Novo poema de Eugénio Lisboa:
BALANÇO FINALsegunda-feira, 25 de abril de 2022
BALANÇO FINAL
Salgueiro Maia
Lutar, buscar, achar
E não aproveitar,
Esse foi o destino
Deste breve peregrino.
Corajoso e puro,
Soube tornar-se obscuro,
Recusando as luzes
E suportando as cruzes.
Ousado e discreto,
Das glórias desafecto,
Retirou-se da vida,
Com a vida cumprida.
Esconder a virtude,
Que honrosa plenitude!
Eugénio Lisboa
domingo, 24 de abril de 2022
MOONSHOT
Meu artigo no As Artes entre as Letras:
O termo inglês Moonshot significa literalmente o envio de uma nave à
Lua, mas em sentido figurado é um plano ou projecto, em geral de base
tecnológica, para fazer algo quase impossível. A palavra teve origem no
discurso que o presidente norte-americano John Kennedy proferiu a 12 de
Setembro de 1962 no estádio da Universidade Rice em Houston, no Texas: «Nós
escolhemos ir para a Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas
são fáceis, mas porque elas são difíceis; porque esse objectivo servirá para
organizar e medir o melhor das nossas energias e habilidades, porque estamos
dispostos a aceitar o desafio, estamos
dispostos a não o adiar e temos a intenção de o vencer, tal como aos outros». O
certo é que o objectivo de viajar à Lua ainda nessa década se cumpriu: em 21 de
Julho de 1969 Neil Armstrong punha pela primeira vez os pés em solo lunar, coroando
uma excitante corrida espacial.
Moonshot é o título de um
livro que acaba de ser publicado em tradução portuguesa com o título Como Fazer
o Impossível. O subtítulo A corrida contra o tempo para criar a vacina
contra a Covid-19 elucida que, em vez da corrida espacial, se trata da
corrida às vacinas revolucionárias, baseadas no genoma, que ajudaram na
resolução da pandemia de COVID19, que parece aproximar-se do fim. É seu autor Albert
Bourla, presidente e CEO da Pfizer, a grande companhia farmacêutica norte-americana
que fez uma aliança ganhadora com uma start-up alemã, a BioNTech. A vacina
conjunta – a mais rápida de sempre –
mostrou ter uma eficácia de mais de 90%.
Bourla nasceu um ano antes do discurso de Kennedy (tem hoje 60 anos), em Tessalónica,
na Grécia, sendo descendente de judeus sefarditas. Foi em Tessalónica (ou
Salonica) que morreu no século XVI o médico judeu português Amato Lusitano. No
livro, o autor diz que os seus antepassados foram expulsos de Espanha no tempo
dos Reis Católicos. Os pais de Bourla sobreviveram ao Holocausto (foram 2000
dos 50 000 judeus tessalonicenses que o conseguiram), ao contrário de
outros membros da família. A sua mãe escapou a um pelotão de fuzilamento alemão,
por poucos minutos, porque um cunhado não-judeu subornou um oficial nazi. Os
pais conheceram-se e casaram anos depois da Segunda Guerra Mundial
O CEO da Pfizer - a empresa que faz o Centrum e do Viagra - concluiu um
doutoramento em Medicina Veterinária na Universidade Aristóteles, em Tessalónica,
em 1985. Ingressou no ramo grego da empresa em 1993 e emigrou para os Estados
Unidos em 1991. Tornou-se chefe de operações
em 2018, assegurando a supervisão de todos os processos de desenvolvimento, fabrico e venda de medicamentos e vacinas. No
ano seguinte foi designado CEO. Ocupado como estava na reorganização da empresa,
não fazia na altura ideia de que lhe viria a cair em cima a pandemia de Covid-19,
cujos primeiros casos ocorreram na China em finais de 2019 e que foi declarada pandemia
pela OMS em 11 de Março de 2020.
O livro, escrito no Verão de 2021, conta a corrida à vacina desde as primeiras
notícias, que o apanharam no Fórum de Davos. No avião de regresso anotou as suas
prioridades: assegurar a segurança e o bem estar dos funcionários, fornecer aos
hospitais os medicamentos críticos e procurar uma solução. Colocou em primeiro
lugar (com três exclamações) vacinas e em segundo lugar medicamentos. Numa
avaliação rápida, as soluções mais promissoras eram as vacinas baseadas em ARN modificado,
em que não se introduzia o vírus ou partes dele no organismo, mas antes se comunicava
uma mensagem para a nossa maquinaria molecular fabricar uma proteína do vírus.
