The flawed evaluation of Portuguese research units conducted by the ESF and FCT

quarta-feira, 1 de abril de 2015

PEDRO PAIXÃO SOBRE A LUZ


Recebi de um estimado leitor este excerto do escritor Pedro Paixão sobre a luz:

“A luz é o que, sem se ver, faz ver e não se pode agarrar com os dedos de todas as mãos. Há aqui um admirável ensinamento. Nada é comparável à luz, que não sendo uma coisa, nos mostra o aspecto de todas as coisas, as coisas de todas as cores e as cores de todas as coisas. A luz abre-nos o mundo que a escuridão encerra, um presente tão imenso que não sabemos retribuir, um presente de tal modo violento que está só no passar…"

                                                           Pedro Paixão,  p, 213 do cap VI - O mundo é tudo o acontece, do livro com o mesmo título de 2008, da editora Quetzal. 

OS VAN GOGHS EM PALCO EM LISBOA


A luz segundo Daniel Faria

Neste Ano Internacional da Luz, dois poemas sobre a luz de Daniel Faria:

Como reporás a terra arrastada
 Para a boca?

 Foges e foges
 E repousas à sombra da velocidade.

 E ao extinguires-te dizes
 Tudo
 O que podia ser dito
 Sobre a luz

Daniel Faria


Explicação da Luz


O azulejo lava a sua luz

Tem o brilho
Do movimento exacto
Dos seus vestidos

E o seu rosto é limpo.
Com as suas próprias mãos
Sem acabar se acaricia

A luz lava o brilho
Do azulejo. A luz o lava
No seu vestido

E o seu rosto é um.
Com as próprias mãos
O quebra e inicia

Daniel Faria

CENTENÁRIO DO ORPHEU

Informação recebida do CLEPUL, Lisboa:

No âmbito da recém-criada ACADEMIA LUSÓFONA, inaugurar-se-á no próximo dia 6 de Abril de 2015 o seu CURSO GERAL, com um programa dedicado à celebração do centenário da publicação da revista Orpheu, momento simbolicamente marcante da nossa modernidade estética.

A SHIP, Instituição de Honra do 100Orpheu, promovido pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, da Universidade de Lisboa), pelo LEPEM (Laboratório de Estudos de Poéticas e Ética na Modernidade, da Universidade de São Paulo) e por um conjunto de instituições nacionais e estrangeiras de reconhecido mérito científico e cultural, que atravessará Portugal e Brasil durante todo o ano de 2015 com as mais diversas iniciativas, vem convidar a participar na jornada inaugural do CURSO GERAL, segunda-feira, dia 6/4/2015, com o seguinte programa:

                16h: Acolhimento e Visita ao Palácio.
                17h: Inauguração da Exposição “Rostos & Refracções de Orpheu”(Roslam Botiev & Joaquim Carvalho). Apresentação de Miguel Real.
                18h: Sessão inaugural com Conferência “Mistérios de Orpheu” de Raúl Rosado Fernandes.
                20h30m: Jantar no Martinho da Arcada (inscrições na SHIP).

O CURSO GERAL da ACADEMIA LUSÓFONA constitui uma plataforma de apresentação e combinação de cursos, ciclos de palestras, exposições e worshops sobre as Culturas Lusófonas, da responsabilidade (organização, coordenação e lecionação) dos diferentes núcleos institucionais da SHIP e com colaboração de Instituições Associadas.


Assim, paralelamente ao programa diário de aulas entre as 14h30m e as 17h, realizar-se-ão Seminários 100Orpheu-SHIP, que abrem com esta conferência inaugural do Professor Raúl Rosado Fernandes e contarão com as participações de Lídia Jorge, Rui Vieira Nery, Francisco Simões, etc..Para mais informações consulte http://ship-sociedadehistorica.blogspot.pt/p/estudos-gerais-academia-da-ship.html

terça-feira, 31 de março de 2015

Não Sabemos Mesmo O Que Importa

A nova tradução de poemas de Paul Celan, assinada por Gilda Lopes Encarna-ção, não foi poupada pela crítica. Pedro Mexia disse que a tradutora usou «pa-lavras monstruosas» e António Guerreiro, que inventou verbos. Todos sabemos que a poesia de P. Celan é hermética, como a de Herberto Hélder (influenciada também pelas metáforas de Walt Whitman, facto que os críticos não veem), e exige ao tradutor o conhecimento da vida do poeta, dos textos sagrados judai-cos e da língua alemã. Como não falo a língua alemã, concentrei-me apenas nos poemas traduzidos e não os considero assim tão medíocres. O que importa mesmo é não cair na difamação – esse substantivo que Henry Fiel-ding abominara.


Todos os teus sinetes quebrados. Nunca.

Vai, cedreia-a também,
a perfídia da pele decarta, de onze
cascos: que a vaga, a distante-
-mel, a próxima-
-leite, quando
a coragem a move para o lamento,

o lamento para a coragem,
de novo,
que ela não reflicta também,
o idiota-dos-electrões,
que processa
tâmaras para
macacos
-premonitórios.

