sábado, 14 de abril de 2018
Consulta pública do novo diploma regulador do ensino básico e secundário
Na sequência das alterações curriculares em curso para o ensino básico e secundário, designadas, em termos mais gerais por "Autonomia e flexibilidade curricular", o Conselho de Ministros aprovou na generalidade, no passado dia 5 de Abril, o Decreto-Lei que estabelece os princípios organizadores do currículo dos ensinos básico e secundário (acesso).
Ontem esse diploma foi disponibilizado para consulta pública (que se estende até ao final do mês): acesso.
A fundamentação da revisão do Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho foi também disponibilizada: acesso
Assim, o Ministério da Educação solicita a "todas as escolas e seus professores, as famílias, alunos e demais interessados", a fazer uma análise dos documentos, a qual deve ser expressa em formulário (acesso).
O texto que acompanha esta solicitação é a seguinte (acesso):
Ontem esse diploma foi disponibilizado para consulta pública (que se estende até ao final do mês): acesso.
A fundamentação da revisão do Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho foi também disponibilizada: acesso
Assim, o Ministério da Educação solicita a "todas as escolas e seus professores, as famílias, alunos e demais interessados", a fazer uma análise dos documentos, a qual deve ser expressa em formulário (acesso).
O texto que acompanha esta solicitação é a seguinte (acesso):
Sabendo-se que há escolas que têm conseguido contrariar os principais preditores de insucesso, adotando soluções adequadas aos contextos e necessidades específicas dos alunos, é fundamental que todas tenham liberdade para poderem desenvolver o currículo localmente, com autonomia plena para a organização de tempos, de espaços e de formas de ensinar mais eficazes, potenciando melhores aprendizagens para todos. A autonomia e a flexibilidade permitirão soluções de inovação pedagógica, necessárias enquanto instrumentos para o desenvolvimento de aprendizagens de qualidade e que sejam respostas efetivas às necessidades de todos os alunos.
Na assunção de que uma reflexão participada é fundamental para garantir a qualidade que a natureza da matéria exige e que o envolvimento efetivo de todos os parceiros constitui exercício de participação democrática indispensável à construção de compromissos, o Ministério da Educação dá início a um período de consulta pública.
A "narrativa" - 1. "Não é preciso uma escola ou um professor para adquirir conhecimento"
Em texto anterior, reproduzi parte de uma entrevista a Alberto Rojo, um professor de música espanhol que tem analisado de uma maneira muito inteligente e profunda a orientação das políticas de ensino. Nessa análise denuncia o que designa por "gurus da educação", pessoas que, em geral, não têm formação em pedagogia, ensino, aprendizagem ou cuja formação nessas áreas é muito superficial mas que, não obstante, pronunciam-se muito afirmativamente sobre elas.
É frequente esses "gurus" serem académicos ou práticos bem sucedidos e terem ligações a órgãos internacionais com uma forte palavra na orientação do currículo escolar e, em simultâneo, a fundações e a empresas da mesma abrangência. Passeiam-se pelo mundo, têm voz nos meios de comunicação social. O seu discurso é muitíssimo atraente e concertado: todos dizem praticamente o mesmo e do mesmo modo. Mobilizam, de facto, a opinião das pessoas desavisadas.
São infindáveis os exemplos. Encontrei hoje mais um traduzido numa entrevista a alguém que está ligado a uma empresa, sendo a iniciativa é de outra empresa. É a escola, os professores e os alunos ao serviço das empresas.
Transcrevo o que se refere aos professores e também ao conhecimento, os destaques são meus.
É frequente esses "gurus" serem académicos ou práticos bem sucedidos e terem ligações a órgãos internacionais com uma forte palavra na orientação do currículo escolar e, em simultâneo, a fundações e a empresas da mesma abrangência. Passeiam-se pelo mundo, têm voz nos meios de comunicação social. O seu discurso é muitíssimo atraente e concertado: todos dizem praticamente o mesmo e do mesmo modo. Mobilizam, de facto, a opinião das pessoas desavisadas.
São infindáveis os exemplos. Encontrei hoje mais um traduzido numa entrevista a alguém que está ligado a uma empresa, sendo a iniciativa é de outra empresa. É a escola, os professores e os alunos ao serviço das empresas.
Transcrevo o que se refere aos professores e também ao conhecimento, os destaques são meus.
O papel do professor tem de mudar, já não se trata do que ensinamos e como ensinamos é que somos na sala de aula.
Até agora os professores trabalhavam num contexto de escassez de conhecimento. Mas hoje já não é assim. O conhecimento é um produto, é gratuito está em qualquer dispositivo com acesso à internet.
Não é preciso uma escola ou um professor para adquirir conhecimento.
O que é, então, um professor do século XXI? Eu defendo que um bom professor é um instrutor de resultados: instrui os alunos a alcançar os seus melhores resultados. Um bom professor entende o mundo de onde vêm os estudantes e o mundo para o qual os deve preparar. Instrui constantemente os alunos a alcançarem padrões mais elevados.
sexta-feira, 13 de abril de 2018
"Contas de Cabeças: 50 desafios matemáticos do futebol"
Livro sobre matemática da Federação Portuguesa de Futebol, com o apoio da Socdiedade Portuguesa de Matemática:
quinta-feira, 12 de abril de 2018
O QUE É A SOCIOLOGIA?
Com a devida e merecida vénia, transcrevo a seguir um texto do sociólogo Vitor Sérgio Ferreira, que foi primeiramente publicado em vários jornais regionais através do projecto "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".
