terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Ainda a avaliação da FCT em Ciências Agrárias

Em complemento o texto do Prof. Arnaldo Dias da Silva aqui publicado sobre a avaliação das ciências agrárias:

DOIS DESTAQUES

1.  Num dos documentos que a actual directora do CECAV da UTAD, Rita Payan, me fez favor de me enviar, pode ler-se na 1.ª página, “...o Centro (CECAV) não publica em revistas científicas de cariz generalista...

Francamente não entendo; se calhar sou eu mesmo que não consigo atingir. Não deveria ser exactamente ao contrário? Não foi isso que nos pregaram durante tantos anos? Estava errado quem defendia  a publicação dos resultados da nossa investigação  agrária em revistas internacionais especializadas e altamente cotadas?  Ou esta recomendação pode considerar-se um acto falhado dos avaliodres em todo este lamentável processo? 

2.No ponto 2 desta página vem aquilo que considero uma pequena pérola.  Transcrevo na íntegra “Na área da Ciência Animal e Veterinária concorreram 5 UI. Passaram à 2.ª fase as duas unidades que trabalharam mais intensamente em temáticas de saúde humana e que se localizam em Lisboa e Porto” Muito bem: por absurdo aceitemos que seja assim. E se fosse uma Comissão de peritos designada para  avaliar Centros de ID que tratassem da saúde humana? Dar-se-ia preferência aqueles que tratassem mais intensamente de Ciência Animal ou de Medicina Veterinária?   

NOTA FINAL

Num dia de grande calor do passado mês de Junho, fui visitar a vacaria do senhor Balazeiro em Sobrado, Rio Mau, a dois passos de minha actual residência em Vila do Conde. Hoje, o senhor Balazeiro tem, com legítimo orgulho, uma das melhores vacarias do país na sua categoria. Possui cerca de 150 vacas em ordenha e a produção média por vaca ao fim de 305 dias deve situar-se um pouco acima de 11 000 litros. Seria bonito para ele e para o país se assim fosse. Aguardo os livros do contraste leiteiro de 2013 para poder confirmar. 

O senhor Balazeiro recebe o apoio de dois engenheiros zootécnicos formados na UTAD e de médicos veterinários, também formados na UTAD, todos a trabalhar para a Cooperativa Agrícola de Vila do Conde. Essencialmente estes técnicos tratam de estabelecer os regimes alimentares cientificamente mais adequados para os animais, e prestam apoio técnico rigoroso noutros serviços como o melhoramento genético dos animais, a reprodução e a gestão do efectivo leiteiro. 

 Hoje, a senhor Balazeiro tem a ordenha robotizada – dois robots LELY Astronaut a trabalhar em contínuo, evidentemente, excepto um curto período de manutenção das máquinas cada 24 horas. A remoção das fezes e urinas que as vacas vão fazendo, realiza-se ao longo do comprimento da nave onde as vacas estão alojadas para fora da vacaria com um dispositivo mecânico situado atrás das vacas em movimento quase permanente. Todos os animais dispõem de confortáveis camas de borracha ou de material equivalente. O alimento completo é oferecido ad libitum com reboque apropriado, no estado fresco várias vezes por dia e empurrado mecânica e regularmente de forma a estar sempre ao alcance das vacas. A ventilação da nave pareceu-me bem adequada pelas aberturas e pelos ventiladores nela instalados. A cobertura da nave tinha recebido na sua face interna uma pulverização de poliuretano que a tornava mais resistente à passagem do calor. O ambiente era francamente confortável dentro da ampla nave para os trabalhadores e para os animais. As vacas dispunham ainda da possibilidade de se coçarem plenamente à vontade no dorso com escovas verticais em plástico montadas em equipamento apropriado. O direito ao bem estar das vacas, mais do que respeitado, era estimulado. Finalmente, verifiquei àquela hora (eram quase cinco da tarde) que a produção média de leite registada no computador era já de 38 litros de leite por vaca ordenhada. 

Era inevitável a reflexão: empregando o Entre-Douro-e-Minho hoje largas dezenas de engenheiros zootécnicos e médicos veterinários graduados pela UTAD, não deveria, pelo menos em parte, o CECAV – entidade de investigação que pertence à rede científica e tecnológica nacional financiada pela FCT- dizer que necessidades de investigação esta produção leiteira determina? O que significa a grande dimensão da AGROS e da LACTOGAL com as instalações bem perto deste estábulo? Estudos de alimentação, reprodução, melhoramento genético, de doenças metabólicas e outros estudos, não deveriam ser realizados no CECAV e no CECA (outra unidade de ID agrário existente na Universidade do Porto; esta vai passar à 2.ª fase de avaliação - terá melhores indicadores ou há imperativos mais poderosos que explicam a sua passagem à 2.ª fase?) As duas unidades fazem parte do sistema científico e tecnológico nacional. Terá o país hoje unidades de ID de ciências agrárias na região Norte a mais ou com funções mal definidas? 

