segunda-feira, 25 de abril de 2022

BALANÇO FINAL

Novo poema de Eugénio Lisboa:

BALANÇO FINAL 

Num dia, já há muitos, muitos anos, 
à beira de uma enorme baía,
dei comigo a fazer grandes planos, 
sem nada subtrair à fantasia. 

Os anos foram passando depressa, 
trazendo desilusões e sucessos, 
cumprindo uma ou outra promessa, 
outras mais, morrendo, à míngua de excesso. 

Dos sonhos, só muito pouco se cumpre
e também nós só pouco nos cumprimos: 
o que não se fez não se fez para sempre 

e tudo perdemos se desistimos.
É muito a pensar que não fizemos
tudo o que sonhámos, que nós morremos. 

Eugénio Lisboa

N. B. Se o leitor suspeita que aquele “à míngua de excesso” foi roubado ao Mário de Sá-Carneiro, suspeita muito bem. Os grandes poetas também servem para que lhes furtemos um ou outro tijolo que falta ao nosso edifício. Camões roubou Virgílio, Eliot roubou Dante e todo o poeta consciente, quando isso lhe dá jeito, faz mão baixa de propriedade alheia. Mel Brooks pilhou uma passagem de OS PÁSSAROS, de Hitchcock, para uma cena irresistivelmente cómica de um filme seu. Foi Eliot, provavelmente para legitimar os pilhanços que fez, quem declarou que os poetas imaturos imitam, mas os poetas maduros roubam. Eu tenho idade suficiente para legitimar os meus furtos. E tenho suficiente conhecimento da literatura universal, para saber que engenho e arte se alimentam destas coisas. Racine fartou-se de pilhar Eurípedes e Shakespeare pilhava onde podia. Portanto, se houver aí menino ignorante que se prepare para me abocanhar, acusando-me de furto, digo-lhe que não seja parvo e que vá dar uma curva.

Salgueiro Maia


Lutar, buscar, achar
E não aproveitar,
Esse foi o destino
Deste breve peregrino.
Corajoso e puro,
Soube tornar-se obscuro,
Recusando as luzes
E suportando as cruzes.
Ousado e discreto,
Das glórias desafecto,
Retirou-se da vida,
Com a vida cumprida.
Esconder a virtude,
Que honrosa plenitude!

Eugénio Lisboa

domingo, 24 de abril de 2022

MOONSHOT


 Meu artigo no  As Artes entre as Letras:

O termo inglês Moonshot significa literalmente o envio de uma nave à Lua, mas em sentido figurado é um plano ou projecto, em geral de base tecnológica, para fazer algo quase impossível. A palavra teve origem no discurso que o presidente norte-americano John Kennedy proferiu a 12 de Setembro de 1962 no estádio da Universidade Rice em Houston, no Texas: «Nós escolhemos ir para a Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas são fáceis, mas porque elas são difíceis; porque esse objectivo servirá para organizar e medir o melhor das nossas energias e habilidades, porque estamos dispostos a aceitar o desafio,  estamos dispostos a não o adiar e temos a intenção de o vencer, tal como aos outros». O certo é que o objectivo de viajar à Lua ainda nessa década se cumpriu: em 21 de Julho de 1969 Neil Armstrong punha pela primeira vez os pés em solo lunar, coroando uma excitante corrida espacial.

Moonshot é o título de um livro que acaba de ser publicado em tradução portuguesa com o título Como Fazer o Impossível. O subtítulo A corrida contra o tempo para criar a vacina contra a Covid-19 elucida que, em vez da corrida espacial, se trata da corrida às vacinas revolucionárias, baseadas no genoma, que ajudaram na resolução da pandemia de COVID19, que parece aproximar-se do fim. É seu autor Albert Bourla, presidente e CEO da Pfizer, a grande companhia farmacêutica norte-americana que fez uma aliança ganhadora com uma start-up alemã, a BioNTech. A vacina conjunta – a mais rápida de sempre –  mostrou ter uma eficácia de mais de 90%.

Bourla nasceu um ano antes do discurso de Kennedy (tem hoje 60 anos), em Tessalónica, na Grécia, sendo descendente de judeus sefarditas. Foi em Tessalónica (ou Salonica) que morreu no século XVI o médico judeu português Amato Lusitano. No livro, o autor diz que os seus antepassados foram expulsos de Espanha no tempo dos Reis Católicos. Os pais de Bourla sobreviveram ao Holocausto (foram 2000 dos 50 000 judeus tessalonicenses que o conseguiram), ao contrário de outros membros da família. A sua mãe escapou a um pelotão de fuzilamento alemão, por poucos minutos, porque um cunhado não-judeu subornou um oficial nazi. Os pais conheceram-se e casaram anos depois da Segunda Guerra Mundial

O CEO da Pfizer - a empresa que faz o Centrum e do Viagra - concluiu um doutoramento em Medicina Veterinária na Universidade Aristóteles, em Tessalónica, em 1985. Ingressou no ramo grego da empresa em 1993 e emigrou para os Estados Unidos em 1991.  Tornou-se chefe de operações em 2018, assegurando a supervisão de todos os processos de desenvolvimento,  fabrico e venda de medicamentos e vacinas. No ano seguinte foi designado CEO. Ocupado como estava na reorganização da empresa, não fazia na altura ideia de que lhe viria a cair em cima a pandemia de Covid-19, cujos primeiros casos ocorreram na China em finais de 2019 e que foi declarada pandemia pela OMS em 11 de Março de 2020.

