The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

domingo, 26 de Outubro de 2014

Meu depoimento ao Público sobre Nuno Crato

Depoimento  sobre Nuno Crato que enviei à jornalista Andreia Sanches do Público e que foi aproveitado num perfil do ministro que saiu hoje nesse jornal: "O ministro no seu labirinto".


"Tenho muita pena do que está a acontecer no Ministério da Educação e Ciência com Nuno Crato. Ele não se soube rodear de pessoas competentes nem soube controlar uma máquina devoradora de ministros. O Nuno Crato cientista, divulgador e historiador de ciência é muito, muito melhor do que este ministro, que acaba destruído pela máquina que ele queria implodir. O Nuno Crato que eu conheci e com quem estive alinhado defendia a livre iniciativa dos bons professores e a autonomia das escolas. Pugnava pela melhoria dos meios de investigação, para além de ser um combatente da cultura científica. Em vez disso, o actual ministro não respeita os professores e as escolas, esmagados por plataformas informáticas, e está a permitir a destruição de metade dos institutos de ciência nacionais através de um processo de “avaliação” inqualificável e inacreditável. E uma das coisas que mais me pesa é ele ter desistido da disseminação da cultura e história da ciência nas escolas e na sociedade.

O Nuno Crato que foi para ministro tinha boas intenções. Tentei no início ajudar no que me foi pedido (reuni uma equipa para repensar as metas e programas de Ciências Físico-Químicas), mas, no último ano, verifiquei que o ministro se tinha isolado, só ouvia as pessoas mais próximas e não revelava capacidade para empreender  uma transformação positiva. Deixei por isso de poder colaborar com ele e com o seu Ministério. Disse-lho e afirmei-o publicamente. O famigerado exame para professores não correu nada bem ao ministro: foi uma medida inútil, que só serviu para pôr todos os professores contra ele, incluindo os muitos bons professores que temos. Mas a confusão não tem sido só na educação, já que, na ciência, a Fundação para a Ciência e Tecnologia -  FCT trata mal os cientistas, que são afinal a sua razão de ser. A FCT quer impedir muitos investigadores de investigar, delapidando recursos que custaram esforço, tempo e muito dinheiro. Parece-me que Nuno Crato desistiu, logo no início, de ser ministro da Ciência.

Disse durante algum tempo que se algo não funcionava bem no Ministério era o próprio Ministério, mas agora as coisas assumiram proporções demasiado graves, uma vez que o ministro não soube, perante erros brutais das máquinas da educação e da ciência, tomar o partido dos professores e dos investigadores, muito em especial dos melhores profissionais. Não esteve também do lado dos alunos e das suas famílias, que querem um ensino de melhor qualidade nem do lado dos bolseiros, que querem promover a ciência e encontrar oportunidades de carreira. Ele não tem maneira de alijar as responsabilidades no actual estado caótico da educação e da ciência em Portugal.

Para mim esta metamorfose do Nuno, excelente matemático e divulgador da ciência, para ministro que consente por exemplo a diminuição da excelência na matemática (permitindo a condenação de centros excelentes, entre os quais o dele próprio) e ignora o valor da cultura científica e divulgação foi absolutamente surpreendente. Não sei por que é que essa mudança aconteceu e só posso conjecturar: os meandros que desconheço da política, as imposições da troika, os interesses mais ou menos escondidos ou os novos "amigos" que sempre se fazem quando se está no poder. Sei lá eu.

Espero que, não podendo concretizar as melhorias na educação e na ciência que tinha em vista, o ministro volte rapidamente às suas origens.  Seria excelente que o Nuno Crato pudesse voltar a escrever livros como “A Matemática das Coisas”, a olhar para as estrelas com um telescópio, a conviver com os amigos da cultura científica e da história das ciências, como tanto gostava de fazer. Tenho saudades do Nuno."     

SETE ERROS GRAVES DA AVALIAÇÃO DA ESF/FCT

Os Reitores das Universidades portugueses escreveram ao ministro Nuno Crato uma carta demolidora da "avaliação" do sistema científico nacional. "Avaliação" vai entre aspas, pois não se trata de uma verdadeira avaliação por pares, que todos os cientistas não só defendem como exigem, mas sim de um processo político, que visa em primeiro lugar a eliminação de metade do sistema científico-tecnológico nacional, ferindo de morte uma comunidade que estava a apresentar um crescimento notável tanto em quantidade como em qualidade.

Há numerosos erros de conteúdo científico em pareceres emitidos, por falta de capacidade e experiência da entidade organizadora (a ESF - European Science Foundation). Eles são, na sua maior parte, conhecidos em pormenor, pelo que me limito aqui a sumariar alguns erros graves formais de organização do processo por parte da FCT - a Fundação para a Ciência e Tecnologia (ver, no entanto, 5 e 7 para algumas novidades).

Agradeço aos muitos colegas que, em defesa da ciência, fizeram chegar a este blogue muitas informações sobre o processo de "avaliação", algumas já divulgadas e outras a divulgar em breve.

1. Existência de quotas escondidas.

A FCT encomendou à ESF, uma entidade sem suficiente experiência na avaliação de unidades nem, pelo que tem vindo a lume ultimamente,  sem suficiente idoneidade, a avaliação de todas as unidades de investigação em Portugal. Essa avaliação é absoluta, ou seja as unidades de investigação são avaliadas numa escala de seis níveis (mediocre, regular, bom, muito bom, excelente e excepcional). Repare-se no logro semântico, de "bom" ser uma nota negativa. A avaliação abarca duas fases, passando à segunda apenas as unidades com classificação igual ou superior a "muito bom". No entanto, e apesar de afirmar o contrário, a FCT não permitiu que as unidades fossem livremente classificadas com base apenas no mérito. Impôs uma quota definida no contrato que firmou com a ESF, que apenas metade das unidades passariam à segunda fase. Isto significa que as classificações tiveram que se encaixar nesta quota, ou seja as classificações de várias unidades tiveram que ser revistas em baixo para se encaixarem nessa quota (um exemplo que já é público de rebaixamento da nota foi divulgado pelo Conselho de Ciências Sociais e Humanas da FCT) . A existência desta quota foi desconhecida dos investigadores até depois da primeira fase de avaliação ter terminado, sendo apenas revelada quando, após grande pressão jurídica, a FCT revelou o contrato que assinou com a ESF. A análise dos resultados revelou que a quota imposta foi seguida em todos os painéis, talvez por não ter havido acordo sobre uma distribuição não uniforme do "corte" imposto..

2. Falta de transparência

Durante toda a primeira fase de avaliação o contrato que a FCT firmou com a ESF foi escondido, desconhecendo-se a existência da quota. Ainda hoje,  estando a avaliação em plena segunda fase, a FCT recusa   mostrar as adendas que fez ao contrato. É evidente que o contrato deve ser público na totalidade e conhecido com a devida antecedência, não fazendo sentido, por exemplo, que o contrato vá sendo alterado à medida que o seu cumprimento prossegue.

