FCT head resigns, amid Portuguese research community survival plea

quarta-feira, 29 de julho de 2015

“A promoção das técnicas associadas à luz seria impossível sem os engenheiros”

Minha Entrevista a Ingenium, revista da Ordem dos Engenheiros (destaques meus): 

 O físico Carlos Fiolhais é um dos mais reputados cientistas nacionais. Tem dedicado a sua vida ao estudo da Física Computacional da Matéria Condensada e à História das Ciências. Em 2015, coordena, em Portugal, o Ano Internacional da Luz e das Tecnologias baseadas na Luz. Confiante, vê Portugal a cores, com muita luz: “os otimistas são otimistas por natureza, sabem que se pode sempre saber mais e fazer melhor. Se há partes de Portugal ainda a preto e branco temos de lhes pôr alguma cor”.

 Por Nuno Miguel Tomás

P- Em 2015, o Mundo celebra a luz nas suas mais variadas dimensões, mostrando a enorme relevância que as suas aplicações têm no nosso dia-a-dia. Esta celebração será multidisciplinar reforçando que a luz é central na Ciência, Tecnologia, Arte e Cultura. Que motivos justificam e que propósitos tem a iniciativa das Nações Unidas “2015 Ano Internacional da Luz e das Tecnologias baseadas na Luz”?

 R- As Nações Unidas querem neste ano celebrar a luz em todo o Mundo. E querem unir, motivar e inspirar os habitantes do Planeta em torno de um fenómeno, a luz, em cujo conhecimento fizemos grandes progressos e queremos continuar a fazer mais. Graças ao nosso saber sobre a luz, vivemos hoje melhor. É natural que queiramos saber mais, com a esperança de vir a viver melhor. As tecnologias baseadas na luz são hoje essenciais nas comunicações, na saúde, no ambiente, na economia, etc. Tudo indica que o vão continuar a ser, com as novíssimas tecnologias a juntarem-se às novas. Mas, para isso, temos de prosseguir a aposta na Ciência e na Tecnologia. Por outro lado, sem luz muitas formas de arte seriam impossíveis: decerto a fotografia e o cinema, mas também as artes plásticas e as artes de palco. O Ano Internacional da Luz é, além do mais, uma ótima oportunidade para juntar a Ciência e a Arte, para mostrar que a Ciência é uma forma de cultura que pode, e deve, comunicar com as outras.

P- Considerando a evolução do papel da radiação eletromagnética nas ciências e tecnologias, poderá dizer-se que uma iniciativa internacional como esta surge no tempo certo, ou, pelo contrário, ter-se-ia já justificado noutro momento?

R- 2015 é um ano de vários aniversários relativos à luz. Foi há 150 anos que o físico James Clerk Maxwell escreveu as equações que, unindo as descrições dos fenómenos elétricos e magnéticos num esquema unificado, fez luz sobre a luz. Foi só então que se ficou a saber que a luz eram ondas eletromagnéticas. Os nossos olhos conseguem recolher uma pequena parte delas, a chamada luz visível. Mas há muitas mais ondas, umas conhecidas antes de Maxwell, como as ondas infravermelhos e as ondas ultravioletas, e outras só conhecidas e exploradas depois, como as ondas de rádio. Só depois de Maxwell foi possível o aparecimento de Hertz e Marconi, cujas tecnologias mudaram radicalmente o Mundo. Mais perto de nós, há 50 anos, o físico Charles Kao tornou viável a tecnologia das fibras óticas, permitindo que a luz chegasse sem grandes perdas por fios de vidro, em vez de vir apenas através de ondas no espaço. Os aniversários interessam para nos lembrar como foi. Como irá ser não sabemos, mas, tal como no passado, haverá decerto novas descobertas.

P- Como antevê o papel da radiação eletromagnética na sociedade do futuro, não só no âmbito técnico-científico, mas também na forma como influencia aspetos educativos, sociais, culturais, económicos, legais, de saúde e segurança, etc.? De que forma prática a luz intervém na Educação, na Economia, no Ambiente, nas Comunicações, na Saúde?

R-  É temerário prever o futuro. Ninguém adivinhou as descobertas dos raios X e dos raios gama e das suas propriedades no final do século XIX, que tanto haveriam de transformar a vida no século XX. Ninguém adivinhou as aplicações que o laser, proposto por Einstein em 1917 e apenas realizado nos anos 50, veio a ter – nos anos 60 chamaram-lhe uma descoberta à procura de uma aplicação: não encontrou uma mas muitas. Ninguém adivinhou o aparecimento da Internet, nem a globalização conseguida nos dias de hoje graças à World Wide Web iniciada nos anos 90 num laboratório de Física. Há quem diga que o século XXI será o século da fotónica assim como o século XX foi o da eletrónica. Não sei nem ninguém sabe como vai ser. Antevejo que eletrões e fotões continuarão a ser combinados nos nossos aparelhos com base na Teoria Quântica, essa grande teoria do século XX que ainda não foi destronada. Hoje em dia alguns dos aspetos mais estranhos da Teoria Quântica começam a encontrar aplicações: é o caso da criptografia quântica e da computação quântica.

P-  Como antevê que a Humanidade balance a utilização da radiação como um instrumento protetor e libertador do Homem com o risco de se converter num potencial instrumento de subjugação ou de destruição nas mãos de um qualquer “big brother”?

R-  Saber é e sempre foi poder. E o exercício do poder não é feito pelos cientistas, mas sim, nas sociedades democráticas, pelos cidadãos no seu conjunto. Os aspetos sociais da Ciência e da Tecnologia são importantíssimos, mas eles não são parte da Ciência e da Tecnologia, mas sim do governo das nações. Eu diria que o que vai acontecer já está a acontecer. Há boas e más utilizações da Ciência e Tecnologia, cabendo à Sociedade em cada momento efetuar as melhores escolhas. A Ciência e a Tecnologia são libertadoras, porque podem conduzir a maior bem-estar da Humanidade. Mas isso não está assegurado. Convém estar atento e vigilante.

P- Que eventos mais relevantes a nível internacional integram a iniciativa “2015 Ano Internacional da Luz”?

R- A abertura oficial do Ano Internacional da Luz teve lugar na sede da UNESCO, em Paris, em janeiro passado. Mais de cem países de todo o Mundo, dos mais ricos aos mais pobres, estão a organizar iniciativas, dos mais variados géneros, em volta da luz. É impossível resumi-las, mas há conferências, palestras, exposições, congressos, feiras, espetáculos, etc., um pouco por todo o lado. Das iniciativas mais curiosas destaco as que mostram o poder das tecnologias da luz em países menos desenvolvidos: luz de LED a partir de painéis solares, equipamentos portáteis de radiação para curar doenças, Internet via satélite, etc. Num mundo, infelizmente, ainda muito desigual, a luz pode ser um meio equilibrador.

P-  E quais os eventos mais relevantes que integram esta iniciativa em Portugal? O que lhe apraz destacar?

R-  Começámos no mais antigo liceu português, a Escola Passos Manuel em Lisboa, com uma palestra e um show de luz. E temos um grande plano, intitulado “Haja luz nas escolas”, para levar a luz às escolas. Universidades, como a Nova de Lisboa, estão a organizar ciclos multifacetados sobre a luz. Haverá exposições, por exemplo uma de holografia em Aveiro e outra de arte luminosa em Lisboa. E uma exposição no Terreiro do Paço sobre a luz de Lisboa. Há vários eventos de astronomia, incluindo uma exposição sobre fotografia astronómica na “reserva de céu escuro” do Alqueva. Houve uma conferência internacional no Ciência Viva, no Parque das Nações em Lisboa. Haverá em dezembro uma grande conferência sobre luz na Gulbenkian, para além de conferências em Coimbra e Porto. Congressos haverá para todos os gostos: desde os lasers no Algarve e a espetroscopia na Figueira da Foz, até à comunicação em Braga e à museologia no Porto. A indústria da luz já reuniu em Águeda. E a Ordem dos Engenheiros já reuniu também em Lisboa em volta da luz. Estão-se a acender muitas luzes por todo o País!

