terça-feira, 23 de abril de 2019

Num saudoso tempo em que "a escola era risonha e franca"

(Fachada da Escola Industrial de Lourenço Marques)

Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras":
“A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo”.
Mário Quintana (poeta e jornalista brasileiro)

Em memória de um tempo em que “a escola era risonha e franca” (1.º verso de um  poema de Acácio Antunes), escrevi estas sentidas palavras para serem lidas, no passado dia 13 deste mês de Abril, num restaurante repleto de uma centena e tal de antigos alunos da Escola "Industrial Mouzinho de Albuquerque" de Lourenço Marques. Reproduzo-as, na íntegra, em singela homenagem aos alunos que nela se formaram  sob o ponto de vista intelectual, físico e moral:

“Minhas Senhoras e Caros Alunos da Escola Industrial:

Ameaçado, pelo meu dedicado e bom amigo Godinho, de que teria de vos dirigir a palavra nesta efeméride, embora julgue desenvencilhar-me na palavra escrita, falar em público, ademais em situação emocional, não é bem a minha praia. Mas como dizem os nossos jovens: “bora lá!”

Começo por cumprimentar, com muito agrado e respeito, as Senhoras aqui presentes mostrando, contudo,  a minha admiração por aturarem, anos a fio, os vossos maridos, os "bons malandro” da nossa saudosa Escola Industrial de Lourenço Marques.

Aliás, rapaziada ladina e irreverente quanto baste que nada tem a ver, portanto,  com o título de um livro de Mário Zambujal, “Crónicas dos bons malandros”, que nos dá conta de estórias de um grupo de amigos que se reuniam por razões nem sempre  honestas!

Depois, envolvo esses “bons malandros” num grande abraço de gratidão por me terem dedicado uma amizade que justifica o facto de não dizerem basta de o convidarmos. Ao contrário, insistindo na minha presença no nosso/vosso convívio anual que começou, qual pequena  bola de neve rolando da Serra da Estrela para a Lusa Atenas.

Reporto-me a um almoço promovido, anos atrás, por quatro alunos da nossa Escola Industrial (Godinho, Adolfo, Carvalhinho e Jack, em ordem de nomes aleatória) que resolveram generosamente presentear-me e honrarem-me em Coimbra, deslocando-se  do Norte e Sul de Portugal. Almoço que a vossa persistência  transformou  numa avalanche  de “industriais”  aqui presentes!

Seja-me permitido, apenas, um pequeno reparo. A minha presença  justificava que deixasse de ser chamado ao nosso encontro um almoço de cocuanas [velhos respeitáveis ] mas, sim, um repasto de  cocuanas  e de um  mufana [rapaz], que sou eu com os meus 87 anos de idade, a dias, de se transformarem, se Deus quiser, em duas bicicletas, que esse era  o nome que os cábulas da minha geração davam aos oitos valores das classificações escolares que, por vezes, mereciam uma palmada (só?) dos nossos progenitores ou o castigo de não ir às matinés de cinema, aos sábados e/ou domingos.

Afirmou Einstein que o génio possui 1% de inspiração e 99% de transpiração. Parafraseando-o, a vossa amizade por mim tem 1%  de razão de ser e 99% de indulgência por eu não feito por vós tanto quanto devia e, apesar disso, ter tido um retorno que muito me comove, tanto que não encontro palavras para dizer quanto!

Como é meu uso costumeiro, evoco Eça, meu escritor de mezinha de cabeceira de noites insones, pela sua crítica impiedosa aos políticos do seu tempo por si ridicularizados em “As Farpas”. Políticos, ou melhor politiqueiros actuais que tudo fazem  para perdurar essa podridão como herança pecaminosa para nossos filhos e netos numa época  em que a honestidade se tornou excepção excepcional, passe a redundância!

Num dos seus livros, a imortal pena queirosiana citou o filósofo francês, Proudhon, que disse que “em todas as decadências o primeiro sintoma é a depravação do sentimento da amizade”.

