Facts about the FCT/ESF science evaluation: the story so far

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

“Não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação"

Nós, portugueses, que tão impelidos somos a seguir modelos pedagógicos inovadores, a citar autores que não lemos, a dissertar sobre teorias exóticas, em vez de seguirmos critérios filosóficos racionais e conhecimentos científicos confiáveis, deveríamos pensar duas vezes antes de adoptarmos e insistirmos em medidas educativas que não oferecem garantia, por referência ao que é certo e justo. Estas características mas não exclusivamente nossas, bem sei, mas são muito nossas.

Uma das recentes modas que seguimos, muito acriticamente, é a de confiar a educação pública a empresas privadas e só encontrar nisso vantagens, desde as mais elevadas, como o direito de escolha da escola dos filhos e a melhoria da aprendizagem, até às mais pragmáticas, como as de uma gestão financeira mais benéfica e transparente (os exemplos não terão sido os melhores porque, bem vistas as coisas, ambos caem por terra).

Estados Unidos da América e Suécia adoptaram, em grande escala, o discurso e a estratégia da empresarialização da educação formal. Mas, ambos os países têm analisados resultados académicos e feito contas. Não, não resulta! E, estão a voltar à ideia de que ao Estado cabe proporcionar uma escola para todos.

Mas não são apenas os resultados e as contas que, nesta questão, têm sido destacadas pelos analistas. Assinalam um outro factor que faz toda a diferença: as empresas “não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação. Estão nisto porque querem fazer dinheiro rapidamente”.

Quem está na educação por outra razão que não seja a educação, não pode ser consentido na educação.

Sobre esta questão poderá ler-se o recente artigo Suecos decepcionados com o sistema de educação, da autoria de Helen Warrell (Financial Times) e traduzido para português por Ana Pina.

Ver, ler e passear em família

Escola e família devem assumir o dever de educar. Nisso toda a gente estará de acordo. E toda a gente estará de acordo que os miúdos podem ficar beneficiados quando a acção educativa da escola e da família se complementam.

Mas, muito importante, complementaridade não é sobreposição: o dever de educar da escola é um; o dever de educar da família é outro.

Porém, o que acontece é que a família entra na escola e nos assuntos da escola como se fosse especialista em instrução; a escola entra na casa de cada aluno e na relação familiar como se tivesse legitimidade para tanto.

Isto é assim, ninguém estranha, acha-se uma coisa normal.

E, portanto, não podia de estar presente nos manuais escolares (que é e há-de continuar a ser o "verdadeiro" e "único" currículo!).

Exemplo: Num novo manual de História, acabado de sair, "de acordo com as metas curriculares", constam, no final de cada tema, as seguintes sugestões.
Ver [filmes]... em família
Passear... e aprender em família.
Passear... em família
Ler... em família 
Desde que não prejudique os menores, o que as famílias vêem e lêem, que passeios dão, é com elas. Têm até o direito de não ver filme algum, de não ler seja que livro for, e de não passear para lado nenhum.

É à escola que, entendendo que um filme, um livro, um passeio permite concretizar os propósitos instrutivos, cabe providenciar a sua concretização.

Deixarem-se estas tarefas ao encargo das famílias, está-se, obviamente, a contribuir para a criação ou acentuação de desigualdades. Umas famílias podem proporcionar estes bens culturais e outras não.
E, se são bens fundamentais em termos de instrução, têm de ser para todos.

O Doutor Cooper, Cinturas Finas e Biceps Volumosos, Mitos e Falácias

“Os processos da ciência são característicos da acção 
humana, porque se movem pela indissolúvel união do 
facto empírico e do pensamento racional.”
(Jacob Bronowski).

Em encontro ocasional havido com o Professor Helder Araújo, catedrático na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, este ilustre académico da Ciência Robótica ainda hoje praticante de musculação e corrida, manifestou o interesse colhido na leitura do meu livro: “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” (Lourenço Marques/1973).

Breves dias depois, em análise que muito me honra, escreveu ele:
“Tive, há alguns dias, a oportunidade de conhecer pessoalmente o Prof. Rui Baptista. Em 73/74 eu, e alguns amigos, praticávamos, de forma relativamente "artesanal", pesos e halteres em Quelimane. Para planearmos e prepararmos os nossos treinos tínhamos acesso a algumas publicações norte-americanas. Muitos dos nossos colegas e amigos nos criticavam, considerando tal tipo de exercício físico como prejudicial à saúde. É então, que, por acaso, compro numa livraria um pequeno livro cujo título era "Os Pesos e Halteres, a Função Cardiopulmonar e o Doutor Cooper", do Prof. Rui Baptista. Esse livro foi realmente fundamental para nós, na altura, por desmistificar as críticas que eram feitas a esse tipo de actividade física. Desde sempre fiquei grato ao Prof. Rui Baptista pelo trabalho que descreve nesse livro e que fez com atletas em Lourenço Marques. O livro foi muito importante para aquele pequeno grupo de jovens atletas. O meu obrigado ao Prof. Rui Baptista!”

Na minha vida profissional, tive momentos de desânimo por me sentir, na minha defesa irredutível do benefício para a saúde dos pesos e halteres, um proscrito perante os próprios colegas de profissão, os praticantes de diversas outras formas de modalidades desportivas e a sociedade em geral que abjuravam os halteres presos ao mito de fazerem mal ao coração, prenderem os músculos e sei lá eu que mais!

Alturas outras houve, em que me senti como que “vingado” como, por exemplo:
1. Na entrada dos Pesos e Halteres pela porta grande da Sociedade de Estudos de Moçambique (“Palmas de Ouro” da Academia de Ciências de Lisboa), através da conferência que aí proferi, intitulada “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper, génese do meu livro com idêntico título.
2. Na minha consequente nomeação para presidente da respectiva Secção de Ciências.
3. Na análise/crítica feita pelo Doutor José Santarem ao meu livro.
4. No testemunho do Professor Helder Araújo de eu ter contribuído para desmistificar as críticas de muitos colegas e amigos do seu tempo de estudante por considerarem os pesos e halteres prejudiciais à saúde,
Vivia-se então um tempo tenebroso de crenças, mitos e falácias sem fundamento científico sobre os malefícios dos “ferros” denunciado, com muita autoridade, pelo Doutor José Maria Santarem, um dos maiores especialistas mundiais sobre os efeitos do treinamento de pesos e halteres, ele próprio praticante desta modalidade de exercícios , com um currículo extenso e valioso: fundador e coordenador do Centro de Estudos em Ciências da Actividade Física, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Coordenador dos cursos de pós-graduação em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento, Coordenador da Disciplina de Medicina de Exercício para o curso de graduação da Faculdade de Medicina, Coordenador dos cursos para formação de técnicos em exercícios com pesos da Federação Paulista e Confederação Brasileira de Musculação, ordenador dos cursos de pós-graduação do Centro de Estudos em Ciências da Acividade Física, da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo.