3. Avaliações feitas por não especialistas

Em relação a processos de avaliação anteriores, o número de painéis temáticos foi bastante reduzido, assim como o número de membros do painel. Assim, foram agregadas áreas muito diversas num mesmo painel que não eram abarcadas pelos membros do painel. Por exemplo no painel de ciência exactas, que juntou a química, física e a matemática, muitos domínios de cada uma destas disciplinas não eram abarcadas pela especialização dos membros do painel. Ora um processo sério de avaliação exige a avaliação por áreas disciplinares, como era dantes feito.

4. Notas não comparáveis e arbitrariedade

Com o intuito de "compensar" a austeridade de painéis, a ESF recorreu a um grande número de avaliadores externos aos painéis (mais de 600), tendo cada centro sido avaliado por dois destes avaliadores externos. Tendo em conta o número de centros (322) e de avaliadores, a maior parte dos avaliadores externos terá avaliado um ou dois centros, ou que significa que as notas entre os centros não são comparáveis porque foram dadas por avaliadores diferentes. Assim, as classificações dos vários avaliadores foram levadas em consideração pelos membros do painel de modo arbitrário. Ou seja, classificações elevadas dadas pelos avaliadores externos resultaram, por vezes, num resultado global muito mais baixo. O número de avaliadores externos para cada centro avaliado deixa muito a desejar (segundo alguns especialistas, incluindo o secretário de Estado do Ensino Superior, seriam precisos pelo menos cinco para haver a necessária robustez).

5. Avaliação feita sem visitas aos centros

A avaliação decorreu numa primeira fase sem  as visitas aos centros que são obrigatórias legalmente pelo decreto-lei 125/99 que enquadra toda a avaliação (artigo 28- n.º 3). Como é óbvio, uma avaliação remota e meramente documental não pode dar conta das realidades concretas dos sítios. Não são visitadas as instalações, permitindo aquilatar das condições de trabalho, e não existe o indispensável diálogo com os investigadores das unidades, espalhadas ao longo do país, funcionando em condições muito diferentes. Se não houver visitas a todas as unidades o processo está necessariamente ferido de ilegalidade.

6. Uso de dados errados

A tabela com a produção científica por investigador em cada centro que foi fornecidas aos avaliadores estava errada por um factor de 2. Os avaliadores classificaram as unidades partindo da premissa que a produção científica de cada unidade em Portugal era metade do que na realidade é. Isto retira o fundamento de muita argumentação produzida a respeito de falta de produtividade.  A correcção do erro foi efectuada pela FCT não só a posteriori como à sucapa.

7. Mudança de regras a meio do processo

Com a avaliação a decorrer, a FCT divulgou um documento a que chamou "Informação suplementar" e que na prática introduziu mudanças profundas ao regulamento divulgado. Por exemplo, o número de avaliadores de cada unidade passou de 5 para 3. O ministro disse que as regras iniciais tinham de ser respeitadas até ao fim e isso não foi, de facto, o que aconteceu. A segunda fase da avaliação está a decorrer de uma forma atabalhoada, não só com diminuição do número de avaliadores (parece que nem todos os membros dos painéis compareceram) mas, o que é bastante pior, com o recurso a não especialistas nas áreas avaliadas. Só para dar um exemplo, um centro de investigação na área de Arquitectura foi visitado por um painel que não incluía quaisquer arquitectos. Mas, infelizmente, há mais exemplos.

Ainda alguém pode achar que está tudo bem? Está tudo bem, senhor ministro?

O IRS, A VELHICE E A DOENÇA

“O Estado é um ogre filantrópico” (Octávio Paz, 1914-1973).
Publicou o “Expresso” (27/09/2014):” Nunca pagámos tanto IRS e nunca este imposto pesou tanto nas receitas fiscais. O IRS rivaliza já com o grande motor de sempre da receita, o IVA. E o ano ainda não terminou. As perspetivas apontam para que a receita continue a bater recordes até ao final do anoUm lampejo fugaz  de lucidez, que seja,   nunca mais ilumina  algumas cabeças- de- alho-chocho dos nossos governantes. Numa espécie de aviso à navegação,  já no meu artigo de opinião, intitulado  ”As reformas da Caixa Geral de Aposentações e  da Segurança Social” ( “Público”, 09/09/2014), referindo-me aos reformados, escrevi: “Reformados que pela sua grande expressão numérica são potencialmente capazes de alterar drasticamente os resultados eleitorais”.
Ora aqui está um governo que, apenas,  no ano anterior às eleições legislativas promete aumentar as reformas que andou a cortar  como quem corta as unhas  até ao sabugo ou mesmo até fazer sangue. A razão para esta “generosa” medida  podemo-la encontrar em Nikita Kruschev: “Os políticos em qualquer parte são sempre os mesmos, prometem construir  pontes, mesmo quando não há rios”.

Mas como é possível? Quero pensar que não tenha sido por pura maldade ou mesmo estupidez por não saber quanto isso pesaria em termos eleitorais dado o grande número de eleitores reformados a quem governos sucessivos têm  cortado nas reformas sob a alegação de  falta de fundos dos cofres do  Estado.

 Será por haver, agora, em vésperas de eleições,  um mecenas que nos deu dinheiro a rodos? Será que houve um novo  plano  Plano Marshall (declinado na altura por Portugal, talvez porque, como se diz hoje, não há almoços grátis)?  Será que choveu um maná do céu? Ou será que, finalmente, se tomaram medidas preconizadas durante a ditadura do Estado Novo,  para combater duramente a corrupção em obediência ao cumprimento da lei (dura lex, sed lex): “Há que regular a máquina do Estado com tal precisão que os ministros estejam impossibilitados, pela própria natureza das leis, de fazer favores aos seus conhecidos e amigos?”

Para minorar a fuga aos impostos,  que grassa epidemicamente na sociedade dos nossos dias deste recanto mais ocidental do continente europeu , devem  ser apertadas as malhas que taxem o cidadão com sinais exteriores de riqueza, aquele que, como nos avisa a sabedoria popular,  vende cabritos sem ter cabras. Por outras palavras, lançando impostos  sobre os  reais rendimentos dos cidadãos e não sobre aqueles que  dolosamente possam declarar (ou esquecer-se de declarar) sobre os seu verdadeiros teres e haveres.

Por norma, os  médicos  (mais do que qualquer outra profissão liberal) costumam ser o cepo das marradas dos que se queixam desse verdadeiro cancro social que é a fuga aos impostos. Mas nem sempre em acusação justificada por pertencerem a uma profissão liberal que mais recibos passa  por  eles serem descontados  para efeitos de IRS ou reembolso  de despesas efectuadas no âmbito da saúde.
   
