quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A bateria do ião de lítio | Ciência às Seis online

O ESPÍRITO DE CRISTAL

 


Do poeta e ensaísta Eugénio Lisboa recebemos este belo texto que assinala a entrada em livre circulação das obras de George Orwell:
 

Acabam de ser postas no domínio público as obras desse grande escritor e grande cidadão que foi George Orwell, um dos mais destemidos e autênticos defensores da liberdade, mas de uma liberdade incontaminada pelos miasmas que frequentemente a pervertem. Conceitos comodemocracia” e “liberdade” e outros igualmente egrégios foram abusivamente apropriados e conspurcados pelos habituais promotores de infernos concentracionários. Arriscando a própria vida, no meio da guerra civil espanhola, combatendo ao lado dos republicanos, ironicamente, viu-se mortalmente perseguido, não pelos fascistas, mas sim pelos comunistas. É o preço que pagam os intrépidos espíritos de cristal, cujo verbo diamantino não se prostitui no uso das palavras em sentido perfidamente distorcido.

Em forma de homenagem, transcrevo, a seguir, passagens de um artigo que publiquei, em 1984, assinalando a publicação do livro cujo título é, precisamente: 1984.

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Como muitos privilegiados, Eric Blair – era esse o seu verdadeiro nome – frequentou Eton, mas não teve o benefício de estudos universitários: em vez disso, foi polícia na Birmânia, teve, por algum tempo, um gosto (amargo) do império, e regressou, por fim, à Europa, onde passou fome e solidão, entre Londres e Paris. Como tantos intelectuais ingleses (e não só), nos anos trinta, foi socialista. Mas, ao contrário da maioria deles, nunca o seduziu a «tentação totalitária». Combateu em Espanha, ao lado dos republicanos, foi seriamente ferido na garganta e escapou, por um triz, às purgas que os «camaradas», teleguiados de Moscou, desencadeavam, com desenvoltura, nas hostes que combatiam Franco. O seu antifascismo vinha de longe e era de boa cepa. O percurso de Orwell não foi nunca o de uma típica desilusão de amor [isto é, não veio para o socialismo libertário, por rotura com a ortodoxia comunista]: o seu socialismo foi, desde o começo, o de um intemerato amante da liberdade. Homage to Catalonia (Homenagem à Catalunha) é, além do mais que também é, um impressionante documento e um livro que foi difícil a uma certa esquerda digerir. Admirado pela sua coragem e lucidez, Orwell pagou, em boa e amarga medida, o preço da sua vontade de chamar as coisas pelo seu nome. A sua prosa foi sempre de uma beleza difícil de definir, simples, clara, directa, um perfeito instrumento de comunicação de ideias, sem a hipocrisia febril das circunvoluções. Num famoso ensaio sobre Swift, o autor de 1984 afirmará que o criador de Gulliver “não desperdiça palavras” e, noutro ponto do mesmo ensaio, fala de “todo o poder e simplicidade da prosa de Swift”. Elogios que a ele próprio assentam como uma luva. Da leitura, tanto dos romances, como da sua vasta obra de jornalista e ensaísta, desprende-se um dos mais fortes aromas de integridade intelectual, de firmeza, de convicção, de quase aterradora lucidez, que me tem sido dado confrontar, no decurso de um já longo percurso de leituras. Dizia um escritor francês, deste século, que não sabia como era o espírito de um canalha do baixo mundo, mas que sabia muito bem como era o espírito de um homem honesto: era simplesmente aterrador. (…..) Num seu texto célebre, “Politics and the the English Language”, Orwell devastava, nestes termos, a hipocrisia linguística dos políticos e da intelligentsia inglesa da época: “No nosso tempo, o discurso e a escrita dos políticos são largamente a defesa do indefensável. Coisas como a continuação do domínio britânico na Índia, as purgas e deportações na Rússia, o lançamento de bombas atómicas no Japão, podem realmente ser defendidas, mas só com argumentos que são brutais para que a maior parte das pessoas os consiga encarar, e não dizem bem com os objectivos que os partidos políticos dizem visar. Por isso a linguagem política tem que viver largamente de eufemismos (….) e de puras vacuidades nebulosas. Bombardeiam-se, do ar, aldeias indefesas,  empurram-se os seus habitantes para o campo aberto, metralha-se o gado, deita-se fogo às cabanas com balas incendiárias: chama-se a isto pacificação. Roubam-se as quintas a milhões de camponeses e mandam-nos trotar para as estradas apenas com aquilo que levam nas mãos: chama-se a isto transferência de população ou rectificação de fronteiras. Metem-se pessoas na cadeia, durante anos, sem julgamento, ou dá-se-lhes um tiro na nuca ou mandam-nos morrer de escorbuto em campos de madeira no Ártico: chama-se a isto eliminação de elementos que não merecem confiança. Uma tal fraseologia é necessária quando se quer nomear as coisas sem trazer ao espírito a clara fotografia delas. Considere-se, por exemplo, um confortável professor de inglês defendendo o totalitarismo russo. Não poderá dizer abertamente: “Eu acho que é aconselhável liquidar os nossos adversários, se com isso obtivermos bons resultados.” Por conseguinte, dirá provavelmente qualquer coisa como isto: “Conquanto conceda livremente que o regime soviético exibe certos aspectos que os humanistas podem sentir-se inclinados a deplorar, devemos, penso eu, concordar que uma certa redução do direito à oposição política é uma componente inevitável de certos períodos de transição e que os rigores de sofrimento a que o povo russo tem sido submetido têm sido amplamente justificados na esfera dos resultados concretos conseguidos.

Orwell acreditava, e com razão, que a clareza do discurso se perverte sempre que o totalitarismo se propõe avançar. Ou, por outras palavras, que a liberdade política e a simplicidade de linguagem estão, por força, interligadas. A simplicidade do discurso é própria de quem nada tem a esconder (…) Por isso observava Vauvenargues que “a clareza é a boa fé dos filósofos”. Dela, com efeito, só têm medo os pervertidos, os opressores e os charlatães. O contorcionismo linguístico é sempre um sinal de doença: a má fé anicha-se, de preferência, no enredado e no arrendado das palavras. (….) A limpidez da linguagem é a maior homenagem que o homem livre pode oferecer ao homem livre. Por isso, a uma amiga a quem se declarava, Orwell informava-a, com lisura e candura, de tudo quanto nele era pouco recomendável, concluindo: “Falei-lhe de modo chão porque sinto que V. é uma pessoa excepcional.” Toda a obra de Orwell é, portanto, na sua cristalina inteireza, uma declaração de apreço  pelo leitor. (….)