Quem melhor do que ele para se pronunciar sobre o meu livro? Como tal, enderecei-o por via postal com essa intenção. Passado tempo, num mail que me enviou para o Centro de Estudos de Biocinética, da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (2001), de que eu na altura era docente, escreveu ele:
“ Com muita alegria recebi o seu livro e a sua carta.
Nossos ideais são comuns, e nossas dificuldades históricas também. Felizmente hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos, mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados. Gostei muito do seu texto que, naturalmente, deve ser lido com a lembrança da situação do conhecimento de então. Como me pediu, segue em nexo um texto meu actual, eu é um capítulo de livro de medicina do exporte, ainda a ser editado.
Meu desejo é que um dia possamos nos encontrar e rir bastante com as dificuldades do passado. Um fraterno abraço.
Santarem.”
Do meu livro (que seria ampliado, com um “Estudo Sobre o Efeito dos Pesos e Halteres nos Valores das Pressões Arteriais Máxima, Mínima e Diferencial”) extraio o texto da” Conferência na Sociedade de Estudos de Moçambique”, por mim proferida em 2 de Julho de 1973, e que serviu de tema a uma Comunicação por mim apresentada no 7.º Congresso Europeu, “Vida Activa da escola à comunidade”, 10 a 14 de Abril de 1966, Universidade de Coimbra:
"Anos atrás, fui confrontado com um livro do famoso Doutor Kenneth Cooper, criador do famoso método de seu nome, que descrevia os malefícios sem conta trazidos pelo treino com pesos e halteres na modalidade de Culturismo. Tendo, na altura, a meu cargo uma classe dessa modalidade no Clube Ferroviário de Moçambique recaía sobre mim a responsabilidade profissional e moral desses (possíveis) prejuízos recaírem sobre os alunos a meu cargo.
Escreveu Cooper:
“Na minha especialização, as aparências enganam. Alguns homens excepcional e fisicamente aptos, testados em nossos laboratórios, eram de meia-idade, franzinos inclusive, de vez em quando surgia um meio barrigudo. Os mais inaptos que tivemos eram rapazes fortes, com má condição física. Desculpem se o que acabo de dizer desfaz qualquer ilusão sobre cinturas finas e bíceps musculosos com chave de boa saúde. Não influem, nem garantem. São apenas um elemento secundário” (Aptidão Física em Qualquer Idade, p. 10, Cooper, Kenneth H, 5.ª edição, Forum Editôra, 1972, Rio de Janeiro).
Para desfazer dúvidas, havia que utilizar as “armas” de Cooper: a sujeição dos praticantes de pesos e halteres por mim treinados (os tais de “cintura fina e bíceps musculosos”), que não praticavam qualquer outro desporto, ao seu teste de aptidão física. Para o efeito, solicitei a colaboração do conceituado treinador de atletismo do Desportivo de Lourenço Marques, António Matos, que não só pôs à minha disposição alguns dos seus praticantes de atletismo como registou os tempos obtidos e atestou todos os outros dados colhidos na pista de atletismo do Parque José Cabral, em Agosto de 72. Para ele, o testemunho público da minha gratidão.

Mas em que consiste o tão famoso (e espalhado urbi et orbi) “Teste de Cooper”™? Resumidamente, em correr ou caminhar, sem qualquer paragem, a maior distância plana possível durante 12 minutos para a partir daí interpretar os dados obtidos com base no quadro seguinte:

A preceder a realização das provas de corrida foram realizadas outros testes e medições. Foram eles:Observação: Para homens entre 40-49 anos de idade, segundo Cooper, a distância percorrida entre 2100 – 2500 metros, é classificada como boa.

1. Registo do número de pulsações/minuto, em repouso e na posição de pé: Foi realizado este registo (na posição de pé) por ser aceite que o treino físiico produz uma bradicardia em repouso. O número de pulsações após a corrida não foi anotado devido à dificuldade em o fazer, motivada pela chegada em pelotão de alguns atletas. Convém esclarecer que os valores obtidos foram condicionados pelo natural nervosismo dos atletas antes de entrarem em prova.

2. Medição dos perímetros toráxicos máximo, mínimo e diferencial: A fim de obstar a que a contracção da massa muscular dos dorsais pudesse influenciar a medição do perímetro toráxico máximo foi ela realizada com os braços encostados ao tronco. Estes valores dão-nos conta da flexibilização da caixa toráxica, isto é da possibilidade da “caixa de ar” aumentar os seus diâmetros ântero-posterior e transversal, ainda que não registe o aumento vertical a cargo da descida do músculo diafragma. O perímetro toráxico diferencial define a elasticidade costo-esterno-vertebral.

3. Capacidade vital: Representa a quantidade litros de ar que um sujeito é capaz de expelir dos pulmões, numa expiração forçada antecedida de um inspiração máxima. Num individuo não sujeito à exercitação Física, embora em condições normais de saúde pulmonar, a capacidade vital cifra-se em aproximadamente 3.5 litros., enquanto que num outro sujeito a treinamento físico intenso esse valor chega aos cinco seis litros. Este factor nem sempre coincidente com a faculdade de captação de oxigénio por parte dos glóbulos vermelhos ou hemácias e respectivo transporte e cedência ao nível do tecido muscular, relação conhecida por coeficiente e de utilização de oxigénio.

Resultados dos praticantes de atletismo no Teste de Cooper: 

Resultados dos praticantes de culturismo no Teste de Cooper:


Em face destes resultados conclui-se:

1.º – Os cinco melhores valores da capacidade vital foram obtidos pelos culturistas, cabendo a José Soares o valor máximo de seis litros.

2.º – Igualmente alcançaram os culturista os cinco melhores valores de perímetro toráxico diferencial, dando-se o caso de Rui Baptista obter o maior valor (17 centímetros), tendo na altura 41 anos de idade e, como tal, teoricamente, dever ter a mobilidade esterno-costo-vertebral diminuída.

3.º – Os três melhores valores das pulsações em repouso foram obtidos por três culturistas, respectivamente, 66, 78 e 84, este ultimo obtido, igualmente, pelo corredor Vitor Candeias.

4.º – Por o treinamento de uma determinada modalidade desportiva conduzir a uma diminuição de sinergias onerosas, os resultados do Teste de Cooper, naturalmente, favoreceram os praticantes de atletismo; contudo, o culturista José Guimarães, classificando-se em 4.º lugar, obteve resultado superior ao dos praticantes de atletismo, Rogério Costa, Carlos Pais e Sérgio Aniceto.

A terminar, volvidas décadas este trabalho de investigação mantém o interesse por ter testado culturistas que não consumiam esteroides anabolizantes. Hoje em dia, o culturismo de competição (eleição de indivíduos com massas musculares disformes) foi invadido por essas “criminosas” substâncias, não sendo possível estabelecer uma fronteira entre os efeitos do treino propriamente dito e a utilização do arsenal químico a ele associado. Por outro lado, os culturistas testados não praticavam a corrida, ao contrário dos culturistas actuais que a utilizam, em preito aos benefícios colhidos com a corrida aeróbica e para «queimar gorduras»".

