quinta-feira, 5 de maio de 2016

Carta-Aberta ao Ministro da Educação

Carta-Aberta ao Ministro da Educação da Professora Maria do Carmo Vieira, divulgada no jornal Público de hoje.

É impossível continuar a sujeitar a comunidade escolar à instabilidade que representa a contínua mudança de programas, sempre que surge novo Governo.

Como investigador e pessoa estudiosa e de conhecimento que é, Senhor Ministro da Educação, compreenderá a violência que é impor a um professor determinadas inovações que colidem frontalmente com o seu estudo, com o conhecimento da sua área de ensino, no caso explícito, de Português, e com a sua própria experiência. Na verdade, violenta é toda a imposição da novidade pela novidade, quantas vezes ligada a interesses pessoais e a lobbies ou a teorias que já demonstraram o seu completo falhanço, noutros países, ou até à atitude juvenil de transgredir. Violento é também que se queira punir quem ouse dizer o contrário.

A minha experiência profissional testemunha o que anteriormente expus, e duas situações, entre várias, serão suficientes para ilustrá-lo: a primeira prende-se com uma acção de formação de um dia, dinamizada por dois jovens contadores de histórias, já inseridos no espírito da última Reforma de 2003, e que percorriam o país, apresentando as suas sugestões inovadoras a alunos e professores. Tentavam que compreendêssemos, numa grande euforia discursiva e gestual, quão rotineiro e maçudo era para as crianças o início das histórias, com o “papagueamento” da célebre frase “Era uma vez…”, que na sua douta visão nada tinha de mágico. Assim, para interromper essa monotonia e arejar a própria história, libertando-a do fundo dos tempos, davam como exemplo de salutar início “Uma vez era…”, alteração, diziam, a que as crianças tinham reagido muito bem. Parece que a boa nova teve tempo efémero de existência, ainda que a actividade dos inovadores se mantivesse, durante algum tempo, e muitos professores tentassem, curiosos, analisar os seus efeitos que, no entanto, nunca foram descritos.

A segunda situação tem a ver com a atitude do Ministério da Educação (ME), no final do ano lectivo de 2006, após ter recebido uma carta minha, endereçada à Senhora Ministra, na qual eu analisava criticamente os novos programas e os manuais, concluindo da minha impossibilidade em cumprir o que considerava um absurdo e uma imensa falta de respeito pelos alunos, pondo em causa, se obedecesse, a minha responsabilidade e a minha competência profissionais. Mencionava também o facto de não compreender bem o alcance de “um ensino centrado nos alunos”, ou a quase exclusividade atribuída ao trabalho de grupo ou ainda a quase proibição de aulas expositivas. Essa carta, depois reenviada digitalmente pelo ME ao Conselho Directivo da minha Escola, com a informação de que não me deveriam dar conhecimento, apresentava sublinhados todos os verbos que recusavam o cumprimento de uma matéria programática absurda que, a meu ver, estupidificava.

Na mesma mensagem, o ME solicitava à Escola que enviasse, no prazo de 48 horas, todas as notas que eu atribuíra aos alunos. Por impossibilidade de o fazer, aceitou o ME que fossem apenas as classificações dos últimos 5 anos. Nada vislumbrando de errado, solicitaram o curriculum, tendo a tentativa de amedrontar ficado por aqui. O certo é que não leccionei os novos programas, indo para o ensino nocturno onde não estavam em vigor, e tendo também interrompido a correcção de provas de exames do 12.º ano, trabalho que troquei por uma avalancha de vigilâncias de exames. Poder-lhe-ei acrescentar, Senhor Ministro, que um dos aspectos criticados por mim, nos programas, foi a supremacia dada ao texto funcional, em detrimento do texto literário, e o saque que havia sido feito aos clássicos. Talvez desconheça que se aconselhava o estudo da lírica de Camões com “2 ou 3 dos seus melhores sonetos”, sugestão que certamente considerará inaceitável, logo, ofensiva para qualquer professor.

Louvo, ainda que considere demasiado extensos, os novos programas de Português do Básico e do Secundário, não só pelos autores terem sublinhado a necessidade do estudo da Gramática, mas também a importância da Literatura, enquanto arte da palavra e imprescindível numa reflexão sobre a condição humana, e que por isso mesmo não pode estar em pé de igualdade com um texto de carácter utilitário, aspectos que certamente serão tidos em conta nesta reflexão sobre o “Currículo para o século XXI” que teve lugar na Gulbenkian.

Compreenderá, Senhor Ministro, que é impossível continuar a sujeitar a comunidade escolar à instabilidade que representa a contínua mudança de programas, sempre que surge novo Governo. Ter-se-á agora a oportunidade de mostrar a vontade em conciliar ideias e sugestões, apresentadas na Gulbenkian, e expressas também nos questionários preenchidos pelos professores, evitando reacender conflitos, em troca de um diálogo frutuoso, neste caso, entre as duas associações que existem de Português. De aproveitar será também o facto de os professores terem manifestado favoravelmente a influência das metas curriculares na sua prática lectiva.

E porque, inúmeras vezes, tem sido referido pelos professores o caos que a imposição do Acordo Ortográfico de 90 (AO) trouxe ao ensino da Língua Portuguesa, evidenciando também a violência que foi na prática lectiva o serem forçados a cumpri-lo, cremos que há toda a urgência, porque de um património se trata, em repensar este assunto, tanto mais que o próprio Presidente da República também nele parece estar interessado. Será certamente do conhecimento do Senhor Ministro o parecer veementemente desfavorável, apresentado pelo próprio ME (1991), mas lamentavelmente ignorado, num testemunho manifesto de falta de respeito e de grave falha democrática.

Invocando de novo, Senhor Ministro, a sua qualidade de investigador, exigente e rigoroso, porque assim se caracteriza toda a investigação, concordará decerto que a Nota Explicativa do AO de 90 carece precisamente de exigência e de rigor, havendo ainda a notar casos anedóticos na sua redacção. O caos na ortografia da língua portuguesa está patente em todo o lado, indo-se para além do que se quis impor, como poderá verificar na frase que transcrevo “[…]. A nossa Saudade é, de fato, única, […]” (in programa de “Música Sem Fronteiras”), um entre milhares de exemplos que diariamente encontramos.

Preocupados estão igualmente os professores, mormente os de Português, com as sugestões, no mínimo, ridículas, para favorecer a dita “linguagem inclusiva”, situação que parece não ocorrer só em Portugal, mas também em Espanha. Servem-se da língua para inovações que os orgulham e que mais não significam do que algum tipo de frustração e muita arrogância, no prazer de impor estupidamente a sua vontade. Primeiro tentou-se a “presidenta”, logo, também “a estudanta”, qualquer dia alterar-se-á “o povo” e agora propõe-se “cartão de cidadania” em substituição de “cartão de cidadão”, ignorando-se o significado de cada uma das palavras (basta consultar o dicionário) e o erro que será cometido, obedecendo-se a esta proposta. E se o outro “género” não gostar que a palavra termine no feminino? Esquarteja-se a palavra até que fique com um aspecto andrógino? Não pode a Língua Portuguesa estar submetida a estes desmandos e, nesse sentido, o Ministério da Educação deveria também intervir.

MEUS LIVROS E REVISTAS NA UC DIGITALIS

Todos os livros e revistas publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra (IUC) estão acessícveis livreemnte na plataforma UC Digitalis, que faz parte da B-On. Os meus estão aqui:

Segunda nota recebida da Imprensa:

"Aconselham-se os autores a promoverem entre estudantes e colegas das suas instituições o uso desta biblioteca digital (colocando por exemplo no sumário o link para os trabalhos), pois esta prática convive bem com a manutenção do livro em formato papel."

Para quem deseja as publicações em papel eis a indicaçãop da Imprensa:

"Foi ainda celebrado um contrato de distribuição com a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, que começa agora a permitir um regresso paulatino do catálogo da IUC às livrarias. Além das lojas da INCM, do circuito dos Museus e Teatros Nacionais, está em curso a entrada nas lojas da Almedina e da FNAC, pelo que aconselhamos fortemente os autores a informarem potenciais leitores de que devem solicitar os livros da IUC em especial nestes pontos, de maneira a que a cadeia de distribuição se sinta motivada a fazer entrar no seu circuito um número crescente de obras nossas."