À memória de um amigo que conhecera nos primeiros dias da sua estadia em Espanha, Orwell dedicou um poema que concluía assim:

 

Mas àquilo que vi no teu rosto

nenhum poder pode fazer mal:

não há bomba, por mais que rebente,

que destrua o espírito de cristal.

 

O seu “espírito de cristal”, a sua intrépida lucidez, o magnetismo potente do seu falar inteiro, o seu ódio saudável ao Newspeak [a odiosa e mentirosa “novilíngua” dos opressores] (…) – são, afinal, o seu melhor e mais durável legado. Como ele próprio dizia, não há bomba que destrua o espírito de cristal.

Eugénio Lisboa


 Sueltos

VERGONHA!

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto (Rui Barbosa).

Envergonhado na minha condição de cidadão deste país, começo por citar este naco de prosa sobre  um deputado do Partido Socialista, eleito pelo círculo eleitoral do Porto, cidade de gente honrada e trabalhadora, Eduardo Barroco de Melo que defendeu, esta terça-feira, na sua conta pessoal Twitter, a inclusão dos deputados nos grupos prioritários da vacinação contra o coronavírus, tendo chegado ao desplante inominável de criticar os seu pares de bancada que, “ad contario”, em  nobre atitude de amor ao próximo,  rejeitaram a sua administração prioritária em benefício pessoal. Os seu nomes, brevemente, cairão no esquecimento mas o nome de Eduardo Barroco de Melo perdurará em gente com memória porque o tempo nem sempre é uma esponja que apaga da memória situações deste tipo.   

Espero que António Costa para tentar, ainda que em vão, salvar a honra do PS, qual casa em ruínas,  que aparece constantemente em notícia públicas  de escândalos ventilados nos media não lhe desculpe esta vergonha chamando-o ao seu gabinete oficial para lhe dar um puxão de orelhas que ele, em boa verdade merece.

O destino olhou por ele embalando-o em berço de rendas ao não lhe permitir a veleidade de estudar na Escola Náutica para vir a desempenhar funções  de comandante de navio de passageiros sendo o último a abandoar um barco prestes a soçobrar. O não cumprimento deste preceito  faz com esse poltrão seja demitido sem demora.

Mas ele, deputado,  não está neste salve-se quem puder por haver já uma lista de políticos, logo de deputados,  para passarem à frente de trapos velhos, alguns verdadeiros farrapos humanos, depois de uma vida de sacrifícios prestados ao país que serão ultrapassados por a maioria deles com  honrosas  execepções que,  com muita dignidade ,se recusarem a entrar nessa lista.

Lista que, finalmente, como eu já defendi publicamente passará a englobar os bombeiros que transportando nas ambulâncias doentes do coronavírus pertencem ao número da população  que corre mais risco e que muito  necessários são num ocasião de verdadeira calamidade cujos efeitos finais se desconhecem e  em que Portugal ocupa o primeiro lugar de mortes pelo coronavírus por milhão de habitantes. Esta  a verdade nua e crua!


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

O ANO DE DOSTOIÉVSKY E OUTROS

 


Texto meu sobre efemérides de 2021 que acaba de sair na revista "As Artes entre as Letras" do Porto (não houve espaço para outras efemérides, como os 100 anos do Nobel de Einstein, os 200 ano da morte de Napoleão, e os 700 anos da morte de Dante) 

Se 2020 foi o ano Beethoven para assinalar os 250 anos do seu nascimento, 2021 é – vai ser – o ano do russo Fiodór Dostoiévsky, o autor de Crime e Castigo, O Jogador e Os Irmãos Karamazov, um gigante da literatura mundial. O escritor nasceu em 11 de Novembro de 1821 e morreu quase 60 anos depois. Entre nós a Presença vai reeditar uma dezena das suas obras, que vale a pena ler ou reler. Destaco a edição em dois volumes, na Presença, dos Irmãos Karamazov com tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra, tradutores premiados pela Associação Portuguesa de Escritores e pelo Pen Clube Português. Mas há edições de outras editoras como a Relógio d‘Água.


As comemorações literárias não se ficam, porém, por aqui. Passam os 400 anos do nascimento do francês Jean de la Fontaine (1621-1695), o autor das famosa Fábulas, escritas entre 1169 e 1694, e os 150 anos do nascimento de Marcel Proust (1871-1922), o autor de Em Busca do Tempo Perdido, escrito entre 1908 e 1922 e publicado em sete volumes entre 1913 e 1927.


Entre nós assinala-se o centenário de Carlos de Oliveira (1921-1981), nascido em Belém do Pará, no Brasil, de emigrantes portugueses, mas associado à Gândara, no concelho de Cantanhede. É o autor dos livros Uma Casa na Duna, Uma Abelha na Chuva e Finisterra, entre outros, além de um trabalho poético num só volume. E passa também o centenário de Rui Grácio (1921- 1991), nascido em Lourenço Marques (hoje Maputo), que foi pedagogo e estudioso de Ciências da Educação – a minha selecta de Filosofia do liceu foi organizada por ele.


Para Coimbra, 2021 é um ano marcante, embora a cidade permaneça culturalmente apática. Passam-se so 800 anos da Fundação do Mosteiro de Celas, uma casa da Ordem de Cister, que foi fundada pela beata D. Sancha, filha de D. Sancho I, em Vimaranes, no que eram então arredores de Coimbra, mas que hoje pertence à cidade. Recomendo uma visita ao claustro que é do início do século XIV e que tem belos capitéis com cenas da vida de Cristo. Sugiro sobre esse mosteiro o belo livro Santos, Heróis e Monstros. O Claustro da Abadia de Santa Maria de Celas, de Carla Varela Fernandes, Edições Colibri (2020).


Por outro lado, passam 750 anos do nascimento da  Rainha Santa Isabel ou Rainha Santa (1271-1336), a aragonesa que casou com D. Dinis e que foi canonizada em 1625, sendo hoje padroeira da cidade de Coimbra. Foi sepultada no mosteiro de Santa-Clara-a-Velha, que esteve muitos anos inundado pelo Mondego e que foi exemplarmente reconstruído (vale a pena a visita!), mas, devido à subida do nível das águas fluviais, foi transladada para o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, no alto de uma colina próxima, onde está hoje (a Igreja pode ser visitada, mas o gigantesco edifício do mosteiro não, ou melhor só pode em circunstâncias especiais, como têm sido as da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra).