A minha convicção desapaixonada é que os nossos problemas de investigação agrária só ganham em ser resolvidos regionalmente. Penso que seria tolo e até perverso afirmar o contrário.

Arnaldo Dias da Silva

DEFENDENDO AS BIBLIOTECAS


Informação recebida da BAD -   Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas 

Numa época de grandes restrições económicas e financeiras (com recursos cada vez mais escassos e alvos de muita procura) e face à tendência para uma desregulamentação facilitadora da arbitrariedade, as bibliotecas enfrentam nos nossos dias uma forte competição nas prioridades dos decisores políticos.

A tendência é para que às bibliotecas seja exigido que façam mais com menos – menos dinheiro, menos pessoal, menos tempo – precisamente num contexto de cada vez maiores exigências de toda a ordem. É assim fundamental que todos os que nelas trabalham comuniquem permanentemente às suas comunidades o valor das bibliotecas e influenciem os decisores no sentido de evitarem certas medidas desfavoráveis e tomarem outras que lhes facilitem o cumprimento das suas missões.

Para discutir estas questões, a BAD – Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e o Goethe-Institut Portugal, organizam conjuntamente uma Conferência nos dias 16 e 17 de Setembro de 2014, na Biblioteca Nacional de Portugal, sobre o tema «Advocacy for Libraries», cujo programa pode ser consultado aqui e na qual poderão desde já inscrever-se todos os interessados.

Nesta conferência falarão bibliotecários e professores portugueses e alemães. As inscrições – no valor de 5€ para os associados da BAD e de 15€ para o público em geral – deverão ser feitas até ao dia 8 de Setembro aqui.

O Conselho Diretivo Nacional da BAD
Rua Morais Soares, 43-C - 1º D
1900-341 LISBOA
 Telefones – 21 816 1980  *  91 054 3015 *  91 054 3016
Fax – 21 815 4508

NOVIDADES DA GRADIVA EM AGOSTO


Informação recebida da editora Gradiva:


Lisboa, Novembro de 1911. Duas chinesas chegam à capital e recuperam a visão dos cegos mais pobres que as consultam. Publicitado o «milagre», cresce a histeria colectiva e as autoridades ordenam a expulsão das duas curandeiras. A decisão acende um rastilho de protestos, no Parlamento e nos ministérios, congregando multidões em inflamados comícios. Há mortos, feridos e detidos nos motins da Baixa lisboeta. Cúmulo das ironias, Machado Santos, o vencedor da Rotunda, fundador da República, torna-se de súbito o inimigo público dos que, um ano antes, o haviam levado em ombros... Um romance histórico de grande qualidade literária, baseado em factos verídicos.

Gradiva . 264 pp. ISBN: 978-989-616-593-2 . €14,00


Há um velho problema de décadas no catolicismo português: a quase ausência de uma reflexão pertinente sobre a sociedade, a experiência cristã e a própria questão de Deus. Ora, o debate cultural não pode continuar a remeter para a clandestinidade essas vozes que constituem um contributo fundamental também para a definição das escolhas sociais. Pelo contrário: religiões e cultura têm de se abrir mutuamente, para permitir que a condição humana seja mais dignamente vivida por todas as pessoas. É para essa verdade, cuja essência é a liberdade, que este livro pretende contribuir, dando voz a estas vozes.

Fora de Colecção, 340 pp. ISBN: 978-989-616-595-6 . €15,50


Num país onde se estima existirem mais de um milhão de diabéticos, este livro constitui um contributo importante para a compreensão da doença e a prevenção das suas possíveis complicações. Para tal, conta com a colaboração de duas figuras conhecidas: o testemunho do antigo atleta de excepção Carlos Lopes, hoje com diabetes, e os esclarecimentos do médico Luís Gardete Correia, presidente da prestigiada Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal.

«[...] de leitura obrigatória. Absolutamente.»
Francisco George - Director-geral da Saúde, in «Prefácio»

«Gradiva Saúde», n.º 3, ISBN: 978-989-616-590-1 168 pp. €11,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/7765


Esta obra demarca-se das abordagens mais tradicionais aos fenómenos da pobreza, da assistência e da saúde. No período moderno, a assistência era um factor de coesão social e assim era percepcionada pelas autoridades, centrais e locais, frequentemente abertas a processos de interacção e negociação, que tiveram um inegável valor sociopolítico. O papel da Coroa, da sociedade civil e da Igreja dissecado por esta investigadora já galardoada com o prémio da Academia Portuguesa de História.

