sexta-feira, 29 de julho de 2016

Educação: o processo de mistificação em curso

Transcrevo o artigo Educação: o processo de mistificação em curso, de Paulo Guinote, que li no jornal Público de hoje, por concordar inteiramente com o seu conteúdo.

"A médio prazo perceberemos que é um sucesso ilusório, mas então já os relatórios de gerência e contas estarão encerrados e ninguém será responsável.

As últimas semanas têm sido marcadas na área da Educação por um processo de mistificação da opinião pública que se pode desdobrar em duas vertentes principais.

A vertente mais pública é a de uma renovada retórica de combate ao insucesso e ao abandono escolar, com um aparato “formador” em que alguns enviados político-pedagógicos do ministério da Educação arregimentaram directores e algumas chefias intermédias para lhes voltarem a inocular a velha fórmula do Direito ao Sucesso e repetiram “formações” desempoeiradas de há um par de décadas e um portefólio de “boas práticas” que se resumem, quase sempre, em criar grupos de nível de desempenho entre os alunos, mais ou menos temporários, desenvolver alegadas estratégias pedagógicas diferenciadas e, assim, atingirem necessariamente um sucesso quase total, a menos que os alunos nem apareçam na escola.

Tudo coberto com uma parafernália de documentação para registar diagnósticos, estratégias, critérios, perfis, implementações, avaliações intermédias, reavaliações, reformulações, num aparato que tende mais a uniformizar práticas do que a promover a sua diferenciação. Às escolas e agrupamentos foram solicitadas réplicas – na forma de planos “locais” de promoção do sucesso escolar – da formação recebida, como se fosse, de novo, necessário evangelizar os professores, sempre os únicos responsáveis pelo insucesso dos alunos quando esta facção bem-pensante toma o poder no ME.

A vertente mais oculta do processo em curso passa pela generalização da transferência para as autarquias de muitas competências que ainda residem nas escolas, de modo a que estas se possam candidatar a verbas europeias, tanto para infra-estruturas como para “projectos” de combate ao abandono escolar. Desta forma, passam a ser as autarquias ou as novas comunidades intermunicipais a ficar com verbas destinadas à Educação a que depois as escolas terão de concorrer para desenvolverem os seus próprios projectos.

O argumento político destinado a mistificar a opinião pública menos informada é que assim se “aproximam” as decisões das populações, quando o que se passa é o total esvaziamento da autonomia das escolas e a sua submissão a uma dupla tutela, do ME e das autarquias, desaparecendo a possibilidade de acederem directamente às verbas disponíveis.

A combinação destas duas vertentes resulta num discurso que mobiliza conceitos e objectivos contra os quais parece muito mal estarmos (quem, em seu perfeito juízo, poderá afirmar-se contra o sucesso dos alunos?), mas que é enganador porque esconde que o sucesso não se atinge por decreto, responsabilizando unilateralmente as escolas e os professores pelo sucesso dos alunos e usando a Educação como uma espécie de véu e mecanismo de resolução (aparente) de problemas sociais muito graves que permanecem.

E é um discurso enganador porque esconde que esta é uma estratégia encapotada para financiar e recapitalizar as finanças locais através de uma transferência de competências que vale para alguns autarcas (claro que há excepções) tanto quanto for a dimensão do “envelope financeiro” recebido. Alegam-se enormes bondades das medidas, um interesse enorme na melhoria das condições educativas, mas, no fim do dia, o que conta mesmo é o que se recebe em troca e quanto, a nível central, se poupa numa lógica de Educação Low Cost para o Orçamento de Estado.

Por fim, é importante que atentemos nos laços que se vão estabelecendo em torno da produção e execução destes planos de promoção do sucesso – a nível de escola e a nível (inter)municipal – com o recurso a um outsourcing nem sempre transparente. A encomenda de “estudos” e “projectos” a “empresas” a que antes não se conhecia tal área de actividade ou a centros de investigação a que estão ligadas pessoas que surgem publicamente a defender a bondade da transferência de competências ou a fornecer “formação” remunerada nestas matérias não é ilegal mas é algo que levanta dúvidas éticas.

Porque há quem ande a legitimar “cientificamente” a tomada de medidas de que beneficiam de forma mais ou menos directa num emaranhado de relações pouco claras. Não duvido que, com este espartilho, o sucesso aumente para níveis inauditos e tenhamos muita gente, a nível central e local, a reclamar a responsabilidade por se ter conseguido mais sucesso com menos dinheiro do orçamento numa lógica de continuidade do fazer mais com menos.

Se os alunos ganham com isso? A médio prazo perceberemos que é um sucesso ilusório, mas então já os relatórios de gerência e contas estarão encerrados e ninguém será responsável."

MINISTRO JOGA ÀS ESCONDIDAS: O EMPREGO CIENTÍFICO

Informação recebida do SNESup:

O diploma de Estímulo ao Emprego Científico foi aprovado nesta última quinta-feira em Conselho de Ministros. Gostaríamos de poder difundir o documento através desta newsletter, mas o mesmo não nos foi enviado pelo ministério. Tal aponta para várias questões.

Comecemos pela negociação, dado que se trata de uma questão legal, prevista pela Lei Geral de Trabalho em Funções Públicas e que observa uma certa formalidade. No caso, tentámos até uma proposta de resolução de conflitos, em sede de negociação suplementar.

Com essa proposta caminhámos diretamente no sentido do enunciado pelo Governo, com a transformação de todas os bolsas de pós-doutoramento em contratos de trabalho, para todos os que a requeressem. Com a simples modificação do artigo 23.º resumimos o que poderia ser, efetivamente, esta legislação. De forma realista e praticável. Os custos eram até mais reduzidos, permitindo o seu reinvestimento em apoio à investigação e demonstrado que essa transformação não tem como obstáculo a questão financeira.

Uma efetiva negociação trabalha acordos e pontos de convergência. A própria Lei é clara quando afirma na alínea a) do n.º 3 do art.º 347.º da LGTFP que a negociação coletiva visa “Obter um acordo sobre as matérias que integram o estatuto dos trabalhadores em funções públicas, a incluir em atos legislativos ou regulamentos administrativos aplicáveis a estes trabalhadores;”

Temos assistido a acordos em diversas áreas de governação. Infelizmente, a dignificação do emprego científico não fez parte deste quadro. Tal não se deveu a falta de tentativas de diálogo.