O livro, escrito no Verão de 2021, conta a corrida à vacina desde as primeiras notícias, que o apanharam no Fórum de Davos. No avião de regresso anotou as suas prioridades: assegurar a segurança e o bem estar dos funcionários, fornecer aos hospitais os medicamentos críticos e procurar uma solução. Colocou em primeiro lugar (com três exclamações) vacinas e em segundo lugar medicamentos. Numa avaliação rápida, as soluções mais promissoras eram as vacinas baseadas em ARN modificado, em que não se introduzia o vírus ou partes dele no organismo, mas antes se comunicava uma mensagem para a nossa maquinaria molecular fabricar uma proteína do vírus. A Pfizer já tinha, antes da Covid-19, um acordo de colaboração com a BioNTech, sedeada em Mainz, na Alemanha, uma empresa criada por um casal turco-alemão, Özlem Türeci e Ugur Sahin, que trabalhava em soluções para o cancro. Bourla  não os conhecia pessoalmente, mas a primeira conversa telefónica com Sahin correu muito bem: houve confiança mútua, o que poderá parecer estranho por estar de um lado um judeu grego, extrovertido, e  do outro lado um muçulmano turcos, introvertido. O acordo foi de  50-50 nas despesas e lucros, mas só se houvesse êxito. A Pfizer adiantava o financiamento e incorporava um eventual prejuízo.  A solução inovadora vinha do casal turco, com base numa ideia de uma cientista húngara emigrada para os Estados Unidos (há um livro da autoria de Joe Miller em colaboração com os cientistas turcos: A Vacina. A inovação de uma era no combate à Covid-19, Actual, 2021).

Moonshot lê-se bastante bem. Como anuncia a capa é a «história contada por quem tomou as decisões». E houve decisões difíceis, por exemplo logo no inicio entre duas técnicas, das quais uma prometia mais, mas sobre a qual havia menos dados. Bourla arriscou ao escolhê-la. Há momentos do livro que parecem de um filme de suspense como a cena da reunião de topo da  Pfizer em que foram revelados os resultados da fase 3 dos testes. A eficácia da vacina era de 95,6%, um resultado absolutamente inesperado (o objectivo era apenas 60%). A emoção instalou-se. Até dois seguranças que estavam a assistir à reunião começaram a chorar sem perceberem bem o que se passava. O comunicado da Pfizer no dia seguinte correu o mundo, alimentando a esperança. Passados nove meses desde o início da pandemia era vacinada a primeira pessoa, no Reino Unido. E, passados nove dias, a FDA americana concedia autorização de uso da vacina.

Bourla faz-nos entrar nos meandros não só da ciência e da tecnologia, como da economia e da política: narra o telefonema de parabéns do vice-presidente Mike Spence (o presidente Donald Trump nunca lhe telefonou, por julgar que ele tinha atrasado o anúncio da vacina para depois da eleição) e a visita a uma fábrica da Pfizer do novo presidente, Joe Biden. E conta os seus encontros com Ursula von der Leyen e outros líderes.

O autor defende a propriedade intelectual, pelo que o livro é polémico para os defensores da quebra da protecção dessa propriedade. Mas é um documento muito interessante sobre o mundo das saúde, dos negócios e da política mundial, em que, naturalmente, um executivo valoriza o seu papel na corrida que ganhou. Li-o a correr de uma ponta a outra.

 

AZUL E VERDE


Meu artigo saído nodo no novo projecto «Azul» do «Público» (na imagem, quadro de C. Monet):

O azul e o verde são formas de luz visível que apenas diferem no comprimento de onda: o azul está entre os 440 e os 495 nanómetros (um nanómetro é a milionésima parte do milímetro), ao passo que o verde está entre os 495 e os 570 nanómetros. Maior comprimento de onda significa menos energia. Para os nossos olhos, as cores primárias são o azul, o verde e o vermelho, por dispormos de três tipos de sensores adequados a essas cores: combinando-as conseguimos obter todas as outras cores. Vemos o azul, o verde e o vermelho porque os nossos olhos se desenvolveram, num longo percurso de evolução natural, para captar ao máximo a luz que o Sol emite, que inclui todas as cores do arco-íris do violeta ao vermelho (foi Newton quem descobriu, no século XVII, que a junção de todas elas dá o branco). Somos o resultado da nossa circunstância cósmica: se o nosso planeta estivesse perto de uma estrela mais fria do que o Sol, uma estrela que tivesse um pico de luz infravermelha, os nossos órgãos de visão captariam bem esta forma de luz. E conseguiríamos ver de noite...

E, apesar de o azul e o verde estarem uma ao lado da outra no arco-íris (pela sua proximidade, nalgumas línguas não são distinguidas) há uma enorme diferença cultural entre o azul e o verde. O azul está ligado à paz, à ordem, à harmonia: não é por acaso que está nas bandeiras da União Europeia e das Nações Unidas. É, em todo o mundo, a cor preferida pela maioria das pessoas (assim o dizem 40-50% dos respondentes a repetidos inquéritos em numerosos países), pelo que não é de admirar o seu uso generalizado no vestuário, tanto masculino como feminino. Por seu lado, o verde está ligado à Natureza, à vida, à saúde, à juventude e à esperança: é, naturalmente, a cor dos movimentos e dos partidos ecologistas e, por convenção, a cor usada na sinalização para autorizar a passagem. O verde é a segunda cor na apreciação popular (15-20% das pessoas preferem-na). A acreditar nesses inquéritos, azul e verde dispõem de uma maioria absoluta.

