durante a sua vida serão provavelmente transformados em mulheres quando reencarnarem.” 
Que vamos então fazer de Platão: riscá-lo da História da Filosofia? 
Mas o grande Aristóteles não lhe fica atrás, quando se trata de denegrir a mulher. Além de afirmar, sem nunca se ter dado ao trabalho de o ir verificar, que a mulher tinha menos dentes do que o homem, disse coisas deste jaez: “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior.” O que dirão as feministas, mesmo as mais razoáveis, de tudo isto? Mas não se ficou por aqui o alegado fundador da Ética, ofertando-nos mais esta pérola: “A mulher é um homem incompleto, um homem castrado.” Ou ainda esta: “A mulher é como se fosse um macho estéril”. 
Vamos definitivamente abolir Aristóteles, afim de acalmar as teóricas do feminismo? Vamos reescrever a História da Filosofia? 
Mas não fiquemos por aqui. O sábio e venerável Confúcio, que nos legou os seus preciosos Analectos, que são tidos como autênticas lições de vida, não se acanhou ao falar do sexo frágil: "A mulher", ponderou o subtil sábio, “é o que há de mais corrupto e corruptível no mundo.” 
E, já agora, que tal esta do impoluto e severo Catão?: “É preciso trazê-la [à mulher} de rédea curta.” Os teólogos e mesmo os santos não se coibiram de dar a sua cotovelada misógina, que era, pelos vistos, a coisa mais natural na época. 
O teólogo máximo, Tomás de Aquino, não teve papas na língua, dizendo a quem o quisesse ouvir: “A mulher é um ser acidental e falhado. O seu destino é viver sob a tutela do homem.” 
E que disse o grande Santo Agostinho? Apenas estas coisas suaves: “As mulheres não deviam ser educadas ou ensinadas de modo nenhum. Deveriam, na verdade, ser segregadas, já que são a causa de horrendas e involuntárias erecções em santos homens.” 
Já o grande protestante Lutero se sentia à vontade para ejacular isto: “Não há maior defeito numa mulher do que desejar ser inteligente.” 
E até o grande Petrarca, o inventor do soneto e grande poeta do amor, que dedicou as suas Rime Sparse à imortal e inacessível Laura, escreveu, à revelia de tanto amor não correspondido (vingança?), isto: “Inimiga da paz, fonte de inquietação, causa de brigas que destroem toda a tranquilidade, a mulher é o próprio diabo.” 
Por outro lado, Hegel, o filósofo temeroso, nebuloso e muito alemão, tão acarinhado pelas esquerdas duras, também não quis deixar de meter a mão na massa: “A mulher”, disse ele, condescendentemente, “pode ser educada, mas a sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e a algumas das artes.” 
Mas pior, muito pior: já me ia esquecendo que Pitágoras, o grande Pitágoras, o grande homem do número e da harmonia do número e das relações matemáticas e daquele célebre teorema que todos visitámos, este enorme Pitágoras tinha também uma opinião muito firme e muito radical a respeito da mulher. Aqui vai ela: “Existe um princípio bom que gerou a ordem, a luz e o homem; há um princípio mau que gerou o caos, as trevas e a mulher.” 
Por fim, o próprio Nietzsche, que amou perdidamente a cobiçada Lou Salomé, talvez por efeito da ressaca, escreveu esta coisa cruel: “A mulher foi o segundo erro de Deus”. 
Somerset Maugham, que nos legou alguns dos mais notáveis contos que se escreveram no século XX e que é talvez o mais consumado herdeiro do grande Maupassant, nem por isso deixa de exibir nas entrelinhas e até nas linhas das suas estupendas “short-stories” traços inequívocos de misoginia e também de algum racismo (relativamente a orientais e não a negros). 
A misoginia de Hemingway é evidente, mesmo para o mais distraído leitor e manifesta-se de modo flagrante num dos seus mais notáveis contos: “The Short Happy Life of Francis Macomber”. Vamos apear dos manuais o maior inovador do conto moderno e o inesquecível autor de A Farewell to Arms? 
Igualmente misóginos foram-no, até certo ponto, Voltaire, Flaubert, Schopenhauer, Freud, Strindberg, Dostoiewsky, Wilde, Groucho Marx e por aí fora. 
Vamos bani-los todos e empobrecer monstruosamente toda a nossa cultura? Ou vamos, mais humildemente e mais produtivamente, reconhecer que os seres humanos não são feitos de uma só peça, havendo, até nos mais excepcionais, facetas menos estimáveis? 
Melhor do que ninguém, disse-o Nietzsche, ao deixar para a posteridade esta fulgurante medalha: “Além de ser um decadente, eu sou também o contrário”. 
Fique isto para meditação dos fundamentalistas mais assanhados”. 
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 2 de julho de 2020

