terça-feira, 18 de setembro de 2018

Mais um inquérito que não devia ter chegado à escola

"Obviamente a Fundação não tinha qualquer conhecimento da forma como as questões estavam formuladas já que existe independência científica", refere fonte oficial da instituição, sublinhando que "não pode tolerar que possam ser postos em causa princípios da igualdade". O teor das questões de um estudo que visava perceber, "no primeiro ciclo, de que forma os pais dedicarem alguns minutos à leitura com os filhos tinha impacto na aprendizagem deles", levou a Fundação a terminar o contrato com a equipa de investigação. "Não concordamos de todo e não podemos patrocinar um estudo desta natureza" (aqui).

As escolas têm muitíssimas crianças dos 3 aos 6 anos, no jardim de infância, e todas as crianças e jovens dos 6 aos 18 anos, no ensino básico e secundário. Têm também os professores. E através delas tem-se, directa ou indirectamente, acesso às famílias.

Empresários, políticos, investigadores – agentes externos, portanto – olham para as escolas e o que vêem? Vêem oportunidades: a visibilidade, a publicidade, o direccionamento de opções, estão entre elas… Oportunidades, note-se, alheias ao fim que a educação escolar deve perseguir.

Esses agentes recolhem os dados que podem, porque os dados são, como se sabe, valiosos para concretizar tais oportunidades.

É certo que todo e qualquer estudo (ou algo com essa designação) em contexto escolar requer apreciação prévia dos instrumentos a usar por parte da Comissão Nacional de Protecção de Dados e da Direcção-Geral da Educação, bem como dos directores escolares e, defendo eu, dos professores, se se der o caso de estarem envolvidos.

Não obstante os cuidados previstos, mais uma vez entrou nas escolas um inquérito destinado a alunos e às suas famílias que nunca podia lá ter entrado.

Esse inquérito foi ontem capa de um jornal, desencadeou notícias noutros, passou para a televisão e para a internet, foi denunciado pela organização SOS Racismo à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial. E porquê? Porque tem perguntas consideradas racistas, usadas, de resto, em inquéritos que (infelizmente) se tornaram correntes em certos países, ainda que em Portugal não sejam comuns.

O problema está, porém, longe, muito longe, de ficar por aí. Essa é apenas a questão crítica mais visível aos olhos selectivos da contemporaneidade.

Tão ou mais grave é, a confiar no que consta nas informações que vieram a público, o estudo ter por objectivo "melhorar os métodos educativos em Portugal", apesar de ser da responsabilidade de “uma empresa de consultadoria em economia comportamental”, de a coordenação estar entregue a uma investigadora que não é especialista em Educação, e de o financiamento ser o de uma Fundação de base empresarial.

Tão ou mais grave é ser solicitado no inquérito o nome completo dos alunos, pois todas as perguntas que se seguem podem ser relacionados com ele.

Isto do que se pode ler nos artigos indicados abaixo e ver na fotografia ao lado.

O que aconteceu depois da denúncia do instrumento e de que a imprensa deu destaque – as justificações da investigadora e das escolas, a demarcação e o corte de financiamento por parte da Fundação, a suspensão da aplicação por parte da Direcção-Geral da Educação – não chega ao problema de base.

Esse problema é o que enunciei acima: a abertura indiscriminada da escola a entidades que se abeiram dela por interesse próprio, sendo que a responsabilidade não é dessas entidades mas dos sistemas (não falo só do português) que a promovem.
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Notícias de jornal usadas para redigir este texto:
- Do Público, aqui.
- Do Expresso, aqui.
- Do Diário de Notícias, aqui

6 comentários:

  1. Ao estado a que isto chegou!!!

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  2. Felizmente desta vez a publicidade mediática serviu para travar múltiplos atentados éticos e cívicos. O problema é que o respeito pela privacidade das crianças e respectivas famílias não devia depender dos megafones mediáticos. As entidades que têm esse papel deviam ser as primeiras a exigi-lo e a salvaguardar os visados. Uma vez mais se constata o desrespeito generalizado pela Educação: ignoram-se na escola princípios éticos basilares e qualquer entidade "investigadora" realiza estudos neste domínio.

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  3. Cara Prof. Helena Damião, pode haver alguma razão científica que justifique a questão da "ascendência do educando"? Qual a razão para a investigadora ter feito esta pergunta? Pode ser uma variável em consideração na análise que pretende-se fazer?
    De facto, também não percebo o motivo do nome completo do educando ser pedido.
    Se fosse um questionário anónimo, a pergunta da ascendência era racista?
    Faço estas perguntas porque, sendo um tema que não domino, geram-me dúvidas para as quais não tenho respostas.

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    1. Caro Leitor
      A pergunta que coloca (melhor, as perguntas) não são de rápida e fácil resposta. Assim, logo que tenha tempo, procurei responder-lhe.
      Cordialmente,
      MHDamião

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  4. Vivenciamos um paradoxo total! Tanta preocupação com a educação para a cidadania e depois acontece isto!

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    1. Carlo Leitor
      Mas é, precisamente, na área de educação para a cidadania que as questões de privacidade mais se colocam! Educa-se na escola em sentidos contrários. Quando estão em causa valores, o resultado não pode ser favorável.
      Cordialmente,
      MHDamião

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