terça-feira, 15 de outubro de 2019

A possibilidade de agudização de diferenças curriculares entres escolas

"Enquanto as escolas de primeira recuperam o grego e o latim (…) e alargam ao primeiro ciclo os ensinos da história e da filosofia, as escolas de segunda mitigam os saberes humanísticos e artísticos, introduzem o empreendedorismo e transformam a cidadania num instrumento transversal de interminável burocracia. 
Enquanto nas escolas de primeira a avaliação contínua é um instrumento de exigência e rigor assente na confiança nos professores, nas escolas de segunda a avaliação dá primazia a um inferno processual. 
Enquanto nas escolas de primeira as regras disciplinares são simples, sensatas, nas escolas de segunda há um guião prévio, com duas dezenas de formulários. E num elenco de intermináveis argumentos - desde a restrição dos telemóveis para uns até ao "sempre-ligado-e-intocável" para outros -, há uma evidência a sublinhar: as escolas de segunda deixarão os pobres mais excluídos. 
Claro que tudo isto não é novo."
Este extracto de um texto publicado na blogosfera com o título "Escolas de Primeira e de Segunda" e assinado por Paulo Prudêncio, professor no nosso sistema de ensino, formula claramente uma preocupação que tem vindo a ser destacada, tanto em análise académicas como em apontamentos mais informais.

A possibilidade de agudização, no quadro do Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, da diferença de currículo (que se reflecte no ensino e na aprendizagem) entre escolas privadas ou públicas com ou sem currículo especificamente escolar é uma séria possibilidade que importaria investigar. Essa diferença será real ou percepção de quem está no sistema ou olha para ele?

A reportagem televisiva de Ana Leal sobre um dos melhores lares de idosos de Cascais


Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras":

“Outrora a velhice era uma dignidade;  hoje ela é um peso” (François Chateaubriand, 1768-1848).

Em referência ao peso que os idosos representam para a sociedade actual pouco habituada a esta situação (já o autor em epígrafe, se queixava deste mal) por as pessoas viverem cada vez mais anos, reporto-me ao repúdio então generalizado nos meios de comunicação social  à expressão “praga grisalha" utilizada por um jovem deputado do PSD, Carlos Peixoto, em arroubo tribunício.

Por vir ao caso, evoco um meu artigo de opinião, saído no jornal “Público” (14/03/2013), sobre um filme de ficção norte-americano, que correu no nosso país em 1973, titulado “Soylent green”, tendo como personagem principal o prestigiado actor Edward G. Robinson.

Neste filme, é-nos dado prever New York em 2022, com 40 milhões de habitantes, havendo, como tal, escassez de alimentos suprida por bolachas verdes feitas inicialmente com algas verdes, entretanto, em desaparecimento o que fez com que o governo criasse fábricas produtoras de alimentos contendo proteínas de cadáveres humanos para alimentar os pobres.

A solução para os desprotegidos deste mundo passava pela abertura de luxuosas clínicas de eutanásia para uma das quais segue voluntariamente o referido actor assistindo aí a um filme, em écran panorâmico e com suave música de fundo, em que lhe é dado ver prados verdejantes com gazelas à solta e pomares cheios de apetitosa fruta, enquanto aguarda a morte que o libertará de uma vida madrasta.

Mas, por vezes, nos bastidores do nosso Portugal dito progressista em que Sophia de Mello Breyner, alertou “não se dever criar em nome do antifascismo um novo fascismo”, a realidade acompanha a própria ficção. Assim, os velhos e doentes, “num dos melhores lares de Cascais” - ergo, sendo este dos melhores com serão os piores? – sobrevivem em verdadeira miséria humana numa antecâmara da morte “com mulheres, homens, misturados e amontoados num único quarto, muitos deles a dormirem no chão” ou em toscos catres, segundo uma comovente e oportuna  reportagem de Ana Leal (TVI 24, 05/10/2019).

Mas de bradar aos céus!, outro tanto, o facto  da opinião publicada nos media, em blogues ou simples conversas de café, não se ter pronunciado em força (como diz a sabedoria popular, a união faz a força!) contra este “status quo”, quiçá, em desânimo com Jorge de Sena: “Que importa dizer-se que Portugal é um país de sacanas: Todos os são, mesmo os melhores; às suas horas. E todos estão contentes de se saberem sacanas”.

Assim, neste torrão natal em que o coração deveria moldar o carácter dos seus governantes, mas o não faz, não será altura de ser criado um exclusivo e eficaz (repito, eficaz!) organismo que vigie, com olhos de ver e ouvidos que escutem, como tal capacitado para prevenir ou resolver rapidamente situações como esta,  que atentam contra os mais elementares direitos dos cidadãos? Nunca, por nunca, para atribuição de mais umas tantas sinecuras aos subservientes filiados partidários.

Indaga Eça de Queiroz, o leitor:  “Estarei a exagerar? Exageração era eu, pintar a cobra e depois pôr-lhe quatro pernas”, perguntando eu, por meu lado, para este ofídio não rastejar em solo de indignidade?

O DESTINO DO MUNDO E A DEMOCRACIA LIBERAL

Texto de Guilherme Valente publicado no dia 12/10/19 no OBSERVADOR (aqui com um pequeno ajustamento no ponto 3).  

"Um discípulo perguntou um dia a Confúcio: “Mestre, se tivesses o poder qual seria a tua a primeira medida?  “Rectificar os nomes”, respondeu o Mestre. "

 ”No século XXI as classes dominantes e superiores ocidentais têm de aprender de vez a viver ligadas ao povo. “ Ch. Guilluy, géografo e ensaísta explicando a crise dos Coletes Amarelos.

 1. Quando falo em diferenças entre direita e esquerda refiro-me à esquerda e direita democrático-liberais.

 E porquê justapor a “democrático” o “liberais”? Se não há “democracia” sem liberdades, incluindo, determinante, a de mercado (“o doce mercado” de que falavam Condorcet e Voltaire); sem direitos humanos (que o iliberalismo não reconhece ou viola); direitos humanos como tal teorizados e politicamente instituídos no Ocidente pelo Liberalismo, pelos liberais, que foram também eles os criadores do ensino público, não foi o comunismo - Estaline até dizia que era crime proibir o trabalho infantil?

 Coloco o “liberal” para distinguir da pseudo “democracia” que os iliberais da extrema-esquerda, roubando o nome legitimador, designam “democracia popular” - ignorando a redundância.

 2. O destino do mundo depende de novo da democracia liberal, da lucidez e determinação dos democratas-liberais. Em Portugal, de um Partido Socialista que recupere os seus ideais fundadores, iluministas, humanistas, universalistas, e de uma direita que assuma informada e sem tibieza a sua inspiração democrática-liberal e democrata-cristã.