P-  Qual o significado e a importância que atribui à participação dos engenheiros portugueses, através das iniciativas da Ordem dos Engenheiros, na celebração do Ano Internacional da Luz?

R- Não há tecnologias nem uso de tecnologias sem a ação dos engenheiros. São eles sempre que fazem a ponta entre os avanços da Ciência e a utilização pela Sociedade desses avanços. A promoção dos conhecimentos e das técnicas associadas à luz seria impossível sem os engenheiros, por exemplos os engenheiros eletrotécnicos, mas também outros. Os engenheiros de vários ramos, em Portugal como no Mundo, estão a participar, através da sua organização maior, a Ordem, neste Ano Internacional da Luz.

P-  Gestão da luz e das técnicas associadas à luz: qual o papel dos engenheiros e da Engenharia portuguesa?

R- A iluminação de espaços exteriores e interiores é um dos aspetos mais relevantes da luz. Estamos na era dos LED e vários projetos, dirigidos por engenheiros, estão a mostrar como economizar energia, tornando o planeta mais sustentável. Mas também no domínio das comunicações, com a instalação de sistemas de fibra ótica e wifi, mais uma vez no exterior e no interior, a luz está a chegar a todo o lado. A Engenharia portuguesa está a par do que de melhor se faz no Mundo.

P- Costuma dizer-se que o Sol quando nasce é para todos. Mas a luz é base de distinção entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Concorda?

R-  Na Conferência de Paris, os neozelandeses concordaram com o provérbio, mas logo acrescentaram que o Sol nascia primeiro para eles… A Terra gira e todos beneficiam, à vez, da luz solar. Sim, a sociedade humana é desigual e temos assistido ao aumento das desigualdades em vez da desejável diminuição. É um paradoxo da nossa vida no Planeta que um dos continentes mais expostos à luz – África – seja também dos que tem menos acesso a tecnologias da luz, como a iluminação noturna ou a rede de Internet. As tecnologias quando nascem não são logo para todos, são primeiro para os mais ricos. Neste Ano Internacional da Luz devíamos refletir sobre esse facto e procurar maneiras de o contrariar.

P- A luz desempenha um papel vital no nosso dia-a-dia, sendo a moderna ótica uma disciplina essencial do século XXI. Ela revolucionou a Medicina, abriu a Comunicação mundial via Internet, e continua a ser central na ligação da vida social, cultural, económica e política da Sociedade. Porque diz que é uma oportunidade única, à escala mundial, para inspirar, educar e ligar as populações de todo o Mundo?

R- Os anos mundiais são irrepetíveis. Tem havido, com o patrocínio das Nações Unidas, anos mundiais disciplinares, como o da Matemática em 2000, o da Física em 2005, o da Astronomia em 2009 e o da Química em 2011. Mas 2015 é um ano eminentemente interdisciplinar já que a luz tem a ver com tudo e com todos. É uma oportunidade para unir as ciências e as tecnologias entre si e para unir estas à Sociedade, que é, efetivamente, a sua origem e razão de ser.

P- Há quem atribuem às tecnologias baseadas na luz o papel de principal motor económico da atualidade. Concorda?

R- Se não é o principal é decerto um dos mais importantes. Basta lembrar que toda a nossa economia está hoje assente nas comunicações rápidas. E, conforme defendeu Einstein e continuamos a defender hoje, nada pode ser mais rápido do que a luz. No mundo cada vez mais imaterial em que vivemos o valor económico tem a ver com informação, que se passa de um lado para o outro à velocidade da luz.

P-  Como evoluíram, de forma genérica, os resultados de Einstein desde 1915 até aos dias de hoje?

R-  Há cem anos, Einstein publicou a sua teoria maior, a Teoria da Relatividade Geral, que descreve a gravitação melhor do que Newton fez. Essa teoria, uma glória do pensamento humano, ainda não foi ultrapassada. Mas subsiste uma dificuldade conceptual: como ligar essa teoria com a Teoria Quântica? Quem o conseguir fazer ganhará o Nobel.

P-  “Física sem Matemática é impossível”, já o disse publicamente várias vezes… No seu dia-a-dia considera-se também um engenheiro? Gostava de ser mais engenheiro?

R-  Eu gosto muito de ser físico, não sei se seria capaz de ser outra coisa! Eu gosto da teoria, da Matemática, sou físico teórico. Duvido que tivesse jeito para a Engenharia. Mas deve ter havido uma mutação qualquer e tenho um filho a estudar Engenharia…

P- Como cativar, nos dias de hoje, os jovens para as áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia? O que falta fazer?

R- Faz falta começar mais cedo. A Ciência deve começar por ser transmitida no jardim-de-infância e nos primeiros anos da Escola Básica. E deve entrar pela via aprazível da experimentação: é o mexer, nas idades mais baixas, que leva ao saber. Depois, o ensino formal pode ser melhorado, mostrando mais a unidade das ciências e a relação fértil que ela mantém com as tecnologias. Temos de acarinhar os vários talentos que vão aparecendo na escola. Temos de resolver o grave problema do emprego científico e tecnológico após a escola. No que se pode chamar ensino informal tem havido entre nós alguns progressos, por exemplo os que foram alcançados com o Ciência Viva, mas há ainda muito a fazer. Todos não somos demais para afirmar o papel das ciências e tecnologias no Mundo de hoje e, por isso, para encontrar o melhor lugar para elas na nossa escola.

P- Os Centros Ciência Viva estão a cumprir a sua missão de sensibilizar os mais jovens para a Ciência? Sim, estão. A Ciência Viva foi uma iniciativa extraordinária do ministro José Mariano Gago. Portugal é admirado lá fora por essa rede de centros, que têm espalhado ciência e cultura científica a jovens e menos jovens. Eu próprio dirijo o Rómulo, o Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, que é um centro de recursos na área da cultura científica.

P-  Pode afirmar-se que há uma Ciência portuguesa? Ou a Ciência, tal como a luz, é de todos, internacional?

T- A Ciência é internacional. Quanto mais internacional for, mais e melhor Ciência será. Portanto, não há Ciência portuguesa, mas sim Ciência feita por portugueses, em Portugal ou lá fora. Ou há, se quisermos, Ciência feita em Portugal, por portugueses ou estrangeiros.

R- Como classifica o momento atual que a Ciência vive em Portugal? Qual o futuro da Ciência no nosso País?

R- Depois de um progresso enorme de duas décadas, nos últimos quatro anos houve um claro desinvestimento na Ciência e também na Tecnologia entre nós. A avaliação das unidades de investigação foi, na minha opinião e de muita gente, uma fraude. A Biomedicina foi preferida em relação à Engenharia, tendo alguns responsáveis menosprezado a Engenharia portuguesa. A cultura científica foi preterida. Temos de voltar a apostar na Ciência e na Tecnologia. Um dos nossos mais graves problemas é o do emprego científico. Infelizmente, nos últimos tempos tem havido mais cientistas portugueses a ir para fora do que cientistas estrangeiros a vir para cá. Temos de parar esse êxodo de cientistas, pois o nosso futuro passa pelo contributo que eles nos possam dar.

P- Como físico, cientista, investigador, quais são as suas inquietações? A luz não o deixa dormir? Descansa com a luz ligada ou desligada?

R- Gosto de trabalhar de noite, com luz artificial. Há mais sossego. Metaforicamente, procuro a luz, que é o entendimento, a razão, a verdade, com a luz fisicamente ligada. Mas durmo com a luz desligada, como a maior parte das pessoas, julgo eu… Acordo de manhã com a ajuda da luz do dia. O meu ritmo de trabalho, como o de toda a gente, não pode deixar de estar adaptado ao ritmo solar.

P- Como vê Portugal? Colorido, esperto? Ou a preto e branco, mortiço?

