THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

sábado, 20 de dezembro de 2014

Três novas publicações de Classica Digitalia

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 3 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Annablume (São Paulo).

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço direto é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre.

Série “Autores Gregos e Latinos” [Textos]

- Maria de Fátima Silva: Teofrasto. Caracteres. Tradução do grego, introdução e comentário (Coimbra e São Paulo, IUC e Annablume, 2014). 141 p.
URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/176
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0900-3
PVP: 12 € / Estudantes: 9 €

- Reina Marisol Troca Pereira: Plauto. A Comédia do Fantasma (‘Mostellaria’). Tradução do latim, introdução e comentário (Coimbra e São Paulo, IUC e Annablume, 2014). 137 p.
URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/177
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0896-9
PVP: 12 € / Estudantes: 9 €

- Reina Marisol Troca Pereira: Plauto. As três moedas ('Trinummus'). Tradução do latim, introdução e comentário (Coimbra e São Paulo, IUC e Annablume, 2014). 121 p.
URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/178
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0898-3
PVP: 12 € / Estudantes: 9 €

Em nome da equipa editorial, a todos desejo excelentes festividades natalícias e promissoras entradas em 2015.

Delfim Leão
(Classica Digitalia)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Céptico positivo na TEDxFCTUNL

A minha intervenção na TEDxFCTUNL:

A CRISE DA CIÊNCIA É O FACTO DO ANO NESTA ÁREA PARA O EXPRESSO



A crise na ciência em 2014 começou com os cortes brutais nas bolsas (cerca de 30%) e continuou com cortes ainda mais brutais nas unidades de investigação (cerca de 50%)

Ver http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/18-12-2014/caderno-1/temas-principais/03_TP-REvista-do-Ano-Ciencia

Na foto: bolseiros em protesto. .

O DONO DISTO TUDO


Leia-se hoje no Público artigo de Teresa Firmino sobre o absurdo das quotas da FCT na "avaliação" das unidades de ciência nacionais: aqui.

Quando saírem as classificações, a maioria dos investigadores portugueses, quer tenham ou não sido devidamente reconhecidos neste simulacro de avaliação, não perdoarão ao ministro da Educação pelo défice de investimento na ciência: a actual gestão da FCT pretende diminuir de forma drástica a ciência nacional. Nuno Crato, com o alto patrocínio de Pedro Passos Coelho, mandou executar a "poda" de António Coutinho, que nos meios científicos já é conhecido, justa ou injustamente, por "o dono disto tudo".

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Parabéns Professor Galopim!


Parabéns ao nosso companheiro de blogue António Galopim de Carvalho, que acaba de receber mais uma homenagem: a atribuição do seu nome a uma escola básica de Évora: ler aqui.

UMA CONVERSA SOBRE DIPLOMACIA CIENTÍFICA

Uma conversa que tive com Sónia Arroz, que completou há dias a sua tese de mestrado sobre Diplomacia Científica, no ISEG- Lisboa:

P- Que importância atribuir à Diplomacia Científica na visão tecnológica e inovadora para o seu país e para a instituição onde desenvolve o seu trabalho?

 R- Confesso não conhecer bem o conceito. Mas, sendo a ciência e a tecnologia empreendimentos internacionais, funcionando elas através de redes internacionais, parece-me óbvio que as relações entre os países devem incorporar essa componente. Os governos, de uma maneira ou de outra, já o fazem. Agora parece-me também óbvio que o podem fazer muito mais. O nosso governo, para quem a ciência não me parece ser uma prioridade, pode em particular fazê-lo muito mais. Os ministérios da Educação e Ciência e dos Negócios Estrangeiros podem trabalhar muito mais em conjunto do que fazem hoje. A este respeito lembro que o Palácio das Necessidades, sede dos Negócios Estrangeiros, já foi uma moderna escola de ciências, a meio do século XVIII, quando estava ocupada pelos Oratorianos. Mas ouço falar de atrasos no pagamento de quotas de instituições internacionais em que Portugal participa. E, para além disso, da falta de suficiente apoio nacional nesses processos de cooperação. O sistema científico nacional alargou-se muito nas últimas décadas, internacionalizando-se em larga escala, e esse é um caminho em que não deveria haver recuos. Infelizmente há recuos

 No que respeita à minha instituição – a Universidade de Coimbra – ela está bastante internacionalizada, em particular na Europa e no Brasil. O seu nome é bem conhecido lá fora, até devido ao seu longo passado. Tem um importante número de alunos estrangeiros, muitos em cursos de ciência e tecnologia, que pretende agora aumentar através do Estatuto do Aluno Estrangeiro, dirigindo-se em particular ao Brasil e à China. O Ministério dos Negócios Estrangeiros bem poderia diligenciar no sentido de promover esta e outras Universidades nacionais, atraindo alunos. Estaria com isso a atrair o que poderíamos chamar “investimento estrangeiro” em Portugal. Faço notar, no entanto, que o Ensino Superior e a Ciência estão desligados, afectos como estão a duas Secretarias de Estado que não comunicam bem uma com a outra. As Universidades portuguesas vêem os seus centros de investigação tutelados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT com evidente prejuízo da noção de autonomia universitária. Diria até que que a FCT tem uma ingerência intolerável na vida universitária portuguesa. Sendo assim, os esforços de “diplomacia científica” da Universidade parecem correr ao lado e não estar em sintonia com os esforços do mesmo tipo do governo. É uma pena que não haja a necessária convergência.

P-  Que objetivos normalmente se associam à ação da Diplomacia Científica?

R-  O objectivo de qualquer esforço diplomático consiste em promover relações de cooperação internacional, evitando e minimizando as tensões que sempre existem entre países diferentes. A ciência só pode ajudar a esse processo. Lembro, por exemplo, que em grandes instituições internacionais como o CERN, Laboratório Europeu de Pesquisas Nucleares, vemos cientistas de diferentes nacionalidades e culturas que estão irmanados nos processos de descoberta científica. A ciência é sempre um esforço cooperativo, que sempre se mostrou capaz de ultrapassar conflitos potenciais ou reais. Vejo a ligação entre ciência e de diplomacia de modo biunívoco: a ciência pode informar e ajudar a diplomacia, ao passo que a diplomacia pode informar e ajudar a ciência. Direi até que nos tempos modernos dificilmente se poderão imaginar ciência e diplomacia uma sem a outra.

P-. Identifique casos de sucesso e insucesso de Diplomacia Científica que conheça.