MEUS LIVROS NO GOOGLE PLAY

Alguns dos meus livros, em particular os que saíram do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra, estão em edição digital no Google Play, incluindo "Biblioteca Joanina" (por 4,99 euros). Ver: https://play.google.com/store/search?q=fiolhais&c=books&hl=en




"Ó MINHA TERRA NA PLANÍCIE RASA…" (*)


Texto recebido do Prof. Galopim de Carvalho:
Há uma trintena de anos, transportei comigo, vinda do Alentejo interior, uma comadre de visita a uma filha residente em Almada. Viemos por Setúbal e, durante a subida da serra da Arrábida, esta minha amiga, que pela primeira vez saía do campo a perder de vista onde nascera e vivera, dava mostras de um certo mal-estar.
- Não sei o que tenho, sinto-me apertada. Falta-me a lonjura do nosso Alentejo. Isto aqui é só cabeços. E que cabeços.
E foi assim até ao alto da capelinha de Nossa Senhora das Necessidades. A partir daí, na descida para Azeitão, foi-se-lhe diluindo a aflição e, quando passámos à planura, que nos conduziu ao nosso destino, ouvi-a exclamar
- Aqui, sim, já se pode ver ao longe! Já a gente respira!
Nunca mais esqueci esta visão da nossa paisagem interiorizada na mente desta minha comadre e foi a pensar nela que procurei reunir, em palavras simples, o que me foi dado aprender sobre a “planície alentejana”.
Sempre que me afasto da ficção em torno da cultura alentejana, em que o “ver ao longe” facultado pela planura das suas paisagens é um dos temas mais apetecidos e exaltados, e me concentro nos ensinamentos que a geografia ou a geomorfologia colocaram à minha disposição, interrogo-me sobre a longa e complexa história geológica da vasta superfície levemente ondulada por suaves outeiros (colinas) e abertos valados que inspirou Antunes da Silva, Florbela Espanca, José Saramago, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Vergílio Ferreira e tantos outros.
“Planície” aparece aqui entre comas porque, se bem que a palavra tenha perfeito cabimento como figura de estilo no discurso literário, não o tem na abordagem geográfica ou geomorfológica. Na origem, o termo planície, que nos chegou vindo do latim planitie, significa simplesmente superfície plana. E, em rigor, plana é a superfície da água em repouso. Como vocábulo do léxico geográfico, esta mesma palavra passou a referir uma extensão maior ou menor de terreno aplanado, de notada horizontalidade e, na maioria dos casos, a muito baixa altitude, onde a sedimentação supera largamente a erosão. Planícies são, por exemplo, a lezíria do Tejo, os campos do Mondego ou os do Sado. Ora, no âmbito desta disciplina, a chamada “planície alentejana” não corresponde minimamente a este conceito.
Para podermos abordar o conhecimento da “planície alentejana", temos necessariamente de começar por saber o que é e como se formou a mais extensa das unidades fundamentais do relevo da Península Ibérica, citada em todos os manuais de geografia por Meseta Ibérica.
Em 1825, na sequência de uma visita que fez à Península Ibérica, o geógrafo e naturalista alemão Alexander von Humbolt (1769-1859) definiu aqui uma extensa superfície planáltica, ocupando a maior parte do território, conhecida, desde então, por Meseta Ibérica. Levemente basculada de NNE para SSW, esta superfície, fundamental para a definição do relevo da maior parte de Espanha e de Portugal, resultou do arrasamento do troço ibérico da grande cadeia de montanhas elevada durante a orogenia hercínica ou varisca, entre finais do Devónico e meados do Pérmico, ou seja, entre há 380 e 280 milhões de anos (Ma).
Uma primeira evidência do começo desta aplanação, fruto de cerca de 90 milhões de anos (Ma) de erosão (durante os quais terão desaparecido quatro ou mais quilómetros de altura da montanha), já estava esboçada no Triásico superior (há 210 Ma), tendo ficado conhecida por superfície pós-hercínica ou pré-triásica.
Observável em alguns locais de Espanha, temos espectacular testemunho desta superfície de erosão na discordância angular observável na Praia do Telheiro (Vila do Bispo), onde camadas sub-horizontais do Triásico superior continental, de característica coloração vermelha (Grés de Silves, com arenitos, siltitos e, por vezes, leitos conglomeráticos) assentam sobre xistos e grauvaques do Carbónico superior marinho (Vestefaliano, com 300 Ma) pregueados e truncados pela dita superfície pós-hercínica.
Se tivermos em conta que, no Triásico superior, o território hoje ocupado pela Península Ibérica se encontrava numa latitude tropical, no interior da Pangea, a cor vermelha dos sedimentos dessa idade, bem representados em Silves, Praia do Telheiro, Santiago do Cacém, Coimbra, Águeda e Eirol (Aveiro), aponta para uma situação climática quente de tendência semiárida, susceptível de mobilizar o ferro (durante a estação húmida) e de o fixar sob a forma de óxido (na estação seca). Neste quadro climático, a superfície pré-triásica terá tido, pelo menos em parte, uma evolução próxima da da pediplanície tal com a definiu, em 1962, o geomorfólogo sul-africano Lester King (1907-1989).
Em 1889, o geofísico americano Clarence Edward Dutton (1841-1918) pôs em evidência o fenómeno natural a que deu o nome de isóstase (ou isostasia), que definiu como o equilíbrio gravítico que se estabelece entre a litosfera e a astenosfera, ou seja, camada externa do manto superior terrestre, sobre a qual assenta, mais densa e caracterizada por alguma plasticidade. À semelhança de um barco sobrecarregado cujo casco vai emergindo da água à medida que se lhe alivia a carga, também grande parte do bloco litosférico peninsular, aligeirado da carga correspondente à montanha desaparecida por erosão, se foi soerguendo (elevando).
É curioso assinalar que uma primeira abordagem ao citado equilíbrio consta do livro “Tratado dos Meteoros”, da autoria do filósofo francês Jean Bouridan (circa 1300-1360), reitor da Universidade de Paris. Este clérigo não irmanado com qualquer ordem religiosa, escreveu “A erosão torna mais leves os continentes que, aplanados, tendem a erguer-se…” o que representa uma notável antecipação ao conceito de isóstase.
Assinale-se que, enquanto o interior da península se ia elevando, as suas bordaduras (as hoje Orlas Meso-cenozóicas Ocidental e Meridional) iam-se afundando, em relação com o estiramento (adelgaçamento) e fracturação da faixa da Pangeia precursora da abertura do Oceano Atlântico. É nessas bordaduras afundadas que se irão instalar as Bacias Lusitana e Algarvia e nelas acumular milhares de metros de sedimentos resultantes da erosão da parte mais soerguida do referido bloco.
Ao longo do Jurássico e do Cretácico inferior, esta superfície em elevação isostática continuou a ser alvo de erosão mas, pelo menos numa grande parte deste intervalo, de cerca de 100 Ma, sob condições de clima quente e húmido indutoras de intensa alteração das rochas. A natureza essencialmente quártzica e caulinítica dos sedimentos terrígenos (conglomerados, arenitos e argilitos) de fácies deltaica do Cretácico inferior da Orla Meso-cenozóica aponta nesse sentido, pelo que o modelo de erosão poderá ser explicado com base no concebido e divulgado, em 1957, pelo alemão Julius Büdel (1903-1983), segundo o qual terão existido duas superfícies de aplanação, uma exposta, ou seja, a “superfície topográfica” que suportava a paisagem, sujeita a erosão pelas águas de escorrência e fluviais, e outra no subsolo, entre a capa de alteração (rególito) e a rocha sã, referida por “superfície basal”, tanto mais profunda, quanto maior tiver sido a espessura do rególito. Büdel defendia que, quando a humidade prevalece relativamente à secura, a meteorização é mais veloz do que a erosão e, assim, a espessura do rególito aumenta. Se, segundo ele, o clima evoluir no sentido da aridez, a erosão superficial torna-se mais veloz do que a meteorização das rochas, podendo, no limite, pôr a descoberto a dita superfície basal que, assim, se transforma numa superfície de aplanação. O arenito do Buçaco, que eu tive oportunidade de estudar, em 1960, em conjunto com o de Coja (o Supra-Buçaco de Orlando Ribeiro), conservados no fundo da Bacia da Lousã, discordantes sobre esta superfície, são ainda, à semelhança dos do Cretácico inferior, quartzo-cauliníticos, corroborando esta visão do geomorfólogo alemão.
Entre a idade cretácica inferior (Albiano, com base no conteúdo polínico) deste arenito e os primeiros depósitos que, por falta de elementos seguros de datação, têm sido atribuídos, de forma abrangente, ao Paleogénico (65 a 23 Ma), decorreu um grande intervalo de tempo, na ordem de três a sete dezenas de milhões de anos, durante o qual o bloco crustal correspondente à Península não parou de subir, rejuvenescendo o relevo, não só em virtude da procura do citado equilíbrio isostático, mas também como consequência do começo da colisão das placas africana e ibérica.
Os referidos sedimentos, atribuídos “grosso modo” ao Paleogénico, são correlativos deste rejuvenescimento do relevo, depositados nas planuras vizinhas. Na maioria detríticos, com destaque para as arcoses, podem ser observados de norte a sul do país, em Vale Álvaro e Vilariça (Bragança), Longroiva e Nave de Haver (Guarda), Coja (Coimbra), Cabeço do Infante (Castelo Branco), sendo de destacar, no que se refere ao Alentejo, os de Tramaga (Ponte de Sor) e Vale do Guizo (Alcácer do Sal), na base da cobertura cenozóica da grande Bacia do Tejo-Sado, e Marmelar (Vidigueira). Discordantes sobre a superfície afeiçoada no final deste grande intervalo de tempo, apontam uma evolução climática no sentido da secura, pelo que é de admitir que este afeiçoamento se tenha verificado em regime de pediaplanação.
Não estando condicionada ao nível de base geral (como acontece na chamada erosão normal de Davis), este retoque na planura da Meseta, segundo o modelo preconizado por Lester King, pode perfeitamente ter tido lugar em situação planáltica.
É, pois, a partir desta superfície paleogénica, tida, no seu compartimento a norte da Codilheira Central, como uma das superfícies de erosão mais perfeitas do mundo, consentânea com o processo de pediaplanação, que podemos definir o relevo do maciço antigo ibérico.
A compressão da Placa Africana sobre a Península Ibérica (compressão Bética do ciclo orogénico Alpino), em especial durante o Miocénico superior, conduziu a deslocamentos verticais de blocos do soco, em alguns casos na ordem das centenas de metros, através de falhas tardi-hercínicas. Deslocados entre si, como teclas de piano desniveladas, estes blocos deram origem, por exemplo, às Serras da Estrela e do Caramulo, aos planaltos transmontanos e da Guarda, às superfícies de Castelo branco, de Évora e de Beja, e a depressões, como a de Celorico, a Cova da Beira ou a que faz de substrato da grande Bacia Cenozóica do Tejo-Sado, cujo enchimento completa a parte restante desta planura que caracteriza a maior parte da paisagem alentejana.
Persistem nesta aplanação ou nos troços dela desnivelados pela referida movimentação vertical de blocos alguns relevos residuais ou de dureza, constituídos por quartzitos, sob a forma de cristas alongadas, como são, em Portugal, entre outras, as referidas como serras da Marofa, do Buçaco, de Penha Garcia, de Moradal, de Marvão e de Alcaria a Ruiva. A par destes relevos há, ainda, os “Inselberge” ou montes-ilhas graníticos, como o de Monsanto, na Beira Baixa que, embora raros, parecem testemunhar um retoque tardio nesta superfície, muito provavelmente no Vilafranquiano, de novo em regime semelhante ao que conduz à pediplanície, consentâneo com a semiaridez geralmente atribuída a este intervalo de tempo.