Em 2021 passam, a 19 de Dezembro, os 500 anos da coroação de D. João III (1502 -1557), o filho mais velho de D. Manuel I, que se tornou um dos reis mais poderosos do mundo. Passam também os 500 anos da chegada, em 16 de Março, de Fernão de Magalhães (1480-1521) às Filipinas. O navegador português que empreendeu a primeira viagem de circum-navegação não a completou: morreu em Mactan, na ilha de Cebu, no arquipélago filipino, num confronto com os locais, no mês seguinte ao da chegada.


No ano seguinte aquele em se comemoraram os 200 anos da Revolução Liberal, há duas datas relevantes para a história da liberdade em Portugal: assinalam-se os 200 anos da extinção da Inquisição em Portugal. Instituído em Portugal por D, João III em 1536, esse tribunal só foi extinto em 31 de Março de 1821. Assinalam-se também os 200 anos da Liberdade de Imprensa em Portugal: com efeito, foi a 4 de Julho de 1821 que foi promulgada a primeira lei de liberdade de imprensa. Essa lei logo no seu primeiro artigo assegurava a qualquer pessoa a possibilidade de imprimir, publicar, comprar e vender em Portugal e nos Estados Portugueses quaisquer livros ou escritos sem censura prévia. Dez dias depois era criado o Tribunal Especial da Proteção da Liberdade de Imprensa.


Em 2021, comemoram-se os 150 anos do nascimento de Alfredo da Silva (1871-1042), o grande industrial que fundou a Companhia União Fabril - CUF, entre outras grandes empresas que deixaram marca no panorama económico e social português. É ainda o ano do centenário da revista Seara Nova, fundada em Lisboa em 1921 por iniciativa de Raul Proença, onde pontificaram intelectuais como Jaime Cortesão, António Sérgio, Raul Brandão e Aquilino Ribeiro. A revista, que foi um baluarte da luta contra o Estado Novo, ainda hoje existe. Acresce que passa o centenário do jornal vespertino Diário de Lisboa, cujo primeiro número saiu em 7 de Abril de 1921 (sendo primeiro director Joaquim Manso) e o último em 20 de Novembro de 1990. A integridade das edições esta disponível nas páginas web da Fundação Mário Soares. Lembro-me de ter mandado um artigo para o Diário de Lisboa Juvenil, mas não sei se saiu…


Do ponto de vista científico, 2021 é o ano do centenário do físico russo e activista político Andrei Sakharov (1921-1989), que foi prémio Nobel da Paz e que tem o nome num prémio da União Europeia. Entre nós é o centenário da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, a mais antiga faculdade de Farmácia do país em funcionamento contínuo.


Uma vida humana pode abranger um século. Edgar Morin, o sociólogo francês que tive o gosto de conhecer pessoalmente e que é autor de numerosos livros traduzidos entre nós, nasceu em Paris em 8 de Julho de 1821. Daqui a cerca de seis meses vai soprar cem velas…

NOVA "EUREKA" (Revista em espanhol de ensino e divulgação das ciências a cujo comité editorial pertenço)

 Publicado nuevo número de Revista Eureka sobre Enseñanza y Divulgación de las Ciencias: Vol 18, nº 1, enero de 2021

https://revistas.uca.es/index.php/eureka/issue/view/415


Visite la web de nuestra revista para leer el aviso completo.

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia estão disponíveis em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

[Fora de Série]

Correia Martins & Adriano Scatolin: O discurso inaugural do real colégio dos nobres (1766), por Miguel Antonio Ciera. Introdução, tradução e estabelecimento do texto latino (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 110 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1938-5

 [O italiano Miguel António Ciera profere a 14 de abril de 1766 o Discurso Inaugural do Real Colégio dos Nobres, instituição impulsionada pelo Ministro Sebastião Carvalho e Mello, sob o patronato régio de D. José I. O Discurso, escrito em latim e estruturado em doze capítulos, apresenta reflexões em prol das Letras e das Humanidades, discorre sobre questões de Filosofia Política, num equilíbrio sensato entre críticas e elogios a uma classe privilegiada que se almeja que seja cada vez mais versada nos diversos assuntos de Estado. Este panegírico incide sobretudo sobre a imprescindibilidade de uma formação integral, como se de uma segunda natureza se tratasse, fortalecida nos princípios da ética e da moral para que os jovens nobres pudessem desempenhar de forma ativa e competente os papéis para os quais estariam destinados. A eloquência do orador, a estrutura argumentativa da preleção, tão ao estilo ciceroniano, comprovam que tanto ao nível da ‘res’ como dos ‘verba’ este discurso é de assinalável relevância para o estado de arte e para o estudo da História da Pedagogia no século XVIII, em Portugal.]

 

Série “Ideia” [Estudos]

Luís António Umbelino (coord.): Corps ému: essais de philosophie biranienne / Corpo abalado: ensaios de filosofia biraniana (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 592 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1992-7

[Este volume pretende demonstrar de modo renovado a “inatualidade” de Maine de Biran, entendendo-se por tal o seguinte: em Biran há algo que se torna conhecido pela primeira vez, algo que não foi percebido no seu tempo, mas continua a chamar a pensar; talvez a aparente inatualidade de Biran seja, pois, na contraluz do modo como veio a nutrir subterraneamente a contemporaneidade filosófica, o modo de um pensamento original ensaiar recorrentemente o seu regresso em tempos mais propícios ao reconhecimento do seu alcance e do seu vigor.] 

domingo, 24 de janeiro de 2021

SUELTOS (1)

 Dada a velocidade meteórica com que se sucedem os escândalos políticos  na casa portuguesa, decidi deixar de escrever  textos extensos,  escrevendo sueltos. Publico  o primeiro:

Acabo de ler que os políticos passam a ser prioritários na vacinação do corona vírus.

Pelo sim pelo não,  em habilidosa jogada de antecipação, o presidente da Câmara de Reguengos de Monsaraz já se vacinou. Se a legislação em causa passar  a ter efeitos rectroactivos (como é uso do PS quando lhe convém) estará salva a honra do seu convento autárquico.

