quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O desafio da excelência


Artigo de opinião de Jorge Buescu, Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, na Visão de hoje:

Num mundo cada vez mais acelerado existem cada vez menos certezas sobre o futuro. Uma das poucas certezas que podemos ter, contudo, é a de que a Matemática vai ocupar um papel cada vez mais central na formação, no desenvolvimento profissional e no mercado de trabalho da sociedade futura. Nos Estados Unidos já hoje, em 2016, a criação de empregos em áreas que façam uma utilização intensiva de conhecimentos e capacidades matemáticas é três vezes superior à média do mercado de trabalho geral. Na Europa estima-se que exista, até 2020, um défice de cerca de um milhão de profissionais ligados às Tecnologias de Informação com formação especificamente matemática.

Por outro lado, com o crescimento exponencial das áreas ligadas ao chamado Big Data, da massificação da recolha e acesso a dados numéricos e da generalização da capacidade de cálculo, esta tendência está a crescer cada vez mais aceleradamente. Hoje em dia emergem aplicações decisivas da Matemática não só nas tradicionais de Ciências e Engenharia, mas em áreas como a medicina, a indústria, as finanças, os negócios, até mesmo o entretenimento (a Netflix é um bom exemplo).

Por isso mesmo, hoje como nunca antes, a excelência da formação e da qualificação matemáticas das novas gerações são um verdadeiro desígnio nacional. As novas gerações competirão num mercado de trabalho global e terão de estar excepcionalmente bem preparadas do ponto de vista matemático. A qualidade na Educação, a todos os níveis, é uma batalha que tem de ser ganha para que o nosso País seja competitivo. A mediania não é uma opção. O objectivo tem de ser a excelência.

A evolução do sistema educativo português no século XX caracterizou-se pela batalha da quantidade. Portugal tinha, no início do século XX, uma taxa de analfabetismo de 80% e níveis de escolaridade residuais; um século depois estava essencialmente erradicado o analfabetismo e instituída a escolaridade universal obrigatória de 9 anos. Este crescimento foi explosivo: por exemplo, nos 20 anos seguintes ao 25 de Abril o número de estudantes no Ensino Secundário decuplicou, fenómeno que não tem paralelo nos nossos parceiros europeus. A parte negativa é que este crescimentos se deu sem preocupações de uniformidade e qualidade; consequentemente, o sistema educativo português revela graves fragilidades e insuficiências, grandes assimetrias e bolsas de falta de qualidade. Estas fragilidades são simplesmente mais evidentes, porque completamente indisfarçáveis, numa disciplina como a Matemática; mas são comuns ao sistema educativo como um todo.

O grande desafio que se coloca à Educação em Portugal no século XXI é pois esta batalha da qualidade – ou, talvez melhor superlativamente, da excelência. Para ultrapassar as fragilidades e desarticulações do nosso sistema educativo não pode haver complacências nem concessões ao facilitismo. Os curricula escolares têm de ser rigorosos e exigentes, com metas claras e bem definidas. Os professores têm de ter formação cientificamente muito sólida e actualizada. Os processos de avaliação de conhecimentos têm de ser rigorosos, avaliando conhecimentos no final de cada ciclo. Os manuais escolares têm de ser cientificamente imaculados, e para isso certificados em termos de qualidade. E todo o sistema deve ser monitorizado através da participação nos grandes estudos internacionais periódicos TIMSS, PISA e PIRLS – dos quais por opção política e ideológica, caso único na OCDE, Portugal optou até 2011 por se auto-excluir.

A excelência no ensino é o maior desafio para a Educação em Portugal, e simultaneamente uma enorme responsabilidade colectiva para com os nossos jovens. Temos estar à altura desse desafio, para que eles venham a estar à altura dos desafios que lhes serão colocados enquanto adultos.
Tenhamos nós sucesso nesse desafio hoje, e eles se encarregarão que o País tenha sucesso no futuro.


Jorge Buescu

Outubro de 2016

1 comentário:

  1. Infelizmente, todos os sinais indiciam que a política educativa actual não vai nesse sentido, antes pelo contrário. Veja-se o caso da APM, que ganhou força com esta equipa ministerial. A sua perspectiva sobre o ensino da matemática é o oposto da visão da SPM (e de Jorge Buescu), pelo que a “reversão” do que foi conseguido nos últimos anos deve estar para breve.

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