sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

NOTA DA ASSOCIAÇÃO DE PROFS. DE FÌSICA AMERICANOS SOBRE A EXPERIÊNCIA LIGO

This year marks the 100th anniversary of the first publication of Albert Einstein's prediction of the existence of gravitational waves. With interest in this topic piqued by the centennial, we are sending this link to AJP and TPT articles on gravitational waves.

LIGO, a system of two identical detectors carefully constructed to detect incredibly tiny vibrations from passing gravitational waves, was conceived and built by researchers at MIT and the California Institute of Technology (Caltech), funded by the National Science Foundation, with significant contributions from other U.S. and international partners. The twin detectors are located in Livingston, Louisiana, and Hanford, Washington. Research and analysis of data from the detectors is carried out by a global group of scientists, including the LSC, which includes the GEO600 Collaboration, and the VIRGO Collaboration.


For additional background about the project, you may be interested in these websites:

LIGO Lab: https://ligo.caltech.edu/ (Observatories: Livingston | Hanford)
Advanced LIGO: https://www.advancedligo.mit.edu/
LIGO Scientific Collaboration: http://www.ligo.org/
LIGO Partner Experiments and Collaborations: http://www.ligo.org/partners.php

AAPT - American Association of Physics Teachers

Nota da American Physical Society sobre a experiência LIGO

Emanuele Berti, além do endereço da Universidade do Mississipi tem o endereço da Universidade de Lisboa (IST):

Gravitational Waves Detected at LIGO



Researchers from the Laser Interferometer Gravitational-wave Observatory (LIGO) and from the Virgo interferometer report in Physical Review Letters the first direct detection of gravitational waves—faint distortions in the geometry of spacetime that were predicted by Einstein in 1916.
A Physics Viewpoint commentary by Emanuele Berti of the University of Mississippi discusses the findings and explains why they will open a new era of observational astrophysics.

APS News is also providing additional coverage of this groundbreaking discovery.                             

Evocações químicas a propósito da obra de Miguel Torga: da banalidade ao maravilhoso


  Texto elaborado para a palestra realizada na Casa Miguel Torga no dia 10 de Fevereiro de 2016 integrada nas “Tardes no Torga”

O que liga a química a Miguel Torga? Que evocações químicas podemos encontrar em Miguel Torga? Na minha opinião, muitas e variadas: desde as mais banais – mas nem por isso menos interessantes, pois são portas para o maravilhoso - até às mais subis que nos conduzem a caminhos inesperados. Como quimico e leitor de Miguel Torga, são esses caminhos que irei percorrer, procurando não me perder com erudições fúteis,
Coimbra, 9 de Novembro de 1984 – Sábios. Lá estive parte da noite no meio deles, a ouvi-los como de castigo. Minerva é só meia irmã das Musas. Nunca ensinou a nenhum filho que o fulgor de um verso pode valer por mil silogismos. [...]
Esta passagem do Diário serviu-me de desafio para esta palestra. Colocar a relação entre a ciência, neste caso a química, e a poesia não em campos opostos, mas complementares. Ou mesmo, seguindo Shelley, procurar mostrar que a ciência é muito importante porque nos ajuda a explicar e agir sobre a complexidade e maravilhas mundo, enquanto que a poesia pode contribuir para a compreensão, aceitação e admiração do mundo.

Miguel Torga deve ser lida, mais do que analisado. A beleza e a lucidez por vezes crua, mas não cruel, da sua escrita, única e maravilhosas, sublimam, em particular no Diário – o qual soma mais de mil e seiscentas páginas - sessenta anos da vida de um ser humano que declarando-se poeta, foi também médico. Um poeta cuja poesia mais sublime está, na minha opinião, nos seus contos e Diário. Um caminhante e admirador da natureza verdadeira (não da romântica dos que não a vivem), um viajante incansável, praticante da liberdade, e, sobretudo dono de uma curiosidade intelectual e cultural insaciáveis, as quais foi preenchendo de forma tanto sistemática quanto caótica, a partir de uma infância dura. Também os contos devem ser lidos, assim como essa obra única que é a sua autobiografia com a geografia retocada que é a Criação do Mundo.

Não conheci Torga pessoalmente, mas acredito compreender muitos aspectos da personalidade de Torga pois, eu próprio, filho de um latoeiro – curiosamente há vários no Diário que Torga vai observando e admirando -, que mais tarde foi operário sem deixar de ser artista da lata, e também neto de pessoas do campo, encontrei em Torga, com as devidas distâncias, muitos dos inconformismos que desenvolvi e muitas das desconfianças que uma pessoa que vem do campo encontra na cidade, em especial quando, como Torga, se cruza com citadinos que não sabem desmanchar um porco de matança, nem conhecem a diferença entre uma oliveira e um azambujeiro, e que não entendem que a cultura e a poesia são conquistas e não heranças. Que a rudeza da natureza e a nossa acção sobre ela é também a sua beleza e tragédia,
Coimbra, 20 de Novembro de 1960 O que me tem valido é a resistência da cepa. Sou como aquelas oliveiras cordovesas enxertadas a azambujeiro. Dou azeite poético, com a mínima acidez possível, num cavalo com toda a amargura do mundo.
Torga costuma ser catalogado como um escritor rural e telúrico, ligado às serranias e fragas de Trás-os-Montes. Mas no que escreveu não se encontra bucolismo nem saudosismo - antes pelo contrário-, para além da admiração pela coragem e carácter das gentes do campo e relativa compreensão para com a resignação destas em relação à miséria e ao sofrimento. Segundo Torga, Eça falhou em A Cidade e as Serras porque nunca sujou as botas na serra. Embora, escrita num contexto particular, a afirmação seguinte de Torga resume o seu inconformismo e ao mesmo tempo a sua adesão ao progresso ao serviço da humanidade,
Coimbra, 31 de Outubro de 1947 [...] Não sou impermeável ao progresso, muito pelo contrário, mas necessito que me demonstrem a razão das coisas.
Claramente, em algums momentos que irei referir mais à frente, Torga não ficou convencido da necessidade do progresso, e até o rejeitou ou se refugiou dele,
Coimbra, 26 de Abril de 1952 Contra o aceleramento da história um passeio no campo. Não conheço outro antídoto. Diante de uma arte que parece ter as suas possibilidades esgotadas [...] duma ciência que devora a própria matéria que estuda, ou duma técnica apostada em envergonhar a nossa fisiologia – só há o recurso das hortas.
Noutros momentos, acreditou na esperança, com a ironia de quem nos anos 1960 acompanhava as promessas de cura para todas as doenças,
Coimbra, 20 de Dezembro de 1966
[…] não há dia nenhum sem a notícia de qualquer prodígio. Astronautas que sobem e descem, descobertas que se sucedem, ortodoxias que se pulverizam, doenças incuráveis que se curam, toda a via do mundo a ferver no caldeirão da esperança.
Como hoje, poder-se-ia fazer a mesma ironia – num artigo recente do The Economist tinha o título: “2016: o cancro vai ser curado... outra vez!” -, mas isso seria um erro de perspectiva. Curamos hoje muito mais doenças e para isso a química muito tem contribuido.

