quarta-feira, 14 de agosto de 2019

«Agora a escola ativa é que é o paradigma»

Raul da Silva Mendes (imagem recolhida aqui).
"... os inspetores que iam à minha sala de aulas e diziam: 
«Agora a escola ativa é que é o paradigma». Continuavam como inspetores, mudava o governo, voltavam a aparecer e diziam «agora é a pedagogia por objetivos». 
Eu perguntava-lhes: «mas qual é a diferença?» 
Não sabiam". 

Raul da Silva Mendes, 2019.

Participei numa mesa de certo congresso sobre o "Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular" na altura em que ele, depois de uma fase de experimentação, era implantado a nível nacionalNessa mesa, entre outros convidados, estava um representante da direcção de um agrupamento de escolas. O seu discursou, muitíssimo elogioso do dito projecto, centrou-se na medida inovadora proposta pela tutela e, de imediato, adoptada pelos professores: o uso de "métodos activos". 

Não tendo entendido como é que na Europa, com uma tradição educativa (considerando apenas a memória escrita) de mais de vinte e cinco séculos, na qual os "métodos activos" ocupam um lugar central, pode haver, em Portugal, um conjunto de escolas que "antes" desta reforma não os usassem? Perguntei-lhe isto mesmo na pausa do café.

Como é costume, a conversa resvalou para os lugares-comuns que se imaginam, mas o resultado foi, de alguma forma, inesperado: "usamos uma nova linguagem", disse-me o meu interlocutor. "Nem a linguagem é nova", disse-lhe eu.

Foi a última vez que me pronunciei, num contexto que não o estritamente académico, sobre a "inovação" designada por "métodos activos" (expressão de finais do século XIX) no novo (mas tão velho) "modelo/paradigma" que se diz ser a base do mencionado projecto.

Desisti tanto deste como de outros diálogos do género por uma razão que me parece ser compreensível: contrapor argumentos de princípio e científicos a dogmas políticos e ideológicos implica sempre um grande esforço, que é proporcional à sua inutilidade.

Veio este texto a propósito da entrevista feita pelo jornalista Carlos Ferro ao autor da frase acima citada, Raul da Silva Mendes, professor reformado, que ao longo dos seus 52 anos de carreira percebeu o "eterno retorno" a um dos grandes atavismos dos sistemas de ensino.
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Nota: A mencionada entrevista - As crianças que não sabiam ler nem escrever eram postas na chamada 'fila dos burros', publicada no Diário de Notícias de dia 13 deste mês pode ser encontrada aqui

3 comentários:

  1. Na culinária portuguesa, nas mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau há sempre um ingrediente essencial: o bacalhau. Nas ciências da educação, os professores doutores das ditas ensinam-nos mil e uma maneiras de ensinar, mas para além do básico e consensual ler, escrever e contar, a maioria desses lentes dão pouca, ou nenhuma, importância àquilo que ainda é necessário ensinar na escola. Uma educação sem Conhecimento é como um bacalhau à lagareiro, com azeite e alho, e batatas a murro, mas sem bacalhau!...

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  2. Estimado Leitor
    Por considerar ser verdade, tenho repetido neste blogue o seguinte: a predominância de ideias equívocas (e, mesmo, erradas) nos sistemas de ensino, as quais, eventualmente, se traduzem em práticas lectivas que negam a função da escola, não é apenas da responsabilidade das ciências da educação. Trata-se de ideias largamente partilhadas na sociedade e bem acolhidas nela, sendo, em paralelo, usadas pelos "poderes que podem" (sobretudo político e económico-financeiro) para fazerem valer os seus intentos, que nem sempre são os que apresentam. Certas escolas e professores não ficam de fora desta equação, bem como outros profissionais que estrategicamente se aproximam da educação.
    Quem influencia quem? E quem tem mais influência? Eis duas perguntas que remetem para respostas que só podem ser imbricadas, dado o estreito relacionamento que os "agentes educativos" mantêm entre si.
    De qualquer maneira, é importante perceber-se que as ciências da educação acolhem diversas posições quanto à matéria em causa: há quem considere absolutamente fundamental aprender a ler, escrever e contar, e que o conhecimento disciplinar não pode ser dispensado, etc.
    Cordialmente,
    MHDamião

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  3. «Agora a escola ativa é que é o paradigma». Continuavam como inspetores, mudava o governo, voltavam a aparecer e diziam «agora é a pedagogia por objetivos».
    Eu perguntava-lhes: «mas qual é a diferença?»
    Não sabiam".
    Esses paradigmas, urdidos na solidão dos gabinetes do ministério da educação, por sábios que, a bem do sucesso escolar dos filhos das classes mais desfavorecidas, dedicaram vidas inteiras ao estudo científico do ensino/ aprendizagem, são, por natureza, de forma variável, dadas as dificuldades sentidas por muitos educadores de infância e professores do básico e secundário em compreender a mensagem simples e objetiva que transportam:
    - Vós, senhoras e senhores docentes, atualmente servis, fundamentalmente, para avaliar alunos que, entre si, também já se coavaliam, e desejam, antes de mais, ingressar no ensino superior politécnico e universitário, onde aprenderão as matérias que verdadeiramente lhes interessam, livres para sempre das exigências e dificuldades absurdas que o vosso ensino compartimentado em disciplinas lhes impõe. O Mestre Macaco, da claque dos Super Dragões, é o melhor exemplo de que, ultrapassada a etapa do secundário, cheia de obstáculos colocados no meio do caminho por professores que ainda não se apropriaram da flexibilidade inclusiva, entrar no superior é como entrar no céu! Façam como os vossos colegas dos colégios privados, que entendem como ninguém os novos paradigmas da educação. Se derem notas muito elevadas a todos os alunos, a percentagem destes que entram na Universidade vai aumentar!

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