A nossa presença nestas reuniões académicas é prova que desse mal não fomos achacados por estarmos vacinados por uma Escola que inculcou, entre docentes e discentes, vírus inactivados de desrespeito e malsã amizade e, porventura, outros valores negativos.

Finalmente, saúdo-vos estimadíssimos alunos e familiares da nossa gloriosa EIMA, verdadeira génese de gente de excelente cepa aqui reunida, ano após ano! Envolvo todos num abraço “ex corde”!”

domingo, 21 de abril de 2019

Uma data e uma tradição

Recordar datas e tradições é importante para manter viva a memória do passado, um passado que não deve ser esquecido porque ele se projecta no presente, e porque só olhando o passado podemos ver, com clareza, o que se passa no nosso mundo e compreender os avanços e os recuos da civilização.

Hoje, domingo de Páscoa para os que acreditam num Cristo que veio trazer ao mundo uma nova filosofia de esperança e de amor, assistimos ao horror dos atentados contra aqueles que querem celebrar a sua fé e o seu Deus, o Deus do amor.

E vêm-nos à memória os relatos longínquos das perseguições aos cristãos no tempo de Nero, Domiciano, Diocleciano, e outros, impedindo uma religião de deus único, numa Roma que sempre foi aberta a outros cultos e outras religiões. É só em 313, com o édito do imperador Constantino, que os cristãos têm, em termos oficiais, uma liberdade religiosa total.

Tantos séculos passados, tantos avanços civilizacionais e a intolerância continua, agora em maior escala porque maiores e mais potentes são as armas da morte. Parece que os homens do nosso tempo nada aprenderam com o passado, as lições da história foram esquecidas, os valores conquistados, a liberdade, a fraternidade são letra morta em mentes "formatadas" para o desprezo da vida, para o desprezo do outro, mentes perversas que julgam "salvar" o mundo pela violência contra inocentes.

Rubens - Rómulo e Remo
E nesta relação do presente com o passado, lembrar esta data — 21 de Abril, do ano 753 a.C. Segundo a tradição Romana, de que o historiador Tito Lívio nos dá conta, e Varrão, que procura confirmar uma data exacta, terá sido neste dia que Rómulo, o filho de uma Vestal e do deus Marte, fundou a cidade, aquele pequeno povoado de pastores, que se veio a tornar o centro de um poderoso império. Roma cresceu, em território e em cultura, aproveitou os ensinamentos dos povos conquistados e deixou-nos um legado, um legado cultural e linguístico, um património que não podemos desprezar.

No melhor e no pior somos herdeiros, continuadores desse passado, desse mundo e dessa civilização, que evoluiu, que cresceu e da qual devíamos retirar os bons ensinamentos, os valores perenes e não os maus exemplos.

"Ora os autores estão de acordo em que a fundação se deu no décimo primeiro dia antes das calendas de Maio*, data festejada pelos Romanos como sendo o nascimento da pátria.”
(Plutarco, Vida de Rómulo, tradução de Delfim Leão, Minerva Coimbra, 2006). 

* Corresponde ao dia 21 de Abril.

"Comecei a contar o Ulisses e isto durou o ano inteiro". O legado para o ensino de Maria Alberta Menéres

"E Ulisses, existiu? E Homero, existiu? E o Sol, existe? E a lua, existe? E o mar, existe?
Há muitos milhares de anos, um poeta grego, Homero, contou-nos no seu livro Odisseia a história de Ulisses que andava no mar, gostava de Sol, desejava a Lua.
É esta história que eu vos vou contar. Quem conta, é bem certo que acrescenta um ponto. Oh, mas quando eu conto, são tantos os pontos sempre a acrescentar, que mesmo com esforço não conseguiria nunca tais pontos ... bem, todos os pontos contar!" (Ulisses, p.7).