O não envio da versão final torna difícil de comentar o que só conhecemos em sede de negociação. Até perante os colegas este é um documento que deveria ser distribuído e conhecido.

Questões como os contratos a termo incerto foram um ponto de discórdia. Como estarão na redação final da Lei? Estariam, afinal, as posições mais próximas com a queda deste ponto? De momento, não há respostas. As dúvidas permanecem.

Não deixamos, contudo, de notar um toque, que se encontra em pleno comunicado do Conselho de Ministros. No seu ponto 18, a propósito do anúncio desta medida, afirma-se que “ao contrário do que sucedia no programa Investigador FCT, em que os níveis remuneratórios limitavam o número de contratos atribuídos e se encontravam indexados ao estabelecido no Estatuto da Carreira de Investigação Científica, criando uma verdadeira carreira paralela, o presente diploma favorece a contratação de investigadores mais jovens”. Ora, durante a negociação foi sempre mantida pelo Governo a existência de diferentes níveis salariais, com um intervalo discricionário. Com este anúncio, a curiosidade sobre a versão final aumenta. Deixaram de existir níveis, ou foi acrescentado mais um? Por enquanto resta apenas um jogo de escondidas.

Sejamos honestos. A não entrega do diploma demonstra uma má postura perante colegas e revela um critério muito particular de boa fé negocial. Tudo iremos fazer para que se possa conhecer o mais urgentemente possível o texto deste diploma. É inadmissível que não se dê a conhecer o mesmo aos parceiros de negociação e à comunidade em geral. Francamente mal.

Direcção do SNESup

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Universidade, Politécnicos e o Reflexo dos Nomes nas Instituições e Cidadãos

 

Meu artigo de opinião saído no "Público" de ontem:

“A ambição dos homens é colher aquilo que nunca plantaram”.
Adam Smith

Recuso-me  em comungar do desalento do poeta de “Orpheu”: “Já não me importo / Até com o que amo ou creio amar. / Sou um navio que chegou a um porto / E cujo movimente é ali estar”.

Em consequência, obrigo-me, uma vez mais, em dar conta da  teimosia  ou se quiserem, num adoçar de pílula, da persistência de Rui Antunes, presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, de parceria com os seus congéneres de Lisboa e Porto, em ameaçar (ameaça que veio a ser cumprida), de “não assinar o contrato que o Governo está a propor às instituições de ensino superior, demonstrando oposição às ideias do ministro do Ensino Superior desde o início da negociação e decidiram  não comparecer à cerimónia marcada para amanhã” (PÚBLICO, 15/07/2016).

E como não podia deixar de ser , ainda no teor dessa mesma notícia, “o descontentamento entre os maiores politécnicos [Lisboa, Porto e Coimbra] prende-se também com a manutenção da impossibilidade de atribuírem doutoramentos”. Anteriormente, foi mais longe Rui Antunes, ao propor a criação de uma Universidade Técnica de Coimbra (“Diário de Coimbra”, 10/11/205) ou, em alternância, de uma Universidade de Ciências Aplicadas (“Diário as Beiras”, 05/08/2013), em substituição do nome original de  Instituto Politécnico de Coimbra. Em defesa deste seu propósito, a opinião pessoal de que a universidade e o politécnico fazem o mesmo, como se fazer a  mesma coisa  fosse a universidade preparar professores para ministrar, apenas, uma disciplina do 2.º ciclo do ensino básico, enquanto o politécnico diploma professores para ministrarem, simultaneamente, duas disciplinas desse mesmo ciclo. E isto para já não falar no facto de a nota de acesso aos politécnicos ser menor e maior a classificação de saída  com evidente vantagem para os detentores dos respectivos diplomas em concursos docentes. Ou seja, assiste-se aqui, a uma injustiça na selva em que se transformou a formação desses docentes  que enclausura em grades de iniquidade os professores melhor preparados abrindo a jaula de saída aos menos habilitados para que, em feliz imagem camiliana, “as feras façam das garras o seu argumento”!

Consequentemente, não posso deixar de estabelecer analogia entre esta situação e a maneira de pensar de uma personagem de Eça de Queiroz, por si retratada  em uma das suas sarcásticas e saborosas críticas sociais:

“Caso surpreendente! E sobretudo surpreendente para mim porque descubro que a Academia tem sobre os livros a mesma opinião do meu velho criado Vitorino. Este benemérito, quando em Coimbra lhe mandava-mos buscar a um cacifo, apelidado de ‘Biblioteca de Alexandria’, um livro de versos, trazia sempre um dicionário, um Ortolan ou um tomo das Ordenações, e se, por maravilha, nos apetecia justamente um destes tomos de instrução era certo aparecer Vitorino com Lamartine ou a ‘Dama das Camélias’. Os nossos clamores de indignação deixavam-no superiormente sereno. Dava um puxão do colete de riscadinho, e murmurava com dignidade: ‘Isto ou aquilo tudo são coisas de letra redonda’”.

Detenho-me,  agora, sobre o reflexo do nome dos cidadãos e, em alguns casos, seus paradoxos:

Uma Sofia ignorante? É uma questão da antonímia!

Ana é um doce nome de mulher solteira. Perde a musicalidade com o casamento:  Dona Ana. É uma questão de estado civil!

Uma Anabela (feia) não se livra do comentário: Anabela? Hum! Anafeia. É uma questão de genética!

Minha falecida  mãe contava, com muita verve, o caso de uma amiga, de sua graça Felisbela, que, de quando em vez, pondo os olhos em alvo, sussurrava, em longo e conformado suspiro: “Bela não digo que não, agora feliz?”. Em boa verdade, era muito infeliz, tanto como uma nubente a quem o noivo foge, com a sua melhor amiga, no dia do casamento. Mas essa não a sua desdita maior: era bem mais feia do que infeliz. Feia como uma noite de trovões. Apesar de tudo, tivera sorte, ninguém se chama Infelisfeia. È uma questão de bom senso!

Há também aquela história de um pai que à pergunta do funcionário do Registo Civil sobre o nome a dar à  filha, respondeu: “Prante-lhe Ana”. E ela ficou Prantelhana. É uma questão  de regionalismo léxico!

Todavia, nomes há bem mais embaraçosos. Recordo  uma polémica de Camilo, temível fundibulário, que, segundo Jacinto Prado Coelho, tinha “o demónio da polémica violenta na massa do sangue” que em polémica com o poeta brasileiro Tomás Filho, não se coíbe da chacota: “Depois disto, Tomás Filho deputa e delega na bengala de Artur (Barreiros) a sua desforra” (“Crónicas das Nossas Letras”, A.M.Pires Cabral). É uma questão de filiação!