Houve, portanto, períodos na vida em que me senti útil pelo meu contributo para uma Educação Física que, ao ser amputada de alguns dos seus objectivos, pudesse ser pasto da crítica do Doutor Hans Krauss, professor de Medicina Física da Universidade de Nova York, ao escrever:
“São poucos também os professores de Educação Física que demonstram respeito pelos músculos, ao invés de cuidar para que os jovens cresçam com músculos firmes e flexíveis, a maioria deles se preocupa apenas em treinar times que vençam campeonatos!”
Pese embora Ernest Krestchemer (médico, cientista alemão ee doutor “honoris causa” em Filosofia 1888-1964) ter afirmado que “o homem pensa com o corpo todo”, infelizmente, a crítica a uma Educação Física de “brutamontes”, por vezes, ainda vigora na intelectualidade portuguesa em resquícios de um inefável pedantismo que se acoita na proporcionalidade inversa entre inteligência e músculos, aqueles músculos que o grande Almada-Negreiros endeusou, ao proclamar: “É preciso criar a adoração dos músculos”! 

Na assumida responsabilidade de ter sido campeão de Moçambique de Pesos e Halteres, acredite, leitor, que não sou um Frei Tomás do género “faz o que eu digo, não faças o que eu faço!” Ao contrário dele, continuo a fazer aquilo que digo, como demonstra a minha prática de musculação, três vezes por semana, aos meus 83 anos de idade, cumpridos no passado mês de Maio!

Last but not least, a minha grande gratidão pelo testemunho de uma vivência de exercitação física vivida com o entusiamo da juventude e descrita, com laivos de generosidade para comigo, por um notável académico de Coimbra. Bem haja, Professor Helder Araújo!

Rui Baptista

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

O ESPECTRO LARGO DA CORRUPÇÃO

As recentes condenações de ex-ministros do PS (Armando Vara e Maria de Lurdes Rodrigues) por casos de corrupção ou prevaricação podem fazer crer que casos desse tipo são exclusivos de um dos partidos do "arco da governação". Ora está longe de ser assim: Não há muito tempo tinha sido condenado um ex-ministro do PSD (Isaltino Morais). O PS, o PSD e o CDS, que têm ocupado a máquina do Estado, têm, a respeito de atropelo a normas da ética e do estado de Direito, muito mais a uni-los do que a separá-los.

UM ERRO É UM ERRO: FINALMENTE CRATO ADMITIU UM ERRO!

Um erro é um erro e não percebo por que é que o ministro Nuno Crato não o viu logo. É algo tão evidente, que só se ele tivesse esquecido toda a matemática que aprendeu e ensinou é que não via.

 Transcrevo notícia de há pouco tempo do Observador:

"Segundo o ministro, foi detetado um problema de “compatibilização de escalas”, que levou a que os critérios em que os professores são avaliados não tenham sido “harmonizadas como deviam”."

Estas palavras ("compatibilização" e "harmonizadas") são usadas em vez das palavras mais adequadas ("grande disparate" e "asneira da grossa"). Mas mais vale tarde do que nunca: o ministro reconheceu a falha dos serviços que dirige e também, o que é verdade, a má redacção da lei. O seu comentário de que só afectar 1% dos professores é desnecessário: bastaria que afectasse um para ter de ser corrigido. Além disso, quem comete grandes disparates para "pouca" gente também a comete para "muita". Erro ainda é o ministro dizer que os professores já colocados ao abrigo do erro continuarão a sê-lo: eles devem ser substituídos pelos professores mais habilitados que merecem um lugar. Ninguém pode ter um emprego, em desfavor de outro, por causa de uma fraude, ainda que ele não tenha culpa dela. É a decência que impõe isso.

O ministro, para reganhar o direito à nossa consideração, tem ainda de fazer duas coisas.

1) Demitir imediatamente um dos maiores responsáveis pelo erro, Mário Pereira, Director Geral da Administração Geral, que ainda há pouco teimava que estava tudo bem e que, se havia algo errado a culpa ra dos professores. O Director Geral é obviamente incompetente para o lugar e o despacho de nomeação no Diário da República tem afirmações não provadas, como a  de dizer que ele "tem competência técnica" e "aptidão". Basta olhar para o currículo anexo para se ver que não tem. Ao pé dle, Mário Nogueira parecia um "génio da matemática". Infelizmente, o Ministério está cheio de funcionários assim.

2) Aprender com a lição e ir ele próprio ver a incompetência que reina nos serviços que ele tutela. Não é só na educação: na ciência, o ministro se quiser ser também ministro da ciência e for ver a confusão que vai pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, perceberá por si próprio o que, no caso da educação, está a perceber, certamente com mágoa sua. Os erros na recente avaliação de unidades de investigação não são menores do que os da colocação dos professores: há quotas escondidas, atropelos aos regulamentos e agora, pasme-se, uma modificação a posteriori de uma tabela  que serviu de base à avaliação. O ministro que não venha dizer que os erros só afectam alguns centros de investigação: os procedimentos estão inquinados, existindo um atropelo ao Estado de Direito. Mas mesmo que fosse afectasse apenas um centro já era demais!

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Novo livro do Prof. Galopim de Carvalho
é lançado dia 25 na Reitoria da UL

O novo livro do prof. Galopim de Carvalho, Evolução do Pensamento Geológico (da Âncora Editora) vai ser lançado no próximo dia 25 (uma quarta-feira) na Reitoria da Universidade de Lisboa. A sessão terá lugar na Sala de Conferências, pelas 18.30 horas.

Nesta sessão o livro será apresentado pelo Prof. Doutor José Barata-Moura.

Escolas - 2

Na sequência da publicação do meu texto Escolas -1, dedicado ao livro O Berço da desigualdade, da autoria de Sebastião Salgado (fotografias) e Cristovam Buarque (textos), o leitor Manuel Silva deixou uma pergunta: "tem esse livro fotografias de África, países pobres, zonas rurais...?"

Sim, tem. E belíssimas. Duas das minhas preferidas são a que abaixo reproduzo: uma tirada no Quénia e outra no Brasil.

Quénia: Escola para jovens refugiados do sul do Sudão, Sebastião Salgado,1993
Brasil: Escola itinerante do Movimento dos Sem Terra, 1996, Sebastião Salgado
A recordação do leitor traduz o que nelas é essencial:
"Vi em tempos algumas fotos de uma escola numa zona dessas, com os alunos sentados no chão, o professor de pé, um pedaço de ardósia velha e partida pendurada por um fio na «parede». Nada mais. Mas olhares vivos, cheios de curiosidade, interessados, alegres, havia-os em todos os alunos, que seriam uns 15 ou 20."
E acrescenta:
"A escola, para além de nos por a todos num patamar mais elevado de conhecimento, tem ajudado a igualar muita gente muito desigual à partida."
É essa, aliás, a função da escola. Tendo interesse por esta ideia, poderá ler um extracto do livro Escola, igualdade e diferença, da autoria de Joaquim Valentim (aqui) ou ler o livro integralmente.