A “planície alentejana”
Desde há muito que a ideia segundo a qual a erosão destrói o relevo e tem por meta a aplanação a muito baixa altitude faz parte do pensamento racional. No século X, os membros de uma fraternidade de filósofos ismaelitas, conhecida por “Irmãos da Pureza” (Ikhwan al-Safa, em árabe), que se admite ter estado sediada em Bassorá, no Iraque, escreveram numa enciclopédia que nos legaram “os continentes, uma vez arrasados pela erosão, ficam ao nível do mar”.
Em finais do século XIX, William M. Davis divulgou o conceito de peneplanície como um tipo de aplanação inacabada, a relativamente baixa altitude, fruto de um longuíssimo desgaste por parte da erosão fluvial, sob clima temperado húmido. O elemento de origem latina “pene”, que escolheu para antepor à palavra “planície”, significa “quase”, pelo que, para o autor, quer dizer uma planície inacabada, em vias de o ser, cujo limite teórico, ainda não atingido, seria una superfície plana e horizontal, ao nível do mar.
São muitos os geógrafos profissionais e os livros de ensino que, entre nós, referem com mais ou menos pormenor a peneplanície alentejana e têm-no feito, não no sentido genético, de uma aplanação em vias de acabamento, desenvolvida no quadro climático preconizado por Davis, mas sim no de uma aplanação imperfeita em termos da configuração topográfica. Enquanto que para este geógrafo, o prefixo “pene” tem a conotação de algo por atingir ou por acabar, para a generalidade dos nossos estudiosos que a ela se têm referido, esse mesmo prefixo tem um sentido meramente morfológico.
Voltando à tectónica de deslocamentos verticais de bloco, referida atrás, do tipo “teclas de piano” diferentemente desniveladas. A extensão do território nacional vulgarmente referida por planície alentejana, ocupa, no essencial, duas destas grandes teclas: a superfície de Évora, mais elevada e acidentada, variando entre 350 e 300 m de altitude; e a superfície de Beja, mais baixa e mais aplanada, entre 250 e 200 m, desnivelada pela importante falha da Vidigueira e bem marcada na paisagem pelo abrupto que limita a sul a Serra de Portel.
Deixando de parte os relevos residuais emergentes destas duas superfícies, Castelo de Vide e Marvão, na de Évora, Ficalho e Alcaria a Ruiva, na de Beja, e os de natureza tectónica (outras teclas de piano de menor extensão, no interior das grandes teclas referidas), que as afectaram, entre os quais São Mamede, Monfurado, Alcáçovas, Ossa, Grândola e Portel, o essencial da morfologia de suaves outeiros e abertos valados, comum na paisagem alentejana, deve ser entendida como degradação por embutimento fluvial, ao longo do quaternário, de uma pediaplanação conseguida no Paleogénico, aperfeiçoada ao longo do tempo (superfície poligénica), desnivelada, como se disse, pela compressão Bética e finalmente retocada durante um episódio de semiaridez no Vilafranquiano, possivelmente o mesmo que desencadeou os derrames caóticos, heterométricos, conhecidos por “ranhas”, essencialmente quartzíticos e grosseiros, na Beira Baixa, e essencialmente quártzicos e menos grosseiros, no Alentejo.
(*) Florbela Espanca, no poema Minha Terra, in “Charneca em Flor”

Galopim de Carvalho


Nota. Agradeço ao Nuno Pimentel a leitura crítica do texto.

terça-feira, 3 de maio de 2016

À DESCOBERTA DE PLANETAS EXTRA-SOLARES



Sérgio Sousa em ESO La Silla, Chile Foto por Ana Couto Soares (C)2011


Na próxima 5ª feira, 5 de Maio de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "À descoberta de planetas extra-solares"com o astrónomo Sérgio Sousa, do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, no âmbito do ciclo Fronteiras da Ciência, coordenado por António Piedade, a decorrer até Julho de 2016.


Sinopse da palestra:
"Nesta palestra será feita uma revisão das descobertas de planetas extra-solares, apresentando as várias classes de planetas que foram descobertas até hoje. Serão abordadas as principais técnicas para a deteção de planetas extra-solares. Finalmente serão apresentados alguns dos grandes projetos observacionais para a deteção e caracterização de planetas extra-solares."


ENTRADA LIVRE 
Público-alvo: Público em geral

Facebook do evento

Os pesticidas fazem diminuir o cancro?




O professor  americano de bioquímica Bruce Ames, agora com 87 anos, choca por vezes as suas audiências com uma afirmação aparentemente paradoxal: os pesticidas contribuem para a diminuição do cancro!

A explicação, se pensarmos um pouco, faz sentido: os pesticidas permitem uma maior e mais económica produção agrícola, tornando as frutas e legumes acessíveis a um maior número de pessoas. Como a alimentação saudável faz diminuir muito mais o risco de cancro do que a presença ou contacto com resíduos insignificantes de pesticidas o faz aumentar, confirma-se a plausibilidade da afirmação. Mas, repita-se, é de resíduos insignificantes que se fala - perto dos baixíssimos níveis actualmente detectáveis - assim como de pesticidas cada vez mais seguros - outros não seriam aceites nem permitidos.