Quiçá pela ausência do necessário esprit de corps, em busca de falso prestígio,  assiste-se, por vezes, ao facto de uns tantos alunos do ensino politécnico apelidarem de  faculdade as escolas ou institutos que frequentam. Por seu turno, através da medida em transmutar o ensino politécnico em ensino universitário, não se livram facilmente  os seus mentores da suspeita de se tratar de uma tentativa  em satisfazer egos institucionais ou meramente pessoais. E esta situação é tanto mais insólita  porque, para Charles Baudelaire, “apenas é igual a outro quem o prova sê-lo”!

quarta-feira, 27 de julho de 2016

DISCIPLINA NA APLICAÇÃO DOS CONHECIMENTOS


Novo texto de Nuno Pereira:

    O êxito académico, nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, assenta predominantemente na capacidade lógico-matemática e na linguística. Daí que muitas vezes sejam desvalorizados alunos com menor domínio do raciocínio lógico e da linguagem, mas dotados doutras competências, como a espacial, a musical, a cinestésica ou a emocional, importantes para o êxito em determinadas profissões ligadas, por exemplo, às artes visuais, à música, ao desporto ou à liderança, respetivamente. Mesmo num ensino centrado no aluno com respeito pela pluralidade do intelecto, todos têm de saber responder a questões, resolver problemas, produzir textos, compreender e expressar-se a nível oral e escrito. Há porém frequentemente descontinuidade entre o conhecimento da matéria e a sua utilização proficiente. Muitos jovens, quando postos perante uma prova, bloqueiam ou saltam precipitadamente para conclusões erradas por processamento defeituoso da informação fornecida, devido a ansiedade excessiva e/ou falta de disciplina intelectual. Pensar de modo racional exige esforço e controlo da atenção. O que é natural para uns não é para outros. Ora cumprir uma série ordenada de etapas permite manter concentrada a atenção e corrigir inconsequências.

    Evidentemente, os alunos com dificuldades beneficiam mais em utilizar estratégias simples de carácter geral, passíveis de aplicar a muitas situações. Nas questões, por exemplo, de indicação, justificação, relacionação ou determinação, adquirir o hábito de, primeiro, salientar o pedido e os dados (se houver) e, depois, ligá-los à solução, num encadeamento completo e com sentido. Também na produção de textos de tipologia variada, nomeadamente descritivos, narrativos, argumentativos ou científicos, manter presente a linha comum dos três passos clássicos – introdução, desenvolvimento e conclusão. No caso particular duma língua estrangeira, desenvolver a compreensão e a expressão orais e escritas, através dum programa acelerador da aprendizagem e complementar das aulas, que sistematize todo o edifício da língua e crie, por meio áudio, condições próximas da primeira socialização dos nativos, baseada na imitação. Para tal, organizar um conjunto de lições compactadas, com apresentação progressiva de uma parte estrutural (padrões lexicais) e outra dinâmica (conversação), o que, mediante a leitura, a escrita, a audição e a reprodução imediata ao ritmo de cada um, permita não só adquirir a pronúncia correta, como interiorizar as regras gramaticais, sem recurso às reiteradas explicações e aos penosos exercícios.

    Aprender a refletir de modo disciplinado torna a acumulação de conhecimentos num saber ativo. Porém, a simplicidade deve constituir a pedra angular de todo o processo para haver melhoria do desempenho com menor esforço.
                                           
                                                                       Nuno Pereira (psiquiatra)
 

A BUROCRACIA EUROPEIA


Como qualquer burocracia, a União Europeia tornou-se uma fonte de absurdo kafkiano. "Vamos aplicar sanções", dizia ela ao longo de várias semanas, preenchendo papeis, muitos papeis. "Já temos as sanções", diz ela hoje. "E qual é o montante?", perguntamos nós. "É zero!"

Isso é o que eu gostava para as multas de trânsito. Diz o polícia: "Vou ter de o multar, são as regras". "Pronto, já está a multa resolvida", acrescenta, depois de preencher cuidadosamente todos os papeis. "É zero".

A União Europeia está hoje descredibilizada. Em primeiro lugar "zero" é o que vale a ideia de sanções aplicadas aos países. Em segundo lugar, "zero" é o que vale a gigantesca burocracia europeia.

terça-feira, 26 de julho de 2016

TORRE DE MARFIM

O documentário é de 2014 mas só agora reparei nele. Sobre os problemas da universidade, uma instituição em eterna crise mas insubstituível. Surgiu na Idade Média e desde então não tem parado de crescer...

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Mário Montenegro no TEDx Coimbra

HOJE À NOITE "TEATRO E CIÊNCIA" EM DEBATE NO CAFÉ SANTA CRUZ EM COIMBRA


As noites de verão estão óptimas, pois a canícula deixa de ser manifesta. Hoje, pelas 21 h, no antigo Café de Santa Cruz, mesmo ao lado da Igreja com o mesmo nome, na Baixa de Coimbra, haverá mais uma sessão de "Ciência ao Luar", com organização do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra em parceria com aquele café e moderação minha.

O tema será "Teatro e Ciência" e à mesa do café na esplanada ao ar livre estarão Maria José Almeida, professora de Física da Universidade de Coimbra, investigadora em Física da Matéria Condensada  e actriz do grupo de teatro Bonifrates, e Mário Montenegro, actor, encenador e director do grupo de teatro "Marionet" que se tem especializado na encenação e interpretação de peças de teatro científico. Depois da discussão sobre literatura e ciência, é a vez de discutir as pontes entre a ciência e o teatro.

FÉRIAS COM LEITURAS MAIS BARATAS

Informação recebida da Gradiva:


Atractor recebe prémio

Informação recebida do Atractor:



No âmbito do Festival Internacional MathLapse Festival, organizado pelo Imaginary (um projecto do Mathematisches Forschungsinstitut Oberwolfach) e que decorreu em Berlim a 22 de Julho, foram seleccionados, por um júri internacional, os 5 melhores MathLapses* (sem nenhuma seriação entre esses 5).

Temos o prazer de informar que o filme do Atractor Construções de fio esticado: cónicas (https://www.youtube.com/watch?v=mldZ_7QwLvs) foi considerado um desses 5 melhores.