R-  Já referi o CERN, que resultou no pós-guerra de um processo em que a UNESCO e, portanto, as Nações Unidas intervieram. Mas pode-se referir a cooperação espacial internacional: as missões conjuntas dos EUA e da Rússia, como a Estação Espacial Internacional, com grande impacto mediático. Na Europa fala-se muito do Espaço Europeu de Ciência, mas penso que ainda não se atingiu um nível desejável de cooperação. O problema da Europa é a falta de união política, que se reflecte nos vários sectores da actividade europeia. No que respeita a Portugal parece-me que muito há a fazer, através da diplomacia científica, na cooperação com os PALOPS. Mais uma vez trata-se de uma união politicamente frágil, no qual o papel português é relativamente apagado, como mostrou a recente adesão da Guiné Equatorial. ´

P- Em Portugal quando, como e quem, exerce Diplomacia Científica?


R-  A diplomacia científica ainda é uma expressão pouco usada. Basta ir à Wikipédia e ver que não há tradução no nosso idioma do verbete em inglês. Mas, como disse, esse papel deveria caber conjuntamente aos Ministérios da Educação e Ciência e dos Negócios Estrangeiros, com uma palavra também do Ministério da Economia, que tem procurado e tido algum protagonismo na atracção de investimento estrangeiro.

P- Quem deverá exercer essa função? Um diplomata, um cientista, outro…? ´


P- Diplomatas que saibam ou aprendam alguma coisa de ciência. Ou cientistas que saibam ou aprendam alguma coisa de diplomacia. Faz aqui falta o aprofundamento da cultura científica, isto é, a ligação da ciência com a sociedade. A ciência não é uma ilha: relaciona-se com a educação, a economia, a saúde, a justiça, etc. Mas também com o que tradicionalmente se chama Negócios Estrangeiros. Foi no século XVIII, no tempo da Royal Society, dos Oratorianos e dos Jesuitas, que a ciência, através das sociedades científicas e das ordens religiosas, se tornou um empreendimento à escala internacional como é hoje. E foi nessa época do Iluminismo que a noção de cultura científica ganhou consistência. Lembro só que cerca de metade dos sócios portugueses do Royal Society foram homens de Estado e diplomatas (entre eles o Marquês de Pombal, mas também o Duque de Lafões, membro da família real, que viria a fundar a Academia das Ciências de Lisboa)

P-  Que competências e/ou orientações deverão ter um ator de Diplomacia Científica, para uma ação mais eficiente?

R-  Julgo que tem de saber de relações internacionais e ter a noção de ciência ue a cultura científica proporciona. E, claro, a experiência ajuda.

P-  Que paralelo encontra entre a sua atividade profissional e a ação de um “diplomata de ciência”?

R-  Já nem falo da minha actividade científica, que tem uma componente internacional. As relações de intercâmbio no plano da ciência são sempre enriquecedoras não só para os directamente envolvidos, mas também para os países que estão em jogo. Falo antes de uma parte da minha actividade profissional que tem sido a promoção a cultura científica. A FCT acabou com a área de “promoção da ciência”, minimizando a cultura científica. Mas a Agência Ciência Viva, com a qual colaboro, tem sabido promover a ciência e a tecnologia, com uma grande ligação internacional (bem visível na actual Presidência do ECSITE). Aceitei ser o coordenador em Portugal pelo Ano Internacional da Luz 2015 – uma iniciativa das Nações Unidas, com o apoio da Ciência Viva, que vai, em torno de um tema unificador, ligar países de todo o mundo. Vamos, metaforicamente claro, tentar trazer mais alguma luz ao mundo...


UNIVERSO VAZIO, COELHOS BRANCOS E OUTRAS HISTÓRIAS DE CIÊNCIA

O Observador anunciou com o título de cima  o último livro de António Piedade, "Íris Científica 2": aqui.

Transcrevo declarações que fiz aquele jornal que não chegaram a tempo de serem publicadas na pelça.
1. Como descreve António Piedade enquanto comunicador de ciência?

António Piedade é um excelente comunicador de ciência. Bioquímico de formação tem-se dedicado a essa actividade praticamente a tempo inteiro, dando o melhor de si, quer através de artigos, quer  de livros quer ainda de palestras. Destaco o seu papel na escrita de artigos de ciência para a imprensa regional, numa iniciativa do Ciência Viva, uma das actividades mais inovadores de divulgação científica entre nós. Muitos jornais regionais, por vezes paroquiais mesmo,  têm publicado os seus sempre oportunos contributos.  O António tem colaborado comigo na difusão da ciência: pertence ao colectivo do De Rerum Natura, o blogue português de ciência e cultura científica, com mais de 2500 leitores diários e, no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, tem organizado ciclos de palestras de outros divulgadores, como aconteceu com um recente em que entre outros Jorge Buescu e David Marçal foram convidados.
2. Qual a sua opinião sobre este livro em particular?

Depois do êxito de "Íris Científica 1", que tem sido utilizado por muitas escolas, o "Íris Científica 2" reúne algumas das melhores crónicas sobre ciência do António. A sua escrita está cheia de analogias que ajudam a prender o leitor. Aqui e ali chega a ter um tom poético, mostrando  que ciência e arte se podem cruzar com proveito para ambas as partes. Vou apresentar esse livro com todo o gosto no Rómulo. O livrinho é uma bela e barata  prenda de Natal para quem gosta de ciência.

           3-  Este tipo de livros contribuem para o aumento da literacia científica? Porquê?

Portugal continua a  ter um défice de cultura científica, apesar da maior atenção prestada à ciência pelos media nas últimas duas ou três décadas. A cultura científica passa completamente ao lado do actual governo, o que não pode deixar de ser estranhado uma vez que o ministro Nuno Crato cultivou essa actividade no passado. Quem o viu e quem o vê... A cultura científica tal como a história da ciência foram das primeiras áreas a ser cortadas neste insensato abandono da ciência. O ministro já soube mas esqueceu-se que não pode haver ciência sem apoio da sociedade à ciência e esse apoio exige uma maior literacia  da população. Livros como os do António Piedade contribuem decerto para isso.

Nota: O autor envia livros autografados pelo correio. Para isso solicite o seu exemplar pelo email apiedade@ci.uc.pt

Ciência e Inovação em Portugal

Meu artigo saído hoje no jornal I:


A ciência é, hoje em dia, indissociável da inovação, isto é, da transformação da sociedade. Ela tem impacto nas nossas vidas através de descobertas e invenções que ficam à disposição de todos. Na nossa civilização global, a ciência está por todo o lado: na saúde (a longevidade hoje é maior graças a avanços científicos), nas comunicações, nos transportes, na energia, etc. O impacto da ciência nas nossas vidas está, porém, longe de se restringir a aspectos materiais: a ciência é, primeiro que tudo, saber e, portanto, cultura.