Mas voltemos à aparente trivialidade: o uso da palavra «química». Miguel Torga utiliza a palavra algumas vezes no Diário. Por exemplo, em sentido literal, esta é usada para se referir à água,
São Martinho de Anta, 27 de Dezembro de 1938 Descobri hoje a água. Não a água lírica dos poetas. Descobri mas foi a água química e líquida, a correr, a manar duma fraga [...]
Esta bela passagem pode levar-nos à complexa química desse líquido especial que é água, que existe no nosso planeta nos três estados e é a substância mais importante para a vida – tudo coisas tão banais como maravilhosas – mas deixemos isso para outro altura. A água, em especial a termal, tem uma presença importante em Torga. Na passagem seguinte evoca-se simultaneamente a descrença da ciência e na água como tratamento, mesmo em termos de relações humanas...
Caldelas, 16 de Agosto de 1952 «Quem com água se cura pouco dura» diz o ditado. Mas eu cá me vou aguentando, a beber água da fonte. Com a mala cheia de drogas, acabo por ingolir apenas estes bochechos homeopáticos de linfa natural [...] maltratado pela ciência de hoje, apego-me instintivamente a esta sabedoria empírica do passado, além do mais, poética. [...]
A paisagem repete-se muito [...] os devotos são sempre os mesmos [...] mazelas que nunca são curadas [...]
Relações humanas para as quais Torga clama por um insecticida, produto da química bastante discutido no final dos anos 1950, metafórico,
Coimbra, 21 de Abril de 1959 – Tanto insecticida que se descobre, e não há meio de aparecer um capaz de debelar o equívoco – a praga das relações humanas.
A química é referida em sentido metafórico duas outras vezes,
Leiria, 5 de Abril de 1940 – [...] O Monte dos Vendavais. Nunca li nada onde o tétrico fosse tão quimicamente puro.
Porto, 28 de Abril de 1958 […] assistir à representação de uma peça nossa. Tem-se pelo menos a visão objectiva da impotência quimicamente pura.
No contexto da prática médica de Torga e das operações e análises a que é sujeito, surgem também referências explícitas à química,
Lisboa, Hospital de S. Luís, 21 de Junho de 1972 […] a minha natureza tenta manter-se alerta. Mas tem contra ela o poder da química e a tarimba do médico. O hipnótico acabará por actuar […]
Coimbra, 26 de Janeiro de 1986 O dia inteiro a ser prescrutado por dentro pelos olhos impiedosos da ciência. A física e a química apostadas em determinar os dias que me restam. Dantes a duração da vida era um mistério sagrado. Agora conhecem-se os mecanismos íntimos da fisiologia e basta a dosagem no sangue de determinado elemento para sabermos a que distância estamos do fim. É um grande progresso do saber e uma grande desolação. Sai-se do laboratório com um sentença de caica sem apelo nem agravo, a cumprir a curto prazo, exarada laconicamente num algarismo, num gráfico, numa imagem.
As referências não literais que aparecem à química no decurso da sua prática médica e da análise que vai fazendo do mundo ao longo da sua vida de escritor são muito mais interessantes. Assim, como os reflexos que vai dando e recebendo do que acontece no mundo que o rodeia. Em especial, os textos que vai escrevendo reflectem processos naturais e artificiais, assim como o impacto da existência ou não de medicamentos químicos para determinadas doenças. Já segui essa pista que nos pode conduzir do banal ao maravilhoso no livro “Jardins de Cristais- Química e Literatura” e vou aqui complementá-la com alguns outros exemplos.

Nos Contos da Montanha, de 1941, no conto Maria Lionça, o médico pouco mais faz do que receitar óleo canforado, tintura de jalapa e digitalina. No início do Diário, Torga está na aldeia a receitar pouco mais do que xaropes. O médico é demasiadas vezes impotente perante a doença. Nos Novos Contos da Montanha, de 1944, Julião está condenado e o médico nada pode fazer,
O médico olhou-o, coçou a cabeça, pôs-se a mexer nos papéis da mesa, e acabou por dizer a triste verdade.
- Pois é, é... infelizmente, é.
Nem falaram de remédios, nem de hospital, nem de nada. […] Ambos se resignavam aquela fatalidade monstruosa. O doutor ficava com o nome miraculoso e com a sabedoria inútil; o gafado ia mostrar ao mundo, de mão estendida, a sua repugnante desgraça.
[...]
A tragédia é total e quase incompreensível hoje em que a lepra é facilmente curada, mas ainda não desapareceu totalmente. Só nos anos 1950 apareceu um medicamento eficaz, a dopsona. Até lá a doença era tristemente democrática,
São Martinho de Anta, 15 de Setembro de 1945 [...] Tudo ignorância? Tudo miséria? Talvez. Mas a lepra toca os ricos, os pobres e os remediados [...]
Como indiquei com mais pormenor em “Jardins de Cristais” o tratamento proposto a Julião, embora inútil, não estava muito longe do único que havia até aos anos 1940, ácido chaulmúrguico, muito semelhante em termos fórmula química (não de estrutura) ao ácido oleico do azeite. Assim a cura deseperada -mas inútil - tinha algumas parecenças com as que existiam...
- Você já experimentou azeite? - perguntou-lhe um dia em S. Cibrão uma velhota – Dizem que é como quem dá um talhadoiro. Tem é de se tomar banho nele. [...]
Infelizmente as chagas e os bubões da lepra foram insensíveis ao banho purificador. E, o Julião depois de alguns dias de esperança, incerteza e desilusão, esqueceu-se de si e da sua tragédia, para começar a pensar noutra coisa: reaver os cinquenta mil reis que dera pelo remédio enganador. […] Quem seria capaz de lho comprar? [...]
Também os antibióticos não estavam disponíveis até 1944. Em 1943, Torga escreveu,
Coimbra, 4 de Maio de 1943
[...] uma meningite, muitos dias entre a vida e a morte [...] e o doutor no derradeiro instante a salvar a situação com um frasco de sulfamidas e algumas injecções de soro.
As sulfamidas são medicamentos sintéticos artificiais, mas bastante falíveis e com muitos efeitos secundários. Hoje não passariam no crivo dos testes clínicos.

E em 1945, Torga experimenta pela primeira vez a penicilina,
Coimbra, 1 de Fevereiro de 1945 – Penicilina. Lá ensaiei também a última panaceia que a ciência inventou. Um miúdo em arder em febre, o pus a estalar-lhe os ouvidos, e dores medonhas. Dantes deitavam-lhe sobre a membrana do tímpano leite de parida, e era cura radical. Agora, penicilina. Quando a fui buscar a casa de um doente onde havia sobrado, o pai do enfermo não queria largar mão do tesoiro. [...] acreditava com uma força sobrenatural na magia da droga. [...] E eu injectei aquilo ao mesmo tempo humilhado e contrito. Por um lado, sabia que o fungo havia de ser ridículo daqui a cinquenta anos; por outro, era o máximo que o esforço, a inteligência e a esperança da humanidade tinham conseguido até hoje.
Torga tem bastante intuição sobre a perda de eficácia da penicilina devida à evolução das bactérias que resulta na resistência aos antibióticos. Depois da penicilina, uma molécula de origem natural, isolada a partir de 1941 e preparada em série a partir de 1944, inicialmente para uso militar, foram descobertos outros antibióticos naturais e semi-sintéticos. Um destes é ampicilina que é uma modificação artificial da penicilina e ficou disponível a partir de 1961.

Actualmente são conhecidas mais de cem milhões de substâncias, sendo descobertas mais de quinze mil por dia. Cerca de metade são de origem natural, sendo a outra metade de origem artificial, ou seja feitas em laboratório, não existindo na natureza. Outras, existindo na natureza são produzidas (sintetizadas) de forma não natural. Muitas destas são possíveis medicamentos.