R- A cores, embora eu seja um pouco daltónico… Portugal tem muita luz e tem as cores do verde das florestas e do azul do mar. Mas a pergunta é, entendo eu, se sou otimista ou pessimista... Os cientstas são otimistas por natureza, sabem que se pode sempre saber mais e fazer melhor. Se há partes de Portugal ainda a preto e branco temos de lhes pôr alguma cor.

P- Costuma referir que o século XXI é o século das Tecnologias da Luz. Quer fundamentar? O século XXI não será também o da Bioengenharia e das tecnologias ligadas à Saúde, algumas delas com base na luz, claro?

R-  Não sou só eu que falo de Tecnologias da Luz. Mas é bem possível que os computadores de amanhã funcionem com luz em vez de eletricidade. Mas não menosprezo o valor das Ciências da Vida. Há um campo enorme para a genómica, por exemplo. Diz, e muito bem, que as Ciências da Vida precisam da luz, estudada na Física: por exemplo, a estrutura do ADN foi desvendada nos anos 50 com a ajuda dos raios X, uma forma de luz. E, recentemente, desenvolveram-se novas técnicas: com a ajuda da biotecnologia, conseguiram-se indicadores luminosos de processos biológicos. As ciências estão todas ligadas e é uma política errada a afirmação de uma superioridade de umas em relação às outras. É perceber pouco do que é a intrincada malha do saber, que extraímos da Natureza. Esta não conhece as nossas distinções disciplinares.

P-  Em 2015 comemoram-se cinco datas cimeiras associadas à luz: 1015, quando o árabe Al Haytham escreveu o primeiro livro de Ótica; 1815, quando o francês Fresnel confirmou a teoria ondulatória da luz; 1865, quando o britânico Maxwell publicou a sua teoria de eletromagnetismo, explicando a luz como ondas eletromagnéticas; 1915, quando o suíço Einstein publicou a teoria da relatividade geral, apresentando a luz no espaço-tempo; e 1965, quando os norte-americanos Penzias e Wilson descubriram a radiação cósmica de fundo, a luz mais antiga do Universo chegada até nós e o britânico e norte-americano Kao aperfeiçoou a tecnologia da fibra ótica, que hoje usamos abundantemente. O que está ainda por descobrir? Ou melhor, como antevê que o conhecimento da luz possa evoluir? Que revolução podemos esperar para 2065?

R-  Niel Bohr, o grande físico quântico, afirmou que “era muito difícil fazer previsões”. E logo acrescentou, ironicamente, “em especial do futuro”. Não me atrevo por isso a fazer previsões. Mas lembro a voz de Einstein, o grande opositor intelectual de Bohr no debate sobre a teoria quântica: “o futuro chega sempre mais cedo do que se espera”.

Carlos Fiolhais

Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra (UC) em 1978 e doutorou-se em Física Teórica em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É Professor Catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi Professor nos Estados Unidos da América e no Brasil. É autor de 150 artigos científicos em revistas internacionais – um dos quais com mais de 11 mil citações, o artigo mais citado com um autor numa instituição nacional – e de mais de 500 artigos pedagógicos e de divulgação. Publicou 50 livros, incluindo diversos best-sellers. Foi ainda autor de 20 capítulos de livros e de 25 prefácios, editor de cinco livros científicos em edições internacionais e tradutor de oito.

 Os seus interesses científicos centram-se na Física Computacional da Matéria Condensada e na História das Ciências. Fundou e dirigiu o Centro de Física Computacional da UC, onde procedeu à instalação do maior computador português para cálculo científico. Tem coordenado vários projetos de investigação e supervisionado diversos estudantes de mestrado e doutoramento. Participou em numerosas conferências e colóquios promovendo a ciência e a cultura científica. Criou e dirige o Rómulo – Centro Ciência Viva da UC.

Dirigiu a revista “Gazeta de Física”, da Sociedade Portuguesa de Física, e foi conselheiro de revistas de Física internacionais. Dirigiu o Centro de Informática da UC e presidiu ao Conselho de Investigação do Instituto Interdisciplinar da UC. É colaborador dos jornais “Público” e “As Artes entre as Letras”. Foi consultor dos programas “Megaciência” e “ABCiência” para a SIC e RTP, e do Museu de Ciência da UC. Foi diretor da Biblioteca Geral da UC, onde concretizou vários projetos relativos ao livro e à cultura, e do Serviço Integrado de Bibliotecas da UC, onde criou repositórios digitais. É cofundador da empresa Coimbra Genomics. É corresponsável pelo blogue “De Rerum Natura”. É o responsável pelo programa de Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Ganhou vários prémios e distinções: em 1994, o Prémio União Latina de tradução científica; em 2005, o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência da SIC; em 2005, a Ordem do Infante Dom Henrique; em 2006, os Prémios Inovação do Forum III Milénio e Rómulo de Carvalho da Universidade de Évora; e, em 2012, o prémio BBVA para o melhor artigo pedagógico na área da Física no espaço ibero-americano.

O actual governo falhou na ciência

Numa entrevista que dei hoje à Antena 1 critiquei a enorme falha do actual governo: desprezou a ciência ao não dar oportunidades a jovens cientistas. O ministro Crato afirmou ontem, em mais um dos seus momentos infelizes, que o estatuto do investigador científico era uma prioridade para o próximo governo. Ora isto não tem lógica nenhuma, é um absurdo. Ou é uma prioridade e devia ter sido prioridade ou não é prioridade e adia-se. De qualquer modo felizmente ele não será o próximo ministro, com a previsível derrota da coligação que ele defende. Ouvir extractos do meu depoimento aqui.

O SISTEMA DUAL DO ENSINO SUPERIOR POSTO EM CAUSA


Meu artigo de opinião saído hoje no Público, adaptado do meu post, publicado no DRN (16/07/2015), titulado “Uma campanha (pouco) alegre para universitar os politécnicos”:

“Parece muito evidente ser um erro entender a transformação histórica de institutos politécnicos em universidades, como se de uma promoção se tratasse” (Adriano Moreira, Seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha”, 12/11/2004).

Nos dias de hoje, assiste-se a uma campanha orquestrada pelos politécnicos de Coimbra, Lisboa e Porto que tenta pôr em causa o sistema dual de ensino superior por os seus dirigentes, em vez de dignificarem o estatuto de ensino politécnico que representam, procurarem veredas esconsas que o conduzam a estatuto universitário.

Em década anterior, Rui Antunes, ao tempo vice-presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, vestindo a beca de defensor oficioso dos dinheiros públicos, argumentava que “a Universidade faz o mesmo que o Politécnico, embora este último com bem menores meios financeiros” (“Diário de Coimbra”, 10/01/2005).

Deste jeito, eram tecidas críticas a uma política  em que se gastava mais para ter o mesmo. A ser correcta esta análise económica, o Tribunal de Contas teria, pela certa, chamado a atenção, ou mesmo emendado a mão, dos perdulários responsáveis por um ruinoso statu quo de esbanjamento dos cofres do Estado,  ainda que mesmo época de vacas gordas. Quanto mais em época de vacas magras!

Recentemente, Joaquim Mourato, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, declarou que a estratégia do órgão tutelar a que preside “tem sido no sentido de aprofundamento da diferenciação de missões”. Em total discordância, Rui Antunes, quiçá, procurando retirar os institutos politécnicos do anátema do nome da pia baptismal, em crisma purificadora que lhes dê o nome de universidade,  fez-se doutrinador  do sistema de ensino superior das margens do Mondego, propondo atribuir à actual Universidade de Coimbra uma “vocação internacional” e a uma futura universidade, resultante do Instituto Politécnico de Coimbra, “ uma vocação mais regional”.

E o que diz a universidade a tudo isto?

O presidente de Reitores das Universidades Portuguesas, António Cunha, não se exime em declarar: “Temos sempre defendido um aprofundamento do sistema binário e uma maior diferenciação entre os sistemas” [universitário e politécnico].