Em Portugal, que beneficia da ciência que é feita por todo o mundo, também se faz ciência e inovação. Mas o esforço nesse sentido numa escala razoável é recente. Só desde há vinte ou trinta anos é que cresceu substancialmente o número de investigadores e o número de artigos científicos e protótipos tecnológicos. E só desde então cresceu a cultura científica, sem a qual a ciência dificilmente pode existir. A entrada da ciência nas empresas é ainda mais recente, apesar de haver alguns bons exemplos anteriores. Foi o estabelecimento de políticas públicas favoráveis à ciência e tecnologia que permitiu colocar Portugal no mapa da ciência. O nosso país subiu extraordinariamente nos rankings da ciência e tecnologia, tendo abandonado a cauda da Europa. Hoje, olhando para uma série de parâmetros, não estamos ainda na média europeia, mas estamos bem mais perto do que estávamos quando entrámos na União Europeia. De facto, foi a ajuda europeia que possibilitou essa escalada. Mas houve também a visão política de mobilizar uma parte ainda que diminuta dos financiamentos europeus em favor da ciência.

Estamos, sem dúvida, melhor do que estávamos. Mas devemos ter a ambição de querer mais, quer dizer, de atingir e até ultrapassar a média europeia. Impõe-se, por isso, uma reflexão sobre o estado da nossa Ciência e Inovação, assim como uma tentativa de prospectiva. Questões actuais são a avaliação do sistema científico-tecnológico, a ligação da ciência ao ensino superior, a ligação da ciência à economia (ligada de perto à questão do emprego científico) e a cultura científica. Subsistem problemas em todos essas vertentes: a recente avaliação da FCT está longe de ser perfeita, o ensino superior precisa de renovação, as empresas nacionais não albergam suficiente ciência (até porque empregam poucos cientistas) e a cultura científica deixa entre nós a desejar.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) tem por missão estudar Portugal, em particular a sua evolução recente com base em indicadores, como os que estão reunidos na PORDATA. A FFMS vai em breve anunciar o do estudo Ciência e Tecnologia em Portugal, 1995-2011: métricas e impactos, que mostra comparações internacionais em complemento de A Ciência em Portugal, um dos ensaios da Fundação. Aprofundando o debate em torno da ciência, a FFMS continuará em 2015 o seu ciclo de Conferências  de Ciência na sequência das que organizou na Universidade do Porto em 2013 e na Universidade de Lisboa em 2014, respectivamente com o Prémio Príncipe de Astúrias Pedro Echenique e o Presidente da Royal Society Paul Nurse. Interessa também à FFMS analisar a transferência de conhecimento científico para as empresas, para o que apoiará projectos nessa linha. Como entra a inovação nas empresas? Empresas inovadoras são, de facto, empresas mais bem sucedidas do ponto de vista económico? Como é a dinâmica, em casos exemplares, entre ciência e cconomia? Sendo também pertinente estudar a cultura científica da população, está já em curso um mini-estudo sobre esse tema: Que níveis de cultura científica existem em Portugal em comparação com outros países? Onde obtêm os cidadãos informação sobre assuntos científicos?  Por último, a FFMS gostaria de congregar numa plataforma os cientistas portugueses espalhados pelo mundo e de os convidar ao debate sobre o futuro da ciência e do país. Não é só a ciência que nos salva, mas sem o apoio constante da ciência estaremos perdidos.

Carlos Fiolhais

 Responsável pela área do Conhecimento na Fundação Francisco Manuel dos Santos

Cérebro e Leitura de Teresa Silveira – 2ª edição


Texto recebido do nosso leitor Augusto Kuettner de Magalhães:
Já saiu a segunda edição  do livro de Teresa Silveira, Cérebro e Leitura (Bloco Editora), muito necessária até por ter havido problemas com a primeira edição. É mais um dos livros que devem ser lidos neste tempo em que há tão pouca leitura, pelo menos completa, de livros.
O livro reflecte  sobre  a necessidade que todos termos de continuar a ler livros, ou começar a fazê-lo de modo regular caso ainda o não façamos. Decerto em casa, em família ou sozinhos, em vez de ver reality shows. O Cérebro a Leitura  de Teresa Silveira ajuda a:
 - Compreender os fundamentos neurocognitivos para compreender o comportamento do leitor no processo educativo.
- Reflectir, recorrendo a dados vindos das neurociências, sobre as potencialidades, mas também algumas limitações, da intenção de “educar” o gosto da leitura.
Assim, este livro de uma jovem autora ensina como se lê, abrindo o apetite à leitura.  O cérebro "trabalha" quando se está a ler.
Leia-se, além deste Cérebro e Leitura, por poderem ser de grande ajuda para as nossas vidas, dois livros de psiquiatras: de Daniel Sampaio O Tribunal é o réu - as questões do divórcio e de José Gameiro Até que consigas voar. E leiam-se outros livros, para podermos pensar melhor.
Augusto Küttner de Magalhães

CRATO, NOGUEIRA E A GREVE DE AMANHÃ



Nuno Crato desceu em pouco tempo de ministro mais amado para ministro mais detestado. Ele próprio foi o responsável por essa descida ao defraudar as expectativas nele depositadas. Lembre-se que ele foi levado aos ombros ao ministério pelos professores que agora, pasme-se, até já o comparam desfavoravelmente com Maria de Lurdes Rodrigues. O ministro da Educação (ele desistiu de ser ministro da Ciência e não merece esse nome) insiste todos os dias em descer mais baixo no apreço dos eleitores. Muito mal acolitado no ministério, insiste agora na realização de uma prova para professores que é inútil.  Sou dos que pensam que deve existir um processo de selecção dos melhores professores, o que hoje não é feito, mas a prova que o ministro inventou, com a cumplicidade executiva do IAVE (ex-GAVE, mas idêntico ao GAVE, só mudou o nome), não passa de um teste psicotécnico rudimentar que se destina a eliminar dos concursos uma meia dúzia de jovens. Também há uma redacção, além do referido teste, mas a ideia de eliminar pessoas com base no não cumprimento do acordo ortográfico é ignomiosa.

Um jornal económico nacional já colocou nas setas para baixo Nuno Crato e Mário Nogueira, um ao lado do outro. Amanhã provavelmente vão estar de novo equivalentes.  E assim vai a educação nacional, ignorando os verdadeiros problemas.

