sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TRÊS SUGESTÕES DE LIVROS DE NATAL


Texto de  Guilherme Valente (editor da Gradiva):

Todos os livros da Gradiva são obras, digamos, especiais - podemos enganar-nos, mas não fazemos cedência ao “lixo". Mesmo neste período de crise financeira bastante grave, também de crise da cultura, da leitura - mesmo nas universidades muitos alunos e professores, visivel e comprovadamente,  quase não lêem!.
 A Gradiva continua fiel ao projecto e à intenção que determinou a sua criação: promover o conhecimento, o debate de ideias, a participação cívica informada e livre.  Por  isso editamos livros, nos vários géneros,  com pontos de vista diferentes, por  vezes opostos, com ideias novas, uma vez que  a realidade muda e novos desafios  se colocam à consciência  crítica dos homens livres, dos que procuram,  acima de tudo,  ser fiéis à sua consciência. 

Continuamos a ser a empresa financeiramente equilibrada que desde sempre fomos, sem nunca termos pedido qualquer  empréstimo. Somos absolutamente autónomos. Estamos como outras editoras a vender menos, mas também a gastar menos. Diminuímos o número de títulos publicados e baixámos as tiragens (por isso deixámos de ter exemplares para oferecer, nós que gostamos tanto de dar). Resistimos em equilībrio graças à equipa de pessoas da Gradiva, que a fazem com um empenho, um gosto, um voluntarismo que espantam todos aqueles que têm contacto profissional connosco ou nos visitam.

Continuo a ser sobretudo um leitor, o leitor como fui sempre, mesmo que não leia muitos dos livros que fui podendo comprar, claro. De entre as nossas Novidades de Novembro faço três sugestões do nosso catálogo. Todos os três são novidades, pelo que estou a pensar na época das prendas, prendas que devemos também oferecer a nós próprios. Todas são obras admiráveis, cada uma no seu género. E todos são livros que conseguimos vender a preços especiais, preços que ainda poderiam ser mais baixos se houvesse um maior número de leitores - a Gradiva  está a publicar cada vez mais para uma elite, para um conjunto de leitores reduzido. Como dizia a personagem de um filme que acabo de ver, "os livros são a televisão dos inteligentes"...

"A Hora do Deslumbramento", de Richard Holmes,  é um livro premiadíssimo, cultural e historicamente  revelador, cheio de informaçào surpreendente,  muito bem "contada", como um romance, podendo ser lido devagar, embora quem já o leu me tenha dito que não conseguiu parar. Tem 700 páginas, a um preço incrível, porque  decidimos vender a edição de apenas mil exemplares (já só temos 200, felizmente, e, se  reeditarmos,  teremos, então, lucro, que é  legítimo) só  através do nosso site e nas livrarias que aceitaram uma margem comercial inferior à habitual: FNAC, Corte Inglês e pequenas livrarias. Claro que compreendemos muito bem que outras não genham podido aceitar essa margem, uma vez que também elas têm despesas enormes e lutam para manter o seu equilībrio financeiro.  Mas o que não há dúvida é que o livro chega caro aos que  o querem e precisam de comprar. E isso está também a contribuir para as dificuldades das editoras, para o cada vez maior afunilamento dos géneros publicados. Os grandes livros de referência nas várias áreas do conhecimento estão, como pode ser facilmente observado, a desaparecer progressivamente das livrarias.

Saberão os leitores qual é a margem habitual de cimercializção? Aproxima-se dos 58%. Percebem melhor por que os livros  são caros? Especialmente  os livros de referência, os livros de cultura, os tais que estão a deixar  de ser lidos nas universidades e nas escolas, para um público que devia ser culto  e qualificado. Que devia começar por ser letrado  para ser culto  e qualificado.  Havendo cada vez menos leitores as tiragens são cada vez mais pequenas, e, sendo as  margens de comercialização o que são, o preço de venda do livro tem de ser elevado.