No entanto, nem sempre foi assim. Os gregos antigos eram praticamente «cegas» ao azul e ao verde, no sentido em que não descrevem essas cores nos escritos que chegaram até nós. O léxico grego para designar cores é escasso e impreciso, nem sequer têm termos para essas duas cores. Quem chama a atenção para esse facto é o historiador francês Michel Pastoureau, autor de uma série de livros que apresentam a história cultural das várias cores (publicados entre nós pela Orfeu Negro, em edições com o texto impresso em cada cor). Tal atraso na recepção do azul e do verde (o verde em menor escala) deveu-se à dificuldade de produzir e fixar essas cores. Escreve Pastoureau: o azul e o verde são «cores que o ser humano reproduziu, fabricou e dominou tarde e com dificuldade». De facto, nas pinturas rupestres pré-históricas encontramos vermelhos, pretos, castanhos e ocres, mas não há nem azul nem verde. A ignorância do azul e do verde prosseguiu na Alta Idade Média. As cores com maior força simbólica eram o preto, o branco e o vermelho, as cores fundamentais das culturas antigas (ainda hoje são usadas nas vestes clericais da Igreja Católica, sendo o vermelho a cor dos cardeais). Porém, a Virgem Maria começou na Idade Média a ser pintada de azul, que é evidentemente a cor do céu, uma cor que também passou a surgir nos vitrais dos grandes templos, pela arte dos mestres vidreiros. O azul também passou a aparecer nas representações heráldicas dos nobres, particularmente em França. No Renascimento o azul ganhou alento. No tempo de Newton, grandes pintores como Vermeer usaram-no, retirando-o do lápis-lazúli. No século XVIII, pelo engenho dos químicos, surgiu o azul-da-prússia. E os tintureiros aperfeiçoaram a aplicação do índigo. O azul começou então a ser moda no vestuário, tanto nos ricos como nos pobres (o azul dos ricos mais vivo e o dos pobres mais desbotado). No final do século XVIII, o herói de Os Sofrimentos do Jovem Werther, o famoso romance de Goethe (que se opôs à herança newtoniana, propondo uma errada teoria das cores), vestia um casaco azul. O azul já estava na moda, mas o êxito do livro reforçou a moda. A Revolução Francesa criou a bandeira tricolor, com o azul a designar a liberdade. Os soldados de Napoleão vestiam casacas azuis. O século XX assistiu ao triunfo do azul, manifesto na arte no «período azul» de Picasso e no comércio nas vendas dos jeans, que já vinham do século anterior.

O verde, também difícil de fabricar como o azul, foi nomeado pelos romanos, superando os gregos. Consta que Maomé gostava do verde e, talvez por isso, verde foi a cor do Islão. Os cruzados iam de vermelho e branco enfrentar os «infiéis», mas, na Idade Média cristã, o verde passou a ser uma cor cavalheiresca e cortês ou não fosse ela associada à Primavera e ao amor. Na Idade Moderna o verde passou a ser uma cor mal amada: a cor do imprevisto, do veneno e do diabo. O verde foi sempre uma cor ambígua. O lado romântico do verde floresceu no Romantismo, quando alastrou o culto da Natureza (sem esquecer que o Romantismo tinha um lado sombrio, negro mesmo). No século XIX o verde ligou-se à higiene e saúde, ganhando fama de cor calmante. Os pintores, incluindo os impressionistas, experimentaram dificuldades com o verde por ele ser instável à luz. No século XX, Kandinsky detestava o verde, que considerava uma cor amorfa e apática. Mas essa cor acabou por cair no agrado geral. Significa hoje natural, abundando nos logotipos e na publicidade. Pastoureau diz: «outrora menosprezado e rejeitado, mal-amado, o verde tornou-se uma cor messiânica. Ele vai salvar o mundo.»

O certo é que a Terra, vista ao longe, é azul. Foi Carl Sagan que lhe chamou o «ponto azul-claro», quando virou as câmaras da Voyager 1 para a Terra para tirar uma selfie de nós todos. Tal se deve ao facto de 70% da superfície terrestre estar coberta por oceanos. Os continentes são, em geral, verdes, já que a sua superfície está repleta de vegetação e a fotossíntese impera nas plantas (já dizia Goethe que «todas as ideias são cinzentas, verde é a frondosa árvore da vida»). Como é que os gregos não viam nem o azul da água nem o verde das árvores? Nos dias de hoje, num mundo ameaçado pelas alterações climáticas, o azul simboliza o nosso planeta enquanto o verde simboliza a vida que triunfou nele, espraiando-se numa extraordinária biodiversidade. Que a associação das duas cores, no Azul, seja um meio para não só informar, mas também para promover a salvação da vida no planeta, que é como quem diz a nossa salvação.

 

SETE LIÇÕES E MEIA SOBRE O CÉREBRO


Meu último artigo no JL (no jornal houve uma gralha sobre o número de neurónios):

Alguns dos livros de divulgação de ciência com maior êxito são concisos. Por exemplo, o astrónomo Neil deGrasse Tyson é o autor de Astrofísica para gente com pressa (Gradiva, 2017) e o físico italiano Carlo Rovelli  é o autor de Sete breves lições de Física (Objectiva, 2015). Tanto uma como o outra obra venderam mais de um milhão de cópias em dezenas de línguas. Se o êxito de Tyson era previsível, uma vez que o autor é muito popular, o mesmo não se passou com Rovelli, uma autêntica revelação. Curiosamente tanto um como outro têm origem num conjunto de artigos, num caso na revista Natural History e no outro num jornal italiano. O segredo dos dois, para além da concisão, é uma escrita clara.