A LINHA DA LOUSÃ E O METRO DE COIMBRA


Há dias o primeiro-ministro Passos Coelho esteve em Miranda do Corvo e disse algo confuso sobre a possibilidade de ressuscitar a linha da Lousã, cujos carris foram em boa parte arrancados para serem vendidos a um sucateiro qualquer. Ninguém o levou a sério, pois em Miranda do Corvo e na Lousã já ninguém leva a sério promessas de políticos. O que se passou - a subtracção de um serviço público que funcionava - pode ser considerado um crime. Mas Passos Coelho acrescentou logo, que com ele não haveria  a concretização do programado metro de superfície de Coimbra, ligado à linha da Lousã (note-se que Passos Coelho é natural de Coimbra, mas, ao contrário de outros políticos, não quer saber da sua terra natal). Também em Coimbra já ninguém leva a sério promessas de políticos: havendo agora  fundos europeus e existindo projectos em carteira que poderiam modernizar áreas urbanas e suburbanas muito povoadas,  por que não se cumprem as promessas feitas?

POR UMA RTP PÚBLICA E DE QUALIDADE


Em Portugal deve existir uma televisão pública, tal como existe em Espanha, no Reino Unido, na França, na Alemanha, na Itália, etc. Seria uma singularidade lusitana a privatização da RTP. Repare-se no nome: é a Radiotelevisão de Portugal. E uma televisão é uma grande arma, talvez a maior, de defesa da língua, que é uma das coisas mais preciosa que temos. Concordo com  a desgovernntalização da RTP, o que se pode fazer com um Conselho Geral Independente. O actual Presidente da RTP foi nomeado pelo governo e o actual Conselho Geral da RTP não quer a continuação do Presidente, entre outras razões porque não gostou do modo como foi tratada a aquisição de direitos de futebol internacional (Champions League). Eu não sei se o governo passou uma rasteira ao Presidente, mas não me admiraria pois o actual governo não é sério. Sei que o Conselho Independente, composto por pessoas sérias, é sério. E não me importo nada que o Presidente actual seja destituído, em primeiro lugar por que não faz sentido nenhum a aquisição de direitos de futebol com dinheiros públicos (o circo de futebol não é serviço público!) e, em segundo lugar, porque a actual programação da RTP deixa muito, em qualidade, a desejar.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

CONFERÊNCIAS DO SOLSTÍCIO: CHEMTRAILS: UMA NUVEM SOBRE AS NOSSAS CABEÇAS

Informação recebida da Comunidade Céptica Portuguesa (COMCEPT):




O orador convidado é o engenheiro Jorge Pinto, engenheiro ambiental com vários anos de experiência no sector da aviação. Actualmente, é funcionário numa organização europeia de aviação, onde trabalha com questões ligadas aos impactos ambientais do sector da aviação.

O tema dos chamados chemtrails, na verdade contrails (ou rastos de condensação), já foi várias vezes abordado no site da COMCEPT e desperta geralmente muitos comentários e polémica. Esperamos com esta conferência, seguida de debate, poder contribuir para o esclarecimento de dúvidas e aclaração os factos acerca dos rastos que observamos no céu.

NÃO À PRIVATIZAÇÃO DA TAP

Já assinei o documento contra a privatização da TAP, promovido por António Pedro Vasconcelos e outros. Também eu me insurjo contra a entrega a privados do que devia ser considerado património nacional ou meio indispensável à afirmação desse património. É o mesmo governo que, na ciência, quer dar boa parte dos recursos públicos a entidades privadas, que se prepara para entregar a TAP a particulares. O actual governo não tem uma réstia de patriotismo, que é algo que não é de direita nem de esquerda, mas sim a afirmação da nossa identidade.

ÍRIS CIENTÍFICA 2 - UM NOVO OLHAR SOBRE A CIÊNCIA

Com a devida vénia e agradecimento, transcrevo a recensão crítica que o Biólogo e Comunicador de Ciência João Lourenço Monteiro fez do meu novo livro.




Foi recentemente publicado o livro Íris Científica 2. Trata-se de um novo livro de divulgação de ciência, da autoria do bioquímico António Piedade.

O autor baseou-se nas crónicas de ciência que tem escrito para a imprensa e editou-as de modo a se adaptarem ao formato de livro. Parece redundante dizer isto mas o autor começa pelo princípio, isto é, pelo início da formação do Universo e pelo vazio, para logo de seguida falar da matéria e do tempo. De seguida, dedica uns capítulos à saúde humana, permitindo-nos revisitar temas científicos atuais e que tanto interesse suscitam, disponibilizando interessantes explicações sobre cromossomas, diabetes, bactérias, vírus, reprodução e a estrutura do cérebro.

Outro tema caro ao autor, e que tem destaque neste livro, é a astronomia, assunto que também merece a atenção ao longo de vários capítulos. Aqui, podemos ler sobre a pesquisa de exoplanetas, área de pesquisa em que equipas portuguesas têm dado cartas, investigação espacial e fenómenos astronómicos como as chuvas de estrelas.

Do espaço, o autor retorna à Terra para voltar a falar de biologia e de temas relacionados com estratégias de sobrevivência e de adaptação à natureza: formigas que estreitam relações com acácias, rãs que sobrevivem a temperaturas negativas e o percurso evolutivo dos coelhos europeus.

O livro termina com um final emotivo, com texto de homenagem a Marie Curie e dois textos inspirados em poemas de António Gedeão, pseudónimo do professor Rómulo de Carvalho que foi um homem do conhecimento ligado à divulgação de ciência – no dia do seu aniversário, celebra-se o Dia Nacional da Cultura Científica.

Este é mais do que um livro sobre ciência, é uma obra que é um serviço público, pois o António Piedade foi basear-se em artigos científicos, aos quais geralmente apenas os académicos têm acesso, e transformou esse conhecimento em textos compreensíveis para o cidadão comum. Muitos desses artigos refletem a pesquisa de ponta que se faz no nosso país e, por isso, está também a divulgar o melhor da investigação nacional. Neste sentido, e apenas a título de exemplo, saliento a pesquisa realizada por Miguel Carneiro do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO), e restante equipa, sobre o processo de domesticação do coelho-bravo e cujos resultados foram publicados em prestigiadas revistas internacionais como a Molecular Biology and Evolution.

Através deste livro, o autor pretende dar continuidade a um projeto que iniciou em 2005, com o primeiro volume de Íris Científica e que terá continuidade no futuro, como revela na introdução. Com este, já são quatro os livros de divulgação publicados por António Piedade. Pois, que venham mais.

João Lourenço Monteiro (Biólogo e Comunicador de Ciência)


NOTA: Envio livros devidamente autografados pelo correio desde que me sejam solicitados (apiedade@ci.uc.pt). 