O cancro é individualmente, quase sempre, uma questão de azar ou sorte, mas no limite dos grandes números podem prever-se tendências. A alimentação pode, em geral, ser relacionada com cerca de um terço dos cancros; outro terço pode ser ligado a infecções e viroses crónicas, assim como a factores genéticos. O outro terço pode ser relacionado com factores múltiplos como o fumo do tabaco, o consumo exagerado de álcool, a exposição solar e outros factores comportamentais e ambientais, em boa parte naturais. Também o normal evelhecimento faz, como é sabido, aumentar o risco de ter cancro.

O glifosato é um herbicida relativamente seguro em termos toxicológicos comparado com outros herbicidas como o paraquat. A sua persistência no ambiente é também relativamente breve. Por isso, numa sociedade que só tem 1% das pessoas a trabalhar na agricultura e não tem forma de voltar a arrancar ervas à mão ou com uma sachola - o que seria verdadeiramente biológico, mas utópico em larga escala - é considerado uma mais valia por ser um dos herbicidas mais seguros conhecidos, com a vantagem de ser agora genérico e não dependente da famigerada Monsanto. Para além disso, a discussão sobre a suspeita deste herbicida ser cancerígeno e disruptor endócrino tem origem em estudos envoltos em polémica. (Veja-se a bibliografia seleccionada de algumas linhas que escrevi sobre o glifosato há alguns meses, num contexto mais vasto e de forma livre e solitária, não adivinhando as notícias recentes).

É fundamental que as pessoas (também os profissionais da ciência) tenham sentido crítico. Se estamos predispostos a desconfiar de algumas coisas, não podemos em seguida confiar cegamente noutras. Mesmo a literatura científica e as notícias que esta origina devem ser lidas com saudável cepticismo (tanto mais que nem sempre as notícias correspondem ao conteúdo real dos artigos). E quanto maior for a nossa propensão para acreditar mais devemos forçar-nos a fazer essa análise crítica.

É raramente notado que a forma com a literatura científica se organiza, realçando a originalidade e os avanços técnicos, como sejam níveis de detecção cada vez mais baixos, faz com que a atenção se desloque para aspectos insignificantes para a segurança do público, afastando-nos dos problemas muitas vez mais reais, mas por serem comuns são em geral quase invisíveis. Ter fumado um cigarro, ou respirar regulamente os vapores dos combustíveis e dos escapes dos automóveis faz, em termos estatísticos, aumentar mais a probabilidade de ter um cancro do que comer uma maça com um resíduo insignificante de um pesticida, mas a focagem é em geral para o último caso que poderá ser novidade, não os outros, já bem conhecidos.

Também é preciso procurar ler o real sentido das afirmações. Ser considerado suspeito de ser cancerígeno é muito diferente de ser comprovadamente cancerígeno. Para além disso é preciso ter alguma ideia da origem dos dados. Por exemplo, os testes com animais são realizados com doses muito altas e nem sempre são extrapoláveis nem o resultado é válido devido à inadequação dos modelos animais e das doses exageradas. Acresce que a esses resultados se associam factores multiplicativos de segurança. Muitas vezes as provas contra os suspeitos não são muito fortes, mas por segurança indica-se a sua condição de suspeito, não se dando por vezes atenção a todos os outros comprovados culpados mais comuns e menos mediáticos.

Convém também notar que a fracção de cancros comprovadamente atribuíveis a “químicos” é menos de um por cento, já considerando “químicos” de origem natural como o estragole do mangericão - só para citar um exemplo pouco conhecido -, entre outros.

No entanto, o pavor dos “químicos” faz as pessoas perder a cabeça. Numa petição recente a pedir a proibição do glifosanto, há dezenas de comentários a pedir o fim de todos os “químicos”! Dizer que somos “químicos”, respiramos e comemos “químicos”, mais ou menos naturais, é trivial. Todos os alimentos naturais estão cheios de “químicos”, como a maçã da figura. Mas, mais do que isso, é importante que as pessoas percebam que é devido aos “químicos” que temos alimentação, água potável e segurança alimentar para cada vez mais pessoas; que temos medicamentos, maior esperança de vida e confortos modernos e que, em última análise, diminuimos o número de cancros e a mortalidade devida a eles.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

International Year of Light in Portugal


The opening ceremony took place at 16th March 2015 at the Passos Manuel School, in Lisbon, with a lecture and a light show. The IYL was celebrated all over the country with a variety of scientific, educational, technological and artistic initiatives (see ail2015.org). The year will close at 21th June 2016 with a concert at Casa da Música, Oporto, and a conference by Sir Michael Berry.

The focus was on schools, recognizing the relevance of education for a sustainable future. A program, entitled Bringing Light at Schools, promoted researcher’s visits to schools for talking and experimenting with light. It included teachers training in photonics using kits. Schools were also participating in the IYL with their own projects.

Several exhibitions took place: a travelling exhibition on holograms (Windows of Light) invited visitants to understand holography hands on. In Oporto, the exhibition Lux Mirabilis, combining art and science, was at the Soares dos Reis Museum. In Lisbon two expositions attracted many visitants (The Light of Lisbon and Within Light/ Inside Glass). In Coimbra the Science Museum of the University, besides the permanent exhibition Secrets of Light and Matter, had an exhibition on the human eye (A Look on Vision). Other exhibitions on light took place at national festivals, for example at Festa do Avante in Seixal and at the literary festival Fólio in Óbidos.

To celebrate not only the IYL but also the 725th anniversary of the Coimbra University (UNESCO world heritage), a video mapping projection was seen by more than 30.000 spectators. There were other light shows in Cascais (Lumina Festival), Almeida, Aveiro, Coimbra, Lisbon, Lousada, Oeiras and Sintra. In Oporto, near the S. Bento Station, a light installation was built: Oporto Light Experience, a winner of the “Happy LED Life” competition.

The city halls were active partners: the conference Lighting New Challenges, in Águeda, brought together lighting companies, promoting intelligent street lighting, and the festival Culture and Light took place in Almeida. Also active were professional associations, such as the Portuguese Engineers Association responsible for two conferences (Lisbon and Funchal).

Other conferences were organized by various entities, some of them international. The most important was Let There be Light: Dialogues Around Light, held at 15th December at the Gulbenkian Foundation, Lisbon. But there were other conferences: Lights On, on cultural heritage at the Oporto University; Communication and Light, at the Minho University - Braga; the 12th International Conference on Hands-on Science, in Funchal, on light and science education; Colours 2015, at Évora University, on light, art and science; two conferences at the Coimbra University (Light Views  and Around Light); two conferences at the Lisbon University; a seminar at the Lisbon Academy of Sciences  (International Seminar on Light and its Applications); a conference on Metrology and Light at the National Institute for Quality; and the international conference Light, from Earths to the stars organized in Lisbon by Ciência Viva. Two international science meetings took place in Figueira da Foz and Faro (Colloquium Spectroscopium Internationale and International Conference on Advanced Laser Technologies). The theory of relativity was the theme for conferences at November. Also in November, the Portuguese UNESCO commission organized a conference on the IYL and IY of Soils. The lecture given by the NASA scientist and Nobel laureate John Mather in Oporto was another IYL highlight.

Other events happened all over the country: Worlds of Light, at Viana do Castelo; Faculty Days at the Oporto University and the Coimbra University, both on light and health European Researchers’ Night with light activities by Ciência Viva centers. Rómulo – Ciência Viva Center organized a series of lectures (In the Light of Science). The IYL celebrations at the Library of the Faculty of Science and Technology of the New University of Lisbon, which brought together science and art with seminars, debates and exhibitions, were intense.

Light was also celebrated in theatre and cinema. The Marionet Company (Coimbra) represented three plays about Light and the short movie The End of Light, directed by Laura Seixas, had a première at the Gulbenkian Foundation.