"É inescapável: todos e todas estamos inserido em redes de
relações sociais que nos influenciam - e que nós também influenciamos - no que
pensamos, no que dizemos e no que fazemos no dia-a-dia. Desde que nascemos, na
família. Na escola, entre colegas e professores. Entre os nossos amigos e os
nossos vizinhos. Associamo-nos a coletivos de pessoas, uns mais formais
(associações, partidos políticos, movimentos sociais, clubes ou igrejas, por
exemplo), outros mais informais (o grupo de amigos do futebol ou com quem se praticam
outras atividades, a banda musical que se forma, as pessoas do facebook ou de outras redes sociais com
quem se interage, ou os amigos que se encontram regulamente). Integramo-nos em
empresas ou em outro tipo organizações de maior ou menor porte para trabalhar,
lidando diretamente com hierarquias e relações profissionais. Experimentamos vidas
em comum, com amigos, conhecidos, namorados, companheiros. Construímos novas
famílias, e várias, ao longo da vida.
Enfim, a vida faz-se sempre uns com os outros, em grupos e
instituições que moldam as pessoas de formas diferenciada e desigual: em função
das condições económicas, sociais e culturais das famílias em que nasceram e em
que vivem; das qualificações que conquistaram e as competências que desenvolvem;
de ser homem, mulher ou transgénero; da idade que se tem e dos papeis que são
chamados a desempenhar ao longo da vida (criança, jovem, adulto ou idoso;
estudante, trabalhador ou reformado, ou filhos, pais ou avós, por exemplo); das
condições laborais e profissões que se tem, as quais conferem às pessoas estatutos
sociais mais ou menos valorizados e favorecidos do ponto de vista social.
Herdamos redes de relações sociais e construímos outras, constantemente, numa
sociedade cada vez mais complexa, fluída, globalizada e imprevisível.
É neste âmbito que, em termos gerais, encontramos a
especificidade da Sociologia enquanto área do saber: a sua vocação é estudar as
relações sociais que se estabelecem
entre as pessoas e que constroem a vida
social, ao nível mais quotidiano dos encontros sociais, ao nível mais
institucional da vida das organizações, ou ao nível mais estrutural das
relações transnacionais e dos problemas globais, para dar alguns exemplos. Interessa
à Sociologia, portanto, descobrir como essas redes de relações sociais mais
localizadas ou mais amplas são construídas, explicar como são organizadas, compreender
que influências têm na vida de cada um, e que impactes têm na vida de todos,
nomeadamente em termos de manutenção ou de transformação social.
Mas nada disto acontece de forma determinista e
pré-determinada. A vida social tem as suas regras e regularidades, mas não tem
leis universais, como tendem a procurar outras ciências. As relações sociais
são sempre contextualizadas nos tempos da História coletiva e das histórias de
vida, bem como nos espaços geográficos e culturais, de fronteiras cada vez mais
fluídas. Dentro dessas matrizes de tempos e espaços, as pessoas vão construindo
umas com as outras (em colaboração), ou umas contras as outras (em conflito),
campos de possibilidades para projetar e desenvolver as suas vidas pessoais e
coletivas.
Acontece que esses campos de possibilidades não são
igualitários na sua «estrutura», ou seja, nas oportunidades que dão e nos constrangimentos
que colocam às pessoas. As relações sociais tendem a ser caracterizadas não
apenas por diferenças marcantes, mas também por desigualdades profundas. Há
quem nasça em condições sociais e económicas mais favorecidas ou mais vulneráveis.
Há quem adquira estatutos sociais conferidores de mais poder para si próprio e
sobre os outros. Estas condições constrangem, desde logo, o espaço de
possibilidades e escolhas de cada indivíduo ou grupo. Daí a sociologia, ao
saber que isso acontece, ao estudar como e por que acontece, também participar frequentemente
com o conhecimento que produz na fundamentação de políticas que favoreçam a
igualdade de oportunidades entre as pessoas.
Considerando a relação de intimidade de toda a gente com o
objeto próprio da Sociologia, a vida social, essa relação tem tanto de fascinante
quando de perigosa no exercício das várias práticas profissionais dos
sociólogos, seja na universidade, seja em muitos outros campos onde estes
praticam o(s) saber(s) sociológico(s). Enquanto seres sociais, todos construímos
juízos de valor e categorias de interpretação da vida em sociedade, as suas
instituições e dinâmicas sociais. No entanto, nem todos estamos habilitados a
fazer sociologia.
O que difere a Sociologia da mera opinião - mesmo que
informada e sofisticada - e lhe confere o estatuto de Ciência, é o facto do conhecimento
que produz ser sempre resultado de um processo de investigação empiricamente
fundamentado. Esse processo, por sua, vez, implica a aplicação sistemática e
controlada de um conjunto de protocolos metodológicos, técnicos e
deontológicos, que orientam a produção, o tratamento e a análise de dados
empíricos de natureza diversa, quantitativa ou qualitativa. É neste sentido
que, muitos de vocês, caros e caras leitores e leitoras, já terão sido
interpelados por sociólogos ou aprendizes de sociologia para preencher um
inquérito por questionário, para responder a uma entrevista ou participar de um
grupo de discussão, ou para serem observados na vossa vida quotidiana, ou
acompanhados em alguma atividade específica.