A INVESTIGAÇÃO E AS EMPRESAS, SEGUNDO PASSOS COELHO

Para além do imperativo eugénico, de escolha artificial de espécies a eliminar, em nome de uma mal-definida ideia de "excelência", o actual governo tem outro leit motiv na sua política de ciência. O do favorecimento, com dinheiros públicos, do sector privado. Está provado que o governo adora o privado (vide o caso recente da TAP). É uma escolha política, com certeza: nas próximas eleições será perguntado aos cidadãos se desejam que o dinheiro dos seus impostos continue a ser directa ou indirectamente entregue aos empresários. Na intervenção de Passos Coelho no Congresso dos Jotas em Braga, naquilo que o jornal Expresso chamou "Aviso à Investigação", a mensagem é muito clara, por uma vez sem erros de gramática (admito que a vírgula esteja certa, o que significa que Passos Coelho identifica Portugal com as empresas):

"Passos apontou ainda um destino para a investigação em Portugal."Essa investigação tem que estar ao serviço das empresas, de Portugal", referiu."

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/passos-lanca-aviso-a-investigacao-cientifica=f902615#ixzz3M9NttAWp


Portanto, mesmo as Unidades de Investigação que sobrevivam nesta "segunda fase" da "avaliação", já sabem o que as espera: colocarem-se ao serviço das empresas. Terão de parar os seus programas de investigação e ir perguntar aos empresários o que eles querem que elas façam. Terão, logo à partida, de abandonar a investigação fundamental e, Passos Coelho dixit com a sua voz possante (Portas e Pires de Lima cantam em coro), dedicar-se à investigação aplicada. A palavra "excelência" na boca do PSD e CDS significa dar aos privados não só o dinheiro do Orçamento do Estado mas a própria agenda da investigação.

A EUGENIA DO GOVERNO PSD-CDS NA CIÊNCIA


A bióloga Filipa Vala, num artigo no Le Monde Diplomatique, e  o economista, especialista em inovação e desenvolvimento, Ricardo Paes Mamede, no blogue O Ladrão de Bicicletas, usando uma metáfora de base científica, chamaram a atenção para um ponto muito interessante: O actual governo prefere a eugenia ao darwinismo no que respeita ao apoio público às unidades de investigação. Prefere fazer a selecção artificial daqueles que ele julga mais fortes (não se trata de selecção natural, pois para isso há leis próprias!) a permitir uma saudável biodiversidade, o ambiente donde, mostra toda a história natural, podem irromper surpresas criativas. É uma política errada, muito errada. Ainda por cima perpetrada por algumas pessoas que tinham obrigação de saber algo sobre Darwin.

Pode perguntar-se: Mas então não há uma "maioria PSD-CDS" e não pode essa maioria fazer o que quer, o que lhe dá na real gana? Não, o voto democrático não justifica tudo, porque a democracia tem regras. Uma primeira regra é que o Parlamento tem de aprovar explicitamente uma política geral do governo numa dada área, como é a da Ciência. E o PSD-CDS não ofereceram ao Parlamento a escolha entre eugenia e darwinismo. Ao invés, o governo resolveu esconder de toda a gente uma quota de 50% para eliminação pura e simples de metade das unidades de investigação nacionais. O governo escolheu a eugenia, mas teve vergonha da sua escolha. Fez tudo às escondidas até que foi apanhado pelos cientistas, pelos jornalistas e pela opinião pública. Depois houve outras violações graves das regras do Estado de Direito, indissociável do conceito de Estado Democrático. O governo atropelou a lei e os regulamentos criados por si próprio para atingir os seus sinistros objectivos. O Decreto-Lei 125/99 que regula a avaliação, obrigando a visitas a todas as unidades não foi respeitado. E os regulamentos criados ad-hoc pela própria FCT foram sucessivamente atropelados, pois o objectivo único era o cumprimento da quota eugénica: e foi assim que vimos poucos "avaliadores", não especialistas nas áreas que estavam a "avaliar", a servir de meros executores de uma política errada. O governo PSD-CDS serviu-se e está a servir-se da ESF para cumprir na prática o seu programa de exterminação da investigação.

Não há quem nos proteja num Estado de Direito? Sim, há, felizmente. Do ponto de vista político, as maiorias são temporárias e medidas extremas, como esta de eugenia, teriam de ter um consenso mais alargado do que a que tiveram para poderem ser eficazes. Assim, terão de ser revertidas pelo próximo governo. Aliás, o líder da oposição já anunciou atenção especial à ciência, em especial à criação de emprego científico, e nisso é seguido por outros partidos e até, tudo leva a crer, por alguns sectores dentro do PSD e do CDS que não se revêem na política eugénica de Passos Coelho e Portas para a ciência (não estou a isentar Crato de culpas, ele tem-as - toda a gente incluindo ele sabe que as tem - mas estou a falar do problema político e aí as responsabilidades maiores pertencem aos líderes partidários). Por outro lado, os tribunais, tenho confiança neles, tratarão, infelizmente num prazo que é mais lento do que o da política, de punir os responsáveis pelas irregularidades legais em todo este processo e de compensar os prejudicados pelos danos causados. Actos ilegais terão de ser declarados nulos, ressarcindo os prejudicados. Poder-se-á perguntar como é que se vão ressuscitar "espécies extintas" pela estúpida mão humana? Bem, a resposta é que a ciência em Portugal já é suficientemente forte para sobreviver à tempestade como foi aquela que se abateu sobre ela no ano de 2014 e que o PSD-CDS tentarão disfarçar de prenda de Natal, ao afirmarem que, extintos alguns centros numa "primeira fase", outros afinal ainda estão vivos e alguns até muito vivos. Em 2015 tudo será melhor, pois pior seria muito difícil.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

GRADUADOS PORTUGUESES NO ESTRANGEIRO REÚNEM EM LISBOA


Informação recebida do Fórum Anual de Graduados Portugueses no Estrangeiro (GraPE):

"A Comissão Organizadora do GraPE2014, em nome da AGRAFr, da ASPPA, da PAPS e da PARSUK prepararam o GraPE2014, 3º Fórum Anual de Graduados Portugueses no Estrangeiro, a realizar sábado, dia 20 de Dezembro de 2014, no Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa das 14h00 às 19h30. As inscrições encontram-se abertas no website http://www.grape.pt

O GraPE2014 surge no seguimento dos colóquios ‘Percursos em Ciência: Diversidade contra a Adversidade’ (Lisboa, 2012) e ‘Migrações Científicas: Ir e Voltar’ (Porto, 2013) que acolheram cerca de 150 participantes, tendo contado com a presença de oradores ilustres como António Coutinho (antigo Diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência), Nuno Crato (Ministro da Educação e Ciência) e Miguel Seabra (Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia).

