quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Obviamente, já lá estão!

A ideia de que, para ensinar em contexto escolar, é preciso conhecer a vida pessoal e familiar dos alunos até ao mais ínfimo pormenor, surgiu no nosso país com grande fulgor e, como todas as ideias peregrinas, disseminou-se e ganhou raízes. Está consolidada, resistindo a qualquer argumento pedagógico com carácter ético e científico. Nada a fazer, reconheço. Mas, não desisto... Até porque os contornos que tem ganho nos últimos anos são irracionalmente assustadores.

A operacionalização desta ideia começou com "fichas de caderneta de disciplina", disponibilizadas pelo Ministério da Educação, já lá vão umas quatro décadas. Perguntava-se os nomes dos pais e do encarregado de educação, habilitações literárias e profissões, disciplinas de que o aluno mais e menos gostava. De seguida, foram as escolas a empenhar-se na tarefa e o que já era bastante mau piorou substancialmente: surgiram centenas, milhares de questionários e fichas biográficas/de caracterização do aluno/de caracterização sócio-económica... cada um a escavar mais e mais a privacidade, a intimidade das crianças e dos jovens.

Dou exemplos do aprimoramento a que se chegou, retirados dum só questionário para alunos dos 2.º e 3º ciclos do Ensino Básico:
Quantos irmãos tens? Tens irmãos que não vivem contigo? A tua casa é moradia ou apartamento, casa própria ou arrendada. Em que divisão da casa estudas? Tens computador? Dormes sozinho num quarto? Se não dormes num quarto onde dormes? Se não dormes sozinho com quem dormes? A que horas te deitas? Alguém na tua família é doente? Se sim, que doença tem? Tens problemas visuais, auditivos, motores, de linguagem? Tens alguma doença: crónica, alérgica, contagiosa, outra. Diz qual? Costumas tomar o pequeno almoço? Em casa ou na escola? O que comes ao pequeno almoço? Costumas almoçar em casa ou na escola? O que costumas almoçar? Costumas lanchar em casa ou na escola? O quê? Frequentaste a Educação Pré-Escolar? Tiveste repetências? Em que disciplinas tens mais dificuldades e mais facilidade? Que disciplinas preferes? Tiveste apoio pedagógico? Porque frequentas esta escola? Tens irmãos a frequentar esta escola? Como te deslocas para a escola? A que horas costumas sair de casa para as aulas?  A que horas costumas chegar a casa depois das aulas? Onde estudas? Como gostas mais de estudar? Tens alguém que te ajude no estudo? Se sim, quem? Costumas conversar em casa sobre a tua vida escolar? Sim Costumas utilizar livros de bibliotecas? Queres estudar até que nível? Gostas de andar na escola? Porquê? Que profissão gostarias de ter? Como ocupas os teus tempos livres fora da escola? Ajudas os teus pais? Se sim, em quê? Quais são as tuas músicas preferidas? Que desportos praticas? Que programas de televisão preferes? O que costumas ler? Que filmes gostas mais de ver?... Do que costumas falar à mesa com a tua família?...
"Do que costumas falar à mesa com a tua família!?" O que pode fazer a escola pior do que isto? O que pode fazer pior do que pôr uma criança ou um jovem nesta situação delicadíssima de reproduzir o que a família lhe diz e o que ela diz à família? E fazendo-o em papel, para que fique registado e ao dispor não se sabe de quem...

Duas coisas podem ser piores.

Uma, é usar as respostas dos alunos (não vou aqui entrar na questão da sua fiabilidade) para elaborar o Projecto Curricular de Turma, que agora parece chamar-se Projecto de Trabalho de Turma. Diz alguém na internet: "Estes dados podem demonstrar aspectos da personalidade e gostos pessoais dos alunos, que por sua vez se tornam fundamentais para a estruturação do planeamento das aulas e do ano lectivo de uma forma geral".  É o tipo de depoimento que leio e ouço a cada momento, já o sei de cor. É um argumento falacioso que poderei explicar melhor em texto próximo, de momento apenas direi que os dados recolhidos, a serem verdadeiros, não são relevantes para essa tarefa.

Outra, é disponibilizar os dados, depois de tratados, em relatórios com gráficos e quadros a ilustrar, à própria escola. Mundo restrito que cada uma é, quem quiser saber da vida de alguém, por dedução ou exclusão de partes, chega lá. As famílias e os alunos ali em comparação: uns assim, outros assado... E, como vivemos numa acolhedora aldeia global, porque não disponibilizar também tais dados na internet? Obviamente, já lá estão!