Os dados que vocês, gentilmente, cedem aos sociólogos quando
colaboram nas nossas pesquisas, é para nós um bem extremamente valioso, na
medida em que só através deles são validadas as hipóteses de explicação e
compreensão da vida social construídas com base no património conceptual
historicamente acumulado no campo da Sociologia. É esta articulação cuidadosa e
eticamente conduzida entre os dados que as pessoas nos facilitam, as teorias
que temos e os métodos que aplicamos, que protege a Sociologia e os
profissionais que a fazem das contaminações ideológicas e posições dogmáticas tão
facilmente (re)produzidos na vida social. Ao invés, toma-as para si própria
como objeto de estudo, desconstruindo e explicando ideias feitas,
generalizações abusivas, universalismos reducionistas ou individualismos
culpabilizantes, e dando a conhecer o mundo social na sua pluralidade,
organicidade e complexidade.
Tal só se consegue fazer com uma sólida formação de base, em
termos teóricos, metodológicos e éticos, a qual deveria começar tão cedo quanto
possível. Apesar de recente, a Sociologia é, hoje em dia, um campo disciplinar
consolidado em Portugal, com uma oferta formativa de qualidade
internacionalmente reconhecida no ensino superior. Tem sido, no entanto, uma
disciplina menosprezada na oferta formativa ao nível do ensino secundário.
Resume-se hoje a uma disciplina de opção no 12º ano de escolaridade, onde os
sociólogos, anacronicamente, continuam a não ser reconhecidos pelas instâncias
oficiais como detentores da habilitação própria para fornecê-la aos estudantes,
facilmente ultrapassados nos concursos de colocação de professores por colegas
de outas áreas.
Ora, numa era em que tende a impor-se o «paradigma da
pós-verdade», a revalorização escolar da Sociologia numa etapa precoce da
trajetória escolar contribuiria, com certeza, para uma formação mais crítica,
reflexiva, inclusiva e cidadã dos jovens estudantes, quando ancorada em
conhecimento cientificamente fundamentado sobre os desafios que lhes vão ser
colocados com maior intensidade pelas sociedades contemporâneas nos seus
percursos de vida."
Vitor Sérgio Ferreira ( Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa)
quarta-feira, 11 de abril de 2018
NOVO NÚMERO DA REVISTA "EUREKA"
Revista Eureka sobre Enseñanza y Divulgación de las Ciencias acaba de publicar su último número en https://revistas.uca.es/index.php/eureka. A continuación le mostramos la tabla de contenidos, después puede visitar nuestro sitio web para consultar los artículos que sean de su interés. A partir de ahora, los nuevos artículos aceptados se publicarán en el Vol 15, nº 3, apareciendo de aquí a entonces en fase de preimpresión. Gracias por mantener el interés en nuestro trabajo, Dr. Jose M. Oliva Martinez Dpto. de Didáctica. Facultad de CC. de la Educación. Univ. de Cádiz josemaria.oliva@uca.es Revista Eureka sobre Enseñanza y Divulgación de las Ciencias 15(2), Abril de 2018 Tabla de contenidos https://revistas.uca.es/index.php/eureka/issue/view/293 Fundamentos y líneas de trabajo -------- La interpretación de datos y pruebas científicas vistas desde los ítems liberados de PISA (2101) Javier Ignacio Muñoz Martínez, Elena Charro Enseñanza de la evolución: fundamentos para el diseño de una propuesta didáctica basada en la modelización y la metacognición sobre los obstáculos epistemológicos (2102) Gastón Pérez, Adrianna Gómez-Galindo, Leonardo Gónzalez-Galli Proyecto CRASH: enseñando cinemática y dinámica en el contexto del análisis pericial de accidentes (2103) Jordi Domènech-Casal, Jesús Gasco, Pere Royo, Santi Vilches Percepción de profesores y estudiantes de 3º ESO sobre el uso de analogías en el estudio de los estados de agregación de la materia (2104) Josefa Rubio Cascales, Gaspar Sánchez Blanco, Maria Victoria Valcárcel Pérez La competencia informacional-digital en la enseñanza y aprendizaje de las ciencias en la educación secundaria obligatoria actual: una revisión teórica (2105) Daniel Valverde-Crespo, Antonio José Pro-Bueno, Joaquín González-Sánchez Modelos mentales de estudiantes de educación secundaria sobre la transformación de la leche en yogur (2106) Verónica Muñoz-Campos, Antonio Joaquín Franco-Mariscal, Ángel Blanco-López Estudio de una salida urbana para el aprendizaje de la geología de bachillerato (2107) Nahia Seijas-Garzón, Maite Morentin-Pascual Experiencias, recursos y otros trabajos -------- Enseñanza y divulgación de la ciencia en la integración universidad-escuela: una experiencia en Brasil (2201) Cássio C. Laranjeiras, Sebastião I.C. Portela, Luiz A. Ribeiro La educación científica hoy -------- Estrategia tecno-didáctica para la solución de problemas de genética en estudiantes de educación a distancia (2301) Fedra Lorena Ortiz Benavides, Carmen Eugenia Piña Lopez Ciencia recreativa -------- Revelando el signo de las cargas eléctricas usando un detector de polaridad entretenido (2401) Francisco Vera Mathias, Jaime Villanueva, Manuel Ortiz Educación científica y sostenibilidad -------- Construyendo la ciudad sostenible en el Grado de Educación Primaria (2501) Jerónimo Torres-Porras, José Carlos Arrebola Formación del profesorado de ciencias -------- Operaciones y destrezas implicadas en la toma de decisiones sobre una problemática energética, identificadas por maestros en formación inicial (2601) Naira Díaz Moreno, Beatriz Crujeiras Pérez, Carolina Martín Gamez, Alicia Fernández Oliveras El cambio en las emociones de maestros en formación inicial hacia el clima de aula en una intervención basada en investigación escolar (2602) Diego Armando Retana Alvarado, María Ángeles De las Heras-Pérez, Bartolomé Vázquez Bernal, Roque Jiménez-Pérez revista.eureka@uca.es
"Uh... não!" ou a noção (pessoal) de privacidade de Zuckerberg
Em virtude do caso "Cambridge Analytica" o criador do "Facebook", Mark Zuckerberg, foi ouvido no Senado Americano. Nessa auscultação há um momento particularmente interessante quando interrogado pelo Senador Dick Durbin:
Senador: "Seria confortável para si partilhar connosco o nome do hotel em que ficou na noite passada?”