Maria Helena Damião

Prefácio ao livro "As Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República"

Informação chegada ao De Rerum Natura

O prefácio de Miguel Real ao recente romance de Joaquim Fernandes As Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República (Gradiva, 2014) pode ser lido aqui.

Erros de colocação de professores e outros estão a destruir o sistema público de ensino

Estou cada vez mais convencida de que uma parte substancial do conhecimento científico que se conegue na área da Pedagogia, e com ampla divulgação entre os mais diversos parceiros educativos, é ignorado ou desprezado. Esses parceiros até poderão estar a par do que se publica e concordar com os resultados veiculados mas isso não faz qualquer diferença nas suas opções práticas

A verdade é que há conhecimento que não interessa a ninguém: não interessa a departamentos universitários porque têm as suas linhas de investigação traçadas e mudá-las está longe dos seus horizontes; não interessa a decisores políticos porque conflitua com os modos estratégicos de tomar medidas; não interessa a escolas e professores porque destoa da "tradição" que, acriticamente, seguem.

Como em tudo, há excepções, mas, entendo eu, são excepções. Refiro-me, em concreto ao nosso país.

Dou um exemplo que se tornou recorrente na comunicação social (e bem porque dá conta de uma situação absolutamente intolerável no sistema público de ensino): os erros na colocação de professores e as injustiças que acarretam.

Erros que se afiguram cada vez mais graves e que são descaradamente desvalorizados por parte de quem os comete ou dá a cara pelas instituições. A sua não correcção é o desfecho lógico desta atitude. Infelizmente.

Infelizmente por causa da falta de credibilidade que esses erros acarretam ao sistema público de ensino; infelizmente por causa dos prejuízos que trazem a muito professores competentes; infelizmente sobretudo por causa dos seus efeitos na aprendizagem dos nossos alunos. Cada um deles só tem uma vida e é no início dessa vida e na escola que se joga muito do futuro dessa vida.

Isto deveria preocupar muito, muitíssimo o país inteiro e não só os directamente visados: alguns professores que não ficaram colocados, que ficaram com horário zero, que foram deslocados das suas escolas a contragosto, que se sentiram impelidos para uma reforma antecipada... Muitos desses professores são profissionais de excelência, mas é como se não fossem. Tratados como números, submetidos a fórmulas esquisitas; ou como objectos, tirados daqui para colocar ali.

Efectivamente, o modo como os professores são tratados deveria preocupar-nos como país, pois, e voltando ao princípio deste texto, sabemos que um dos factores que mais relevância tem no sucesso da aprendizagem é o ensino.

E ninguém com responsabilidades educativas poderá alegar desconhecer isso, pois num dos vários documentos que mais presença têm ganho nos sistemas educativos - Education at a glance - publicado pela OCDE - tem destacado isso de modo muito claro:
"... os professores são fundamentais para os esforços de melhoria da escola. Melhorar a eficiência das escolas depende, em grande medida, em garantir que pessoas competentes queiram trabalhar como professores” (Relatório de 2012, página 489). 
"... para garantir o trabalho docente qualificado, devem ser feitos esforços não apenas para recrutar e selecionar apenas os professores mais competentes e qualificados, mas também para reter professores eficazes." (Relatório de 2013, página 380).
"Os professores são um recurso essencial para a aprendizagem: a qualidade de um sistema de ensino depende da qualidade de seu professores. De acordo com os resultados do PISA, as escolas em que os professores são menos qualificados tendem a ter menor pontuações nos resultados da aprendizagem. Assim, atrair e reter professores eficazes é uma prioridade para as políticas públicas e o desafio é maior nas escolas públicas (sobretudo nas escolas desfavorecidas)" (Relatório de 2014, página 410).

Récit d'une destruction organisée sous les auspices de la European Science Foundation

http://www.urgence-emploi-scientifique.org/content/requiem-pour-la-recherche-portugaise-r%C3%A9cit-dune-destruction-organis%C3%A9e-sous-les-auspices-de

PORTUGAL IN A RESEARCH MAELSTROM / PORTUGAL: TEMPESTADE NA CIÊNCIA


Ver http://www.euroscientist.com/blog/2014/09/16/portugal-research-maelstrom/

UM ERRO CRASSO DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CIÊNCIA (MEC)


O  artigo sobre a média na colocação de professores saído no Observador foi muito visto, mas o problema continua actual pois o MEC está surdo, cego e mudo, neste problema como noutros (como os da escandalosa avaliação da  ciência). Estive a ver melhor e agora, depois de ter visto e ouvido, eis o que tenho a dizer:

- A fórmula aplicada no programa  GPC/2 + CE/2  (onde GPC = Graduação Profissional do Candidato e CE = Critérios da Escola; aparentemente na lei não está uma fórmula mas uma descrição por palavras, mal escrita, como acontece com muitas leis do MEC) é simplesmente idiota. Não faz sentido nenhum pois como diz o seu artigo não se somam coisas de duas escalas diferentes para no fim dividir por dois. É absurdo, é somar alhos com bugalhos.

- A fórmula GPC/2 + GPC/2 x CE, proposta por um professor, também não serve.  Outras fórmulas, como uma que vi publicada em comentário ao artigo, também não serve.

- O que se tema fazer é muito simples. Normalizar para a mesma escala as as duas classificações GPC e CE e só depois dividir por dois. A 2.-ª está numa escala de 0 a 100 (com um máximo que não oferece dúvidas, pois por definição não pode haver 101%). Então tem simplesmente de se ver quanto é 100% para a 1.ª, GPC. O máximo resulta de somar 20 (máximo de valores) a 10 (máximo de anos para aqueles professores, não acredito que sejam mais, mas se forem 15 ponha-se 15). Depois por uma proporção simples, passa-se o máximo para 100% e o GPC  fica dado em percentagem. Têm-se então 2 percentagens faz-se a média aritmética simples (somar e dividir por dois) e fica-se com uma ordenação em percentagens. Ficam todos ordenados de acordo com a lei que mandar dar peso idêntico a cada factor.

- O que está feito, seja para 2, para 20 ou para 2000 professores está errado. Como eu disse à jornalista Catarina Martins do Observador é injusto, por dar muito mais valor à CE do que ao  GPC, e ilegal, por não cumprir a lei.

- O MEC tem de emendar isso. A 5 de Outubro está pejada de pessoas que nem calcular uma proporção sabem. O ministro sabe, mas não os pode despedir (apesar da incompetência deles), nem, o que é pior, os quer emendar. Está refém deles! O problema é a existência de  professores inocentes que são vítimas da incompetência dessa gente e da falta de respeito à verdade e falta de coragem do ministro.  Se há professores colocados ao abrigo desse erro devem ser imediatamente descolocados, pois um erro deve emendar-se imediatamente. Não há nenhuns direitos adquiridos: se o meu banco me transferir dinheiro que não é meu para a minha conta, eu terei de devolver o dinheiro. O emprego não é de quem o ganhou com uma trapaça, embora não feita pelo próprio. 