A situação é muito diferente do início do século. O primeiro grande estudo sistemático foi realizado por Paul Ehrlich que descobriu em 1909 a “bala mágica” para a sifílis, o salvasan. Mas este tipo de descobertas foram durante muitos anos muito escassas.

Voltando aos Contos da Montanha, de 1941, no conto Castigo, um parto corre mal
Num terror de náufrago, o Dr. Daniel pôs-se a injectar anticoagulantes a torto e a direito, a meter mechas, a comprimir o ventre com toda a força. Nada.
[…]
O pulso caía a olhos vistos. Uma palidez de cera cobria o rosto da infeliz.
- Cardiazol, depressa!
- Quero o meu homem ao pé de mim! - pediu Silvana, com súbita energia.
[…]
- Vou morrer, Bernardo, e quero-te pedir perdão....
A tragédia é grande, mas concentremo-nos em duas palavras «anticoagulantes» e «cardiazol». O anticoagulante disponível era a heparina, um polisacarídeo anticoagulante natural obtido a partir de animais. Demorou ainda algum tempo a surgir um anticoagulamente artificial, a varfarina, mas a heparina ainda hoje é usada. A sua história é interessante, mas a do cardiazol é muito mais. Tendo descoberto em 1924 um processo para produzir tetrazóis, Karl-Friedrich Schmidt patenteou a possibilidade de obter moléculas com essa estrutura e criou de imediato uma companhia farmacêutica. Em 1926 a molécula já era testada acerca os seus efeitos estimulantes da respiração e fluxo sanguíneo e estímulo do SNC em geral. Rapidamente se torna popular, sabendo-se que em excesso provocava convulsões. Em 1937 foi testada para um suposto tratamento de doentes mentais com terapia convulsiva. Esse tratamento era complicado e com efeitos secundários elevados, tendo sido substituido mais trade pela terapia electroconvulsiva.

Só a partir dos anos 1950 foram desenvolvidos medicamentos relativamente eficazes para a esquizofrenia e outras doenças mentais, deixando a terapia convulsiva, o choque insulínico e a lobotomia como horrores históricos que espelham a impotência da medicina antes dessa década perante estas doenças. É de notar a esse propósito o conto Milagre em que Raquel depois de desenganada da medicina é levada à bruxa fica “curada” apenas a tempo de se atirar de uma fraga.

Há bastantes partos nos livros de Miguel Torga, um deles realizado por um padre com sucesso. Noutros, como no do conto anterior as coisas correm mal. Noutros há nados-mortos, mortes prematuras, injecções, sofrimento. As coisas melhoraram muito desde essa altura. Ha também bastantes referências a proles extensas. A Mariana de Novos Contos da Montanha e a meretriz do Diário, por exemplo,
Coimbra, 28 de Abril de 1943
[...]
Profissão?
- Meretriz.
- Filhos?
- Oito.
- E todos desde que...
- Todos.
[...] Amparou a barriga desmedida, acomodou-se no banco [...]
- Abortos?
- Nenhum.
[...]
O nono rebento nasceu como o de qualquer mulher honrada [...]
Será que seriam as mesmas personagens com o conhecimento dos contraceptivos orais modernos, disponibilizados pela química a partir dos anos 1960?

O Diário espelha bem a evolução de atitudes perante o tabaco, um produto natural que faz muito mal por se ingerir o seu fumo cheio de produtos também naturais, infelizmente cancerígenos,
Coimbra, 15 de Abril de 1943 – Era preciso dizer-lhe que o fumo lhe fazia mal, lhe aumentava a tosse e o pigarro. Nos livros, pelo menos, vinha assim. Mas filosofei:
- Olhe, a vida, sem uma pitada de risco, não presta. [...] um diabo que se esconda no bolso do colete [...] Intoxica, mas é um regalo vê-lo depois desfeito em cinza, vencido à custa de um segundo da nossa vida.

Praia do Pedrógao, 23 de Agosto de 1981Os malefícios do tabaco. […] os do cigarro que concreto que toda a gente fuma. […] E pôs-me diante dos olhos as estatísticas, por mim, de resto, conhecidas. Simplesmente, eu navegava noutras águas. Nas da angústia humana, que desde os primórdios […] se socorreu de tóxics que a acalmassem, pacificassem, fosse qual fosse o preço. […] Há dores mais profundas e pertinazes do que essas que se aliviam com aspirina.
Podemos ainda encontrar aspectos químicos mais subtis. A partir do conto A vindima, já muito analisado em termos liguísticos e sociológicos, podemos seguir um manancial de alusões química. A produção do vinho, as reacções de transformação da glicose em etanol na produção do vinho. Os efeitos do álcool no mosto parcialmente fermentado,
Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda, o cheiro do mosto embebedava os sentidos. […]
Podemos seguir a química do amor, da norepinefrina, serotonina e dopamina, que sendo palavras bonitas contribuem para a beleza do amor,
Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la, ou inspirada pela beleza do cenário, a Lúcia punha o coração a voar […]
E chegar à química da tragédia e do sofrimento,
[…] quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre, quase teve de berrar.
Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez. Garroteada como a do namorado, a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia.
Vitorino entrou dentro do tonel e já não saiu com vida, provavelmente devido a envenenamento com monóxido de carbono, mas também poderia ser devido a asfixia devida a dióxido de carbono, como acontece por vezes em poços. No primeiro caso, o monóxido de carbono, um gás que não tem uma densidade muito diferente do ar mas que tem uma afinidade muito maior para a hemoglobina do que o oxigénio, adormece-se e morre-se – numa tragédia infelizmente ainda hoje repetida - sem sentir com a presença de concentrações mínimas no ar. No segundo caso, o dióxido de carbono é um gás mais denso que o ar e morre-se de asfixia em locais em que este se acumule.

Há vários outros aspectos relacionáveis com a química e a ciência em Torga. A bomba atómica é referida várias vezes no Diário. Também os plásticos e o petróleo são referidos, numa primeira perspectiva parecendo como críticas ao progresso, ou, lembrando uma passagem acima: como progresso não comprendido,
Santo António do Zaire, 22 de Maio de 1973 Petróleo! Escrevo a palavra, creio que pela primeira vez, e quase que me admiro de a não ver alastrar no papel numa grande nódoa negra e gordurosa. […] Contemporâneo do advento triunfal na cena do mundo desse pus untoso e fétido, extraído dos absessos recônditos da terra, nunca consegui acomodá-lo harmoniosamente nos sentidos e no entendimento. Sei que onde ele aflora, nasce o oiro. Mas nem assim o amo. O ver do céu, há pouco, o primeiro poço a arder, perguntei a mim mesmo dentro o avião, apesar de o saber alimentado a gasolina, se aquela chama seria um lume de esperança ou um sinal de maldição. […] ia pensando na lição que ali estávamos a dar ao indígena. Em vez de lhe emprestarmos consciência racional à sua riqueza anímica, de lhe abrirmos o entendimento para as virtualidades da natureza que ama mas desaproveita, ensinamos-lhe a técnica de a destruir, de a violentar, de a esventrar e de a poluir finalmente com as fezes da sua própria alma queimada.
Pondo de parte a referência paternalista à lição ao indígena já que todas as afirmações têm de ser vistas à luz do seu tempo e do seu espírito, trata-se de uma proposta claramente ecologista. Já sobre o petróleo, dádiva ou maldição? A resposta depende do nosso optimismo ou pessimismo, mas como Torga bem refere não podemos, por agora, passar sem ele.
S. Martinho de Anta, 26 de Março de 1978 - A feira. […] Acabou o artesanato, a expressão singular da actividade humana. Nem um barro modelado, nem uma manta tecida à mão, nem o ferro forjado. Plásticos a todos os níveis. E o mais trágico é que ninguém dá por isso. Ninguém parece lembrar-se sequer do latoeiro, do cesteiro, ou do tanoeiro […] Montes e montes de produtos incaracterísticos, feitos em série enfartam agora os compradores.
Mas afinal o que é criticado não é o material, agente inanimado, mas o seu uso. Montes de produtos incaracterísticos que não parecem ter alma ou calor humanos. A culpa não é dos plásticos é nossa!