A RTP enlouqueceu

O "Agora Nós" fez um programa cujo tema é "Vacinação: Sim ou Não?":


No serviço público de televisão, este tema não pode ter pontos de interrogação. Do ponto de vista jornalístico isto também não faz sentido nenhum, uma vez que não se pode dar igual destaque e legitimidade as dois pontos de vista. Seria equivalente a fazer um programa com o tema "Bater na mulher: sim ou não?". "Ir para o Estado Islâmico: sim ou não?".

Isto é puro lixo tóxico, não é digno de qualquer órgão de comunicação social, público ou privado.

QUO VADIS PORTUGAL ?


Texto recebido de Galopim de Carvalho (na foto Natália Correia):

Não é novidade para ninguém. Desde que o neoliberalismo cego do PSD (traidor do pensamento e da prática social democrata que lhe deu nascimento) tomou conta dos nossos destinos, amparado nesta actual muletazinha conhecida pela sigla CDS-PP, vai para quatro anos, os portugueses assistem, resignados e pacificamente, ao retrocesso social e cultural imposto por uma União Europeia cada vez mais afastada e hoje um logro da esperança que assinámos a 12 de Junho de 1985, faz agora trinta anos.

As conquistas na segurança social, nos cuidados de saúde, na ciência, no ensino e no apoio à cultura conseguidas na vivência em democracia que se seguiu à Revolução dos Cravos estão a fugir da nossa vida colectiva como areia por entre os dedos.

Perdemos uma parte significativa da independência nacional e assistimos à asfixia e destruição de muitas das nossas valências económicas. Estamos a viver tempos de miséria e, até, de fome para um número cada vez maior de famílias, de miserável abandono dos idosos, de corrupção descarada e impune e de aumento do número e da riqueza dos ricos. A chamada classe média está a afundar-se, o desemprego tornou-se uma realidade dramática dos que já não conseguem encontrar um posto de trabalho e é um incentivo crescente à igualmente dramática emigração de uma juventude que a democratização do ensino qualificou a níveis nunca antes conseguidos.

Tudo isto e mais alguma coisa foi sabiamente previsto por Natália Correia (1923-1993), grande portuguesa que deixou nome na poesia e na política (deputada à Assembleia da República entre 1980 e 1991). Estou muito longe de ter lido toda a obra desta saudosa açoriana de São Miguel, mas o que li e ouvi ler, em especial, poesia, sempre me mostrou, pela excelência do conteúdo e da forma, a mulher com quem tive o privilégio de conviver nos últimos anos da sua vida. Quando a procurei, em começos da década de 90 eu era um profissional, a tempo inteiro, com 30 anos de dedicação exclusiva a uma ciência demasiado terra-a-terra - a geologia - em busca de um outro caminho que tinha o dela e de muitos outros mestres da palavra, por modelo. Prenderam-me a esta lutadora a intransigência com que defendia a liberdade, a solidariedade, a justiça e a cultura, o desassombro, a elevação e a beleza, a força e a energia, que usou na palavra falada e escrita, características que sempre igualei às do também grande e saudoso Ary dos Santos.

Apraz-me aqui e agora transcrever, pelo que têm de impressionante realismo, algumas premonições desta grande Senhora, trazidas a público por Fernando Dacosta em “O Botequim da Liberdade” (Casa das Letras, 2013).

"Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".

"Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão".


"As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir".

Galopim de Carvalho

Os seres humanos podem ser perigosos mas não é porque têm na sua composição mais de 80000 químicos!



Se disser ao meu amigo que o seu corpo está cheio de químicos o meu amigo acredita ou acha que eu perdi a cabeça e lhe estou a chamar drogado?

O meu amigo acredita - e muito bem - que fumar faz mal à saúde, mas essa de ter o corpo cheio de químicos é difícil de engolir! Então os "químicos" não são coisas que fazem mal?

Pois pode o meu amigo ter a certeza de que tem no seu corpo mais de oitenta mil tipos de compostos (químicos) naturais diferentes, dos quais para aí cinquenta mil são proteínas (e isto é uma estimativa provavelmente por baixo!) Para além disso, a fazer fé, em alguns estudos, poderá ainda acrescentar cerca de setecentos compostos exógenos, naturais ou artificiais, provavelmente a maior parte inóquos. E, acredite, todos estes compostos são feitos com cerca de sessenta tipos de átomos, na maioria hidrogénio, oxigénio, carbono e nitrogénio.

