4) Não se consegue controlar a captação de imagens por parte dos alunos, nem a sua publicação (por isso defende a proibição do uso de telemóveis nas escolas, tê-lo-á feito antes?);
De Rerum Natura
A natureza das coisas
sábado, 7 de março de 2026
NÃO É POSSÍVEL!
4) Não se consegue controlar a captação de imagens por parte dos alunos, nem a sua publicação (por isso defende a proibição do uso de telemóveis nas escolas, tê-lo-á feito antes?);
UM DESPACHO (QUE TEM DE SER) PARA TODOS
A repetição é motivada pelo facto de ter sabido, pelo Diário de Notícias, que, na sequência do caso da entrada de influencers em escolas, o mesmo Ministério publicou um despacho que a jornalista Cynthia Valente explica:
"vai criar um grupo de trabalho para elaborar orientações dirigidas às escolas sobre a proibição de atividades consideradas contrárias aos fins das instituições educativas. Esta medida surge após ter sido tornado público que 79 escolas públicas receberam, nos dois últimos anos letivos, influenciadores digitais que promovem nas suas redes sociais conteúdos sexuais e misóginos (...).
O despacho surge num contexto em que, segundo o ministério, a crescente diversidade de iniciativas nas escolas tem originado situações consideradas problemáticas (...) este tipo de situações pode comprometer a integridade, a neutralidade e a segurança do espaço escolar, além de colidir com os valores éticos e de respeito mútuo que devem orientar a comunidade educativa (...).
O MECI pretende reforçar as responsabilidades dos órgãos de direção e gestão das escolas, em particular dos diretores, a quem compete gerir os espaços e autorizar atividades nas instalações escolares.
Ainda que não veja necessidade de um despacho para algo que é óbvio, estou de acordo com a sua letra: as entidades e pessoas que não se pautem pelos princípios referidos não podem entrar na escola pública.
O problema é que, como disse em textos anteriores, além dos influencers há as fundações empresariais, as empresas da mais diversa espécie, ONG de fachada, partidos políticos, igrejas... sem esquecer as suas combinações. Não são apenas os primeiros que devem ser impedidos de entrar na escola, mas todos os os stakholders cujos interesses particulares dissolvem e contrariam a função educativa da escola.
O representante de uma entidade que integrará o "grupo de trabalho" disse (recorro ao que consta na notícia):
“Foi um pedido que fizemos ao ministro e é positiva a criação deste grupo de trabalho, até para clarificar esta situação de quem pode ou não entrar e em que circunstâncias nas nossas escolas”.
Muito bem. Espero que faça valer esta preocupação no grupo e não a restrinja aos ostensivos influencers. Outros stakholders mais sóbrios provocam danos equivalentes nos alunos e na escola pública.
sexta-feira, 6 de março de 2026
O "SILÊNCIO ANTROPOLÓGICO"
"Hoje, observa-se uma indeterminação crescente quanto à definição do que é um ser humano, ou seja, quanto à questão antropológica. Essa é uma questão fundamental para quem se interessa pela educação. O que é que os discursos sobre a educação nos dizem sobre o homem?
Num primeiro momento, interrogam-se as pedagogias “tradicionais” e “novas”, que repousam sobre discursos sobre a natureza humana. A seguir, constata-se que não existe hoje uma pedagogia “contemporânea”, com uma dimensão antropológica, mas bricolagens pedagógicas numa lógica socioeconómica da performance e da concorrência.
Depois, esboça-se, do ponto de vista antropológico, a análise de alguns discursos contemporâneos sobre (…) a “neuroeducação”, a “cibercultura”, o “transhumanismo” [que] possibilitam entender que o ser humano é uma aventura singular e colectiva e sonhar numa educação da solidariedade e da dignidade que contribua com a luta contra a barbárie.
A pedagogia “tradicional” e a pedagogia “nova” repousam sobre bases antropológicas: elas definem uma natureza humana e determinam a partir dela como deve ser a educação (…).
Na sua versão religiosa, a “pedagogia tradicional” considera (…) que a natureza humana foi corrompida pelo pecado original e, logo, a criança nasce corrupta (…). Contudo, a Bíblia ensina também que Jesus veio para salvar os homens e, além do mais, a corrupção ainda não está profundamente enraizada na alma da criança. Portanto, podemos lutar contra a natureza corrupta da criança, pela regra, pela norma, pela disciplina, resumidamente: pela educação. A “pedagogia tradicional” é, fundamentalmente, uma pedagogia da Norma contra o Desejo – logo, contra o corpo e a emoção, que são as fontes do desejo.
A versão laica e iluminista da pedagogia tradicional mantém (…) a mesma visão da natureza humana e da criança, embora não fale mais de pecado e de corrupção, mas de selvajaria e de indisciplina. “A disciplina transforma a animalidade em humanidade”, escreve Kant (…) e, novamente, o corpo é o inimigo: a primeira coisa que as crianças devem aprender na escola, explica Kant, é “acostumarem-se a ficar sentadas tranquilamente, obedecendo exatamente ao que lhes foi ordenado” (…).