Sky observations played a role in the IYL program: in the Dark Sky Alqueva reserve (“ETIS Social & Cultural Impact Achiever" of the European Union), with a photo exhibition; the Astrofesta in Castro Verde; and a set of activities organized by the Lisbon Astronomical Observatory (Nights of science, Nights of Light).~

Several books were published: A Biography of Light, by José Tito Mendonça; QED by Richard Feynman (new edition); Cosmicomix by Amedeo Babi and Rossano Piccioni, and History of physics in Portugal at 20th century by Teresa Peña and Gonçalo Figueira, both at Gradiva; Dark Sky - Alqueva by Miguel Claro, at Centro Atlântico; a book of cartoons on light by Museu da Imprensa; Light in books, by António Campos at Tinta da China; and Let there be light, 3rd edition, by Jorge Calado, at ISTPress.

The IYL was covered by the media, with the help of the national news agency and national and local press. The newspaper Público had a special issue on the 100th anniversary of Einstein’s Theory of General Relativity and published a series of articles (Light as way and limit). Public TV emitted the IYL spot and interviews appeared in national public TV and radio. Specialized journals published special issues: Gazeta de Matemática, Gazeta de Física, Ingenium, Rua Larga, Aura Light, etc.

There were photo competitions, one organized by the national commission and other by the Engineers association. One jewellry competition was organized by the Goldsmith Association. The contest The Light of Discovery, promoted by the Portuguese Society of Optics and Hands-on Science Network Association, was directed to schools. Finally, the Post Office issued stamps on the IYL and the IY of Soils (an edition distinguished in Italy).


The IYL national committee included the Physical, Chemical and Optical societies, Association of Biologists, UNESCO National Commission and Ciência Viva Agency for Scientific Culture. The IYL was sponsored by the Ministry of Education and Science, the Portuguese Foundation for Science and Technology, the Ciência Viva Agency, the Gulbenkian Foundation, etc. 


Carlos Fiolhais and Pedro Pombo

>In the image:  Light, from Earths to the stars organized in Lisbon by Ciência Viva. Hommage to José Mariano Gago.

OS BOLSEIROS CIENTÍFICOS TAMBÉM SÃO TRABALHADORES


A minha crónica mais recente na Notícias Magazine, publicada no Dia do Trabalhador:

Um bolseiro não tem direito ao Regime Geral de Segurança Social, mas sim ao primeiro escalão do Seguro Social Voluntário. Independentemente do valor da bolsa, desconta como se ganhasse 419,22 euros. É esse o valor que conta para a carreira contributiva. Se ficar doente ou inválido recebe uma fração disso. Não tem subsídio de desemprego. Não está sequer abrangido pelas leis do trabalho. Pode ser despedido sumariamente se uma única pessoa (o supervisor) não escrever um parecer favorável à renovação da bolsa. E enquanto ganhar a bolsa está sujeito a um regime de exclusividade draconiano, que o impede de auferir rendimentos de praticamente qualquer outra atividade.

Texto completo aqui.

domingo, 1 de maio de 2016

11111 mensagens publicadas

O De Rerum Natura chegou hoje, dia 1 de Maio, a 11111 mensagens publicadas.
Um número que dá nas vistas e que esta breve nota vai mudar... para o seguinte, que já não dá nas vistas.

Carta Aberta à Visão sobre os "perigos do WiFi"

INFORMAÇÃO RECEBIDA DA COMCEPT (Comunidade Céptica Portuguesa):


Ex.mo Sr. Director da revista VISÃO:

Foi com estupefação que, no número 1207 da VISÃO, nos deparámos com um artigo sobre alegados efeitos nocivos para a saúde da tecnologia Wi-Fi. Os problemas começam na capa da revista: o título “Zona Wi-Fi: Ameaça para a Saúde” e o subtítulo “As ondas eletromagnéticas estão por todo o lado e cientistas acreditam que podem causar danos” são afirmações em contradição clara com factos científicos estabelecidos. Não está demonstrado que as radiações electromagnéticas usadas na tecnologia Wi-Fi ou nos telemóveis sejam perigosas para a saúde humana. O artigo atribui o mesmo peso a factos objectivos apresentados por especialistas e a opiniões de leigos, deixando os leitores na dúvida sobre eventuais consequências para a saúde advindos da radiação Wi-Fi, como se houvesse um debate científico sobre o assunto. Na verdade não existe qualquer debate. De um lado, encontra-se a comunidade científica em geral; do outro, um pequeno grupo, muito activo nas redes sociais, de crentes nos malefícios desta tecnologia.

Não duvidamos que as pessoas que afirmam sofrer de hipersensibilidade às radiações electromagnéticas têm um problema de saúde merecedor de cuidados. Não existe é qualquer plausibilidade científica na hipótese de as radiações Wi-Fi estarem na origem dos seus problemas. Além disso, em estudos controlados, a maioria dos indivíduos que alegam serem capazes de detectar campos electromagnéticos de baixo nível não o conseguem fazer. O tom sensacionalista da peça contribui para que pessoas que se julgam afectadas pelas radiações electromagnéticas não procurem ajuda médica especializada e se tornem vítimas de charlatães que oferecem todo o tipo de “terapias” e soluções tecnológicas dúbias como protecção contra as ondas electromagnéticas.

Anexamos uma carta aberta onde, de forma mais extensa, explicamos as nossas objeções à reportagem em causa. Esta carta será publicada no website da COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa, uma organização cidadã cujo objectivo é a promoção da ciência e do pensamento crítico na sociedade.

Com os melhores cumprimentos,
Diana Barbosa
Em representação da COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa

Subscrevem esta carta:
Alexandra Marques (bióloga)
António Piedade (comunicador de ciência)
António Gomes da Costa (consultor em comunicação de ciência)
António Vilas Boas (bancário)
Armando Brito de Sá (médico)
Carlos Fiolhais (físico)
David Marçal (bioquímico)
Diana Barbosa (bióloga)
Guilherme Lopes da Cunha (biólogo)
Hugo R. Oliveira (biólogo)
João Gaspar (biólogo)
João Monteiro (biólogo)
Jorge Morais (cientista de computadores)
Leonor Abrantes (historiadora de ciência)
Luís Monteiro (médico)
Marco Filipe (biotecnólogo)
Maria João Fonseca (assessora de comunicação)
Marina Frajuca (enfermeira)
Miguel Won (físico)
Nuno Fragoso Gomes (assessor de comunicação)
Patrícia Gonçalves (física)
Pedro Homero (recrutador RH)
Pedro Russo (astrónomo)

Introdução à Cultura e Línguas Clássicas

Informação recebida da Comissão Organizadora do Colóquio Internacional de ICLC:

Contrariando a tendência de afastamento da "cultura clássica" da escola, no corrente ano lectivo teve início no Ensino Básico, como "Oferta de Escola", o Projecto Introdução à Cultura e Línguas Clássicas. Depois de um Seminário realizado em Junho de 2015, para apresentação desse projecto, é tempo de se fazer balanço e pensar-se o seu futuro.

Assim, é com gosto que comunicamos a realização, no dia 4 de Junho, em Coimbra, do 1.º Colóquio Internacional que será guiado por essa intenção (programa em http://coloquioiclc.weebly.com/).

Nele se fará uma reflexão sobre o estado das Línguas e Cultura Clássicas na Europa e apresentar-se-ão dados sobre a implementação do projecto nas nossas escolas. Foram muitos projectos criados por professores, envolvendo diversas áreas de conhecimento - história, geografia, matemática, artes plásticas, teatro, pintura, línguas, ciências... - num trabalho interdisciplinar que dinamizou as escolas.

Alguns desses projectos serão apresentados em comunicações orais mas aceitam-se comunicações em forma de poster que revelem outros projectos, bem como contribuições para a dinamização da cultura e das línguas clássicas no nosso sistema educativo.

Homenagem ao Café de Santa Cruz, em Coimbra


Minha contribuição para o livro EM NOME DO TEU NOME, de homenagem ao velho Café Santa Cruz em Coimbra (uma antologia que assinala os 93 anos daquele café), que acaba de sair:

Mudei-me para Coimbra com sete anos de idade, após ter feito a primeira classe em Coimbra. E desde então, com algumas ausências (a maior das quais foi o período de três anos e meio entre 1979 e 1982 para efectuar o doutoramento em Frankfurt am Main, na Alemanha) a minha cidade tem sido Coimbra. E desde que resido em Coimbra que conheço o Café de Santa Cruz, na Praça 8 de Maio, colado à multicentenária Igreja de Santa Cruz., em miúdo de passar à porta e em graúdo de entrar e tomar uma bica e um pastel de nata (mais modernamente um crúzio).