Estes números referem-se, claro, aos tipos diferentes de elementos e compostos que temos no nosso corpo, pois o número total de átomos e compostos é astronómico. Em massa, uma pessoa de 70 quilogramas tem cerca de 43 de oxigénio, 16 de carbono, 7 de hidrogénio, 1.8 de nitrogénio, 1 de cálcio e 0.8 de fósforo. No entanto em número de átomos temos valores mesmo muito grandes, 1 600 000 000 000 000 000 000 000 000 (16 seguindo de 26 zeros) de átomos de oxigénio, 800 000 000 000 000 000 000 000 000 (8 seguido de 26 zeros) de átomos de carbono, 420 000 000 000 000 000 000 000 000 000 (42 seguido de 27 zeros) de hidrogénio, e aí por diante. O número total de compostos é mais difícil de estimar mas, considerando um peso molecular médido de 53 kDa por proteína e uma massa de 12 quilogramas destas no corpo humano, obtém-se qualquer coisa como 1 300 000 000 000 000 000 000 000 (13 seguido de 22 zeros) moléculas de proteínas. Para a água, considerando um valor de 49 quilogramas, obtém-se 1 600 000 000 000 000 000 000 000 000 (16 seguido de vinte seis zeros) de moléculas de água. Outros compostos são ainda mais difícies de estimar, mas é fácil de aceitar que serão muitas moléculas!

Olhemos agora para as trocas com o exterior. Tipicamente, um ser humano ingere por dia cerca de dois litros de água e um pouco menos de quilograma e meio de alimentos (sem considerar a água). Essa dieta corresponde a milhares de tipos diferentes de compostos, dos quais o mais abundante é obviamente a água. A seguir, mas em muito menores quantidades, teremos provavelmente o amido (presente no arroz e outros cereais e legumes) e a sacarose (presente em muitos alimentos naturais, para além da que se adiciona a outros). Falta fazer a conta dos outros milhares!

No processo da respiração, inspiramos diariamente cerca de dez mil litros de ar que contém essencialmente nitrogénio e oxigénio, mas também árgon e vapor de água, entre outros componentes minoritários. Expiramos todo o azoto que entrou e mil e setecentos litros de oxigénio, dos cerca de dois mil que tinhamos inspirado, e ainda cerca de quinhentos litros de dióxido de carbono (perto de um quilograma deste composto) e quinhentos litros de vapor de água (cerca de 300 mililitros). Uma parte da água proveniente da respiração pode também escoar-se na urina e respiração.

Produzimos cerca de litro e meio de urina que tem, em geral, mais de três mil compostos diferentes. Mesmo assim é um material bastante estéril que já foi usado como desinfectante. Cerca de setenta destes compostos são provenientes de bactérias que habitam o nosso corpo e cerca de dois mil estão relacionados com a dieta, medicamentos, cosméticos e exposição ambiental, sendo que mil e quatrocentos são produzindo pelo próprio corpo.

Sobre as fezes é melhor não dizer nada! Mas sobre o suor é mesmo necessário dizer alguma coisa, pois suar é fundamental! Cerca de 22% do calor que temos de libertar para não aquecermos demasiado é perdido através da transpiração. Nesse processo perdemos, num dia calmo e ameno, cerca meio litro de água por dia, assim como (também aqui) libertamos centenas de tipos de compostos em diferentes quantidades que tornam o nosso odor único. Se estiver calor, ou fizermos muito exercício iremos perder muito mais água por transpiração e teremos por isso de beber mais água.

Para além do suor, urina e fezes, o nosso corpo vai perdendo uma quantidade grande de compostos de vários tipos em células mortas da pele, mucosas, pêlos, cabelos e outros tecidos. Ao mesmo tempo, o nosso corpo vai renovando e reconstruindo todas as células com milhares de compostos diferentes. Tomemos o exemplo mais ou menos simples do cabelo que cresce cerca de um centímetro por mês. Uma estimativa grosseira aponta para a utilização de 100 000 000 000 aminoácidos por segundo para fazer crescer um único cabelo. Numa pessoa típica com cerca de 100 000 cabelos, isso dá cerca de 900 000 000 000 000 000 000 aminoácidos, que em termos de massa não é mais do que cerca de 0.2 g. Ou seja não é preciso mais do que dois décimos de grama de proteínas por dia para fazer crescer o cabelo!

À nossa volta, no ar e na água, circulam milhares de tipos diferentes de compostos que provêm de árvores, flores, ervas, bactérias, fungos e animais. As plantas comunicam através de substâncias químicas (hormonas vegetais, por exemplo) e fazem guerra química umas às outras, assim como aos predadores, usando insecticidas e herbicidas naturais entre outros compostos. Por isso muitos destes compostos nos causam alergias ou são venenosos. Como é sabido, actualmente, também circulam no ar e água compostos de origem artificial, mas estes são uma pequena minoria, cada vez mais controlada.