A Pfizer já tinha, antes da Covid-19, um acordo de colaboração com a BioNTech,
sedeada em Mainz, na Alemanha, uma empresa criada por um casal turco-alemão, Özlem
Türeci e Ugur Sahin, que trabalhava em soluções para o cancro. Bourla não os conhecia pessoalmente, mas a primeira conversa
telefónica com Sahin correu muito bem: houve confiança mútua, o que poderá
parecer estranho por estar de um lado um judeu grego, extrovertido, e do outro lado um muçulmano turcos,
introvertido. O acordo foi de 50-50 nas
despesas e lucros, mas só se houvesse êxito. A Pfizer adiantava o financiamento
e incorporava um eventual prejuízo. A
solução inovadora vinha do casal turco, com base numa ideia de uma cientista
húngara emigrada para os Estados Unidos (há um livro da autoria de Joe Miller
em colaboração com os cientistas turcos: A Vacina. A inovação de uma era no
combate à Covid-19, Actual, 2021).
Moonshot lê-se bastante bem.
Como anuncia a capa é a «história contada por quem tomou as decisões». E houve
decisões difíceis, por exemplo logo no inicio entre duas técnicas, das quais
uma prometia mais, mas sobre a qual havia menos dados. Bourla arriscou ao escolhê-la.
Há momentos do livro que parecem de um filme de suspense como a cena da reunião
de topo da Pfizer em que foram revelados
os resultados da fase 3 dos testes. A eficácia da vacina era de 95,6%, um resultado
absolutamente inesperado (o objectivo era apenas 60%). A emoção instalou-se.
Até dois seguranças que estavam a assistir à reunião começaram a chorar sem
perceberem bem o que se passava. O comunicado da Pfizer no dia seguinte correu
o mundo, alimentando a esperança. Passados nove meses desde o início da
pandemia era vacinada a primeira pessoa, no Reino Unido. E, passados nove dias,
a FDA americana concedia autorização de uso da vacina.
Bourla faz-nos entrar nos meandros não só da ciência e da tecnologia, como
da economia e da política: narra o telefonema de parabéns do vice-presidente
Mike Spence (o presidente Donald Trump nunca lhe telefonou, por julgar que ele
tinha atrasado o anúncio da vacina para depois da eleição) e a visita a uma fábrica
da Pfizer do novo presidente, Joe Biden. E conta os seus encontros com Ursula von
der Leyen e outros líderes.
O autor defende a propriedade intelectual, pelo que o livro é polémico para
os defensores da quebra da protecção dessa propriedade. Mas é um documento
muito interessante sobre o mundo das saúde, dos negócios e da política mundial,
em que, naturalmente, um executivo valoriza o seu papel na corrida que ganhou.
Li-o a correr de uma ponta a outra.
AZUL E VERDE
Meu artigo saído nodo no novo projecto «Azul» do «Público» (na imagem, quadro de C. Monet):
O azul e o verde são formas de luz visível que apenas diferem no
comprimento de onda: o azul está entre os 440 e os 495 nanómetros (um nanómetro
é a milionésima parte do milímetro), ao passo que o verde está entre os 495 e
os 570 nanómetros. Maior comprimento de onda significa menos energia. Para os
nossos olhos, as cores primárias são o azul, o verde e o vermelho, por dispormos
de três tipos de sensores adequados a essas cores: combinando-as conseguimos
obter todas as outras cores. Vemos o azul, o verde e o vermelho porque os
nossos olhos se desenvolveram, num longo percurso de evolução natural, para
captar ao máximo a luz que o Sol emite, que inclui todas as cores do arco-íris
do violeta ao vermelho (foi Newton quem descobriu, no século XVII, que a junção
de todas elas dá o branco). Somos o resultado da nossa circunstância cósmica: se
o nosso planeta estivesse perto de uma estrela mais fria do que o Sol, uma
estrela que tivesse um pico de luz infravermelha, os nossos órgãos de visão captariam
bem esta forma de luz. E conseguiríamos ver de noite...