A Praça 8 de Maio, cujo nome celebra o desfile das tropas liberais, chefiadas pelo Duque da Terceira, na cidade de Coimbra em 1834  (curiosamente o Café  foi inaugurado a 8 de Maio, mas quase um  século mais tarde, em 1923), era e é um sítio central da Baixa coimbrã, pela localização não só junto à Igreja de Santa Cruz como à Câmara Municipal. Aqui os ardinas vendiam os jornais  e aqui passava antigamente o eléctrico. Morador nos Olivais nos idos da minha adolescência, descia até à Baixa a pé para comprar um jornal dos periódicos “da tarde”, que chegavam vindos de Lisboa – era o tempo do famoso pregão político “Lisboa, Capital, República, Popular” – e depois regressar num dos saudosos eléctricos da linha n.º 3, com um bilhete que custava menos do que o jornal. Os cafés eram para mim nessa época, um mundo estranho e misterioso: era sítios onde se bebia, se fumava e se conversava. Eram pontos de encontro da gente adulta. Uma das recordações que guardo desses tempos, em que se descia uma escada para entrar na Igreja de S. Cruz, era a grande inundação que por vezes acontecia, devido ao facto de as águas do Mondego por vezes extravasarem das suas margens. Chovia um pouco mais e, sem a actual prisão das barragens, logo Santa Cruz ficava alagada nas águas do Basófias, como que a querer imitar Santa Clara, que há muito se tinha afogado do outro lado do rio. Eram dois mosteiros a banhos, um ocasional e outro permanente.

Hoje, quando tenho um visitante que conheça mal Coimbra, seja do país ou do estrangeiro, e tenha apenas um dia mostro-lhe primeiro a Universidade, com a indispensável Biblioteca Joanina e o Museu da Ciência no Laboratorio Chimico e no Colégio de Jesus, o mais antigo colégio jesuíta do mundo, em seguida passamos pelo Museu Nacional Machado de Castro, descemos para a Sé Velha, onde os claustros são visita obrigatória (aqui nasceu o gótico em Portugal), para depois, procurando não  escorregar no Quebra Costas, atravessarmos o Arco da Almedina, virarmos à direita na Rua Ferreira Borges em direcção ao Café de Santa Cruz e à contígua Igreja. Os claustros de Santa Cruz são, quer pela sua antiguidade quer pela tranquilidade que transmitem, um dos oásis da cidade de Coimbra. E o tour acaba inevitavelmente na mesa de mármore do café de Santa Cruz. Conto ao visitante que o Café teve origem numa igreja, mas não na Igreja de Santa Cruz, essa dos frades crúzios (aqui estudou, entre outros nome conhecidos, no século XVIII,  João Jacinto Magalhães, um “estrangeirado” que construiu e enviou para Portugal alguns impressionantes instrumentos de Física hoje patentes no Gabinete de Física Experimental no Colégio de Jesus) , mas sim na igreja paroquial de S. João da Cruz, construída cerca de 1530, que haveria de ser desactivada no século XIX quando as ordens religiosas foram extintas para conhecer vários usos civis antes de ser transformada em café, com o aspecto que tem hoje. Conto-lhe que o desenho é de um famoso arquitecto, um espanhol que passou por Coimbra no século XVI,Diogo de Castilho, que trabalhou também nos mosteiros dos Jerónimos, em Lisboa, e de Santa Cruz.  O escultor e arquitecto francês João de Ruão, construtor da Capela do Santíssimo Sacramento na Sé Velha, talvez tenha trabalhado no edifício. Um café, portanto, com muita pâtine.

Foi o ensaista Georges Steiner que disse que a Europa da Cultura assentava nos cafés. Em “A Ideia da Europa” (Gradiva, 2005) escreveu: 

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo [...] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se um dos marcadores essenciais da 'Ideia de Europa'" 

 Basta visitar o canto da Europa que é Portugal para perceber logo a relevância dos cafés para a vida comunitária do Velho Continente. O Café de Santa Cruz tem sido, ultimamente mais do que nunca, o merecido palco de numerosos acontecimentos culturais, confirmando a “ideia da Europa”. E, como a ciência é parte essencial da cultura, o Café tem sido também lugar de eventos científicos. No Verão de 2015 o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, organizou, no quadro do programa “Ciência Viva no Verão”,  uma actividade permanente de animação científica, com demonstrações que prenderam a atenção dos passantes, e um conjunto de quatro tertúlias, denominadas “Ciência ao Luar”, dedicadas aos quatro elementos da Antiguidade Clássica: o ar, a água, a terra e o fogo. Sobre o ar falou  Alex Blin, professor de Física na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que é piloto aviador nas “horas feriadas”, e Salvador Massano Cardoso, professor da Faculdade e Medicina da Universidade de Coimbra, especialista em Medicina do Trabalho e ex-provedor do Ambiente da Câmara de Coimbra;  sobre a água falou Fernando Seabra Santos, professor de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia, ex-reitor da Universidade e actualmente empresário, e António Costa Canas, oficial da Marinha Portuguesa, historiador de ciência e director do Museu da Marinha em Lisboa; sobre  o fogo (ou melhor a luz) falou João Mendes Ribeiro, o arquitecto responsável, entre outros, pelos restauros do Laboratorio Chimico e da Casa da Escrita em Coimbra, e  João Fernandes, professor de Matemática na Faculdade de Ciências e Tecnologia e especialista em astrofísica solar, e sobre a terra falou Daniela Santos, professora da Escola Superior Agrária de Coimbra e especialista em solos agrícolas, e Paulo Coelho, professor  do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e especialista em tectónica. No ano que, por decisão das Nações Unidas, foi simultaneamente o Ano Internacional da da Luz e o Ano Internacional dos Solos, o programa do ciclo “Ciência ao Luar” juntou a luz, os solos e outros temas numa tertúlia participada pelo público na hospitaleira esplanada do Café de Santa Cruz. Com o Rómulo colaboraram nessa iniciativa o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, os Departamentos de Química e de Física da Universidade de Coimbra e o Centro de Competência SoftCiências. 

O Café de Santa Cruz só fará cem anos em 2023. Não falta muito, mas julgo que a melhor maneira de se aproximar dessa data, sem ninguém dar conta que o tempo está a correr, será a de continuar o que tem sido a sua actividade cultural nos últimos anos. Steiner tem razão: sem cafés não há Europa nem há cultura.

Ensinar temas de História a partir de romances históricos

"Neste momento, as didácticas estão ocultas, dado que nos últimos anos,
surgiram livros ou relatórios sobre o estado da escola ou sobre a formação
de professores, em que elas estão ausentes, ao ponto de nos podermos,
por vezes interrogar se ainda se ensina alguma coisa na escola
e se isso levanta algum problema do ponto de vista do conteúdo."

Jean-Louis Martinand, 2007, 147.


Ao longo de meio século, um pouco por toda a Europa, o campo de estudo e de prática, outrora digno e promissor, designado por "didáctica" foi-se esvaziando até chegar a um estado de quase extinção. 

Entre as múltiplas razões que terão concorrido para esse estado contam-se as seguintes:
- a desvalorização dos conhecimentos, saberes, conteúdos ou matérias especificamente escolares. Ora, a didáctica tem em conta, antes de mais, essa componente do currículo;
- o esboroamento das fronteiras das disciplinas constituintes do currículo escolar, em favor de abordagens multi, pluri e inter e transdisciplinaridade. Ora, a didáctica centra-se no modo de ensinar e aprender em disciplinas concretas;
- a ideia de que ninguém ensina nada a ninguém, logo um futuro professor, tem de descobrir por si e em si como ensinar. Ora, a didáctica trabalha precisamente no apuramento dos melhores métodos para se ensinar no quadro de uma disciplina e, nesse quadro, de cada um dos temas que a constituem;
- a suposição de que o professor só pode aprender na prática e com a prática. E, mais, que a prática de cada um é única e intransmissível, não podendo nem devendo, nessa medida, apurar-se princípios de acção docente.

Para a dissolução da área da didáctica, terá também ajudado a promessa revolucionária dos anos de 1960/70 que eram os "currículos-à-prova-de-professor" (invenção da linha de investigação do ensino inspirada no behaviorismo) onde especialistas operacionalizavam, até ao mais ínfimo pormenor, a acção dos professores, de modo que eles não precisavam de planificar, preparar recursos, nem instrumentos de avaliação e respectivas grelhas, nem de pensar o que deveriam fazer ou dizer nas aulas, pois tudo isso estava pré-determinado esperando-se que se limitassem a cumprir o pré-estabelecido. E, não: essa promessa não se extinguiu nos anos de 1980, foi, pelo contrário, adoptada e refinada pelas empresas de manuais escolares, sendo Portugal um dos mais pujantes e também mais tristes exemplos em tal matéria.