Acaba de sair na Temas e Debates/ Círculo de Leitores um português um titulo parecido com o de Roveli, mas sobre neurociências. O título é Sete lições e meia sobre o cérebro e a autora é Lisa Feldman Barrett (n. 1963, em Toronto, Canadá), professora de Psicologia da Universidade de Northeastern, em Boston, nos Estados Unidos. A sua investigação sobre as emoções colocaram-no no top 1% dos cientistas mais citados na sua área. Este é ao seu segundo livro de divulgação: o primeiro foi How emotions are made (2017). O neurocientista norte-americano David Eagleman (autor do recente Incógnito, Lua de Papel, 2022) elogiou-o: «Escrita bela e visões sublimes que vão fazer explodir a sua mente como num fogo de artificio.»

A carreira científica de Barrett não era previsível. A sua família pertencia à classe média baixa, sendo a mãe uma secretária que pretendia que a filha aprendesse secretariado, ao passo que o padrasto só queria que procurasse um emprego no final do secundário. Lisa tornou-se a primeira pessoa da sua família a fazer estudos universitários, ao concluir uma licenciatura em Psicologia na Universidade de Toronto. Depois iniciou a doutoramento em Psicologia Clínica na Universidade de Waterloo, com o fim de dar consultas nessa área. Enveredou, porém, pela carreira de investigação, por ter tentado experiências simples de psicologia, distribuindo inquéritos, e ter falhado vezes seguidas na obtenção dos resultados previstos. Os resultados consistentes que obteve levaram-na a surpreendentes descobertas sobre emoções, como tristeza e alegria. Não só se doutorou, como, depois de algumas estadas noutras universidades, se tornou uma especialista mundial em emoções. É autora da «teoria das emoções construídas», segundo a qual as emoções não estão inscritas no nosso cérebro, sendo antes previsões ou construções que o nosso cérebro faz, em cada circunstância particular, de acordo com a nossa experiência. As emoções não são universais: diferentes experiências em diferentes culturas conduzem a emoções diferentes.

A meia-lição, a abrir, intitula-se «Um cérebro não é para pensar». Explica, numa base evolucionária, que um cérebro serve essencialmente para regular a eficiência energética de um organismo: controla a água, o sal, a glicose, etc., de modo a manter um bom metabolismo. A Lição n.º 1 intitula-se «Temos um cérebro (e não três)». A autora recusa a ideia muito difundida de que temos três sistemas no cérebro: um «cérebro de lagarto», um cérebro emocional e um cérebro racional. Esta teoria, transmitida nos Dragões de Éden de Carl Sagan, está  errada. Temos, por isso, de ultrapassar a ideia de Platão de que as nossas acções resultam de um jogo de instinto, emoção e razão. A Lição n.º 2 é «O nosso cérebro é uma rede». De facto, o nosso cérebro é um conjunto de partes que funcionam em conjunto: tem 100 mil milhões de neurónios ligados. Não se trata de uma mera metáfora, mas sim da melhor descrição científica do cérebro, um órgão cuja estrutura permite redundâncias.  Nesta lição aprendi que «um cérebro não armazena memórias como ficheiro num computador. Reconstrói-as a pedido com electricidade e químicos em remoinho». As memórias não se recordam: montam-se de cada vez que é preciso. A Lição n.º 3 intitula-se «Os pequenos cérebros ligam-se ao seu mundo. O Homo sapiens tem um cérebro que, em boa parte, é construído cá fora, até cerca dos 20 anos, através de cuidadores que o «afinam» e «desbastam». A autora recorda a história dos órfãos da Roménia que definharam por falta de cuidado. A certa altura, ela despe a bata de cientista e faz afirmações políticas: «A pobreza infantil é um colossal desperdício de oportunidade humana». Mais adiante diz que não faz sentido distinguir entre o inato e o adquirido: «Temos o tipo de inatismo que requer aquisições». A Lição n.º 4 é: «O nosso cérebro prevê (quase) tudo o que fazemos», quer dizer, os cérebros fazem previsões a partir de experiências passadas. Prevemos o que vai acontecer, com base no que já aconteceu. Podemos melhorar as nossas previsões e, por isso, somos responsáveis pelo que fazemos: «As nossas acções de hoje tornam-se as precisões do nosso cérebro para amanhã e essas previsões provocam automaticamente as nossas acções futuras».