E, apesar de o azul e o verde estarem uma ao lado da outra no arco-íris
(pela sua proximidade, nalgumas línguas não são distinguidas) há uma enorme
diferença cultural entre o azul e o verde. O azul está ligado à paz, à ordem, à
harmonia: não é por acaso que está nas bandeiras da União Europeia e das Nações
Unidas. É, em todo o mundo, a cor preferida pela maioria das pessoas (assim o
dizem 40-50% dos respondentes a repetidos inquéritos em numerosos países), pelo
que não é de admirar o seu uso generalizado no vestuário, tanto masculino como
feminino. Por seu lado, o verde está ligado à Natureza, à vida, à saúde, à
juventude e à esperança: é, naturalmente, a cor dos movimentos e dos partidos
ecologistas e, por convenção, a cor usada na sinalização para autorizar a
passagem. O verde é a segunda cor na apreciação popular (15-20% das pessoas preferem-na).
A acreditar nesses inquéritos, azul e verde dispõem de uma maioria absoluta.
No entanto, nem sempre foi assim. Os gregos antigos eram praticamente
«cegas» ao azul e ao verde, no sentido em que não descrevem essas cores nos
escritos que chegaram até nós. O léxico grego para designar cores é escasso e
impreciso, nem sequer têm termos para essas duas cores. Quem chama a atenção
para esse facto é o historiador francês Michel Pastoureau, autor de uma série
de livros que apresentam a história cultural das várias cores (publicados entre
nós pela Orfeu Negro, em edições com o texto impresso em cada cor). Tal atraso
na recepção do azul e do verde (o verde em menor escala) deveu-se à dificuldade
de produzir e fixar essas cores. Escreve Pastoureau: o azul e o verde são «cores
que o ser humano reproduziu, fabricou e dominou tarde e com dificuldade». De
facto, nas pinturas rupestres pré-históricas encontramos vermelhos, pretos,
castanhos e ocres, mas não há nem azul nem verde. A ignorância do azul e do
verde prosseguiu na Alta Idade Média. As cores com maior força simbólica eram o
preto, o branco e o vermelho, as cores fundamentais das culturas antigas (ainda
hoje são usadas nas vestes clericais da Igreja Católica, sendo o vermelho a cor
dos cardeais). Porém, a Virgem Maria começou na Idade Média a ser pintada de
azul, que é evidentemente a cor do céu, uma cor que também passou a surgir nos
vitrais dos grandes templos, pela arte dos mestres vidreiros. O azul também passou
a aparecer nas representações heráldicas dos nobres, particularmente em França.
No Renascimento o azul ganhou alento. No tempo de Newton, grandes pintores como
Vermeer usaram-no, retirando-o do lápis-lazúli. No século XVIII, pelo engenho dos
químicos, surgiu o azul-da-prússia. E os tintureiros aperfeiçoaram a aplicação
do índigo. O azul começou então a ser moda no vestuário, tanto nos ricos como nos
pobres (o azul dos ricos mais vivo e o dos pobres mais desbotado). No final do
século XVIII, o herói de Os Sofrimentos do Jovem Werther, o famoso romance
de Goethe (que se opôs à herança newtoniana, propondo uma errada teoria das
cores), vestia um casaco azul. O azul já estava na moda, mas o êxito do livro
reforçou a moda. A Revolução Francesa criou a bandeira tricolor, com o azul a
designar a liberdade. Os soldados de Napoleão vestiam casacas azuis. O século
XX assistiu ao triunfo do azul, manifesto na arte no «período azul» de Picasso e
no comércio nas vendas dos jeans, que já vinham do século anterior.
O verde, também difícil de fabricar como o azul, foi nomeado pelos romanos,
superando os gregos. Consta que Maomé gostava do verde e, talvez por isso,
verde foi a cor do Islão. Os cruzados iam de vermelho e branco enfrentar os «infiéis»,
mas, na Idade Média cristã, o verde passou a ser uma cor cavalheiresca e cortês
ou não fosse ela associada à Primavera e ao amor. Na Idade Moderna o verde
passou a ser uma cor mal amada: a cor do imprevisto, do veneno e do diabo. O
verde foi sempre uma cor ambígua. O lado romântico do verde floresceu no Romantismo,
quando alastrou o culto da Natureza (sem esquecer que o Romantismo tinha um
lado sombrio, negro mesmo). No século XIX o verde ligou-se à higiene e saúde,
ganhando fama de cor calmante. Os pintores, incluindo os impressionistas, experimentaram
dificuldades com o verde por ele ser instável à luz. No século XX, Kandinsky
detestava o verde, que considerava uma cor amorfa e apática. Mas essa cor acabou
por cair no agrado geral. Significa hoje natural, abundando nos logotipos e na
publicidade. Pastoureau diz: «outrora menosprezado e rejeitado, mal-amado, o
verde tornou-se uma cor messiânica. Ele vai salvar o mundo.»