E sabemos cada vez mais sobre estes milhares de compostos, tanto naturais como artificiais, porque todos os dias melhoram as capacidades analíticas da química, podendo actualmente chegar-se à determinação de nanogramas (0, 000 000 001 g), ou valores inferiores, de muitos compostos. As quantidades detectadas são de tal forma que conduzem a resultados paradoxais muitas vezes mal interpretados. Por exemplo, um estudo com notas americanas mostrou que a grande maioria tinha resíduos de cocaína! Ou a análise de águas de rios indicou quantidades de estrogénios que pareceram exageradas. “Químicos” à solta nos nossos bolsos e ambiente? Calma! O primeiro caso parece que è devido às máquinas de contar (uma única nota com cocaína pode contaminar milhares de outras) e no segundo, afinal os estrogénios mostraram ser essencialmente de origem natural e não provenientes de contraceptivos como se supôs (pode ser preocupante, mas a sua origem é natural). Um cisco ao microscópio pode parecer assustador, mas não passa de um cisco. Existem milhões de compostos, mas isso não torna o mundo mais assustador, pois a maior parte destes, ou faz parte de seres vivos, ou é fundamental à nossa vida, ou é inoqua.

Diga-me então meu amigo se não concorda que ser feito de milhares de químicos diferentes é uma coisa natural e boa e que, se estes não existissem, o meu amigo não estaria aqui para se queixar da química sem pensar bem no que está a dizer?

[Embora a notação científica seja muito prática e de conhecimento comum, optei por apresentar os números com todos os seus zeros para realçar a sua dimensão. As estimativas foram feitas (em parte) a partir de dados obtidos aqui, aqui e aqui (acedidos 30 de Março de 2015). Só para dar um exemplo: a estimativa do número proteínas no corpo humano é de cerca de 50 000; como numa bactéria E-coli existam 5 000 compostos orgânicos, dos quais 3 000 são proteínas, a estimativa para um ser humano será de cerca 80 000 compostos orgânicos diferentes.]

segunda-feira, 30 de março de 2015

Saberás tu?

O jornal I , com o apoio do Ciência Viva, tem publicado na última página questões curiosas de ciência com as respectivas respostas de cientistas. Consulte a lista de perguntas e respostas aqui.

Ciência e tecnologia nas notícias, 1854-1929.


Informação recebida da investigadora Maria Antónia Pires de Almeida:

Este novo  livro apresenta os resultados da investigação sobre a divulgação da Ciência e da Tecnologia a um público não especializado. O objetivo foi descobrir como o conhecimento científico chegava ao público em geral e a principal fonte utilizada foi a imprensa generalista, com a qual se pretendeu construir uma imagem da popularização da Ciência em Portugal. Foram recolhidas mais de 6700 notícias, artigos desenvolvidos e anúncios, com os quais se construiu uma base de dados sobre temas do conhecimento científico e tecnológico da segunda metade do século XIX e início do XX. Os temas da saúde e da higiene surgiram como o principal fator de interesse nos jornais consultados, já que os anos escolhidos foram marcados por crises sanitárias particularmente graves, nos quais se manifestaram em Portugal, e especialmente no Porto, epidemias de cólera, peste bubónica, febre tifoide, gripe pneumónica e varíola, o que teve como consequência uma maioria significativa de 64% destes temas no conjunto das notícias e anúncios sobre ciência e tecnologia. A análise desta questão foi desenvolvida na obra Saúde pública e higiene na imprensa diária em anos de epidemias, 1854-1918, Editora Colibri, 2013. O presente livro é sobre os outros 36%. Continua-se aqui a análise das notícias sobre Ciência e Tecnologia e apresenta-se em anexo a totalidade da base de dados construída, com imagens.


COISAS DO ARCO DA VELHA


Meu artigo no último "As Artes entre as Letras" (quadro do pintor neoclássico austríaco Joseph Anton Koch, mostrando uma oferenda de Noé a Deus no fim do Dilúvio) :

Neste Ano da Luz vale a pena falar do arco-íris. Este fenómeno atmosférico tem descrições muito antigas. Uma referência aparece no Génesis (9, 12-16):

“E disse Deus: Este é o sinal do pacto que firmo entre mim e vós e todo ser vivente que está convosco, por gerações perpétuas: O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver um pacto entre mim e a terra. E acontecerá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e aparecer o arco nas nuvens, então me lembrarei do meu pacto, que está entre mim e vós e todo ser vivente de toda a carne que está sobre a terra.

Esta citação explica por que razão em português arcaico se chama ao arco-íris “arco da velha”: Por velha subeentende-se a velha aliança entre Deus e os seres vivos segundo a qual o Dilúvio não se voltará a repetir. Coisas do arco da velha, por extensão, são coisas extraordinárias. O arco-íris aparece também na cultura popular: de acordo com a lenda irlandesa existe um pote de ouro num extremo do arco-íris. De facto, esse pote é uma quimera, pois o arco-íris não passa de uma imagem. Se nos tentarmos aproximar de uma ponta do arco-íris verificaremos que ela é etérea: mantém-se à mesma aparente distância.