 “Democracia” significa manifestação, representação e realização da vontade comum. “Liberal” consagra a autonomia do indivíduo face à colectividade. «Democracia» remete para um movimento centrípeto, uma preocupação de unidade. “Liberal” para um movimento centrífugo, reafirmação do diverso, do múltiplo. É o encontro, a tensão e a interacção de um e de outro pólo, espécie de Yin e Yang político, que gera a harmonia e o dinamismo das sociedades democrático-liberais. É nessa natureza híbrida que está a sua força.

 Como escreve Raphaël Gluskmann (1), “É a oscilação permanente entre esses dois pólos opostos que permite às nossas sociedades serem livres e progredirem”.

 Se o movimento de balança entre ambos for interrompido, se a contradição que os anima deixar de ser dinâmica, “se um dos pólos se tornar dominante, a democracia deixará de ser liberal ou o liberalismo deixará de ser democrático”. Será o caso, em maior ou menor grau, de experiências de sucesso económico recentes, caracterizadas pela liberdade de mercado, mas restritivas politicamente.

 3. Os dois polos da democracia-liberal que referi vivem ameaçados por dois extremos, que são faces simétricas do iliberalismo: a utopia colectivista, representada pelos totalitarismos da extrema-esquerda e da extrema-direita.

 Extremismos agora rearmados pelos “novos cavaleiros do Apocalipse”, como bem designa Amin Maalouf**, “os três escolhos do nosso tempo: turbulências identitárias, islamismo radical, ultraliberalismo” (termo bem mais apropriado do que “neo-liberalismo), este a corromper o papel regulador que um verdadeiro Estado liberal deve exercer.

 Totalitarismos cada um de algum modo agora alimentado pelo deslizamento dos democratas liberais para as causas delirantes das “politicas de identidade”, anti-humanistas, atomização social extrema, regressão tribalista, que se não for detida conduzirá ao “naufrágio das civilizações”, como escreveu Maalouf. É nas gerações com menos de 50 anos que não foram contemporâneas do nazismo nem descobriram a realidade da Guerra, da URSS e dos países do Leste (e também nas sobras idosas que não fizeram a destalinização); é entre os que não têm consciência do progresso e da qualidade de vida na Europa e no Mundo, inimaginável antes do triunfo da democracia liberal — todos esses que a escola conduziu e continua entre nós sem resistência a conduzir à amnésia da História — que os iliberalismos recrutam hoje.

 4. Diferenças dinâmicas entre esquerda e direita liberais que não são hoje exactamente as que eram antes, por ter havido apropriação mútua de ideias e soluções que o tempo e a História consagraram.

 Segundo Alain Juppé***, “a direita dá uma importância maior ao indivíduo, à sua autonomia, capacidade de iniciativa e espírito empreendedor”. A esquerda dá “maior relevância ao colectivo, ao grupo, é socialisante, enfim”. [Sublinhados meus.]

 Sendo ou não absolutamente rigorosa esta distinção, o que é relevante é as diferenças enriquecerem as soluções. São um fruto inestimável da liberdade, condição do vital debate de ideias. Na democracia liberal não há inimigos, há adversários e divergências criadoras. Não há soluções impostas, nem imposição de ideologias e de crenças. Por isso o convívio e a emulação democráticas fizeram progredir o mundo. Geraram a paz, desenvolveram o mundo e melhoraram a vida dos seres humanos. Determinaram a construção da unidade da Europa. Tudo isto espinhas na garanta do totalitarismo, da extrema-esquerda e da extrema direita, anti-liberais, nacionalistas e xenófobas.

 5. Se esse movimento de balança se desequilibrar, se um pólo prevalecer sobre o outro, a democracia ficará fragilizada e será vulnerável aos demónios que em permanência a ameaçam. É à luz deste mecanismo que devem ser compreendidas as dificuldades crescentes que em vários países conduziram e estão a conduzir ao poder o populismo, antecâmara do fascismo. E porquê? O que agora fragiliza a democracia-liberal é o que foi razão do seu sucesso.

Guilherme Valente

 * Raphaël Gluskmann, “Les enfants du vide”, Allary Éditions, 2019

** Amin Maalouf, “Le naufrague des civilisations”, Grasset, 2019.

*** Entrevista ao semanário “Le Point”, 2018.

Minha participação nos MLx 2018 | Só educa quem vive (há um ano)

O governo quer acabar com a Marionet

O grupo de teatro Marionet de Coimbra ainda há pouco apresentou com grande êxito em Lisboa, Coimbra e Porto a peça "No bairro da Tabela Periódica". Pois o que faz o Ministério da Cultura,  desligado da cultura em geral e totalmente desligado da cultura científica? Corta-lhes o apoio. Também cortou ao CENDREV de Évora. Curiosamente tanto Coimbra como Évora querem ser capitais europeias da cultura. O governo anterior não foi amigo da cultura - nem da ciência - e o próximo receio  que vá pelo mesmo caminho, pois se trata de renovação na continuidade, quer dizer mais continuidade que renovação. Transcrevo das Beiras de hoje:

" A companhia de teatro Marionet repudiou, ontem, a decisão da Direcção-Geral das Artes que não vai apoiar a sua atividade no próximo biénio. Em nota à imprensa, a companhia de Coimbra explica que, como habitualmente, concorreu a financiamento do programa de apoio sustentado, na área de cruzamentos disciplinares (entre o teatro e a ciência). “Apesar da nossa candidatura ter sido considerada elegível, isso não foi suficiente para a continuação do financiamento”, acrescenta. A nota acentua que a companhia não só cumpriu o contrato, ainda em curso, com a DGArtes como excedeu mesmo o plano inicial, “sempre guiada por uma consciência de querer fazer melhor o serviço público”. Só que, pelos vistos, não interessa o que passou. “O nosso desempenho no biénio que agora acaba é completamente irrelevante para quem decide quem apoiar no biénio seguinte”, constata.

Ironicamente, a “nega” da DGArtes acontece quando a Marionet se prepara para completar 20 anos e em que propôe o plano de atividades “mais sustentado de sempre, com projetos com um horizonte de vários anos a decorrer”. A companhia questiona: “O que fazer agora? Ao fim de dois anos a consolidar e estabilizar vamos agora desconsolidar?”. E, a concluir, assume: “Há um sub-financiamento público das artes em Portugal. E custa ver destruir, cíclica e levianamente, através destes concursos de apoio às artes, património artístico, cultural e educativo, e também postos de trabalho, que em muitos casos levaram anos a construir”

domingo, 13 de outubro de 2019

"És tu bébé"! Ou a ausência de sentido histórico

Na continuação do texto O declínio do pensamento histórico.