Ainda mesmo sem complicados e complexos cálculos matemáticos ou estatísticos que para tanto bastavam simples contas de merceeiro que numa gaveta depositava o dinheiro que entrava e noutra o que saía, ponho em causa, relativamente à antiga inexistência  de qualquer tecto, um actual tecto máximo de  838,44 euros de desconto para efeitos de IRS.  E se como se isso não bastasse, a passagem de 30% para 10%  a percentagem de dedução. No  Orçamento de Estado, recentemente aprovado, em esse tecto passou de 838,44 para mil euros (grosso modo, + 162 euros) e a percentagem de dedução de 10 para 15%. Mas serão estas pequenas migalhas bastante para os velhos e doentes embandeirarem em arco? Penso que não! Até porque, como já vai sendo uso, o Estado  dá com uma mão e tira com a outra.

Atente-se, por exemplo, neste  título do “Expresso”(20/09/2014):  ”A ADSE paga menos para lucrar mais”. No parágrafo inicial da notícia são especificadas as medidas a tomar: “O Estado vai pagar  menos às clínicas e aos hospitais privados onde os seus funcionários são tratados, mas manterá os 3,5 % que todos os meses lhes desconta do salário e tem planos para diminuir os tectos das facturas remetidas aos serviços para reembolso”. Aliás,  já se encontra em vigor uma diminuição do valor de comparticipações em medicamentos, ou mesmo a respectiva retirada,  o que faz  com que doentes graves e de menos posses deixem, muitas vezes,  de poder comprar todos os medicamentos que lhe são receitados.

De tudo isto, resulta  que paguem  os justos pelo pecadores, aqueles que têm burlado o Estado com  esquemas “comparticipados” por médicos, farmacêuticos e delegados de informação médica, conforme tem sido noticiado pelos media.

E quando o mar bate na rocha quem paga a factura  são os velhos e/ou doentes como se a velhice fosse um crime e a doença o seu móbil. Para além de imorais e injustas, estas medidas carecem de bom senso, de princípios humanitários e, principalmente, de massa cinzenta dos seus responsáveis por levar a que se poupe no farelo hoje para gastar na farinha amanhã. Ou seja, o Estado poupa no reembolso do  IRS e nas despesas com “a praga grisalha”( expressão, inqualificável,   de Carlos Peixoto, deputado do PSD!)  da classe média   e gasta rios de dinheiro quando a doença atinge proporções de grande gravidade numa percentagem elevada da população.

Mas ainda haverá classe média neste país de escandalosamente ricos, ricos,  remediados, pobres  e pedintes que moram na rua e comem a sopa dos pobres ou mesmo revolvem os caixotes de lixo em busca de restos de comida?  Ou seja, um Estado que, em contrapartida,  é perdulário nos impostos deixados de pagar por uns tantos  prestadores de saúde    por os utentes (depois de atingido o tecto anual de mil euros em despesas de saúde) , sem qualquer contrapartida para si,  se desmotivarem  do papel pro bono de  ficais  das finanças ! Até comove ter quem zele, com tanto desvelo, pelos velhos e doentes para diminuir  a despesa pública  em que o dinheiro circula  em benefício dos detentores das grandes fortunas  e prejuízo dos que trabalharam uma vida inteira.

Que diacho!, senhores governantes, será pedir muito a Vossas Excelências que zelem pelos velhos e doentes deste país? Cá por mim, dadas as circunstâncias em que vive parte substancial  dos reformados portugueses, acho que não!

sábado, 25 de Outubro de 2014

Gaia ou Geia — a Terra, elemento primordial

Texto que nos foi enviado pela nossa leitora Isaltina Martins e que muito agradecemos.

(Lendo o texto “Um planeta rochoso”, do Prof. Galopim de Carvalho, 
aqui publicado no dia 18 de Outubro de 2014) 

Não percebo nada de pedras, confesso, daquelas que a Geologia estuda. Gosto, isso sim, da poesia que a natureza encerra, de pedras “bonitas”, mesmo não sendo das preciosas...

No entanto, aprecio a leitura dos textos do Prof. Galopim de Carvalho. Embrenho-me na procura, através da etimologia de cada vocábulo, do significado das coisas de que nos fala.

É o encanto da palavra, com todos os seus mistérios, as suas histórias, os seus laços de parentesco.

E recorro à cultura clássica, especificamente à língua e à cultura gregas, mergulhando na descoberta desse sentido profundo que a génese do vocábulo encerra.

Posso não conseguir entrar no mundo de conhecimentos que a Geologia produz, mas o étimo da palavra leva-me mais longe, conta-me histórias prístinas, conduz-me aos arcanos da civilização, ao mito longínquo do começo do mundo.

Geia (ou Gaia) é a Terra, o elemento primordial. Dela descendem todas as raças divinas.

Na Teogonia de Hesíodo, Geia terá sido a segunda a nascer, depois de Caos e antes de Eros, o Amor. A sua força, a sua energia estão bem patentes quando, sozinha, sem intervenção do elemento masculino, ela concebe Úrano, o Céu, e concebe ainda as Montanhas rochosas e perfumadas, e Ponto, o elemento marítimo, o mar com a sua beleza, a sua força, o seu mistério.

Primeiro que tudo houve o Caos, e depois
a Terra de peito ingente, suporte inabalável de tudo quanto existe,
e Eros, o mais belo entre os deuses imortais,
que amolece os membros e, no peito de todos os homens e deuses,
domina o espírito e a vontade esclarecida.
...
A Terra gerou primeiro o Céu constelado,
com o seu tamanho, para que a cobrisse por todo
e fosse para sempre a mansão segura dos deuses bem-aventurados.
Gerou ainda as altas Montanhas, morada aprazível
das deusas Ninfas, que habitam os montes cercados de vales.

Hesíodo, Teogonia (trad. de M.H.da Rocha Pereira, in Hélade, Antologia da Cultura Grega)

Depois, a união de Geia com Úrano (ouranos: céu) — a Terra e o Céu — , dá origem aos seis Titãs, divindades masculinas e às seis Titânides, as divindades femininas. Dessa mesma união do Céu com a Terra nasceram os Ciclopes, divindades relacionadas com o raio, com os relâmpagos, com o trovão e também os seres da violência, sepultados nas profundezas da Terra, sua mãe, pois Úrano era um tirano cruel, que mais tarde vai ser castigado pelo próprio filho.

E é assim, da genealogia de Geia que vão surgindo os Gigantes, as ninfas dos bosques, as divindades marinhas. Geia é, portanto, a Terra-mãe, a divindade primeira, a criadora. É a deusa da fecundidade, a dona dos segredos do Destino.

Deste modo, os vocábulos estranhos, para um leigo em Geologia, começam a fazer sentido. Tal como há vários anos, vendo um concurso televisivo, quando, perante o olhar incrédulo do apresentador, o concorrente disse que tinha a profissão de “técnico de tanatologia”. Nunca tinha ouvido o nome de tal profissão, mas imediatamente percebi qual era o seu ramo de actividade.

E é assim com a Geologia, o estudo da Terra, da Terra-mãe “o planeta rochoso” ou telúrico. Tellus era para os romanos a personificação da Terra, a Terra Mater correspondente à deusa grega Geia.

E este “planeta rochoso”, possui rochas que em milénios, milhões de anos, vão adquirindo características próprias, “aflorando, por vezes incluídas em ofiolitos”, serpentinizados e outras “incluídas em lavas próprias dessas profundidades”, os xenólitos.