Em Torga há percursos a explorar com um olhar químico, partindo da banalidade do dia-a-dia para o espanto perante o maravilhoso que nos rodeia. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

PORTUGAL E O ESPAÇO

Vídeo do MIT sobre a descoberta das ondas gravitacionais

A 3.ª GRANDE DESCOBERTA DO SÉCULO

Minhas declarações à LUSA reproduzidas pela TVI 24, sobre a descoberta de ondas gravitacionais: aqui.

HABEMUS ONDAS GRAVITACIONAIS!


Hoje, com a publicação na Physical Review Letters de um artigo da equipa LIGO (com cerca de 1000 autores) em que é anunciada urbi et orbi a descoberta de ondas gravitacionais, previstas por Einstein há cem anos, é um grande dia para a ciência. Para pormenores leia-se o artigo do escritor de ciência Dennis Overbye no New York Times: aqui. O astrónomo real britânico Martin Rees já tinha feito uma antevisão para o Daily Telegraph: aqui.

Neste século só encontro dois outros momentos grandes da ciência - o anúncio em 2003 da sequenciação total do genoma humano (com o preanúncio feito por Clinton e Blair em 2000) e o anúncio em 2012 da descoberta da partícula de Higgs no CERN (o Higgs é a particula responsável pela massas das partículas elementares e a parte que faltava ao modelo padrão de partículas), que deu o prémio Nobel a Higgs e Englert em 2013), A sequenciação do genoma humano começa a ter aplicações na vida prática, o que está longe de ser o caso da partícula de Higgs...

A descoberta das ondas gravitacionais não é nada inesperado para os físicos. Todos eles esperavam, mais tarde ou mais cedo, que mais esta previsão de Einstein se viesse a confirmar. Mas é uma ironia da história que ela tenha sido feita escassos dois meses após o centenário da teoria da relatividade geral de Einstein, que tão bem descreve os fenómenos gravíticos através de uma deformação do espaço-tempo em volta de corpos com massa.  Até agora todas as previsões da relatividade geral de Einstein bateram certo. É uma teoria não só bela - uma das mais belas teorias científicas - mas também verdadeira, muito verdadeira.

A experiência LIGO, financiada pela National Science Foundation,  estava em funcionamento há alguns anos nos Estados Unidos repetida em dois locais muito afastados: os estados de  Washington e de Louisiana, no noroeste e no sul. Trata-se de duas "antenas" com a forma de L com a extensão de poucos quilómetros, nas quais se pode detectar através da luz laser o afastamento entre dois espelhos. Ora os espelhos afastaram-se  um bocadinho, um bocadinho minúsculo, em 12 de Setembro passado, quando a experiência começou a funcionar após uma melhoria dos equipamentos (durante anos e anos não se viu absolutamente nada!)  devido à colisão de dois buracos negros que deu, muito longe de nós, há mais de mil milhões de anos. O sinal foi o mesmo nas duas antenas: um match perfeito, impedindo que a explicação fosse outra. It is a wave: e é  uma onda que veio do espaço!

Além de se confirmar uma teoria abre-se uma nova janela para observações do espaço. Até agora só se via o espaço através de luz (luz de vários tipos, visível ou invisível). Agora passa-se a recolher o "som" do espaço, que é como quem diz as vibrações não de nenhum meio material mas do próprio espaço-tempo, graças a acontecimentos singulares mas não muito raros  que são grandes cataclismos cósmicos.  Como disse um dos cientistas envolvidos, até agora só tínhamos olhos para o espaço, Agora temos também "ouvidos". E o espaço não é um sítio de pasmaceira, é um cenário de acontecimentos violentos, que nos fornece feéricos espectáculos de luz e cor.

Tal como para a partícula de Higgs, é muito pouco provável, que tenhamos para já quaisquer consequências práticas no dia a dia. Usamos ondas electromagnéticas, porque temos fontes dessas ondas (que são cargas a abanar). Mas não temos maneira de enviar informação por ondas gravíticas, que viajam à velocidade da luz, uma vez que não temos maneira de produzir ondas gravíticas: não podemos colocar buracos negros a colidir uma explosão violentíssima, originando o sinal muito fraco que foi recolhido pelo LIGO, não podemos colocar massas gigantescas a abanar.

Mas agora haverá uma observação permanente, em Terra ou no espaço (a ESA tem uma experiência recente), de ondas gravíticas. Abre-se uma nova janela na astronomia! Vão-se ver melhor os buracos negros e as galáxias, muitas vezes com gigantescos buracos negros no centro, como a nossa Via Láctea. A descoberta que abre uma nova era merece o Nobel e Einstein já cá não está para o receber pela segunda vez. Mas os autores principais da experiência estão vivos. Aposto que Kip Thorne, o teórica da relatividade geral que aconselhou Carl Sagan para escrever o "Contacto" e que ajudou a fazer os efeitos especiais do filme "Interstellar", designadamente a imagem do buraco negro, vai ganhar um Nobel. Só falta saber quando.

CIÊNCIA E RELIGIÃO

Transcrição da minha intervenção oral no encontro "Palavras no Tempo" que se realizou em 2014 no Museu do Vinho na Anadia, no qual participou também o astrónomo João Fernandes (a moderação foi do químico João Paiva): 

Ciência e Religião… Se colocamos Ciência de um lado e Religião de outro, é porque são duas coisas diferentes e isto é um ponto sobre o qual estamos de acordo: os seus métodos são diferentes, os seus objectivos são diferentes. Mas, se concordamos que existe uma diferença essencial entre Ciência e Religião, podemos imediatamente dizer que também têm algo em comum, senão o diálogo tornar-se-ia impossível. Quem não tem nada em comum não pode dialogar. E, do meu ponto de vista, o que têm em comum é profundo.

Para começar, no nível mais simples: ambas correspondem a necessidades do Homem. A Ciência é algo de que o ser humano precisa. É algo feito pelo ser humano e que é entregue a todos. Apesar de ser realizada apenas por uma parte da Humanidade, a Ciência é para toda a Humanidade. E a Religião também é algo que é humano, que foi e é construído pelo ser humano; também tem este sentido de comunidade – aliás, religião tem etimologicamente a ver com “ligação”. Então, ambas as actividades são do Homem e para o Homem. Este é o aspecto mais básico. Agora, um aspecto mais profundo é que ambas tentam fornecer sentido. Trata-se de sentidos diferentes, bem entendido. Dito de uma outra maneira: ambas tentam penetrar no mistério, embora se trate de mistérios diferentes. De modo que somos todos seres humanos à procura... Do meu ponto de vista, o que a Ciência e Religião têm mais em comum é o seguinte: são expressões de incompletude do ser humano, que precisa de mais alguma coisa… e que precisa de mais alguma coisa em comunidade, em partilha.