Maria Alberta Menéres, autora das palavras acima reproduzidas, foi professora e escritora. Teve outras actividades profissionais, mas é a partir da sua condição de professora e escritora que deixo o apontamento que se segue. 

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas no início dos anos de 1950, tempo em que a cultural e as línguas clássicas, como componente do currículo escolar começavam a sofrer uma forte e alargada contestaçãoveiculada por elites da educação, a que se seguiram as políticas, não apenas no contexto internacional, mas também, e em consequência, no contexto nacional. 

De qualquer maneira, em Portugal, nessa década e nas seguintes, elas eram estudadas na universidade, nos cursos de Humanidades, e no liceu, na área de Letras. Como bem sabemos, num passado mais recente esta situação alterou-se: a cultural e as línguas clássicas são, agora, residuais, no sistema educativo público, tanto na universidade como no ensino secundário.

Trata-se de uma situação irreversível? Não, se as escolas quiserem que não o seja. Numa política de continuidade, o Ministério da Educação, ao abrigo da figura de "autonomia e flexibilidade curricular", permite que as escolas decidam vinte e cinco por centro do seu currículo, disponibilizando componentes curriculares/projectos que tenham significado no seu contexto.

Ora, nessa margem, podem optar por ofertas verdadeiramente educativas (no sentido de terem o poder para formar os alunos intelectualmente com base em conhecimento substancial) ou por ofertas deseducativas (ainda que sedutoras, oferecidas, ou mais do que isso, por "parceiros" que estão muito longe de serem educativos). Mais: em 2016 o Ministério acolheu a proposta designada por Introdução à Cultura e Línguas Clássicas (aqui) que oferece uma estrutura de base para o trabalho dos professores. E, sim, falamos de uma componente curricular/projecto com significado no contexto dos alunos: a cultura e as línguas clássicas, constituindo uma parte substancial da matriz contemporânea de pensamento, estão, obviamente, entre nós.

Voltando a Maria Alberta Menéres, percebendo isto mesmo, sem dúvida muito melhor do que eu, já perto do final da carreira, como professora singular, colocada na ingrata função de substituta, decidiu levar o Ulisses aos mais miúdos. Nas suas palavras:
(...) a certa altura tinha de fazer aulas de substituição de cada vez que uma professora faltava. E, então, como não eram meus alunos e não os conhecia, comecei a contar o Ulisses e isto durou o ano inteiro. Às tantas, todos queriam ouvir a história e acabei numa sala polivalente enorme a contar o fim. Escrevi-o em cinco dias e foi escrito tal e qual como foi contado. Tem uma grande oralidade, mas resulta muito bem porque as crianças quando o lêem é como se estivessem a ouvir a história. Mas tudo começou de uma tentativa de captar a atenção dos miúdos e fazê-los interessarem-se pelo que estava a contar (in Notícias Magazine, 30 de Maio de 2010). 
Homenagear Maria Alberta Menéres, como outros nomes que dignificam o ensino, é sobretudo inspirarmo-nos no seu legado, no que fizeram de melhor em prol dos "miúdos".
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Livro citado: Menéres, M.A. (1989). Ulisses. Lisboa: Asa [Ilustrações de Isabel Lobinho].

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Finlândia, versão dois: Portugal