Durkheim dá forma social e republicana a essa pedagogia: “a educação tem por objeto superpor, ao ser que somos, ao nascer, individual e associal, um ser inteiramente novo” (…); é o sentimento “da disciplina interna ou externa (que) foi instituído pela sociedade”, que “nos ensina a dominar as paixões, os instintos” (…). Na versão republicana [a criança é] um ser de Razão e de Progresso, futuro cidadão. É importante entender que se reprimem os desejos da criança não por sadismo ou autoritarismo, mas para elevá-la. Com efeito, a natureza da criança é dupla (…), por um lado, é uma natureza corrupta ou selvagem, mas, por outro lado, [tem abertura] para salvar a sua alma, ou ser reconhecida na sua dignidade, de tornar-se adulta.
A corrente pedagógica chamada “nova” repousa também sobre uma antropologia da natureza humana, mas (…) a partir de pressupostos rousseunianos, românticos e, às vezes, médicos A criança é fundamentalmente boa, inocente, pura e, portanto, podemos e devemos confiar nos seus interesses naturais, na sua espontaneidade, nos seus desejos. Contudo, essa natureza sofre as interferências dos adultos; “a idade adulta é a cristalização, a petrificação”, explica Claparède (…). A “pedagogia nova” é uma pedagogia do Desejo contra a Norma adulta. Todavia, bem como a pedagogia tradicional da Norma não pode desistir de todas as formas de desejo, a pedagogia nova do Desejo não consegue prescindir da norma (…).
Quer seja “tradicional” ou “nova”, a pedagogia clássica é construída sobre fundamentos antropológicos que dizem o que é e o que deve ser o Homem e, logo, o que é e como deve ser educada a criança (…).
Quando não há mais resposta à questão antropológica, ou, pior ainda, quando já não é sequer levantada, a porta está aberta para a barbárie. Podemos tratar seres humanos como se fossem objetos incómodos, suscetíveis de serem eliminados (…).
A barbárie desenvolve-se quando não reconhecemos o ser humano como aventura singular e coletiva, quando tratamos como objeto, máquina, computador ou fantoche religioso ou ideológico esse extraordinário organismo biopsicocultural e histórico que um ser humano é.
O antónimo de barbárie é educação, com os valores de solidariedade e de dignidade que possibilitam a aventura humana, nas suas formas universais, culturais e singulares.
Numa sociedade da solidariedade e da dignidade, o que queremos transmitir e ensinar aos jovens? Qual património, quais forças criativas, quais formas de ser um ser humano, quais relações entre a nossa comum humanidade e as diferenças culturais construídas ao longo da história, quais formas de prazer (já que o prazer também se ensina), quais normas?
Quais práticas sociais e pedagógicas contra-hegemónicas podem produzir solidariedade e dignidade numa sociedade cuja lógica dominante é da concorrência generalizada?
Nas nossas escolas, quais práticas (…) são humanas e quais são formas bárbaras de tratar os alunos? E de tratar os professores?
Afinal de contas, qual é nossa antropologia pedagógica prática? A do mais forte e do predador ou a da construção coletiva e solidária de humanidade?"
quarta-feira, 4 de março de 2026
TUDO ISTO É MUITO, MUITO MAU!
A minha dúvida mantém-se (ver aqui): haverá um inquérito porque a "prestação" destes "agentes", é manifestamente deseducativa ou porque, convencidos de que não tinham agido mal, falaram aos jornalistas?
A "responsabilidade" aqui em causa é de escrutinar devidamente quem pode e quem não pode interagir com os alunos ou é de nada dizer do que se passa na escola quando se é interpelado por profissionais, como os jornalistas, cujo dever é informar acerca do que se passa na sociedade e, também, na escola? Fico na dúvida...
Em acréscimo, leio que o Ministro da tutela diz ser "responsabilidade das escolas o controle de quem entra na escola - e isso está previsto na lei -, e só podem entrar em atividades que estão devidamente inseridas naquilo que é a [sua] missão". Ora, parece-me bem claro (tendo em conta a Constituição da República e a Lei de Bases do Sistema Educativo) que a missão da escola é educar, não é doutrinar, não é influenciar, não é fazer seguir ideologias. Cito:
"O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas".
Portanto, e usando as palavras do Ministro, há que "proteger o espaço escolar da entrada de entidades ou indivíduos que não têm legitimidade de entrar e que perturbam o processo educativo e a formação das crianças e jovens". Não podia estar mais de acordo com esta declaração, sublinhando que ela é válida para todas as entidades que, descaradamente, entram na escola com fins interesseiros, sejam eles políticos, ideológicos, religiosos ou outros. Refiro-me a fundações empresariais, empresas da mais diversa espécie, ONG que não o são, partidos políticos, igrejas... sem esquecer as suas combinações!