O arco-íris é uma imagem da luz do Sol, intermediada por numerosas gotas de chuva (uma torneira de rega também serve). Para haver arco-íris o dia tem de estar chuvoso, mas ao mesmo tempo tem de fazer Sol: o Sol fica por trás do observador quando ele vê o arco-íris. Se no tempo do anónimo escritor bíblico o arco-íris era um sinal divino, hoje sabemos que não passa de um fenómeno natural. A luz do Sol entre numa gota, é reflectida internamente na parede fronteira da gota e sai desta. Um raio de luz muda ligeiramente de direcção ao entrar (fenómeno conhecido por refracção), reflecte-se na parede do fundo e muda de novo ligeiramente de direcção ao sair. O arco-íris resulta de duas refracções e de uma refracção em cada gota. Se o Sol estiver demasiado alto, como acontece ao meio-dia, não haverá meio de a luz entrar, ser reflectida e chegar aos olhos de um observador à superfície da Terra (embora um arco-íris possa ser visto por um observador a bordo de um avião, que poderá mesmo ter o privilégio de ver um arco circular completo, ao contrário de um observador terrestre que não verá mais do que meio arco).

Esta explicação foi dada por um monge dominicano alemão Teodorico de Freiberg, no início do século XIV, embora o persa Qutb al-Din al-Shirazi  tenha chegado quase ao mesmo tempo à mesma conclusão. Os dois, sem qualquer contacto entre eles, conheciam as obras antigas dos gregos (principalmente Aristóteles) e dos árabes (o mais famoso Ibn Al-Haytham, cujo tratado de óptica data de há um milénio). E os dois experimentaram a refracção com o auxílio de vasos esféricos de água.

Uma teoria mais elaborada da refracção, com uma lei matemática precisa, foi proposta pelo francês René Descartes na obra Dióptrica que aparece em apêndice ao Discurso do Método de 1637. Se o livro era considerado um meio de encaminhar a razão de modo a não errar, o apêndice fornece exemplos de aplicação. Chama-se em França lei de Descartes à descrição cartesiana da refracção, mas no resto do mundo chama-se – e  justamente – lei de Snell-Descartes ou simplesmente lei de Snell, porque, em rigor, o holandês Willebrord Snellius antecipou essa lei (discute-se ainda hoje se Descartes teria tido conhecimento ou não do trabalho de Snell), Uma famosa figura no livro do Discurso do Método apresenta a descrição basicamente correcta do fenómeno do arco-íris.

E porquê as cores do arco-íris, supostamente sete, mas de facto em número infinito, pois a cor vai variando continuamente no arco-íris do vermelho em cima para o violeta em baixo? Pois foi Newton o primeiro a oferecer uma explicação razoável: para ele a luz era formada por corpúsculos e estes, dependendo da cor, andariam com velocidade diferente, dentro de uma gota de água. Cerca de 1666 o inglês Isaac Newton efectuou experiências com um prisma, que ele próprio poliu, de modo a criar um arco-íris em sua casa. Para ele as cores estavam contidas na luz branca (na luz branca existiriam, portanto, partículas vermelhas e violetas), não tendo origem no prisma, que apenas as separava. Newton, ao tentar ver o que acontecia quando a luz vermelha passava por um segundo prisma, verificou que esta não se desdobrava em mais cor nenhuma. O branco contém as cores todas, mas o vermelho já é uma cor elementar. A diferença entre os ângulos de entrada e saída da luz branca e de raios violeta e vermelho numa gota é de, respectivamente, 40º e 42.º Um observador verá o vermelho de uma gota mais acima e o violeta de uma outra gota mais abaixo no céu. Cada observador vê o seu arco-íris, pois ele é uma miragem individual: Outro observador, apesar de ver algo parecido, estará a receber os raios vindos de outras gotas. De certo modo, cada observador é o centro do seu próprio arco-íris, pelo que o leitor quando voltar a ver um arco-íris lembre-se que ele é apenas seu.

Apesar da matematização do arco-íris, ele continuou a maravilhar os seus mirones. Mas houve quem reagisse à sua captura pela ciência. Em 1820, quando a reacção romântica se erguia contra a acção iluminista, o inglês John Keats escreveu o poema:

“Todos os encantos não se vão
Ao mero toque da fria filosofia?
Existia um maravilhoso arco-íris no firmamento:
Conhecemos a sua trama, a sua textura, aparece
No frio catálogo das coisas comuns.
A filosofia podará as asas de um Anjo,
Decifrará os mistérios por instrumentos,
Esvaziará o encanto do ar e o tesouro escondido –
Desvendará o arco-íris.”

Julgo que não tinha razão, pois a ciência acrescenta ao encanto estético do arco-íris o encanto da sua compreensão.

domingo, 29 de março de 2015

Charlie Don't Surf...



Em júbilo e orgulho, chegaram ao fim os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito ao caso BES, ou mais rigoroso, caso GES. Os jornalistas festejam o aparecimento de "novas estrelas” da vida parlamentar que, para os jornalistas, lhes deu a oportunidade de publicarem em orgãos de informação internacional como a Bloomberg ou o Financial Times. E, como em quase tudo o que acontece quando o estado português se envolve, o resultado é uma grotesca asneira com consequências enormes para o futuro do país e de milhares de famílias associadas a pequenos investidores, no GES e na PT.