Ora, todos estes vocábulos falam a língua de Homero. A ela, à língua grega, recorreu o cientista, quando quis dar nome a todas as suas descobertas, quando quis identificar o seu objecto de estudo.

Ofiolitos — nome compostos de ofis (opfis), que significa cobra/serpente e litos, pedra: é, portanto, uma pedra com a forma de uma serpente.

Da mesma raiz de ofis, temos as palavras portuguesas: ofídio (de ofis “serpente” + eidos “forma”), ofióide, ofiófago ( ofis + fagos — do verbo grego que significa “comer”), “o que se alimenta de serpentes”, ofiolatria “culto das serpentes”...

Xenólitos — a definição da palavra diz que essas rochas vêm “incluídas em lavas”, quer dizer, são seres estranhos que ali se incrustaram.
xenos é a palavra grega que significa “estranho”, “estrangeiro” e que aparece em vocábulos como xenofobia, xenografia, xenofonia...
litos, palavra grega que significa “pedra” aparece noutros compostos portugueses como: litogénese, litosfera, litografia, megalítico ...

Há, ainda, as rochas vulcânicas, os lamproítos, certamente assim chamadas por causa do seu brilho, visto que lampros é o adjectivo grego que significa “brilhante”.

Não esquecer também, no mesmo texto do Prof. Galopim de Carvalho, as piroxenas, que podem ser encontradas em lavas vulcânicas, onde o primeiro elemento grego pyros, nos remete para “fogo” e o segundo xenos para “estranho”.
pyros entra na composição de palavras como pirosfera, pirotecnia, pirótico, pirogravura, antipirético... 

E se juntarmos pyros com lampo (verbo da mesma raiz do adjectivo lampros), temos o pirilampo, que é “brilhante como o fogo”.

E assim se estabelece a ponte entre a ciência e a linguística, as ciências humanas em estreita ligação com as ciências exactas.

É o Verbo, a Palavra, o Lógos como início e como fim. A união do humano e do divino, o mito e a realidade, sempre unidos, não se negando, mas completando-se. E isso faz a poesia da Vida.

Isaltina Martins
24 de Outubro de 2014

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

PÚBLICO: Reitores arrasam avaliação da FCT: “Um falhanço pleno”


"Pela primeira vez, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) arrasa a avaliação que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) está a fazer aos centros de investigação do país. Os 15 reitores do CRUP divulgaram esta sexta-feira a posição consensual, tomada a 14 de Outubro, que enviaram no início da semana ao ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, em que lhe dizem que já não é mais possível dar o “benefício da dúvida” ao actual processo de avaliação. “Para que um sistema de avaliação seja capaz de promover a excelência tem de, ele próprio, ser pelo menos excelente, se não excepcional. Não é o caso.”

Ler a notícia completa do PÚBLICO aqui.

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

WORMS CONTRA-ATACA

JC Worms, funcionário da ESF que ameaçou a investigadora Amaya Moro-Martin, escreveu uma carta para a Nature em que: 1) Se mostra CONTRA os cortes na investigação em Portugal (ver título) e 2) Retrata os investigadores portugueses como trogloditas que não sabem o que é a avaliação pelos pares.

UMA CANETA BIC CRISTAL PARA A FCT ASSINAR OS CONTRATOS

"As adendas ao contrato ainda não estão assinadas, respondeu a FCT ao PÚBLICO (...)"
“Fico muito contente que os deputados olhem para este caso, pois parece-me muito estranho que ainda não estejam assinadas adendas de um contrato em plena execução, para mais quando elas foram anunciadas há mais de 80 dias”, considera António Granado."
Está visto que temos que levar uma caneta à FCT e enviar por DHL outra para ESF, para assinarem as adendas do contrato de avaliação em execução. Suponho que Miguel Seabra e JC Worms quando fazem obras em casa também só assinam o contrato com o empreiteiro quando já está tudo feito.

Um Nobel para a Educação - 2: A determinação de Kailash Satyarth

Texto na sequência de um outro intitulado Um Nobel para a Educação - 1: O sonho de Malala.

Nesse texto notei que o Prémio Nobel da Paz atribuído no presente ano poderia ser o Prémio Nobel da Educação, caso ele existisse. Referi-me a Malala Yousafzai e agora refiro-me a Kailash Satyarthi. 

Kailash Satyarthi é um engenheiro indiano que muito cedo, ainda rapaz, percebeu a iniquidade da desigualdade social e não se conformou com isso. Não se conformou sobretudo com a realidade do trabalho infantil, um trabalho escravo que sacrifica os mais pobres. Rouba a infância, rouba vida a muitos milhões de crianças não apenas na Índia, mas um pouco por todo o mundo.

O seu esforço de três décadas tem permitido libertar alguns milhares e levá-las para a escola. A educação é o seu fim.

O presidente do Comité Nobel traduziu esse esforço da seguinte maneira "As crianças devem ir à escola e não serem exploradas financeiramente". E é aqui que me detenho.

Na Europa o trabalho infantil, existindo, não tem uma expressão comparável à de outras partes do mundo: a luta pela "educação para todos" deu frutos inequivocamente positivos mas não se pode considerar terminada, afinal tudo o que é civilizacional pode regredir e de modo rápido. Não devemos, pois, respirar fundo e descansar.

Além disso, as crianças constituem uma imensa população sugestionável e, nessa medida, muito apetecível em termos financeiros. Por isso mesmo, grandes empresas têm rondado os sistemas de ensino, as escolas, os professores e os próprios pais para, dizem, colaborarem, participarem na educação. A sua demagogia é apresentada como altruísmo, apoio, cooperação; as ofertas são da mais variada natureza; a técnica é sofisticada e subtil. Ninguém tem resistido.

Esta é uma forma de exploração igualmente inaceitável: também aqui a criança deixa de ser vista como pessoa para ser ver vista como objecto de interesse alheio. Mas, como se pode fazer compreender isto numa sociedade tão refém da economia e de tudo o que gira à sua volta?

UM MONUMENTO À GEODIVERSIDADE E À BIODIVERSIDADE DOS AÇORES


Acaba de ser editada pelo Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), sob a direcção de Victor Hugo Forjaz, Professor Catedrático Jubilado da Universidade dos Açores, a obra de que se reproduz a capa.

Ilha do Pico, numa gravura de 1819 
Em formato A4 deitado, com capa em cartão, com 400 páginas profusamente ilustradas, a cores, regista, em capítulos individualizados: a Geologia, a Zoologia e a Botânica da ilha mais recente e a mais enigmática do arquipélago açoriano, acompanhados por um preâmbulo histórico-geográfico-climatológico.

Os autores do livro são vulcanólogos, biólogos, climatologistas, cartógrafos e técnicos de geologia.

A obra, ao preço de 22,00€, pode ser adquirida na sede da OVGA, Av. Vulcanológica, nº 5, Atalhada, Lagoa – São Miguel. ou pedida pelo telefone 96 241 48 77, ou por E-mail vforjazovga@gmail.com


Não é comum ver a totalidade do vulcão do Pico.