Entrementes, com destaque de título a página inteira, era noticiada a posição do Ministério da Educação e Ciência: ”MEC recusa acabar com distinção entre universidades e politécnicos” (“Público”, 08/07/2015).

Apesar desta tomada de posição em esferas governamentais, tomando em linha de conta a confusão constante estabelecida entre democratização e mediocratização do ensino superior, a instituição universitária deve continuar a assumir, sem quaisquer tréguas, o papel de guardiã  esforçada  dos portões de um saber universal, em contexto de elevada qualidade e numa tradição multissecular.

Devia ser assim, mas nem sempre assim tem sido! A realidade é bem outra: uns tantos licenciados universitários na docência politécnica, em apostasia à sua formação académica, mostram-se estrénuos defensores, ou simplesmente solidários, com a intenção em transformar o ensino superior politécnico em ensino universitário.

Porque, como li algures, não fazer é deixar que outros façam por nós, este statu quo pede a vigilância constante e atenta da corporação universitária em defesa da clarificação dos objectivos dos dois subsistemas do ensino superior, hoje, deficientemente definidos em articulados legais sujeitos a variadas interpretações no que respeita às finalidades de ambos. Situação esta que me traz à lembrança um texto do escritor Bio Barojo em que um ministro espanhol dirigia a seguinte advertência ao seu secretário: “Senhor Rodriguez, veja lá se a lei está redigida com a necessária confusão!”

E porque, na vox populi, ”a esperança é a última a morrer”, tenho esperança que, retirando a venda dos olhos, a Justiça, através do governo a sair das próximas eleições legislativas, atribua à universidade  o que é da universidade e ao politécnico o que é do politécnico, não permitindo, consequentemente, qualquer tipo de ceifa do politécnico em seara universitária. Ou seja, como estipulava o princípio de Eneo Ulpiano, jurista da Roma Antiga: Suum cuique tribuere (Dar a cada um o que lhe pertence)!

O coordenador do painel que avaliou a FCT tem um conflito de interesses por causa do seu papel na ESF

Do comunicado da candidatura Livre/Tempo de Avançar acerca da avaliação externa à FCT, destaca-se o seguinte:

"Notamos que o coordenador do painel de avaliação da FCT, Professor Christoph Krayky, pertencia ao Governing Council da ESF à altura em que a FCT adjudicou a avaliação das unidades de I&D nacionais a esta fundação."

Não surpreende, portanto, que o relatório desvalorize as críticas feitas pela generalidade dos investigadores portugueses, incluindo pelo Conselho de Reitores, à avaliação das unidades de investigação de investigação.

Por uma política científica que aposte na ciência como motor do futuro

Comunicado recebido da candidatura Livre/Tempo de Avançar sobre avaliação da FCT:

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) solicitou, em 2014, a um painel internacional, uma avaliação externa à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). É com consternação que registamos algumas das conclusões do comunicado do MEC de 27 de Julho sobre o relatório do painel. No entanto também notamos que este comunicado transpõe de forma enviesada apenas algumas das conclusões do relatório, havendo outras menos alinhadas com a política científica dos últimos anos, que conviria salientar.

No contexto nacional é inadequada a descontinuação do modelo do modelo de concursos nacionais para o financiamento de bolsas de doutoramento individuais e de pós-doutoramento, substituindo-as por bolsas integradas em programas de doutoramento ou por bolsas de pós-doutoramento integradas em projetos. Estas alterações, apresentadas como uma reorientação de recursos, para além de constituírem um ataque direto à liberdade e autonomia científica, favorecem, no caso das bolsas de doutoramento, quem já está integrado no sistema e matam à nascença a possibilidade de desenvolvimento de ideias individuais em áreas não cobertas pelos programas existentes.
No caso das bolsas de pós-doutoramento é diminuída a independência do investigador doutorado face ao investigador responsável e favorecido o aumento da precariedade dos investigadores, dada a curta duração da maior parte dos projetos e a incerteza no financiamento de projetos subsequentes.
Estamos de acordo com as conclusões do painel, pois entendemos que as bolsas de pós-doutoramento não se devem prolongar por mais de três ou quatro anos. Estas são bolsas que têm de facto alimentado o sistema com mão-de-obra barata e precária devendo ser substituídas por contratos de trabalho que possam vir a dar lugar a posições de desenvolvimento de carreira. E perguntamos: onde estão essas posições?
Não objetamos a possíveis incentivos para pós-doutoramentos no estrangeiro, cujo financiamento foi aliás fortemente reduzido nos últimos anos, mas salientamos que ninguém deve ser obrigado a emigrar e que devemos antes preocupar-nos em como vamos trazer de volta muitos daqueles em que investimos e que tiveram de partir – mas nunca em incentivar a partir aqueles que querem ficar.
São ainda alarmantes as conclusões apresentadas no comunicado do MEC sobre a avaliação das unidades de investigação do sistema científico nacional adjudicado pela FCT à European Science Foundation (ESF). Notamos que o coordenador do painel de avaliação da FCT, Professor Christoph Krayky, pertencia ao Governing Council da ESF à altura em que a FCT adjudicou a avaliação das unidades de I&D nacionais a esta fundação. Neste ponto o comunicado falha em respostas concretas às críticas levantadas pelas unidades de I&D, pelos laboratórios associados e pelo Conselho de Reitores, apesar do relatório completo salientar a importância do diálogo com a comunidade científica, incluindo as universidades.
Foram vários os atropelos conhecidos na avaliação das unidades de I&D. Em muitos casos, não havia um único avaliador nos painéis de avaliação que pertencesse à área científica avaliada. Outra situação inaceitável prende-se com o facto de que muitos dos argumentos devidamente apresentados pelas unidades de I&D como recurso aos resultados de fases intermédias do processo da avaliação, não terem sido sequer considerados para o resultado final da avaliação. De facto, esta avaliação foi um processo em que as regras foram alteradas a meio, como aliás é reconhecido pelo painel de avaliação da FCT, tendo estas alterações, ao contrário do que aí é referido, afetado verdadeiramente o resultado final da avaliação das unidades. Finalmente, esta avaliação resultou na efetiva eliminação das unidades de I&D para metade, dado o nível de financiamento irrisório atribuído.

Consideramos que não é com uma FCT que se coloca contra a comunidade científica, perdendo a sua confiança, que se faz crescer e se potencia o sistema científico.
Devemos assim concluir que o objetivo da política científica dos últimos anos foi o de diminuir e enfraquecer a comunidade científica nacional e as suas instituições, mantendo e estimulando apenas as mais capazes de procurar financiamento externo. Esta política é destruidora das instituições que compõem o sistema científico nacional, ignora o verdadeiro papel da ciência como motor do futuro e desresponsabiliza o estado do seu papel fulcral na promoção e investimento num sistema científico e tecnológico nacional que sirva para aumentar o conhecimento e a literacia científica e que contribua para melhorar a democracia em que queremos viver.

Rejeitamos veementemente uma política científica que convida ao desânimo ou à emigração toda uma geração de jovens cientistas que aparentemente são suficientemente excelentes para singrar em sistemas científicos mais desenvolvidos que o nosso, mas não em Portugal.

domingo, 26 de julho de 2015

Finalidades, metas, objectivos e conteúdos de "Educação Moral e Religiosa Católica"

A organização curricular por "standards" (em Portugal com a designação de metas, antes "metas de aprendizagem" e agora "metas curriculares"), ainda que não seja recente, está na linha da frente das actuais políticas e medidas educativas.

Antes (mais ou menos entre os anos vinte e setenta do passado século) a organização curricular por "objectivos", iniciada nos Estados Unidos da América e rapidamente exportada para a Europa, constituía o referencial da construção de programas diciplinares e de planos de ensino. E, claro, marcava também o referencial de avaliação e de construção de instrumentos de avaliação. Foi a época áurea do "comportamentalismo", centrado na evidenciação de "performances" por parte dos alunos como forma de os conduzir à aquisição de competências.