UM VÍRUS MAUZINHO



Meu artigo hoje no Público:

Passados os dez milhões de infectados e o meio milhão de mortos em todo o mundo, podemos dizer que o SARS-CoV-2 é um vírus mauzinho. A epidemia nos Estados Unidos e no Brasil parece descontrolada, com mais de 40.000 novos casos por dia no primeiro e mais de 25.000 novos casos no segundo. Os líderes desses países não estão a dar a devida atenção à ciência. Anthony Fauci, director do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, declarou no Congresso norte-americano que, se nada for feito, o número de novos infectados irá rapidamente duplicar, dada a multiplicação do vírus no Sul e no Oeste. No Brasil continua a não haver ministro da Saúde, estando o lugar ocupado interinamente por um general para-quedista.
(...)

O resto só para assinantes. Ver

UMA FORMA DE GOZAR COM QUEM TRABALHA?

Na entrevista recente de António Costa, convidado de honra de Ricardo Araújo Pereira (21/06/2020), afirmou aquele que a injecção com antibióticos dada pelo Estado ao Banco Espírito Santo (BES) destinou-se se a combater esta maleita socio-económica que não cessa de causar arrepios na espinha dos portugueses pelas quantias astronómicas nela envolvidas.

Embora tratando-se de um programa satírico (pelo menos na intenção do seu responsável!) não posso deixar de saudar o cavalheirismo de Araújo Pereira (ou terá sido simples cobertura à ignorância por parte de outro ignorante?) em deixar passar em branco tamanha “boutade” de António Costa em exercício ilegal de profissão, pela sua habilitação em Direito, não se coibindo, apesar disso, em dar uma injecção antibacteriana no tutu virótico do BES com a seringa de agulha romba dos nossos maltratados impostos.

Ou seja, os nossos impostos são deitados para o lixo do contentor da ignorância por determinados políticos que nos governam, caso tanto mais grave por se tratar uma matéria que inunda os media pelas consequência mortais nela envolvidas.

Como pontificou Patão, “não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal”.

terça-feira, 30 de junho de 2020

HÁ BASALTOS E BASALTOS

À atenção dos professores do Secundário. 

Talvez que, por obediência ao programa oficial, os alunos tenham de “saber dizer” o que é o basalto, o professor que os ensina deve saber muito mais. E esse muito mais é uma minúscula parcela do conhecimento científico ao nosso dispor. 

Na Antiguidade, os gregos chamavam-lhe “basanites”, nome proposto por Teofrasto (372-287 a.C.), com raiz no termo “basanos” que, entre eles, referia toda a pedra negra, dura e compacta, usada pelos ourives como “pedra de toque”, de que é exemplo o lidito. 

Um parêntese para dizer que o lidito é uma rocha siliciosa microcristalina (como o sílex, conhecida entre os profissionais por cherte) negra, devida a impregnação de matéria carbonosa, descrita na região de Lydia, na Ásia Menor (Turquia). 

Na sua História Natural, o romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.) usou a versão “basaltes” para dar nome ao “mármore negro”, assim se designava vulgarmente o basalto, uma vez que toda a pedra usada em cantaria era, então, conhecida por “mármore”. Foi, pois, ao latim, que fomos buscar a nossa palavra “basalto”. Muito mais tarde, na Alemanha, Agricola (1494-1555), reconhecido pioneiro da mineralogia e da geologia, usou o termo “Basalt” para referir a pedra negra, compacta, de Stolpen, na região de Dresden, Alemanha. O termo “basaltóide”, criado por René Just Haüy, em 1822, para referir o basalto negro do Egipto, é hoje um nome geral atribuído às rochas vulcânicas afins do basalto.

Vocábulo antigo dos léxicos geográfico, naturalista e, mais tarde, geológico, “basalto” é, pois, o termo geral que designa o equivalente vulcânico do gabro, a rocha plutónica de composição máfica, rica em magnésio e ferro, e com baixo conteúdo em sílica (52 a 49%), pelo que uma e outra são qualificadas como básicas.