As mais das vezes esconde-se atrás das nuvens.
A. Galopim de Carvalho

Tenhamos a coragem de reconhecer o plágio, a cópia e toda outra qualquer forma de enganar

Plagiar, copiar, enganar são comportamentos académicos reprováveis.
E isto independentemente de os seus autores serem alunos, professores ou investigadores.
Todos os códigos, regulamentos e normas o referem, prevendo as correspondentes sanções.

Agora a realidade: plagiar, copiar, enganar são comportamentos académicos generalizados de que toda a gente tem conhecimento e que a maioria, por múltiplas razões, tolera. Pior, muitas pessoas, alunos e também professores, nem sequer terão consciência clara da ilicitude desses comportamentos e da sua gravidade.

A razão desta discrepância entre "o que deve ser" e "o que é"?

Muito simples: é assim!

O problema está nas escolas e nas universidades, mas é mais geral, está instalado na sociedade. Tenho sabido de várias empresas que fazem trabalhos para qualquer ano de escolaridade incluindo relatórios e teses (por exemplo, aquiaqui), apresentam contactos de correio electrónico, de telemóvel... Fazem isso porque podem fazer isso, porque sabem que nada lhes acontece. Permitido não será, mas proibido também não.

E avança-se...

Soube hoje de uma inovação, ao que li recente e com muita procura: uma aplicação gratuita (ainda para mais, gratuita!) para, num clique mágico, se ficar com os trabalhos de casa de matemática feitos (e logo os trabalhos de matemática!): o aluno fotografa o problema e o resultado aparece imediatamente (imediatamente, como se quer que tudo aconteça).

Só há um pequeno senão: problemas escritos à mão (ainda) não são decifráveis... Mas isso, verdade seja dita, não é bem um obstáculo, pois muito em breve, com o projecto de escola digital, recomendadíssimo (ou obrigado) pela União Europeia, todo o aluno terá o seu laptop, tablet ou algo assim... e nem professores nem alunos precisarão de se esforçar na caligrafia.

Tudo pacífico, como se pode ler aqui, aqui ou aqui. Logo, talvez fosse mais honesto reconhecermos o plágio, a cópia e outra qualquer forma de enganar (se é que alguém engana e anda enganado) como comportamentos académicos aceitáveis. Ao menos seríamos mais coerentes!

Manipulação dos rankings académicos

Um colega fez-me chegar este artigo de investigadores alemães que mostra como uma universidade da Arábia Saudita consegue posição nos rankings: contrata, pagando bem, por uma semana ao ano, investigadores altamente cotados, que pertencem primariamente a outras instituições. Em Portugal também existe este problema de "pertença" a duas, três e por vezes mais instituições (basta ver os papers), ninguém sabendo por vezes qual é a verdadeira instituição desses investigadores.

Os autores usaram a lista dos cientistas mais citados segundo a Thomson-Reuters. Em Portugal, no meio de milhares e milhares de cientistas mundiais, há apenas dois e nenhum é da área da biomedicina, a área que a FCT pretende escandalosamente favorecer. Lembro que é um físico da Universidade do Minho, que pertence a um centro chumbado pela FCT, e um engenheiro do Instituto Superior Técnico, que a FCT chumbou numa primeira fase.

O "MONSTRO" CONTINUA

Várias vozes têm desculpado o Ministério da Educação e Ciência dizendo que os erros na colocação dos professores (há um professor já colocado nos Açores que, depois disso,  foi colocado 104 vezes!) se devem a uma tentativa em curso de descentralização. Paulo Guinote explica, no Público de hoje, que não é bem assim: que a centralização vai de vento em popa e que a voragem do "monstro" da 5 de Outubro  continua fazer vítimas. Os professores e, acima de tudo, os alunos, como bem lembra João Miguel Tavares no mesmo Público. A última coisa em que o Ministério pensa é nos alunos.

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Propostas da ANICT portadoras do vírus que está a destruir a Ciência e aniquilar da dignidade dos Investigadores?

Informação recebida do Sindicato nacional do Ensino Superior:
A Associação Nacional de Investigadores em Ciência e Tecnologia (ANICT) tornou público um documento que designou por “Princípios orientadores para a criação do Estatuto do Trabalhador de Investigação Científica e restruturação da Carreira de investigação Científica (Decreto de Lei 124/99)”, para o qual, diz ter solicitado (ou irá solicitar) pareceres à FCT, CRUP, ABIC, SNESup e FENPROF. Mais ainda, tem agendado uma campanha para publicitar o seu documento pelas universidades portuguesas, iniciando a campanha na Universidade do Porto no dia 22 e terminando-a na Universidade do Aveiro a 4 de novembro, passando pelas Universidades de Trás-os-Montes e Alto Douro, Minho, Coimbra, Beira Interior, Lisboa, Évora e Algarve. Estranhamente, as universidades não só cederam uma sala para que a ANICT possa reunir com os seus associados como se associaram à sua iniciativa dando-lhe a honra da presença de uma vice-reitoria e, no caso da reunião em Lisboa, o Governo de Portugal também se faz representar pela senhora Leonor Parreira, Secretária de Estado para a Ciência.
 Mas afinal, o que é que a ANICT advoga e propõe para que as Reitorias da Universidades Portuguesas e o Governo de Portugal lhe estejam a dar tamanha importância?
 Da leitura do documento facilmente se constata que a ANICT pretende:
1.   O fim da exclusividade de todos aqueles que integram ou vierem a integrar o dito Estatuto do Trabalhador de Investigação Científica (o qual propõem substituir o atual Estatuto da Carreira de Investigação Científica), ou seja, a perda 1/3 do atual salário; Grande atropelo à dignidade e à atividade dos cientistas Portugueses; defendem uma discriminação negativa para os investigadores (ou será que têm também outras propostas para estender a perda de exclusividade a todos os funcionários e agentes públicos?).

2.   A perpetuação dos contratos a prazo, os quais poderão durar até VINTE ANOS e na melhor das hipóteses durarão sempre DEZ anos; Uma Violação da legislação Europeia, do Código do Trabalho e a institucionalização da precariedade.

3.    A criação de uma nova categoria para Investigadores Doutorados que designam por Investigador Assistente (com um salário menor do que o de Professor Auxiliar), ao qual não reconhecem competência para desenvolver investigação de um modo autónomo; Defendem que a carreira de investigação deve ter menor dignidade do que a carreira docente; e que os doutoramentos dos investigadores são menos valiosos do que os dos docentes.