Noto, de resto, que os influencers de que agora se fala surgiram na escola a reboque das campanhas de associações de estudantes nas quais interferem partidos políticos.
Não pergunto o que é pior, porque... é tudo muito mau!
terça-feira, 3 de março de 2026
FAZER O QUE ESTÁ CERTO QUE SE FAÇA
No dossier, que pode ser encontrado aqui, além do esclarecimento que explica essa proibição, reúnem-se testemunhos, pareceres e exemplos de situações, incluindo situações escolares, em que as crianças são expostas a esse tipo de músicas.
segunda-feira, 2 de março de 2026
OS QUE FALARAM... NÃO DEVIAM TER FALADO?
Na continuação do texto: Juntam-se influencers a outros influenciadores na deseducação escolar pública.
João Pinhal, um dos jornalistas que investigou a entrada de influencers nas escolas portuguesas, refere que a equipa do jornal Público contactou, sem sucesso, cinco vezes o Ministro da Educação, Ciência e Inovação. Questionado hoje sobre o que pensa fazer no respeitante à situação, disse que
"não descarta uma investigação da Inspecção-Geral da Educação e Ciência às escolas que permitiram a entrada de influenciadores que fazem negócio com a sexualização das crianças". No entanto, (...) remeteu a responsabilidade destas situações para as direcções das escolas (…). "Quem está no território, sejam as direcções das escolas, sejam as autarquias, é que tem a responsabilidade pela segurança e por aquilo que se passa na escola”. E acrescentou: “penso que a inspecção já estará a olhar para as escolas que foram identificadas e os directores que falaram.”
Tem razão o Ministro numa parte do que disse: nenhum director, nenhum professor, nenhum adulto que esteja na escola deve permitir, tolerar, ficar calado com a entrada de tais sujeitos. Noto, porém, que tais sujeitos são "apenas" os mais recentes e talvez, aos olhos comuns, os mais chocantes pela boçalidade que demonstram, mas as sofisticadas fundações empresariais, empresas, ONG de fachada, partidos políticos são igualmente nocivas e têm de ter o mesmo tratamento. Ora não é isso que vemos por parte da tutela, que tão bom acolhimento dá a estas entidades.
Preocupante é se a Inspecção: 1) só vá escrutinar a situação denunciada, deixando essas outras de fora; 2) só faça isso por causa de uma investigação jornalística; 3) se restrinja às escolas identificadas (muitas outras deixaram fazer o mesmo); 4) e, pior, só indague os "directores que falaram". Deste último aspecto, se tirará a ilacção de que o silêncio é a atitude mais vantajosa (para o próprio) quando algo corre muito mal.
Entretanto, a Federação Nacional de Educação (FNE) divulgou a sua posição relativamente ao que foi divulgado (ver aqui), sublinhando o que também sublinhei: o respeito por critérios (realmente) educativos quando se trata de abrir as portas da escola pública a entidades e pessoas que lhe são externas.
"A Escola é um espaço de formação integral, de proteção e de desenvolvimento saudável. Não pode, em circunstância alguma, ser transformada em palco de promoção comercial, captação de seguidores ou difusão de conteúdos que coloquem em causa o superior interesse das crianças.
Perante a gravidade das situações noticiadas, a FNE considera imprescindível que sejam adotadas medidas claras, uniformes e vinculativas a nível nacional:
- Definição de critérios obrigatórios e transparentes para a entrada de agentes externos nas escolas, incluindo avaliação prévia do conteúdo e dos objetivos pedagógicos das iniciativas;
- Proibição inequívoca de qualquer forma de exploração comercial de alunos ou utilização da sua imagem em contexto escolar;
- Responsabilização institucional clara quanto à autorização e acompanhamento destas atividades;
- Reforço da formação em literacia digital para docentes e alunos, promovendo pensamento crítico e consciência dos riscos associados à exposição nas redes sociais;
- Intervenção imediata do Ministério da Educação, com averiguação das situações denunciadas e emissão de orientações nacionais vinculativas.
A autonomia das escolas é um valor essencial, mas não pode ser confundida com ausência de regulação quando está em causa a proteção de menores. A liberdade pedagógica deve coexistir com responsabilidade institucional e com salvaguardas claras.
A FNE reafirma que a proteção integral das crianças é um princípio inegociável.
A escola deve permanecer um espaço seguro, livre de pressões comerciais e de qualquer forma de instrumentalização da infância.
A Federação acompanhará este processo com exigência e firmeza, defendendo sempre a dignidade da Escola Pública, da profissão docente e dos direitos das crianças."
domingo, 1 de março de 2026
JUNTAM-SE INFLUENCERS A OUTROS INFLUENCIADORES NA DESEDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA
"Todos querem alguma coisa da educação:
os governos querem alguma coisa da educação,
a economia, a indústria, os políticos”, por isso
“é preciso resistir às investidas de dissolução da escola,
dos fins que deve perseguir, conhecimento que veicula,
do trabalho do professor e da possibilidade de aprendizagem”.