A Lição n.º 5 intitula-se: «O nosso cérebro trabalha secretamente com outros cérebros», o que significa que somos seres sociais. Há toda a vantagem de termos os nossos cérebros ligados: «A melhor coisa para o nosso sistema nervoso é outro ser humano. A pior coisa para o nosso sistema nervoso é também outro ser humano.» Segue-se a Lição n.º 6 : «Os cérebros produzem mais do que um tipo de mente», isto é, somos todos diferentes: «Um cérebro humano específico num corpo específico, educado e ligado numa cultura específica, produzirá um tipo específico de mente». Finalmente, vem a Lição n.º 7: «Os nossos cérebros podem criar realidade.» Há uma realidade social que não deixa de ser real por ter sido criada por nós: «Participamos activa e voluntariamente neste mundo inventado todos os dias. Para nós, é real. É tão real como o nosso próprio nome, o qual, já agora, também foi inventado por pessoas». No epílogo do livro (que tem um conjunto de notas no final), a autora escreve: «O nosso tipo de cérebro não é o maior do reino animal e não é o melhor em qualquer sentido objectivo. Mas é o nosso. É a fonte das nossas forças e das nossas fraquezas (…) Torna-nos simples, imperfeita e gloriosamente humanos.» Uma bela conclusão de um livro que, lido num ápice, nos deixa a pensar.

sábado, 23 de abril de 2022

NOTÍCIAS DA LILIPUTINELÂNDIA

Há muito tempo, numa terra, Liliput,
vivia um rei de mau feitio, pior semblante;
constava que comia bifes de mamute
e cultivava um silêncio exorbitante.
Ele era frio e não tinha sentimentos
de ser humano ou animal corrente.
Vivia, devorado por ressentimentos,
que lhe afectavam a tortuosa mente.
Sonhava só com vinganças e com impérios,
com canhões, aviões, tanques e muitas guerras,
e outros muitos, idênticos despautérios
e tudo quanto uma mente sã emperra!
Não gostava de ninguém, nem de si gostava,
sentia repulsa por tudo o que pulsasse,
por isso, mandar matar não lhe custava,
e fazia-o se alguém o irritasse.
Vivia sozinho, não prezava mulheres,
gostava de cobras, de hienas, de chacais,
bebia o sangue de bichos, às colheres
e, nos actos sexuais, suprimia os ais.
Às vezes, a solidão é má conselheira
e o nosso Liliputine não foi excepção:
sempre que magicava uma baboseira,
apetecia-lhe uma grande transgressão.
Um dia, irritou-o que um vizinho,
de usos e costumes diferentes dos seus,
se recusasse a tê-lo como padrinho
e quisesse acesso a uns mares egeus.
Sendo o Liliputine baixo e não dançarino,
subiu-lhe a maldade toda ao miolo
e logo decidiu o grande bailarino
que o seu vizinho o não tomasse por tolo.
Tendo grande imaginação pra pretextos,
de que necessitava, para mais uma guerra,
enterrou-se num bunker, pondo-se a ler textos
que tanta gente matam e tão pouca enterram.
Invadiu, portanto, o país do seu vizinho,
matou, destruiu, violou e massacrou,
que a ordem era nada ficar inteirinho,
e os que cumpriram, grato, ele os honrou. 
Mas o plano secreto do Liliputine
não era só apoderar-se do vizinho,
dando a esse país nova patine,
tornando-o, por outro lado, mais mansinho.
Não, Liliputine ambicionava bem mais:
não lhe chegava ser monstro muito temido:
soubera de Macbeth, Staline e outros tais,
monstros de um cardápio tão bem servido.
Tinha o seu grande e fantástico projecto:
ser pior do que Macbeth era o seu alvo:
autorizar tudo quanto há de abjecto,
tudo esmagando, nada deixando a salvo!
Foi este o seu desejo: não uma conquista
de território ou de maior riqueza:
o que ele tinha era, de sempre, prevista
a ascensão ao título de rei da torpeza.
Isso, dizem os cronistas de Liliput,
ele o conseguiu, a pretexto de uma guerra:
nas crónicas do reino, não há filho da puta,
que, como ele, esteja na berra!

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 21 de abril de 2022

OS BÁRBAROS ESTÃO À PORTA

No antigo império dos romanos,
quando os bárbaros estavam à porta,
faziam-se contas aos desenganos,
o esplendor imperial, letra morta.

Quando um grande império se desmorona,
o esplendor da queda é grandioso,
mesmo se todo o lixo vem à tona,
em sinistro desastre aparatoso.

Os impérios nascem e também morrem
e, no meio, vivem, tenebrosos:
os impérios, sem vergonha, percorrem

cursos ardilosos e criminosos,
Há, neles, uma luz bela e trágica
que antevê uma ruína mágica!

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Cultura e Cidadania


Informação recebida da Comissão de Cultura, Património, Cidadania e Desporto [CCPCD] do Conselho Geral da Universidade de Coimbra

 A Comissão de Cultura, Património, Cidadania e Desporto [CC
PCD] do Conselho Geral da Universidade de Coimbra convida toda a comunidade académica e coimbrã para o debate sobre «Cultura e Cidadania», que terá lugar no Dia Mundial da Língua Portuguesa (5 de maio, quinta-feira), a partir das 14h30, na Biblioteca Geral da UC (Sala de São Pedro). 

 Nessa tarde, com a ajuda de diversos/as convidados/as (internos/as e externos/as) altamente qualificados/as nas respetivas áreas, serão discutidos publicamente temas tão importantes quanto: o que podemos fazer para valorizar a língua portuguesa e a leitura junto dos nossos jovens? como podemos melhorar a comunicação de ciência? que critérios devemos privilegiar em termos de programação cultural? em que medida cumprimos as nossas obrigações em matéria de igualdade de género e de oportunidades? como melhorar a nossa política de acolhimento, integração e inclusividade? O que falta fazer em todas estas áreas?