A desculpa que se tem feito assim, i.e., que há uma tradição nesta matéria, é ridícula. É algo parecido com defender a escravatura ou a proibição de voto das mulheres com base na tradição. O ano passado fizeram um disparate (minorado, pois parece que a 2.ª parcela tinha o máximo de 10 e não de 100). Se o MEC o quer repetir, significa que é incapaz de aprender. Como quer que os outros aprendam? Como quer esta gente supervisionar o ensino?

PREVISÕES

Aproximam-se, no mundo e em Portugal, três eleições renhidas. Eis as minhas previsões, que por serem previsões podem naturalmente falhar:

- No referendo sobre a  independência da Escócia vai ganhar o não, embora por pouco. À última hora o "conservadorismo" vai prevalecer, porque os escoceses vão recear uma aventura que não sabem onde irá desembocar.

- Nas primárias do PS ganhará António Costa claramente. Não, não participo, porque esse é um problema interno do PS, mas não terei qualquer dificuldade em escolher nas próximas legislativas.

- Nas eleições presidenciais do Brasil, Dilma e Marisa passarão à segunda volta, ou turno como eles dizem. Depois é imprevisível: Quem ganhar vai ser por uma unha negra. Talvez Marina, por muitos brasileiros estarem desiludidos com Dilma.

Não aposto. A minha avó dizia: teima, teima, mas nunca apostes.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

UMA HISTÓRIA BELA E OUTRA MENOS BELA

Recensão primeiramente publicada na imprensa regional.



Hubert Reeves é um poeta do cosmos. Através da sua escrita de divulgação de ciência a poesia das poeiras das estrelas substancia o nosso pensamento. O distante torna-se familiar, o longe inspira-se com olhar deslumbrado. Do Big Bang até ao futuro, a sua escrita simples e cativante, aproxima-nos do Cosmos.

Foi assim ao longo de mais de uma dezena de livros de divulgação de ciência que nos ajudaram a deslumbrar e a aprender a história do Universo, que é também a de todos nós. Esses livros do astrofísico Hubert Reeves conheceram a edição portuguesa através da editora Gradiva, que os foi publicando na sua prestigiada e premiada colecção “Ciência Aberta”. O primeiro foi “Um pouco mais de azul” (número 2 daquela colecção), e o último “Onde cresce o perigo surge também a salvação” (número 205). E é este último livro de Hubert Reeves que importa visitar agora.

Esta edição portuguesa tem a tradução deste de Pedro Saraiva e a revisão científica de Carlos Fiolhais. O título, “Onde cresce o perigo surge também a salvação”, é a adaptação de um verso do poeta alemão Friedrich Hölderlin. E é o mote para a narrativa em que Hubert Reeves nos conta duas histórias: uma bela, e outra menos bela.

A bela, é a história deslumbrante de como o Universo evoluiu, desde as primeiras partículas, até à espantosa propriedade de a matéria se organizar na viva e se dotar de inteligência. Uma inteligência que nos permite contemplar o Universo e tentar compreendê-lo. Reeves conta-nos esta bela história com a escrita científica-poética a que nos habitou.

A história menos bela é sobre o efeito que aquela mesma inteligência humana teve sobre o planeta que a aninhou, causando a extinção de outras espécies, perda de biodiversidade que desequilibra perigosamente os ecossistemas. Inteligência que desenvolveu tecnologias poluentes que provocam alterações climáticas que fazem perigar a habitabilidade do nosso planeta para a vida. Hubert Reeves faz uma descrição impressiva do impacto da espécie humana sobre o planeta Terra.

Mas o nosso poeta do cosmos não se limita a apresentar estas duas histórias. Numa terceira e última parte do livro, apresenta-nos os esforços que têm sido desenvolvidos, desde há cerca de cento e cinquenta anos, para tentar conciliar as duas histórias e, com inteligência, tentar reverter os malefícios da acção humana sobre a Terra. Descreve-nos “o despertar verde” que tem permitido salvar várias espécies da extinção e restaurado a camada de ozono, entre outros aspectos marcadamente ecológicos. Fala-nos também da necessidade de uma “cosmoética” e apresenta-nos uma ética para a Terra.

É um livro para todos e que nos ajuda a refletir sobre a nossa história e o nosso lugar no Cosmos. Que nos sensibiliza para a importância de usarmos a mesma inteligência que criou a revolução industrial, para salvaguardar o futuro da vida no único planeta que conhecemos onde ela existe. É um livro escrito com confiança e esperança na beleza da nossa inteligência.


António Piedade

Terrae adquae Solis filiae


Se não erro, a expressão latina, Terrae adquae Solis filiae, ela quer dizer “as filhas da Terra e do Sol”, uma maneira alegórica de referir as rochas sedimentares, cujo estudo atingiu níveis de especialização que justificaram o aparecimento de uma nova disciplina a que, em 1932, o sueco Hakon Adolph Wadell (1895-1962), deu o nome de Sedimentologia, Nesta visão alegórica, pode dizer-se que, fecundada pela radição solar indutora dos processos geológicos e biológicos próprios da sua capa externa, a mãe Terra dá nascimento a esta outra categoria das suas criações. Estas rochas trazem consigo, não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas e, muitas delas, ainda, a data do seu nascimento. Armazéns ou arquivos de vultuosa informação, o seu estudo têm-nos permitido conhecer grande parte das histórias da Terra e da Vida.

A Sedimentologia, como a definiu o autor do termo, consiste no estudo científico dos sedimentos, quer dos que se mantêm em trânsito (arrastados pelas águas fluviais e marinhas, pelos glaciares ou pelo vento) quer dos que, ainda soltos ou incoesos, se encontram em deposição temporária, quer, ainda, dos litificados, ou seja, dos já transformados em pedra e, portanto, coesos. Rejeitada pela Comissão de Sedimentação dos Estados Unidos da América, por ser “an ugly hybrid innapropriate word”, a expressão Sedimentologia acabou por se impor a partir da década de 40 do século passado, afirmando-se como uma das mais importantes disciplinas das Ciências da Terra, desenvolvendo metodologias e tecnologias adequadas ao estudo das rochas sedimentares, desde a sua origem e eventuais transformações (diagénese), à respectiva localização no espaço e no tempo, em estreita associação com a Mineralogia, a Paleontologia, a Estratigrafia, a Geocronologia, a Química, a Física (em especial a Mecânica) e Estatística, sendo grande o seu interesse não só em Geologia, como ciência que investiga o nosso planeta, mas também na procura de um vasto conjunto de importantes georrecursos. “A Sedimentologia justifica-se pelo leque de aplicações práticas em que pode ser envolvida”, escreveu, em 2003, Gaspar Soares de Carvalho, sedimentólogo pioneiro, em Portugal, nos idos anos de 1940. Basta pensar, no interesse posto na prospecção, exploração e usos dos combustíveis-fósseis e das múltiplas matérias-primas minerais, para nos darmos conta da oportunidade da afirmação deste professor jubilado da Universidade do Minho. A estes motivos de importância da Sedimentologia, acrescem, ainda, as suas aplicações em Hidrogeologia, Geologia de Engenharia e Geologia do Ambiente.