Fora de Colecção . 500 pp. ISBN: 978-989-616-596-3 . €20,00

Os livros estarão disponíveis para venda a partir do dia 26 de Agosto.

SOBRE A AVALIAÇÃO DAS UNIDADES DE INVESTIGAÇÃO EM CIÊNCIAS AGRÁRIAS


Recebemos do Prof. Arnaldo A. Dias da SilvaProfessor catedrático emérito, especialista em Alimentação Animal, ex-director do CECAV, unidade da UTAD, o seguinte texto:

São hoje públicas as críticas, quase todas contundentes,  à recente avaliação dos Centros de ID encomendada pela FCT a uma instituição europeia com falência anunciada para o final deste ano, conforme foi publicado pela imprensa.

A muitos, como eu, parece que a FCT que, num passado recente, ajudou um número considerável de pessoas a lutar bravamente para que Portugal tivesse um instrumento indispensável ao desenvolvimento do país, caminha  para bater no fundo de um precipício.

Todavia, uns quantos bem dentro do “sistema”– poucos, estou crente - procuram fazer passar a imagem diametralmente oposta, dando vazão a um posição que, por vezes, assume foros de infantilismo.

O mundo científico não pode deixar que o actual clima, que nos tenta embalar, com cheiro melífluo, perdure. Não podemos assistir serenos e impávidos ao que se está a passar, destruindo o valioso trabalho realizado durante os últimos anos pela própria FCT. Bem conceituados professores-investigadores da nossa praça, desempoeirados, sem papas na língua e sem teias de aranha na cabeça, têm denunciado situações absolutamente disparatadas.O Prof. Sobrinho Simões do bem conhecido  IPATIMUP, o Prof. Carlos Fiolhais da Universidade de Coimbra que mantém um blogue na internet muito atento à avaliação dos Centros da FCT, o Prof. Renato Carmo do CIES ou o jornalista José Vítor Malheiros no jornal PÚBLICO, são bons exemplos do inconformismo e  revolta perante a actual situação. Na imprensa  e na internet, estas e outras pessoas qualificadas têm manifestado a sua opinião com desassombro. Será que temos de chegar a dizer: “Bons tempos aqueles em que estes respeitados professores-investigadores e muitas outras pessoas entusiasmavam os jovens   a obterem graduação adequada para entrarem no mundo científico e transformarem Portugal num país desenvolvido”?

Teremos chegado ao fim da ciência entre nós? Com orgulho faço parte da maioria que não quer ser silenciosa, como numa tirada infeliz chamou aos investigadores o actual presidente da FCT.  Recuso-me a aceitar que este estado de coisas persista, pois decididamente este não é um modo saudável de conduzir a ciência. 

“Injusto, sectário!” dirão alguns dos obedientes a esta política científica, exaltados e talvez baralhados por  análises tão negras, por leituras tão destrutivas da situação pacífica - dirão eles – já que gostam de estar sempre de bem com todos, particularmente com o poder que talvez lhes possa atribuir algumas benesses. Estou em crer que não são hoje em dia a maioria dos nossos professores universitários e investigadores. No entanto, a experiência diz-me que, com este (des)governo podemos sempre, desgraçadamente, cair mais e haverá - sempre houve - quem veja oportunidade de aproveitar o que se vai passando em seu benefício ou do grupo de investigação a que está ligado, por convicção ou por oportunismo, e não tenha grandes preocupações de coerência com o seu próprio passado, mesmo o mais recente.

Sobre a tristemente famosa avaliação das unidades ID pela FCT, revejo-me inteiramente nas críticas que o Reitor da Universidade de Lisboa, Prof. António Cunha Serra, explanou com clareza aos microfones da Rádio Renascença na última semana de Julho.

Mas, para mostrar que a desadequação dos avaliadores às coisas avaliadas não é só de agora, vejamos  o que se passou com a avaliação do “Projecto Estratégico 2011-2013” das unidades de ID de Ciências Agrárias, que inclui o Centro de que fui director até Setembro de 2009 – o CECAV,  Centro de Ciência Animal e Veterinária, da UTAD, Universidade de Trás os Montes e Alto Douro?  Este Centro é de índole agrária bem como todos os outros seis  incluídos no mesmo grupo de avaliação, embora as designações não sejam clara como deviam.  Ficou excluído o INIAVInstituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, que está na tutela do Ministério da Agricultura. O ICAAM da Universidade de Évora (Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas) foi enquadrado na mesma categoria para avaliação da FCT e sobre a justa indignação de membros do ICAAM perante a classificação de Bom desta unidade  ID  pode ler-se o PÚBLICO de 19.07.2014.     