A PERIGOSA TENTAÇÃO DOS OBITUÁRIOS

 


Novo texto de Eugénio Lisboa

Ah, como é diferente o obituário em Portugal! Quando, na pátria de Camilo, alguém, ao fim de uma admirável vida de destacada criação, em qualquer pelouro (literatura, música, pintura, ciência, política) morre, não é costume fazer-se, dessa singular personalidade, um balanço equilibrado, objectivo, dando o seu a seu dono, sublinhando-lhe os ganhos, mas não omitindo os deslizes, os momentos menos felizes e, sobretudo, não perdendo de vista o sentido de perspectiva e não dando ao recentemente falecido um exagero de louros, em injusto e ingrato detrimento de outros que laboraram no mesmo terreno, também com inegável galhardia. 

Não, entre nós, o morto mais recente tem direito a TUDO, não ficando nada para mais ninguém morto ou vivo. Igualmente se dizia que o último a falar com Hitler era sempre aquele que ganhava… Tem-se visto, até à náusea, com os falecimentos de Herberto Hélder, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa-Luís, Vasco Pulido Valente, Maria Velho da Costa e, agora, com a grande actriz Eunice Muñoz. Eunice era, fora de qualquer dúvida, uma extraordinária intérprete de teatro e uma pessoa de quem todos gostávamos, pela sua afabilidade, beleza, generosidade e grande sentido de partilha. Tive ocasião de a conhecer pessoalmente, em Moçambique e, depois, em Portugal e fiquei a gostar muito dela, além de muito a admirar. O que me não impede de observar – e isto em nada fere o seu enorme talento de actriz – que Eunice tinha um enorme instinto para as tábuas de Molière, embora não possuísse uma grande cultura nem mesmo uma grande cultura teatral. Isto, que era um facto, não a impedia, repito, de ser quem era, quando subia ao palco. Também o grande actor inglês John Gielgud, considerado um dos maiores do século XX e, por muitos críticos, o maior intérprete de Shakespeare, confessou, com grande humildade, aos noventa anos, que detestava Shakespeare, que o achava aborrecido e muito difícil de compreender; e confessou mais: que ele, Gielgud, era um senhor frívolo e com pouca cultura. Nada disso o impediu de ser quem foi. 

Mas o que aqui me traz hoje não é isso, mas sim o exagero dos obituários ou aquilo a que Eça de Queirós chamava “ a coragem de afirmar”. Mais uma vez, assim que a grande Eunice faleceu, começaram os excessos meridionais de alguns obituários. Dou só um exemplo, o de Diogo Infante, actor que muito admiro, tendo-o já dito por escrito, porque é isso mesmo que penso: é um notabilíssimo actor. Mas Diogo Infante, talvez por ter sido grande amigo, admirador e devedor de Eunice Muñoz, não se ficou por dizer que ela era uma das maiores actrizes de todos os tempos, mas foi ao ponto de dizer que ela foi “a maior” actriz de todos os tempos. Ora, neste domínio – o teatro – apetece-me perguntar como é que ele sabe aquilo que afirma. Tendo ele nascido em 1967, não viu certamente, em palco, grandes actrizes como Lucinda Simões, Palmira Bastos ou mesmo Maria Barroso, que teve, infelizmente, por razões políticas, uma curta vida teatral. Eu tive o privilégio de ter visto, por mais de uma vez, em palco, a grande Palmira Bastos e a grande Maria Barroso (esta, em duas inesquecíveis criações de personagens do teatro de Régio e de Lorca). Infelizmente, nasci demasiado tarde para poder ter visto Lucinda Simões. Pois bem, julgo que a única coisa que me é permitido dizer é que Eunice pertence, de direito, a esta gloriosa constelação. Nela, qual das estrelas brilhou mais, não faço a mais pequena ideia e penso, honestamente, que quem as viu brilhar também não faz. Nem me parece de grande interesse decidi-lo. Como não tem interesse nenhum, mas mesmo nenhum, saber se Eça é maior do que Camilo ou Camilo maior do que Eça.

 Eugénio Lisboa

10 anos de comunicação de ciência em Portugal – reflexão e caminhos

 Texto escrito a convite da Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia de Portugal SciComPT para o Açoriano Oriental, publicado a 6 de abril 2022.

 

 A comunicação da ciência pode ser resumida como atividades, iniciativas e estudos sobre a forma como levamos a ciência a públicos não especialistas na matéria. É uma área de trabalho crescente em Portugal e no Mundo, que é essencial para informar a sociedade, mas também para contribuir para uma educação reflexiva e científica, levando à construção da cultura científica.

Em maio de 2013 organizámos o primeiro congresso deComunicação de Ciência em Portugal, criando um espaço para conhecer quem trabalhava na área e a que atividades se dedicava. Até à data havia apenas alguns grupos locais, essencialmente em Lisboa, e o conhecimento de colegas em congressos internacionais. Por isso, não sabíamos na verdade quantas pessoas poderiam aparecer para apresentar os seus trabalhos e conhecer os dos colegas, mas tínhamos estimado em cerca de 100. Inscreveram-se mais de 200, e esse tornou-se o início de um percurso que terá este ano a sua 10ª edição nos Açores.

Tem sido um prazer e um privilégio acompanhar a comunidade da comunicação da ciência em Portugal através dos trabalhos apresentados e das pessoas que se têm juntado ao longo destes 10 anos. Retiro duas reflexões principais e deixo dois caminhos para o futuro.