Do ponto de vista histórico, quando a Ciência começou, já existia a Religião. Quando começou a Ciência Moderna, entenda-se… Com certeza que a Ciência é filha da curiosidade e a curiosidade existe desde que existe o ser humano à superfície, mas podemos situar o aparecimento da Ciência Moderna no início do século XVII. É bem conhecida a história trágica de Galileu, referida pelo João Fernandes, uma história marcante. A Ciência aparece hoje associada à Religião através do sinal gráfico do travessão (Ciência – Religião), muito por causa desse embate, um embate que deixou marcas que chegaram aos dias de hoje.

E o que é que aconteceu nessa altura? O que aconteceu é que havia um território – a tal busca de sentido, o tal mistério – que estava inteiramente unificado. O sentido era só um! E houve ali uma disputa de território. Galileu queria procurar um sentido, que era um sentido diferente daquele que então era corrente a propósito do mesmo objecto – o mundo. O sentido do mundo encontrava-se exposto nas Sagradas Escrituras. Bastava, portanto, ler o livro do Génesis para ver como é que o mundo tinha aparecido. E não apenas para ver esse, mas também para ver outros aspectos do mundo: no Antigo Testamento está escrito, numa passagem muito clara, que o Sol anda à volta da Terra. Aliás, não é só numa passagem. Há um milagre, o milagre de Josué, em que o Sol se imobiliza. Quando Galileu veio dizer, corroborando Copérnico, que, afinal, a realidade é ao contrário, ou seja, que a Terra anda à volta do Sol e que o Sol permanece imóvel,  ele estava a afirmar uma espécie de milagre permanente. Isto é o mundo era todo ao contrário do que estava nas Escrituras.

Não significa isto que, anteriormente, não tivessem ressaltado já diferenças entre o Livro Sagrado e as observações. Por exemplo, já se sabia, na época de Galileu, que a Terra era redonda. No entanto, há passagens na Bíblia que dão a entender ou afirmam mesmo que a Terra é plana. No século XVII, era bem conhecida toda aquela bela estrutura medieval do cosmos em que o Céu ficava por cima e o Inferno por baixo, relativamente a uma Terra esférica. Portanto, acreditava-se não só que a Terra era esférica, como também que o lugar final dos pecadores era no centro dessa esfera. No entanto, a questão de a Terra ser ou não esférica nunca provocou qualquer polémica. Pelo contrário, a tese do movimento relativo do Sol e da Terra constituiu nos tempos de Copérnico e Galileu um aceso pomo de discórdia.

A questão era, afinal, uma questão de autoridade: quem é que podia fazer as interpretações corretas do texto bíblico? A resposta era muito clara: Galileu não tinha o direito de dizer  as coisas da Bíblia de uma maneira diferente daquela que estava na Bíblia. Ele acabou por ser condenado a prisão domiciliária, como sabemos. Uma das emoções maiores que eu tive na vida foi numa ocasião em que visitei Roma ter visto exposta a abjuração de Galileu – assinada pelo próprio punho  Galileu Galilei –, numa exposição sobre o Arquivo Secreto do Vaticano. Galileu abjurou, o que só mostra que ele era humano… teve medo. O que é sobremaneira curioso é que, apenas passados quatrocentos anos, ele tenha sido reabilitado pelo Papa João Paulo II, que sustentou que Galileu era um grande cientista e que, a respeito do movimento da Terra, a razão lhe assistia.

Hoje é muito claro para nós aquilo que já era claro para Galileu. Galileu era católico e um católico fervoroso, era um homem de profunda fé; curiosamente, a fé dele não foi abalada pelas provas a que foi submetido no Tribunal da Inquisição. Era, por isso, uma fé muito forte, suficientemente forte para resistir àquela dolorosa experiência, porque ciência e religião estavam bem arrumadas na cabeça dele. Galileu dizia – e repito uma passagem que já aqui foi evocada – que a Bíblia, ou melhor o Espírito Santo, ensina como é que se vai para o Céu, mas não ensina como é que vai o céu. E essa interpretação de Galileu dos textos bíblicos continua a ser a nossa interpretação hoje: a interpretação oficial da Igreja Católica e a interpretação de todos.

Gianfranco Ravasi, o cardeal que dirige o Conselho Pontifício da Cultura do Vaticano, uma espécie de Ministério da Cultura da Santa Sé, escreveu, no seu livro Breve História da Alma, que a principal questão não dizia respeito ao Sol e à Lua; a principal questão era a de saber quem é que diz o quê e sobre o quê e, claro, com que intenção o diz. Escreve Ravasi: 

“Tinha razão Galileu  - que, neste caso, se revelava melhor teólogo do que os seus opositores teólogos, quando escrevia ao abade beneditino Benedetto Castelli palavras esclarecedoras (que depois haveria de repetir à grã-duquesa Cristina de Lorena): ‘A autoridade do Espírito Santo teve em mira persuadir os homens sobre aquelas verdades que, sendo necessárias à sua salvação e superando todo o humano discurso, não podiam por outra ciência nem por outro meio ser conhecidas a não ser por boca do mesmo Espírito Santo’ ”. 

Quer dizer, há certas coisas que se podem estudar, através de determinado método, usando por exemplo o telescópio ou outros instrumentos, e há outras coisas que tem de ser o Espírito Santo... E, para Galileu, as duas abordagens coexistiam perfeitamente, sem dar azo a dúvidas. Para os seus juízes, as duas realidades não poderiam coexistir; mas, para ele, podiam. A questão hoje está resolvida. Até já houve alguém que, em tom irónico, disse que só faltava erguer no jardim do Vaticano uma estátua ao Santo Galileu… Santo será um pouco demais, mas qualquer dia alguém vai tratar de erguer a estátua; julgo que até já houve uma petição nesse sentido.

O grande Isaac Newton, um cientista anglicano profundamente crente em Deus, não só não colocava em questão que Deus tivesse criado todo o mundo num momento inicial, como também defendia que era impossível a Criação a partir do nada. E dizia até que Deus continuava presente na atualidade e que poderia intervir, e era mesmo necessário que interviesse, não apenas em assuntos humanos, mas também em assuntos astronómicos, como, por exemplo, o movimento das estrelas. Se a força de gravitação universal atrai as estrelas umas para as outras,  a certa altura as estrelas deveriam chocar umas com as outras. O que é que impediria alguns choques iminentes? Uma intervenção divina. Portanto, os milagres não só eram permitidos, como eram mesmo necessários, na opinião de Newton.
Isto originou uma grande polémica à época. Por exemplo, o alemão Gottfried Leibniz, considerado o grande adversário de Newton, dizia que a posição newtoniana não fazia sentido nenhum, designadamente a existência de um Deus que corrige continuadamente a sua obra, uma Deus que  no início não criou o mundo de maneira perfeita e que tem de vir arranjar alguma coisa quando é preciso. Para Leibniz, Deus tinha criado o mundo perfeito e só lhe restava descansar eternamente. Não tinha de fazer mais nada, pois, a partir do momento da Criação, já tinha ficado tudo feito. Ao que Newton respondeu, por interposta pessoa: “Mas isso é heresia! Então está a dizer que Deus não faz hoje em dia absolutamente nada? Que Deus não está presente no mundo?” Esta foi uma das maiores polémicas do século XVII, uma controvérsia  na qual se misturavam Ciência e Religião. Porquê? Porque a distinção entre Ciência e Religião, que já estava organizada na cabeça de Galileu, não tinha sido interiorizada por muitos dos seus seguidores, nem mesmo pelos maiores cientistas, pelo que existia entre os cientistas  disputas teológicas sobre o papel de Deus no mundo. A separação de águas que hoje vemos – Ciência de um lado e Religião do outro – não era clara à época.