Naturalmente sou levado a crer que as pessoas minimamente esclarecidas achariam lógico que uma Comissão que fosse avaliar a razoabilidade de determinado montante a atribuir e a continuidade ou não de financiamento a Centos ou outras unidades de Investigação de índole agrária (incluindo a medicina veterinária, naturalmente) fosse constituída, pelo menos, por um engenheiro agrónomo ou agrícola , um engenheiro silvicultor ou florestal, um médico veterinário, um engenheiro zootécnico, alguém porventura mais ligado aos espaços verdes e, talvez, um só doutorado com formação generalista. Eventualmente para poupar euros limitaria a composição a um membro de cada um dos grupos atrás enunciados já que o poder que nos governa diz amiúde as finanças públicas não podem “gastar” tanto dinheiro com a ciência e, portanto, suportar tantos encargos com investigadores e bolseiros. (Este  país não aguentaria tal luxo...)  É evidente que todos os investigadores-avaliadores com as formações que mencionei acima teriam de ser pessoas reconhecidamente respeitadas pela comunidade científica agrária e teriam de ser doutorados.

Vejamos então o que se passou no sentido de atingir em Portugal, finalmente, patamares de EXCELÊNCIA também em investigação agrária, uma área que  não poderá ser excepção às demais.  Pois tivemos uma Comissão Avaliadora do Plano Estratégico (2011-2013) das ciências agrárias constituída essencialmente por generalistas que têm pouco ou nada que ver com ciências agrárias.

De boa fé  pergunto: a Comissão Avaliadora do Plano Estratégico das Ciências Agrárias foi assim constituída porque outros investigadores portugueses qualificados não se mostraram disponíveis? Ou foi assim constituída para poupar dinheiro? Seja qual tenha sido o motivo, bem podemos dizer: ao que “isto” chegou!

Tivemos um painel de avaliação que dava pelo nome de Comissão das Ciências da Vida e do Ambiente. Mas porque não se chamou apenas de ciências agrárias? Pergunto: a designação “ciências agrárias” estará fora de moda?

A Coordenação desta Comissão Avaliadora coube a Simone Varandas do CITAB, pertencente à UTAD.  Outros dois membros do CITAB,  Centro  presidido pelo Prof. Eduardo Rosa, integraram esta Comissão de Avaliação como Vogal – Samantha Hughes e Eduardo Rosa Escuso-me a fazer comentários quanto à dimensão da representação da UTAD e do CITAB  nesta Comissão de Avaliação no Plano Estratégico.

Parece-me que a prudência, sempre boa conselheira, apontaria para que a FCT, na escolha dos avaliadores, adoptasse o sábio ditado popular – se não queres ser lobo, não lhe vistas a pele. Sempre ficaria bem...

Um tanto surpreendente, para mim afastado vai para cinco anos destas disputas, foi a atribuição da coordenação das Unidades de Investigação de ciências agrárias a Simone Varandas. Como desconheço a sua produção científica em qualquer ramo da ciências agrárias, o bom senso aconselhava-me a consultar, pelo menos, o seu curriculum vitae. Foi o que fiz. Dos 33 projectos que liderou ou lidera até à data (se não me enganei a contar...),  nenhum é sobre agronomia, produção florestal, zootecnia ou medicina veterinária; são todos, genericamente, referentes à água doce e à fauna e à flora que nela habitam. Em perfeita sintonia com o seu perfil, também não apresenta nenhum trabalho científico publicado – em publicações cotadas internacionalmente ou não - que possam ser consideradas, ainda que  vagamente, como áreas das ciências agrárias. Sem grande preocupação de rigor, podem considerar-se todos os trabalhos publicados pela avaliadora Simone Varandas versando assuntos, genéricos ou específicos, de ambiente.

Notas breves sobre os outros membros da Comissão de Avaliação do CECAV para o Plano Estratégico para 2011-2013

Um membro era da Divisão de Oceanografia do Instituto do Mar e do Ambiente.

Outro elemento era da Universidade do Algarve, Departamento de Plant and Animal Science Virology, Diseases. Contei 5 publicações deste avaliador contidas no SCI nos últimos anos sobre Patologia de Plantas; potencialmente tem alguma coisa que ver com eventuais actividades das ciências agrárias desenvolvidas na UTAD, designadamente com actividades desenvolvidas pelo CITAB. Porém, nada tem que ver, como se compreenderá, com quaisquer actividades desenvolvidas ou a desenvolver pelo CECAV.