O certo é que a Terra, vista ao longe, é azul. Foi Carl Sagan que lhe
chamou o «ponto azul-claro», quando virou as câmaras da Voyager 1 para a
Terra para tirar uma selfie de nós todos. Tal se deve ao facto de 70% da
superfície terrestre estar coberta por oceanos. Os continentes são, em geral,
verdes, já que a sua superfície está repleta de vegetação e a fotossíntese
impera nas plantas (já dizia Goethe que «todas as ideias são cinzentas, verde é
a frondosa árvore da vida»). Como é que os gregos não viam nem o azul da água nem
o verde das árvores? Nos dias de hoje, num mundo ameaçado pelas alterações climáticas,
o azul simboliza o nosso planeta enquanto o verde simboliza a vida que triunfou
nele, espraiando-se numa extraordinária biodiversidade. Que a associação das duas
cores, no Azul, seja um
meio para não só informar, mas também para promover a salvação da vida no
planeta, que é como quem diz a nossa salvação.
SETE LIÇÕES E MEIA SOBRE O CÉREBRO
Meu último artigo no JL (no jornal houve uma gralha sobre o número de neurónios):
Alguns dos livros de divulgação de ciência com maior êxito são concisos.
Por exemplo, o astrónomo Neil deGrasse Tyson é o autor de Astrofísica para
gente com pressa (Gradiva, 2017) e o físico italiano Carlo Rovelli é o autor de Sete breves lições de Física
(Objectiva, 2015). Tanto uma como o outra obra venderam mais de um milhão de cópias
em dezenas de línguas. Se o êxito de Tyson era previsível, uma vez que o autor
é muito popular, o mesmo não se passou com Rovelli, uma autêntica revelação. Curiosamente
tanto um como outro têm origem num conjunto de artigos, num caso na revista Natural
History e no outro num jornal italiano. O segredo dos dois, para além da
concisão, é uma escrita clara.
Acaba de sair na Temas e Debates/ Círculo de Leitores um português um
titulo parecido com o de Roveli, mas sobre neurociências. O título é Sete lições
e meia sobre o cérebro e a autora é Lisa Feldman Barrett (n. 1963, em Toronto,
Canadá), professora de Psicologia da Universidade de Northeastern, em Boston,
nos Estados Unidos. A sua investigação sobre as emoções colocaram-no no top
1% dos cientistas mais citados na sua área. Este é ao seu segundo livro de
divulgação: o primeiro foi How emotions are made (2017). O neurocientista
norte-americano David Eagleman (autor do recente Incógnito, Lua de
Papel, 2022) elogiou-o: «Escrita bela e visões sublimes que vão fazer explodir
a sua mente como num fogo de artificio.»
A carreira científica de Barrett não era previsível. A sua família pertencia
à classe média baixa, sendo a mãe uma secretária que pretendia que a filha aprendesse
secretariado, ao passo que o padrasto só queria que procurasse um emprego no final
do secundário. Lisa tornou-se a primeira pessoa da sua família a fazer estudos
universitários, ao concluir uma licenciatura em Psicologia na Universidade de Toronto.
Depois iniciou a doutoramento em Psicologia Clínica na Universidade de Waterloo,
com o fim de dar consultas nessa área. Enveredou, porém, pela carreira de investigação,
por ter tentado experiências simples de psicologia, distribuindo inquéritos, e ter
falhado vezes seguidas na obtenção dos resultados previstos. Os resultados
consistentes que obteve levaram-na a surpreendentes descobertas sobre emoções, como
tristeza e alegria. Não só se doutorou, como, depois de algumas estadas noutras
universidades, se tornou uma especialista mundial em emoções. É autora da «teoria
das emoções construídas», segundo a qual as emoções não estão inscritas no
nosso cérebro, sendo antes previsões ou construções que o nosso cérebro faz, em
cada circunstância particular, de acordo com a nossa experiência. As emoções não
são universais: diferentes experiências em diferentes culturas conduzem a emoções
diferentes.