É por isso que uma venda directa, através do nosso site ou por pedido telefónico  ou por email à Gradiva  é uma grande ajuda. Nessa venda directa podemos vender todos os livros com um desconto muito significativo. Pelo menos todos  os que não estiverem sujeitos à... estranha Lei do Preço Fixo. Uma lei que se diz ter sido feita para proteger as pequenas livrarias, mas que, na verdade, não as defendeu. Acabaram quase todas... Essa lei foi agora reforçada. Com o mesmo argumento que a realidade infirmara, o de proteger as pequenas livrarias. E quem protege as pequenas e médias editoras, as tais a que se vem chamando "independentes? As editoras que não possuem livrarias onde possam manter as suas obras em exposição, onde as possam colocar em montra? Edtoras que publicam livros para um público mais restrito, com pequenas tiragens, insuficientes para permitir a  compra de espaço nas montras ou nas bancas de exposição?  Não deveria  também de haver uma lei para proteger os pequenos editores, os editores ditos "independentes". Para proteger a diversidade, que é afinal a fonte da liberdade?

Acontece o seguinte, regra geral:  O editor coloca o livro nas livrarias. Se o editor não comprar espaço de exposição nas montras  ou nas bancas, os livros ficam uns dias, um ou dois exemplares, muma banca geral das novidades.  Se não se venderem num curto prazo, deixam de estar expostos e, passados dois ou três  meses, são devolvidos à editora. Por que razão não se permite, então, ao editor  que os venda no seu site com o desconto  que permita a mais pessoas adquiri-lo?  Para quê obrigar-se  o editor e o leitor a esperarem 18 meses para recuperar o investimento e para poder ter acesso ao livro  que deseja ou de que precisa  a um preço ao seu alcance? Mistério. Outro mistério tal como o do estúpido Acordo Ortográfico imposto ao país.

A Gradiva -- sem violarmos a lei, porque é uma  lei (as multas são, aliás, violentíssimas)  - está a fazer regularmente grandes  descontos nas obras que, publicadas há mais de  18 meses,  já não se encontram ou não estão  visíveis nos pontos de venda, porque foram devolvidas. Pedimos, por isso, que visitem o nosso site, que é a a livraria da Gradiva. Aí encontram todo o nosso singular catálogo. E grandes descontos em grandes livros. Das vendas  efectuadas dependerá podermos continuar a editar o género de livros que distingue a Gradiva.

Mas voltemos às  Novidades. O livro do Umberto Eco que sugerimos, "História das Terras e dos Lugares Lendários",  é uma obra de características diferentes de “A Hora do Deslumbramento". É de um género, digamos, visual, bem numa das linhas de interesse cultivadas  por um autor que é um dos grandes intelectuais do nosso tempo. Texto belíssimo, imagens belíssimas, imaginação contagiante, a  erudição que distingue o autor. Uma  prenda deliciosa de ler e de ter, nas nossas estantes ou em cima da mesa da sala para se olhar, folhear e ir lendo.

Quanto ao terceiro livro "Ouvir com Outros Olhos", de João Lobo Antunes, não hesito em dizer: comprem-no na Gradiva ou no vosso livreiro habitual (que bem merece ser ajudado, sendo o preço neste caso o mesmo) e leiam-no já.  Confiem em mim.  A sua leitura vai dar-vos um grande prazer intelectual e  humano. João Lobo Antunes é quanto a mim um dos mais profundos, mais cultos, o mais preocupadamente humano no pensamento, o mais elegante na escrita, dos três ensaístas portugueses  maiores do nosso tempo. Sou  insuspeito nesta minha opinião, porque tenho o orgulho enorme de ser também o editor dos outros dois:  António José Saraiva e Eduardo  Lourenço.  Leiam este livro de João Lobo Antunes, os temas tocam o que mais  toca a todos nós. E se o lerem... vão também querer ler todos os seus livros anteriores.

Leiam o melhor, leiam Gradiva. Como  dizia um slogan muito usado nos meus tempos de criança...o saber não ocupa lugar. 


Guilherme Valente

2 comentários:

  1. "Leiam o melhor, leiam Gradiva."

    A auto-publicidade neste blog desce a níveis pornográficos.

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  2. Acabei de aderir ao vosso blogue, não tinha conhecimento que haveria uma vanguarda da defesa e manifestação da cultura e sabedoria em Portugal. Primeiro que tudo parabéns pelo nome do vosso blogue porque foi o que me trouxe aqui em primeiro lugar.
    Relativamente aos livros vou seguir o vosso conselho, embora a Era do Deslumbramento já cá canta na estante, os outros dois se seguirão ;)
    Agora cabe-me finalizar o Folly of Fools de Robert Trivers, depois irei considerar estas obras.
    Um obrigado por partilharem esta informação, eu cá vou certamente ter muito para explorar neste vosso blogue nos próximos tempos.
    Kind regards

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