Tem sido curioso verificar que a maioria das atividades que existem têm sido essencialmente educativas, na criação de uma cultura científica através da educação formal ou na captação de talentos para carreiras científicas através de um maior conhecimento das áreas disponíveis. Outra constatação é o envolvimento tanto de museus e centros de ciência, como de centros de investigação, faculdades e universidades, que têm investido em gabinetes de comunicação dedicados a aproximarem a ciência que produzem da sociedade em geral e de alguns públicos em particular. Notamos claramente o investimento crescente dos últimos 25 anos, cujos resultados já se fazem sentir pelas respostas ao Eurobarómetro 2021, inquérito que mediu os conhecimentos científicos dos cidadãos da Europa bem como as suas atitudes e opiniões sobre ciência e tecnologia. As pessoas querem ouvir falar cientistas, que sejam os protagonistas a serem capazes de traduzir o conhecimento para grandes audiências. E isso abre caminho para o trabalho dos comunicadores como mediadores e criadores de oportunidades e plataformas para que investigadores possam ter canais de comunicação com as pessoas, e que consigam usar linguagem clara, acessível sem nunca perderem o rigor pelo qual são respeitados e reconhecidos.

Quanto aos caminhos para o futuro, parecem-me claros. É essencial que haja um pensamento estratégico para a comunicação de ciência, que permita garantir o financiamento para a continuidade e crescimento das atividades que ligam a ciência à sociedade. Seria interessante haver concursos que premiariam as propostas mais relevantes e impactantes, o que poderia aumentar os atores envolvidos e o alcance da promoção da ciência.

O outro não podia deixar de ser continuar a fazer os encontros da Rede de Comunicação de Ciência SciComPT. É indispensável que haja este espaço de interligação, partilha de conhecimento, convívio e aprendizagem, que permite à comunidade crescer, melhorar e continuar o trabalho.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