Ainda que no nosso país, o novo regime jurídico de habilitação para a docência (Decreto-Lei n.º 79/2014 de 14 de Maio) restitua o lugar que a didáctica tem, por direito próprio, nos planos de formação inicial de professores, há um trabalho anterior que é preciso recuperar e um investimento imenso para o futuro que precisa de ser (re)iniciado no presente, como aliás, e tanto quanto sei, já está a acontecer em algumas universidades.

O meu interesse nesta tarefa, leva-me a acompanhar o trabalho de vários colegas que têm avançado "em modos específicos de ensinar em disciplinas". Um deles é Andrés Palma Valenzuela da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada. Abaixo transcrevo uma entrevista que recentemente deu sobre sobre o uso do romance histórico para a aprendizagem da Histórica.

Referência da citação: Martinand, L. (2007). Didáctica e didácticas. Esboço problemáticoIn A. Estrela (Org). Investigação em educação: teorias e práticas (pp. 147-167). Lisboa: Educa.


¿Es la novela histórica una herramienta para el aprendizaje de la Historia?
Es una cuestión que puede dar para horas y días de largo debate. Seguramente, muchos tendremos opinión, pero hoy prefiero contaros la experiencia del profesor  Andrés Palma, del departamento de Didáctica de las Ciencias Sociales de la Universidad de Granada, que imparte clases en los grados de Maestro de Educación Primaria e Infantil… y usa la novela histórica como recurso (...) me llamó la atención fue la del profesor Palma sobre la novela histórica como herramienta didáctica.  
Todo empezó como un juego”, me explica Palma el uso de la narrativa histórica con sus estudiantes universitarios. A él le gustaba la novela histórica como pasatiempo, pero después descubrió su efecto motivador. “Se ve que la Historia aburre, que parece algo lejano… pero cuando a la gente le metes en una trama y esa trama engancha, y además aprenden, les motiva. Y para mi ese fue el descubrimiento”, relata. “Cuando vi su eficacia, le di un formato más serio y lo planteé a la universidad como un proyecto de innovación”. 
Lo más curioso es que esto no lo hace nadie”, explica este educador, sorprendido porque “los historiadores no se acaban de fiar de la novela y los mismos escritores dicen que sus obras son expresión de su creatividad y no un documento histórico que puede ser riguroso. Los unos por los otros, la novela se queda en tierra de nadie. Y creo que bien usada, puede funcionar”.  
¿Cómo estaría bien usada? “El único problema es elegir el material. Seleccionar una novela cada año, cosa que llevo haciendo seis años, me supone leerme seis o siete. Tengo que definir el periodo con el que quiero trabajar”. Este profesor repasa sus criterios: que no distorsionen la Historia, que sean de periodos desconocidos por los alumnos (por eso no trabaja la Guerra Civil, que dice está “muy machacada”) y la extensión (“no puedo mandarles una novela de mil páginas que se les caiga de las manos”). “Novelas bien fundamentadas históricamente, en las que el autor no delire, que esté bien escrita, que trate una época diferente y que tenga la extensión justa, no hay tantas”, afirma.

Mi trabajo es como el del novelista, pero al revés” (...). “Alguien que escribe una novela, primero se documenta para no decir tonterías. Yo hago el proceso inverso, es como un juego virtual. Metes al alumno en la trama y comienzan a descubrir cosas". Y pone un ejemplo, “la última novela con la que he trabajado es una ambientada en la segunda mitad del siglo XIX, en Granada. Cuando los alumnos descubren que hay espacios que conocen, vivos, que han cambiado, ocurre algo mágico, son conscientes del cambio. Para mí, es la enseñanza entendida como algo dinámico y a los alumnos se les mete dentro de esa dinámica”.  
Y sus alumnos, ¿cómo reaccionan? “El tipo de alumno mío, de unos veinte años, ha leído a Harry Potter, El señor de los anillos, la saga de los vampiros y, excepto los más curiosos, no han leído nada más", describe a sus pupilos el profesor Palma. “Siempre reaccionan igual: cuando se lo planteas, generas rechazo. A medida que van entrando en el juego, el 99,99% lo valoran como algo muy positivo. Pasan del rechazo a la satisfacción total. No falla, y eso que es un trabajo pesado, tienen que leer y descomponer los capítulos… Algunos me dicen que seguirán leyendo novela histórica”, dice con un tono que percibo como orgullo. 
Comentamos también un asunto del que ya os hablé en su momento, la escasez de ficción histórica para públicos infantiles y juveniles. "El problema es que mis alumnos son futuros maestros de primaria y para niños de esas edades no hay relatos ni cuentos de este tipo. Alguno de mis alumnos, después de esta experiencia, se han planteado escribir relatos históricos para esas edades”. Ojalá sea así. 
Al usar la novela histórica, mato dos pájaros de un tiro: genero interés por la lectura, que según los informes Pisa es uno de nuestros grandes problemas, y desarrollo los conocimientos de mi asignatura que son la historia, la geografía y el patrimonio”. 
¿A qué apetecería ir a una de sus clases? ¡Buenas lecturas!

quinta-feira, 28 de abril de 2016

SUPERFÍCIES DE APLANAÇÃO, UMA INEVITABILIDADE DO CAMPO GRAVÍTICO TERRESTRE

Texto que nos foi enviado pelo Professor Galopim de Carvalho e que muito agradecemos.
Planície alentejana com a Serra do Caldeirão no horizonte. Desenho de João Alveirinhp Dias
Do mesmo modo que tudo cai de cima para baixo por força da gravidade e uma vez que, no nosso planeta, existem agentes promotores de erosão, as montanhas tendem a ser arrasadas e os materiais resultantes dessa erosão acumulados nas depressões. Se não houvesse forças internas que, de tempos a tempos, geram montanhas, sejam elas de que tipo forem, a superfície dos continentes seria tão plana quanto a das águas em repouso.

É curioso lembrar que, no século X, os membros de uma fraternidade de filósofos ismaelitas, conhecida por Irmãos da Pureza (Ikhwan al-Safa, em árabe), que se admite ter estado sediada em Bassorá, no Iraque, escreveram numa enciclopédia que nos legaram “os continentes, uma vez arrasados pela erosão, ficam ao nível do mar”.

Desde sempre, filósofos, geógrafos, naturalistas e geólogos se depararam com esta realidade do relevo em todas as latitudes da Terra, que é o confronto entre as planícies e as montanhas. Portugal não foge a esta dualidade.

À planície alentejana opõe-se a orografia bem mais acidentada do centro e norte do território. Na origem, o termo planície, que nos chegou vindo do latim planitie, significa superfície plana. Como vocábulo do léxico geográfico, esta mesma palavra passou a referir uma extensão maior ou menor de terreno aplanado, de notada horizontalidade e, na maioria dos casos, a muito baixa altitude, onde a sedimentação supera largamente a erosão.

Os geógrafos distinguem planícies fluviais e planícies costeiras ou litorais. As planícies fluviais formam-se, as mais das vezes, na zona vestibular dos rios, ou seja, nos troços mais próximos da foz, propícios ao desenvolvimento de meandros divagantes. São limitadas por aclives (vertentes a subir), ou seja, estão rebaixadas relativamente aos terrenos envolventes. São exemplos de planícies fluviais a lezíria (do árabe al jazīrâ) e os mouchões do Tejo, os campos do Mondego, do Sado, do Caia e do Sorraia e os sapais de Corroios e de Castro Marim.

Favoráveis à sedimentação fluvial, comportam muitas vezes corpos de águas paradas, como pântanos (ou pauis) e braços mortos de meandros abandonados. As planícies litorais ou costeiras têm por limites de um lado, o mar e, do outro, um aclive, muitas das vezes, uma antiga falésia ou arriba (arriba fóssil). São exemplos de superfícies litorais a que se estende para sul de Ovar até a Serra da Boa Viagem, muitas vezes referida por gândara, a que se prolonga entre esta Serra e a Nazaré, a alentejana, entre a foz do Sado e Sines, e a campina entre Faro e Olhão.