Mais tarde, no século XIX, deflagrou outro grande problema, que veio reavivar o debate Ciência-Religião: a Teoria da Evolução de Darwin. De algum modo, o debate anterior tinha sido decidido no sentido de a organização do mundo dispensar a intervenção constante de Deus: os tais milagres de que Newton falava não eram afinal precisos. A visão de Leibniz ganhou, ou seja, o mundo seria uma máquina perfeita, um relógio perfeito e, quando muito, precisaria de Deus apenas como o relojoeiro construtor do mecanismo. Mas esta visão científico-teológica, em que a Ciência prevalecia sobre a Religião, foi muito abalada com o debate sobre a evolução das espécies, incluindo o ser humano.

A questão da evolução é simples: Darwin, depois da sua viagem à volta do mundo, chegou à conclusão de que todo o mundo vivo, existente ou já não existente, pode ser visto como uma árvore e que existiram ramos dessa árvore anteriores aos que se apresentam actualmente; há um tronco comum, uns ramos maiores, outros mais pequenos, e a nossa espécie não passa de  um pequeno ramo dessa árvore. Ele não sabia nada de ADN, nem de genoma, mas percebeu que havia uma unidade histórica no mundo vivo. Hoje, para nós, a Teoria da Evolução não oferece dúvidas, mas ofereceu na altura, tendo gerado enormes discussões. O próprio Darwin, que começou por estudar Teologia em Cambridge, era uma pessoa religiosa; só não foi ordenado pastor por pouco! Ele não interveio neste debate, que foi muito vivo no seio da religião anglicana, mas tinha outras pessoas que o faziam por ele, como Thomas Huxley. É conhecida a famosa controvérsia em Oxford entre Huxley, que foi chamado “cão de guarda” de Darwin, e um bispo anglicano poderoso, Samuel Wilberforce, na qual, a dada altura, este pergunta: 

“O senhor acha que descende do macaco? Então, se descende do macaco, acha que é pelo lado do seu avô ou pelo lado da sua avó?” 

E a resposta de Huxley ficou famosa:

 “Se a questão é descender do macaco ou de uma pessoa que até tem bastantes dotes intelectuais mas que se serve  desse género de argumentos para distorcer, num assomo de autoridade, o que era, ou não, matéria de verdade numa discussão livre, então eu prefiro descender do macaco.”

A discussão à volta da evolução persiste até aos dias de hoje,  de forma muito nítida no mundo protestante, principalmente em certas regiões mais conservadoras e fundamentalistas dos Estados Unidos, o que tem sobretudo que ver com o facto de este debate ter ocorrido no interior do protestantismo. Atualmente, se perguntarem ao cidadão norte-americano típico se a Teoria da Evolução é verdadeira, ele responderá negativamente, e fá-lo-á não por razões de ordem científica mas por razões de ordem religiosa. Vi recentemente na televisão um documentário norte-americano, que mostrava jovens que tinham aulas de Religião e aulas de Biologia, e não sabiam como é que haviam de conciliar as duas aprendizagens a respeito da origem do Homem, tão diferentes elas eram. Existia um grande drama psicológico na cabeça deles: a mesma pessoa tinha de responder de uma maneira numa disciplina e de uma outra maneira na outra. Portanto, este embate entre Ciência e Religião ainda hoje faz sofrer muita gente.

Actualmente, há uma outra questão, que diz respeito às neurociências. Na Ciência levantamos interrogações e procuramos respostas a respeito do cérebro, da mente e da alma. Colocam-se hoje questões muito interessantes. Inclusivamente – imagine-se! – alguns cientistas interrogam-se sobre os processos neuronais que estarão na base da Religião e, mais do que isso, sobre os processos da Teoria da Evolução que determinaram o aparecimento e o fortalecimento da crença religiosa. Há quem diga, por exemplo, que os povos muito unidos pela Religião, como o povo judaico, têm uma capacidade de sobrevivência maior do que outros e que, a certa altura, a Religião foi-se enraizando porque a ligação mais forte ajudava as populações a manterem-se. Claro que tudo isto é discutível, não se pode provar nada, mas este tipo de assuntos está a ser discutido no âmbito da Ciência: qual é a origem da crença e quais são os mecanismos da crença? São assuntos muito preliminares dentro da Ciência, mas eu receio que qualquer dia tenhamos uma polémica do género dos que já houve no passado.

Agora, quanto ao embate… pode haver a ideia de que não se deve falar de certas coisas, para evitar problemas. A minha opinião é  que não só se pode, como se deve falar de tudo, e é por isso que estamos aqui hoje. Eu estou absolutamente de acordo com o João Fernandes de que é possível uma coexistência entre Ciência e  Religião. A história mostra isso. O caso de Galileu, o caso de Newton e tantos outros casos mostram perfeitamente que é possível uma coexistência pacífica. Mas isso não significa de modo nenhum que a crença seja obrigatória.

Como é que eu vejo a questão? Bem, julgo que é São Paulo que fala do “escândalo da fé”. A fé, de algum modo, é um escândalo, no sentido em que alguns têm e outros não.  Agora, o que eu não sei é se é um escândalo ter, ou se é um escândalo não ter. A fé é, de algum modo, uma coisa assombrosa. Tê-la ou não tê-la, conforme queiram. Há outros nomes para a fé como a graça. A graça… ou se tem ou não se tem. Não há maneira nenhuma de resolver esta questão. Porque podem dizer assim: “Tem que ver com a educação, com o ambiente.” Claro que tem que ver com a educação e com o ambiente, mas também conhecemos muitos contraexemplos. Temos visto que a Ciência pode ser feita por crentes ou por não crentes. O conjunto de metodologias e o conjunto de objetivos que a Ciência usa e persegue são hoje completamente independentes da Religião. Não é preciso ter nenhum sentimento religioso para trabalhar em Ciência.

Há bastantes cientistas ateus; alguns até exageram no seu ateísmo, como o biólogo Richard Dawkins, muito famoso nos tempos que correm. Alguns até chamam “cruzada” ao movimento que ele encabeça contra a Religião, o que não deixa de ser um nome bastante curioso. Eu considero que o discurso dele é demasiado radical, embora seja interessante ler os seus argumentos. Dawkins defende que a Religião é não só inútil como perniciosa, dando exemplos históricos. Ajudou a promover um anúncio do Movimento Ateísta nos autocarros no Reino Unido que apregoava: “Deus não existe. Vive a tua vida!” Enfim, não sei se é por se veicular uma mensagem desse tipo nos autocarros que as pessoas ganham ou perdem a “graça“, passam a acreditar ou deixam de acreditar em Deus…  Mas, jogando com a palavra, tem graça.