Um terceiro elemento pertence a um Laboratório Associado onde trabalha no Laboratório de Ecotoxilogia do Centro de Investigação Marinha e Ambiente.

Um quarto avaliador pertence ao Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. As 5 publicações consideradas pelo avaliador como mais relevantes, são todas, como se esperariam que fossem, nos domínios da Ecologia pois não há – até agora, pelo menos, que saibamos -  investigação agrária de qualquer natureza na Universidade de Coimbra..

Um quinto avaliador é do Departamento de Geociências e Centro  Geofísica da Universidade de Évora. Pergunto: este avaliador não estaria no grupo errado? Será demais perguntar as razões que levaram à inclusão deste avaliador, certamente conceituado  no seu grupo – sem qualquer  ironia – mas que foi colocado na Comissão de Avaliação de Ciências Agrárias? Parece-me  inexplicável!

Samantha Hughes (UTAD-CITAB). No seu vasto curriculum até à data, também não constam publicações em qualquer assunto que caibam, mesmo com muito boa vontade, em domínios das ciências agrárias, ainda que  meramente generalistas.

Eduardo Rosa (UTAD-CITAB). Para além dos muitos trabalhos de investigação publicados no passado, sozinho ou, frequentemente, em grupo, em revistas cotadas no SCI, sobre factores antinutricionais (em especial glucosinolatos) em plantas, designadamente em plantas crucíferas, como a couve, para alimentação humana e raramente para a alimentação do gado e de outros trabalhos mais recentes sobre qualidade alimentar de leguminosas para humanos, assinalo que o Prof. Eduardo Rosa assinou em 2011 pela UTAD  com representantes de outras 11 universidades europeias, as normas de controlo HACCP a que deve obedecer o chamado leite biológico na UE.

Louvável atitude particularmente se o consumo de leite biológico tivesse algum significado entre nós. Bem ou mal, o consumo deste leite em Portugal é quase nulo e na Europa rica continua a ser  muito pequeno. Como o poder de compra dos portugueses – pelo menos seguramente da maioria deles – não vai aumentar nos próximos tempos, tudo leva a crer que o consumo deste tipo de leite vai ser ainda mais reduzido. 

Será conveniente dizer, no entanto, para que todos possamos compreender bem a importância real do chamado leite biológico para a avaliação de Centros de Investigação em ciências agrárias em Portugal, que a AGROS – principal entidade que comercializa este tipo de leite em Portugal – ainda não conseguiu obter nenhum produtor certificado de leite biológico em solo português.

Falar em solo português é necessariamente falar em Trás-os-Montes, onde a biodiversidade das pastagens, naturalmente, é muito maior e onde a AGROS investiu grande verba em publicidade. A despeito da intensa publicidade feita durante 6 (!) anos, todo o leite biológico que a AGROS hoje comercializa é importado de outros países da UE, em particular do Norte da Europa o mesmo se passando, inevitavelmente, com os iogurtes biológicos, feitos em Portugal com leite importado de alguns países da UE.  Até quando? Pode responder-se muito claramente: até que haja poder de compra para adquirir este tipo de leite, necessariamente mais caro, ou seja,  enquanto for dado dinheiro comunitário para os agricultores – aqui e noutros países -  sustentarem os custos da respectiva produção.

Comentários finais

Serão precisos mais comentários face ao rumo que levou entre nós a avaliação na área das ciências agrárias? Será que os actuais responsáveis (?) da FCT entendem  as consequências das decisões que tomaram e que continuam a tomar?

Assim, sem ilusões imediatas, pergunto-me: sem mudanças nas orientações políticas do sistema de avaliação em vigor na FCT, haverá alguma utilidade em proferir comentários, para além da satisfação de consciência da denúncia pública das situações mais absurdas que conhecemos? 

VILA do CONDE, 10 de Agosto de 2014.

Arnaldo A. Dias da Silva

Our mutual friends: sobre a mediocridade e a falta de originalidade

Mais um artigo do nosso correspondente no estrangeiro que tem analisado a "avaliação" da FCT, no qual disseca a teoria de Coutinho de "abate" de unidades de investigação:

A maior parte dos erros factuais do texto de opinião de António Coutinho no semanário Expresso de 9 de Agosto intitulado “A favor da avaliação das Unidades de Investigação” já foram apontados aqui.

Nomeadamente, os “factos” apresentados por António Coutinho ou não dizem respeito à presente discussão (“foi a primeira vez que (1) todas as Unidades de Investigação (UI) foram avaliadas competitivamente no mesmo processo”) ou estão errados (“os resultados são idênticos aos da última avaliação (2007)” e “a FCT não se intrometeu no processo de avaliação”).