Na edição deste ano o tema do colóquio é “Portugueses sem Fronteiras: Criatividade e Inovacão”. Partindo de casos de sucesso, de inovadores portugueses que saíram à descoberta de oportunidades no mundo nas mais variadas áreas profissionais (ciência, cultura, gestão, tecnologias), pretende-se que o GraPE2014 seja uma plataforma para reflexão sobre o estado actual do empreendedorismo em Portugal e como podem as boas práticas identificadas no estrangeiro contribuir para um ainda maior crescimento do potencial inovador do nosso país. Entre os vários convidados, contamos com a presença de Jorge Portugal (Presidência da República), Ana Ventura Miranda (Arte Institute, EUA), Joana Moscoso (Native Scientist, UK), Maria Pereira (Gecko Biomedical, França), Pedro Santos Vieira (GoodGuide, EUA), Francisco Veloso (Católica-Lisbon School of Business and Economics), Tiago Carvalho (LabOrders), José Franca (Portugal Ventures), Carlos Vinhas Pereira (Câmara de Comércio e Industria Franco-Portuguesa, França), António Câmara (YDreams) e contará com a moderação do jornalista Nicolau Santos (Expresso).

Para mais informações consulte o nosso website em http://www.grape.pt."

CONCERTO CÓSMICO EM COIMBRA



LANÇAMENTO DE TRÊS LIVROS INFANTIS NO RÓMULO


VICTOR HUGO FORJAZ FALA SOBRE VULCÕES NO EXPRESSO


UM JOTA ENTRE OS JOTAS


É já sabido que o actual primeiro-ministro tem muita dificuldade em exprimir-se, em resultado talvez da sua prolongada estada na JSD e de por isso ter concluído os estudos fora do prazo normal. Sempre que fala de ciência experimenta naturais dificuldades. Não percebe praticamente nada do assunto (nem tem nenhum assessor bem informado para o socorrer) e improvisa umas frases desalinhadas. Nas duas transcrições de baixo do discurso de Passos Coelho, um ex Presidente dos Jotas, aos actuais Jotas, reunidos em congresso em Braga este fim de semana, para além da gramática infeliz ("é  infalível que o que não é devidamente auditado e avaliado,  dá asneira pela certa") há erros substanciais. Assim:

1) Não é verdade que só as instituições científicas "muito boas ou excelentes" terão financiamento estatal. As excepcionais e as boas também terão, segundo a FCT. Ou o primeiro-ministro desconhece o esquema de financiamento da FCT ou a FCT está a desobedecer às instruções do primeiro-ministro. 

2) Uma avaliação não é uma auditoria: os dois instrumentos têm finalidades e métodos completamente distintos. Quererá Passos Coelho fazer uma auditoria à ciência nacional? Muito bem, pode começar pela FCT, que tem mostrado comportamentos ilegais, incluindo a não divulgação atempada nos lugares de estilo dos seus contratos. Além disso a dita avaliação (para ele auditoria) não é universal pois não abrange, por exemplo, os Laboratórios de Estado.

3) A actuação do governo na área da ciência é precisamente o oposto de exemplar e, por isso, a avaliação que está a realizar tem sido sujeita a uma chuva incessante de críticas nacionais e internacionais. Será que Passos Coelho não leu a carta dos Reitores? Ou não lê jornais nem tem ninguém que os leia e lhe faça um resumo? Aparentemente, o seu ministro da Educação (da Ciência não há ministro) não o tem informado devidamente.

4) A ciência não tem que estar ao serviço das empresas. As empresas podem decerto retirar benefícios da ciência mas essa visão utilitarista da ciência não faz qualquer sentido nem aqui nem noutro lado. Nem aliás a referida "avaliação" levou isso em conta através de parâmetros justos e credíveis. Quanto à ciência dever estar ao serviço dos portugueses é uma afirmação correcta, mas seria ainda mais correcta se tivesse dito "ao serviço da humanidade". Os cientistas portugueses podem ajudar a resolver problemas específicos dos portugueses, mas acima de tudo o seu fito deve ser resolver problemas que a humanidade enfrenta. 

Enfim, tivemos apenas um Jota que, entusiasmado por estar entre os seus, nem reparou que estava a ser ouvido pelos portugueses.  As juventudes partidárias têm assegurado a lamentável perpetuação de uma classe política sem suficiente preparação intelectual  nem, o que é pior, sem o adequado sentido de Estado. E, sobre a regeneração dos partidos políticos, a começar pelas respectivas juventudes, o líder não disse uma única palavra.

VISÃO:

Braga, 14 dez (Lusa) - O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, avisou hoje que apenas as instituições de investigação científica classificadas como "muito boas ou excelentes" pela auditoria externa que está a ser realizada vão ter financiamento.
"Recorremos a peritos internacionais (...) para fazerem a avaliação externa das nossas instituições científicas e decidimos que aquelas que não forem muito boas ou excelentes terão apenas apoio para funcionamento e que só aquelas que forem muito boas ou excelentes terão mesmo financiamento", afirmou Pedro Passos Coelho em Braga, para encerrar o XXIII congresso da JSD.
O líder do PSD, que garantiu que nenhuma instituição está "acima" daquela auditoria, justificou a opção de financiar apenas as melhores instituições com a necessidade de ter "garantias" que o dinheiro disponível será utilizado para "produzir a melhor" investigação.

http://visao.sapo.pt/passos-coelho-avisa-que-so-investigacao-muito-boa-ou-excelente-sera-financiada=f804494#ixzz3M0pxWZmN


PÚBLICO:

Passos Coelho apontou a área da investigação científica com o exemplar (sic)  da visão do executivo para o país. “Estamos a conseguir aplicar melhor o nosso dinheiro e a avaliar melhor as instituições”, defendendo que a muito critica  (sic) avaliação internacional dos centros de investigação promovida pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. “Não há sistemas infalíveis, mas é infalível que o que não é devidamente auditado e avaliado, (sic a vírgula) dá asneira pela certa”. O país precisa de “melhores garantias” de que o dinheiro do país vai ser aplicado para fazer melhor investigação, defendendo ainda que a ciência deve estar “ao serviço das empresas e dos portugueses”.http://www.publico.pt/politica/noticia/passos-volta-a-desafiar-ps-para-discutir-sustentabilidade-das-pensoes-antes-das-legislativas-1679386

(na imagem, Passos Coelho no seu tempo da JSD, quando combatia a "tecnocracia" de Cavaco Silva)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Leonor Parreira e a partidarização da ciência


Segundo afirmou esta segunda-feira a Secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira a avaliação das unidades de investigação “está a decorrer com tranquilidade e como era suposto”. Depois de várias sociedades científicas terem contestado a avaliação, de esta ter sido salva na Assembleia da República apenas com os votos favoráveis do PSD e do CDS, de ter sido arrasada pelo Conselho dos Laboratórios Associados e pelos 15 reitores do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), de ter sido apresentada uma queixa contra ela no Ministério Público, podemos aceitar que está a decorrer como é suposto, se considerarmos o que é suposto para o actual governo: é suposto tudo ficar pior, não se poupar um tostão e ignorar autisticamente todas as vozes que façam algum sentido, por muitas que elas sejam. Os actuais responsáveis pela ciência em Portugal conseguiram esta coisa extraordinária: partidarizar a ciência. As unidades de investigação não são do PSD e do CDS. Mas esta avaliação é.