Mais de 90% das rochas básicas são vulcânicas e, dentro delas, mais de 90% são basaltos, constituindo o essencial da crosta oceânica. No seu conjunto, os basaltos são as rochas magmáticas mais abundantes na crosta terrestre, onde ocupam cerca de 70% da superfície. Os granitos (em sentido lato, ou seja, os granitóides) ocupam os restantes 30%, confinados à crosta continental. 

Basalto é hoje um vocábulo petrográfico muito abrangente das rochas vulcânicas com as características químicas e acima definidas (conteúdo em sílica entre 52% e 49%). Aplica-se, não só àquelas cuja lava brota à superfície e aí arrefece e solidifica, como às que, no decurso desta actividade, solidificam a meio caminho da extrusão. É o caso dos chamados basaltos das soleiras, diques, chaminés e outros corpos intrusivos de relativamente pequena profundidade, muitos deles designados por doleritos.

Tem sido usual, entre os petrólogos e petrógrafos, distinguir três tipos fundamentais de basaltos, com base nos valores da razão (Na2O+K2O)/SiO2: toleíticos, calco-alcalinos e alcalinos.
BASALTOS TOLEÍTICOS, também conhecidos por toleítos (do nome da região de Tholey, no Sarre, Alemanha, onde foi descrito) são relativamente ricos em sílica e pobres em alcalis. Provêm da fusão parcial por descompressão dos peridotitos dos níveis mais elevados do manto superior. Este tipo de basaltos está bem representado nas dorsais meso-oceânicas e nas camadas superiores da crosta oceânica, em grande parte ocultos sob os sedimentos aí existentes. É igualmente a rocha dos trapps, palavra sueca que quer dizer escadaria, usada internacionalmente para referir os imensos e espessos empilhamentos de derrames sub-horizontais de lava, no interior dos continentes (vulcanismo intraplacas continentais), onde cobrem milhares de quilómetros quadrados de superfície, como são os da bacia do Paraná, no Brasil, da Sibéria, do Decão, na Índia, do Karoo e dos Libombos, no SE africano, da bacia do Rio Columbia, na América do Norte, de Madagáscar e da Austrália. São igualmente toleíticos os basaltos trazidos da Lua pelas missões Apollo. 
BASALTOS CALCOALCALINOS – contêm plagioclase rica em cálcio (labradorite), geralmente acompanhada de minerais ferromagnesianos com cálcio, como augite e horneblenda. São característicos dos arcos insulares e das margens continentais activas onde há fusão parcial das rochas do manto devido à adição de fluidos aquosos provenientes da crosta subductada e contaminação do manto por materiais dessa mesma crosta. O vulcanismo associado a este tipo de rochas é, geralmente, explosivo, por vezes, com grande violência, devido à maior viscosidade do respectivo magma. É o que acontece no chamado Anel de Fogo do Pacífico. 
BASALTOS ALCALINOS – além dos minerais comuns no basalto, contêm feldspatóides, sendo, por isso, também conhecidos por basaltos feldspatóidicos. São provenientes de zonas peridotíticas do manto superior, 50 a 80 km mais profundas do que as que alimentam os basaltos toleíticos e em relação com plumas mantélicas. 
Mas há ainda, relativamente a este tipo de rochas vulcânicas, outros nomes consagrados, mais descritivos das respectivas composições mineralógicas. Eis alguns. 
ANCARAMITO, descrito em Ankaramy, Madagascar, em 1916, é um basalto alcalino, olivínico, muito escuro, rico em augite e pobre em plagioclase. 
BASANITO, basalto alcalino com olivina (>10%) e feldspatóides (leucite ou nefelina); o termo, proposto por Teofrasto (320 a.C.) radica em basanos, nome grego antigo, como se disse atrás, de toda a pedra negra dura e compacta, usada pelos ourives como “pedra de toque”. 
HAVAITO, descrito na Ilha de Havai, caracterizado pela sua riqueza em olivina. OCEANITO, basalto, rico em olivina, com alto teor de magnésio, gerado por acumulação gravítica da olivina em escoadas espessas ou em soleiras; o termo apresentado por Alfred Lacroix (1863-1948) para designar este tipo de basalto gerado por lavas das Ilha de Havai e Reunião. 
TEFRITO, basalto alcalino com feldspatóides abundantes (leucite ou nefelina), plagioclase e, em menor quantidade, olivina (mais de 10%). O nome deriva do grego téfra, que significa cinza, em virtude da sua cor cinzenta.
A. Galopim de Carvalho