4.    Possibilidade dos Investigadores receberem suplementos remuneratórios, para recuperarem até 1/3 do salário perdido com a perda de exclusividade, através da lecionação de aulas (2.º e 3.º ciclos, mas não de 1.º ciclo) ou através de projetos de investigação que sejam investigadores responsáveis. Assim, defendem que a recuperação de 1/3 do atual salário fica dependente das vontades daqueles que ocupam cúpulas do poder da instituição e/ou da capacidade de angariar fundos para a investigação. Assim, subalternam o nobre objetivo da Ciência (a promoção do conhecimento) tornando-o mero acessório dos interesses económicos e/ou pessoais. O importante será apenas obter financiamento…

5.  Que a categoria de Investigador Coordenador seja apenas acessível aos investigadores que estiverem a fazer a gestão científica de um centro de investigação; Apesar de não darem significado ao termo “gestão científica” subentende-se que corresponde à posição dos atuais coordenadores das unidades de investigação do SCTN, os quais, de acordo com os Estatutos da maior parte das unidades de investigação, são eleitos pelos investigadores doutorados integrados em cada uma das unidade de investigação. Portanto, a não ser que a ANICT tenha também um novo diploma para regular o regime jurídico das unidades de investigação, a ascensão a esta categoria terá um caráter temporário e em Portugal não poderá haver mais do que algumas (poucas) centenas de investigadores coordenadores!

6.  O estatuto do bolseiro de investigação seja exclusivamente cingido a estudantes do ensino superior, que usufruem de bolsas de estudo durante os seus estudos de doutoramento e/ou mestrado; Deve salientar-se que se trata da única medida positiva que o documento contém. No entanto, nada tem de original pois tanto os sindicatos (SNESup, FENPROF) como a Associação dos Bolseiros de Investigação (ABIC) há muito que defendem esta posição. Por exemplo, nesta legislatura apresentaram esta proposta aos vários grupos parlamentares, à Comissão Parlamentar de Ciência, Educação e Cultura e à Secretaria de Estado da Ciência. Infelizmente, a atual maioria não só não quis resolver o problema da precariedade dos bolseiros como a expandiu para o setor privado através dos projetos QREN. Não nos devemos esquecer que foi necessário os Sindicatos (SNESup e FENPROF) vincarem na Comissão Parlamentar de Ciência, Educação e Cultura que o desrespeito pelo Bolseiro de Investigação em Portugal atingiu o inimaginável numa democracia, bem explícito no facto da atual maioria parlamentar ter aprovado no Estatuto do Bolseiro de Investigação Científica um artigo que viola direitos fundamentais - “O bolseiro de investigação científica será punido pelas falsas declarações dos seus supervisores”, para que este artigo fosse alterado.

Se ao exposto juntarmos o comunicado público da direção da ANICT branqueando as evidentes e públicas irregularidades/ilegalidades subjacentes aos concursos InvestigadorFCT2013 e para atribuição das bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, torna-se evidente que nos últimos tempos esta associação não estará interessada em defender os interesses da ciência nem dos investigadores, não expressando também qualquer sinal de respeito pelas conquistas mais recentes. Parece antes tratar-se de uma organização muito peculiar, uma organização controlada por uma direção cujos membros terão sido infetados pelo vírus que está a destruir a Ciência em Portugal e aniquilar da dignidade dos Investigadores. E uma organização que até ignorará que no Politécnico também se faz investigação e existem investigadores que merecem tanto respeito como os demais.
Uma palavra final para a associação das Reitorias das universidades públicas à “discussão pública” promovida pela ANICT que não deixa de evidenciar uma inversão na forma como o CRUP tem acolhido as diversas movimentações da sociedade civil, mas numa estranha direção face à crítica generalizada sobre a forma como se está a gerir a Ciência em Portugal. Talvez esteja aqui também a justificação para a enorme passividade do CRUP em torno da ação da FCT e em particular da recente avaliação das unidades de I&D.
O SNESup expressa assim o seu completo repúdio pelas propostas da ANICT e apela à mobilização de todos para travar propagação deste vírus. Esta é uma posição que sabemos partilhada também por outras organizações sindicais representantes de docentes do ensino superior e investigadores.
A Direção do SNESup

Em 21 de outubro de 2014

A INSISTÊNCIA NA PODA

Disseram-me que António Coutinho, conhecido como "grande podador" devido à autoria da ideia de que o sistema português de ciência e tecnologia devia ser cortado em 50%, foi de novo ao programa de Medina Carreira, que acha pouco pois não se importaria de cortar 100%.

Não vi, mas disseram-me que se da sua primeira aparição no mesmo programa o imunologista desdenhou das ciências sociais e humanas da segunda desdenhou das engenharias, em particular das que se aprendem e fazem no Instituto Superior Técnico. Quanto às Universidades, para ele só se salvam a de Lisboa e  a  do Minho, deduzindo-se que as outras todas poderiam ser podadas.  A ciência portuguesa, para Coutinho, apesar dos erros monumentais e demonstrados da actual FCT, tem de se reduzir à viva força aquilo que ele chama "excelência". Além de "grande podador" afirma-se também como "grande avaliador", uma vez que já sabe onde está a dita cuja "excelência": está no Instituto Gulbenkian de Ciência, que ele dirigiu e aconselha, e está na Fundação Champalimaud, que ele também aconselha, curiosamente as duas na área da biomedicina no sector privado e na região de Lisboa. Quer dizer, Coutinho não consegue ver mais do que o seu umbigo. Não sabe que a ciência disciplinar, toda ela mas principalmente a excelente, se caracteriza por uma humilde consciência das suas limitações. Não sabe que só o trabalho interdisciplinar nas várias áreas permite hoje em dia avançar sobre o desconhecido. E não sabe que a cultura científica é a argamassa que deve cimentar a comunidade científica com a sociedade e que a unidade das ciências está na base dessa cultura.

Não sei se ainda existe um órgão colectivo  intitulado Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia ou se esse órgão passou a ser unipessoal, falando agora pela boca do seu presidente. Talvez não fosse má ideia haver um Conselho Nacional da Ciência e Tecnologia que defendesse a ciência e a tecnologia por inteiro e não apenas uma fatia dela, principalmente agora que elas estão seriamente ameaçadas por uma política inculta e irresponsável.

ORÇAMENTO DE ESTADO PARA 2015: CRATO GLOSA BOCAGE

Santana Castilho, em crónica no Público de hoje:

"Mas há lata maior. A “esclarificação” com que Crato nos brindou sobre o Orçamento do Estado para 2015 reconduziu-me ao Bocage boémio: o corte que aquela senhora deu, não foi ela, fui eu! É preciso topete para querer transformar 704,4 milhões de euros de corte orçamental na Educação (-11,3%) nos 200 milhões saídos da lógica anedótica do ministro."

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

BLOCO DE ESQUERDA EXIGE ADENDAS DO CONTRATO DE AVALIAÇÃO DA FCT

Num requerimento enviado esta terça-feira ao Ministério da Educação e Ciência, o deputado Luís Fazenda solicitou as adendas ao contrato que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) celebrou com a European Science Foundation (ESF) para realizar a avaliação das unidades de investigação,  e que a FCT se recusa a revelar há mais de 80 dias.