Gert Biesta, 2024, p. 4
Saiu hoje no jornal Público uma reportagem sobre a entrada de "influenciadores" nas escolas portuguesas. É uma longa reportagem, assente num trabalho demorado e aprofundado que um grupo de jornalistas, em boa hora, decidiu fazer.
Pessoalmente, gostaria que o resultado do trabalho jornalístico em causa tivesse esse efeito construtivo. Pode ser que tenha.
_____________________Biesta, G. (2024). Desinstrumentalizando la educación. Teoría de la Educación. Revista Interuniversitaria, 36(1), 1-12. https://doi.org/10.14201/teri.31487
domingo, 8 de fevereiro de 2026
A ALMA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA EM RISCO
Desse longo artigo extraí as passagens, que me pareceram mais relevante para pensar sobre a adopção da IA na educação, em geral, e na universitária, em particular, independentemente do país ou instituição de referência. Muitas das ideias que nele constam estarão no nosso horizonte.
Primeiro veio o pânico. Nas reuniões do corpo docente viu-se pavor: «Como vamos agora detectar o plágio?», «Devemos voltar aos cadernos e às provas supervisionadas?» Os meus colegas) comportavam-se como se a fraude tivesse sido acabada de inventar. Porém, quase da noite para o dia, a sua ansiedade tomou campus como cogumelos após a chuva. [O espírito] era de aceitação resignada: «Se não podes vencê-los, junta-te a eles».
Essa reviravolta não foi exclusiva do meu campus. O sistema da California State University (CSU) — o maior dos Estados Unidos, com 23 campi e quase meio milhão de estudantes — anunciou uma parceria com a OpenAI: tornar-se-ia o primeiro sistema universitário público “empoderado por IA” do país, oferecendo o ChatGPT Edu, gratuito a todos os estudantes e funcionários. O comunicado à imprensa elogiava as «ferramentas de aprendizagem personalizadas e focadas no futuro» e a «preparação dos estudantes para uma “economia impulsionada pela IA».
Enquanto os administradores cortavam fitas na sua iniciativa de IA, também cortavam cargos docentes, programas académicos inteiros e serviços aos estudantes.
Quando se insiste que o ChatGPT é «apenas mais uma ferramenta na caixa de ferramentas», fico tentado a lembrá-los que há uma diferença entre ferramentas e tecnologias. As ferramentas ajudam-nos a realizar tarefas; as tecnologias remodelam os ambientes em que pensamos, trabalhamos e nos relacionamos. Como observa o filósofo Peter Hershock, não usamos apenas tecnologias; participamos nelas. Com as ferramentas, mantemos o controlo — podemos escolher quando e como usá-las; as tecnologias remodelam as condições da própria escolha. Uma caneta amplia a comunicação sem a redefinir; as redes sociais transformaram o que entendemos por privacidade, amizade e, até mesmo, verdade.
Neil Postman alertou que uma tecnopoly surge quando as sociedades entregam o julgamento aos imperativos tecnológicos — quando a eficiência e a inovação se tornam bens morais em si mesmos. Quando a velocidade e a optimização substituem a reflexão e o diálogo, a educação transforma-se em logística: classificações automatizadas, ensaios gerados em segundos. O conhecimento transforma-se em dados; entrega-se o ensino. O que desaparece são capacidades humanas preciosas — curiosidade, discernimento, presença. O resultado não é inteligência aumentada, mas aprendizagem simulada.
A tecnopoly está a prosperar nas aulas. Os alunos não são ensinados a pensar mais profundamente, mas a responder de forma mais eficaz. Estamos a exportar o próprio trabalho de ensinar e de aprender — o trabalho lento de explorar ideias, suportar o desconforto, a dúvida e a confusão, lutar para encontrar a própria voz. A pedagogia crítica está fora de moda; os truques de produtividade é que estão na moda. Vende-se a rendição como inovação. A universidade não corre apenas o risco de se tornar irrelevante — corre o risco de se tornar um mecanismo sem alma. O maior problema não é a ignorância, mas a indiferença.
Os estudantes sempre encontraram maneiras de fazer batota, mas o ChatGPT levou isso a outro nível. De repente, tiveram acesso a um assistente de escrita que nunca dormia, nunca cobrava e nunca dizia não. As universidades reagiram com detectores de IA, os estudantes continuaram a fazer batota e as universidades reagiram com outros detectores de IA. Face à negligência institucional faz-se funcionar o capitalismo de vigilância. [E resulta?] Não! Os alunos passaram a trocar dicas para tornar o ChatGPT mais burro, inserindo erros ortográficos nos seus textos, por exemplo, para os “humanizar”. Por seu lado, os professores, que antes se mostravam relutantes com a IA, estão agora a ser «empoderados» por ela para escrever palestras e artigos, corrigir trabalhos, redesenhar programas de estudos.