Sendo as premissas subjacentes falsas, o artigo de António Coutinho torna-se completamente irrelevante a não ser para ilustrar o que sucede quando alguém escreve sobre um assunto com ideias pré-concebidas, sem ter feito o devido estudo da literatura existente, comparando escalas em unidades diferentes, não ficando surpreendido (nem “agitado”!) quando os resultados experimentais não batem certo com a sua teoria, etc.

Mas há ainda um outro pecado capital em ciência que falta mencionar: a utilização de ideias e argumentos de outros, sem incluir as devidas referências.

O caso britânico

Um facto (daqueles a sério), que temos a certeza já ter sido constatado por todos com um interesse nesta avaliação é o desequilíbrio entre as nacionalidades dos membros dos painéis. Um pouco mais de 23% dos membros são do Reino Unido, seguido de 17% da Itália e depois temos uma queda abrupta para a França e a Alemanha com pouco menos de 7%. A lista termina com 15 países com apenas um elemento (cerca de 20%). Além disso, quatro dos seis coordenadores dos painéis são britânicos. Estes são factos que a FCT deveria explicar.

Haverá alguma semelhança entre esta avaliação e o financiamento da investigação no Reino Unido?

Recuemos a 8 de Setembro de 2010, à primeira intervenção de Vince Cable, o Secretário de Estado do Comércio britânico (em inglês, Secretary of State for Business, Innovation and Skills), sobre ciência.

Com a intenção declarada de preparar cortes no financiamento na ciência da ordem dos 20-25%, Cable afirmou que

"It is worth noting in the last Research Assessment Exercise 54 per cent of submitted work was defined as world class and that is the area where funding should be concentrated."

Soa familiar? Mais interessante, numa entrevista que deu depois desta apresentação, Cable fez aquilo que Robert McCredie May, Barão May de Oxford, OM, AC, FRS, FAA, FTSE, FRSN, HonFAIB, num artigo na revista New Scientist intitulado “Don't let Britain's politicians ruin science” classificou como uma inversão deste argumento, declarando que 45% da investigação não era excelente. Daqui a afirmar que não se deve financiar a mediocridade correspondente a esses 45% foi um pequeno passo.

Para além deste aspecto, nessa intervenção Cable introduziu também novamente a questão do tipo de investigação que deve ser financiada, divagando ao longo de várias frases, afirmando que por um lado é importante apoiar a investigação fundamental, mas que por outro é preciso ter em conta o retorno imediato e a crise, etc.

As reacções

Será certamente interessante saber como reagiram os cientistas e comentadores britânicos ao discurso de Cable, o qual nos é extremamente familiar no contexto da corrente avaliação.

De facto as reacções da comunidade científica britânica não se fizeram esperar. Para além de uma série de argumentos que foram avançados mostrando que as medidas que se anteviam seriam devastadoras para a ciência no Reino Unido, os britânicos não têm problemas em chamar as coisas pelos nomes ou em ridicularizar o que é ridículo em público, mesmo (ou particularmente) no caso de discussões importantes como esta.

Numa entrevista no seguimento das declarações iniciais de Cable, Robert May, declarou que

He was clearly badly briefed, and it's a shame he didn't care to get all the facts beforehand. In particular, his claim that public money should not be made available to research that 'is neither commercially useful nor theoretically outstanding' is just plain stupid."

Talvez valha a pena repetirmos esta última frase, agora em bold e em vermelho, para que não restem dúvidas:

[H]is claim that public money should not be made available to research that 'is neither commercially useful nor theoretically outstanding' is just plain stupid."

No dia 9 de Setembro saiu no Times um artigo de Mark Henderson, na altura editor de ciência nesse jornal e presentemente chefe de comunicação do Welcome Trust, com o título “Underrating our scientists isn't clever, Dr. Cable” onde escreveu que

His claim that 45 per cent of research fails to pass muster is as credible as Blair’s claim that Iraq could launch WMDs in 45 minutes.

Por sua vez, o Presidente da Academia das Ciências Médicas, John Bell, afirmou que

"A long term commitment to publicly funded research is vital if we are to harness the competitive advantage previous investment has generated."

Vários comentadores, como William Cullerne Bown no blog Research Fortnight, referiram também que uma libra investida numa instituição de excelência como Oxford teria provavelmente um menor retorno que a mesma libra investida em universidades mais pequenas e de menor qualidade, mas onde os investigadores têm bastante mais necessidades financeiras para conseguir realizar o seu potencial de investigação – aquelas universidades onde, em Portugal, António Coutinho quer forçar a migração dos bons investigadores e pôr os restantes apenas a dar aulas.