Zuckerberg: "Uh... não!"
Senador: "Caso tenha enviado mensagens a alguém durante esta semana, não se importaria de partilhar connosco os nomes dessas pessoas?"
Zuckerberg: “Senador, não. O mais certo é que escolheria não o fazer publicamente aqui.”.
Senador : “Entendo que tudo tem a ver com isto, o direito à privacidade, os limites do seu direito à privacidade e do que está disposto a abdicar dessa privacidade na América moderna.”
"Os novos gurus da educação não são professores"
Reproduzo, de seguida, extractos de uma entrevista recente a Alberto Rojo, de quem já falámos no De Rerum Natura, aqui). A entrevista intitulada Los nuevos gurús educativos no son profesores foi realizada por Ana del Barrio e publicada há dois dias no jornal online El Mundo (aqui).
O domínio e o amor pelo conhecimento. Também o compromisso de estar firmemente convencido de que aquilo que faz é valioso. E o entusiasmo, porque não basta dar a matéria, tem de contagiar os seus alunos com esse gosto(...)
A educação passou a ser um assunto mediático em relação ao qual praticamente todas as pessoas têm opinião, excepto os professores. Está-se a combate um modelo que já não existe(...)
[o populismo pedagógico é a corrente segundo a qual dizemos o que é mais aceitável em vez do que é mais sensato e mais eficaz. Resulta muito bem dizer que na escola as crianças e os jovens têm de ser felizes, mas qual é a tarefa do professor: proporcionar felicidade ou conhecimentos? O objectivo não pode ser proporcionar o bem-estar dos alunos sem os levara a adquirir conhecimentos (...)
[Os novos gurus educativos] normalmente não são professores. A maioria deles conhece o ensino de «ouvir dizer». São esses que nos explicam, a nós que estamos todos os dias na sala de aula, como temos de trabalhar. São pessoas que, na realidade não têm experiência mas que, paradoxalmente, são considerados especialistas.
[Nem todos os especialistas são assim], há pessoas bem preparadas que faz estudos interessantes. Mas a verdade é que a figura do especialista em educação muitas vezes está muito afastado das salas de aula.
[O dogma pedagógico pós-moderno mais nefasto] é a confrontação entre esforço e felicidade. Essa idea, que é muito perigosa, de que esforçar-se supõe um sacrifício inaceitável. Quando, como professores, dizemos ao aluno que, para aprender, é preciso esforçar-se, não queremos que ele sofra. Ao contrário, consideramos que é algo gratificante. Enfrentar um desafio e superá-lo proporciona um desenvolvimento pessoal importante. (...)
O que o governo está a tentar fazer é algo tão absurdo como solucionar o excesso de pegadogismo, que nos conduziu aqui com mais pedagogismo. Em vez de reconhecer que o fundamental é que o professor tenha um amplo domínio da matéria que ensina (...) o governo considera que o principal problema da educação é a formação de professores mas eu não concordo. De facto, somos nós que estamos a impedir que o barco se afunde (...)
Pedem-nos que sejamos grandes comunicadores, esquecendo que se comunica tanto melhor quanto mais se sabe. Uma pessoa com poucos conhecimentos não é um bom comunicador é um charlatão um pregador, mas não é um bom professor (...)
[Os planos de formação de professores das comunidades autónomas incluem 'atenção plena', oficina de cinesiologia,tertúlias dialógicas...] Se a Administração pretende formar o professor com cursos de risoterapia, temos um verdadeiro problema. O que um professor de Música como eu tem de fazer é saber cada vez mais música. Um aluno tem precisa de ter uma certa admiração pelo seu professor.
[Em relação ao 'design thinking', às 'flipped classrooms', às 'learning analytics'...] inovar não é, em si mesmo, nem bom nem mau, depende. Inovar é fazer algo diferente e isso pode ser positivo ou negativo. De todas maneiras, o professor está sempre a inovar. Eu jamais repito uma aula e mudo continuamente de estratégias. O fundamental é que não confundamos inovar con ser bom professor. Esse é o problema. Um professor pode ser um bom profissional, independentemente de a sua metodologia ser mais tradicional ou mais moderna.
[No entanto neste debate nos meios de comunicação social sobre inovação o que se destaca é que o ensino se traduz num monólogo do professor que está junto ao quadro e a criança sentada e aborrecida]. É muito raro hoje que um professor faça isso sem que os alunos sequer possam fazer perguntas. Há muitas possibilidades que se podem utilizar na aula e que se inscrevem na instrução directa, que é uma metodologia (...) Muitas das metodologias que se apresentam como novidade são apenas diferentes maneira de ensinar (...)
[Em relação à substituição dos livros por tablets] não só não temos evidencias de que o seu uso melhore o rendimento académico, como cada vez temos mais evidencias científicas de que prejudicam os alunos. Devemos ser cautelosos antes de implantar uma metodologia(...)