Da esquerda à direita, nenhum dos deputados envolvido imagina o que seja um banco. Mesmo aqueles que se orgulhavam de “terem estudado os aspectos técnicos” fizeram uma enorme figura de parvo de frente a gestores várias vezes mais inteligentes que eles e substancialmente mais espertos. Os media festejaram em júbilo o facto de uma jovem deputada ter chamado de “amador” um antigo CEO da PT por este ter a liquidez demasiado concentrada no GES quando era óbvio para qualquer pessoa ligada ao tema que o problema estava longe de ser esse. Reduzir a questão à concentração é uma estupidez como há poucas. Aliás, o sujeito estava com aquele ar de não acreditar a sorte que estava a ter e, mantendo a regra que qualquer pessoa inteligente segue, se a coisa estava a favor dele, porquê interromper? “Amador” era mesmo o melhor que lhe podiam chamar e, estou certo, ainda hoje deve estar a rir às bandeiras despregadas. Questionaram-se vários reguladores para se perceber se tinham regulado bem e estes, como bons amanuenses, só tinham a responder que cumpriram com todas as regras e mais algumas. Mas ninguém se questionou se o problema poderia estar nas regras. E as regras vão continuar até ao próximo caso...

O serviço que os deputados fizeram ao país foi fazerem uma lavagem aos envolvidos, meter uma camada de terra por cima dos reais problemas  e causas, garantindo que daqui a uns anos estarão a fazer a comissão de inquérito ao Qualquer Coisa, depois de terem feito a do BES e a do BPN. Porquê? Porque se resolveram substituir a centenas de profissionais, a quem nós pagamos para serem especialistas do assunto, para aparecerem nos telejornais a falarem de um assunto que não sabem, confrontando pessoas muito mais inteligentes e muito experientes que eles. Para o português normal, que sabe tanto do assunto como os próprios deputados, a coisa até não correu mal. Para os envolvidos na cabeceira da mesa, foi um sucesso. Afinal, no meio de centenas de processos a que provavelmente poderiam estar a responder nesta altura, que vão desde crimes bancários no âmbito do BES a abusos de confiança no âmbito da PT, ser chamado de “amador” não se pode dizer que seja exactamente mau.

Achar que ler uma porcaria de um pdf do site do Banco de Portugal, dá para confrontar um gestor com duas décadas de experiência à frente de uma boa percentagem do PSI20 ou um regulador com milhares de pessoas, é bem pior que achar que consegue pilotar um A380 só porque teve um primo piloto. E uma coisa pode o país agradecer a estes voluntariosos deputados. Vamos ter mais comissões destas e mais famílias a protestar nas ruas pelas poupanças perdidas. Só porque resolveram ler uns pdfs e estragar o trabalho dos profissionais que deveriam estar eles a investigar os casos sem este festim à volta.

sábado, 28 de março de 2015

O fumo faz mal porque tem mais de 70 compostos cancerígenos e não porque tem mais de 7000 químicos!

 
Fumar faz mal à saúde de quem fuma e de quem está perto. Por isso a campanha iniciada recentemente pela Direcção Geral de Saúde é muito meritória e oportuna. Infelizmente, nalguns dos cartazes e anúncios é usada uma argumentação falaciosa que contém ideias preconceituosas sobre uma entidade mítica que é senso comum actualmente chamar químicos.

O fumo é mau para a saúde porque contém mais de 70 químicos comprovadamente cancerígenos e não porque tem mais de 7000 químicos!

As laranjas, as mangas ou as ervilhas que comemos têm tal como o tabaco centenas ou milhares de químicos, a maior parte de origem natural, mas estes, felizmente, não são na generalidade cancerígenos nem tóxicos nem nocivos, embora alguns desses compostos naturais possam causar alergias, intolerâncias, ou ser, nalguns casos, suspeitos de serem cancerígenos. Para além disso, não os consumimos completamente queimados, nem inalamos o fumo dessa combustão. Se o fizessemos também seríamos expostos a milhares de compostos cancerígenos, neste caso provenientes do fumo das laranjas, mangas ou ervilhas!

Todos os materiais naturais contêm milhares de compostos e o facto de serem naturais não os torna melhores ou piores: os compostos mais venenosos e perigosos são naturais. O mais tóxico de todos é a toxina do botulismo, usado no conhecido botox. O fumo resultante da combustão de produtos naturais é um produto natural, mas infelizmente, no fumo estão presentes muitos compostos cancerígenos.   

O tabaco e o seu fumo têm sido - como é bem sabido - dos materiais mais estudados; por isso conhecemos os tais milhares de químicos. Mas volto a dizer, o problema não é serem químicos, mas sim serem químicos cancerígenos e nocivos que resultam da combustão do tabaco e da presença da nicotina e de outros alcalóides!