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* MathLapse é um pequeno filme que ilustra uma ideia Matemática.

 ATRACTOR
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    Telefone/fax: 222008258 
    Endereço: Associação Atractor 
    Rua de Ceuta, 118 - 5º 
    4050-190 PORTO

Posição do SMESup sobre os contratos de investigadores

 Informação recebida do SNESup:

O SNESup reuniu na passada sexta-feira, 22 de julho de 2016, com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Esta reunião desenvolveu-se na sequência do pedido de negociação suplementar enviado pelo SNESup com o objetivo de apresentar uma proposta para resolução dos conflitos relativos ao Projeto de Decreto-Lei “Estimulo ao emprego científico”.

Nas duas reuniões anteriores, o SNESup apresentou um conjunto de propostas de alteração ao Projeto de Decreto-Lei “Estimulo ao emprego científico” para valorizar e dignificar o emprego científico e, em simultâneo para colmatar as necessidades permanentes do Sistema Científico e Tecnológico Nacional.

O SNESup opõe-se às propostas defendidas pelo atual ministro, Professor Doutor Manuel Heitor, que apresenta um projeto de diploma sobre Emprego Científico, que substitui o programa Investigador FCT, envolve apenas 14% dos bolseiros de pós-doutoramento e cuja norma acentua a precariedade, introduz escalões mais baixos de remuneração e prepara-se também para consagrar profundos cortes no financiamento direto ao trabalho científico.

Notem-se algumas questões no projeto de diploma proposto pelo governo:

i) Mantém-se a figura do bolseiro de investigação para investigadores doutorados;
ii) Possibilita-se que as instituições possam contratar investigadores através de contratos a termo e a termo incerto;
iii) Permite que as contratações sejam efetuadas com um nível de remuneração muito diversificado (a partir do índice 28) mas sempre inferiores aos índices remuneratórios previstos no Estatuto da Carreira de Investigação Científica, e nos termos a definir pela instituição que abre o concurso;
iv) Não configura o acesso à carreira, nem aos investigadores que vierem a ser contratados pelo presente regime nem aqueles que foram contratados pelos programas anteriores (Ciência207/2008 e Investigador FCT);
v) Revoga o Programa Investigador FCT que contrata investigadores (5 anos) com mecanismos equiparados aos do Estatuto da Carreira de Investigação;
vi) Abre a possibilidade dos atuais investigadores com bolsa de Pós-doutoramento da FCT há mais de 3 anos poderem ser contratados através de procedimentos concursais realizados pelas instituições em que os bolseiros desempenham funções. A remuneração será obrigatoriamente pelo índice 28 (ordenado ilíquido de 1870,88 euros/mês) e os encargos resultantes da contratação destes doutorados serão suportados pela FCT através de contrato a realizar com as instituições de acolhimento dos bolseiros que vierem a ser contratados.

De todos estes elementos, só a primeira parte do expresso na alínea vi) corresponde à indicação de transformação de bolsas em contratos. Trata-se do “Artigo 23.º Norma transitória” e aplica-se apenas ao ano de 2016, segundo uma forma convoluta dependente da vontade de algumas instituições.

Ora, tal como vimos na reação dos diversos agentes e organizações, o ponto convergente encontra-se na conversão das bolsas em contratos de trabalho, garantindo uma verdadeira dignificação do emprego científico.

Na reunião de sexta-feira, o SNESup centrou a sua atenção no Artigo 23.º Norma transitória, apresentando um conjunto de propostas capazes de gerar amplo consenso, incluindo:

i) Até ao final de 2017, as instituições contratam sem outras formalidades, todos os bolseiros doutorados que manifestem vontade nesse sentido e que celebraram contratos de bolsa na sequência de concursos abertos ao abrigo do Estatuto de Bolseiro de Investigação;
ii) Os encargos resultantes das contratações de doutorados, ao abrigo do presente artigo, para o desempenho de funções que estivessem a ser exercidas por bolseiros ou investigadores financiados diretamente pela FCT são suportados por esta através de contrato a realizar com a instituição de acolhimento do bolseiro ou investigador, a qual passará a instituição contratante ao abrigo do presente decreto-lei.

Esta proposta foi por nós apresentada com o cálculo preliminar do seu impacto financeiro, que demonstra a sua completa possibilidade.  Pelos nossos cálculos, a transformação de 1000 bolseiros de Pós-doutoramento em 1000 contratos de trabalho (pelo índice 28 como indicado no projeto de Decreto-Lei) tem apenas um investimento líquido do estado de 2,54 milhões de Euros. Com o fim do programa InvestigadorFCT o Estado não irá gastar 8,31 milhões de euros por ano. A possibilidade da conversão de todas as bolsas não possui, como se vê, qualquer questão financeira.

Note-se ainda que os investigadores contratados pelo programa InvestigadorFCT, que não fossem Investigador Principal de um projeto financiado pela FCT, tinham acesso a 50 000 de financiamento (projeto) para iniciar a sua atividade. Logo, os 250 investigadores/ano que não são agora contratados pelo programa Investigador FCT poderiam ter acesso 12,5 milhões de euros em projetos.

Devemos sublinhar que o Ministro Manuel Heitor não mostrou interesse em discutir as nossas propostas, preferindo salientar os benefícios das bolsas de pós-doutoramento desde que devidamente enquadradas num caracter de formação e que a responsabilidade de contratação de investigadores é das instituições do SCTN.

Para o SNESup:
1) O Estatuto de Bolseiro de Investigação deveria ser restrita ao investigadores em formação (e.g. mestrado e doutoramento);
2) O atual diploma sobre Emprego Científico apresentado pelo senhor ministro institucionaliza a precariedade no SCTN e desprestigia os investigadores, acentuando o desinvestimento em recursos humanos para ciência iniciado pelo anterior governo de direita.
3) A flexibilização e precariezação do emprego científico é uma opção política do atual governo e não o resultado de constrangimentos orçamentais
4) A transformação de cerca de 300-400 bolseiros de doutoramento financiados pela FCT em contratos de trabalho é a peneira com que se pretendia tapar o sol da verdade.
5) A concretização do diploma do emprego científico representa uma oportunidade perdida para a dignificação do sistema.

Todo este processo permitiu que a própria comunidade olhasse e compreendesse melhor a situação organizacional e financeira, demonstrando-se que o problema não está nos recursos, mas sim no quadro institucional.