A graça não será inata, não  nascerá connosco; mas é inerente ao indivíduo no sentido de que este pode ouvir uma voz interior que apela à fé. S. Paulo explica muito bem o apelo de Deus. Ele ia na estrada de Damasco quando ouviu a chamada: “Saulo, Saulo, porque me persegues?”  Saulo, que não era crente, viu então a luz, passando a Paulo. A graça não é inata nem definitiva: há pessoas que, como S. Paulo, adquiriram a fé, e outras que a perderam, como é o caso de Darwin, que terá perdido a fé de uma forma lenta e gradual,  não querendo fazer escândalo com isso. A mulher dele, Emma, que era extremamente religiosa, sentiu a certa altura que o marido já não era o mesmo. Mas ele, provavelmente porque não quis que tal mudança prejudicasse o seu casamento,  apenas escreveu sobre o assunto numas notas autobiográficas que escondeu numa gaveta –  só foram publicadas postumamente –, nas quais revelava o aparecimento e desenvolvimento das suas dúvidas. A mulher, quando se apercebeu daquele processo, terá entrado em pânico. Ela tinha jurado ficar com ele até que a morte os separasse, mas queria estar com ele também após a morte. Deixou de ter a certeza de que Darwin pudesse ir para o Céu junto com ela...

E chego então ao fim, perguntando: o que é isso de acreditar ou não acreditar? Uma pessoa acredita sempre em qualquer coisa. Há o acreditar em Deus e há, com certeza, outros tipos de crença, que podem mesmo recorrer à palavra . É evidente que toda a gente acredita nalguma coisa. Podem não acreditar no transcendente, mas toda a gente acredita nalguma coisa. Li um diálogo muito interessante entre um filósofo ateu, o italiano Paolo Flores d'Arcais, e um teólogo católico, o cardeal Joseph Ratzinger, antes de se tornar Papa com o nome de Bento XVI, em que, a certa altura, o moderador pergunta a d’Arcais: “Então, você não acredita em nada?” E o filósofo respondeu de um modo muito interessante:

“Quanto à pergunta que me fez - «será possível viver sem fé?» -  falta apenas pormo-nos de acordo sobre a palavra fé. Se, por fé, se entender qualquer paixão existencial profunda por alguns valores, que justamente façam da existência própria algo de sensato, e da nossa relação com os outros algo de significativo, não, não se pode viver sem fé; mas esta seria, na realidade, uma definição de fé incrivelmente genérica.”

Com certeza que os seres humanos partilham valores humanos. Toda a gente partilha valores, embora não necessariamente idênticos, sobre o que é bom e o que é mau, o que é justo e o que é injusto. Para mim, essa destrinça não é exclusiva de nenhuma religião. 

Einstein disse isso mesmo de uma forma muito clara. Ele considerava-se uma pessoa religiosa, mas não no sentido de acreditar num Deus pessoal, no Deus do Antigo Testamento, o Deus dos judeus e dos cristãos, o Deus que se revela aos homens e que fala com os homens, o Deus cujo filho morreu na cruz. Para Einstein, isso não fazia sentido, mas fazia sentido pensar na harmonia do mundo como algo de transcendente. É uma visão um pouco panteísta, na linha de Espinosa. Ele tinha uma tal ligação intelectual a essa harmonia do mundo, que a considerava  algo de religioso.  Era o Mistério. E Einstein não se importava de escrever Mistério com maiúscula e não se importava de descrever a reverência que sentia perante esse Mistério como uma forma de Religião. Reconhecia que essa ligação ao Transcendente poderia não ser acessível a toda a gente. Para quem não conseguisse aceder a esta ligação profunda entre o cérebro e o mundo, considerava útil a ligação a alguma das religiões, digamos “normais”, do leque de religiões que são professadas e ensinadas. Einstein cresceu no seio da religião judaica, mas ensinaram-lhe também a religião católica. E depois, a certa altura, na adolescência, largou essas formas de religião: nunca entrou numa sinagoga para rezar. Ele achava que a Religião funcionava como cimento, que era algo de natural no ser humano, mas de que ele não necessitava. Einstein considerava-se uma pessoa religiosa, mas não precisava das manifestações religiosas tradicionais. Quanto à ética, considerava-a um assunto unicamente humano. Paolo Flores d’Arcais acrescenta:

 “Em contrapartida, se, por fé, se entender uma crença religiosa, respondo tranquilamente que sim, é possível viver sem fé; a fé não é necessária para dar sentido à própria existência. Pode-se conferir sentido à existência de muitas  formas.” 

Agora, podemos perguntar-nos: num mundo em que a fé não é obrigatória, por que é que o diálogo entre a Ciência e a Religião é um diálogo não apenas útil, mas também necessário? É que, devia ser fácil, quer a um cientista, quer a um teólogo – porque são ambos seres humanos, que vivem em comunidade – saírem das respectivas esferas e colocarem a questão de saber o que é, da  sua experiência, partilhável pelos outros. Muita coisa é... 

Quando entramos na questão da ética, dos valores, com certeza que a Religião tem contribuições a dar e a Ciência também. As contribuições da Ciência não têm de ser impostas a quem quer que seja mas poderão ser úteis, sendo por vezes mesmo indispensáveis, quando se trata do conhecimento do mundo natural. Se estamos a falar de problemas de base científica  – por exemplo, temos hoje os problemas da clonagem, da manipulação genética, etc. –, a Ciência diz qualquer coisa, diz como se faz ou como se pode fazer, embora aquilo que se faz com o conhecimento já lhe escape.  A Ciência fornece informação, mas não fornece valores. Não compete aos cientistas, ou pelo menos não compete só a eles, dizer o que é que se deve fazer com as imensas possibilidades que a Ciência oferece. Uma coisa é o saber, outra coisa é o poder, embora Francis Bacon tenha dito que “saber é poder”. E o poder não pode ser dado aos cientistas de maneira nenhuma. Do mesmo modo, os teólogos, as pessoas que estudam Religião e que tentam interpretar as doutrinas religiosas, têm coisas a dizer que vão muito além do domínio estrito da Religião. A questão dos valores, a questão das orientações a dar à nossa vida em conjunto, é algo que nos deve envolver a todos. 

E há questões essenciais: se Ciência e Religião são características do ser humano, capacidades do ser humano, que podem surgir em conjunto, muitas vezes a conjugação das duas pode ser necessária, designadamente quando é o futuro do ser humano que está em causa. E dou um exemplo, um exemplo extremo, mas que se percebe muito bem: a sobrevivência da espécie humana. Vivemos aqui neste pequeno planeta e somos a maior ameaça para o nosso planeta. Hoje estamos a discutir questões de ameaças globais, como, por exemplo, o stock de armas nucleares, o aquecimento global, etc. A Terra, vista ao longe, é um minúsculo ponto azul – mas é um sítio onde se deram sangrentas batalhas, onde se dão batalhas!, onde se criaram fantásticas obras de arte, onde se criam obras de arte…  Vista ao longe, nada disso é nítido! Somos todos habitantes deste minúsculo ponto. De um ponto de vista cósmico, o nosso planeta não passa de um pontinho. Qual é o futuro deste pontinho? É evidente que todos os habitantes da Terra têm responsabilidade nesse futuro. Somos a única parte do mundo que percebe o mundo no qual se situa a Terra. Não sabemos se há vida inteligente noutros lados, nem sequer sabemos se há vida tout court noutros lados. E, no entanto, se há alguém que percebe o mundo, ainda somos nós! Percebemos minimamente o funcionamento do mundo, percebemos qual é o nosso canto do mundo e percebemos qual é a relação entre o Sol e a Terra e qual é a origem do Homem e das outras espécies, uma história antiga e que continua hoje em dia. Estamos agora a começar a perceber como é que funciona a mente. Não há mais ninguém capaz disso e essa capacidade chama-se Ciência. Para a sobrevivência colectiva, Ciência e Religião têm de falar uma com a outra.