"Euromilhões" é o nome de jogo promovido pela Santa Casa da Misericórdia. O seu slogan mais recente, mas já com alguns anos, é "euromilhões a criar excêntricos de um dia para o outro". Os spots publicitários dão, em breves segundos, uma ideia precisa de "excêntrico": aquele que, por ter muito, muito, muito dinheiro, pode fazer o que bem entender, independentemente das consequências dos seus actos. Enriqueceu, logo pode!

A falta de conhecimento e de pensamento histórico ajudam a fixar essa ideia. Vejamos...

A imagem ao lado é de um spot (aqui) muito simples e, aparentemente, simpático: um marido, que se tornou imensamente rico quer oferecer à esposa algo único. E o que faz? (Presume-se que) Mandou adaptar o rosto da "Esfinge" ao da sua "bébé"!

Qual é o problema? Perguntarão alguns confrontadas esta questão, se até vêem graça no pequeno filme: é apenas um spot para tentar vender um produto. 

É isso e não é.

Antes de mais, há que contar com o pensamento do publicitário, criativo mas dentro da lógica "o que funciona". Nada o deteve de apresentar aos clientes a ideia de que um capricho pessoal pode sobrepor-se ao valor que um legado desta grandeza tem e, sobretudo, à responsabilidade que nos cabe em o preservar. Por seu lado, os clientes aprovaram a ideia e também os meios de comunicação onde passa. Caso contrário não entrava pelas nossas casas no tom alegre e desempoeirado a que assistimos.

Imagine-se que o mesmo marido depois de ganhar os tais milhões, dizia à sua amada esposa: "vou enviá-los, sem lhe tocar e sob anonimato, para a fabulosa equipa que tenta, por todos os meios, salvar a frágil "Esfinge".

Sim, não funcionaria: na ausência de sentido histórico, veicular este altruísmo acabava com o Euromilhões!

O declínio do pensamento histórico

Na continuação do texto A história sem passado.

Num conjunto de artigos, publicados em continuidade (por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), vários jornalistas e historiadores, recorrendo a dados sólidos, têm demonstrado que a História, como disciplina, definha no currículo das universidades europeias e americanas. Em concreto, desde 2011, não obstante o número crescente de estudantes no ensino superior, esta área sofreu uma enorme regressão.

Mas isso não acontece em todas as universidades: a História é abandonada nas dos universidades dos pobres mas é reforçada nas dos ricos.

Nas universidades públicas ou nas privadas com as propinas mais baixas, os estudantes tendem a escolher cursos capazes de lhes assegurarem emprego imediato (enfermagem, engenharia, ciência da computação e biologia). Por seu lado, os financiadores (“são eles que dirigem as coisas") optam por programas STEM – Science, Technology, Engineering and Mathematics. Além disso, certas universidades para não despedirem professores combinam a História com outras disciplinas, retirando-lhe a identidade.

Nas universidades mais prestigiadas, de elite, com as propinas mais elevadas, assiste-se a um boom da História. Por exemplo, em Yale, não tendo os estudantes a pressão de encontrar um emprego, pois o seu diploma dá-lhes acesso ao emprego que quiserem, podem "dar-se ao luxo" de estudar a evolução do mundo. E é isso que a História faz: localiza-nos, ajuda-nos a entender como chegámos aqui e porque as coisas são como são, dizem esses jornalistas e historiadoresNas palavras de um deles:
“A história incute um sentido de cidadania e lembra-nos que nunca há respostas fáceis para perguntas sobre o mundo e a vida pública. Como o discurso político não se importa com a verdade, chegamos cada vez mais perto da situação que Walter Lippmann advertiu há um século, em seu seminal Liberdade e notícias: «as pessoas que perdem o controlo sobre os fatos relevantes do mundo são inevitáveis vítimas de propaganda. O charlatão prospera onde há privação de acesso à informação»”.
E conduz-nos a uma reflexão muitíssimo preocupante:
"A desigualdade afecta a saúde física e mental, a capacidade de relacionamento e de fazer ouvir a voz no sistema político, no futuro que se pode oferecer aos filhos. Além da desigualdade financeira, há a «desigualdade intelectual». Algumas pessoas têm recursos para entender a sociedade e outras, a maioria, não.  

A História sem passado

“Esta oferta, que partiu do diálogo que temos mantido 
com os professores de História, é uma resposta 
à necessidade de valorização do conhecimento histórico 
e do património enquanto alicerces da identidade e da democracia.
Além disto, estrutura-se de uma forma coerente com as finalidades
previstas no Perfil dos Alunos: 
o desenvolvimento de espírito crítico e capacidade de interpretação
da realidade sustentado em conhecimento.” 

João Costa, Secretário de Estado da Educação, 2019.


Foi recentemente anunciada pelo Ministério da Educação e, logo de seguida, notícia nacional (por exemplo, aqui e aqui), a criação de uma nova disciplina destinada a todos os cursos do ensino secundário. Situa-se no 12.º ano, enquadra-se nas opções de "oferta de escola" e a sua designação é "História, Culturas e Democracia". 

A primeira palavra da designação conduzirá quem se preocupa com o desaparecimento da área do currículo escolar, a concordar com a decisão da tutela. Efectivamente, no ensino básico o seu tempo lectivo tem vindo a diminuir e, em certas escolas, é associada à Geografia, em projectos semestrais.

Mas, de seguida, dará atenção às duas palavras que se lhe seguem e, por certo, interrogar-se-á acerca do sentido de "História", que, sendo disciplina autónoma, fica a par do seu conteúdo ("cultura") e do seu fim (adopção de valores democráticos). Dará, também, atenção ao plural de "cultura", o que, por princípio, aponta não para o sentido que o texto aqui publicado lhe confere, mas para um sentido etnográfico, antropológico, sociológico, de diversidade de cultural.

Com estas dúvidas em mente, abrirá o documento orientador do seu ensino: Aprendizagens essenciais (de notar que foi dispensado um programa em favor desta estrutura, oficialmente válida para todas as disciplinas).

No preâmbulo lê-se que com a História Culturas e Democracia pretende-se ajudar alunos a interpretar o presente, a compreender o mundo actual, em que vivem e a terem pensamento crítico e reflexivo sobre temas da História recente. Pretende-se dar-lhes ferramentas para alcançarem uma consciência histórica, uma posição informada, crítica e participativa na construção da sua identidade individual e coletiva. Isto num "quadro de referência humanista", referência recorrente no discurso educativo... do futuro que se vê dispensar o passado.