Todo este fingimento lembra uma velha piada soviética: «Eles fingem que nos pagam e nós fingimos que trabalhamos» [que, adaptada, será]: «As administrações fingem que nos apoiam e nós, professores, fingimos que ensinamos» e «Os professores fingem que nos ensinam e nós, estudantes, fingimos que aprendemos». As universidades correm o risco de conferir diplomas sem sentido. A IA ameaça profissionalizar a arte da «actividade sem sentido». Nas palavras de Graeber, [isto cria uma] «profunda violência psicológica», a dissonância de saber que o próprio trabalho não serve nenhum propósito.
Tive um lugar na primeira fila para assistir a essa farsa no workshop «OpenAI Day Faculty Session: AI in the Classroom». A mensagem era clara. Deixe o ChatGPT redesenhar a sua aula. Deixe o ChatGPT dizer-lhe como avaliar os seus alunos. Deixe o ChatGPT dizer aos alunos como usar o ChatGPT. Deixe o ChatGPT resolver o problema da educação humana. [Face à sugestão de que a ferramenta poderia ser uma amiga, uma professora perguntou]: «Estamos a incentivar os estudantes a terem um relacionamento com ela?» [A resposta foi]: «Muitos já fazem isso. Eles veem-na como uma treinadora, mentora, orientadora de carreira... cabe-lhes decidir que tipo de relacionamento querem ter». Bem-vindo ao admirável mundo novo da ligação a máquinas. O momento foi absurdo.
Os administradores parecem incapazes de compreender o óbvio: se o ChatGPT pode escrever ensaios, conseguir classificações excelentes em exames e dar aulas, o que é que a universidade está a vender? Para quê pagar por uma experiência cada vez mais automatizada? Para quê dedicar a vida ao ensino se ele se reduz a uma engenharia de prompts? Para quê manter professores titulares cujo papel parece antiquado e redundante? Para quê ter universidades?
Um professor de filosofia alertou: «Um grande número de estudantes entrará no mercado de trabalho essencialmente analfabeto. Sempre que falo com um colega, surge o mesmo assunto: a reforma. Quando é que me posso reformar? Quando é que me posso livrar disto?»
Quando alguém se opõe a esse evangelismo corporativo, a resposta é previsível: tem «pânico moral» em relação ao progresso inevitável, como foi o caso de Sócrates em relação à escrita. As tecnologias anteriores expandiram a acção humana ao longo de gerações; esta procura substituir a cognição à velocidade da plataforma.
Mas a resposta organizada está a crescer. Nos Estados Unidos, foi apresentada uma queixa por imposição da IA sem consulta prévia do corpo docente, sob a alegação de que houve uma violação da legislação laboral e dos direitos de propriedade intelectual, e uma professora exortou os colegas a exigirem transparência no respeitante ao armazenamento de dados, à exploração laboral e aos danos ambientais que causa. Professores holandeses publicaram uma carta aberta apelando a uma moratória sobre a IA em ambientes académicos, alertando que a sua utilização «desqualifica o pensamento crítico» e reduz os estudantes a operadores de máquinas.
[De facto], o custo cognitivo e moral [imposto aos estudantes não pode deixar de ser tido em conta]. Um estudo recente do MIT, intitulado «Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task» chegou a resultados preocupantes: quando os participantes usaram o ChatGPT para redigir ensaios, verificou-se uma queda de 47% na conectividade neural em regiões associadas à memória, linguagem e raciocínio crítico. Os seus cérebros trabalharam menos, apesar de os participantes se sentiram envolvidos — uma espécie de miragem metacognitiva. Oitenta e três por cento não conseguiram lembrar-se dos principais tópicos do que haviam «escrito«, em comparação com 10% dos que não usaram ajuda. Após quatro meses de dependência do ChatGPT, os participantes escreviam pior (sem o seu uso) do que aqueles que nunca o tinham usado. Ou seja, quando a escrita é delegada à IA, a forma de aprender muda substancialmente. Como o cientista da computação Joseph Weizenbaum alertou há décadas, o verdadeiro perigo reside na adaptação da mente humana à lógica das máquinas. Os estudantes não estão apenas a aprender menos; os seus cérebros estão a aprender a não aprender.
O podcaster Cal Newport chama a isso «dívida cognitiva» — hipotecar a aptidão cognitiva futura em troca de facilidade a curto prazo. A linguagem da reflexão está a desaparecer. Em seu lugar, surge a gramática limpa da automação: fluente, eficiente e vazia.
A verdadeira tragédia não é que os estudantes usem o ChatGPT para fazer trabalhos, é as universidades estarem a ensinar — estudantes, professores, administradores — a parar de pensar. Caminhamos para a falência educacional: diplomas sem aprendizagem, ensino sem compreensão, instituições sem propósito.