Um convento permissivo em que a vergonha é palavra vã, ao contrário do país vizinho em que numa situação idêntica se  demitiu um general espanhol.

Aqui chegado surge-me inevitável a definição de político para evitar abusos de interpretação não vá alguém querer antecipar-se ao processo de vacinação alegando, a exemplo de Aristóteles,  que “o homem é um animal político”. Há gente para tudo”!

P.S.: 1. Os familiares dos políticos beneficiam dessa vacinação, a exemplo da herança de pais para filhos ou cônjuges em cargos ministeriais? É que, como nos diz a sabedoria popular, “gato escaldado de água fria tem medo”!

2. Em atitude humanitária muito louvável, que me apraz registar, o presidente da Câmara da Lousã, Luís Antunes, do PS, escreveu uma carta a António Costa a pedir a vacinação dos  bombeiros.

sábado, 23 de janeiro de 2021

MORAL DA HISTÓRIA, NÃO CHEGA PROIBIR!

“Acreditai que nenhum mundo que nada nem ninguém vale mais do uma vida ou a alegria em tê-la” (Jorge Sena)


Há certas situações em que eu gostaria de não ter razão ouvindo bichanar, ao lado e em surdina, deixá-lo falar que ele há-de cansar-se de falar contra a parede do silêncio. Mas ainda bem que eu não me calo numa situação em que está em causa o maior bem do mundo, a vida humana.


Neste circo de palhaçada em que se tornou a política  portuguesa, eu sou o pobre palhaço, citando Charles Chaplin, “o que me coloca a nível bem mais elevado que o de qualquer outro político”. Sou palhaço, sim, mas refractário às perigosas palhaçadas que se passam na  vida política portuguesa.


Elas são tão trágico-cómicas e tão constantes que seria fastidioso e difícil enumerá-las. Basta ler os jornais ou ouvir a televisão. Por exemplo, no género de uma verdade à Monsieur de la Palisse, acabo de ler “que o voto é mais seguro do que a maior parte dos actos que praticamos fora de casa (“Sapo 24”). Mas sem os especificar para que não corramos esses riscos, muito menos quais as justificações científicas que sustentem uma mera opinião.


Mas hoje, finalmente, li, no “Diário de Notícias”, uma notícia que sustenta o que humildemente na minha santa ignorância tenho defendido: “PSP cria ‘equipas covid’ e requisita  Polícia Municipal do Porto que só nos últimos quatro dias deteve 22 pessoas”. 


Solução musculada de passar da simples  dispersão os ajuntamentos de pessoas. Solução  que eu defendo  como posso testemunhar com a transcrição parcial  do meu texto aqui pulicado no  dia 20 deste mês de Janeiro, intitulado “Portugal, país com leis por cumprir em hora de verdadeira calamidade pública”. Transcrevo-o:


“Moral da história: não basta proibir. É imprescindível criar condições para que a lei seja cumprida. Tanto assim é que leis contra a corrupção, por si só, não diminuem a corrupção, por os corruptos verem as leis a não serem cumpridas sem nada lhes acontecer por acabarem, por  vezes, os delitos  por prescrever. Nesta situação, é a economia do país a ser atingida e os pobres dos contribuintes a sofrerem as consequências. Mas na pandemia do coronavírus, é bem mais grave por ser um sem número de vidas humanas que estão em risco de vida!


A solução não me parece serem as autoridades simplesmente a dispersarem as reuniões, à porta fechada ou na via pública, para os seus participantes não voltarem a reunir-se em outros locais. Mas as forças da ordem, por exemplo, Polícia e GNR, exigirem a identificação dessas pessoas para que as provas se processem na hora e “in loco”; e sejam tanto maiores as penalizações consoante haja reincidências ou não!”


Para que a justiça deixe de ser uma palavra vã parece ter chegado a hora depois de um sofrimento que teria sido evitado, ou não atingisse as proporções que atingiu, se cumpridas, na devida altura, as medidas de confinamento e não como aconteceu no Domingo passado em que as eleições antecipadas serviram de aperitivo para longos e descuidados passeios familiares ou entre simples amigos

.

Finalmente, haja Deus!, parece ter-se passado da época de ameaças à actuação sem contemplações. Para para além das nossas vidas com mais ou menos anos de existência, perigaram a vida de jovens na flor da idade também elas a passar momentos de aflição. 


Onde falta o bom senso, haja piedade pelo sofrimento do próximo e responsabilização de políticos que possam ter actuado mal, por ignorância ou não, ou pecado por omissão!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

SOPHIA

 Sabedoria! 

Como defini-la? Como alcançá-la?  

"Só sei que nada sei", dizia o filósofo grego, e essa será a grande Sabedoria, porque "Sábio é aquele que não sabe que é Sábio"... 

E como é importante, e cada vez mais urgente, aquela máxima gravada no templo de Apolo, em Delfos, "conhece-te a ti mesmo"! O conhecimento mais difícil de alcançar, mas essencial para a nossa relação com os outros, com o mundo.


 





  Personificação da Sabedoria na Biblioteca de Celso (século III), em   Éfeso, (na actual Turquia) 

 

  imagem retirada de

   https://pt.wikipedia.org/wiki/Sofia_(sabedoria)

 

 

 

 

E é de Sabedoria, da Sophia grega, que nos fala Pascale Seys no seu último apontamento filosófico.



Un P'tit Shoot de Philo avec Pascale Seys, que pode ser ouvido, com acompanhamento de imagens em:

https://www.facebook.com/10784328482/videos/405413710763299

 

 

Segue o texto em tradução:

 

 

Sabiam?

Nos nomes próprios Sofia, Sania e Sofyen está escondida metade da filosofia. E a questão que a filosofia coloca é  de que se trata, ou mais precisamente: qual é a questão?

 

Os Gregos da Antiguidade chamaram “Sophia” a uma faculdade um pouco particular, uma aptidão tão rara quanto ambicionada que ninguém nunca possui verdadeiramente, que nos escapa quase sempre e que se pode definir como uma comportamento reflectido e comedido face aos vexames, às frustrações e aos obstáculos da vida.