A meia-lição, a abrir, intitula-se «Um cérebro não
é para pensar». Explica, numa base evolucionária, que um cérebro serve
essencialmente para regular a eficiência energética de um organismo: controla a
água, o sal, a glicose, etc., de modo a manter um bom metabolismo. A Lição n.º
1 intitula-se «Temos um cérebro (e não três)». A autora recusa a ideia muito difundida
de que temos três sistemas no cérebro: um «cérebro de lagarto», um cérebro
emocional e um cérebro racional. Esta teoria, transmitida nos Dragões de Éden
de Carl Sagan, está errada. Temos,
por isso, de ultrapassar a ideia de Platão de que as nossas acções resultam de
um jogo de instinto, emoção e razão. A Lição n.º 2 é «O nosso cérebro é uma rede».
De facto, o nosso cérebro é um conjunto de partes que funcionam em conjunto:
tem 100 mil milhões de neurónios ligados. Não se trata de uma mera metáfora,
mas sim da melhor descrição científica do cérebro, um órgão cuja estrutura permite
redundâncias. Nesta lição aprendi que «um
cérebro não armazena memórias como ficheiro num computador. Reconstrói-as a pedido
com electricidade e químicos em remoinho». As memórias não se recordam: montam-se
de cada vez que é preciso. A Lição n.º 3 intitula-se «Os pequenos cérebros
ligam-se ao seu mundo. O Homo sapiens tem um cérebro que, em boa parte,
é construído cá fora, até cerca dos 20 anos, através de cuidadores que o «afinam»
e «desbastam». A autora recorda a história dos órfãos da Roménia que definharam
por falta de cuidado. A certa altura, ela despe a bata de cientista e faz
afirmações políticas: «A pobreza infantil é um colossal desperdício de oportunidade
humana». Mais adiante diz que não faz sentido distinguir entre o inato e o adquirido:
«Temos o tipo de inatismo que requer aquisições». A Lição n.º 4 é: «O nosso cérebro
prevê (quase) tudo o que fazemos», quer dizer, os cérebros fazem previsões a
partir de experiências passadas. Prevemos o que vai acontecer, com base no que já
aconteceu. Podemos melhorar as nossas previsões e, por isso, somos responsáveis
pelo que fazemos: «As nossas acções de hoje tornam-se as precisões do nosso
cérebro para amanhã e essas previsões provocam automaticamente as nossas acções
futuras».
A Lição n.º 5 intitula-se: «O nosso cérebro trabalha
secretamente com outros cérebros», o que significa que somos seres sociais. Há toda
a vantagem de termos os nossos cérebros ligados: «A melhor coisa para o nosso
sistema nervoso é outro ser humano. A pior coisa para o nosso sistema nervoso é
também outro ser humano.» Segue-se a Lição n.º 6 : «Os cérebros produzem mais
do que um tipo de mente», isto é, somos todos diferentes: «Um cérebro humano específico
num corpo específico, educado e ligado numa cultura específica, produzirá um
tipo específico de mente». Finalmente, vem a Lição n.º 7: «Os nossos cérebros podem
criar realidade.» Há uma realidade social que não deixa de ser real por ter
sido criada por nós: «Participamos activa e voluntariamente neste mundo inventado
todos os dias. Para nós, é real. É tão real como o nosso próprio nome, o qual,
já agora, também foi inventado por pessoas». No epílogo do livro (que tem um
conjunto de notas no final), a autora escreve: «O nosso tipo de cérebro não é o
maior do reino animal e não é o melhor em qualquer sentido objectivo. Mas é o
nosso. É a fonte das nossas forças e das nossas fraquezas (…) Torna-nos simples,
imperfeita e gloriosamente humanos.» Uma bela conclusão de um livro que, lido
num ápice, nos deixa a pensar.
sábado, 23 de abril de 2022
NOTÍCIAS DA LILIPUTINELÂNDIA
quinta-feira, 21 de abril de 2022
OS BÁRBAROS ESTÃO À PORTA
No antigo império dos romanos,
quando os bárbaros estavam à porta,
faziam-se contas aos desenganos,
o esplendor imperial, letra morta.
Quando um grande império se desmorona,
o esplendor da queda é grandioso,
mesmo se todo o lixo vem à tona,
em sinistro desastre aparatoso.