[Sobre as inteligências múltiplas], o próprio Gardner reconheceu que não falou de inteligências mas sim de habilidades, mas isto teria vendido menos livros. Há questões que a ciência já desmentiu (...). Temos uma só inteligência, outra coisa é que termos mais capacidade para umas actividades do que para outras (...)
Quando se baixa o nível, pensando que assim mais alunos vão a alcançar os objectivos, estamos a enganá-los. Os que poderiam chegar mais longe desincentivam-se, [aos que manifestam dificuldades] deve ser prestado todo o apoio de que precisam. Para mim a base da escola pública é que cada aluno desenvolva ao máximo as suas capacidades (...)
[Os alunos que não se esforçam nem querem estudar] são um dos grandes problemas que estão por resolver. O que não podemos fazer é transformar a escola de instituição académica em centro assistencial. É preciso encontrar uma solução para os alunos desligados dos estudos. Uma possibilidade seria estabelecer, o mais cedo possível, itinerários interessantes(...)
[Considero o Global Teacher Prize, que elege o melhor professor do mundo], bastante frívolo, dar prémios aos professores. O prémio não é para o melhor mas para o mais inovador. Voltemos ao que disse antes. O trabalho do professor é diário discreto e silencioso, não necessita aplausos nem grandes galardões, apenas despertar, dia a dia, curiosidade nos alunos (...) Estamos a confundir ensinar com entreter. E não é o mesmo. O melhor é um grande professor, o que não aceito é que seja um modelo a seguir. Defendo a liberdade metodológica e de cátedra (...)
Digo aos meus alunos adolescentes que o maior acto de rebeldia que podem ter é aprender. Porque tornando-se pessoas cultas e formadas vai ser muito mais difícil manipulá-las. Não há nada estimulante para um aluno o ver que aprende e que progride.
terça-feira, 10 de abril de 2018
Rui Vieira Nery, Prémio Universidade de Coimbra 2018
Rui Vieira Nery (n. 1957)
O musicólogo, historiador cultural, professor universitário e gestor cultural foi distinguido com o Prémio com o Prémio Universidade de Coimbra 2018. Eis a lista dos seus livros que constam do catálogo da Universidade de Coimbra. É possível que faltem algumas da sua vasta bibliografia.
Bibliografia disponível nas Bibliotecas da Universidade
de Coimbra
Monografias:
Para a história do
barroco musical português : o código 8942 da BNL. Lisboa : Fundação Calouste
Gulbenkian, 1980.
A música no ciclo da
"Biblioteca Lusitana". Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.
NERY,
Rui Vieira ; CASTRO, Paulo Ferreira de – Histoire de la musique. Traduit par Dominique Trotígnon. Lisboa : Imp. Nacional - Casa da Moeda, imp. 1991. (Synthèses
de la Culture Portugaise). ISBN 9722704486.
NERY,
Rui Vieira ; CASTRO, Paulo Ferreira de – History of music. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 1991. (Synthesis of Portuguese Culture). ISBN 9722704494.
NERY,
Rui Vieira ; CASTRO, Paulo Ferreira de – História da música. Lisboa : Comissariado para a
Europália 91 : Imp. Nacional - Casa da Moeda, imp. 1991. (Sínteses da cultura
portuguesa. Europália 91). ISBN 9722704389 (Obra).
HORA,
Joaquim Simões da, editor ; VAZ, João ; NERY, Rui Vieira – Ciclo de órgão :
(Junho-Outubro 1994). [S.l.] : [ASA], 1994.
NERY,
Rui Vieira ; CASTRO, Paulo Ferreira de – História da música. 2ª ed. Lisboa : Impr.
Nacional-Casa da Moeda, D.L. 1999. (Sínteses da cultura portuguesa. Europália
91). ISBN 9722704389.
Lisboa :
Corda Seca : Público, 2004- (O fado do público). 20 volumes. ISBN 9728179928.
Para uma história do fado. Ed. rev. e aumentada. Lisboa :
Público Comunicação Social : Corda Seca, D.L. 2004. ISBN 9728892322.
Espaço profano e espaço
sagrado na música Luso-Brasileira do século XVIII. [S.l. : s.n., 2006?]. p. 11-27. Separata de "Revista Música", São Paulo, vol. 11,
2006.
Lisboa : CTT - Correios de Portugal, 2012. ISBN
9789728968458.
A history of portuguese
Fado. 1st ed. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 2012. ISBN 9789722720243.
Fados para a República. 1ª ed. Lisboa : Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, 2012. ISBN 9789722720373.
Para uma história do fado. 2ª ed., rev. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 2012. ISBN 9789722720236.
Os sons da República. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa
da Moeda : A Bela e o Monstro, edições, cop. 2015. 150, [15] p. + 1
CD-Áudio. ISBN
9789722723282.
PEREIRA,
Mário ; NERY, Rui Vieira ; VAZ, João - Os seis orgãos da
Basílica de Mafra = The six organs in the Basilica of Mafra. 2nd ed. Lisboa : RTP Edições,
2015. ISBN 9789896830229.
Prefácios / Introduções / Posfácios:
SARMENTO,
Joaquim – Fragmentos. Prefácio de Rui
Vieira Nery. [S.l : s.n.], imp. 1999 (Viseu : Eden Gráfico).
Modinhas, lunduns e
cançonetas : com acompanhamento de Viola e Guitarra Inglesa : (Séculos
XVIII-XIX) = with Guitar and English Guitar accompaniment : (18th and 19th
centuries). Selecção, revisão e
notas de Manuel Morais ; prefácio de Rui Vieira Nery.