Algumas décadas depois, estribados numa outra teorização - que não se percebe bem qual é, mas que mais parece uma mistura de comportamentalismo arcaico com uns laivos de cognitivismo, tudo apresentado com as brilhantes cores construtivistas -, os sistemas educativos americanos e europeus - um, outro e depois outro - passaram a organizar os seus currículos por "standards". A sua força motriz é, sem dúvida, os programas de avaliação internacional, que marcam uma forte presença desde o ano 2000 e que, pouco a pouco, se foram tornando a (única ou a mais forte) razão de existência da escola.

Ambas as formas de organização curricular - que, apresentando algumas diferenças, têm em comum a preocupação com os resultados observáveis que os alunos conseguem - são objecto de críticas ferozes, não sendo esta em vigor menos poupada do que a anterior.

Este aspecto é muito apelativo a dissertações, mas não pretendo discuti-lo neste texto, ele serviu apenas de suporte para que se perceba a consideração que faço de seguida.

Os standards/metas começaram por se concentrar em disciplinas que são objecto de medição no quadro desses programas de avaliação, ou seja (mais disciplina, menos disciplina) ciências, matemática, língua materna e língua inglesa. As restantes ficaram, em geral, dispensadas do exercício de combinar conteúdos e objectivos, de os sequenciar e, em certos casos, de lhes aplicar critérios de sucesso. Até porque, como facilmente se perceberá, a essência de algumas não é muito propícia a esse rigoroso exercício.

Mas, e aqui está a contradição que pretendo evidenciar, à medida que aumenta a crítica à organização curricular por standards/metas (e tem aumentado), ditada pelas tutelas, aumenta também a reclamação, por parte de associações várias, para que disciplinas curriculares de pleno direito, não abrangidas pela avaliação internacional, sejam dissecadas dessa maneira. Isto como se a sistematização de uma disciplina em metas a refrescasse e enobrecesse. E, até, a justificasse naquilo que se crê ser uma nova concepção curricular.

Quem diz disciplinas, diz algumas "Educações para...", que, evidentemente, também apresentam o seu "programa" sob a forma de metas. São exemplos, a "Educação financeira" e a "Educação para a Defesa e Segurança/Educação para a Paz".

E diz também... "Educação Moral e Religiosa Católica"! É verdade: para esta disciplina confessional e optativa, foi apresentado novo programa para o ensino básico e ensino secundário em 2013 - Decreto-Lei n.º 70/2013 de 23 de Maio - com nova edição em 2014, a qual se encontra disponível na página da Direcção-Geral de Educação.

Nele constam, ao longo de quase 190 páginas, "finalidades, metas, objectivos e conteúdos" (de notar a sobreposição de conceitos). São enunciados talhados a regra e esquadro que fazem concorrência aos da matemática.

Presumo que o objecto da Educação Moral e Religiosa Católica seja a fé. E, entendo eu (bastante analfabeta no assunto), a fé tem uma natureza distinta de tudo o resto que compõe o currículo: é, em última instância um mistério. Um mistério que (talvez por via da educação, mas isso não é garantia nenhuma) alguns, pelo seu caminhar (sobretudo) pessoal, terão a graça de vislumbrar.

Ora, isso é da ordem do transcendente.  E o que é dessa ordem não pode nem deve sujeitar-se a técnicas pedagógicas generalistas, que não as há para fim tão sublime.

Luísa, eu estou disponível, se me quiser oferecer a viagem

Resposta ao meu artigo de opinião sobre Licenciaturas em banha da cobra, no Expresso desta semana:

Minha entrevista à Rádio Renascença

Ouvir aqui a minha entrevista a Carlos Bastos na Rádio Renascença:
http://mediaserver2.rr.pt/newrr/Carlos_Fiolhais_Programa1433b420.mp3

sexta-feira, 24 de julho de 2015

António Franco Alexandre



 

 
 
 
 
 
 
Poema de As Moradas (Segunda)

apenas um instante e as coisas mudam-se
umas nas outras enlaçadas,
então ocorre perguntar: porque não começa
a vida? noite após noite, os vastos
entrepostos alcatroados permanecem vazios,
e é possível, de longe, avistar as fogueiras
que a chuva ateia, e debaixo do lodo os corpos
abandonados pela guerra.

o universo, dirás, expande-se
e contrai... mas entretanto
já a folha corrói o desejado,
e a doença do verme anima o verso.
como esperar? são pálidas as bocas
a vídeo no vinil e na placenta,
e se perdeu a vaga parecença
da paisagem.

vamos por aí fora, ao deus dará, vertidos
em rima tosca,
serão sempre horas de partir, de beijar,
de voltar a casa para um jantar de madrugada,
de ir ao cinema pra esquecer, de ficar
solto numa esquina, esquecido,
depois basta deitar fora toda a água parada
e será verão.

 Poema de A Pequena Face

entretanto nos caminhos caminham
máquinas hidráulicas, surpresas
com o ténue destino da terra.
condições as melhores para a pesquisa,

a sondagem da luz, o resultado
do quartzo incandescente,
os símbolos mudos de uma
teoria.

«calculo como asas poderiam
levar no ar um homem, como a água
sustentaria as mais pesadas rochas.

basta uma cola fina como o vento.
um tecido de vidro transparente.
as botas de marfim dos sem-sossego.»

HÁ OUTRAS TERRAS



Meu texto no jornal I de hoje a propósito da "nova Terra" ontem anunciada pela NASA::

Uma das áreas mais excitantes da ciência contemporânea é a procura de vida extraterreste. Há poucos anos era ficção científica mas hoje é ciência. Vida de qualquer forma, mas também eventualmente vida inteligente, andamos à procura de T. Uma das maneiras de procurar indícios de vida longe daqui consiste em detectar planetas extra-solares que se pareçam com o nosso. A Terra está à distância certa do Sol para albergar vida: dizemos que é um planeta habitável. Até hoje já conseguimos registar cerca de dois mil planetas extra-solares, todos eles na nossa Galáxia. 

A missão Kepler da NASA, há seis anos a enviar dados, consiste num telescópio espacial que consegue registar a passagem de um planeta diante de uma estrela, verificando a diminuição da luz desta  (tal como num eclipse do Sol). Cerca de metade dos planetas extrassolares conhecidos foram fotografados pela Kepler.

Agora acaba de ser anunciada a descoberta de mais 500, que naturalmente terão de ser confirmados. O mais notável deles, pelo menos para nós por se parecer mais com o nosso, é o Kepler-452b: está praticamente à mesma distância da sua estrela que a Terra está do Sol e, além disso, tem uma massa cerca de cinco vezes maior do que a da Terra.

Mas há mais: A estrela à volta da qual o Kepler-452b orbita é muito parecida com o Sol, embora um pouco mais velha. Os dados não permitem saber se o novo planeta terá água, que associamos à vida, pelo que o mistério da vida extraterrestre vai continuar a pairar. O eventual irmão gémeo da Terra está longe, mas não muito: à velocidade da luz demorar-se-ia 1400 anos a lá chegar, nada comparado com os 100 000 anos que demora a ir de uma ponta a outra da Galáxia.