A niticotina, por exemplo, que muitos acreditam ser um composto que não causa danos, sendo, supostamente, responsável apenas pelo vício, é um insecticida natural que embora não nos mate provoca, com o seu consumo continuado, alterações fisiológicas e mais danos do que se pensa. E a nicotina queimada no tabaco, ou acidificada de alguma forma, vai originar derivados ácidos que são ainda mais nocivos e reconhecidos como cancerígenos. Para além disso, o fumo do tabaco ou da combustão de qualquer outra planta tem milhares de compostos poliaromáticos (designados muitas vezes como alcatrão), os quais são extremanente cancerígenos.São esses compostos que se acumulam nos dedos, móveis e paredes das casas com a característica cor castanha. Sim, são muito cancerígenos, mas não apenas porque são químicos, mas sim porque se confirmou experimentalamente que provocam tumores, porque se ligam ao DNA e provocam um elevado número de mutações que eventualmente podem conduzir ao aparecimento de cancro passados anos.

Conheci várias pessoas que morreram com um tipo de cancro do pulmão que é específico do fumador e uma delas era apenas fumadora passiva. O fumo faz mal e provavelmente ainda fará pior às crianças por estarem em desenvolvimento. Por isso apoio a campanha, mas não posso aceitar a sua argumentação falaciosa e preconceituosa.

Assim, peço aos autores da campanha que mudem o texto para "muitos dos mais de 70 compostos comprovadamente cancerígenos presentes no fumo do tabaco" e ficará correcto, mantendo-se a importante mensagem.

Em qualquer dos casos recomenda-se o abandono do fumo pois, como é bem conhecido, é caro e nocivo. E se não se abandonar o fumo, pelo menos que não se fume junto de outras pessoas.

Mas também não se recomendam as máquinas de fumar. Estas podem não gerar fumo cancerígeno no sentido clássico, mas a nicotina e os seus derivados, assim como outros compostos que lá sejam colocados (e não nos dizem, em geral, quais são), também podem causar problemas!

[corrigi a expressão vaga "milhares de compostos cancerígenos" para um valor mais correcto e comprovável "mais de setenta compostos comprovadamente cancerígenos"; Mais informação aqui, aqui e aqui.]

sexta-feira, 27 de março de 2015

2015 – ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Transcrevo, com a devida vénia, o seguinte texto da autoria da Direcção da Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo que foi publicado primeiramente na imprensa regional através do projecto "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".



Para lembrar um recurso vital e frequentemente esquecido
A importância do solo para as sociedades humanas e para o nosso modo de vida levou as Nações Unidas a declararem 2015 – Ano Internacional dos Solos. A urbanização crescente e a evolução tecnológica tendem a fazer-nos esquecer deste recurso e das ameaças a que está sujeito. Segundo a FAO o solo fornece 99% de toda a biomassa produzida no mundo, para a alimentação humana e animal, para a produção de fibras vegetais com múltipla aplicações industriais, bioenergia, produtos bioquímicos, produtos farmacêuticos e outros. Este dado, só por si, revela bem a nossa dependência avassaladora deste recurso, praticamente tão vital como o ar e a água.

Mas o que é o solo? A palavra ‘solo’ é aplicada em muitas situações, por vezes só para referir o chão. Porém, o solo tem espessura, é uma cobertura de material solto (mineral e orgânico) existente à superfície da terra, que serve de meio natural para o crescimento das plantas e de muitos outros organismos.

A par da produção de biomassa, os solos desempenham outras funções (e serviços para a humanidade) que os tornam indissociáveis da evolução da vida terrestre e das sociedades humanas em particular: intervêm nos ciclos de renovação da vida, como os ciclos da água, do carbono e do azoto, para referir apenas os mais relevantes para o clima e as alterações climáticas; têm dos maiores níveis de biodiversidade da Terra – neles vivem inúmeras espécies de organismos, macro e microscópicos, na sua maioria ainda desconhecidos; guardam vestígios de enorme interesse científico, cultural, artístico e até religioso.

É comum desvalorizar a nossa dependência do solo, assumindo que é um recurso abundante e imutável. Todavia, o solo é um recurso finito. Aliás, é cada vez mais reduzida a parcela de solo arável (adequado para culturas anuais e prados temporários) por habitante. E prevê-se que continue a diminuir, dos quase 0,25 ha actuais, para menos de 0,2 ha em 2050 (a par do aumento da população de 7 para mais de 9 mil milhões de habitantes). Em Portugal já só temos 0,1 ha de solo arável por habitante, um dos valores mais baixos da Europa. O solo também não é imutável. Embora se forme muito lentamente – demora 1 000 a 2 000 anos para formar apenas 10 cm de solo – pode sofrer uma degradação muito rápida, por vezes em horas ou minutos, por deslizamentos e enxurradas associados a chuvas mais intensas.

Mas processos de degradação mais prolongados são igualmente graves porque, sem vigilância ou monitorização, podem ser evidentes tarde de mais. A União Europeia reconheceu as seguintes ameaças aos solos da Europa: selagem (impermeabilização ou pavimentação), erosão (pela água e pelo vento), perda de matéria orgânica, perda de biodiversidade, compactação, salinização, contaminação (por poluição concentrada e difusa), cheias e deslizamentos. Todas estas formas de degradação têm origem humana, associadas a muitos tipos de usos do solo.