Os impérios nascem e também morrem
e, no meio, vivem, tenebrosos:
os impérios, sem vergonha, percorrem
cursos ardilosos e criminosos,
Há, neles, uma luz bela e trágica
que antevê uma ruína mágica!
Eugénio Lisboa
terça-feira, 19 de abril de 2022
segunda-feira, 18 de abril de 2022
Cultura e Cidadania
A Comissão de Cultura, Património, Cidadania e Desporto [CC
PCD] do Conselho Geral da Universidade de Coimbra convida toda a comunidade académica e coimbrã para o debate sobre «Cultura e Cidadania», que terá lugar no Dia Mundial da Língua Portuguesa (5 de maio, quinta-feira), a partir das 14h30, na Biblioteca Geral da UC (Sala de São Pedro).
Nessa tarde, com a ajuda de diversos/as convidados/as (internos/as e externos/as) altamente qualificados/as nas respetivas áreas, serão discutidos publicamente temas tão importantes quanto: o que podemos fazer para valorizar a língua portuguesa e a leitura junto dos nossos jovens? como podemos melhorar a comunicação de ciência? que critérios devemos privilegiar em termos de programação cultural? em que medida cumprimos as nossas obrigações em matéria de igualdade de género e de oportunidades? como melhorar a nossa política de acolhimento, integração e inclusividade? O que falta fazer em todas estas áreas?
A PERIGOSA TENTAÇÃO DOS OBITUÁRIOS
Novo texto de Eugénio Lisboa
Ah, como é diferente o obituário em Portugal! Quando, na pátria de Camilo, alguém, ao fim de uma admirável vida de destacada criação, em qualquer pelouro (literatura, música, pintura, ciência, política) morre, não é costume fazer-se, dessa singular personalidade, um balanço equilibrado, objectivo, dando o seu a seu dono, sublinhando-lhe os ganhos, mas não omitindo os deslizes, os momentos menos felizes e, sobretudo, não perdendo de vista o sentido de perspectiva e não dando ao recentemente falecido um exagero de louros, em injusto e ingrato detrimento de outros que laboraram no mesmo terreno, também com inegável galhardia.
Não, entre nós, o morto mais recente tem direito a TUDO, não ficando nada para mais ninguém morto ou vivo. Igualmente se dizia que o último a falar com Hitler era sempre aquele que ganhava… Tem-se visto, até à náusea, com os falecimentos de Herberto Hélder, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa-Luís, Vasco Pulido Valente, Maria Velho da Costa e, agora, com a grande actriz Eunice Muñoz. Eunice era, fora de qualquer dúvida, uma extraordinária intérprete de teatro e uma pessoa de quem todos gostávamos, pela sua afabilidade, beleza, generosidade e grande sentido de partilha. Tive ocasião de a conhecer pessoalmente, em Moçambique e, depois, em Portugal e fiquei a gostar muito dela, além de muito a admirar. O que me não impede de observar – e isto em nada fere o seu enorme talento de actriz – que Eunice tinha um enorme instinto para as tábuas de Molière, embora não possuísse uma grande cultura nem mesmo uma grande cultura teatral. Isto, que era um facto, não a impedia, repito, de ser quem era, quando subia ao palco. Também o grande actor inglês John Gielgud, considerado um dos maiores do século XX e, por muitos críticos, o maior intérprete de Shakespeare, confessou, com grande humildade, aos noventa anos, que detestava Shakespeare, que o achava aborrecido e muito difícil de compreender; e confessou mais: que ele, Gielgud, era um senhor frívolo e com pouca cultura. Nada disso o impediu de ser quem foi.