Em Portugal, apesar do aperto da ciência nos últimos anos,  vários astrónomos se têm distinguido na caça de planetas extrassolares. Eles, como os cientistas de todo o mundo, estão bastante contentes com esta nova descoberta.  Outras decerto se vão seguir. Estamos mesmo interessados em saber se estamos sozinhos no espaço. Provavelmente não estamos. Pelo menos, a probabilidade é grande de existir vida, na forma que conhecemos ou noutra, no nosso vasto cosmos.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Um novo comentário ao meu post, " Uma tentativa de resposta ao comentário: Nada!" (21/07/2015)


Com  um abraço grato pelo gosto e proveito que desfrutei da sua leitura,  sem qualquer demora ou palavras desnecessárias,   publico este comentário de FMC  com  o destaque merecido e a intenção de não privar os leitores de idêntico gosto e proveito:

“Professor, agradeço a sua resposta apesar de a pergunta ter sido de retórica... O ideal não tem solução real. O Homem não se explica (ou explica-se mal) porque realmente não se compreende, porque idealmente continua a habitar o exterior das coisas e das palavras e porque não faz a menor ideia de onde vem, nem para onde vai. É um fingidor que abrilhanta o opaco sapato do que toca rabecão com um movimento repetidamente repuxado do concetual pano roto, no vaivém superficial das mãos sujas de tinta.
Agradeço também o risco que correu ao ter descido a rua, pedindo emprestado o meu rabecão para sapatear um poucochinho ao ritmo do jazz devolvendo-me virtuosamente à minha condição original... um exemplo do que o João Lobo Antunes chama de “desnatamento” dos casos complexos ou arriscados que poderão perturbar a tranquilidade de uma clínica rotineira ou arriscar a reputação pessoal e profissional do médico.” (in “Inquietação Interminável – Ensaios sobre ética das ciências da vida; Gradiva, pág. 225).

Retomando a centralidade da mesa e retirando da bandeja de prata o que me serviu, confundo-me na etiqueta de não saber que talheres segurar, tal a diversidade de alimentos com que me presenteou. Sem entrar em domínios ontológicos, eis, então, a política... com o Esteves sem metafísica à porta da Tabacaria a apreciar os círculos de fumo que saem da sua boca e a cantar lengalengas de História encadeada sobre a teoria humana de ser humano, percepcionando com estudiosa sistematicidade o fracasso de o SER, faça-se o que se fizer. Professor, quem tinha seis filhos era o Goebbels e a Magda matou-os a todos nos últimos dramáticos momentos.
Posto isto:
“Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”. Talvez... embora a genialidade seja demente e incompreensível para a maioria; a literatura cumpra a beleza anárquica da palavra e do sonho; os cientistas descubram o que sempre existiu na limitação do comprovável; os artistas se enrolem na macieira, ao mesmo tempo que caem do céu, quais anjos expulsos pela inocência, acolhidos para sempre na lucidez, uma luz que seca... Desculpe ter agora depilado o bigode de Nietzsche (piaçaba de Eça) e despojado o homem da superior alternativa de ser super, nesta minha tentativa de perceber o grande desígnio do imóvel e quasimudo Hawking, mas não resisto a puxar a toalha da mesa para ver cair, um por um, todos os pratos e copos que sustentam este cordial banquete.
Ontem, ouvi o Bagão Félix dizer que, se andarmos muito para trás, antes da primordial explosão, decerto encontraremos Deus. Portanto, atrás da explosão, Deus; à frente, nós (com Ele, sem Ele, Ele?). A explosão talvez tivesse violado a fronteira entre o inanimado e o animado, o não-humano e o humano, abrindo um túnel errático de passagem. Ficámos assim, presos a esta identidade de bosão, partícula elementar que medeia as forças (do bem e do mal). A ética não é possível neste clima... Afinal, que ordem cósmica se projeta na mundana? Política não ontológica é um palhaço sem graça. Os erros históricos devem-se à falta de graça. Graça no sentido ontológico do ser.

Um abraço.

FMC”

 

O olhar de Iuri Jivago


Penso que ninguém fica igual depois de contemplar uma obra de arte. Penso, ainda, que isto é particularmente verdadeiro em certos casos...

Um desses casos, um duplo caso, é "O Doutor Jivago": o romance de Boris Pasternak (1956) e o filme de David Lean (1965).

E, sem dúvida, também o olhar, de tamanha profundidade e tristeza, de Omar Sharif.
O olhar é o mesmo, precisamente o mesmo, no livro e no filme.

Omar Sharif é, sim, e para sempre, Iuri Jivago.

HUMOR: SOBRE A NOVA EMIGRAÇÃO


CARL SAGAN: OBRA COMPLETA

Informação recebida da Gradiva:



PORTUGAL EM LISTA DE ESPERA


Novo texto de Galopim de Carvalho:

 A Europa dos ricos e os seus diligentes seguidores em Portugal estão a conduzir-nos, decidida e deliberadamente, no caminho do empobrecimento económico e também, estupidamente, no do definhamento científico e cultural. Tudo isto sob a magistratura conivente de um Chefe de Estado que, há muito, deixou de ser o Presidente de todos os portugueses.

Estamos a assistir ao retrocesso económico, social e cultural imposto por uma cada vez menos União Europeia, em afastamento do ideal que a concebeu e, hoje, um mais do que evidente logro da esperança que assinámos a 12 de Junho de 1985, fez agora trinta anos. Em obediência subserviente às directrizes alemãs, o neoliberalismo cego do PSD (traidor do pensamento e da prática social democrata que lhe deu nascimento), amparado nesta muletazinha conhecida pela sigla CDS-PP, tomou conta dos nossos destinos, vai para quatro anos, num retrocesso declarado das conquistas nas condições do trabalho, na segurança social, nos cuidados de saúde, na ciência, no ensino e no apoio à cultura conseguidas na vivência em democracia que se seguiu à Revolução dos Cravos.

O discurso da coligação que nos governa, já em plena campanha eleitoral e, como em 2011, assente na mentira descarada, não pode fazer esquecer a destruição sistemática que tem vindo a fazer destas conquistas que vemos fugir da nossa vida colectiva como areia por entre os dedos.

Ao longo de governos anteriores fomos perdendo parte significativa da independência nacional e assistimos à asfixia e destruição de muitas das nossas valências económicas. Nos dias de hoje são cada vez mais os nossos concidadãos a viverem tempos de miséria e, até, de fome, cada vez maior o número de ricos e cada vez maior a sua riqueza. A corrupção instalou-se, impune, a todos os níveis do espectro político e financeiro. É confrangedor o desumano abandono dos idosos, a chamada classe média continua a afundar-se e o desemprego tornou-se uma realidade dramática dos que já não conseguem encontrar um posto de trabalho, constituindo um incentivo crescente à igualmente dramática emigração de uma juventude que a democratização do ensino qualificou a níveis nunca antes conseguidos.

São muitos a dizer que a seguir à Grécia estamos nós.

António Galopim de Carvalho

quarta-feira, 22 de julho de 2015

DESONESTIDADE


Já nada me admira neste país actualmente sem rumo. Ouço na rádio o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, num auto-elogio próprio da campanha eleitoral a gabar a sua política de ciência. Referiu até num hipotético acréscimo de meios que teria havido no seu mandato.

Já sabíamos que muitos políticos mentem e que Crato passou em quatro anos de um prestigiado cientista e divulgador de ciência a um vulgar político dos muitos que há por aí a dizer coisas. De facto, como tem sido amplamente demonstrado, ele deixa a ciência muito pior do que a recebeu das mãos de Mariano Gago.

Abateu centros de investigação e cortou bolsas, após processos de "avaliação" indignos e por isso largamente contestados (em várias instâncias, incluindo os tribunais; o processo está longe de ter terminado). A actuação do ministério não é apenas de desonestidade intelectual mas também de desonestidade material.  As leis da República foram atropeladas para que só um certo grupo, de tamanho definido à partida por um viés inexplicado e inexplicável, pudesse ser mantido. Chegou-se a tirar meios públicos do sector público para os dar ao sector privado.

As palavras do ministro de uma coligação avessa à ciência, ditas aliás num atropelo próprio da demagogia, ficam apenas como uma tentativa falhada de justificar o  injustificável.

Em breve Nuno Crato passará à história da educação e ciência nacional, ocupando um lugar nos antípodas da proeminência. Por acção e inacção Crato conseguiu a proeza de ser um mau ministro da educação e um péssimo ministro da ciência, o pior de sempre.