O jornal El País publicou ontem uma entrevista ao Ministro da Educação de Portugal, obtida no Forum Education & Skills, realizado, entre 22 e 24 de Março, no Dubai. Num tom manifestamente elogioso, a entrevistadora, Elisa Silió, compara o nosso país a Espanha, catapultando-o para um elevado patamar de sucesso comparável ao que configurou o "milagre finlandês".
"Portugal converteu-se num referencial mundial na melhoria educativa e pedagogia inovadoras. É a nova Finlândia (…). A imprensa internacional descreve Portugal como a “estrela emergente em educação” pelos seus resultado na relatório PISA (…). É o país que se destaca também na autonomia de escola, na inovação pedagógica, na gratuitidade dos manuais e na intensa formação de professores." 
Eis o mais relevante da mencionada entrevista:
"Diferentemente de Espanha, há um consenso político... A espinha dorsal do sistema educativo tem 30 anos. Há um consenso político e social sobre a necessidade de aumentar a sua qualidade para haver igualdade de oportunidades e sirva de alavanca do crescimento económico e democratização cultural (…). 
Isso é fruto de muitas iniciativas, não de um dia. Sim, o sistema gratuito de pré-escolar, o plano nacional de leitura, o programa de matemática o de enriquecimento curricular... As crianças do 1.º a 4.º têm, por dia, duas horas gratuitas e voluntárias de actividades extra-escolares para aprender um instrumento, outra língua ou ir a um clube de ciência. Além disso, temos 130 escolas de intervenção prioritária, de zonas deprimidas, que recebem recursos extra. 
Diz o director do PISA, Andrea Schleicher, que os professores de Espanha “trabalham como uma cadeia de produção”. O modelo português é o oposto. Deixamos que as escolas trabalhem 25% do currículo nacional com a sua própria estratégia. Podem fundir-se disciplinas — História e Geografia, ou Matemáticas e Física —, trabalha-se experimentalmente ou organizam-se projectos anuais (…). Não há que ser impositivo, as escolas viram que se confia nelas e têm respondido muito bem. 
Autonomia com controlo. Especialistas da universidade e inspectores visitam uma escola durante uma semana e fazem um relatório. Não para classificar mas como uma espécie de auditoria para apoiar o projecto pedagógico. 
Portugal apresenta uma grande brecha entre classes sociais nos resultados académicos. Sim, há diferenças notáveis e devemos trabalhar isso. Portugal vem de uma ditadura em que a educação não era tema central. Muitos adultos têm ainda grandes carências de qualificação e é preciso formá-los. 
Surpreende-os a redução do índice de abandono precoce? (…) em Portugal passou de 44% para 12,6% [a média europeia é de 10,6%] (…) Há que fazer um trabalho com cada aluno. 
As subvenções para os colégios com contratos de associação tendem a desaparecer no seu país. Havia 79 colégios que consumiam 140 milhões de euros por ano, a lei diz que devem existir onde a escola pública não cumpre a sua função. Retirámos a subvenção a 49 (…). Não negamos a sua importância, só cumprimos a lei (…). 
Em Espanha há o consenso de que as crianças estudam demasiadas coisas mas com pouca profundidade. Vocês tomaram medidas. Reduzimos o currículo sem o mudar substancialmente. Não é uma revolução (…), damos coerência às melhores práticas internacionais. Um antigo ministro da Educação, Guilherme d’Oliveira Martins, e um grupo de académicos elaboraram um relatório sobre os valores, capacidades e habilidades que os alunos devem demonstrar no final da escolaridade obrigatória. Agora avaliam-se também nas provas nacionais também as expressões artísticas e psicomotoras que se haviam descuidado em detrimento do Português e da Matemática. Muito meninos não sabiam dar cambalhotas. 
Portugal avançou na inclusão de crianças com necessidades especiais nas escolas regulares. A ONU criticou a Espanha pela sua demora a este nível. 97,5% destes alunos já estavam nessas escolas. Começámos em 1992, antes de quase todos na Europa. Agora criámos um diploma legal para a inclusão (…) O importante é que possam estar cada vez mais nas aulas para facilitar a sua transição para a vida laboral. Estamos capacitando os profissionais e damos-lhe apoio, não é apenas uma tarefa dos professores de educação especial (…)."

quinta-feira, 18 de abril de 2019

PROCURA DE VIDA EM MARTE: PASSADO, PRESENTE E FUTURO


Na próxima 4ª feira, dia 24 de Abril de 2019, pelas 18h00, vai ter lugar no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “Procura de vida em Marte: passado, presente e futuro”, por Zita Martins, primeira e principal astrobióloga portuguesa, professora no Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada"*