Sedimentologia é o modo de dizer, numa só palavra, Petrologia Sedimentar, no sentido que lhe deu o petrólogo inglês, George Walter Tyrrell (1883-1961), no seu pioneiro Principles of Petrology (1926), expressão que se não deve confundir com Petrografia Sedimentar, uma vez que, como este autor bem lembrou, petrografia é o estudo das rochas, visando a sua descrição, identificação e classificação, e petrologia, mais abrangente, é a ciência das rochas, na sua globalidade, incluindo a pesquisa das respectivas géneses, idades, transformações e significado no estudo do nosso planeta.

O progresso e a expansão da Sedimentologia, à escala internacional, muito antes da sua inclusão nos curricula universitários , contou com a criação e regular manutenção de duas importantes revistas científicas: A primeira, surgida em 1931, Journal of Sedimentary Petrology, foi substituída, a partir de 1995, pelo Journal of Sedimentary Research, da Society for Sedimentary Geology (antiga Society of Economic Paleontologists and Mineralogists – SEPM). A outra, sua congénere, Sedimentology, iniciada em 1952, é a expressão escrita nascida da influência da International Association of Sedimentologists (IAS), promotora dos Congressos Internacionais de Sedimentologia, cuja última reunião, a 19ª, teve lugar em 2014, em Genebra. Esta mesma associação promove, ainda, entre congressos, os chamados IAS Meetings of Sedimentology, cujo último, o 30º, decorreu em 2013, em Manchester, no Reino Unido.

As rochas sedimentares no seu todo, desde as mais recentes, no geral, incoesas e móveis, como as areias, às mais antigas, compactadas e consolidadas, são consequência de um conjunto de condições próprias da superfície do nosso planeta:
- existência de uma atmosfera oxidante (a partir de há cerca de 2600 Ma) com algum dióxido de carbono e, em grande parte, húmida, particularmente agressiva para os minerais das rochas aflorantes;
- existência de uma hidrosfera promotora, não só de solubilização e hidrólise, mas também de erosão, transporte e sedimentação;
- existência de uma biosfera actuante nos mais variados ambientes da sua superfície, possibilitada pela distância a que se encontra do Sol;
- exposição ao Sol, imensa fonte de energia radiante.

Sem atmosfera, hidrosfera e biosfera e sem a luz e o calor que recebemos do Sol, não se teriam formado os sedimentos e as rochas sedimentares que, por todo o lado, nos rodeiam. Na ausência destas entidades, a superfície terrestre estaria, à semelhança da da Lua, reduzida a uma capa de rególito, isto é, de poeiras e fragmentos rochosos, resultante dos impactes meteoríticos ocorridos ao longo de milhares de milhões de anos.

As rochas sedimentares representam um conjunto particular de produtos litosféricos gerados na parte mais externa da crosta terrestre e, portanto, nas condições de pressão, temperatura e quimismo próprias da superfície, ocupando uma posição bem delimitada no ciclo petrogenético. Consumindo, sobretudo, energia solar, a sedimentogénese é aceite como uma das expressões da geodinâmica externa, a par da erosão do relevo, da formação dos solos e do aparecimento e manutenção da vida.

Geradas na interface da litosfera com as atmosfera, hidrosfera e biosfera, as rochas sedimentares são essencialmente constituídas por um, dois ou três dos seguintes componentes fundamentais:
- terrígenos , herdados por via detrítica de outras rochas preexistentes;
- quimiogénicos, resultantes da precipitação de substâncias dissolvidas nas águas;
- biogénicos, quer edificados por alguns organismos em vida, como, por exemplo, os corais, quer acumulados detriticamente a partir de restos esqueléticos (conchas, carapaças, ossos e outros), após a morte dos respectivos seres.

À semelhança de nós, humanos, e de toda a biodiversidade, estas rochas formam-se à superfície da Terra sob a acção da radiação que, ininterruptamente, recebem do Astro Rei, desde que a primeira crosta se formou e lhe ficou exposta, há mais de quatro mil milhões de anos, na perspectiva de alguns autores.

Em termos de volume, as rochas sedimentares representam apenas 5% da crosta terrestre (contra 95% das ígneas e metamórficas), tal é devido ao conceito implícito no respectivo qualificativo. Porém, tendo em conta que a grande maioria das rochas metamórficas (como xistos, grauvaques, gnaisses, mármores e quartzitos) são materiais litológicos transformados a partir de rochas sedimentares preexistentes, aquela cifra aumenta substancialmente. Aumenta ainda mais se nos lembrarmos que a maior parte dos granitos e rochas afins resultaram da fusão parcial (anatexia) de rochas sedimentares e metamórficas delas derivadas.

Em termos de área exposta, as rochas sedimentares perfazem cerca de 75% das terras emersas e cobrem a maior parte dos fundos marinhos, embora neste domínio a sua espessura seja pequena se comparada aos milhares de metros de algumas acumulações integradas na arquitectura da crosta continental, com particular evidência nas grandes cadeias de montanhas.

Em finais do século XIX, a expressão rocha sedimentar ainda não figurava no vocabulário de geólogos e petrógrafos. Em 1875, o alemão Arnold von Lasaulx (1839-1886) adjectivou-as de deuterogénicas , com base na secundariedade destas rochas relativamente às preexistentes, de onde provêm os seus constituintes. Ao propor, na sua classificação petrográfica, a classe “sedimentos puros”, na qual incluiu materiais não consolidados (cascalheiras, areias e Löss ), este professor de Petrografia da Universidade de Bona atribuiu ao termo sedimento o significado de elemento detrítico, clástico ou terrígeno. Foi nesta medida e tendo em conta a abundância relativa das rochas terrígenas (80 a 85%, contra 20 a 15% das rochas biogénicas e quimiogénicas), que surgiu, mais tarde, a designação de rocha sedimentar que, assim, acabou por abarcar, não só as terrígenas, como também as biogénicas e as quimiogénicas.

Em 1947, no Meeting da Geological Society of America, o geólogo inglês Herbert Harold Read (1889-1970), figura grada do Imperial College, propôs o nome de rochas neptúnicas (em alusão a Neptuno, deus do mar, na mitologia romana) para o conjunto das rochas sedimentares. Esta proposta, que não fez vencimento, assentava no facto de a grande maioria das rochas sedimentares terem génese no meio marinho.