Entender e enfrentar podem definir a sabedoria. Mas como identificar um sábio? O filósofo Aristóteles propôs uma fórmula admirável. Diz ele : “o ignorante afirma, o estudioso duvida, o sábio reflecte.” De facto, o sábio na medida em que pensa, tenta ler o mundo e os seres e a história, colocando perguntas pertinentes e, se possível, como Demócrito, rindo. Porque o sábio é aquele que não sabe que é sábio, e, por isso mesmo, ri-se. Do mesmo modo, a sabedoria excede em muito todas as riquezas das quais nos poderíamos valer, o que levava Bob Marley a dizer, num remate socrático,  que a sabedoria vale mais que o ouro ou a prata. Vemos bem isso, se a sabedoria é difícil de qualificar é porque ela é um exercício, uma ginástica da alma,  um itinerário exigente e é difícil descrever um tal actividade a não ser por analogias ou metáforas. Os historiadores avançaram a hipótese  de “Sophia” ser  a mulher que Deus agarra com um braço enquanto estende o outro para tocar a mão de Adão no fresco de Miguel Ângelo, que ornamenta o tecto da Capela Sistina.

Divindade grega, deusa dos amigos da razão, o santuário da sabedoria está implantado à entrada do estreito do Bósforo e do Corno de Ouro, na cidade de Istambul. Uma basílica construída no século IV, que foi  o mais importante lugar de coroação dos imperadores bizantinos. Segue-se toda uma história de conflitos próprios das convicções humanas: a basílica de Santa Sofia, cristã do Oriente, foi convertida em mesquita, depois da tomada de Constantinopla pelos Otomanos, em 1453, depois foi transformada em museu sob o regime laico de Mustafa Kemal Atatürk nos anos 30 do século XX. Em Março de 2019, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan  declarou que a história tinha cometido “erros” e que era tempo de a Basílica de Santa-Sofia de Istambul, Ayosofya, voltar a ser uma mesquita. O chefe de estado traz, assim, de novo a eterna querela entre a fé e a razão.

De acordo com os mitos gnósticos, Sofia amava de tal modo os humanos que, ao contrário de Deus, decidiu viver entre os homens. Mas, para sua grande surpresa, os humanos ignoraram-na, apesar dos seus conselhos e das suas imprecações. E, desiludida, a sabedoria decide então abandonar os humanos às suas dúvidas, reservando a sua benevolência e a sua ajuda apenas àqueles e àquelas que a procuravam verdadeiramente.

Sábios são aqueles que questionam e que duvidam. E, por vezes, alguns respondem com sabedoria. Mas são os outros que o dizem: porque o sábio se reconhece como aquele que não sabe que é sábio.


 

 

 

 

 

 

Imagem tirada de

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ae/The_Creation_of_Adam_%281%29.png


Plasticofobia | Ciência às Seis online

DEPOIS DE CASA ROUBADA, TRANCAS NA PORTA!

 


“Não se é menos culpado por não fazer o que se deve fazer do que que fazer o que se não deve fazer" (Marco Aurélio, imperador romano).

Mal acabei de escrever, aqui, o último texto sobre o corona vírus saem-me as intenções furadas em deixar o teclado do computador dormir a sesta descansado! Mas isso pouco me preocupa porque, inspirado em D.H.Laurence, “gosto de escrever quando estou despeitado”, mesmo que possa enfastiar generosos leitores da minha prosa.


A mim o que me espanta, mas espanta mesmo,  é ver a União Europeia, segundo a RTP, só agora ponderar em fechar as fronteiras para evitar uma maior propagação de novas variantes do corona vírus.  Ou seja, é caso para eu citar mais 

um aforisma tão a meu gosto e hábito: “Depois de casa roupada, trancas na porta”.

Desta forma, as fronteiras portuguesas vão deixar de ser um ver se atavias a dar guarida a falsos “refugiados" de países do continente africano em que nem sequer existe guerra desconhecendo-se as suas intenções, em serem ou não recrutadores de novos homens de uma legião a invadir e a destruir  a civilização em prol de uma hegemonia seja ela religiosa, económica ou outra qualquer. Reporto-me ao "jihadismo"  de grupos sionistas violentos.  


O mundo actual está longe de ser um paraíso de Éden com abundância de tudo e um deus a guardar a árvore da vida dos humanos!


Espanta-me, por exemplo, que a viatura que transportava milhares de vacinas contra o corona vírus se tenha despistado, naturalmente, por excesso de velocidade, sem  cuidado  pelas vidas que por ela esperavam com esperança de não serem vitimadas por esta pandemia.


Espanta-me que a decisão para o fecho das escolas, do 1.º ciclo do básico ao ensino universitário, só depois de uma previsível  mortandade  dos que são o futuro do seu património cultural humano, tenha sido determinado, para que não sejam os dedos do nosso futuro de gente letrada  que se esvazie ficando apenas o balão dos anéis da nossa vaidade.


Espanta-me que eu ainda me espante com um governo nacional que navega com terra à vista sem bússola magnética para se orientar não perdendo o norte das decisões justas!


Espanta-me que Marcelo Rebelo de Sousa numa reunião de com alunos do liceu de Pedro Nunes, onde tinha sido aluno, hoje escola secundária com o mesmo nome, tenha respondido a perguntas que lhe foram feitas de forma um tanto ou quanto evasiva dando uma no cravo e outra na ferradura.


“Last but not least”, talvez, em reminiscência do seu passado de analista político, o recandidato à Presidência da República não resistiu a preconizar a percentagem de votos que lhe poderão calhar em rifa nas eleições do próximo Domingo,  havendo a necessidade de obrigar a novas eleições para a Presidência da República com o perigo de esse facto representa para novos contágios, pela aglomeração de pessoas nas mesas de voto vítimas  da nova estripe de corona vírus. Haja dó!


Coragem portugueses: ajoelhem-se no altar da incompetência esperançados que a sorte de uma espécie de roleta russa nos proteja de um destino padrasto! Felizmente, como no ensina a “vox populi”, “não há sorte que sempre dure nem azar que sempre perdure?”


Das decisões do governo de António Costa, com diria Eça, “não me ficou a impressão de uma ideia, mas só a lembrança de várias atitudes” sem pés nem cabeça ou a cargo de cabeças teimosas e sem nexo! Já não há paciência, mesmo de Job, que tanto ature!


E não me peçam para eu ser tolerante porque para ser tolerante, como defendeu Umberto Eco, é preciso definir os limites da tolerância. Temo que a tolerância tenha atingido limites que ultrapassados possam provocar danos irreparáveis ao necessário respeito a princípios democráticos!