Claudio Magris ( Trieste, 1939) e Carlo Michelstaedter (Gorizia, 1887 –1910)

 
Um Outro Mar, novela do escritor triestino Claudio Magris, envolve a vida de três amigos de Gorizia (Enrico Mreule, filósofo; Carlo Michelstaedter, filósofo e poeta; e o livreiro Nino). Alguns anos antes de começar a primeira guerra mundial, Enrico parte para a Patagónia e entrega a sua arma a Carlo. É com esta arma que a «consciência mais sensível do século», de acordo com a palavra de Magris, se vai suicidar. 

À semelhança de Trieste — mar de Umberto Saba, mirante de Italo Svevo e artéria de Scipio Slataper—, Gorizia está impregnada de três culturas (a latina, a do império austro-húngaro e a eslava) e pelo mar adriático que bruxuleia na poesia de Carlo.

Claudio Magris, para além de ser um grande escritor e divulgador de literatura, está também atento às ciências físicas. Exemplo, do que acabo de escrever, são os três excertos, em baixo, da novela :


«Agora é noite e não se vê nada, mas mesmo antes, com os olhos entreabertos no sol implacável e manchas purpúreas debaixo das pálpebras, aquele azul profundo do céu e do mar parecia negro; aliás o universo é escuro e só o olho, também ele velho filólogo, tem a mania de traduzir invisíveis frequências de onda em luzes e cores. Mesmo no revérbero ofuscante do meio-dia, quando o mar é todo ele um reflexo, não se vê nada e é um deslumbramento, a epifania dos deuses.»

«Em Trieste, à partida, apenas Nino o acompanhara. Na cabine do comando deve estar o sextante, que define a posição do mar medindo a altitude dos astros no horizonte, impercetivelmente mais baixos à medida que se avança para o Sul. Enrico tenta imaginar o sextante e os outros instrumentos que servem para manter a direção e para não se perder, para saber onde se está e consequentemente quem se é naquela extensão igual à das águas; a sua vida aquém ou além do oceano, será toda ela uma trigonometria de águas-furtadas onde se encontravam todos os três— Carlo, ele e Nino.»

«Enrico, dispara, o pato bravo cai no chão, num instante o voo heráldico é um lixo deitado pela janela. A lei da gravidade é decididamente um fator de deselegância na natureza; apenas as palavras estão preservadas, mesmo aquelas impressas nos clássicos gregos e latinos das editoras Teubner e Leipzig.»
 
Termino, com as primeiras estrofes do poema Senia de Carlo:
Senia
I)
As coisas que eu vi no fundo do mar,
os abismos negros, as luzes longínquas
as algas entrelaçadas e as bizarras criaturas,
Senia, quero somente a ti contar.
 

Há muito tempo que este instante no passado,
no fundo do mar, eu tenho mergulhado.
A fim de dar morada à sereia exilada,
a mim mesmo e ao homem derrotado,
 

e contar a vida do seu reino perdido,
quero mergulhar com mais vigor,
para que o homem narre os tenebrosos arcanos
e conheça de perto as coisas longínquas.
 

Mas o que já vimos no fundo do mar,
os negros abismos, as luzes longínquas
as algas entrelaçadas e as bizarras criaturas,
Senia, quero somente a ti contar.

“JARDINS DE CRISTAIS: QUÍMICA E LITERATURA”

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.




Sérgio Rodrigues é Professor do Departamento de Química da Universidade de Coimbra. Mas a sua actividade científica não mora só no interior do edifício daquele Departamento. Em particular, há a destacar a sua dedicação à divulgação científica, em particular, e naturalmente, da química. E tem-lo feito de uma forma muito talentosa e impregnada de utilidade para todos.


Sérgio Rodrigues tem conseguido mostrar, de forma acessível a todos, que a química está presente no nosso quotidiano e que é possível encontrá-la amiudamente nas nossas vidas. Numa iniciativa muito interessante e intitulada “Passeios com Química”, de que se realizaram meia dúzia de sessões, Sérgio Rodrigues mostrou aos participantes que é fácil encontrar química à nossa volta. Podemos virtualmente revisitar esses e outros passeios no seu blogue “PercursosQuímicos cuja visita aconselho. Nos artigos que ali se encontram a tornar visível a química do mundo em que existimos, há um aspecto que ressalta: o da qualidade literária da sua escrita.

E é de facto do encontro entre literatura e química que agora vos escrevo, para anunciar a publicação recente do livro com o belo título “Jardins de Cristais”, de Sérgio Rodrigues, editado pela Gradiva na sua colecção “Ciência Aberta”, com o número 209. É, assim, mais um autor português a integrar esta incontornável colecção de divulgação científica. O prefácio é do neurocirurgião João Lobo Antunes e é também ele uma peça de literatura que apetece revisitar sempre (assim como o livro).

Diga-se que este é um livro que faltava na língua portuguesa. De facto, antes dele não havia nenhuma obra que tratasse o encontro da química na literatura universal, escrito originalmente em língua portuguesa. É assim um livro ímpar mas que não ficará só, uma vez a sua qualidade irá com certeza inspirar outros a escrever ou pelo menos a pensar sobre o assunto que trata e, seguramente, a olhar para a química com maior visibilidade.

O subtítulo do livro é “Química e Literatura” o que entreabre uma janela para o horizonte do livro. Ao longo de 279 páginas o leitor é transportado eruditamente pela história da literatura universal, desde os clássicos gregos, passando pela Bíblia, até a alguns dos best-sellers dos nossos dias. Ao longo da viagem, o autor vai-nos indicando referências mais ou menos substanciais de química, que aparecem surpreendentemente onde menos se esperaria. E os exemplos são muitos, o que mostra que a química que mudou a nossa sociedade deixou e deixa a sua assinatura na literatura que nos retrata ou que nos ficciona. Desde, Camões, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Vitorino Nemésio, Torga, Shakespeare, Goethe, Marx, Gabriel Garcia Márquez, Hemingway, entre tantos, tantos outros, Sérgio Rodrigues destaca as referências químicas para nos ensinar e mostrar o quanto a química está presente nas nossas vidas. No que pensamos, no que sonhamos, nos nossos receios e medos, nos nossos amores e paixões. Da pimenta ao amor, do sonho ao sal do “mar português”.