Uma vez degradado, a recuperação de um solo pode demorar várias gerações, por isso tem de ser considerado um recurso natural não renovável. Também não é razoável admitir que a evolução tecnológica encontre outros recursos capazes de substituir as funções do solo. A ciência e a tecnologia são sim, indispensáveis para promover o uso e a gestão sustentável do solo e prevenir todas as formas de insegurança a médio-longo prazo, nomeadamente as decorrentes das alterações climáticas. Mas, para ser eficaz, é preciso que cada vez mais cidadãos adoptem uma atitude ética inspirada nos melhores agricultores do passado, que procuravam legar aos descendentes terras tão ou mais férteis do que as que tinham recebido dos seus antepassados.

Ao longo de 2015 a SPCS participa na promoção do Ano Internacional dos Solos com um conjunto de acções que vão sendo divulgadas em www.spcs.pt.


Direcção da Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo (SPCS)

quinta-feira, 26 de março de 2015

A campanha eleitoral está de volta. É altura de a CGD a construir

Sou eu que tenho mau feitio ou é isto é a CGD a fazer a campanha eleitoral do PSD/CDS?



Não há nenhum produto publicitado. Nenhuma conta, nenhuma linha de crédito, nada. É feita uma referência indirecta à evolução da taxa de desemprego e até à decisão de um casal ter filhos, supondo-se que se vive em Portugal um ambiente de grande optimismo.

Vota CGD!!

A LUZ EM LOULÉ


Anúncio e resumo da minha palestra hoje à noite na Câmara Municipal de Loulé integrada no ciclo “Horizontes do Futuro”

“Haja Luz! A Luz quando nasce é para todos?” é o tema que o físico Carlos Fiolhais irá abordar em Loulé, no âmbito do ciclo de conferências “Horizontes do Futuro”, no próximo dia 26 de março, quinta-feira, pelas 21h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
Resumo:

Por determinação da UNESCO e da ONU, em 2015 celebra-se em todo o mundo, incluindo Portugal o Ano Internacional da Luz. A luz é o fenómeno físico ao qual devemos a vida  (sem a luz, portadora de energia,  vinda do Sol não poderia haver vida na Terra) e o nosso conhecimento do mundo (tanto através da luz visível como luz invisível). A luz, de modo muito claro nos dias de hoje, é também tecnologia, que torna a vida mais confortável:  Mas a luz é também uma metáfora de  entendimento, razão e verdade.  Luz pode ainda significar o bem, como na  "metáfora do Sol" de Platão. Ao chamar a atenção para a luz,  neste Ano da Luz, pretende-se não só que haja maior consciência do fenómeno como um melhor aproveitamento da luz para benefício da nossa vida comum no planeta. Com vários exemplos da história e da cultura, o orador irá mostrar o enorme poder que a luz tem tido de concitar a atenção dos seres humanos. Num simples arco-íris, por exemplo, há muita ciência ao mesmo tempo que há também arte e poesia.

ESSE PAÍS NÃO É O MEU

A Professora de Economia em França Cristina Sambiano publicou um artigo no PUBLICO de hoje onde comenta a lamentável "magistratura" do Presidente da República, em breve a ser substituído para nosso alívio. Destaco o que diz essa emigrante de segunda geração sobre a nova torrente de emigração, agora de jovens qualificados que o actual governo abandonou à sua sorte:

 "Como é que esses novos emigrantes, a população estrangeira mais numerosa a chegar actualmente a França e a quem o jornalista Giv Anquetil consagrou a sua reportagem para o programa de France Inter do passado dia 14, Comme un bruit qui court, poderão acolher o discurso de um Presidente que diz aos emigrantes que Portugal é um país bom para investir, bom para os franceses se irem instalar, bom para irem passar férias (recordando que, no ano passado, um milhão de franceses visitou o país) e pedindo-lhes que sejam os embaixadores desse país, que o aconselhem aos vizinhos, aos colegas de trabalho, aos amigos? Será que eles, filhos de um país de que foram expulsos, poderão gabar os seus atractivos a terceiros?

 Seguramente não, nem a Elisabete, professora de Inglês a exercer a profissão de porteira em Paris, para “poder acudir às necessidades dos fi lhos, dar-lhes uma educação e pagar a casa em Portugal”, nem a Sofia, filha de emigrantes, nascida em França, que havia decidido ir viver em Portugal e que, dez anos depois, foi obrigada a regressar, nem a Rosa, que acumulava dois trabalhos, um dos quais num bar, à noite, que paga 2,5 euros à hora, não declarados, “porque quando se precisa aceita-se tudo”, seguramente nenhum deles se reconhece nem no país próspero de que falou o Presidente, nem na emigração portuguesa de sucesso a que ele se dirigiu. Não, esse país não é o meu, nem essa emigração existe."

Cristina Sambiano (Economista, lecciona Economia Portuguesa na Universidade de Paris IV — Sorbonne; autarca na região de Pari)"