Os grandes temas a tratar são quatro temas: A História faz-se com critério; Global e Local (Glocal) e Consciência Patrimonial; Passados Dolorosos na História; História e tempo Presente

Não vou pronunciar-me sobre eles a não ser para notar um aspecto por demais óbvio: a focalização num (certo) passado "recente" e "doloroso" que serve, que é útil e funcional no presente, no imediato para o aluno (o aluno no centro) construir a sua identidade

Ora, a História, é, por essência, o estudo da marcha da humanidade, do pensamento e da sua acção, do que já passou. Certamente, requer ponderação no presente, eventualmente com vista a preparar o futuro, mas não dispensa uma incursão continuada e aprofundada, tanto pelo passado mais distante como pelo passado mais próximo, ainda que não tão próximo que impeça o estudo objectivo. E pode ser ou não (imediatamente) útil ou funcional a cada um.

Recuperar temas históricos recentes, de maneira solta, sem bases sólidas para os pensar não se traduz em consciência histórica nem conduzirá a uma posição informada, crítica e participativa nem a outras múltiplas e exigentes intenções de aprendizagem expressas no documento. 

Antes que a amnésia civilizacional alastre ainda mais, é preciso recuperar a História como disciplina fundamental no currículo do ensino público. Reforçá-la na escolaridade básica e implementá-la no ensino secundário: repondo conteúdos, atribuindo-lhe objectivos legítimos, conferindo-lhe os tempos necessários, usar métodos que permitam, de facto, aprender.

Mas, isto muito dificilmente irá acontecer nos anos, nas décadas mais próximas. Lembremo-nos que somos guiados pelo slogan do currículo do futuro/do século XXI.

Continuação desta nota no texto O declínio do pensamento histórico.

sábado, 12 de outubro de 2019

"Na audácia de conhecer e na irradiação do saber e do conhecimento" afirmada por Kant e recordada por Vitor Aguiar e Silva

Tomamos a liberdade de reproduzir um texto de Vítor Aguiar e Silva, professor da Universidade do Minho, publicado no passado dia 5 de Outubro, no Diário do Minho com o título Cultura e Modernidade. É um texto admirável pela clareza e profundidade com que se apresenta aquela que deve ser a finalidade última de toda a educação com particular destaque para a educação escolar: a humanização através da cultura tendo por horizonte a perfectibilidade. Deixamos um especial agradecimento ao autor por ter recordado essa finalidade num momento (mais um momento) em que ele é reiteradamente omitido ou, mesmo negado.
Maria Helena Damião e Isaltina Martins.
Nas línguas europeias modernas, tanto românicas como germânicas desde os finais da Idade Média, cultura é um substantivo que designa um processo relativo aos trabalhos agrícolas: cuidar e tratar das produções dos campos, em especial dos cereais e dos animais. 
Desde o século XVI, porém, a palavra cultura, mediante uma extensão metafórica do seu significado originário, passou a designar também o processo de desenvolvimento e enriquecimento do espírito humano, retomando-se assim a semântica metafórica que existia já em latim, pois que Cícero se refere à cultura animi, ao cultivo do espírito. 
É este mesmo significado metafórico que Francis Bacon atribui ao vocábulo quando afirma que a cultura é «a geórgica do espírito (observe-se como nesta expressão metafórica, através da relação intertextual vergiliana, perdura e se enriquece a conexão semântica com a esfera dos labores agrários). Tal como o lavrador com o seu trabalho, os seus cuidados persistentes, as suas intervenções técnicas – a lavra, a rega, a poda, a enxertia, etc. –, melhora e modifica a natureza, assim a cultura melhora, transforma e potencia a natureza do homem. 
O humanismo do Renascimento, com os seus conceitos de humanae litterae e litterae humaniorum, concebe a cultura como a construção do homem entendido como animal doctrinabile, constituindo o fundamento e o horizonte teleológico do desenvolvimento integral do homem: desenvolvimento cognitivo, desenvolvimento espiritual, desenvolvimento moral e desenvolvimento social. 
Os studia humanitatis têm a função de realizar as potencialidades da natureza, donde se conclui que a cultura nem é redutível à natureza, nem é uma idealidade independente da natureza. A cultura é uma paideia, uma educação, uma traditio, uma memória, uma transmissão e uma continuidade de valores, que transforma o homem-natureza, o homem incompositus («desordenado»), num homem cultivado pela sapiência, pela doutrina, pela virtude, pela nobilitas morum («nobreza dos costumes») e pela elegância do espírito. 
O Iluminismo potenciou até ao seu limite máximo o conceito da humanitas como construção da cultura: o homem, graças às Luzes, ao conhecimento, ao pensamento crítico, à ciência, venceria todas as servidões, todas as intolerâncias e todas as injustiças. Kant exprimiu admiravelmente esta concepção construtivista da cultura no & 83 da Crítica da Faculdade do Juízo, ao afirmar que «a produção da aptidão de um ser racional para fins desejados em geral (por conseguinte na sua liberdade) é a cultura. 
Por isso só a cultura pode ser o último fim, o qual se tem razão de atribuir à natureza a respeito do género humano». A ciência, a moral e a arte são as esferas humanas processualmente configuradoras da Kultur, no âmbito objectivo e no âmbito subjectivo. 
No generoso projecto das Luzes, o desenvolvimento global do homem, das sociedades e dos povos assenta na cultura em sentido kantiano, na audácia de conhecer e na irradiação do saber e do conhecimento. É um projecto universal, porque se funda na universalidade da razão, em particular da razão filosófica e científica. Como sublinha Kant, a condição formal para que a condição humana alcance a sua realização cultural é a constituição de um todo, formado pelas relações dos homens uns com os outros, denominado sociedade civil, mas também o desenvolvimento de um todo cosmopolita, isto é, de um sistema de todos os Estados «que se arriscam a actuar entre si de forma prejudicial».

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Celebrar a evolução do conhecimento é o mote do Mês da Ciência e Educação da FFMS


Meu artigo, a propósito do Mês da Ciência e Educação da FFMS, publicado no Jornal de Letras:

A evolução do conhecimento. A expressão soa quase como um pleonasmo, tão entranhada está hoje a idea que o conhecimento pode ser melhorado. Mas nem sempre assim foi, o conhecimento com progressos constantes é uma marca do pensamento moderno, que surgiu com a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, sendo que até então a verdade era procurada nos grandes mestres da antiguidade. Em 1580 o pensador francês Montaigne escreveu: “Aristóteles diz que todas as opiniões humanas existiram no passado e existirão no futuro, num número infinito de outras vezes; Platão, que elas devem ser renovadas e voltar a existir passados 36 000 anos.” Ao longo da Idade Média o conhecimento novo nem sequer era muito bem visto — quanto muito poderia-se-ia recuperar conhecimento dos antigos que se havia extraviado. É com a descoberta da América pelos europeus em 1492 que se impõe a ideia de conhecimento novo: se havia terras que ninguém conhecia, poderia haver outras coisas que ninguém sabia. O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) foi o primeiro a tentar sistematizar a ideia de um conhecimento com progressos constantes. Ele colocou no frontispício da sua obra Novum Organum, publicada em 1620, um barco a passar entre as colunas de Hércules, que representam o estreito entre Gibraltar e o Norte de África, a abertura do Mediterrâneo para o Atlântico, depois de explorar um mundo desconhecido. As descobertas geográficas serviram de metáfora para as descobertas noutras áreas, como a astronomia, a física, a anatomia e, mais tarde, a biologia e a química (celebramos este ano os 150 anos da Tabela Periódica, na versão proposta pelo químico russo Dmitri Mendeleev, que é uma forma de organizar toda a matéria de que é feito o Universo, de acordo com as propriedades de cada elemento químico). A prensa tipográfica possibilitou a circulação de milhões de exemplares de livros pela Europa, fazendo com que muitos tivessem acesso aos factos e pudessem verificá-los. Passaram a ser publicados livros que eram compilações de erros, um claro desígnio de melhoria do conhecimento. Num piscar de olhos na grande história humana este tipo de pensamento colocou homens na Lua e telemóveis nos nossos bolsos.

O conhecimento continua a evoluir. E o Mês da Ciência e da Educação de 2019 da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) celebra essa evolução. Abre com a conferência GPS, que neste caso significa Global Portuguese Scientists, a rede que liga os investigadores portugueses espalhados pelo mundo (mais em gps.pt). A conferência GPS, que realizamos pelo terceiro ano consecutivo, procura contribuir para a visibilidade e o reconhecimento da diáspora científica na sociedade portuguesa. Desta vez será na Galeria da Biodiversidade, no Porto, no dia 15 de Outubro às 18h30. Três investigadoras portuguesas irão debruçar-se sobre um tema em que pensamos todos os dias: o que comer? Plantas mais resistentes ou mais nutritivas? Carne artificial? Como pode a ciência ajudar a alimentar uma população em crescimento, num contexto de alterações climáticas? As oradoras serão Sofia Leite, especialista em cultura de células animais, que trabalha no Joint Research Center, uma organização sediada em Ispra, Itália, que tem por missão fazer aconselhamento cientifico à Comissão Europeia; Sónia Negrão, professora na University College Dublin, investigadora em melhoramento de plantas; e Marta Vasconcelos, docente e investigadora na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, que se dedica ao estudo da nutrição e genética de plantas. Um painel exclusivamente feminino, o que reflecte a elevada participação das mulheres portuguesas na ciência.

A par com a ciência tem crescido também a pseudociência, ou seja, práticas ou teorias que se fazem passar por ciência, mas que de facto não o são. A saúde é uma área particularmente assolada pela pseudociência, problema que será discutido na conferência “O logro das chamadas terapias alternativas: a importância da medicina baseada na ciência”, para a qual contaremos com Edzard Ernst, médico alemão e ex-praticante de terapias alternativas (como a acupunctura, a fitoterapia e a homeopatia)  que nas últimas décadas se dedicou à avaliação crítica de vários aspectos das terapias alternativas; com Armando Brito de Sá, em representação da Ordem dos Médicos; e com João Júlio Cerqueira, médico e autor do projecto Scimed. Será no dia 18 de Outubro às 18h00, no Instituto Politécnico de Leiria.

Uma área do conhecimento que tem conhecido extraordinários avanços é a da genética, a ponto de nos permitir conhecer a surpreendente história das actuais populações humanas, graças à genética populacional (área tornada possível pela redução dramática do custo de “ler” todo o ADN de um ser humano) e aos estudos de ADN antigo (a sequenciação de ADN de pessoas que viveram há milhares de anos). Os primeiros estudos de ADN antigo foram demorados e incompletos. Mas, a partir de 2010, um conjunto de novas tecnologias permitiu que esses trabalhos se tornassem rotineiros. Desde então foram publicados milhares de genomas antigos, o que tem permitido conhecer cada vez melhor a história das populações humanas de todo o mundo. Os resultados são tão surpreendentes que há quem fale de uma “revolução do ADN antigo”. Será desse revolução que falaremos na conferência “Como a genética conta a nossa grande história humana”, no dia 22 de Outubro às 18h00 na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Contaremos com o geneticista sueco Svante Pääbo, que trabalhou extensivamente no genoma do Neandertal, com a investigadora em genética  populacional Luísa Pereira e com o arqueólogo João Zilhão, numa sessão moderada pela antropóloga Eugénia Cunha.

Se a educação é fundamental para a ciência, o conhecimento científico também ajuda a educação. É esse o tema da conferência “Como o cérebro aprende? O papel das ciências cognitivas na educação”, que contará com o psicólogo francês Johannes Ziegler, que é um dos mais destacados investigadores da aprendizagem da leitura e da dislexia; com Alexandre Castro Caldas, médico e investigador em neurociências; e com Célia Oliveira, investigadora na área da aprendizagem e da memória. A moderação estará a cargo de Teresa Firmino, jornalista e editora de ciência do jornal Público. Dia 30 de Outubro às 15h00, no Liceu Camões, em Lisboa.

Dia 7 de Novembro, na Universidade de Aveiro, haverá uma sessão dupla a partir das 15h00. Será apresentado o estudo “A evolução da ciência feita em Portugal (1987-2016)”, coordenado por Nuno Ferrand e Ester Serrão. No debate estará o químico Nuno Maulide, considerado o Cientista do Ano na Áustria em 2019. Noutro painel discutir-se-á o já referido problema da confusão entre ciência e pseudociência, que reside no desconhecimento das características da ciência, tema que iremos tratar na conferência  “A atitude científica: o que é ciência e o que não é?”, com o filósofo norte-americano Lee McIntyre e os filósofos portugueses Olga Pombo e Desidério Murcho.

O Mês da Ciência e Educação encerra com o Encontro da Fundação “Ciência e Universo”, no dia 16 de Novembro, a partir das 15h00 na Aula Magna, em Lisboa, na esteira de quatro outros grandes encontros de celebração do 10.º aniversário da FFMS, e para o qual contaremos com uma constelação de oradores: Michio Kaku, físico teórico e autor de vários livros de divulgação científica, Carolyn Porco, que trabalhou nas missões Voyager e Cassini, Carlo Rovelli, físico italiano considerado pela revista Foreign Policy como um dos 100 pensadores mais influentes do mundo, e outros, como as investigadoras portuguesas Zita Martins e Maria Manuel Mota. O programa completo pode ser consultado em ffms.pt.