DON DE LILLO E O SILÊNCIO

Minha recensão do último romance de Don deLillo publicada no I de ontem:

No meu curso de Termodinâmica, quando introduzo a escala Kelvin (que começa no zero absoluto, 0 K = -273,15 graus Celsius), costumo referir o romance Zero K (Sextante, 2016) do escritor norte-americano Don DeLillo (nascido em 1936). É um livro sobre a possibilidade de resistir à morte através da criopreservação, a preservação do corpo humano perto do zero absoluto. A esperança de alguns é que os avanços da biomedicina permitam um dia reanimar corpos apanhados por doenças que hoje são fatais. É um livro de um tempo em que tentamos contrariar os nossos medos com esperanças alimentadas pela ciência e pela tecnologia.


A ciência e a tecnologia estão presentes neste e noutros romances de DeLillo por estarem omnipresentes na nossa vida. Sendo um escritor moderno – para alguns pós-moderno (o próprio autointitula-se “moderno, na tradição de James Joyce e William Faulkner”) – incorpora nas suas obras elementos científico-tecnológicos que moldam a nossa modernidade. Por exemplo, em The End Zone (1972, não traduzido) fala da guerra nuclear. Em Ratner’s Star (1976, idem) há um matemático que tenta captar uma mensagem extraterrestre. Em Cosmópolis (Relógio d’Água, 2003) uma limousine cheia de ecrãs de televisão e de computador circula pelas ruas de Nova Iorque. Em Ruído Branco (Sextante, 2009), o autor reflecte sobre a química no mundo de hoje, ao descrever um acidente com um produto químico não especificado. O romance Submundo (Sextante, 2010) aborda o problema dos resíduos civilizacionais.


A morte, os desastres e o fim do mundo, por vezes associados à tecnologia, estão entre os temas de eleição de DeLillo. Em Mao II (Sextante, 2009) fala do terrorismo internacional. Em Libra (Sextante, 2013) trata, ainda que com ficção à mistura, do assassinato de John Kennedy. Em O Homem em Queda (Sextante, 2007) aborda o atentado das torres gémeas de 11 de Setembro. O título Ponto Ómega (Sextante 2011) remete para o fim do mundo do teólogo francês Teilhard de Chardin. O medo está por todo o lado na sua literatura: Em Ruído Branco há mesmo uma droga fictícia, o Dylar, que é um tratamento experimental contra o medo da morte.


O medo é individual e colectivo. É muito nítido, para os leitores de DeLillo, que o indivíduo é facilmente levado pelas multidões. A linguagem, que liga os indivíduos para formarem multidões, é uma preocupação central do autor. Num estilo muito próprio, o romancista – também dramaturgo e ensaísta – fala não só da comunicação no mundo moderno, mas também da impossibilidade de comunicação quando o ruído prevalece.


O último romance de DeLillo, O Silêncio, publicado em Nova Iorque em Outubro passado e quase ao mesmo tempo em Portugal, é uma síntese de temas de outras obras do autor – estão lá a ciência e a tecnologia, a morte, o fim do mundo, e o medo. A comunicação e a incomunicação na nossa sociedade também lá estão. De facto, O Silêncio, ao descrever uma catástrofe à escala global, foi de certo modo premonitório da crise que hoje vivemos. É curioso que, num romance entregue semanas antes da eclosão da pandemia, se fale do confinamento: “E não é estranho que certos indivíduos pareçam aceitar resignadamente o confinamento, a cessação do fluxo? Será uma coisa por que sempre ansiaram, subliminarmente, subatomicamente?”


O romance, o 18.º do aclamado autor e o 13.º publicado entre nós, é curto. A acção situa-se em 2022. Os principais personagens são cinco e a história conta-se em poucas linhas: Um casal, Jim e Tessa, regressa de avião de Paris a Nova Iorque, esperando chegar a tempo de assistir ao Super Bowl, a final de futebol americano e um grande espectáculo televisivo, no apartamento de um casal amigo, Max e Diane. A anfitriã, professora de Física já reformada, tinha convidado Martin, um seu ex-aluno, também professor dessa disciplina, a juntar-se ao party doméstico. No Super Bowl todos os americanos estão em casa, pendurados na televisão, com abundância de comidas e bebidas. O entretenimento é não só o jogo, mas também o show no intervalo precedido de muitos anúncios (lembro-me de um dia ter ficado acordado até altas horas para ver a Lady Gaga, embora não saiba nada de futebol americano). O jogo está prestes a começar…


Mas, de repente, dá-se um evento inesperado: um apagão geral, que faz parar todo o sistema de comunicações. O avião onde viajavam Jim e Tessa, perto do aeroporto, é forçado a uma aterragem de emergência. Ao mesmo tempo, a televisão vai abaixo no apartamento de Max e Diane. A Internet e os telemóveis deixam de funcionar. Não era apenas uma avaria num edifício, mas em toda a cidade e quiçá no planeta. O autor não explica o que aconteceu. Mas é uma espécie de fim do mundo. É como se o mundo subitamente se calasse, ficando em suspenso.


Jim e Tessa conseguem chegar a casa dos seus amigos, embora exaustos e desorientados, após se terem salvo na queda do avião. Ainda passam por um hospital com longas filas de espera para tratar um lanho na cabeça dele (para aliviarem a tensão, fazem rapidamente sexo numa casa de banho do hospital). Estando a televisão calada, resta a conversa no pequeno grupo, desligado das massas. Se o mundo se calou, aquelas pessoas não se calam. O silêncio do mundo é a oportunidade para elas falarem, em diálogo e em monólogo. Aquelas pessoas exteriorizam pela linguagem os seus medos. O que poderá ter acontecido? O que vai acontecer?


O livro interessou-me, em particular, pelo interesse de DeLillo pela física. Será que o cataclismo veio do espaço? Martin, uma voz do autor, está obcecado por Einstein: andou a ler O Manuscrito da Teoria da Relatividade de 1912, um resumo da teoria da relatividade restrita que Einstein escreveu nesse ano. Começa, por isso, por falar dessas rupturas do espaço-tempo que são os buracos negros. Refere um telescópio no centro-norte do Chile que tem por objectivo mapear todo o céu visível que está hoje em construção para ser inaugurado em 2022. Mas tudo isso são mistérios.