A OpenAI não é uma parceira — é um império, disfarçado de ética A universidade não resistiu. Clicou em «Aceitar». Como professor e como estudante universitário de primeira geração, acreditava que a universidade era um espaço sagrado para aprender. Não fui para a faculdade «para» conseguir um emprego. Fui para explorar, para ser desafiado, para descobrir o que era importante. Levei seis anos para me formar em Psicologia — seis dos anos mais significativos e exploratórios da minha vida. Esse tipo de educação — aberta, acessível e em busca de significado — já floresceu nas universidades públicas. Agora está quase extinta. Mas as coisas podem ser diferentes.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
UMA RESPOSTA DOS AUTORES DO MANIFESTO "POR UM ENSINO SUPERIO HUMANIZADO"
domingo, 1 de fevereiro de 2026
QUE SORTE A DE PLATÃO: OBJECTO DE DUPLA CENSURA E COM SENTIDO CONTRÁRIO!
Deixando as censuras "tradicionais" de lado, concentro-me em duas tipologias mais recentes: uma derivada do safetyism, que tem sido designada por "positiva" ou "beneficente", opõe-se agora uma outra – tanto quanto sei, ainda sem designação – que recai essencialmente sobre a “ideologia de género e de raça” (seja isso o que for), que a primeira é acusada de potenciar (ver aqui e aqui). As consequências desta têm sido bem reais em escolas e universidades (primeiro nos Estados Unidos da América e em Inglaterra e, depois, noutros países da Europa); as consequências da segunda estão a começar a sê-lo.
A ironia é que, afigurando-se contrárias:
1) visam o mesmo fim, que é chamar os alunos a princípios morais (sempre particulares), religiosos (ou anti-religiosos, o que vai dar ao mesmo), político-partidários (com as esquerdas e direitas a reboque);
2) podem incidir nos mesmos conteúdos, sobretudo nos que se situam na literatura, na filosofia e nas artes, tornando-os objecto de dupla censura.
Trata-se da Texas A&M University, que, além de prestigiada, tem por cartão de visita as palavras "Juntos pelo Bem" (ver aqui).
Na sua mais recente revisão curricular, sinalizou ou cancelou vários cursos e cerca de duas centenas de disciplinas (confirmei: o número é este!) alegando que veiculam essa tal "ideologia racial e de género". A decisão é para levar a sério: o reitor, à altura, foi forçado a renunciar ao cargo porque se recusou demitir um professor que, por sua vez, se recusou acatar a regra: "obras literárias que toquem o interdito" não podem constar no ciclo básico.
"Silenciar ideias com 2500 anos de um dos pensadores mais influentes do mundo trai a missão do ensino superior e nega aos estudantes a oportunidade de se envolverem criticamente com os fundamentos do pensamento ocidental. Uma universidade de investigação que censura Platão abandona a sua obrigação para com a verdade, a investigação e a confiança pública — e não deve ser considerada uma instituição séria de ensino superior."
domingo, 25 de janeiro de 2026
PRECISAMOS DE RECONHECER QUE AINDA NÃO SABEMOS USAR A IAGEN NA EDUCAÇÃO ESCOLAR
… o nosso cérebro não foi feito para pensar de forma abstrata. O nosso cérebro foi criado para gerir o mundo que nos rodeia e, muito em particular, para socializar. Ainda que vamos aperfeiçoando as abordagens pedagógicas e os materiais disponíveis para os nossos alunos, é importante reconhecer que há uma dificuldade estrutural na própria natureza da disciplina [matemática], que não desaparece com mudanças de método.
… Os alunos têm cada vez mais acesso a tecnologia e conteúdos dentro e fora do contexto escolar… [a] abundância de informação e tecnologia quando bem usada, melhora muito o processo de ensino e aprendizagem, mas quando mal usada, pode ser catastrófico.
… Hoje, a IA consegue resolver praticamente qualquer problema de matemática, mesmo de nível universitário, com grande eficácia. É uma ferramenta nova, não podemos ignorá-la e é inevitável que venha a ter um papel no ensino. Qual deve ser exatamente esse papel? Ainda não sabemos.
Estamos numa fase de fascínio, o desejável é que passemos de seguida a uma fase de integração e adaptação. Provavelmente, em muitos contextos, vamos ter de limitar o uso da inteligência artificial no processo de aprendizagem, noutros casos vamos integrar a IA no processo, de forma a torná-lo mais eficiente. Costumo fazer a analogia com o que aconteceu, por exemplo, com a calculadora. Há situações onde faz sentido usar a calculadora no ensino, mas há outras onde o uso deve ser limitado, como quando estamos a aprender a multiplicar e a dividir. Caso contrário, não desenvolvemos as competências fundamentais.