OS PRIMEIROS RAIOS INVISÍVEIS


Neste Ano Internacional da Luz, mais um texto meu de divulgação sobre a luz que saiu no último As Artes entre as Letras (na imagem William e Caroline Herschel):

Quando a leitora ou leitor muda o canal televisivo ou aumenta o volume de som da emissão com a ajuda de um controlo remoto está a usar uma forma de luz invisível que é conhecida por luz ou radiação infravermelha. Esta luz comporta-se como a luz visível, pelo que o portador do controlo remoto terá de estar em linha de visão com a televisão. Mas pode não estar, usando um truque: tal como a luz visível também a luz infravermelha se reflecte num espelho, sendo por isso apenas necessário que o espelho esteja em linha de vista com a televisão. A leitora ou leitor pode, portanto, experimentar uma simples experiência de óptica que consiste em desligar um desinteressante programa de televisão sem sequer se dignar sequer olhar para o ecrã.

A luz infravermelha foi a primeira luz invisível a ser descoberta. Corria o ano de 1800 e o autor da façanha foi um astrónomo anglo-germânico (nascido em Hannover, na Alemanha, mas emigrado em Inglaterra) chamado William Herschel (1738-1822). A experiência que revelou os infravermelhos foi realizada na pequena cidade de Slough, algumas milhas a oeste de Londres. Não admira por isso que aí o visitante encontre hoje uma futurista estação de camionetas, com um tecto de alumínio ondulado, que logo associa às ondas de luz. O dispositivo é extraordinariamente simples: um prisma causa o aparecimento do arco-íris, tal como o inglês Isaac Newton tinha feito, e um conjunto de termómetros serve para medir a temperatura das várias cores do espectro. Ora, Herschel verificou que a temperatura ia subindo quando se passava do violeta para o vermelho, atingindo o máximo no vermelho. Um termómetro colocado fora da zona colorida servia para controlo. Mas Herschel admirou-se muito justamente quando verificou que este termómetro de controlo, quando colocado perto da zona vermelha mas fora do espectro, revelava uma subida de temperatura ainda maior do que se verificava no vermelho. Havia pois uma forma de luz ou radiação que, apesar de invisível, tinha propriedades térmicas semelhantes mas ainda superiores às da luz vermelha. A tentação de medir do outro lado do espectro, perto do violeta, era imediata, mas Herschel nada achou de relevante. Foi um outro cientista contemporâneo de Herschel, o químico alemão Johann Wilhelm Ritter (1776-1810, morreu com a idade de Cristo), amigo de Johann Wolfgang von Goethe e de Alexandre von Humboldt, quem encontrou em 1801 a luz ou radiação ultravioleta, após ter ouvido falar da descoberta de Herschel. Sabendo que o cloreto de prata era particularmente sensível à luz azul, ficando preto, experimentou colocá-lo perto da cor violeta do espectro: observou que ficava ainda mais preto. Ritter chamou a esta nova forma de luz raios químicos, mas raios ultravioletas foi o nome que acabou por vingar. O cloreto de prata ainda hoje é usado no papel fotográfico.

Em resumo, logo no início do século XIX, quando despontava o romantismo, emergiram as duas primeiras formas conhecidas de raios de luz invisível: os infravermelhos e os ultravioletas. Hoje usamos os infravermelhos, para além dos comandos de televisão, em câmaras que servem para ver no escuro, em termómetros,  na análise de obras de arte, em lâmpadas para aquecer os alimentos, etc. Por seu lado, os ultravioletas, para além da fotografia, usam-se na detecção de notas falsas, na impressão de circuitos digitais, na esterilização e desinfecção, em certas formas de terapia dermatológica, etc.

Vale a pena contar um pouco da biografia de William (ou Wilhelm) Herschel, uma vez que ele foi, além de físico, um notável músico e um extraordinário astrónomo: alguns consideram-no mesmo o criador da astronomia moderna. Herschel, que era filho de um músico da Guarda de Hannover, cedo aprendeu música. Aos 18 anos mudou-se, por iniciativa do seu pai, para Inglaterra. Aprendeu também a tocar violino, cravo e órgão. Tornou-se organista numa capela da cidade termal de Bath, onde hoje a casa que habitou com a sua irmã Caroline pode ser vista convertida que foi em Museu de Astronomia. Tendo começado uma carreira musical (era o tempo do austríaco Joseph Haydn, que também passou do continente europeu para Inglaterra), tornou-se compositor, sendo hoje conhecido como autor de 24 sinfonias e numerosos concertos, para além de música religiosa. Não podendo competir com Haydn no génio musical, o certo é que ainda hoje se tocam e gravam composições de Herschel.

Mas Herschel é sobretudo recordado como astrónomo. Tendo hesitado entre uma carreira de músico e de astrónomo, a sua paixão pelas estrelas acabou por levar a melhor. Na astronomia, o feito que lhe deu a glória foi a descoberta do planeta Úrano, o primeiro a ser detectado após os seis planetas conhecidos desde a Antiguidade. Herschel deu-lhe o nome de “estrela de George”, em homenagem ao rei George III, mas mais tarde ficou com o nome actual. Herschel, que trabalhou em conjunto com a sua irmã Caroline (ela foi a primeira mulher a receber um salário de trabalho científico), fez muito mais descobertas nos céus: catalogou numerosas estrelas binárias e nebulosas, descobriu novas nuvens no sistema solar, cunhou o nome “asteróides”, contou manchas solares procurando correlacionar a actividade solar com o clima terrestre (para isso serviu-se dos preços do trigo, colectados por Adam Smith) e descobriu que o Sol se move relativamente a outras estrelas.

Há uma história curiosa passada entre os irmãos Herschel e o português João Jacinto Magalhães, um dos nossos estrangeirados, quando este os visitou. Depois de os ter acompanhado na observações astronómicas, Magalhães foi-se deitar pela meia noite. Quando se levantou verificou que os dois astrónomos continuavam, em vigília, a ver os céus. Numa carta a Volta escreveu o português: “Quelle  espece  ardeurAlguns autores invocam este dito de Magalhães para afirmar que ele não seria um verdadeiro cientista, mas sim e apenas um interlocutor de cientistas. Mas foi não só um interlocutor como um amigo de grandes cientistas.

O MAR E O ESPAÇO


Meu texto, a propósito da História Trágico-marítima, inserto no manuel de Português do 10.º ano da Tetxo Editores: "Mensagens", de Célia Cameira, Fernanda Palma e Rui Palma: 

Hoje, quando astronautas viajam permanentemente em órbita da Terra, convém recordar que a primeira era de exploração e descoberta foi protagonizada por portugueses e espanhóis, nos séculos XV e XVI, quando eles chegaram por mar ao Brasil, à América do Norte e ao Oriente.

Os portugueses foram pioneiros na extraordinária ousadia que é necessária para se encontrar novos mundos. Para conhecerem o desconhecido, tiveram de deixar não só as suas famílias mas também tudo o que lhes era familiar. Tiveram, em muitos casos, de deixar a vida: no início dos Descobrimentos, dois em cada três homens morriam na viagem. No meio do mar imenso, que sofregamente “comia” os barcos, os sobreviventes ficaram a saber que a linha entre a vida e a morte era bastante ténue. Os navegadores, para irem mais além no mar, tiveram acima de tudo de irem além de si próprios. Escreveu Fernando Pessoa no poema Mar Português: Quem quer passar além do Bojador / Tem de passar além da dor. A experiência foi dolorosa, mas o certo é que esse e outros cabos foram passados, tendo o mundo ficado maior.

A História Trágico-Marítima conta-nos, como numa reportagem em directo, como os barcos eram, nessa época, engolidos pelo oceano ou, como acontece nesta história de Jorge de Albuquerque Coelho, numa viagem na nau Santo António entre o Brasil e Portugal, como os marinheiros passavam enormes provações para sobreviver. Não era apenas a fúria dos elementos que causava a morte, era ainda a cobiça dos corsários, que, com artilharia bem apontada, podiam ser piores do que a Natureza.