O professor de Física declara mais à frente: “Ninguém lhe quer chamar Terceira Guerra Mundial, mas é disso que se trata”. O livro abre precisamente com uma frase de Einstein sobre essa guerra: “Não sei com que armas se irá travar a Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta Guerra Mundial se irá travar com paus e pedras”. Há muitas frases apócrifas de Einstein a circular na Net. O meu “polígrafo” é o livro The Ultimate Quotable Einstein (Princeton University Press, 2011): Uma frase semelhante foi, de facto, dita por Einstein numa entrevista que deu perto do fim da vida, mas o dito já circulava nessa época da guerra fria.


A tradução de Paulo Faria, que já tinha traduzido seis outros romances de DeLillo, pareceu-me bem feita, embora tenha falhas em termos científicos. Por exemplo diz-se “teoria da relatividade restrita” e não “teoria especial da relatividade”. Diz-se “teorema da adição das velocidades” e não “teorema adicional das velocidades”. Quase no fim, onde está “Teoria Especial, datada de 2012”, fiquei sem perceber se há um erro do autor, pois essa teoria é, de facto, de 1905.


Mas o livro não é sobre a ciência, mas sobre o medo. Neste aparente fim do mundo, as pessoas falam de religião (Einstein é mais uma vez citado, por ter referido a “figura luminosa” de Jesus). Falam de experiências que tiveram, como uma visita às igrejas e palazzi de Roma. E pensam em experiências que não tiveram, como é patente num flirt entre a professora e o ex-aluno.


Terá o apagão uma origem terrestre, por exemplo uma sabotagem da Internet? O normal para um americano é culpar os chineses. Diz Martin: “Pode ser que um algoritmo tenha tomado as rédeas. Os Chineses. Os Chineses veem o Super Bowl. Jogam futebol americano. Os Beijing Barbarians. Juro que não estou a gozar. Quem faz figura de urso somos nós, eles desencadearam um apocalipse selectivo da Internet. Estão a ver o jogo e nós não.” Seja lá o que for as pessoas sentem-se órfãs da ciência e da tecnologia. Diz Diane, em diálogo com Martin: “Todas as pessoas de olhos pregados no ecrã ou sentadas como nós, perplexas, abandonadas pela ciência, pela tecnologia, pelo bom senso”.


Uma funcionária do hospital que atende Jim e Tessa expressa a vox populi: “Uma coisa vos digo. Seja lá o que for que se passa, esmagou a nossa tecnologia. O mundo em si parece-me desactualizado, perdido no espaço. Onde está o voto de confiança na fiabilidade dos nossos dispositivos seguros, das nossas capacidades de encriptação, dos nossos tweets, trolls e bots?“ E dá conta do seu medo: ”Gosto muito deste meu cubículo, mas não quero morrer aqui.”


Por sua vez, Tessa profere um monólogo filosófico: “Então e se nós não formos o que pensamos ser? E se o mundo é aquele que conhecemos e estiver a ser completamente reorganizado no preciso momento em que estamos aqui parados, a olhar, ou sentados, a conversar?”. E, noutro passo, perguntando sempre: “O que nos está a acontecer? Quem nos está a fazer isto? Os nossos cérebros terão sido remasterizados digitalmente? Seremos uma experiência que, quis o acaso, está a correr muito mal, um esquema posto em marcha por forças fora do alcance da nossa compreensão? Não é a primeira vez que alguém faz estas perguntas. Os cientistas disseram coisas, escreveram coisas, os físicos, os filósofos.”


Martin remata no fim: “O mundo é tudo. O indivíduo não é nada. Será que todos entendemos isto?”



quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

PARA GRANDES MALES, GRANDES REMÉDIOS


Em homenagem a um académico, professor jubilado da Faculdade de Medicina de Coimbra, e cidadão de convicções fortes, como soe dizer-se, de antes quebrar que torcer, acabo de publicar este comentário ao seu último texto - intitulado "Por quem os sinos dobram"- sobre a hora de verdadeira desgraça nacional que se vive neste torrão natal: 
 

"Estimado Senhor Professor Diniz Freitas:

 A minha gratidão pela luta hercúlea que tem levado a efeito contra um vírus letal que se acantonou, até agora, num "bunker" inexpugnável em que as fracas forças políticas nacionais se deixam ir atrás dos acontecimentos em vez de de se lhes antecipar promovendo uma espécie de guerra de Solnado que avisa o vírus sobre as medidas que irão ser tomadas só lhes faltando pedir, reverentemente, autorização depois de consultar com a lupa de SherloK Holmes os pontos e as vírgulas da Constituição Portuguesa que não foi elaborada, ao que me atrevo a pensar, por uma espécie de autor de horóscopo de jornal que se tivesse antecipado aos acontecimentos!

 Bem sei, por formação cívica, ser muito criticável fazer queixinhas do tipo de menino de escola primária. É bem certo! Mas ter contemplações perante energúmenos que fazem das nossas ruas locais de passeio dominical de contaminação do seu semelhante exige que cada um de nós ajude as forças de segurança pública em situação de calamidade nacional denunciando, embora  situação execrável em condição normal,  quem não usa máscara na rua como ainda hoje vi de passagem na televisão portuguesa. 

Suponhamos, por hipótese, vermos um indivíduo de isqueiro na mão a incendiar uma mata? Para não nos tornarmos denunciantes não deveremos denunciá-lo chamando pelos bombeiros? Situações anormais devem exigir medidas anormais sem perder temo a discutir articulados legais, ainda que constitucionais, ponto por ponto, vírgula por vírgula, enquanto o fogo devora a floresta que é este país a que ainda chamamos Portugal  com os seus nacionais dentro das suas fronteiras históricas? Esta, a questão!"

UMA REFLEXÃO EM TORNO DO AFECTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho, que, muito agradecemos.


O afecto, palavra que fomos buscar ao latim “affectus”, afigura-se-me como um sentimento marcado por uma natural, espontânea e notada dose de ternura na relação com o outro, que tanto pode ser uma pessoa, um animal ou, mesmo, um objecto.

No seu último livro “Sentir & Saber”, editado em Novembro do passado ano, António Damásio, de que ainda só li algumas passagens, numa entrevista que deu a José Cabrita da Silva, do jornal I (mas que irei ler com toda a atenção, como fiz com alguns dos seus anteriores livros), veio reforçar uma convicção muito enraizada em mim, segundo a qual o afecto é fundamental em todos os domínios da nossa vida em sociedade.

Damásio diz que as “capacidades afectivas são fundamentais porque são as primeiras”. São, diz ele, “os alicerces da nossa mente, daquilo que é o nosso ser”. E acrescenta que “é sobre essas capacidades que se vão colocar as capacidades cognitivas”.