A Sedimentologia abriu caminho à investigação, tão aprofundada (quanto quiseram os propósitos e puderam os meios) de aspectos importantes, como proveniência dos materiais, agentes que os transportaram e sedimentaram, ambientes de deposição final, transformações subsequentes (diagénese), posição estratigráfica, paleogeografia correlativa e, ainda, utilidade como importantes georrecursos económicos que são. Neste último aspecto vale a pena recordar os combustíveis fósseis (carvão, petróleo, asfalto, gás natural), os calcários e dolomitos como pedras industriais e ornamentais, as margas no fabrico do cimento, as areias nas indústrias do vidro, as argilas na cerâmica (barro vermelho, faiança e porcelana), o bauxito e os minérios de ferro sedimentares nas metalurgias, respectivamente, do alumínio e do ferro, o sal-gema e os fosforitos na indústria química, entre outros, numa gama muito mais abundante e diversificada do que a facultada pelas rochas ígneas e metamórficas.

A.M. Galopim de Carvalho

HOJE "LIMITES DA CIÊNCIA" DE JORGE CALADO NO MUSEU DA CIÊNCIA DE LISBOA

Hoje, pelas 18h30, no Museu de Ciência de Lisboa farei a apresentação deste livro, uma obra extraordinária de um autor extraordinário (edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos):


OS GATOS NÃO TÊM VERTIGENS

O

Ontem assisti à antestreia no cinema S. Jorge em Lisboa do último filme de António Pedro Vasconcelos "Os gatos não têm vertigens" com grandes interpretações de Maria do Céu Guerra e João Jesus. O filme pisca por vezes o olho à ciência, designadamente quando o marginal Jó (João Jesus) dá uma lição de química ao vilão (Ricardo Carriço) em cima do capô do BMW deste, explicando-lhe que, para além da meia dúzia de elementos mais comuns da matéria viva, ele possuía um outro: o arsénio. E, pouco depois, quando a viúva Rosa (Maria do Céu Guerra), aproximando-se do fim, encontra descanso e algum consolo a ver um programa de televisão sobre o cosmos, onde é dito que "somos o pó da estrelas". E somos! Feitos nas estrelas, da matéria das estrelas, não somos mais do que combinações prodigiosas de átomos, cuja organização nasce, vive e finalmente morre, continuando os constituintes no vasto cosmos onde sempre estiveram. O filme, que recomendo vivamente, não é sobre ciência mas sim a história de uma improvável ligação (uma "química" especial) entre duas pessoas de gerações diferentes, mas ambas sozinhas e desorientadas, neste Portugal em crise.

O OBSERVADOR ANALISA ERROS DO MEC

Leia aqui no "Observador": http://observador.pt/2014/09/16/erro/.

Declarações minhas aí inseridas:

"Ao Observador, Carlos Fiolhais, físico e professor universitário, disse que “se o programa do MEC estiver baseado num erro, é mesmo muito grave porque se está a cometer uma injustiça sistemática, para além da ilegalidade, claro”. “Sendo o ministro matemático, tudo isto é espantoso”, continuou."

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

MEC: ERROS E MAIS ERROS

O Ministério da Educação e Ciência - MEC diz que o ano lectivo começa normalmente. Se se chama normalidade a existência de atrasos e trapalhadas na contratação e colocação de professores, uma vez que é isso que, ano após ano, tem acontecido, sim, tem razão.

Outro erro do MEC foi aqui identificado sem que haja uma resposta satisfatória. Portanto, os erros na ciência não são os únicos naquele estranho ministério. É uma fonte permanente de erros, que não reconhece nem emenda.

Bom ano lectivo para todos, apesar do MEC!

domingo, 14 de Setembro de 2014

Outra mensagem internacional de solidariedade / Another solidarity message

Outra mensagem internacional de solidariedade para com a ciência portuguesa:

Dear Manuel Pereira dos Santos:

I paid very serious attention to your message and to the document entitled "Help" . These texts will be given to all those attending our next Executive Council on 22-25 of September in Paris, in the CNRS campus -Meudon-Bellevue. Your situation is one of the worst but infortunately in the same main trend followedby many governments : to summary, using your own words :

"a huge concentration of the viable research centres within the bigger institutions, and a shortage of research on fundamental science"

and I stick here a part of a statement we published in our last newsletter :

Declaration of the WFSW on current developments in the organization of research

To control and channel development of science and scientific research topics, governments use two methods. One is control of funding, the other is arbitrary or purported assessment of the « quality » or « excellence » of research. As a result, academic and scientific communities are excluded from decision-making processes. Financial aims are largely favoured at the expense of economic, social, environmental, and cultural ones. Basic research is thus sacrificed. Knowledge and university degrees become commercial products.


Our WFSW is ready to play a role complementary to International trade-union movement
In a first stage, as said above, we will diffuse your appeal to representatives of member organizations.

Best regards


Dr Jean-Paul Lainé
President of the WFSW - World Federation of Scientific Workers
mail address:
president@fmts-wfsw.org

Solidarity with science in Portugal

Uma das muitas mensagens de solidariedade recebidas pelo Prof. Pereira dos Santos em resposta ao seu apelo difundido internacionalmente:
As Chair of the Higher Education and Research Standing Committee of ETUCE, I will express my deepest concern and solidarity with the university staff who are trying to resist the dramatic cuts and restructuring, mergers etc. of universities in Portugal.

Most governments in Europe – and the European Commission – are always claiming that universities, higher education and research is vital for the future of Europe. Unfortunately, they only see education and research as an instrument to economic recovery and to enhance the competitiveness of European industry. Thus, it is mainly research which immediately can stimulate production which is considered valid and relevant. The same goes for the higher education which they claim must be reformed in order to meet the immediate needs of enterprises and the labour market. Basic research, cultural understanding and intellectual challenges as an important value of the mission of universities are not taken into account.

The trade unions and all other organisations in society who defend a peaceful and social responsible development of modern societies must reject this reduction of universities to service centres of industry and immediate needs of governments and the labour market. We must insist that the mission of a university – in particular in a modern, globalised knowledge society – must also include long term perspectives and work in areas and subjects which are not immediately profitable.

The ETUCE passed in its conference 2 years ago a resolution on higher education and research which build on such principles. It can be found on this link: http://etuce.homestead.com/Statements/2012/Resolution_HER_EN.pdf

I wish you all the success in rejecting the resent trends in reforming the universities and the risk of abolishing their mission in basic research.

Please come back if there is any further support your will ask for.

Greetings

Jens Vraa-Jensen 
ETUCE - European Trade Union Committee for Education

Resposta de Pereira dos Santos à Science Europe: DUPONT & DUPOND



                                             


A mensagem de Manuel Pereira dos Santos, professor na Universidade de Évora, aqui divulgado, mereceu este comentário da Science Europe, presidido por Miguel Seabra, mas nenhum(por enquanto) da European Science Foundation:



Dear Professor Pereira Dos Santos, in your post there seems to be a certain degree of confusion regarding the nature and remit of Science Europe. Science Europe is not a new name for the European Science Foundation, it is the already existing (since November 2011) European Association of currently 52 public national Research Funding and Research Performing Organisations. Its current President, Professor Miguel Seabra, has been elected by Science Europe members and has just taken up this role, which is additional to his post at FCT. Science Europe is a research policy organisation; it does not have any review panels and does not carry out any reviews or evaluations of institutions or projects. Finally Science Europe has always stressed the need for adequate funding for research in all scientific domains at national and European level and has strongly argued against cuts to public science budgets. For further details about the organisation I invite you and the readers of this blog to go to Science Europe’s website:http://www.scienceeurope.org.