Mas o que aqui me traz hoje não é isso, mas sim o exagero dos obituários ou aquilo a que Eça de Queirós chamava “ a coragem de afirmar”. Mais uma vez, assim que a grande Eunice faleceu, começaram os excessos meridionais de alguns obituários. Dou só um exemplo, o de Diogo Infante, actor que muito admiro, tendo-o já dito por escrito, porque é isso mesmo que penso: é um notabilíssimo actor. Mas Diogo Infante, talvez por ter sido grande amigo, admirador e devedor de Eunice Muñoz, não se ficou por dizer que ela era uma das maiores actrizes de todos os tempos, mas foi ao ponto de dizer que ela foi “a maior” actriz de todos os tempos. Ora, neste domínio – o teatro – apetece-me perguntar como é que ele sabe aquilo que afirma. Tendo ele nascido em 1967, não viu certamente, em palco, grandes actrizes como Lucinda Simões, Palmira Bastos ou mesmo Maria Barroso, que teve, infelizmente, por razões políticas, uma curta vida teatral. Eu tive o privilégio de ter visto, por mais de uma vez, em palco, a grande Palmira Bastos e a grande Maria Barroso (esta, em duas inesquecíveis criações de personagens do teatro de Régio e de Lorca). Infelizmente, nasci demasiado tarde para poder ter visto Lucinda Simões. Pois bem, julgo que a única coisa que me é permitido dizer é que Eunice pertence, de direito, a esta gloriosa constelação. Nela, qual das estrelas brilhou mais, não faço a mais pequena ideia e penso, honestamente, que quem as viu brilhar também não faz. Nem me parece de grande interesse decidi-lo. Como não tem interesse nenhum, mas mesmo nenhum, saber se Eça é maior do que Camilo ou Camilo maior do que Eça.
Eugénio Lisboa
10 anos de comunicação de ciência em Portugal – reflexão e caminhos
Texto escrito a convite da Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia de Portugal SciComPT para o Açoriano Oriental, publicado a 6 de abril 2022.
Em maio de 2013 organizámos o primeiro congresso deComunicação de Ciência em Portugal, criando um espaço para conhecer quem trabalhava na área e a que atividades se dedicava. Até à data havia apenas alguns grupos locais, essencialmente em Lisboa, e o conhecimento de colegas em congressos internacionais. Por isso, não sabíamos na verdade quantas pessoas poderiam aparecer para apresentar os seus trabalhos e conhecer os dos colegas, mas tínhamos estimado em cerca de 100. Inscreveram-se mais de 200, e esse tornou-se o início de um percurso que terá este ano a sua 10ª edição nos Açores.
Tem sido um prazer e um privilégio acompanhar a comunidade da comunicação da ciência em Portugal através dos trabalhos apresentados e das pessoas que se têm juntado ao longo destes 10 anos. Retiro duas reflexões principais e deixo dois caminhos para o futuro.
Tem sido curioso verificar que a maioria das atividades que existem têm sido essencialmente educativas, na criação de uma cultura científica através da educação formal ou na captação de talentos para carreiras científicas através de um maior conhecimento das áreas disponíveis. Outra constatação é o envolvimento tanto de museus e centros de ciência, como de centros de investigação, faculdades e universidades, que têm investido em gabinetes de comunicação dedicados a aproximarem a ciência que produzem da sociedade em geral e de alguns públicos em particular. Notamos claramente o investimento crescente dos últimos 25 anos, cujos resultados já se fazem sentir pelas respostas ao Eurobarómetro 2021, inquérito que mediu os conhecimentos científicos dos cidadãos da Europa bem como as suas atitudes e opiniões sobre ciência e tecnologia. As pessoas querem ouvir falar cientistas, que sejam os protagonistas a serem capazes de traduzir o conhecimento para grandes audiências. E isso abre caminho para o trabalho dos comunicadores como mediadores e criadores de oportunidades e plataformas para que investigadores possam ter canais de comunicação com as pessoas, e que consigam usar linguagem clara, acessível sem nunca perderem o rigor pelo qual são respeitados e reconhecidos.
Quanto aos caminhos para o futuro, parecem-me claros. É essencial que haja um pensamento estratégico para a comunicação de ciência, que permita garantir o financiamento para a continuidade e crescimento das atividades que ligam a ciência à sociedade. Seria interessante haver concursos que premiariam as propostas mais relevantes e impactantes, o que poderia aumentar os atores envolvidos e o alcance da promoção da ciência.
O outro não podia deixar de ser continuar a fazer os encontros da Rede de Comunicação de Ciência SciComPT. É indispensável que haja este espaço de interligação, partilha de conhecimento, convívio e aprendizagem, que permite à comunidade crescer, melhorar e continuar o trabalho.
quinta-feira, 14 de abril de 2022
UMA HISTÓRIA DE GUERRA VERDADEIRA
Era uma vez uma inglesa,
com um filho, na Inglaterra.
Ora o filho da inglesa
foi chamado para a guerra.
2
Era ele muito novo,
sendo então uma tristeza
ir matar-se pelo povo
o filho da tal inglesa!
3
Nem sequer inda provara
o sabor duma mulher
e nem sequer beijara
doces lábios a arder.