[Lisboa] : Imprensa
Nacional - Casa da Moeda, [imp. 2000]. ISBN 9722710109.
BARRETO,
Jorge Lima – Musonautas : entrevistas. Prefácio de Rui Vieira Nery. 1ª ed. Porto : Campo das Letras, 2001. (Campo
da Música ; 6). ISBN 9726104599.
SIMPÓSIO
INTERNACIONAL A GUITARRA PORTUGUESA, ÉVORA, 2001 ; MORAIS, Manuel, coordenador - A guitarra portuguesa : actas do Simpósio Internacional,
Universidade de Évora ... 2001.
Introdução de Rui Vieira Nery. Lisboa : Estar, imp. 2002. (Pensar o
som). ISBN 9728798008.
HALPERN,
Manuel Júdice – O futuro da saudade : o
novo fado e os novos fadistas. Prefácio
de Rui Vieira Nery ; revisão Lídia Freitas. 1ª ed. Lisboa : Dom Quixote, 2004. (Temas de Hoje. Território Pessoal).
ISBN 9722027727.
FERNANDES,
Cristina – Devoção e teatralidade :
as vésperas de João de Sousa Vasconcelos e a prática litúrgico-musical no
Portugal Pombalino. Prefácio
de Rui Vieira Nery. Lisboa : Colibri : Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2005. (Estudos ; 18). ISBN 9727725473.
CARDOSO,
José Maria Pedrosa – O canto da paixão nos
séculos XVI e XVII : a singularidade portuguesa. Prefácio de Rui Vieira Nery.
Coimbra : Imprensa
da Universidade, 2006. (Série Investigação). ISBN 9728704704.
OLIVEIRA,
Maria Manuela Toscano de Barbosa Vaz de – Maneirismo inquieto : os
Responsórios de Semana Santa de Carlo Gesualdo. Prefácio de Rui Vieira Nery e Michel Guiomar. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 2007. (Arte e Artistas).
MACHADO,
Luís – Amália : confidências em
noite de primavera. Prefácio
de Rui Vieira Nery ; posfácio de Eduardo
Lourenço, Carlos do Carmo, Cristina Branco.
1ª ed Lisboa :
Âncora, 2011. (Pessoas). ISBN 9789727803378.
MACHADO,
A. Vítor – Ídolos do fado. Estudo introdutório Rui Vieira
Nery. 2ª ed. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012. ISBN 9789722720557.
PAULINO,
João – O meu sangue é fado. Prefácio Rui Vieira Nery. 1ª ed.
[S.l.] : Todas as Letras, D.L. 2012 ([Lisboa] : Multitipo) (Almas do fado ; 1).
ISBN 9789899778405.
HORA,
Tiago Manuel da – Joaquim Simões da Hora :
intérprete, pedagogo e divulgador. Palavra prévia David Cranmer ; prefácio Rui Vieira Nery. 1ª ed. Lisboa : Edições Colibri :
Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, Universidade Nova de Lisboa,
2015. (Estudos musicológicos ; 14). ISBN 9789896894566.
TRIGO,
Jorge. ; REIS, Luciano – Mulher de sonhos, Anita
Guerreiro cheira a Lisboa. Posfácio Rui Vieira Nery. 1ª ed. Setúbal : Edições
Fénix, 2015. ISBN 9789896672010.
MACHADO,
A. Vítor – Idolos do fado :
biografias, comentários, antologia. Estudo introdutório Rui Vieira
Nery . [S.l.] : A Bela e o Monstro, cop. 2016.
MOITA,
Luís – O fado canção de vencidos
: oito palestras na Emissora Nacional. Prefácio de Rui Vieira Nery.
[S.l.] : A Bela e o
Monstro, cop. 2016.
OLIVEIRA,
João Pedro Paiva de – Teoria analítica da
música no século XX. Prefácio
Rui Vieira Nery. 4ª
ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2016. (Manuais universitários). ISBN
9789723108057.
Armando Neves : um vulto
esquecido do fado. Introdução
e notas de Daniel Gouveia ; prefácio de Rui Vieira Nery. Linda-a-Velha : DG Edições, 2017.
ISBN 9789898661692.
Artigos:
A review of Gerhard
Doderer,Ed. Modinhas Luso-Brasileiras (Lisbon,1984) [Texto policopiado]. Austin :
University of Texas, 1984?.
Contra-Reforma e o
cruzamento dos modelos no Maneirismo musical português.
In Actas dos 3ºs Cursos Internacionais de Verão de Cascais. Organização
Câmara Municipal de Cascais. Vol. 4. Cascais : Câmara Municipal, 1997. p.
91-96. ISBN 9726370477.
A tentação do mito. In Expresso. Revista.
Lisboa, 1999. Nº 1407. p. 40-44.
Os trilhos sinuosos do
criador.
In Notícias do Milénio : 1000-2000. 1999, p. 700-706.
Editor/ Organizador/ Coordenador:
RODRIGUES,
Maria Fernanda Cidrais, editor; MORAIS, Manuel, editor ; NERY, Rui Vieira,
editor – Livro de homenagem a
Macário Santiago Kastner. Lisboa : Fundḁcão Calouste Gulbenkian, 1992. ISBN
9726660041.
NERY,
Rui Vieira, coordenador – A música no Brasil
colonial : [actas] do 1. Colóquio Internacional, Lisboa, 9-11 de Outubro de
2000.
Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, Serviço de Música, 2001. (Estudos
Musicológicos. Série ensaios ; 27). ISBN 9726660769.