UMA HISTÓRIA DE GUERRA VERDADEIRA

1
Era uma vez uma inglesa,
com um filho, na Inglaterra.
Ora o filho da inglesa
foi chamado para a guerra.

2
Era ele muito novo,
sendo então uma tristeza
ir matar-se pelo povo
o filho da tal inglesa!

3
Nem sequer inda provara
o sabor duma mulher
e nem sequer beijara
doces lábios a arder.

4
Foi e a guerra o levou,
logo no começo dela.
A mãe pra sempre o chorou
um choro que se rebela.

5
E se ela muito chorou
a morte do seu menino, 
nem por isso rejeitou
prevenir iguais destinos.

6
Comprou um belo teatro,
que pudessem frequentar
os que iam, noutro teatro,
a morte experimentar.

7
Pró teatro contratou
dançarinas mui escorreitas:
com empenho lhes rogou
seguissem suas receitas:

8
Aos jovens que iam morrer,
desvelarem lindos seios,
que fizessem acender
um acinte aos seus anseios.

9
As pernas esculturais,
em doce provocação,
aquecendo, naturais,
do instinto, a vocação! 

10
Nos jovens que iam morrer, 
 sem a vida ter provado,
fazerem elas viver
um momento exaltado.

11
O que o seu filho não teve
(provar os frutos da terra)
deu ela, em momento breve, 
a outros mortos na guerra!

Eugénio Lisboa

14 DE ABRIL – DIA MUNDIAL QUÂNTICO

Celebra-se no dia 14 de Abril o “Dia Mundial Quântico” (World Quantum Day).
O Dia Mundial Quântico é uma iniciativa de cientistas dedicados à teoria quântica e espalhados por mais de 60 países em todos os continentes, lançada em 14 de Abril de 2021 sob coordenação do Prof. Yasser Omar do Instituto Superior Técnico, com o intuito de “promover o entendimento público da Ciência e Tecnologia Quânticas”. Os eventos previstos para este ano estão acessíveis no link acima indicado.
A escolha do dia 14 de Abril (4-14 nos EUA e Reino Unido) deve-se ao facto de “4,14” ser um arredondamento dos primeiros dígitos da constante de Planck, h = 4,135667696×1015 (ou h = 0000 000 000 000 004 135667696) electrões-volt por hertz (eV/Hz), em geral expressa (“incorrectamente”) em electrões-volt × segundo (eV s). h é o quantum de energia, E, a dividir pela frequência, fh E/f.
A hipótese dos quanta foi apresentada publicamente, pela primeira vez, no dia 14 de Dezembro de 1900, por Max Planck, na Sociedade Alemã de Física em Berlim. Quando tentava encontrar uma fórmula que descrevesse a chamada “radiação do corpo negro” (objecto ideal que absorve toda a radiação (luz) que sobre ele incide), chegou à conclusão de que a luz era emitida (e absorvida) em quantidades discretas, a que chamou “elementos de energia”, e a que mais tarde Einstein deu o nome de quanta de energia. Cada “elemento de energia” era proporcional à frequência da radiação, f, tendo Planck usado a letra h para representar a constante de proporcionalidade, hoje chamada constante de Planck.
A princípio, a fórmula de Planck foi apenas um palpite, e a ideia de “elemento de energia”, um expediente para chegar à fórmula desejada. Segundo comentou George Gamow, mais tarde, “Planck pensava que a radiação era como manteiga, que embora se pudesse ter em qualquer porção, só se vendia em pacotes.” Foi Einstein que, em 1905, propôs que a energia da radiação era um múltiplo inteiro do quantum de energia, hf.
É intrigante, mas a constante de Planck aparece em tudo quanto é quântico, talvez da maneira mais disruptiva, no artigo de Heisenberg de Julho de 1925, no qual apresenta a primeira versão de uma teoria quântica—“a mecânica das matrizes”—numa fórmula que parecia importante, mas ninguém entendia—a misteriosa equação qp − pq = ih/2π.
Mas deixemos estas considerações sobre a teoria e enumeremos algumas quantidades físicas que assumem o nome de quantum, cujas expressões contêm a constante de Planck e são estranhamente minimalistas e elegantes:
Quantum de luz ou fotão: E hf , em que f é a frequência, em hertz (Hz).
Quantum de resistência eléctrica: RK h/e2 = 25812,80745 ohms, (constante de von Klitzing) associada ao efeito de Hall quântico (resistência na presença de um campo magnético). Ré o padrão de resistência eléctrica.
Quantum de fluxo magnético: Φ0 h/2e. O fluxo magnético gerado por uma corrente eléctrica num anel supercondutor é um múltiplo do quantum de fluxo. O 2e representa os pares de Cooper (dois electrões ligados) que transportam a corrente eléctrica.
Quantum de fluxo magnético (de Dirac): Φ0 h/e. Fluxo magnético no contexto do efeito de Hall quântico (a corrente eléctrica geradora do fluxo é transportada por electrões em níveis de energia separados).
Quantum de condutância eléctrica: G0 = 2e2 /h = 7,74809173×105 siemens. Corresponde ao transporte balístico (sem colisões) de electrões, através de um único átomo de um metal (e.g. ouro); sendo neste caso o transporte de carga feito por dois electrões de spins opostos no mesmo nível de energia.
Quantum universal de condutância para átomos neutros G0 = 1/h. Idêntico ao quantum de condutância eléctrica, mas para átomos neutros (por isso não tem o 2 dos dois electrões e o e2 da carga eléctrica).
Os dois últimos quanta mencionados, os quanta de condutância, estão associados ao transporte quântico à escala nanométrica, em nanociência e nanotecnologia. A esta escala, o transporte de carga e de matéria (átomos) revela a sua natureza quântica através da condutância, que só varia em quantidades discretas (múltiplos ou fracções do quantum de condutância), cujo valor é determinado pela constante de Planck. Esses valores podem ser medidos em dispositivos à escala atómica ou molecular, como fios e transístores feitos com uma única molécula, usando o microscópio de efeito de túnel de varrimento (STM, Scanning Tunnelling Miroscope) e o microscópio de força atómica (AFM, Atomic Force microscope) que têm resolução à escala atómica.
Como dizia Paul Dirac, «Uma lei física tem de ter beleza matemática».

Luís Alcácer

terça-feira, 12 de abril de 2022

NOVIDADES DA GRADIVA

 NOVIDADES E REEDIÇÕES DE ABRIL  |  já disponíveis


Lonesome, n.º 2 - Os Ruffians
Yves Swolfs

€16,50 €14,85


Kansas, Janeiro de 1861.
O Pregador Markham e a sua horda de fanáticos espalham o terror pela fronteira do Missouri. Um cavaleiro anónimo segue no seu encalço.
Das planícies cobertas de neve do Middle West às ruelas sombrias de Nova Iorque, a sua demanda de vingança e de identidade conduzirá o cavaleiro a um confronto de proporções dantescas, no limiar do sobrenatural.

Leia aqui as primeiras páginas.

Veja aqui o booktrailer.

Conheça aqui a restante colecção.

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O Guardiâo, o agente secreto do Vaticano
A Incubadora do Diabo

François Boucq , Yves Sente

€16,50 €14,85

 

Quem são os caçadores de nazis que seguem na peugada de Vince? Quem são os verdadeiros dirigentes da «Ordem da Renovação do Templo»? Quem é esse irmão gémeo, supostamente morto, reaparecido nas fileiras dos seus inimigos? Tudo questões a que o terceiro guardião terá de dar resposta, no inferno húmido do mangal mexicano.

Leia aqui as primeiras páginas.

Conheça aqui a restante colecção.


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Comboio na Duna
Silvério Manata

€16,50 
€14,85


Livro vencedor do Prémio Literário João Gaspar Simões.

Comboio na Duna tem como cenário o último quartel do séc. XIX de uma pequena vila da região da Gândara, que serviu também de pano de fundo à ficção de Carlos de Oliveira.

Na esteira do entusiasmo regenerador que rasgou o país de estradas e caminhos de ferro, também ali o comboio, de investimento privado, sulcou o litoral gandarês, chegando aos palheiros dos pescadores da arte xávega. Assumindo-se como a solução para o problema económico, social e político daquelas areolas esquecidas, o comboio, que transportaria o peixe e o moliço da Ria, haveria de as arrancar ao isolamento. As vozes neste romance dão conta das peripécias do «cavalo a vapor» pintando simultaneamente os quadros rurais da época que, por sua vez, se vão encaixando no enredo.


Conheça aqui a restante obras« do autor.
 

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E NOVAS REEDIÇÕES  |  já à venda

Plácidos Domingos
Bill Watterson

€21,20
 €19,35 


Uma colectânea de histórias clássica protagonizada pelo indisciplinado Calvin e pelo seu tigre de estimação Hobbes que ganha vida de forma encantadora.

Repleta de tiras de domingo de página inteira da autoria de Bill Watterson, esta colectânea certamente agradará a leitores veteranos mas também aqueles que se iniciam na leitura de uma das mais geniais criações da história do cartoon.

Toda a obra do autor disponível aqui. 

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E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...