4
Foi e a guerra o levou,
logo no começo dela.
A mãe pra sempre o chorou
um choro que se rebela.
14 DE ABRIL – DIA MUNDIAL QUÂNTICO
A escolha do dia 14 de Abril (4-14 nos EUA e Reino Unido) deve-se ao facto de “4,14” ser um arredondamento dos primeiros dígitos da constante de Planck, h = 4,135667696×10−15 (ou h = 0, 000 000 000 000 004 135667696) electrões-volt por hertz (eV/Hz), em geral expressa (“incorrectamente”) em electrões-volt × segundo (eV s). h é o quantum de energia, E, a dividir pela frequência, f: h = E/f.
A hipótese dos quanta foi apresentada publicamente, pela primeira vez, no dia 14 de Dezembro de 1900, por Max Planck, na Sociedade Alemã de Física em Berlim. Quando tentava encontrar uma fórmula que descrevesse a chamada “radiação do corpo negro” (objecto ideal que absorve toda a radiação (luz) que sobre ele incide), chegou à conclusão de que a luz era emitida (e absorvida) em quantidades discretas, a que chamou “elementos de energia”, e a que mais tarde Einstein deu o nome de quanta de energia. Cada “elemento de energia” era proporcional à frequência da radiação, f, tendo Planck usado a letra h para representar a constante de proporcionalidade, hoje chamada constante de Planck.
A princípio, a fórmula de Planck foi apenas um palpite, e a ideia de “elemento de energia”, um expediente para chegar à fórmula desejada. Segundo comentou George Gamow, mais tarde, “Planck pensava que a radiação era como manteiga, que embora se pudesse ter em qualquer porção, só se vendia em pacotes.” Foi Einstein que, em 1905, propôs que a energia da radiação era um múltiplo inteiro do quantum de energia, hf.
É intrigante, mas a constante de Planck aparece em tudo quanto é quântico, talvez da maneira mais disruptiva, no artigo de Heisenberg de Julho de 1925, no qual apresenta a primeira versão de uma teoria quântica—“a mecânica das matrizes”—numa fórmula que parecia importante, mas ninguém entendia—a misteriosa equação qp − pq = ih/2π.
Mas deixemos estas considerações sobre a teoria e enumeremos algumas quantidades físicas que assumem o nome de quantum, cujas expressões contêm a constante de Planck e são estranhamente minimalistas e elegantes:
Quantum de luz ou fotão: E = hf , em que f é a frequência, em hertz (Hz).
Quantum de resistência eléctrica: RK = h/e2 = 25812,80745 ohms, (constante de von Klitzing) associada ao efeito de Hall quântico (resistência na presença de um campo magnético). RK é o padrão de resistência eléctrica.
Quantum de fluxo magnético (de Dirac): Φ0 = h/e. Fluxo magnético no contexto do efeito de Hall quântico (a corrente eléctrica geradora do fluxo é transportada por electrões em níveis de energia separados).
Quantum de condutância eléctrica: G0 = 2e2 /h = 7,74809173×10−5 siemens. Corresponde ao transporte balístico (sem colisões) de electrões, através de um único átomo de um metal (e.g. ouro); sendo neste caso o transporte de carga feito por dois electrões de spins opostos no mesmo nível de energia.
Quantum universal de condutância para átomos neutros G0 = 1/h. Idêntico ao quantum de condutância eléctrica, mas para átomos neutros (por isso não tem o 2 dos dois electrões e o e2 da carga eléctrica).
Os dois últimos quanta mencionados, os quanta de condutância, estão associados ao transporte quântico à escala nanométrica, em nanociência e nanotecnologia. A esta escala, o transporte de carga e de matéria (átomos) revela a sua natureza quântica através da condutância, que só varia em quantidades discretas (múltiplos ou fracções do quantum de condutância), cujo valor é determinado pela constante de Planck. Esses valores podem ser medidos em dispositivos à escala atómica ou molecular, como fios e transístores feitos com uma única molécula, usando o microscópio de efeito de túnel de varrimento (STM, Scanning Tunnelling Miroscope) e o microscópio de força atómica (AFM, Atomic Force microscope) que têm resolução à escala atómica.
Como dizia Paul Dirac, «Uma lei física tem de ter beleza matemática».
Luís Alcácer
quarta-feira, 13 de abril de 2022
terça-feira, 12 de abril de 2022
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