Sinopse da palestra: “A missão espacial Viking da NASA pousou em Marte em 1976. Esta foi a primeira vez que uma missão espacial: i) procurou por vida extraterrestre, ii) pousou com sucesso em Marte e cumpriu os seus objetivos, e iii) enviou imagens (a preto e branco, e também a cores) de Marte. No entanto, nenhuma forma de vida extraterrestre foi detetada no Planeta Vermelho. A comunidade científica não desistiu e, desde então, Marte tem sido visitado por várias missões espaciais (em órbita e à superfície). Embora ainda não se tenha detetado vida extraterrestre em Marte (ou em qualquer outro lugar do sistema solar), resultados recentes tentam dar resposta a esta questão. Nomeadamente, a potencial presença de metano na atmosfera de Marte tem sido objeto de uma longa discussão na comunidade científica. A sua origem pode ser devido a um processo biológico, ou a um processo geológico chamado de serpentinização. No início de abril uma equipa de cientista, utilizando instrumentos a bordo da missão espacial Mars Express mostraram que o metano anteriormente detetado na atmosfera poderá ter sido libertado através de uma fratura localizada numa camada de gelo na superfície de Marte, tendo uma origem geológica. Contudo, uma semana depois a equipa do Trace Gas Orbiter (TGO) da missão espacial ExoMars publicou um artigo em que metano não foi detetado na atmosfera. Nesta palestra iremos discutir todos estes resultados (incluindo a aparente contradição relacionada com a presença e origem do metano), assim como os próximos passos na exploração do Planeta Vermelho.”

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

Link para o evento no facebook

ENTRADA LIVRE. Público-Alvo: Público em geral

Hoje Guilherme Valente fala da China no RÓMULO em Coimbra, pelas 18 horas




A China sempre esteve no imaginário ocidental. Um exemplo é o filme "A Grande Muralha"- Trailer Oficial 2 (Universal Pictures) [HD]

A promiscuidade entre política, sindicalismo e ordens profissionais (2)



Segunda parte do meu anterior artigo de opinião, com o mesmo título (16/04/2019), publicado hoje no "Diário as Beiras":


"Em 17 de Julho de 2002, noticiavam os jornais a conferência de imprensa dada pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) para a criação de uma Ordem dos Professores (OP). Anos depois (20.Junho.96) é entregue na Assembleia da República uma pequena brochura contendo  uma Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores. Em 25 de Fevereiro de 2004, apresenta a supracitada organização sindical, também aí, uma petição com 7857 assinaturas para a criação da OP, Finalmente, em 2 de Dezembro do ano passado, foi debatida na Assembleia da República a petição n.º 74/IX (2.ª) do SNPL.” Foi ela votada, pelos quatros partidos com assento na Assembleia da República,  CDS, PSD, P.S., PCP , tendo apenas votado favoravelmente o primeiro”.

Tem a actual direcção da Ordem dos Enfermeiros sido intérprete da confusão entre as funções dos sindicatos e das ordens profissionais, apesar da doutrina defendida, com argumentação bem estruturada pelo, ao tempo, bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Germano de Sousa, num seu artigo de opinião, “Ordens versus sindicatos”, de que transcrevo este elucidativo naco de prosa:

“Mas o que é da missão dos sindicatos deve ficar com os sindicatos. O que é missão de uma ordem profissional deve ocupar toda a sua energia. Confundir áreas e acolher ingerências acaba por descredibilizar as instituições, desvalorizar a intervenção na comunidade e ser um sinal de falta de inteligência social” (“Diário de Notícias”, 26/07/2014).

Anos volvidos, Rute Lima, professora do ensino politécnico, no Instituto Superior  de  Educação e  Ciências de Lisboa, reforça em  artigo de opinião (“Público”, 08/022019):

“Grave é abusar do estatuto da sua organização para fazer guerrilhas corporativas contrariando todas a mais elementares regras democráticas de manifestação, repito, próprias de uma força sindical, e nunca de uma actividade reguladora”.