A ciência é indissociável da sua comunicação, pois requer a existência uma comunidade de especialistas com uma base comum de conhecimento que permita estabelecer se um resultado é correcto e original. Mas o papel da ciência no mundo depende da sua divulgação mais ampla. Esperamos que o Mês da Educação e da Ciência possa ajudar a debater as novas esperanças e desafios que vêm com a evolução do conhecimento.

David Marçal
Co-comissário (juntamente com Carlos Fiolhais) do Mês da Ciência e Educação da FFMS

Transporte para o evento "O logro das terapias alternativas", em Leiria

Organização da viagem para assistir ao evento "O logro das chamadas terapias alternativas: a importância da medicina baseada na evidência", onde estarão presentes Edzard Ernst, David Marçal, João Cerqueira e Armando Brito de Sá. O evento terá lugar no Instituto Politécnico de Leiria, dia 18, às 18h. O autocarro partirá de Lisboa, Gare do Oriente, às 15h30.

Responder até terça-feira, dia 15, às 18h, preenchendo o seguinte FORMULÁRIO.


Reitor da Universidade Aberta fala sobre “Educação Aberta”




No próximo dia 14 de Outubro, segunda-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, Paulo Dias, Reitor da Universidade Aberta, vem falar de Educação Aberta para uma Cultura de Inovação. Hoje, o ensino superior pode-se fazer e faz-se nalguns casos com amplo sucesso recorrendo  às novas tecnologias da  informação e comunicação. Na sua intervenção o Senhor Reitor não deixará de falar na ampla experiência da Universidade Aberta no ensino à distância, que inclui projectos conjuntos com a Universidade de Coimbra, enunciando os desafios actuais nesta área em Portugal e no mundo.

A apresentação será de Carlos Fiolhais, Director do Centro. A entrada é livre. Haverá lugar a diálogo com o público. 
Paulo Dias - Biografia breve:

Paulo Maria Bastos da Silva Dias é Professor Catedrático e Reitor da Universidade Aberta, Lisboa, Portugal. É Doutor em Educação pela Universidade do Minho e recebeu recentemente o título de Doutor Honoris Causa em “Educación a Distancia y Tecnología Instruccional” pela UNAD – Universidad Nacional Abierta y a Distância, Bogotá, Colômbia.

Desenvolve a atividade de investigação nas áreas das políticas de educação a distância e elearning, inovação educacional, usabilidade pedagógica, aprendizagem social e colaborativa em rede.

Colaborou com organizações nacionais e internacionais (OCDE) na realização de estudos no domínio da inovação educacional e coordenou e participou em projetos de investigação e desenvolvimento no âmbito dos programas europeus.

Integra as comissões editorial e científica de revistas internacionais da especialidade e é autor e coautor de publicações científicas no país e no estrangeiro.




MEU CURSO DE HISTÒRIA DA CIÊNCIA EM OEIRAS É JÀ NESTE FIM DE SEMANA

CURSO LIVRE
A História da Ciência em Portugal
12 e 13 de outubro de 2019 (sábado e domingo)
10h30-13h00 /15h00-18h00
Por Carlos Fiolhais

A evolução das ciências em Portugal enquadrou-se naturalmente na evolução das ciências no mundo. Com períodos de luz e de sombra, sobressai o século XVI e, embora em menor escala, o século XVIII. Faz-se uma síntese da história da ciência em Portugal desde a fundação da Universidade de Coimbra, que primeiro esteve em Lisboa, até à entrada de Portugal na União Europeia (com o enorme crescimento da investigação científica entre nós), passando pela notável época dos Descobrimentos, que precedeu a Revolução Científica, pela ação pedagógico-científica dos Jesuítas que ajudaram a levar a Revolução Científica ao oriente, pela Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra (obra do Marquês de Pombal) que modernizou o ensino, pela ciência cultivada na Escola Politécnica de Lisboa e na Academia Politécnica do Porto, e pela ciência durante a Primeira República após o aparecimento das Universidades de Lisboa e Porto, e pelas dificuldades sofridas pela ciência durante o Estado Novo. Dá-se destaque à evolução da medicina e da farmácia, incluindo a ação desenvolvida nas escolas superiores de Coimbra, Lisboa e Porto assim como nos maiores hospitais. Foca-se, em particular, a receção entre nós das obras de grandes figuras da ciência como Galileu, Newton, Lavoisier, Darwin e Einstein.

Conceção e realização
Carlos Fiolhais
Doutorado em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt, Alemanha, em 1982,é professor de Física na Universidade de Coimbra, foi diretor da Biblioteca Geral daquela Universidade, dirigiu a área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos e é diretor do Rómulo - centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. É autor de numerosos livros pedagógicos e de divulgação científica, como Física Divertida e Nova Física Divertida (Gradiva) e ainda do livro História da Ciência em Portugal (Arranha-Céus) onde está vertido o conteúdo deste curso. Recebeu vários prémios e distinções, as últimas das quais foram o Grande Prémio Ciência Viva - Montepio (2017) pela sua carreira na divulgação da ciência e o Prémio José Mariano Gago da Sociedade Portuguesa de Autores pela coordenação, com José Eduardo Franco, da coleção "Obras pioneiras da Cultura portuguesa" (2018).

12 de outubro (sábado)
10h30 às 13h30
A universidade medieval, o papa português e os Descobrimentos.
A receção de Galileu: A Revolução Científica e o papel dos jesuítas na sua difusão no Oriente.
15h00 às 18h00
Os Oratorianos, os Estrangeirados e o “terramoto” pombalino.


13 de outubro (domingo)
10h30 às 13h30
O liberalismo e as Escolas Politécnicas e Médico-Cirúrgicas.
As ciências da vida e a receção de Darwin. As ciências da Terra e do Espaço e a receção de Einstein.
15h00 às 18h00
A Medicina e o único Nobel português. O Estado Novo e a Ciência. O 25 de Abril.

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Destinatários - Jovens (maiores de 15 anos) e adultos
LOCAL DAS SESSÕES
Palácio Marquês de Pombal, Largo Marquês de Pombal, Oeiras

INFORMAÇÕES  
servicoeducativo.palacio@cm-oeiras.pt ,  Loja do Palácio Marquês de Pombal (3ª. Feira a sábado, das10h00 às 18h00). tel. 214430799  e www.cm-oeiras.pt.