Neste momento, usamos e abusamos da IA, somos uma espécie de “novos-ricos” nesse sentido, o que pode ter consequências desastrosas. Em muitas situações, o uso de IA por um estudante é semelhante à situação de um atleta que está a treinar para fazer uma maratona, mas começa a fazer os treinos de carro em vez de correr.
sábado, 24 de janeiro de 2026
"Inteligência Artificial na Escola Portuguesa": Um guia a ter em conta
"Gera 5 problemas de matemática de múltipla escolha sobre...
24 de Janeiro — Dia Internacional da Educação
Lê-se na página da Direcção-Geral da Educação:
“Neste dia, deve celebrar-se a importância da educação na construção de uma sociedade mais justa e sustentável. Ao mesmo tempo reconhece-se os valores essenciais que a mesma proporciona na transmissão do conhecimento, a força que modela os nossos valores, promovendo a igualdade, tolerância e respeito.”
“O Dia Mundial da Educação é um momento inspirador para reforçar que ao investirmos na educação, investimos no progresso das sociedades e no potencial ilimitado das gerações futuras com impacto positivo na vida das pessoas e no mundo como um todo, onde a paz, a informação e o espírito empreendedor estejam presentes.”
É importante celebrar a educação, dedicar-lhe um dia. Mas ficamos por um dia?
A Educação, os seus valores, a sua importância para a formação do HOMEM é um tema que, desde sempre, tem sido alvo de discussões, de conselhos, de propósitos (nem sempre seguidos) de promessas e intenções, mais ou menos em função do momento.
Os ensinamentos do passado, a sabedoria dos mestres ancestrais continua actual e devia servir-nos, ainda hoje, de exemplo e de modelo a seguir.
Deixo aqui algumas passagens de um pequeno artigo do Professor João Gouveia Monteiro no Diário de Coimbra de 21 de Janeiro de 2026, precisamente a propósito do Dia Internacional da Educação. Intitula-se o artigo “Evocar Mêncio no Dia da Educação”
Mêncio foi um filósofo chinês, que viveu por volta de 381-296 a.C. e que herdou de Confúcio “o amor pela educação ética, que ambos consideravam a única forma de aperfeiçoar o Homem.” Destaco do texto de João Gouveia Monteiro:
— “defendiam o estudo dos textos clássicos chineses (decorar, interpretar, pôr em prática)”
— “um ensino aberto a todos, mesmo os mais carenciados”
— “um ensino capaz de incutir valores, não apenas utilitário”
— “pré-requisitos, só a vontade de aprender”
— “Estudar e pensar são como as duas pernas de uma pessoa” (Mêncio)
— “Deixa a tua mente ler e refletir, deixa a tua pena tomar nota”
— “Sem estudo, nenhuma das virtudes cardeais era alcançável: não haveria humanidade ou compaixão, mas sim perplexidade; nem sabedoria moral para formular juízos corretos, mas arrogância e presunção, nem atitudes genuínas ou integridade, mas sim fragilidade; nem tão pouco coragem ou fibra, antes desobediência e arbitrariedade.
— o estudo “requer tempo para uma boa digestão dos assuntos”
E João Gouveia Monteiro termina, informando que Mêncio:
“Defendeu políticas públicas integradas e até ecológicas (!) e governos que apostassem a sério na educação. Como não se sentir interpelado por esta voz que nos chega do Oriente, dois milénos e meio depois?”
COMO NÃO?
As vozes do passado deviam levar-nos (levar, quem decide...) a reflectir e a agir em conformidade.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
UM PRIMEIRO CICLO DE ESCOLARIDDE DE SEIS ANOS
Foi hoje confirmada no Parlamento pelo Ministro da Educação (mais) uma mudança substancial no sistema educativo: a constituição de um (primeiro) ciclo de escolaridade de seis anos, resultante da integração dos (agora) 1.º e 2.º ciclos do ensino básico. Qual a razão? Ser esta a "organização mais comum nos sistemas educativos da Europa".
O fim do 2.º ciclo, é a "formação humanística, artística, física e desportiva, científica e tecnológica e a educação moral e cívica, visando habilitar os alunos a assimilar e interpretar crítica e criativamente a informação, de modo a possibilitar a aquisição de métodos e instrumentos de trabalho e de conhecimento que permitam o prosseguimento da sua formação, numa perspectiva do desenvolvimento de atitudes activas e conscientes perante a comunidade e os seus problemas mais importantes".
Por um Ensino Superior humanizado. Um manifesto
Eis a ligação para assinar o documento: Por um Ensino Superior humanizado Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa
OCDE Digital Education Outlook 2026
O relatório destaca os benefícios da GenAI como tutora, parceira e assistente, e sintetiza os contributos de especialistas sobre os critérios que a tornam eficaz para a educação.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA
O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "educação" financeira" (ver aqui e aqui). A eles juntam-se, agora, "líderes empresariais e autárquicos de referência em Portugal": "vão assumir o papel de «Professor por um Dia»" (ver aqui). A usurpação da “nobre e exigente tarefa de ensinar” (ver aqui) é óbvia!