A promiscuidade entre politica, ordens profissionais e sindicalismo encontra expressão muito significativa na enfermeira Ana Rita Cavaco (foi presidente da JSD de Almada, é bastonária da Ordem dos Enfermeiros e presença constante em manifestações sindicais dos  enfermeiros) onde é filmada e fotografada vezes sem conta. Aliás,  sem necessidade de protagonismo por já ter participado no programa da manhã da SIC de Cristina Ferreira, passaporte para ser tida como uma das colunáveis portuguesas!

A sua última aparição deu-se na “Manifestação Branca”, para a qual a Ordem dos Enfermeiros disponibilizou quatro autocarros para deslocação dos  participantes (DN, 08/03/2019), sob a alegação de Ana Rita Cavaco de que “é para isto que se pagam quotas”.

Bem pode ela, portanto, como diria Eça, “hesitar, tataranhar, embaralhar, e fazer um pastel confuso que nem o Diabo lhe pega, ele que pega em tudo”, jurando, sem qualquer credibilidade,  não estar a exagerar nas suas competências.

Em tradição ancestral, têm  os enfermeiros dado uma dádiva preciosa ao próximo em sofrimento que os enobrece merecendo, como tal, que as suas manifestações sindicais não sejam terreno invadido pela Ordem dos Enfermeiros. Ou seja, em tradução do brocado em epígrafe, “a cada um o seu"!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

DO MANUSCRITO AO LIVRO IMPRESSO

Divulgo informação recebida de António Andrade, da Universidade de Aveiro:
Temos muito gosto em anunciar a publicação do livro “Do manuscrito ao livro impresso I”, cuja versão electrónica está integralmente disponível na plataforma UC Digitalis, sendo também possível descarregar em separado os capítulos do livro, clicando na ligação “ver capítulos” (https://digitalis.uc.pt/pt-pt/livro/do_manuscrito_ao_livro_impresso_i).
Este volume, com a chancela conjunta da UA Editora e da Imprensa da Universidade de Coimbra, decorre das duas primeiras edições do Ciclo de Conferências “Do manuscrito ao livro impresso”, realizadas no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro (2015/16 e 2016/17), com o objectivo de promover a investigação e a divulgação científica na área da História do Livro e da Edição, no âmbito da Licenciatura em Línguas e Estudos Editoriais e do Mestrado em Estudos Editoriais.
Anunciamos que livro está também disponível, em qualquer parte, através de edições print-on-demand e digitais. Eis as ligações onde é possível aceder a estas modalidades:
1)     Amazon (print-on-demand) - https://www.amazon.com/dp/989261710X (também está disponível nos canais de países como Espanha, Reino Unido, etc.)
2)     Amazon (Kindle) - https://www.amazon.com/dp/B07Q467X7W

António Manuel Lopes Andrade
Universidade de Aveiro
Departamento de Línguas e Culturas
3810-193 Aveiro

tel: +351.234370358 (ext. 23333)

fax: +351.234370940

terça-feira, 16 de abril de 2019

25 DE ABRIL EM GOUVEIA: O MUSEU INTERNACIONAL DO LIVRO SAGRADO

Dia 25 de abril em Gouveia 
COLÓQUIO 
Apresentação do projeto pioneiro
Museu Internacional do Livro Sagrado
E
Anúncio do primeiro congresso científico em Portugal
sobre a Bíblia na Cultura Ocidental