O trabalho que o SNESup desenvolveu sobre esta matéria terá continuidade num conjunto de ações que se encontram em programação. É fundamental que se encontra uma verdadeira lei de dignificação do emprego científico, que termine com o subemprego e caminhe para a estabilização de vínculos enquadrados no ECIC. Esse é o forte desafio que abraçamos com toda a nossa dedicação.
Saudações académicas e sindicais
A Direção do SNESup


14 de julho de 2016

segunda-feira, 25 de julho de 2016

LIVROS PARA O VERÃO


Minha crónica na última revista "As artes entre as letras":

De há muito que venho defendendo que o “Verão”, que alguns chamam a “silly season”, não tem necessariamente de ser um tempo morto para os miolos. Assim como não se deixa o corpo sem alimento, também não me parece sensato deixar o espírito sem alimento ou com mau alimento (como a chamada literatura “light”, que cobre os escaparates e as montras das livrarias). No Verão, quando os horários são mais relaxados e o ambiente eventualmente muda, é o tempo para pôr as leituras em dia, mesmo leituras mais exigentes que foram por falta de tempo postergadas.

Venho propor como leituras de Verão seis livros de divulgação científica publicados recentemente em Portugal, três de autores portugueses e três traduções do inglês. Não são leituras pesadas, mas também não são livros para consumir rapidamente. São livros para desfrutar com tranquilidade, para que regressemos de férias com mentes mais abertas. A ordem é a do apelido do autor.

- Jorge Dias de Deus, “Ciência Cosmológica”, Gradiva, 2016

Este n.º 215 da colecção “Ciência Aberta” da Gradiva (o último) traz como subtítulo três interrogações fundamentais do ser humano: “De onde vimos? Onde estamos? Para onde vamos?”.  Estas são quase as mesmas interrogações que dão título a um quadro do pintor Paul Gauguin, uma grande obra, inspirada no Taiti, realizada em 1897 rapidamente numa situação de grande angústia pessoal (no final Gauguin tentou suicidar-se). Tentando explicar como a humanidade tem progredido nas respostas a estas magnas questões, o físico Dias de Deus, autor de outros livros da colecção “Ciência Aberta”,  apresenta uma história  da ciência cosmológica desde a Antiguidade (quando ela se confundia com o filosofia e a mitologia) até aos nossos dias (quando, fundada na matemática e na observação, ganhou uma forte base empírica). É um relato,  escrito com com rigor mas acessível, da evolução nosso conhecimento do cosmos, das histórias antigas dos deuses até à teoria do Big Bang.

- Jordan Ellenberg, “Como não errar”, Marcador, 2016.

O autor é um matemático norte-americano, professor na Universidade de Wiscosin-Madison, que escreve sobre a sua disciplina para a grande imprensa norte-americana. Ellenberg comunica a sua paixão pela matemática de uma forma assaz cativante, num texto onde as histórias concretas e o humor ingredientes fundamentais. O subtítulo transmite a intenção do autor: “O poder do pensamento matemático no dia a dia”. A matemática não é uma disciplina afastada da realidade, como alguns pensam,  mas sim uma maneira de olhar para a realidade, que nos pode ajudar no nosso permanente confronto com ela: De posse de matemática é mais difícil deixar-mo-nos enganar.

- Walter Lewin (com Warren Goldstein), “A Paixão da Física”, Gradiva, 2016.

O autor principal é um físico norte-americano, professor jubilado do famoso MIT de Boston, que, para além de uma carreira no estudo dos raios X que nos chegam do espaço exterior, ficou mundialmente conhecido pelas suas aulas divertidas, que ganharam uma audiência mundial graças ao Youtube. Como mostra a capa e o leitor poderá verificar facilmente na Internet, para exemplificar as leis do pêndulo, o Prof. Lewin faz ele próprio de badalo do pêndulo, pendurando-se num grande cabo e balançando-de diante dos seus alunos. O livro conta a história da sua vida (é comovente a sua fuga aos nazis na nativa Holanda) e conduz o leitor por uma “viagem pelos prodígios da física”, que vão do arco-íris cujas cores nos encantam aos buracos negros que perturbam a nossa mente.

- Leonard Mlodinow, “De Primatas a Astronautas”, Marcador, 2016.

Se o livro de Lewin é recomendado por Bill Gates, este é recomendado por Stephen Hawking, que foi parceiro do autor, na autoria de dois outros livros publicados pela Gradiva na “Ciência Aberta”: “O Grande Desígnio” e “Brevíssima História do Tempo”. Mlodinow, físico e escritor norte-americano descendente como Lewin de judeus perseguidos pelo nazismo, é ainda autor de obras traduzidas em português como “Subliminar” (Marcador, sobre processos mentais), “O Passeio do Bêbado” (Bizâncio, sobre o acaso) e “Guerra entre Dois Mundos” (Estrela Polar, diálogo sobre espiritualidade com Deepak Chopra). O seu livro mais recente é um excelente resumo da história da civilização, enfatizando o papel da ciência e da técnica.

- Luís Moniz Pereira, “A Máquina Iluminada, Cognição e Computação”, Fronteira do Caos, 2016

O autor, professor jubilado da Universidade Nova de Lisboa distinguido com vários prémios, é um dos maiores especialistas portugueses sobre inteligência artificial. Este livro é uma sua reflexão para o grande público sobre cognição e computação, quer dizer sobre a possibilidade de os computadores poderem imitar os humanos conseguindo aquilo que se chama “conhecer”. Questões que nos inquietam neste mundo inundado por computadores e robots sobre a “consciência” artificial ou mesmo a “ética” artificial são abordadas por Moniz Pereira. Até onde poderão ir as máquinas que criámos? Poderão um dia as criaturas escapar ao criador?

- Natália Bebiano da Providência, “A Matemática e os seus Labirintos”, Gradiva,  2016.

Professora de Matemática da Universidade de Coimbra, historiadora de ciência e autora de vários livros de ficção, Natália Bebiano, ensaia nesta obra uma excursão diversificada com numerosos exemplos (com ilustrações numa edição em bom papel graficamente muito atraente) pela estética da matemática: Começa com questões da literatura (a matemática em Fernando Pessoa e em Jorge Luís Borges e a aversão à matemática de José Saramago e de Gabriel Garcia Marques), passa para o diálogo entre a matemática e as artes visuais, a íntima relação entre a matemática e a música e fecha com o contacto entre a matemática, em particular a lógica, com a filosofia. Uma delícia para a os olhos e para a mente!