Texto do requerimento:

Assunto: Avaliação dos centros de investigação a decorrer com base em contrato com adendas ainda não assinadas pelas partes

O processo de avaliação dos centros de investigação financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) continua a criar polémica pelas piores razões. A revelação de que o contrato estabelecido pela FCT e a European Science Foundation (ESF) implicava obrigatoriamente um corte de 50% das instituições, que não passariam à segunda fase, ficando assim arredadas do acesso ao financiamento estratégico, independentemente do mérito do seu trabalho, deu já origem a um largo conjunto de acções e iniciativas, cujo desfecho jurídico teremos de aguardar. No entanto, as ameaças já tornadas públicas por parte ESF a uma investigadora que alertou para as falhas graves do processo de avaliação e a recusa da FCT em dar a  conhecer os termos do contrato e respetivas adendas, celebrado entre FCT e ESF revelam novos elementos que é necessário esclarecer.

Devido à falta de cooperação da FCT, um investigador recorreu à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos para aceder ao contrato e respetivas adendas. Em consequência recebeu uma resposta da FCT em que esta admite a existência de adendas ao contrato mas que, dado que as mesmas não foram ainda assinadas, não podem ser reveladas. Ou seja, a FCT lançou uma avaliação com base num contrato cujos termos não estão esclarecidos a meio da 2ª fase do processo de avaliação.

A confirmar-se esta situação estamos perante um caso de gravidade jurídica cujas consequências são difíceis de calcular. Dada a demonstrável incapacidade da FCT em gerir o processo de forma transparente é claramente necessário que o governo se responsabilize e disponibilize ao parlamento todos os documentos necessários para esclarecer o problema publicamente.  
Atendendo ao exposto, e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda vem por este meio dirigir ao Governo, através do Ministério da Educação e Ciência, requerer o contrato estabelecido entre a Fundação para a Ciência e Tecnologia e a European Science Foundation e respetivas adendas propostas.

O deputado, 
Luís Fazenda 

PLÁGIO E COPIANÇO SÃO COISAS MUITO FEIAS


 “Antigamente, muito antigamente, copiar era uma coisa muito feia” (Alice Vieira, escritora).

Acerca do copianço escolar, não poucas vezes génese do plágio na vida futura profissional, transcrevo parte de um artigo da autoria de um nosso compatriota, Ricardo Reis, professor de uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos e do mundo ,  com o sugestivo título “Copianço”.

Ao contrário do que acontece neste canto mais ocidental da Europa, nesse artigo descreve Ricardo Reis o que se passa numa das mais prestigiadas  universidades  dos Estados Unidos  e do mundo onde lecciona:

“Em Princeton, o professor é obrigado a deixar os alunos sozinhos na sala durante o exame. Vigiá-los seria uma falta de confiança, até porque todos assinam no topo da folha de resposta uma jura de que se vão comportar de uma forma honrada. Mas se alguém é apanhado a copiar (ou porque foi denunciado por um colega ou porque as respostas o tornam óbvio) então a punição é muito severa: pelo menos suspensão por um ano e talvez expulsão”(“Diário Económico”, 03/04/2007).

Pelo exposto se verifica que o plágio e o copianço, quer se processem em simples testes ou exames de todos os níveis de ensino, comunicações  científicas ou não, ou, ainda mesmo,  mesmo  provas de doutoramento, são uma questão ética de honrados costumes que devem ser inoculados, a exemplo das vacinas,  a partir dos primeiros anos dos bancos de escola, porque “é fundamental que o estudante adquira uma compreensão e uma percepção nítida dos valores” (Albert Einstein).


O plágio e  o copianço são fenómenos intemporais, não poucas vezes,  uma espécie  do gato e do rato em que o prevaricador  tenta encontrar justificação “moral”  chegando a ponto de alegar em sua defesa casos famosos de celebridades que pretensamente o cometeram. E os nomes surgem em catadupa e vilipêndio de gente medíocre: Eça, Camões, Gabriel d’Annunzio, Stendal, Lord Byron, entre outros, sobre quem recaiu, injustamente,  o opróbrio de plágio e não, apenas, de se terem inspirado em outras celebridades das Belas-Letras para escreverem as sua notabilíssimas obras.

Eles foram, isso sim, homens de génio que produziram textos imortais com característica bem pessoais e, por isso, isentos da infâmia do crime de plágio. A inspiração em obras de outros autores  não pode ser tida como plágio porque, escreveu-o Afrânio Peixoto (crítico literário e ensaísta brasileiro), “o homem de génio tem o direito de se apropriar das imagens e das ideias alheias e lhes dar colorido, harmonia, sedução, vida, que as farão imortais”.


O que, em Portugal  de “brandos costumes” e declarada falta de civismo, ou, sem papas na língua,  por “vivermos num país de aldrabões congénitos” (Maria Filomena Mónica, referindo-se ao “copianço” num exame a candidatos a juiz e a procurador) se me afigura difícil que se volte a tempos em que “antigamente, muito antigamente, copiar era uma coisa muito feia” porque,  no desânimo de Almada Negreiros, “o povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades”. Neste particular, e neste dealbar do século XXI, os defeitos continuam excedentários!

LANÇAMENTO DE "DOURO" DE ANTÓNIO BARRETO

Informação recebida da Relógio d'Água:


Convite

O Autor, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I. P., e a Relógio D’Água Editores
têm o gosto de convidar para o lançamento de


Douro
Rio, Gente e Vinho
de António Barreto

(Organização fotográfica de Ângela Camila Castelo-Branco)


que terá lugar no auditório do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I. P.,
na Rua Ferreira Borges, n.º 27, no Porto, na terça-feira, 28 de Outubro, às 17.45h.

A apresentação será feita pelo historiador Gaspar Martins Pereira.

Será servido um Porto de Honra após a sessão.

Relógio D’Água Editores • Rua Sylvio Rebelo, n.º 15 — 1000-282 Lisboa • relogiodagua@relogiodagua.pt •Tel. 218 474 450 • Fax 218 470 775


COMBATER O EFEITO DE ESTUFA

Texto recebido de Arnaldo Dias da Silva:

O projecto parece muito sedutor na versão que chegou às mãos: incluir na dieta de monogástricos (aves e suínos) um alimento single cell protein resultante da cultura de uma ou mais bactérias utilizadoras de metano como fonte de energia, fazer crescer essa cultura de bactérias, granular, incorporar em dose adequada nas rações daqueles animais e... esperar que os animais comam, tenham saúde e cresçam!

Desde que sejamos capazes de captar metano em quantidade suficiente e segura das inúmeras fontes disponíveis – pelo menos as mais importantes -, incluindo os milhões de ruminantes existentes à superfície da Terra, certamente que não será muito difícil fazer o resto.

(Antes de prosseguir é preciso dizer que a bactéria em causa – Metylococcus capsulatus – foi descoberta após a assinatura do protocolo de Kyoto, em Fevereiro de 2005)   

O Departamento de Ciência Animal da Universidade de Agricultura em Aarhus, propõe-se justamente realizar o trabalho de alimentação, para já em porcos (HanneDamgaard.Poulsen@agrsci.dk).