A Câmara de Gouveia, em cooperação com o IEAC-GO, o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes, a CIDH – Universidade Aberta, o CLEPUL – Universidade de Lisboa, a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, e outras instituições nacionais e internacionais, vai apresentar, na tarde do dia 25 de abril de 2019, as grande linhas programáticas do MILS – Museu Internacional do Livro Sagrado – O ADN das Civilizações do Mundo e o primeiro grande evento cultural associado a este projeto: o maior congresso científico de sempre sobre a Bíblia na Cultura Ocidental: Milénios de Civilização. Serão ainda lançados os três volumes primeiros da coleção única sobre A Bíblia em Portugal.
A Câmara de Gouveia, em cooperação com centros de investigação universitários de referência, pretende criar na sua cidade uma nova centralidade de cultura e de ciência que se torne uma referência no interior do país, procurando, assim, contribuir para combater a desertificação das regiões de Portugal distantes do litoral com a edificação de um grande polo de interesse para o turismo cultural e religioso de amplitude internacional.
Os anos de construção do MILS serão acompanhados pela realização de grandes eventos científicos, a começar por um congresso sobre a Bíblia, seguido de outro sobre Gastronomia e Religiões do Mundo, entre outros a anunciar.
Intervirão neste colóquio inaugural de dia 25 de abril personalidades da cultura e da ciência, entre as quais Carlos Fiolhais, José António Falcão, José Eduardo Franco, Paulo Mendes Pinto e Herculano Alves, conforme programa anexo.
Para este evento foram convidados todos os representantes das comunidades das diferentes religiões presentes em Portugal.
A Câmara de Gouveia irá disponibilizar um autocarro para quem quiser participar nesta iniciativa. Como o número de lugares é limitado, os interessados deverão inscrever-se até ao próximo dia 17 de abril. 
O autocarro partirá da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa pelas 9h15 e regressará a Lisboa às 19h00.

Para mais informações:
museudolivrosagrado@gmail.com

Tlm: 914 750 376; 961 088 814.

"Astronomia e o clima na Terra" com Alexandre Correia

A promiscuidade entre política,sindicalismo e ordens profissionais (1)


Primeira parte do meu texto publicado hoje no “Diário as Beiras”: 

“Suum cuique tribuere” (axioma do direito romano).

De um texto da “Revista Kapa”, da autoria de António Araújo, insito no “Blog Malomil”, transcrevo do longo excerto que serviu de base à sua intervenção no Colóquio intitulado “O estado das direitas na democracia portuguesa”, realizado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (Fevereiro de 2012). Dessa intervenção, transcrevo uma pequena parte:
“Em paralelo, num domínio mais profundo, o dos valores, das representações e das crenças sociais, começa a fazer-se um ‘ajuste de contas’ com os pretensos excessos do PREC. A pedagogia, porque recebe o influxo de alguma obsessão da parentalidade e da preocupação colectiva com as ‘gerações que estamos a formar’, é um dos barómetros mais precisos destas tendências sociais algo larvares ou subterrâneas. Em 1997, Maria Filomena Mónica publica Os Filhos de Rousseau (38). Gabriel Mithá Ribeiro dará à estampa A Pedagogia da Avestruz em 2003. Mais tarde, em 2006, Nuno Crato irá atacar o ‘eduquês’ e a pedagogia romântica. Santana Castilho lançara em 1999 o Manifesto para a Educação em Portugal, Rui Baptista publicará em 2005 o livro O Leito de Procusto: Crónicas sobre o Sistema Educativo e, nesse mesmo ano, David Justino publica No Silêncio somos todos Iguais.  A editora Gradiva, de Guilherme Valente (ele próprio, autor de uma obra recente intitulada Os Anos Devastadores do Eduquês, 2012), que publicou os títulos de Nuno Crato e David Justino, deu um importante contributo para um repensar crítico da Educação que ia, de alguma forma, num sentido «correctivo» dos excessos do PREC”. 
E porque neste rol de autores sou citado, “preocupado com as gerações que estamos a formar” referencio outro meu livro Do Caos à Ordem dos Professores (2004). Faço-o por entender que ao processo educativo deve estar intimamente associada a qualidade da formação de professores tornando-me, por isso, em acérrimo defensor de uma Ordem dos Professores, em contraposição ao presidente da Fenprof que a desvaloriza ao lançar a confusão sobre as competências dos sindicatos e ordens profissionais como refiro neste meu segundo livro. Assim, segundo Mário Nogueira:
“Os Sindicatos dos Professores têm sido e continuarão a ser espaço de análise e discussão das questões da Ética e da Deontologia da profissão, conscientes que da sua clara assunção também beneficia a imagem social dos professores que só ilusoriamente seria melhorada pela criação de uma eventual ordem” (Site da Fenprof, 20/06/2008). 
No “Diário as Beiras”, em artigo de opinião intitulado, “Ordem e Sindicatos de Enfermeiros e atribuições” (21/02/2019), escalpelizei as funções dos sindicatos e das ordens profissionais como já o tinha feito anteriormente, aquando da tentativa gorada para a criação de uma Ordem dos Professores. Sendo eu, ao tempo, presidente da Assembleia Geral dos Professores Licenciados, fiz o historial dessa pretendida criação num meu artigo de opinião, a página inteira, no “Jornal de Notícias” (08/03/2006).