Boas leituras estivais!

"AMANHÃ", O FILME SOBRE O FUTURO

domingo, 24 de julho de 2016

Ainda o livro sobre Montaigne: introdução do autor

As pessoas estariam na praia, estendidas na areia, ou então preparando‑se para almoçar, bebericando um aperitivo, e ouviriam conversar sobre Montaigne na rádio. Quando Philippe Val me pediu para falar sobre os Ensaios* na antena da France Inter, diariamente durante alguns minutos, no Verão, a ideia pareceu‑me tão absurda, e o desafio tão arriscado, que nem me atrevi a escapar‑lhe.

Em primeiro lugar, reduzir Montaigne a excertos era absolutamente o contrário de tudo quanto aprendera à luz das concepções reinantes nos tempos em que era estudante. Nessa época, atacava‑se a moral tradicional exposta em Ensaios sob a forma de sentenças e exaltava‑se o regresso ao texto na sua complexidade e nas suas contradições. Quem ousasse trinchar Montaigne e servi‑lo aos nacos seria imediatamente declarado minus habens, atirado para o caixote do lixo da história como se fora um avatar de Pierre Charron, autor de um Tratado da Sabedoria, construído com máximas copiadas dos Ensaios. Desafiar essa interdição, ou encontrar maneira de a contornar, era uma provocação tentadora.

Em seguida, seleccionar cerca de quarenta passagens de algumas linhas para as glosar em poucos minutos, ilustrando nelas, ao mesmo tempo, tanto a espessura histórica como o alcance actual, o desafio parecia‑me insustentável. Deveria escolher as páginas ao acaso, como Santo Agostinho folheando a Bíblia? Pedir a uma mão inocente que as escolhesse a dedo? Ou cruzar a galope os grandes temas da obra? Dar uma ideia aproximada da sua riqueza e da sua diversidade? Ou contentar‑me apenas em destacar alguns dos meus fragmentos preferidos, sem preocupação de unidade nem de ser exaustivo? Fiz um pouco de tudo, sem ordem nem método.

Por fim, ocupar a antena à hora de Lucien Jeunesse**, a quem devo a melhor parte da minha cultura da adolescência, era uma oferta irrecusável.

Antoine Compagnon


* O texto é o da edição de 1595 na versão do «Livre de poche», col. «La Pochothèque» (Librairie générale française, 2001), sob a direcção de Jean Céard. (N. do A.)
** Animador de rádio, cantor, actor (1918‑2008). Durante trinta anos, até

Um Verão com Montaigne - prefácio de João Lobo Antunes


Transcrevemos o prefácio deste livrinho acabado de sair, por amabilidade da editora:

Há muitos anos que Montaigne me acompanha e o seu Ensaios é o livro que levaria para a mítica ilha deserta. Logo no início adverte que irá falar de si e que isso poderia ser maçador para o leitor. Avisou que escrevia com simplicidade, porque falava para o papel como falava à primeira pessoa que encontrasse na rua.

A verdade, porém, é que falando de si falava também de cada um de nós, porque «cada homem contém a forma inteira da condição humana». Trata ainda das coisas simples do quotidiano, dos hábitos, dos vícios, do amor e da guerra, da medicina (que despreza) e das pessoas, da amizade e da morte. Em tudo reconhece a variedade da nossa natureza, que define como «ondulante e diversa». De tudo procura extrair uma lição e diz que da experiência que tem de si próprio colheria o suficiente para o fazer sábio se fosse um bom aluno. Ao mesmo tempo, é impossível captar a dimensão plena da sua obra, mesmo com leituras repetidas, porque os Ensaios são um milagre de mutabilidade.

Montaigne escreveu que qualquer tentativa de resumir um livro é tola, e isso decerto se aplica à sua obra. Mas, ao longo dos séculos, muitos estudiosos têm extraído, deste tesouro inesgotável, pérolas de ternura, humor, afecto, impaciência, desdém ou fúria, e dessa forma partilham com o leitor a sua «apropriação» da obra.

O livro de Antoine Compagnon cumpre, com uma erudição simples, esse propósito. Montaigne escreve: «Viver é o meu ofício e a minha arte.» Ambos pulsam livremente neste volume, que para quem não conhece a obra é uma deliciosa introdução a um clássico da cultura ocidental, nunca ultrapassado e sempre contemporâneo.

João Lobo Antunes


Astronomia à beira do Mondego

Sessão de observação astronómica em Coimbra no âmbito do Ciência Viva no Verão organizado pelo Rómulo- Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Um dia nos Estados Unidos pediram-me um dólar para espreitar, na rua, as luas de Júpiter. Eu dei-o e vi-as. Em Coimbra no final de uma tarde e início de uma noite de Verão eu e muita gente vimo-las à borla. Assim como vimos a Lua (na foto final, apanhada no telemóvel).



O Prof. Quintanilha falou no Rómulo em Coimbra sobre melhoramento humano

Poucos deputados em qualquer parlamento Mundo falam como Alexandre Quintanilha sobre as oportunidades e riscos da moderna biologia. O Rómulo encheu-se há dias para o ouvir e as perguntas não acabavam...





O Prof. Lima de Faria falou em Cantanhede sobre genética

Lima de Faria é um cientista português emigrado há muitos anos na Suécia (é cidadão sueco desde 1954). Veio há dias á sua terra natal falar, na Biblioteca Municipal de Genética, Um agrupamento de escolas em Cantanhede tem o seu nome. Apesar da sua idade (nasceu em 1921) deu uma interessantíssima palestra sobre a história da genética, incluindo as suas contribuições, nem sempre ortodoxas (veja-se o título de um seu livro "Evolução sem Selecção"), e o muito que ainda está por descobrir.



Em Manchester, terra de Rutherford e Turing

Estive recentemente em Manchester por ocasião do LUSo2016, a reunião do PARSUK, a associação dos cientistas portugueses no Reino Unido. Na Universidade de Manchester, as fotos junto ao edifício de Rutherford - foi em Manchester, em 1913, que Rutherford descobriu o núcleo atómico - e ao edifício de Turing - foi ainda em Manchester onde ele ajudou a desenvolver a moderna computação.



Ciência Viva a bordo do "Basófias" no Mondego

O astrónomo deu há dias uma palestra a bordo do "Basófias" sobre instrumentos de navegação astronómica, com uma parte prática: um dos exercícios consistia em descobrir do meio do rio a latitude de Coimbra apontando apenas para a estrela polar. Encheu e no dia 29 volta a haver.