LUCAS,
Maria Elisabete, editor ; NERY, Rui Vieira, editor – As músicas
luso-brasileiras no final do Antigo Regime : repertórios, práticas e
representações. 1ª ed. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda : Fundação Calouste
Gulbenkian, 2012. (Estudos musicológicos ; 35). ISBN 9789722720267.
COLÓQUIO
HOMENAGEM A VASCO GRAÇA MOURA, LISBOA, 2014 ; LOURENÇO, Eduardo, comissário ; NERY, Rui Vieira,
coordenador – Colóquio homenagem a
Vasco Graça Moura. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2014. ISBN
9789723115147.
GRILO,
João Mário, editor ; NERY, Rui Vieira, editor – P'ra rir! : cinema no
Grande Auditório. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2015. ISBN 9789898807069.
TAVARES,
Adérito, coordenador ; SARDICA, José Miguel, coordenador ; NERY, Rui Vieira,
coordenador ; GOMES, Luís Nazaré, editor – 50 anos da Academia de
Música de Santa Cecília : a educar desde 1964. Coordenadores Adérito Tavares, José Miguel Sardica, Rui
Vieira Nery ; [editor Luís Nazaré Gomes] ; [créditos fotográficos António Pedro
Ferreira ... et al.]. Lisboa : Althum.com, 2015. ISBN 9789896830762.
Outras Participações:
SACRAMENTO,
Jacinto do [et al.] - Sonatas para tecla do
século XVIII. Transcrito de Janine
Moura, Macário Santiago Kastner e Rui Vieira Nery ; estudo de Macário Santiago
Kastner. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 1982. (Portugaliae
Musica. Série B ; 38).
BARTHÉLEMY,
Maurice – Mozart. tradução Ana Maria Vaz ; revisão musicológica Rui Vieira
Nery. 1ª ed. Lisboa
: Dom Quixote, 1989. (Figuras ; 11). ISBN 9722006908.
KENNEDY,
Michael. ; GASPAR, Carlos - Dicionário Oxford de
música. Tradução Gabriela
Gomes da Cruz e Rui Vieira Nery ; colaboração Carlos Gaspar... [et al.] ;
revisão técnica Rui Vieira Nery e Miguel Sobral Cid.
1ª ed. Lisboa : Dom
Quixote, 1994. (Fora de colecção). Tradução de “The Oxford dictionary of
music”. ISBN
9722011677.
REIS,
Patrícia - Callas. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery. [Lisboa] : A Bela e o Monstro,
D.L. 2013. (Divas ; 1). ISBN 9789898508485.
REIS,
Patrícia - Ella. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery. [Lisboa] : A Bela e o Monstro, D.L. 2013. (Divas ; 2). ISBN 9789898508492.
REIS,
Patrícia - Amália. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery. [Lisboa] : A Bela e o Monstro, D.L. 2013
(Divas ; 3). ISBN 9789898508508.
REIS,
Patrícia - Piaf. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery. [Lisboa] : A Bela e o Monstro, D.L. 2013 (Divas ; 4). ISBN 9789898508515.
REIS,
Patrícia - Aretha. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery. [Lisboa] : A Bela e o Monstro,
D.L. 2013 (Divas ; 5). ISBN 9789898508522
REIS,
Patrícia - Billie. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery. [Lisboa] : A Bela e o Monstro,
D.L. 2013. (Divas ; 6). ISBN 9789898508539.
REIS,
Patrícia - Judy. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery. [Lisboa] : A Bela e o Monstro,
D.L. 2013. (Divas ; 7). ISBN 9789898508546.
REIS,
Patrícia - Marilyn. Selecção musical e notas de Rui Vieira Nery . [Lisboa] : A Bela e o Monstro,
D.L. 2013. (Divas ; 8). ISBN 9789898508553.
[Lisboa] : A Bela e o Monstro, D.L. 2013.
(Divas ; 9). ISBN 9789898508560.
ARAÚJO,
Henrique Gomes de, coordenador – A Sociedade Orpheon
Portuense (1881-2008) : tradição e inovação. Consultor científico Rui Vieira Nery ; coordenação de
Henrique Luís Gomes de Araújo. Porto : Universidade Católica Editora, 2014. ISBN
9789898366726.
Orientador:
NUNES,
Pedro Miguel Oliveira – O dramma per musica nos
papéis verdianos de Nabucco, Rigoletto e Iago. Orientadores Rui Vieira Nery,
Liliana Bizineche-Eisinger.
[Évora : s.n., 2010]. Dissertação de mestrado
em Música (Interpretação - Canto) apresentada ao Departamento de Música da
Universidade de Évora.
Direcção de publicações em série:
Próximo Futuro. Director Rui Vieira Nery.
Lisboa : Fundação
Calouste Gulbenkian., 2009-. Publicação em série disponível em WWW:
URL:http://www.proximofuturo.gulbenkian.pt .
Descobrir : programa
Gulbenkian educação para a cultura : crianças, famílias e adultos. Director Rui Vieira Nery. Lisboa
: Fundação Calouste Gulbenkian, [D.L. 2010]-.
