sexta-feira, 10 de novembro de 2017

EDUCAÇÃO E CIÊNCIA: NÓS E OS OUTROS

Meu artigo na VISÃO de ontem:

Basta olhar para a PORDATA para perceber melhor o nosso lugar no panorama internacional da Educação. Na população em idade activa, entre os 25 e 64 anos, só há entre nós 47% de pessoas que completaram pelo menos o ensino secundário (estamos no penúltimo lugar na União Europeia: pior que nós só Malta!) e só há 24% com um grau de ensino superior. As médias dos países da União Europeia para estes dois índices são, respectivamente, 77% e 31%. A Lituânia tem 95% da sua população activa habilitada com pelo menos o ensino secundário e a Finlândia tem 43% da sua população detentora de um grau do ensino superior. Existem vários problemas em Portugal, mas a falta de suficiente qualificação da população é o principal, por estar na base de muitos outros.

Por outro lado, se olharmos para a Ciência, também verificamos uma posição inferior à da média europeia. Apesar dos impressionantes avanços nas últimas três décadas, o nosso investimento em Ciência ainda é de apenas 1,3% do PIB, quando a média na União Europeia é 2,0% e, no cimo, a Suécia, investe 3,3%. O objectivo do programa europeu  “Horizonte 2020” de chegar até 3% parece parece difícil de realizar no caso português. Temos na Ciência como na Educação, um longo caminho a percorrer com vista à equiparação aos países mais desenvolvidos na comunidade europeia. Uma das causas, senão mesmo a causa principal, para o atraso científico português é o atraso educativo. Se apenas uma parte da população frequentava o ensino  secundário até ao fim e dessa só uma fracção completava o ensino superior, não podia haver um corpo de investigadores suficiente para sustentar a Ciência e transmiti-la à sociedade.

A Educação e Ciência são áreas indissociáveis, aqui como em qualquer lado do mundo. A Educação, que se destina a formar e capacitar as crianças e os jovens para a vida activa, transmitindo-lhes o melhor da herança da humanidade, inclui naturalmente a Ciência por esta ser uma das parcelas mais relevantes dessa herança. E a Ciência só pode ser desenvolvida bem assente na Educação, pois só alguém que conheça muito bem o legado científico pode tentar, aventurando-se nas fronteiras do conhecimento, encontrar conhecimento novo. A Ciência informa a Educação e a Educação possibilita a Ciência. No ensino superior, Educação e Ciência têm de estar de mãos dadas, uma vez que tanto nas universidades como nos institutos politécnicos dificilmente será possível um bom ensino por quem não conheça a ciência através da prática. Só poderá transmitir conhecimento ao nível mais elevado quem estiver familiarizado com a sua criação, uma vez que esse conhecimento envolve a dúvida e a crítica em vez da mera repetição passiva. Os países com sistemas de ensino superior  mais fortes são também aqueles que têm sistemas científicos mais sólidos. E, uma vez que o ensino superior forma os professores dos ensinos básico e secundário, é directa a sua influência nos outros níveis de ensino.

Hoje, felizmente, o país está a dar mais habilitações aos seus cidadãos e está a apostar na Ciência. Estamos muito longe do nosso passado, mas convém ter em mente que estamos ainda atrás, na maioria dos índices da Educação e Ciência, da média europeia.

O Mês da Educação e da Ciência organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, trazendo ao debate de um modo cruzado a Ciência e a Educação e juntando temas tão oportunos como os resultados do PISA, o papel das Humanidades, o cérebro adolescente, a relevância dos exames, o diagnóstico da Ciência em Portugal, as vantagens do ensino superior, o futuro da Ciência no mundo (Sir Martin Rees, astrónomo real britânico, estará na Universidade do porto a 17 de Novembro), e a diáspora da Ciência portuguesa (recenseada pela rede gps.pt), propõe-se contribuir para a melhor consciência dos nossos problemas na Educação e Ciência e também para encontrar soluções colectivas para os resolver.


Carlos Fiolhais*

*Professor da Universidade de Coimbra e Comissário do Mês da Educação e da Ciência


1 comentário:

  1. Concordo, de um modo geral, com estas reflexões pertinentes do Professor Fiolhais sobre Educação e Ciência. No entanto, na minha qualidade de professor do liceu, sinto-me na obrigação de avisar toda a sociedade portuguesa de que se podem cometer erros graves de avaliação do progresso da Educação e Ciência em Portugal se fizermos uma leitura apressada – e, quantas vezes, também enviesada! -, de certos dados estatísticos, aparentemente muito positivos, mas que, debaixo de uma capa superficial, escondem uma realidade nua e crua!
    Por exemplo, é um dado adquirido que o número de doutorados não tem parado de aumentar nos últimos anos. O problema é que, estatisticamente, um doutoramento em ciências da educação tem tanto valor académico e social como um doutoramento em Física Nuclear. Eu acho que não!
    Na minha vida académica fui aluno de doutores físicos e de doutores especializados em educação. Os primeiros tentaram transmitir-me uma visão mais ampla e profunda do mundo natural do que aquela que se tem com a vista desarmada; os segundos, sem exceção, através do exemplo das suas lições excêntricas e humorísticas, mostraram-me como o Estado é capaz de esbanjar tanto dinheiro com pessoas que, apesar de doutoradas (Deus e as universidades privadas sabem como!), eu mandaria internar num manicómio, se fosse psiquiatra!
    Uma outra grande questão é a de saber se surgiu primeiro o ovo ou a galinha.
    Portugal é pobre porque tem pouca Ciência, ou tem pouca Ciência porque é pobre? Pessoalmente, inclino-me para o segundo elemento da dicotomia que lanço para debate.
    A História de Portugal é, ao mesmo tempo, grandiosa e muito pesada para todos nós. A fé religiosa, que nos levou a descobrir o caminho marítimo para a Índia, tornou-se num empecilho quando, ao mesmo tempo, nos afastou do mundo novo da Ciência Moderna. Com a falta de chuva, isto só pode piorar!

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