FALTA DE ACORDO COM SNESUP SOBRE CONTRATOS

Do sítio de notícias do Sapo:


O Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup) não chegou a acordo com o Governo sobre os diplomas do emprego científico e do período transitório para conclusão de doutoramentos, por não se ter encontrado "uma solução de dignificação".

Em comunicado enviado hoje, o SNESup, que esteve reunido com o ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, para discutir os diplomas do emprego científico e do regime transitório para os docentes do ensino politécnico, considerou que "considera que não se conseguiu uma solução de dignificação para a ciência e ensino superior".

"O ministério sustentou a proposta, que tinha apresentado, o que significa uma degradação do emprego científico, de forma intencional, ou não, e de um programa de flexibilização do emprego científico, que foi envolvido em algo que se saberia que recolhia consenso (a conversão do subemprego das bolsas para contratos de trabalho). A flexibilização é um mecanismo que surgiu como vontade de agradar a alguns, aumentando a volatilidade do emprego científico e subjugando a autonomia dos demais. A distância negocial tornou-se inultrapassável", declara-se no comunicado.

O SNESup diz que os contratos propostos pelo Governo "possuem bases com condições muito piores do que no programa Investigador FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia)", e abrangem "apenas 14% dos bolseiros doutorados".

O sindicato apresentou propostas para que todos os bolseiros de pós-doutoramento sejam integrados na carreira científica.

"Trata-se de uma proposta que vai ao encontro de posições anunciadas por múltiplos agentes de organizações científicas e académicas, que tinham, também, já rejeitado as propostas do ministério", acrescenta o comunicado.

Sobre o regime transitório para os professores do ensino politécnico concluírem os seus doutoramentos, o sindicato rejeitou a proposta da tutela e apresentou uma "que procura materializar a correção de vários problemas".

O ministro do Ensino Superior, Manuel Heitor, tinha adiantado no parlamento, na passada semana, que iria propor nas reuniões com os sindicatos o prolongamento do período transitório por mais um ano.

O regime transitório foi criado com o objetivo de dar aos professores do ensino superior condições especiais para a conclusão dos doutoramentos e a obtenção do título de especialista, exigido desde o início do ano letivo de 2015-2016, como condição para lecionar neste nível de ensino. 

Entre as condições previstas no programa estavam a isenção do pagamento de propinas e dispensa da obrigatoriedade de dar aulas, mas sindicatos e professores acusaram as instituições de não terem cumprido a lei e de terem negado aos docentes abrangidos pelo programa do regime transitório a possibilidade de concluírem e defenderem os doutoramentos.
IMA // MAG
Lusa/fim

Prefácio de "Sobre a Desigualdade" de Harry Frankfurt (Gradiva)


Nos últimos tempos, a questão em torno do crescimento da desigualdade económica na nossa sociedade tem sido bastante debatida — em parte, devido ao estímulo causado pela publicação da investigação do economista francês Thomas Piketty [1]. O fosso que separa os recursos económicos dos que detêm mais dinheiro daqueles que possuem menos tem vindo a aumentar com rapidez. Este crescimento tem sido visto por muitas pessoas como deplorável.

Na verdade, não resta qualquer dúvida de que os mais ricos gozam de vantagens competitivas significativas, muitas vezes censuráveis, relativamente àqueles com menor riqueza. Como é óbvio, isso é mais flagrante na esfera do consumo. Mais importante ainda é a forma como se evidencia no que diz respeito à influência social e política. Os mais ricos encontram‑se na posição de usufruírem de um maior peso na definição dos nossos códigos sociais e de conduta do  que os mais pobres, assim como na determinação da qualidade e trajectória da vida política.

No entanto, apesar de a desigualdade económica ser indesejada, tal não se deve ao facto de ser moralmente questionável. Nesta acepção, não é moralmente questionável. É deveras indesejável no sentido em que é acompanhada de uma tendência quase irresistível de gerar desigualdades inaceitáveis de outros tipos. Estas, que por vezes chegam ao ponto de pôr em causa a integridade do nosso compromisso para com a democracia, devem ser, naturalmente, controladas e evitadas à luz de leis, regulamentos e normas judiciais apropriados, assim como através de vigilância activa.

Creio ser muito importante esclarecer estas questões. Reconhecer a inocência moral inerente à desigualdade económica conduz à ideia de que é errado apoiar o igualitarismo económico enquanto ideal moral autêntico. Além disso, ajuda a reconhecer a razão pela qual deverá ser perigoso ver a igualdade económica, em si mesma, como um objectivo moral importante.

A primeira parte deste livro é dedicada à análise do igualitarismo económico. Conclui que, de um ponto de vista moral, a igualdade económica não é assim tão relevante e os nossos ideais morais e políticos devem estar mais focados em assegurar que as pessoas têm o suficiente. Na segunda parte, irei explorar uma via segundo a qual a igualdade económica poderá ter, de facto, alguma importância moral.

Harry Frankfurt

1 Ver Thomas Piketty, Capital in the Twenty‑First Century (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014)  [O Capital no Séc. XXI, Temas e Debates, 2014.]

TRÊS FOTOS MINHAS DO MONDEGO




Aeroporto Cristiano Ronaldo?

Rui Pinto num comentário ao meu post anterior colocou o problema. Não faz qualquer sentido chamar Aeroporto Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira. Fazê-lo não passa de um acto de populismo. Por que não aeroporto Gago Coutinho?

quinta-feira, 21 de julho de 2016

PORQUE JAMAIS SABEREMOS


O número de Julho da revista francesa "Science et Vie" tem um trabalho de fundo sobre os limites da ciência. Há coisas que nunca saberemos, apesar dos nossos esforços, porque há limites observacionais, cognitivos, conceptuais ou lógicos. A revista elenca 10 grandes limites da ciência, pelo menos no estado actual dos nossos conhecimentos.

1- Nunca saberemos o que o outro sente.

Será que o/a outro/a nos ama? Nunca poderemos saber o que realmente vai na cabeça das pessoas. Alguns instrumentos podem revelar imagens cerebrais, mas não poderemos ter acesso às sensações subjectivas de outra pessoa.

2- Nunca saberemos se 1+1=2

De uma maneira simplificada, o teorema de Goedel diz-nos que não podemos estar seguros que as demonstrações matemáticas não levem a contradições. Este é um limite da lógica. E é devido a ele que a revista recorre ao pitoresco subtítulo...