Termino com um apelo aos directores e aos professores, os últimos elos do sistema de ensino: com base na lei de autonomia de escola e no dever de educar de que estão investidos, não deixem entrar nas vossas escolas, nas vossas aulas "líderes empresariais e autárquicos", eles não são educadores, o seu lugar é nas empresas e nas câmaras, lá serão competentes e precisos, na escola não.
domingo, 18 de janeiro de 2026
"O ALUNO COMO CONSUMIDOR FINANCEIRO". PENSEMOS NESTE DESÍGNIO DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA
"A integração da literacia financeira nas escolas, formalizada pelo Referencial de Educação Financeira (REF) de 2013 e inscrita, mais recentemente, como dimensão obrigatória da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, desde o pré-escolar ao ensino secundário, não pode ser compreendida como uma simples atualização curricular. Embora tenha a aceitação de grande parte da comunidade escolar (...) trata-se, se pensarmos um pouco mais, de um dispositivo ideológico que subordina a escola às exigências do sistema produtivo contemporâneo e cria a figura do aluno como consumidor financeiro.
O REF prescreve que as decisões financeiras são hoje mais difíceis devido à complexidade dos produtos financeiros. Apresenta-o como um dado e esvaziando-o da sua natureza estrutural, constituindo, assim, um processo de hegemonização que se materializa de forma particularmente clara no percurso proposto.
Desde o 1.º ciclo, quando as crianças são ensinadas a distinguir necessidades de desejos e a valorizar a poupança, começa a ser construída uma gramática moral, na qual o consumo é encarado como problema de decisão individual. Nos 2.º e 3.º ciclos, a introdução de orçamentos, planeamento financeiro, investimento e gestão de risco aprofunda essa lógica, deslocando para a esfera da conduta pessoal a responsabilidade por fenómenos como o sobre-endividamento. Mesmo quando, no ensino secundário, surgem referências à ética financeira, à responsabilidade social das organizações ou a modelos de negócio sustentáveis, estas permanecem inscritas numa racionalidade empreendedora que não questiona as estruturas do sistema económico, mas procura torná-las mais eficientes e aceitáveis. Traduz-se, como diria Freire, numa pedagogia de domesticação, que não visa formar sujeitos críticos, mas adaptativos às exigências de um mercado apresentado como inevitável.
Sob a égide da transversalidade curricular, a literacia financeira reclama a sua integração em áreas como a Matemática e esta, sedenta de aproximação com a realidade, permite a sua captação. Este cenário de apropriação mútua não é inocente. A matemática, vista como linguagem da racionalidade, oferece à literacia financeira a legitimidade científica de que necessita; a literacia financeira, por sua vez, fornece ao ensino da matemática uma narrativa de aplicabilidade social, que o salva da acusação de abstracionismo.
Quando, em 2024, surge na disciplina de Matemática, transversal a todos os percursos formativos de 10.º ano, o tema modelos matemáticos para a cidadania, incluindo explicitamente modelos matemáticos em finanças – matemática nos salários e matemática na poupança e no crédito –, o que se apresenta como inovação pedagógica pode, na verdade, ser, uma vez mais, a subjugação da matemática à suposta neutralidade neoliberal. Modelar juros compostos, créditos à habitação, aplicações de poupança ou capital de investimento sem problematizar as relações de poder que lhes dão origem é, como alertaram Althusser ou Foucault, encarar a matemática como mais um produto da máquina institucional de controle.
Contudo, uma outra visão é possível. A este ensino da matemática adaptativo propõe-se uma educação matemática crítica. Nas palavras de Skovsmose, a matemacia não se limita à capacidade de usar a matemática, implica a capacidade de ler, interpretar e questionar criticamente o mundo através da matemática, tornando-a uma linguagem de desconstrução social. Uma matemática crítica não se limita a ensinar a gerir orçamentos familiares, questiona as condições que tornam esses orçamentos insuficientes. Ao analisar dados sobre salários, precariedade laboral ou número de horas de trabalho evidencia que a escassez não decorre apenas de escolhas individuais, mas de relações de distribuições desiguais. Do mesmo modo, não se limita a calcular prestações de créditos ou taxas de juro, revela como a dívida se prolonga no tempo, de forma praticamente permanente, e como os juros não afetam todos igualmente. Quando aborda investimentos, interroga quem tem acesso a esses mecanismos, quem deles beneficia e quem deles fica excluído.
Recusar a literacia financeira tal como hoje é imposta não é recusar o conhecimento matemático ou económico, é recusar a sua instrumentalização ao serviço da reprodução das desigualdades. É reivindicar uma escola que, em nome da cidadania, não forme apenas consumidores financeiros competentes, mas sujeitos capazes de compreender – e transformar – as estruturas de poder que produzem a escassez que lhes pedem para gerir."
NÃO É POSSÍVEL!
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