Este último argumento é um exemplo da lei dos rendimentos decrescentes e é extremamente importante no contexto da avaliação em curso. Chama à atenção que a partir de certa altura investir mais nas unidades que já têm um financiamento alto terá um retorno mais baixo que investir noutras unidades com um financiamento mais baixo, mesmo que estas últimas tenham menor qualidade.

Quanto ao ridículo, mencionamos apenas um pequeno sketch ao estilo de “Yes, Minister escrito pelo físico Jon Butterworth e que apareceu no Guardian (ainda no dia 8 de setembro!), de onde extraímos o seguinte diálogo:

Minister: Oh well, we clearly should only fund excellence. It is inexcusable surely that we are funding anything that is below average?
Civil servant: Quite right minister. We should only fund the top half I would say. We should monitor it annually and if any of it is below the top half we should cut it.

Os modelos a seguir

Na parte final do texto, António Coutinho menciona um facto que até agora tem sido negado por todos, desde o ministro à direcção da FCT (a linha oficial é que há pelo menos tantos fundos para a ciência como anteriormente):

Sendo manifestamente incomportável financiar todas as UI que livremente se constituem (particularmente quando o país abriu falência)

Comecemos por notar que, na prática, as unidades não se constituem livremente (nem crescem como cogumelos), sendo o resultado de um processo evolutivo de vários anos, condicionado pelas avaliações anteriores. A título de exemplo, concorreram a esta avaliação menos 82 unidades que em 2007.

Coutinho explica em seguida o que se deve fazer com as unidades de investigação que considera menos competitivas, com a ideia que já mencionámos acima sobre a grande migração dos melhores investigadores enquanto que os outros ficariam a dar aulas.

E acrescenta:

O ensino superior em países dos mais competitivos é maioritariamente feito em instituições e por professores que não fazem investigação.

A este respeito, voltemos mais uma vez a Robert May num artigo de 1997 na revista Science,The Scientific Wealth of Nations.” Um dos pontos principais desse artigo está relacionado com questões de escala e com o facto de não se dever comparar a produção científica de diferentes países sem ter em conta não só o investimento feito como a dimensão desses países.

Ou seja, estamos a falar de questões de eficiência, as quais são tão mais importantes quanto menores são os países e os recursos disponíveis, que é precisamente a situação de Portugal. Reproduzimos aqui uma tabela desse artigo, onde se tem em conta o número de artigos e citações por habitante, normalisados em relação aos EUA.

Cuntry
Papers per person
Country
Citations per person
Sweden
147
Israel
105
Denmark
127
Denmark
103
Canada
127
U.S.A.
100
the Netherlands
109
the Netherlands
96
Finland
107
Canada
95
U.K.
104
U.K.
88
U.S.A.
100
Finland
85
New Zealand
99
Iceland
76
Norway
96
Norway
63
Austrália
93
Australia
61
France (15)
72
France (15)
51
Germany (17)
67
Germany (16)
49
Japan (19)
49
Japan (19)
31
Italy (21)
41
Italy (20)
28

Tabela 1. Medidas de performance relativa, normalizadas por referência aos Estados Unidos. Os primeiros 10 países encontram-se indicados nas posições correspondentes. Os últimos quatro têm a posição relativa indicada entre parêntesis.

Esta tabela contrasta grandemente com a que May cita anteriormente no mesmo artigo contendo os números absolutos e que é liderada pelos Estados Unidos, seguidos pelo Reino Unido, Japão, Alemanha, França, Canadá e Itália – ou seja, os países do G7.

Que modelos é que Portugal deve seguir? Um dos dos países do G7, onde o menor deles tem mais do triplo da população de Portugal e uma grande capacidade para atrair emigrantes especializados, para já não falar na muito maior capacidade financeira, ou apontar para países com uma população semelhante à portuguesa e que, não se podendo dar ao luxo de desperdiçar recursos humanos, tentam aproveitar o que têm da forma mais eficiente?

A esse propósito, e notando que em termos de eficiência os países do G7 são ultrapassados por pequenos países com muito menos recursos em termos absolutos, escreve May que

My view—and it is no more than a guess—is that a large part of the difference in performance between the top dozen or so countries in [the above t]able and the lower ranking of the G7 countries arises from differences in the nature of the institutional settings where the scientific research is done. Germany and France have superb scientists who do outstanding work, but a large proportion do this work in dedicated research institutes: Max Planck and CNRS Institutes. By contrast, most basic research in North America, United Kingdom, the Scandinavian countries, and others among the top countries in [the above t]able, is done in universities (19). The nonhierarchical nature of most North American and northern European universities, coupled with the pervasive presence of irreverent young undergraduate and postgraduate students, could be the best environment for productive research. The peace and quiet to focus on a mission in a research institute, undistracted by teaching or other responsibilities, may be a questionable blessing.