3- Não saberemos nunca onde estarão os planetas daqui a 60 milhões de anos.

As leis da mecânica celeste são conhecidas.  Mas a não-linearidade das forças aliada à falta de precisão das condições iniciais impedem-nos previsões seguras a longo prazo. Por outras palavras: o nosso sistema solar é caótico. Aplica-se também a ele uma metáfora da meteorologia: o abanar de uma borboleta no Brasil pode causar um tufão na China.

4- Não conheceremos nunca o antepassado universal.

De acordo com a teoria de Darwin, a vida é uma árvore. Pelo que poderíamos, em princípio, tentar conhecer o LUCA, Last universal common ancestor, o vértice da árvore, que viveu há cerca de 3,5 mil milhões de anos. Mas modernamente pensamos que o nosso antepassado último pode não ser um só indivíduo, mas uma comunidade de seres minúsculos. Assim não haveria um só vértice...

5- Não compreenderemos nunca o que passa o nosso entendimento

Mesmo os melhores sistemas de inteligência artificial só são capazes... daquilo que são capazes. O mesmo se passa com o nosso cérebro, limitado pela sua história evolutiva e pela sua estrutura. A questão que se coloca é se as máquinas não poderão um dia ultrapassar a nossa limitada capacidade cognitiva. 

6- Não saberemos nunca em que universo vivemos

Vivemos num universo é certo, Mas uma parte dele é-nos fisicamente inacessível, só vemos o interior de uma "bolha", pelo que só podemos imaginar como será o resto. E poderá haver universos paralelos...

7- Não saberemos nunca o que é um electrão

É extraordinariamente pequeno e tem simetria esférica. os físicos imaginam que é pontual, mas pode não ser. Ao fim e ao cabo uma partícula física não tem de ser um ponto matemático. E alguns filósofos da ciência avisam que não podemos aceder á realidade em si, mas apenas a modelos dela. 

8- Não conheceremos nunca o genoma do Tyranosaurus Rex.

Já sequenciámos o homem de Neanderthal e avançou-se na sequenciação do mamute. E os dinossauros? O ADN degrada-se e, mesmo a a -5 graus Celsius, desfaz-se em seis milhões de anos. Ora os dinossauros desapareceram há 66 milhões de anos. Não há hipóteses...

9- Nunca saberemos porquê

A ciência trata do como, mas tem dificuldades com os porquês, em especial os porquês últimos. Haverá sempre uma infinidade de porquês, mesmo que alguns primeiros porquês sejam respondidos porque a explicação de algumas entidades remete para outras.

10- Nunca saberemos se vivemos no interior ou no exterior da Terra

Parece estúpida a frase. Pois não é evidente que vivemos no exterior da Terra? Mas podemos imaginar uma inversão geométrica:  tudo o que se encontra na superfície da Terra muda de orientação: em vez de apontar para fora, aponta para dentro?  A pergunta é imediata: mas como é que todo um Universo pode caber dentro de uma bola com 6400 km de raio? Bem, a geometria explica que nesse neste caso os astros teriam de ser muito mais pequenos, tendo o Sol, um raio de 1,3 m e sendo as estrelas longínquas microscópicas. Esta visão obrigaria a mudar as leis da física. O melhor argumento que exclui esta visão invertida é o da "navalha de Occam": a física seria horrivelmente mais complicada.

H+a aqui muito material parav reflexão. Mas, se me é permitido, discordo da "Science et Vie" no último item: sabemos que vivenmos no exterior da Terra. A revista precisava de uma lista de dez...


CAMINHOS DA MINEALOGIA (2)

Segundo texto de uma série da autoria do Professor Galopim de Carvalho
(Acesso ao primeiro aqui).

 Os minerais na Antiguidade

É com Teofrasto (372 – 287) que surge o primeiro tratado de mineralogia – As Pedras. A este discípulo de Aristóteles se deve a primeira classificação mineralógica, tendo por base as respectivas utilidades como minérios, pedras preciosas e pigmentos, tendo descrito vários tipos de minerais, sobretudo gemas, e algumas rochas.

Houve, no entanto, um longo caminho percorrido, no domínio do conhecimento das substâncias, das suas natureza e constituição, cujos primórdios se perdem nas civilizações mais antigas.

Os quatro elementos primordiais ou princípios – ar, água, terra e fogo – impropriamente atribuídos a Aristóteles (384 - 322 a.C.), considerados na Grécia antiga com constituintes universais da matéria, são o culminar de uma concepção muito anterior, que se desenvolveu gradualmente até ser formulada em termos mais abrangentes por Empédocles, cerca de 450 a.C., como teoria dos quatro elementos ou das substâncias.

Sabemos hoje que o texto referido no lapidário de Aristóteles tem origem na Pérsia, em meados do século IX a.C., de autoria desconhecida. Nesta concepção do mundo coube a este que foi o fundador e mestre do Liceu de Atenas, o mérito de a divulgar e de lhe dar crédito tal que a fez singrar e resistir incólume por mais de dois mil anos.

Esta visão, dita aristotélica, teve a aceitação da Igreja Romana, que a adoptou e impôs, a ferro e fogo, no essencial do seu conteúdo, opondo-a tenazmente à teoria atómica, da escola de Mileto (séc. V a.C.).

Deve dizer-se que esta outra visão da matéria já tivera por parte dos hindus uma astuciosa antecipação, tendo sido os árabes que a fizeram renascer através das tradições dos autores gregos e latinos, reintroduzindo-a no saber renascentista europeu.

No que se refere aos latinos, Plínio, o Velho (23 - 79 d.C.), uma das vítimas da histórica erupção do Vesúvio, tem lugar de destaque através da sua História Natural, em 37 volumes. Nesta obra monumental o autor retoma Teofrasto e volta a falar de minérios, pigmentos, gemas e também de algumas rochas como o mármore e o basalto.

No historial da caminhada da mineralogia, há que dar o devido destaque à alquimia. Chegada através do Egipto, primeiro à Grécia, teve em Roma a protecção de Calígula (12 - 41 d.C.). Nesta escola árabe floresceu a Polypharmacia, actividade alquímica onde se queimava, sublimava, dissolvia e precipitava e que, de mistura com outros procedimentos fantasiosos (à luz do conhecimento actual) deram nascimento, não só à química como à mineralogia.

                                                                                                                                A. Galopim de Carvalho