quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A "dança do varão" na escola: não correu bem, mas podia ter corrido

A uniformização de pensamento e de práticas curriculares escolares é uma realidade à escala global. Isto é verdade em Portugal e na China. Literalmente.

Não falo só do currículo formal, que se determina ao nível nacional, de estado e de escola, aferido por parâmetros supranacionais, que traduzem o "capital humano", necessário ao mercado de trabalho; falo também do currículo não formal, que se determina ao nível local e de escola, aferido pela sociedade mediatizada, do que nela revela o "sub-humano", necessário ao conformismo consumista.

Nesta realidade, lamentavelmente, currículos formal e não formal tendem a complementar-se: são "cara e coroa" da mesma moeda cujo valor de troca é a mimetização, o alheamento e, em última instância, a estupidificação.

Centro-me no currículo não formal (diferente de informal, construído de modo progressivo e espontâneo na convivência quotidiana), o tal que é opção em cada escola e que se corporiza substancialmente em actividades ocasionais e opcionais, com carácter de diversão ou comemorativas. Falo de feiras, festas, espectáculos, cerimónias, "dinâmicas" para inaugurar ou finalizar o ano lectivo, para assinalar uma data do calendário ou o dia disto e daquilo, para mostrar produtos e desempenhos, para demonstrar performances profissionais ou outras, para sensibilizar para problemas inadiáveis, etc.

Posto isto, volto aos países supra mencionados, começando pela China.

Imagem recolhida aqui
Tem sido noticiado, com algum espanto (caso contrário, não era notícia) que um jardim de infância de certa cidade de província organizou um espectáculo de boas-vindas aos meninos (entre os três e os seis anos), agora, na abertura lectiva. E quis fazer algo inovador, algo que outras escolas não tivessem ainda feito. Mas o quê!? Um pouco por todo o mundo, as escolas fazem de tudo para se evidenciarem, as ideias esgotam-se. 

Então, alguém, presume-se que a directora, ter-se-á lembrado da dança do varão! Se alguma vez aconteceu num jardim de infância não é comum! E como os filtros necessários à selecção do que é da escola (e lá deve entrar) e do que não é da escola (e deve ficar à porta ou, a entrar, será segundo critérios académicos) têm caído um a um, a ideia deve ter sido bem acolhida, de modo que foi para a frente.

E tinha tudo para se tornar numa "boa prática", numa "prática recomendável", tanto por despertar interesse nas crianças (levando-as a crer que a escola não é bem escola), como por fazer a ligação com a comunidade (envolvia quer os pais quer outros agentes educativos), como também por quebrar estigmas sociais (estas dançarinas não têm propriamente um estatuto igual às do ballet clássico), como ainda por constituir uma demonstração de empreendedorismo (a escola das danças de varão que colaborou afixou publicidade em vários locais).

Pois não correu nada bem. E porquê? Porque um escritor dos Estados Unidos da América  (onde isto poderia muito bem ter acontecido) não concorda com nada do que registei no parágrafo anterior e resolveu denunciar a situação, não às entidades competentes, ou não só a elas, mas ao mundo: filmou e publicou o registo comentado nas redes socais. Apareceram os jornais e as cadeias de televisão. O que tem a dizer, senhora directora? Em comunicado, ela apresentou um pedido de desculpa apalermado: na sua inocência (mais inocente que a das crianças pelas quais é responsável), disse ter pensado que todos "iriam gostar" e que "sabiam da existência desse tipo de dança".

Imagem recolhida aqui
Mas, o pai, inquieto, não ficou por aqui, quis saber mais: se a escola em que acabava de entrar cometeu um primeiro deslize do género ou se conta com outros no seu historial? Não precisou de recuar muito no tempo, descobriu que no encerramento do passado ano lectivo durante dez dias as crianças fizeram uma espécie de treino militar (ver figura ao lado). 

A apreensão cresceu entre os pais que anularam as matrículas e a directora acabou despedida. Quase tenho pena dela como quase tive pena de um jovem professor francês a que faltou a mesma filtragem que acima mencionei (ver aqui), sendo que o desfecho foi o mesmo: suspensão.

E em Portugal? Isto poderia ter acontecido? Sim, poderia. Já aconteceu? Não sei, mas na minha recolha de situações análogas contam-se, por cá, concursos de misses e misters (aqui) ou a recriação de confrontos entre grupos e forças de segurança, bem como o contacto com equipamentos policiais (aqui). E muita gente achou ambas as "actividades" normais.

Directores e professores, são, de facto, levados a crer, por via de um certo discurso político, social e (pseudo)pedagógico que tudo pode entrar na escola, que tudo o que acontece na sociedade tem pertinência curricular, e que tudo pode ser tratado no quadro didáctico como é tratado na sociedade. Enfim, que tudo é aceitável e justificável num espaço que deve ser educativo.

Mas não é assim. Por isso, é tão importante que directores e professores voltem aos fundamentos da educação: à filosofia, à ética, à epistemologia, à antropologia, à sociologia, a todas essas disciplina que parecem não interessar rigorosamente nada mas que são a única saída para a educação escolar no mundo.

Informação recolhida aqui, aqui, aqui.

3 comentários:

  1. Muitíssimo bem doutora Helena Damião. Ainda bem que deu destaque a este caso, que prova também que afinal a sociedade não está assim tão desprotegida face aos poderes, e que a opinião pública não é sempre tão parva como se julga. Com a palavra "inclusão" também de mente, de boas intenções esta o inferno cheio.

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  2. Caro Leitor
    Os poderes (tanto os tradicionais como so novos) só exercem poder marginal à educação escolar real, caso os seus profissionais descuidem a função de que estão investidos. E para assumirem inteiramente essa função precisam de ter uma formação sólida, antes de mais nos fundamentos da educação (não descuidando, evidentemente, o saber disciplinar, pedagógico-didáctico...).
    Temos muitos professores assim formados, a sociedade precisa de os apoiar.
    Cordialmente,
    MHDamião

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  3. Doutora Helena
    Tem razão quando diz que a sociedade precisa de apoiar esses professores que estão conscientes da sua verdadeira função. Isso é urgente pois a própria escola muitas vezes ostraciza esses profissionais.
    As modas são aceites acriticamente e os dissidentes são "esmagados".
    Obrigada pelas suas excelentes reflexões.
    Dulce Marques da Silva

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