 Carl Sagan, um agnóstico, foi um astrofísico norte-americano que gostava de ouvir os outros, de falar para os outros, pelo que procurou líderes religiosos para falar do futuro da Terra, na altura mais ameaçada do que hoje por um holocausto nuclear. Ele dizia que todos somos precisos, no que toca ao futuro da espécie, ao futuro do planeta, porque somos a única parte do Universo que consegue compreender o Universo e que, por isso, tem um certo controlo sobre ele. Se a nossa espécie se extinguisse, o pobre Cosmos ficaria sem ninguém que o compreendesse. E eu acho isto fantástico! Já pensei noutras razões para a existência humana, mas esta de termos, que saibamos, o exclusivo da compreensão do Cosmos não para de me confrontar! Sagan viveu no tempo da Guerra Fria, no qual se temia que um desastre pudesse acontecer. Hoje estamos perante uma crise financeira com características globais, mas já tivemos crises bem maiores, crises políticas, económicas, sociais, etc. Então, termino dando a palavra a Carl Sagan. Num livro intitulado Variedades da Experiência Científica, ele escreve, textualmente: “Será que tentar perceber de alguma maneira o Universo revela uma certa falta de humildade?” Esta é uma pergunta que deixo aqui, porque normalmente diz-se que os cientistas são arrogantes. É uma acusação que, em geral, até é justa – alguns que eu conheço são-no de facto –, mas acho bastante injusto generalizar. Continua Sagan: 

 “Creio que é verdade que a humildade é a única resposta adequada perante o Universo, mas não uma humildade que nos impeça de procurar descobrir a natureza do Universo que estamos a admirar. Se procurarmos essa natureza, então o amor pode ser inspirado pela verdade, em vez de se basear na ignorância ou na auto-ilusão.” 

O amor é, decerto, um valor comum. E a relação com o próximo é uma relação que tem de ser construída em permanência. Mas Sagan diz que o amor tem de ser inspirado pela verdade, em vez de se basear na ignorância. Afirma: 

 "Se existe um Deus criador, será que Ele ou Ela ou Isso  [do inglês It] ou seja qual for o pronome apropriado preferiria uma espécie de cepo embrutecido que O adorasse sem nada compreender? Ou preferiria que os seus devotos admirassem o Universo real em toda a sua complexidade? Quanto a mim, parece-me que Ciência é, pelo menos parcialmente, adoração informada.”

Esta frase de Sagan lembra-me muito a posição de Einstein: a admiração, a reverência mesmo, perante o mundo considerado como Transcendente.

Dois Poetas Húngaros




Dos Números
( poema de Attila József)

Conheceis os números?


É certo que os homens números são também,
Como se muitos 1 houvesse no caderno.

Mas estes contam-se
E o caderno maravilha-se extraordinariamente,

Que cada um só pensa em si,
Quer ser aos outros superior

E sem razão eleva-se à parte,
Pode o fazer até ao infinito,

Dessa maneira 1 fica sempre 1,

E não multiplica e nem sequer divide.

Refreai-vos,
E, antes de tudo,

Olhai para as coisas mais simples –
Somai-vos,

Que, crescendo enormemente,
Também Deus, que é infinito,

De algum modo aproximeis.

A Pedra Lançada ao Ar
(poema de Endre Ady)
Pedra lançada ao ar, na tua terra
Caindo, pequeno país, regressa
Sempre a casa teu filho.
Visita torres em série, longe,
Tem vertigens, entristece, no pó onde
Fora nascido cai.

Desejoso de partir, não consegue
Fugir ao sentir húngaro, ou leve
Ou já de novo aceso.
Sou todo teu no meu grande rancor,
Grande infiel nos cuidados do amor,
Aflitivamente húngaro.

Pedra lançada ao ar, triste sem qu’rer,
Pequeno país, tenho teu parecer
De maneira exemplar.
E, ai!, é sempre vã qualquer ideia:
Cem vezes que me lances, voltarei
Cem vezes, afinal.

 Livro: Antologia de poetas húngaros, Âncora Editora.

FINALMENTE AS ONDAS GRAVITACIONAIS?

Correm boatos insistentes que está quase a ser anunciada a descoberta, feita pela experiência LIGO (dois extensos inteferómetros a laser terrestres), das ondas gravitacionais, previstas por Einstein há quase um século.. A confirmar-se será uma das descobertas deste século, a juntar-se à sequenciação completa do genoma humano e à detecção da partícula de Higgs. O astrónomo real do Reino Unido Martin Rees comenta no The Daily Telegraph, antecipando-se ao anúncio: aqui.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

"Junta o dinheirinho"

Este é um comentário ao texto "Poupança, mothafucka!" de Ricardo Araújo Pereira, de alguém que se identifica como mãe:
"Se ouvisse as miúdas todas da escola da minha filha a cantar isso ["A dança da poupança"] em coro e a debater quem sabia melhor a letra (porque há lá umas partes que não são percetíveis à primeira) já não dizia que essa música não atrai as crianças... Eu, que a acho profundamente irritante aos ouvidos e tenho de gramar com um "não mudes mãe, não mudes" quando ela passa na rádio, estou perfeitamente convencida do seu sucesso junto da "malta nova"... Como o dinheiro ainda é meu e a música em causa não me seduz, a "malta nova" lá de casa não vai ter conta poupança no banco publicitado..."
Enganosamente integradas na "Educação para a cidadania", com a legitimação da Direcção Geral da Educação, e a alegre concordância de directores, professores e pais, este tipo de "actividades divertidas" chega às crianças, formatando-as, desde cedo, em função de interesses óbvios de grupos particulares.

A educação escolar deixa de ser educação e passa a ser doutrinamento descarado.

Como é possível que o Estado e as escolas, que deviam pugnar pelos mais elevados níveis de educação possível, permitam que "canções" como esta, com a chance de um bando que, enfim, toda a gente sabe em que apuros está, chegue às nossas crianças!?

Quem é que é que disse que poupança não é coisa se criança?
Quem é que é teve essa ideia errada, atrasada?
Até parece uma piada, mas é feia.
A poupança é p’á criança, bébé.
E quem te dá a dica é aqui o sempre em pé.
Chama-se Silver MC, já domino o ABC,
Por isso vou rimar para aprenderes a poupar.
Sente o beat.  
Sente o balanço.
Entra na dança.         
É a dança da poupança.
Sente o beat.  
Escuta e vê.
Entra na poupança.
Com o Silver MC
Faz como eu faço.
Este é o primeiro passo:
Junta o dinheirinho
Pode ser poucochinho.
E depois?
O que é que vais fazer?
Continuar? Sim! A poupar? Sim!
Fácil! É o segredo p´a render.
A poupança tem swag.
Qual o passo que se segue?
Não parar. Nem pensar em parar.
Não parar. Nem pensar em parar.
Sente o beat.  
Sente o balanço.
Entra na dança.         
É a dança da poupança.
Sente o beat.  
Escuta e vê.
Entra na poupança.
Com o Silver MC
Teah! Silver MC está na casa.
Tu até podes ser uma criança
Mas já tens o feeling da poupança.
Tens o flow e a batida.
E agora também tens uma conta p´ra vida.
É p’a estudar, é p’a brincar, é p’a comprar
É p´ra isso que começas a poupar.
Sabes bem: o futuro é amanhã.
Silver MC é o meu nome. Hã?
O que acontece a seguir?

E continua o refrão...