VALOR DE INGRESSO - 20,00€
LOCAIS DE VENDA DE INGRESSO - Loja do Palácio Marquês de Pombal (214 430 799), Centro Cultural Palácio do Egipto, Oeiras (214 408 781), Loja da Fábrica da Pólvora de Barcarena (210 977 420) e Palácio Anjos, Algés (21 411 14 00)
Ticketline (Sede): 2ª a 6ª Feira, das 11H00 às 20H00; Sábados, das 13H00 às 20H00;
www.ticketline.sapo.pt, Fnac, Worten, El Corte Inglés , C. C. Dolce Vita, Casino Lisboa, Galerias Campo Pequeno, Ag. Abreu, A.B.E.P., MMM Ticket e C. c. Mundicenter, Fórum Aveiro, U-Ticketline, C.C.B, Time Out Mercado da Ribeira, Shopping Cidade do Porto, Lojas NOTE, SuperCor – Supermercados e ASK ME Lisboa.


Inscrição condicionada à lotação prevista.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

UMA TRAGÉDIA NACIONAL

Artigo meu sobre educação (ou a falta dela) que acaba de sair nos "Cadernos de Economia", num número que aborda a qualificação dos portugueses.

https://cld.pt/dl/download/a16c7f6a-af8b-48ac-a545-004bcd22d844/CAD128-online.pdf

PORTUGAL AMORDAÇADO


Texto lúcido de Santana-Maia Leonardo nas Beiras de hoje, que merece difusão acrescida:

Segundo consta José Roquete quis fazer um partido de defesa do Alentejo e do interior mas acabou por desistir da ideia porque o único círculo eleitoral onde o partido do Alentejo e do interior tinha alguma probabilidade de eleger um deputado era no círculo de Lisboa (????!!!!....).

Consequentemente, forçoso será concluir que, para o interior de Portugal ter voz e representatividade, era preferível haver apenas um círculo eleitoral nacional do que a actual situação que reduz as escolhas dos eleitores do interior do país aos partidos do regime, ou seja, aos partidos responsáveis pela desertificação do interior. Com efeito, PS e PSD, de forma concertada e com o apoio envergonhado da CDU, reduziram Portugal à cidade Lisboa-Porto, ao mesmo tempo que criaram um sistema eleitoral que retira qualquer possibilidade às populações do Alentejo e do interior de se organizarem por forma a combater um modelo de desenvolvimento apostado precisamente em esvaziar o Alentejo e o interior do país da sua massa crítica e das suas elites, condenando estas regiões à irrelevância política.

As autarquias do interior do PS, do PSD e da CDU defendem tanto o interior como as Casas do Benfica, do Sporting e do Porto, espalhadas por esse país fora, defendem os clubes do interior. A sua função é a mesma das Casas do Benfica, do Sporting e do Porto: garantir a fidelização dos adeptos ao partido. Veja-se o caso do círculo de Portalegre. Elege apenas dois deputados: do PS e/ou do PSD. Não vale a pena qualquer outro partido aqui vir fazer campanha que o resultado não se altera. E porquê? Porque mais de 60% da população é reformada e os restantes 40% dependem das autarquias PS e PSD. Os dois deputados sairão sempre destes dois partidos. Aconteça o que acontecer. Ora, qualquer cidadão que não se reveja em qualquer destes dois partidos, como é o meu caso, não vale a pena sair de casa.

A abstenção é a única forma de mostrar a nossa desconformidade com um sistema que nos reduz as escolhas a dois partidos gémeos com os quais não nos identificamos. Qualquer reforma eleitoral que não passe pela criação de um único circulo eleitoral, como acontece nas europeias, apenas contribui para agravar e cimentar ainda mais as assimetrias entre a cidade Lisboa-Porto e o interior do país.

Santana-Maia Leonardo

A ESCOLA COMO START-UP - 2

Como mencionei no texto anterior (aqui), há um modelo-tipo para a "educação" escolar pública que não se detém nas fronteiras dos países, nem é exclusivo de certa(s) organização(ões) ou pessoa(s). É "o" modelo: o modelo do futuro/do século XXI. Então, desloquemo-nos dos Estados Unidos da América para Portugal e, em vez de fundações, pensemos em autarquias e escolas. O resultado não é muito diferente. 

Imagem recolhida aqui
Foram apresentadas publicamente, por estes dias, duas "salas do futuro" situadas em dois estabelecimentos de ensino de uma determinada autarquia. Fazem parte do "Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar" que emergiu numa CIM, Comunidade Intermunicipal. Como arma de combate ao insucesso escolar, as salas serão replicadas noutras escolas, num investimento de milhares de euros. Uma das razões apresentadas é que os alunos "de meios rurais", com acesso reservado a tecnologias, também têm direito a elas.

Não sendo capaz de entender como é que salas em que "o aluno é o centro e o professor não tem secretária" (ver aqui) podem "combater" o insucesso escolar, passo a uma questão mais superficial: o que justifica a pompa numa circunstância tão banal? As “salas do futuro” são muitíssimas no país e por essa Europa fora, além de que constituem uma "inovação" tão pouco recente que pertence mais ao passado do que ao futuro, como o seu nome indica (ver aqui e aqui).

"Dispositivos informáticos" (como robótica, ecrãs de visualização de conteúdos multimédia, quadros e mesas interativas, impressoras 3D, câmara de filmar, tablets...) são ingredientes de uma receita que se repete. Receita que também integra mobiliário "diferente do tradicional" (como sofás e pufes, mesas e cadeiras com design arrojado e cores vivas) e expressões vazias (como "potenciação da aprendizagem", “laboratório de aprendizagem”, "novas metodologias”).

“Tudo é pensado para que haja uma grande interatividade tecnológica entre alunos e professores”, disse o presidente da autarquia (ver aqui). Questionado-me acerca do sentido efectivo da expressão "interactividade tecnológica" aplicada à relação entre professores e alunos, envolvidos na complexa tarefa que é o ensino e de aprendizagem, acrescento que, tenha ela o sentido que tiver, os grandes empresários agradecem.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A ESCOLA COMO START-UP - 1


O Summit Learning requer demasiadas horas  sentados 
em frente ao computador e elimina grande parte da interação humana”
Extracto de carta de alunos dirigida ao fundador do facebook.

“Recolhemos assinaturas, mas inicialmente os colégios não nos escutavam. 
Então um pai viu que as crianças tinham tido acesso a conteúdo inapropriado, 
explicitamente sexual. Num dia, somaram-se 500 assinaturas. 
O distrito escolar já não podia mais ignorá-lo. 
Após as férias do Natal, já tinham tirado o programa”
Extacto da declaração de um representante de pais a jornais.

“Quando se visita uma escola assim, parece o futuro, parece uma start-up”.
Tencionava “modernizar”, numa década, a maioria das escolas dos EUA, 
e depois levar o modelo para o exterior. 
Declaração de Zuckerberg, em 2016, numa conferência em Lima


Através das suas fundações, dos seus think tanks, e de outras influências, nomeadamente na comunicação social, os empresários que operam à escala global instalaram com a complacência, quando não com o "engajamento" (mais ou menos informada, consciente e ponderada) de políticos, académicos e profissionais, um modelo muito concreto de “educação” escolar.