Ou seja, mesmo em países como a Alemanha e a França, não é boa ideia separar de forma muito dramática a investigação do ensino.

Como escreve May, trata-se de um palpite, e já muita água correu debaixo das pontes do Tamisa desde 1997. Mas pelo menos é uma hipótese feita com base em dados que se está a tentar explicar, e não apenas uma opinião não fundamentada.

Podemos afirmar, por exemplo, que dinheiros públicos não devem financiar a ciência feita em instituições privadas, mesmo que sem fins lucrativos, mas isso não passa de uma opinião – que poderá, no entanto, ser seguida pelo próximo governo português.

Conclusões

Uma vaga declaração de intenções da parte do ministro Vince Cable, juntamente com o pseudo-argumento que o que não é excelente é mediocre, foi suficiente para despoletar toda uma cadeia de reacções da parte dos cientistas e comentadores britânicos.

O tipo de problemas levantados por cientistas e comentadores eminentes de um dos países que certamente esta direcção da FCT pensa ser um bom exemplo a seguir, devia fazer quem tem o poder de decisão pensar duas vezes na aventura em que querem lançar um país como Portugal com uma rede de investigação que ainda é frágil – incluindo na sua dita excelência.

Suspender a avaliação de todas as unidades de investigação de um país é uma medida radical. Mas pode ser necessária para evitar consequências muito piores.


No caso britânico, Vince Cable ainda tem a desculpa de não ser um cientista e saber pouco sobre aquilo de que está a falar, como foi apontado por várias pessoas na altura. Qual é a desculpa da linha que vai da direcção da FCT até ao Ministro da Educação e Ciência, passando por António Coutinho?

Investigador identificado pela redacção do blogue


segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

ESCÂNDALO DA "AVALIAÇÃO" DA FCT CHEGA À SOCIEDADE EUROPEIA DE FÍSICA

Notícia do Boletim da European Physical Society, que acaba por ser distribuído em toda a Europa: Repare-se que a FCT continua a declarar  a mesma coisa, sem emendar nenhum dos erros graves apontados que motivaram  a notícia.  A hipótese colocada no final de a Física e as Ciências Sociais serem áreas preteridas, a confirmar-se, no fim deste estranho processo de "avaliação", seria  uma vergonha para o nosso país (tal como já é algo vergonhoso aparecer na figura divulgada o euro quebrado ao lado do escudo nacional). Uma correcção ao texto: nem todos os centros chumbados com a nota de "Bom" vão receber 40.000 euros...

Portuguese research re-evaluated


By . Published on 25 August 2014 in:
August 2014News

To grant 322 scientific proposals for the next 5 years, the Portuguese Science and Technology Foundation [FCT] worked together with the European Science Foundation [ESF] for the first time. The distribution of funding raises questions concerning the future of some active physics groups.
The FCT, which is the primary funding body in Portugal, conducted an evaluation of research units across the country in all science fields and announced the first results this summer: 22% of the Portuguese units evaluated were graded as poor or fair and will receive no funding for the next 5 years.
Portuguese research re-evaluated
Catarina Amorim, journalist and former scientist at the Oxford University, warned about what will possibly happen in her article in the blog “Science 2.0“. The 1,904 concerned researchers may possibly lose their positions and whole research units will disappear.
Another 25% of the scientific projects evaluated will received €40,000 annually as they were graded “good”. In physics, many worrying cases can be seen. For example, the Centre of Physics at the Universities of Minho and Oporto will see its funding from FCT decrease by 90%.
Since the total amount of funds available for allocation was similar to the previous year, the criticism is focused on the evaluation that determines the grade of each institution. The measurable results and the FCT evaluation seem to diverge at some point.
The scientists from the Centre for Nuclear Physics and the Centre of Physics and Technological Research published in average more papers than other researchers in Portugal and are also more cited. Nevertheless they will have to manage their activities with a €40,000 annual grant from 2015 to 2020.
The FCT responded to the complaints. The funding agency reaffirmed the confidence in the assessment process especially in the ESF contribution, which “reinforces integrity and high international standards of this evaluation”.
The national budget for research does not appear to be cut, but it seems that priorities have been shifted. Thus other fields of research, including physics and social sciences, will probably suffer of strong restrictions in their activities.