O trabalho será realizado em conjugação com outro estabelecimento de ensino superior agrário da Dinamarca e com uma empresa, também ela dinamarquesa, que domina a componente tecnológica do processo - a produção industrial da bactéria ou, o que é o mesmo, de single cell protein.

Este projecto, que se espera possa durar 3 a 5 anos, é apoiado financeiramente pelo fundo dinamarquês para a inovação (InnovationsFonden) que, para o efeito, disponibiliza desde já 15 milhões de coroas dinamarquesas.

Como anunciou a Universidade de Aarhus, este projecto pode bem representar uma prenda para o ambiente - a gift for the environment, assim pode ler-se no Boletim de divulgação da Universidade de Aarhus do mês de Outubro de 2014.

Se nos lembrarmos da enorme dependência dos países da UE para fontes proteicas usadas em alimentação animal como a soja e seus derivados – a dependência de Portugal é bem maior que a da média comunitária – é fácil perceber o alcance do projecto.

Devemos acentuar que a via da produção de single cell protein, além de poder contribuir para reduzir a dependência europeia em fontes proteicas para animais (e, portanto para o homem), pode dar contribuição valiosa para a redução do efeito de estufa diminuindo as responsabilidades do metano para (potencialmente) tão grave problema.

Na minha opinião seria excelente se o nosso INIAV – sigla, permitam que lembre, de Laboratório Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (sob alçada do Ministério da Agricultura e Pescas) - e das várias unidades ID das várias universidades e institutos politécnicos trabalhassem sobre este assunto.

E porque que me parece ser a altura muito  boa, infelizmente para todos os portugueses, seria também muito bom que o Presidente da FCT em conjunto com os seus assessores para a parte agrária se ocupassem seriamente destes problemas. Se os assessores que o actual presidente da FCT tem, não ficarem ofendidos por ter empregue esta maldita palavra agrária …

Arnaldo Dias da Silva

Vila do Conde,15 de Outubro de 2014 

NOVOS LIVROS DA GRADIVA

Informação recebida da Gradiva:

A Chave de Salomão

A Chave de Salomão é o novo romance de José Rodrigues dos Santos e estará à venda a partir de dia 23 de Outubro. A apresentação está marcada para o sábado, 25 de Outubro, pelas 17h00, no auditório 1 da FIL, no Parque das Nações, na Rua do Bojador, (junto ao pavilhão Atlântico), em Lisboa. O novo romance do autor será apresentado pelo psiquiatra Mário Simões e pelo físico Pedro Ferreira. A sessão de lançamento será precedida pela encenação de um excerto do romance pela companhia de Teatro Fatias de Cá. A Chave de Salomão aborda o maior mistério científico de todos os tempos, uma espantosa descoberta feita pelos físicos e que indicia que é a consciência que cria a realidade. Perante estas desconcertantes descobertas, Albert Einstein afirmou: "Gostaria de acreditar que a Lua existe se ninguém estiver a olhar para ela." Através de um romance de ficção, José Rodrigues dos Santos apresenta as respostas que a ciência encontrou para algumas das mais importantes perguntas da humanidade: O que acontece quando morremos? O que é o universo?;  O que é a realidade?; O que é a consciência? A Chave de Salomão é o décimo terceiro romance de José Rodrigues dos Santos, autor da Gradiva que já vendeu mais dois milhões de exemplares em todo o mundo e está publicado em mais de vinte línguas. À semelhança do que acontece em Portugal, José Rodrigues dos Santos tem conquistado consecutivamente os primeiros lugares nos tops de vendas em vários países.

«Fora de Colecção», n.º 429, 624 pp. €22,00

José Veiga Simão — Uma Vida Vivida, vol. I  - Do Estado Novo de Salazar à Primavera Marcelista
Pedro Vieira

Neste primeiro volume da biografia de José Veiga Simão, o leitor é conduzido através do percurso menos conhecido do protagonista de uma das maiores reformas do ensino em Portugal: cobre cronologicamente a etapa até 1970, quando Veiga Simão deixa Lourenço Marques para ser ministro da Educação Nacional do governo de Marcelo Caetano. Uma obra necessária e oportuna. 

«Fora de Colecção», n.º 424, 260 pp.

Do Pântano Não se Sai a Nado - Meias Verdades nos Consulados de Salazar e Caetano, no Contexto da Revolução de Abril e na Progressiva Consolidação Democrática
Joaquim Silva Pinto

Passados todos estes anos, reforça-se o sentimento ou mesmo a convicção de haver algo ainda por contar na história do 25 de Abril. Nesta e noutras matérias, numa linguagem acutilante, o autor enfrenta decididamente as meias verdades que convenientemente foram sendo transformadas em lugares‑comuns. Um livro repleto de surpresas.

«Fora de Colecção», n.º 423, 144 pp.

Jardins de Cristais - Química e Literatura
Sérgio Rodrigues

Encontram‑se aspectos de química em quase todos os textos literários? Sérgio Rodrigues acredita que sim e, neste livro, mergulha numa multidão de autores, que, como diz João Lobo Antunes no prefácio, «o sábio Mendeleev não conseguiria encaixar em qualquer tabela», e convoca‑os para convencer os leitores dessa ideia aparentemente estranha. Num mundo dependente da química, mas que parece condena‑la à invisibilidade, podemos ir de Homero e da Bíblia a Marx e Ian McEwan, passando por Camões, Camilo, Victor Hugo, Dostoiévski, Miguel Torga e muitos, muitos outros, todos eles ligados pela química. Um livro que agradará a leitores das áreas científica e literária.

«Ciência Aberta», n.º 209, 276 pp.
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/7814

O Mito de Inglaterra - Anglofilia e Anglofobia em Portugal (1386‑1986)  
Luiz Eduardo Oliveira

Este livro procura apreender, nos discursos que «narram» Portugal na longa duração da sua história, os momentos de tensão, ambiguidade e oscilação das representações de anglofobia e anglofilia, com base nas relações político-diplomáticas, dinásticas e culturais entre os dois países. Assim, foram demarcados dois limites cronológicos significativos: 1386, ano em que foi firmado o Tratado de Windsor, e 1986, ano em que Portugal foi admitido na Comunidade Económica  Europeia.

«Fora de Colecção», n.º 430, 464 pp.

Um Olhar Sobre a Indústria de Moldes
Henrique Neto

O livro Um Olhar Sobre a Indústria de Moldes, de Henrique Neto [...] é o testemunho vivo de um marinhense, operário, técnico, dirigente, gestor e empresário. Um cidadão que nunca abdicou de assumir a participação política como actividade ao serviço de ideais sociais e do Bem Público. [...] O objectivo com que Henrique Neto escreve o seu livro é plenamente atingido ao dar‑nos conta da importância dos principais acontecimentos de quase oitenta anos da indústria de moldes, protagonizados no nosso país por gentes da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis.» José Veiga Simão, in Prefácio.

«Fora de Colecção», n.º 425, 180 pp.



Os livros estarão disponíveis para venda a partir do dia 23 e 27 de Outubro.


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