RÓMULO – Centro Ciência Viva da UC
Coimbra, 6 de Março de 2018
Ana Serôdio
segunda-feira, 9 de abril de 2018
"Onde está, evolução, a tua ciência?" de Agostinho Soares dos Santos
Gosto de descobrir nos alfarrabistas livros excêntricos. Um que comprei recentemente por um euro tem o título e o autor que estão em cima. A edição é de autor (Porto, 1988) e a capa mostra um hominídeo que enfrenta um dinossauro, os dois quase do mesmo tamanho (a segunda edição, mostrada em cima, tem capa diferente, com um hominídeo a enfrentar um mamute do tamanho dele). O autor é licenciado em Engenharia Eletrotécnica pela Universidade do Porto e autor de títulos como "Bíblia, Ciência e Vida", "Maravilhas do Criador", "Ufologia à luz da Bíblia" e "Tudo nos mostra que Deus existe." Descobri depois no catálogo da Biblioteca Nacional que tem muitos mais livros com títulos tão aberrantes como este. Na mesma contracapa vem que "sem demagogia, nem fanatismo, o engenheiro Agostinho Soares do Santos vai focando os diversos aspectos das teorias evolucionistas, deixando caminho aberto para que o leitor tire as suas própria conclusões."
A contracapa engana, O livro está eivado de demagogia e fanatismo. E o autor não deixa o leitor tirar quaisquer conclusões, porque as tira ele próprio: a teoria da evolução é, segundo ele, um grande embuste, pois o mundo foi criado por Deus em pouco tempo tal como está na Bíblia. Trata-se de um manual de criacionismo em português, para que não se julgue que isso só existe nos EUA. Percebe-se nos Agradecimentos que o autor é membro da Assembleia de Deus no Porto.
Extracto da Apresentação e Explicação:
"A Evolução tem proliferado por todo o Mundo e é ensinada nas escolas como Ciência. Porém, o meu parecer é que a mesma não tem lógica nem fundamento. Como cristão ligado à ciência, sou apologista de um criacionismo bíblico-científico (sic)"
Li a obra com natural curiosidade. Tudo lido, concluí que é um chorilho de disparates. O autor chega a dizer que a ciência mostra cientificamente a validade de muitos conteúdos do Antigo Testamento. O autor acredita piamente na Bíblia, faz dela uma leitura literal e, a partir daí, distorce completamente a ciência para que ela se ajuste a essa sua visão. O mais curioso é que o livro inclui expressões matemáticas respeitantes à Física de Galileu, Kepler e Newton, como se isso fosse relevante para contrariar a evolução. O autor cita Galileu (numa página com várias gralhas) sem se dar conta que Galileu, um cristão sólido, lia a Bíblia muito melhor do que ele.
"Estar em casa" de Adília Lopes
Adília Lopes, o pseudónimo literário de Maria José Viana Fidalgo de Oliveira (Lisboa, 1960), é uma das mais originais poetas contemporâneas. Consultada a Wikipédia ficamos a saber que é filha de uma assistente de Botânica da Universidade de Lisboa e de um professor do ensino secundário e que frequentou sem ter concluído o Curso de Física daquela Universidade. O seu primeiro livro de poemas é de 1985 ("Um jogo bastante perigoso"). A sua obra reunida, intitulada "Obra" é de 2000 (Mariposa Azul). Há uma nova edição actualizada intitulada "Dobra" (Assírio em Alvim, 2009, 1.ª edição e 2010, segunda edição). Depois da dobra Adília Lopes tem continuado a publicar:
- Manhã (Assírio & Alvim, 2015)
- O Poeta de Pondichéry (Assírio & Alvim 2015 - Coleção: Assirinha; com desenhos de Pedro Proença)
- Bandolim (Assírio & Alvim, 2016)
- Z/S (Averno, 2016)
O último volume, acabado de sair na Assírio e Alvim, intitula-se "Estar em casa". Na linha de "Bandolim", não parece um livro de poesia. São aforismos, jogos de palavras, pequenas histórias, apontamentos, pequenas histórias e recordações de infância. A dedicatória é à sua gata Lu. Inclui fotografias dos avós e da pequena Maria José, sozinha e com o pai.
A ciência, tal como noutros li aparece amiúde, tal como a abrir uma citação do professor de Matemática José Sebastião e SIlva na p. 13 e do físico e padre jesuíta francês Noê Regnault na p. 20, a referência á física do balançar das flores na p. 42, três textos com curiosas discussões matemáticas ("54-45", "O Calendário" e "O Um") nas pp. 64-69, um comentário de um biofísico sobre o computador ("é um monstro") na p. 72, e o jogo de palavras "eclipse/elipse, na p. 75. Mas na maior parte das páginas não há ciência nenhuma: há memória, lirismo, por vezes nonsense.
Admirador da sua "Obra" ou "Dobra", conforme lhe queiram chamar, destaco aqui dois textos de prosa poética, os dois referentes a cenas domésticas:
O BULE
"Tenho um bule de que gosto muito, que acho muito bonito. Mas de repente do que gostei mais foi de reconhecer a sombra do bule nas costas de uma cadeira, ae dar com a sombra do bule. É fácil dizer que lembra uma ave. Mas é o que está certo dizer. Essa repentina ave, estou a lembrar um verso, deu-me muita paz. Ao fim da tarde, depois de os amigos se terem ido embora, a sombra do bule fez-me ver como sou feliz às vezes."
(p. 59)
"A Lu estava a morrer e quis ir à janela apanhar Sol. De repente estava a olhar com muita atenção o almeida a varrer as folhas lá em baixo na rua.
De uma vez demorei-me mais, ao voltar a casa, a Lu pôs-me uma pata no peito com muita força. A Lu amava-me muito. Acho que só os animais são capazes de amar assim tanto. Eu não sou capaz."
(p. 79)
Há coisas que a ciência não consegue dizer. Mas a poesia consegue.
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