Kind regards,

Elena Torta (Science Europa)

Eis a resposta de Pereira dos Santos:
DUPONT & DUPOND
I know that European Science Foundation (ESF) and Science Europe  (SE) are not exactly the same organization with a different name:  all the "science policy activities" have been transferred from ESF  to SE", ESF becoming only an "international evaluation service
provider", that is, keeping the major profiting parts (that for the first time ever ESF is experimenting on the whole Portuguese research system, at the demand of Prof. Miguel Seabra, the present Presidente of SE). 
A quick look at ESF and SE sites indeed show how they are "completely different institutions": 
- ESF has 66 organizations, from 28 countries, and SE only 57
organizations from only 28 countries;
- 54 of the 57 organizations (95%) of SE are also members of ESF,
coming from the same 25 of the 28 countries;
- the activities of SE have been "transferred" from ESF.

Sorry if it reminds me of the cartoon characters Dupont &Dupond. from Tintin - Thomson e Thompson in English. 
But there is a "significant" difference: ESF was involved in the discussions of the European Recommendation of 2005 (the Chart and  the Code of Conduct for the Recruitment of Researchers), but the Roadmap of SE only refers the Code but ignores the Chart. In fact, during the ministerial negotiations, the President of FCT - and now also of Science Europe - was against implementing the rights of researchers as they are stated in the Chart, because "it was too expensive", and the he preferred "grants" to "contracts" for them.
M. Pereira dos Santos
(Full Professor of Physics)
mpsantos@fct.unl.pt 

"Lucy" com Scarlett Johansson

"

Lucy, com Scarlett Johansson e Morgan Freeman,  é outro filme de grande audiência relacionado com a ciência. Neste caso há aqui alguma pseudociência pois nada indica que funcionamos apenas com 10% do nosso cérebro.

Já estreou nos cinemas "O Físico" com base no romance de Noah Gordon


~
 "Na Pérsia do século XI, Rob (Tom Payne), um jovem cristão que sonha ser médico, finge ser judeu para estudar em uma escola especializada que não aceita seguidores do cristianismo... ~

Com Tom Payne, Stellan Skarsgård e Ben Kingsley no elenco, "O Físico" ("The Physician", EUA 2013), que conta a história de um camponês do século XI que se disfarça de judeu para aprender medicina com um dos maiores gênios da Pérsia. O filme baseado no best-seller de Noah Gordon com mais de 20 milhões de exemplares vendidos, conta com direção de Philipp Stölzl.

 Título original: The Physician"
Género: Aventura, Drama histórico ´
Duração: 150 min.
Origem: Alemanha."

REQUIEM PELA CIÊNCIA EM PORTUGAL

Os ecos da crise portuguesa aumentam lá fora. E agora que Carlos Moedas é o Comissário Europeu para a Investigação, as atenções vão redobrar sobre o que se está a passar aqui nesse domínio. Como disse, com sageza, Manuela Ferreira Leite, é irónico que o Comissário da Investigação venha de um país onde a investigação está a ser castigada de uma forma sem precedentes:

 http://www.urgence-emploi-scientifique.org/content/requiem-pour-la-recherche-portugaise-r%C3%A9cit-dune-destruction-organis%C3%A9e-sous-les-auspices-de

sábado, 13 de Setembro de 2014

O FUTEBOLÊS


“Pode-se asnear nos tratamentos; mas na gramática lavra mais fino” 
(Camilo Castelo Branco, 1825-1880).

Soube-se, ontem, em declaração da Federação Portuguesa de Futebol, que, finalmente,  Paulo Bento foi despedido depois de uma longa agonia motivada pelo facto de ter sido assinada uma cláusula de rescisão de contrato consigo no valor de 3 mil milhões de euros, antes do início do passado Campeonato Europeu de Futebol, num país que não tem dinheiro para mandar cantar um cego

Malgré tout, sempre pensei que o despedimento do seleccionador nacional de futebol me obrigasse, por respeito aos vencidos, a pôr ponto final nesta triste questão se não se desse o caso de o desporto-rei ser uma espécie de Rei Midas com súbditos do futebolês. Mesmo deixando Jorge de Jesus no banco dos suplentes com uma das suas famosas frases: “O processo de neutralização do jogador pertence ao forno interno do clube”, alguns sugestivos exemplos: Um craque da bola, ex-jogador do Porto, João Pinto: “O meu coração tem uma só cor: azul e branco”;  um repórter da SIC, Nuno Luz: “Inácio fechou os olhos e olhou para o céu”; um comentador desportivo, Gabriel Alves: “Fica na retina um cheiro de bom futebol”; finalmente, um treinador de futebol, Jaime Pacheco: “Querem fazer do Boavista um bode respiratório”.

Ou seja, o futebolês, por vezes, uma espécie de linguagem que se enquadra na afirmação de Eça de Portugal ser um país traduzido do francês em calão! Isto porque, não sei porque carga de água, o Portugal futebolístico do nosso tempo se transformou num país de um estranho anglicismo pela adopção do tratamento de “mister” dado aos treinadores de futebol. E aqui chegado, interrogo-me: terá sido por o tratamento de “coach” dado nos Estados Unidos aos respectivos treinadores ter sido posto de parte por haver o perigo de ser traduzido por “coxo”, entre a gente que não domina o inglês como uma espécie de esperanto para as comunicações científicas que viajam em fronteiras académicas de um mundo sem fronteiras?

Aliás, o tratamento do treinador por” mister” põe, ainda problemas que excedem simples normas de cortesia. Isto é, se, por exemplo, a treinadora for uma mulher casada deverá ou não ser tratada por “mistresss” (pese embora a palavra ter uma tradução, por vezes, pejorativa)? E no caso de ser solteira  por “miss”? Ou será que no futebolês, de tácticas de “todos a monte e fé em Deus!” ,“mister” é um substantivo sobrecomum?
 
Seja como for, mesmo se asneira, o tratamento de "mister" dado aos treinadores de futebol tem a forte chancela de passa-culpas de Camilo por, segundo ele, se poder asnear nos tratamentos. Já quanto à Gramática, não sendo ela disciplina curricular dos cursos de “Treinadores de Futebol de Fim-de-Semana”, usando do mais elementar bom senso, ao contrário do pomposo  nome de “Universidade de Verão do PSD”, não se arrojaram os seus mentores a titulá-la  de “Universidade de Futebol de Fim-de-Semana”. Aí, sim, “se memória desta vida se consente” nunca o autor do “Amor de Perdição” perdoaria tanta e tamanha  desfaçatez!