É um livro que mostra, na minha opinião, que a divisão entre “humanidades” e “ciências” é artificial, convencional e redutora. A cultura humana é só uma e isto sem prejuízo do recurso à especialização para melhor compreendermos o universo.

A leitura deste livro torna-nos mais inteligentes e humildes. Mostra-nos a vastidão da nossa cultura, a complexidade humana, e a nossa proximidade aos átomos e às moléculas que compõem tudo o que nos rodeia e de que também somos feitos. Para além de ficarmos a saber mais sobre química, ficamos envoltos nos perfumes da literatura de todos os tempos.

É um livro que devemos ler, reler e viajar com ele. Já é, no meu humilde entender, uma obra incontornável e de referência imprescindível.

António Piedade

domingo, 14 de dezembro de 2014

O Ministro que lê os clássicos

Isto passa-se em Espanha, não entre nós. 
E por que razão não há em Portugal um maior interesse pelos Clássicos? Teríamos muito a aprender com eles...
Um bom exemplo vem do recentemente laureado com o Prémio Pessoa. Não foi o Doutor Henrique Leitão estudar latim porque é nessa língua que estão escritos os grandes livros da ciência? Não seria, por isso, importante que os nossos alunos que se dirigem a cursos científicos tivessem uma iniciação ao latim?

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=4293258

Cante alentejano

Ilustração do autor

A declaração do Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade foi aprovada pelo Comité Intergovernamental da UNESCO, em Paris, no passado dia 27 de Novembro. Logo após a feliz decisão, as vozes dos cantadores do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa fizeram-se ouvir nos espaços da nobre Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura na capital francesa.

Todos sabemos que, com uma ou outra excepção, por razões óbvias, os media preferem os grande escândalos. Casos como o que tem ocupado as primeira páginas na semana que findou, vendem, seguramente muito mais do que esta honraria atribuída à cultura portuguesa.Todos sabemos que é assim e é ingénuo quem pensar o contrário. 

Na literatura sobre a gastronomia alentejana encontram-se referências a uma certa associação que sempre se fez entre os comeres e o cante que distinguem esta que é a maior província de Portugal. Não será exagerado dizer que todo aquele que teve o privilégio de ouvir os homens em coro numa das muitas vendas e tabernas, onde os cheiros da cozinha invadem a zona de convívio, não poderá deixar de fazer esta associação. Quem já comeu numa qualquer aldeia do Alentejo e, a dada altura, os homens se levantam e unem num coral, único na museografia nacional e mundial, não pode deixar de ligar os sons e os sabores que ali persistem, como que a fazerem frente à mundialização cultural que nos invade.

Sempre associei os aromas da gastronomia tradicional alentejana aos seus cantares. E isso resulta de uma vivência começada em criança, em finais dos anos 30, quando ia à taberna do Monginho buscar meio litro de vinagre e por lá me esquecia a ouvir os homens, à volta de uma grande mesa forrada de oleado, repleta de petiscos perfumados e de copos de vinho, uns cheios, uns meios, outros vazios. Foi numa destas idas ao Monginho que o «Meu lírio roxo» nunca mais se separou do grão cozido, a fumegar, temperado de azeite e vinagre, com salsa e cebola picadas, que os homens comiam a acompanhar sardinhas de barrica acabadas de fritar, enchendo o espaço do convidativo cheiro da fritura. Esta junção dos cantares, dos comeres e seus odores, tive-a por diversas vezes, na adolescência, de que recordo um fim de tarde, nos anos 50, na venda do Ti’ Zé Calado, na Vendinha, em que se assavam linguiças e farinheiras e se ouvia, cadenciada, «A ribeira quando nasce, vai de pedrinha em pedrinha...». Uma outra vez, foi na tasca do Rabino, em Valverde, num Agosto seco e escaldante, corria o ano de 1964. Foi com os rurais que ali trabalhavam nas escavações da Anta Grande do Zambujeiro e no Cromeleque dos Almendres com o arqueólogo Henrique Pina. E nesta era o coelho frito, temperado de alho e pimentão, e as perninhas de rã de tomatada, ao som do «Deitei o limão correndo...». O aroma e o sabor do toucinho tirado da salgadeira e assado na brasa, comido com pão à navalha e copinhos de aguardente perfumada, saída ainda quente do alambique, na grande adega das Cortiçadas, em São Sebastião da Giesteira, nunca mais se separou do «Ao romper da aurora, sai o pastor da cabana...»

Uns tempos mais tarde, ainda a «Grândola, Vila Morena», do grande e saudoso Zeca, não tinha a conotação que passou a ter a partir “daquela Madrugada”, os seus belos acordes remataram uma monumental açorda de poejos com bacalhau e ovos cozidos, comida lá para as tantas, para “desenratar” de uma jornada de fartas comezainas e muitos copos nas bodas de um parente.

A última situação que me foi dado viver deste casamento de sabores e cantares teve lugar em finais de 1998, na Pousada dos Lóios, em Évora, durante um almoço oferecido aos participantes do «1º Simpósio Internacional para a Paleobiologia dos Dinossáurios», que tive o gosto de promover, como director do Museu Nacional de História Natural. Uma vintena de cientistas de nomeada, oriundos das cinco partes do mundo, saborearam as belíssimas entradas de paio, presunto e queijos locais e deliciaram-se com o magnífico ensopado de borrego, olhando e sorrindo para nós como que a dizer «que coisa boa!». Começavam eles a regalar-se com a encharcada, bem perfumada de canela, quando um grupo coral de homens e mulheres, envergando os trajes regionais, irrompeu lá no fundo do grande claustro, cantando e marchando, grudados uns aos outros, numa mole humana que se aproximava, lenta e cadenciada, a passo certo, nu
m crescendo de arrepiar os cabelos e trazer aos olhos uma lágrima rebelde: «Olha a noiva, se vai linda...». Grupo de Cante Alentejano de Évora, por ocasião do 1º Encontro Internacional de Paleobiologia dos Dinossáurios, na Pousada dos Lóios.

Como alentejano que me orgulho de ser, cantei com eles e desses momentos conservo na memória os olhos a brilhar da Doutora Angela Milner, do Museu de História Natural de Londres, o ar extasiado do Prof. John Horner, o paleontólogo americano que se celebrizou como assessor científico de Spielberg no inesquecível Jurassic Park, ou o do Prof. Detlev Thies, da Universidade de Hannover. Não esqueço ainda o ar feliz de merecido orgulho do Dr. Abílio Fernandes, um dinossáurio entre os autarcas do pós-25 de Abril, um goês que assimilou, a cem por cento, a maneira de ser e de estar dos alentejanos. - A.M. Galopim de Carvalho