Propícias à sedimentação marinha e/ou dunar arenosa, com elas se relacionam restingas, ilhas-barreiras, lagunas (rias) como as de Aveiro e de Faro-Olhão e lagoas como as de Fermentelos (Pateira), Óbidos, Melides e Santo André. Ao contrário das planícies, os planaltos, como o nome indica, são superfícies aplanadas em altitude (convencionalmente, acima dos 300 m) limitados por vertentes que descem para terrenos a cotas inferiores. Ao contrário das planícies, os planaltos são, sobretudo, sede de erosão.

Entre nós, é frequente falar-se dos planaltos transmontanos, do planalto da Guarda e, até, do planalto da Torre, no cimo da Serra da Estrela. O estudo das superfícies de aplanação é um dos temas mais explorados na dialética entre geógrafos e, com a evolução da geografia física para a geomorfologia, entre geomorfólogos.

Nesta troca de ideias há que registar os modelos concebidos por William Morris Davis (1850-1934), Walther Penk (1888-1923), Julius Büdel (1903-1983) e Lester Charles King (1907-1989). Em 2005, na monumental obra em três volumes, GEOGRAFIA DE PORTUGAL, editada pelo Círculo de Leitores e dirigida pelo Prof. Carlos Alberto Medeiros, o nosso saudoso colega (e meu ex-aluno), António Brum Ferreira foi o autor do primeiro volume O Ambiente Físico, onde, em palavras simples mas rigorosas sintetiza as ideias destes quatro autores. No artigo The Geographical Cycle que ficou célebre na geografia de finais do século XIX, W. M.

Davis, professor da Universidade de Harvard, divulgou o conceito de “peneplaine” (peneplanície na versão portuguesa) como um tipo de aplanação inacabada, a relativamente baixa altitude, fruto de um longuíssimo desgaste por parte da erosão fluvial. O elemento de origem latina “pene” que escolheu para antepor à palavra “planície”, significa “quase”, pelo que foi e continua a ser, sobretudo, no sentido de “quase planície” que este vocábulo entrou no léxico geográfico e geomorfológico. Largamente divulgado por prestigiados geógrafos franceses, como Emmanuel de Martonne (1873-1955), Henri Baulig (1877-1962) e Pierre Birot (1908-1984), o conceito de peneplanície estendeu-se aos geógrafos portugueses, então ainda francófonos na sua maioria.

Conhecido como o “pai da geografia americana”, Davis partiu da convicção de que, a períodos relativamente curtos de elevação do relevo, se seguiam outros imensamente longos, de grande estabilidade, favoráveis à erosão. Por outro lado, tendo centrado o essencial do seu trabalho de campo nas regiões sob clima temperado-húmido, o modelo de aplanação que concebeu e divulgou assenta, fundamentalmente, na erosão realizada pelos cursos de água

Neste processo, que designou por “erosão normal”, Davis escolheu o adjectivo “normal” no propósito de poder usar este tipo de erosão como norma ou padrão de comparação com os de outros ambientes climáticos. Na concepção de Davis, a peneplanície, que interpretou como resultante da erosão de uma montanha nos parâmetros em que a definiu, pode ser elevada por subida do continente (epirogénese) ou por descida do nível do mar, dando início a novo e idêntico processo erosivo, numa repetição a que deu o nome de ciclo de erosão.

Um argumento contra a prolongada imobilidade tectónica pressuposta no modelo davisiano foi apresentado, vinte e cinco anos depois, pelo jovem geomorfólogo austríaco, Walther Penck (1888-1923), no livro que nos deixou, Die Morphologische Analyse, editado postumamente em 1924. Porém, o modelo de Davis só sofreu contestação, em 1953, quando este livro foi traduzido para inglês, sob o título Morphological Analysis of Landforms.

Influenciado pelas observações geomorfológicas a que procedera na região da Floresta Negra, onde um conjunto de superfícies aplanadas se escalona em degraus (Piedmonttreppen) nos flancos da montanha, Penck argumenta, neste seu livro, que o processo de erosão do relevo ocorre simultaneamente de forma gradual e contínua com o de elevação do mesmo relevo. Pouco mais de três décadas depois, na Alemanha, Julius Büdel (1903-1983) revelava um outro processo conducente à origem de uma superfície de aplanação.

Experimentado na geomorfologia de regiões tropicais do tipo savana quente, com uma estação húmida acentuada, propícia à formação do rególito, ou seja, de uma capa de meteorização das rochas do substrato, este geomorfólogo defendia, na sua obra Zeitschrift für Geomorphologie, publicada em 1957, a ideia da existência de duas superfícies com realidade no terreno: a superfície topográfica, em contacto directo com a atmosfera, ou seja, a que suporta a paisagem, sujeira a erosão pelas águas de escorrência e fluviais; e a superfície basal, entre o rególito e a rocha sã, tanto mais profunda, quanto maior fosse a espessura do rególito. Büdel defendia que, quando a humidade prevalecesse relativamente à secura, a meteorização é mais veloz do que a erosão. Se o clima regional evoluir no sentido da aridez, a erosão torna-se mais intensa do que a meteorização das rochas, podendo, no limite, pôr a descoberto a dita superfície basal que, assim, se transforma numa superfície de aplanação.

Um outro modelo contraposto à peneplanície e, talvez, o que mais movimentou a comunidade de geógrafos e geomorfólogos foi concebido e divulgado pelo geomorfólogo sul-africano Lester Charles King (1907-1989), na obra The Morphology of the Earth, publicada em 1962. Inglês de nascimento, este professor da Universidade do Natal, procurou explicar aplanações recentes e antigas por uma outra via radicalmente diferente da de Davis, tendo baseado o seu modelo na evolução do relevo que lhe foi dado observar na regiões subáridas.

Ao percorrer estas regiões, este que foi um dos mais influentes geomorfólogos do século XX, notou que as planuras destas regiões terminam, abruptamente, contra escarpados íngremes. Verificou que a superfície do terreno na base deste escarpados, a que deu o nome de pediment, (pedimento, na versão portuguesa) se apresentava minimamente inclinada, talhada pela escorrência de águas selvagens) carregadas de detritos. Para o autor, é o desenvolvimento destas superfícies que conduz à pediplanície, pediplain, na versão inglesa.

Na concepção de King, a pediaplanação, ou seja, o desenvolvimento da pediplanície vai alastrando em detrimento do relevo que, consequentemente, vai recuando, deixando, por vezes, testemunhos isolados, controlados pela estrutura geológica do terreno (dobras, falhas e outras). Aos ditos testemunhos, isolados como se fossem ilhas, salientes da pediplanície, o geógrafo germânico Wilhelm Bornhardt (1864-1946) deu o nome de Inselberg (do alemão Insel, que significa ilha, e Berg, que quer dizer monte) termo que, à letra, significa monte-ilha.

Embora algumas das suas ideias e interpretações, como, aliás, todas as outras, sejam questionáveis, King estimulou a comunidade dos geógrafos e geomorfólogos a repensar e rever criticamente os agentes e os mecanismos que conduziram e conduzem à aplanação do relevo.

A. Galopim de Carvalho

Jan Skácel: O Poeta do Silêncio


 
1 - A Noite
 
Ascende no céu o vento
O vento de amanhã, purpúreo
E então de novo o amor
Uma vez mais depois deste longo tempo
Desassossega a morte à distância.
 
2- Um momento em Janeiro
 
Frágil como uma casca, o dia está em silêncio.
No seu seio, o sol branco completamente branco.
E até a neve é branca, as árvores, as açoteias, a neve.
E até neste segundo é branco este momento.


3- Quando eu perder a minha voz


Quando eu perder a minha voz
não somente por minha culpa

e seres a única a me ouvir


 
então  dizer-te eu vou
o que não diz senão o mudo
e aquele que o silêncio
veio advertir.
 
4-Um Instante
 
Para alguma verdade no mundo
Se vós preferis,
Para uma lasca de silêncio.
Há um momento que rasga ao meio a terra.
Algum tempo de humildade,
Quando alguém sopra sobre nós.

 
Nota:
Foi no livro Umbrais-O Pequeno Livro dos prefácios  de João Barrento que encontrei uma breve referência a Jan Skácel, poeta nado na Morávia. Desta região da república checa são também oriundos o psicanalista Sigmund Freud,  o matemático Kurt Gödel e os poetas Jiří Wolker  e Vítěslav Nezval, sendo este último muito apreciado por Claudio Magris.