Esse modelo é, já se vê, aquele que concorre em seu próprio benefício, com o correlativo prejuízo – em termos de inteligência – de milhões e milhões de crianças e jovens, obrigados a estar na escola pública durante cada vez mais anos, sendo objecto de formatação em vez de formação. 

Já o disse em várias circunstâncias, incluindo neste blogue, que o facto de tal modelo vingar na escola pública e, mais, de se ver reforçado a cada dia que passa, não pode ser imputado só, nem principalmente, à acção desses empresários – afinal é da sua natureza expandirem tanto negócios como influências –, deve também, e sobretudo, ser imputada a quem tem responsabilidade directa na educação formal que tem lugar nesse contexto, a quem ela é confiada, seja em termos de investigação, como de decisão, como de ensino.

Acontece que estes, onde me incluo, ou se deixam seduzir pelas múltiplas formas de aliciamento que o modelo prevê, ou estão desatentos e nunca pensaram no que é por demais evidente, ou não têm conhecimentos que lhe permitam discernir o que está em causa, ou sentem-se rendidos a uma força que vêem como superior à sua capacidade de enfrentamento. 

Enfim… não têm constituído obstáculo aos grandes empresários, que, quer isolados quer em rede, através das suas acções “beneméritas”, disputam os sistemas educativos públicos ou parcelas deles a que conseguem aceder. Refiro-me, por exemplo, às fundações Gates, Varkey, e Zuckerberg… O que se possa pensar ser necessário para a "educação" (entendida segundo o tal modelo), elas providenciam, desde técnicos, a conteúdos, passando por computadores, manuais e outros recursos, plataformas e sítios na internet, congressos, prémios, etc, etc., etc. Tudo de graça! 

Mas, talvez as coisas estejam a mudar ligeirissimamente, uns milímetros. Vejamos… 

A última fundação que mencionei (Chan Zuckerberg Initiative) cujo lema é "Um futuro para todos", criou, também ela, dentro do "modelo-tipo", um “modelo inovador”, "personalizado" para a educação do futuro/do século XXI, delineado para conseguir o sucesso pleno. Este modelo designado por Summit Learning, foi entusiasticamente, acolhido, no passado ano, em 380 escolas públicas, distribuídas por dezanove estados dos Estados Unidos da América, envolvendo 72.000 alunos.

Imagem recolhida aqui.
À partida, cada aluno recebia um computador e, estando o currículo disponível numa plataforma, sozinho ou com os pares, decidia por onde começar, seguir, etc. Todo o trabalho implicava pesquisa… sobretudo no facebook, no youtube! Isto com o afastamento do professor, que passou a tutor pontual. O que se segue? A recolha de dados pessoais, evidentemente. Foi também detectado um "pormenor": o fácil acesso a “conteúdos impróprios”. De tudo isto se deduz que, afinal, o que é de graça, sai muito caro! 

Parece que os alunos e os pais, ou, pelos menos alguns deles, perceberam isso e manifestam o seu descontentamento que tem sido público, chegando a jornais como o The New York Timesonde foi designado como "início de uma rebelião". Curiosamente, nas notícias não é mencionado qualquer descontentamento por parte de professores e directores.

Algumas escolas suspenderam a colaboração mas não todas e, evidentemente, que a fundação não bateu em retirada, antes redefiniu a sua estratégia. Uma porta-voz veio dizer:
“Estamos profundamente comprometidos com a privacidade (...). As informações dos alunos não são vendidas e só são utilizadas para propósitos educativos.” 
“Não estamos aqui para ganhar dinheiro, estamos para apoiar os estudantes e os educadores. Há colégios que nos procuram e querem inscrever-se no programa, declaram ter necessidade desse apoio.”
Os protestos aconteceram porque “a mudança é difícil, especialmente na educação”. 
“Aprendemos várias lições (...). No futuro, daremos apoio geral e personalizado às escolas, em função de suas necessidades. Daremos oportunidade aos pais para transmitir os seus comentários, directa e pessoalmente, à nossa equipa. Queremos que os pais sejam aliados neste trabalho.”
Portanto, a fundação não desarma: quer igualar a escola pública a uma start-up. Não desarmar deveria ser também a atitude de alunos e pais, e também de professores e directores, mas para manter a escola pública como escola pública.

Este texto continua aqui.
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Notícias consultadas para redigir esta nota:
https://www.nytimes.com/2019/04/21/technology/silicon-valley-kansas-schools.html https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/29/tecnologia/1561832269_832729.html  

https://observador.pt/2019/07/01/programa-de-ensino-de-mark-zuckerberg-esta-a-gerar-protestos-nas-escolas-dos-estados-unidos/ 

ÓPERA E A TABELA PERIÓDICA NO RÒMULO



O QUÍMICO JOÂO PAULO ANDRÉ FALA SOBRE “ÓPERA E A TABELA PERIÓDICA“
No próximo dia 10 de Outubro, quinta-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, João Paulo André, Professor de Química da Universidade do Minho, vem falar sobre Ópera e Tabela Periódica.
Apaixonado pela ópera, João Paulo André vai expor as ligações antigas entre a química e a ópera: desde o fogo elementar da Antiguidade à alquimia, e desta ao fogo atómico - que é como quem diz de "O Crepúsculo dos Deuses" de Wagner a "Doctor Atomic" de Adams, passando por "Der Alchymist" de Louis Spohr.
A apresentação será de Carlos Fiolhais, Director do Centro. A entrada é livre. Haverá lugar a diálogo com o público.
Biografia breve:

João Paulo André licenciou-se em Química (ramo educacional) pela Universidade de Coimbra e doutorou-se em química pela Universidade de Basileia, Suíça, com uma tese sobre complexos metálicos para imagiologia médica. É Professor Auxiliar do Departamento de Química da Universidade do Minho.

Os seus actuais interesses académicos incluem a história da química e a divulgação científica. De entre as suas publicações (artigos científicos, artigos de divulgação e capítulos de livros) conta-se uma análise crítica da presença da química e da farmácia na obra de Eça de Queiroz (in “Dicionário de Eça de Queiroz”, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2015) e o livro “Poções e Paixões – Química e Ópera” (Gradiva, 2018; 2ª edição 2019). O seu artigo Opera and Poison: a Secret and Enjoyable Approach to Teaching and Learning Chemistry, publicado no Journal of Chemical Education em 2013, foi o mais lido desse ano e esteve na origem de uma série de entrevistas concedidas a meios de comunicação internacionais, como The Scientist (EUA), The Boston Globe (EUA), Ciência Hoje (Brasil), e Chemiextra (Suíça).

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
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