Na recente era espacial saímos da superfície do nosso planeta, elevando-nos em direcção ao espaço. Mas, hoje como outrora, apesar de a ciência nos ter enchido a mão de instrumentos (as telecomunicações, o radar, o GPS), a aventura não pode ser feita sem consideráveis riscos, exigindo por isso aos aventureiros as mesmas qualidades que antigamente. Está nos nossos dias a ser escrita uma história trágico-espacial. Em 1967 o astronauta soviético Vladimir Komarov era a primeira vítima no espaço ao morrer, no regresso da Soyuz I a Terra. E, em 1986 e 2003, explodiam dois vaivéns espaciais norte-americanos, o Challenger e o Columbia, um à partida e outro à chegada, ceifando de cada vez sete vidas. Era o ar que engolia as naves, em vez de ser o mar. Mas, tal como antes, os desastres não diminuíram a vontade de conhecer o desconhecido. Aprendendo com os desastres, os vaivéns voltaram ao espaço.

O astronauta  da NASA John Phillips, que protagonizou duas missões a bordo dos vaivéns, declarou: "[No passado] Navios perderam-se e pessoas corajosas morreram, mas isso não implicou que não voltássemos a essas partes do mundo.  Passar-se-á o mesmo com a exploração espacial." Ontem no mar, hoje no espaço, a grande aventura humana, que consiste afinal em irmos além de nós próprios, continua.

Uma tentativa de resposta ao comentário: "Nada"!


Atingir o ideal é compreender o real” (Jean Jaurès).

Pelo interesse do comentário de FMC ao meu post,  “O circo funambulesco das pedagogias alternativas” (20/07/2015)”,entendi chamar a atenção para a respectiva leitura (que recomendo vivamente), correndo eu o risco em deslustrar o respectivo brilho pela opacidade do verbo desta minha resposta. 

Corro esse risco! Começo por dizer que o nome do  comentário (“Nada”) está desajustado. Se me é permitida a sugestão, pelo número de questões nele levantadas, profundidade dos temas questionados e sua complexidade, sugiro este título: “Tudo”.

Assim, logo de início, a questão posta é: “Qual o Homem que queremos construir  e com que objectivo supremo”?  Sem entrar em domínios ontológicos, para não assumir o papel de sapateiro que toca rabecão (embora pudesse encontrar arrimo em Huxley: “A metafísica!... Num deserto de ideias, um dilúvio de palavras”), entendo ser objectivo, essencialmente, de natureza política. A sociedade comunista tinha um objectivo; a sociedade hitleriana outro; Portugal Salazarista outro; Portugal logo após o 25 de Abril outro; Portugal do tempo de Nuno Crato  outro. Repare-se que o insuspeito Francisco de Sousa Tavares (um homem de Abril) não hesitou em escrever criticamente: “Estamos a formar não um país de analfabetos, como até aqui, mas um país de burros diplomados”.

Depois, entrando em domínios freudianos, em tempos em que era convidado para fazer palestras sobre Educação desculpava-me da subjectividade do tema com as costas largas do fundador da psicanálise. Uma vez interpelado  por uma mãe angustiada sobre a melhor forma de educar o filho, respondeu: “Minha senhora, faça o que fizer fará sempre mal!”

Batendo à porta da Pedagogia, ocorre-me a história de um  pedagogo  que dizia, citando-o de memória: “Dantes tinha seis teorias sobre Educação e nenhum filho, hoje tenho seis filhos e nenhuma teoria!”

Mas vejamos, agora, o desencanto de Platão sobre a Educação do seu tempo quando confrontado com a incapacidade das crianças distinguirem os números pares dos números ímpares, dizia: “Quanto a mim, parecemo-nos mais com porcos  do que com Homens e sinto-me envergonhado não só de mim, mas de todos os gregos”. 

Avancemos séculos e ouçamos Nietzsche: “E assim cheguei até vós, ó homens de hoje, e ao país da educação. E o que me aconteceu? Não obstante toda a minha ansiedade, tive de rir. Nunca os meus olhos tinham contemplado algo tão manchado e heterogéneo”.

Admirador confesso de Eça, de minha leitura de mezinha de cabeceira, não podia deixar de o evocar com esta citação que subalterniza a cultura, lato sensu, a costumes fúteis (ontem como hoje?): “Uma nação vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas. Isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reluzir as comendas e assolhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.

A Educação é um fenómeno social de real importância em que se devem preparar os jovens de hoje para amanhã - um amanhã onde o avanço da Ciência e das novas tecnologias se renova todos os dias - sem que os próprios educadores saibam qual ele venha a ser! Isto é, já lá vai o tempo em que a Educação era um saber estabilizado transmitido de geração em geração.

“A única forma de prevermos o futuro é ter poder para formar o futuro”, como escreveu Eric Hoffer. E saberemos nós utilizar um poder para  qual não estamos preparados? Vazio de soluções sobre o desafio que me é feito sobre se tenho alguma ideia sobre “o papel da escola neste refazer do Homem”, sinceramente, respondo: Não”!

Sinto-me, muito sinceramente, perdido num verdadeiro labirinto de Creta sem o fio de Ariadne que me indique o caminho da saída.

Na imagem: Nietzsche (citado no texto)


P.S. : Acabo de rectificar o último parágrafo do meu texto que estava  redigido, parcialmente, da forma seguinte: "Sinto-me, muito sinceramente, perdido num verdadeiro la"(...)

terça-feira, 21 de julho de 2015

O direito das crianças à sua própria imagem

“Na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”.
Esta declaração é de um colectivo de juízes do Tribunal da Relação de Évora que, no julgamento de um caso real, felizmente reafirmaram que "proteger a imagem dos filhos é uma obrigação dos pais, e que os menores não são pertenças dos progenitores, mas pessoas com direitos, onde se inclui o direito à imagem" (Ver aqui).

O conteúdo é absolutamente óbvio, mas as múltiplas evidências sugerem que é preciso reafirmá-lo e explicá-lo. Ainda assim, poucos o entenderão. Efectivmente, não são apenas certas famílias, com destaque para os pais, que divulgam fotografias e dados biográficos e do quotidiano dos seus filhos, é também a generalidade das escolas e alguns professores.

Abra o leitor a página online de uma qualquer escola pública e verá que, infelizmente, talvez só a via legal poderá travar o abuso de que as crianças e jovens são vítimas. Vítimas que, não sendo educadas para questões de privacidade, nem em casa nem na escola, poderão replicar, no futuro, o abuso.


RÓMULO e Ciência Viva no Verão em Rede 2015



No âmbito do Ciência Viva no Verão em Rede 2015promovido pela Rede Nacional de Centros Ciência Viva, tirando partido da sua proximidade às populações e às organizações locais mais dinâmicas e para consolidar o seu papel na promoção da cultura científica na sociedade portuguesa, o RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra leva a ciência à rua com oficinas orientadas por jovens cientistas com o nome genérico de "Ciência na Rua". As próximas oficinas decorrem entre 22 a 24 de Julho de 2015.

Data: 22 de Julho de 2015
Hora: 10:00 - 13:00
Local: Café Santa Cruz, na Praça 8 de Maio - Coimbra
Oficinas orientadas: 
                                 - Porque é que a lua tem manchas?
                                 - Piões coloridos
                                 - Vês-me, ou não?


Data: 23 de Julho de 2015
Hora: 10:00 - 13:00
Local: Café Santa Cruz, na Praça 8 de Maio - Coimbra
Oficinas orientadas: 
                                 - Que horas são? (construção de um relógio de sol)
                                 - Padrões com lápis de giz


Data: 24 de Julho de 2015
Hora: 14:00 - 17:00 (horário alterado)
Local: Café Santa Cruz, na Praça 8 de Maio - Coimbra
Oficinas orientadas: 
                                 - Forno solar (faça o seu pão)
                                 - Música aquática

*Destinadas ao público em geral, as oficinas "Ciência na Rua", orientadas por jovens cientistas,  proporcionam ao público o contacto com cientistas que esclarecem as suas dúvidas em ambiente descontraído.

Entrada Livre e Gratuita