(continua)

QUATRO ANOS SEM JOSÉ MARIANO GAGO...


A propósito do aniversário da morte de José Mariano Gago, o seu amigo Guilherme Valente escreve hoje no Facebook:

Passam hoje quatro anos da partida de José Mariano Gago (JMG).

A propósito de Macau, registo uma recordação inesquecível dele. Da sua inteligência, da sua capacidade de rapidamente apreender uma situação, de se situar esclarecidamente num contexto novo. 

Tendo o Governador entendido reatar a prática de celebrar o 25 de Abril com uma conferência proferida por uma figura pública do País, decidiu nesse ano dirigir o convite a José Mariano Gago. Dadas as funções que eu exercia no Gabinete, mas também seguramente por o Governador saber da amizade que nos ligava, encarregou-me de acompanhar JMG e a Mulher, a Caríssima Karin Wall, nessa semana para nós inesquecível em que estiveram em Macau. 

Depois dum almoço que organizei com dois ou três amigos comuns, ficámos sozinhos,  não me lembro já exactamente aonde, sentámo-nos e ele disse-me: “Guilherme, explica-me Macau” (sic). Disse-lhe o que sabia e pensava.

Foi uma semana muito agradável também para eles, suponho. Tiveram mesmo oportunidade de se deslocar à China, num passeio em que a Linda, a minha Mulher, teve o gosto e o benefício intelectual e humano de os acompanhar.

A conferência que JMG  fez no Leal Senado - no Leal Senado, note-se - no dia 25 de Abril foi brilhante. Com um conhecimento e uma compreensão notáveis da realidade histórica e do espírito de Macau, comparou a Cidade à República livre de Veneza, marítima e comercial. *

No dia do regresso a Portugal deu uma conferência de imprensa. Quando um dos elementos de um “jornal” local lhe perguntou (nada inocentemente, refiro), “Não o choca tão poucos chineses falarem português?”, JMG respondeu: “Não. O que me choca é tão poucos portugueses falarem chinês”.

JMG percebera tudo e na resposta que deu disse tudo. Tudo o que tanta gente que viveu e passou por Macau, que escreve enormidades sobre Macau nunca percebeu, nunca foi capaz de  perceber. E era e  é tão básico... para um espírito aberto, para uma alma grande. 

Que falta faz a Portugal José Mariano Gago! E aos amigos.

——

* Macau de que existe, endémica, uma ideia e visão absolutamente ignorante, errada, injustíssima, em Portugal. Porque se faz de Macau, de um Macau que se desconhece, inventa, passivo e sem voz, o lugar de projecção dos fantasmas mais sinistros recalcados no recôndito de muitos de nós. Um exemplo? O que Miguel Sousa Tavares escreve quando vomita sobre o assunto.

Guilherme Valente