“Esse Penso, logo existo, de Descartes, - continua o autor a dizer - é profundamente erróneo, porque vem de uma ideia de que aquilo que é o ser humano e aquilo que é mais valorizável no ser humano é o pensamento, mas um pensamento concebido no nível cognitivo puro”. 

Contrapõe a seguir, dizendo que “o fundamental, o alicerce de tudo isto, é aquilo que tem a ver com o nosso próprio corpo, com a vida que está a manifestar-se no nosso próprio corpo, e cujo estado (bom ou mau) é transmitido através do sentimento. Para Damásio, “as capacidades afetivas têm sido sistematicamente menosprezadas pela nossa cultura, pelo melhor da nossa cultura, não apenas hoje, mas na cultura filosófica tradicional”.

Há 25 anos, em O Erro de Descartes, já o autor denunciava “a sobrevalorização das capacidades cognitivas puras, em detrimento das capacidades afectivas”. Para o autor de “Sentir & Saber”, o fundamental é que se perceba que aquilo que é ser humano não é redutível aos aspetos cognitivos da mente. Pelo contrário. É preciso alicerçar essa mente no que é fisiológico, naquilo que é a vida, naquilo que é o corpo. Não é dizer que somos só corpo, isso seria um disparate. O que não se pode é tentar perceber o que é o ser humano sem perceber o corpo, a fisiologia, e a expressão dessa fisiologia nos sentimentos.

Para este neurocientista “aquilo que é a nossa vida, aquilo que é a nossa história e a nossa identidade, não é puramente cognitivo. É cognitivo misturado com o afecto. A vários níveis”. Estas sábias palavras de quem há, décadas, estuda a anatomia do cérebro e a sua relação com os fenómenos da consciência, vêm ao encontro de uma convicção muito enraizada em mim e que posso expressar, servindo-me, em parte, das suas palavras, dizendo que aquilo que foi e ainda é fundamental no meu trabalho e no meu pensamento tem a ver com a mistura do que é afectivo com o que é puramente racional.

Tenho plena consciência de todos os êxitos no muito trabalho que desenvolvi, para além do empenho e da persistência que neles coloquei, foram ditados, sobretudo, pela afectividade que sempre caracterizaram o meu relacionamento com as pessoas, quaisquer que sejam as suas posições no tecido social, dos Presidentes da República ao mais humilde dos cidadãos, dos ministros aos contínuos dos ministérios, dos patrões aos assalariados, dos generais e almirantes aos soldados e marinheiros.

Na árdua e prolongada luta que travei pela salvaguarda da jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque), tive oportunidade de me relacionar intensamente com a comunicação social escrita, falada e televisionada. Nesse relacionamento fiz tantos apoiantes e amigos quantos os media com quem privei, em número de algumas dezenas, entre os seniores mais prestigiados e influentes e os mais simples e apagados estagiários que, com o passar dos anos, se fizeram respeitados profissionais.

Percorri os corredores do Poder e, sem nunca me afastar das causas que abracei e pelas quais me bati e dei a cara, fiz amigos e estabeleci relações de muita simpatia com alguns ministros e, o que sempre foi muito importante, com os chefes de gabinete e com as respectivas senhoras secretárias. Outro tanto aconteceu no universo da Assembleia da República, independentemente das filiações partidárias, dos líderes das diferentes bancadas parlamentares aos deputados de todos os partidos. Tem sido assim nas muitas Câmaras Municipais, à margem das respectivas cores políticas, com as quais iniciei e tenho mantido estreita cooperação, sempre a título gracioso, nunca remunerado (pro bono), condição essencial que sempre garantiu e garante a minha não dependência desse outro poder e me não inibe de exercer livremente o meu juízo crítico e de procurar levar a bom termo os projectos em que me tenho envolvido. Criar pontes de afecto com presidentes ou directores e funcionários, dos mais categorizados aos mais humildes, nas mais variadas instituições públicas e privadas com as quais tive de me relacionar, profissionalmente ou apenas como cidadão, agilizou grandemente todo o trabalho que desenvolvi numa fase da minha vida em que estive ligado ao Museu Nacional de História Natural.

Devo dizer, em abono da verdade, que sem o suporte institucional deste museu e sem o apoio de alguns dos seus funcionários eu não teria tido nem a voz nem a visibilidade que os “media” me deram. Nas duas décadas em que tive responsabilidades na Universidade de Lisboa e, em particular, no Museu Nacional de História Natural, de que fui director, beneficiei, da estima e do afecto dos quatro reitores que nos tutelaram nesses anos, nomeadamente os Profs. Rosado Fernandes, Meira Soares, Barata Moura e Sampaio da Nóvoa. Na Faculdade de Ciências, onde exerci a docência entre 1961 e 2001, ano em que me jubilei, a vida correu-me bem. Pode dizer-se que tive uma carreira sem dificuldades de maior, que me permitiu viver em paz comigo, com os colegas e com a instituição, num ambiente de grande afectividade e simpatia.

Foi prova deste viver a numerosa assistência, nunca vista (cerca de 800 pessoas, entre amigos, colegas, alunos e ex-alunos), à minha última lição, “Geologia e Cidadania”, em 30 de Maio de 2001, no grande auditório da Faculdade. Afectividade influenciou, certamente, as muitas distinções e honrarias de que fui e ainda sou alvo. É verdade que, praticamente, tudo o que experimentei a fazer ou fiz, foi feito com amor, algumas vezes com paixão. Foi assim em criança, em que, brincando, fui aprendiz atento de muitas artes. 

Como estudante, só fui bom aluno com os professores com quem estabeleci relações de afecto. Com os outros fui sofrível ou, mesmo, mau. Como professor que fui durante quatro décadas pude confirmar que a relação de afecto entre o aluno e o professor constitui uma componente fundamental para o sucesso escolar. Como divulgador de conhecimento que também fui durante esse mesmo período, mais os vinte anos que se seguiram à jubilação, diz quem me ouve ou lê, que as minhas palavras tocam a afectividade e que, muitas vezes, têm sabor de poemas.

E eu sei que é verdade, posto que, ainda hoje, as minhas madrugadas são trocas de afectos com os meus quase 19 000 leitores, aqui no Facebook, nos bloques em que participo e nos livros que, entretanto, escrevi.
A. Galopim de Carvalho