Nota: Querendo o leitor verificar a veracidade do que afirmo neste texto, procure, por favor, na internet e verá que, infelizmente, não demorá a encontrar abundantes provas.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Camilo e a Química: o Amor de perdição


Na obra mais famosa de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (com o subtítulo história de uma família), escrita em cerca de quinze dias na cadeia da relação, não há referência directas à química, embora o romance seja considerando por vezes (especialmente por quem não o leu) como um paradigma da metáfora estafada da química do amor. Não é bem assim, quanto mais não fosse porque, paralelamente ao desenrolar do drama amoroso, o livro tem uma componente de romance de aventuras negro e ao mesmo tempo cómico e de crónica de costumes, mostrando com crueza as arbitrariedades das classes dominantes e as condições de vida do povo.

Também o drama amoroso do livro continua hoje em dia a ter, na minha opinião, bastante interesse. Em termos da tomada de consciência dos mecanismos químicos do amor e da atracção, as narrativas românticas vêm trazer algo de novo: a atracção amorosa é desenvolvida egocentricamente por aqueles que estão envolvidos nela, sem que esta seja provocada (aparentemente) por acções exteriores, poções, filtros ou manipulações de divindades.

Na Odisseia, Helena e Páris foram manipulados pelos deuses, sem que pudessem resistir. No Tristão e Isolda, o amor incondicional resulta de uma poção. Mesmo no Romeu e Julieta, que é por vezes comparado ao Amor de Perdição, a situação é ainda relativamente ambígua. Embora o amor de Romeu e Julieta não resulte das poções e filtros amorosos que encontramos em outras peças de Shakespeare, nem pareçam existir manipulações realizadas por divindades, Cupido é referido várias vezes. E o amor é comparado a um veneno irresisível para o qual não há tratamento. Depois dos clássicos e dos românticos, nos romances realistas e contemporâneos o amor aparece muitas vezes como resultado de circunstâncias e processos psicológicos, criando uma ilusão de verosimilhança.

Dos gregos antigos aos romances modernos, o amor não muda, mas vai mudanda a interpretação do que é a atracção amorosa. Actualmente, acreditamos que a química do cérebro e das hormonas substituiu os factores exteriores, o controlo por divindades e as poções. Continuamos, claro, a não ser totalmente livres, mas somos nós e as nossas circunstâncias que fazem a prisão em que ficamos.

A fixação amorosa de Teresa Albuquerque por Simão Botelho e deste por Teresa começaram, obviamente, como processos químicos cerebrais e hormonais. A manutenção de uma atracção amorosa duradoura entre as pessoas tem algumas semelhanças com a fixação instintiva das crias à mãe nos animais e do amor entre pais e filhos nos humanos. Para isso concorrem as hormonas ocitocina e vasopressina. Mas antes de chegar a essa fase, a atracção amorosa tem de passar por várias fases tumultuosas. Na adolescência surge o desejo por um parceiro amoroso provocado, nos homens, pela hormona testosterona, e, nas mulheres, pelo estrogénio. Depois, na presença de um parceiro desejável, a atracção, ou paixão, desenvolve-se com a ajuda dos neurotransmissores norepinefrina, feniletilamina, prolactiva e serotonina. Em particular a serotonina, hormona associada à depressão e aos mecanismos do vício, contribui para a fixação no ente amado, apresentando níveis tão baixos nos apaixonados que os aproxima dos doentes e viciados. Simão e Teresa são apresentados como muito desejáveis aos olhos um do outro, ele forte, belo e corajoso, ela bonita, elegante e delicada e simultaneamente também carentes.

Na ausência de vida social e contactos com outros jovens, um problema que a família de Teresa tenta resolver demasiado tarde, Teresa facilmente se apaixona por um rapaz galante, bonito e saudável, praticamente o único que vê como possível objecto amoroso. É também plausível que numa situação particular como a do romance, em que existe um grande desamparo e solidão de Teresa e Simão, por razões diversas (Teresa tem pais distantes e Simão acha que os pais não gostam dele), essa paixão evolua para um amor duradouro que resista a ser contrariado e leve os envolvidos a renunciar a tudo o resto. Também a fixação de Mariana se foi desenvolvendo, primeiro com a gratidão devida ao salvamento do pai, depois com a galhardia de Simão Botelho na fonte a bater nos criados e finalmente com a proximidade do jovem herói. Em termos da química amorosa não deixa de ser relevante a hesitação de Simão em relação à atitude a tomar em realção ao amor de Mariana.

Os mecanismos hormonais e a química do cérebro, que condicionam em boa parte as nossas sensações, sentimentos e atitude perante as circunstâncias, têm muitas falhas que reinterpretamos para dar sentido às nossas vidas. As tragédias são simultaneamente tão comuns quanto raras. Os bons livros apresentam-nos situações que não têm de ser vulgares, mas que nos interrogam e ajudam a encontrar sentido para a existência.

Camilo e a Química: as boticadas de Eusébio Macário e os medicamentos d' O olho de vidro




No livro Camilo Castelo Branco e as boticadas de Eusébio Macário, o capitão farmacêntico António Costa Torres analisa as referências farmacênticas em "Eusébio Macário" e "A corja". Também "O olho de vidro" merece a este autor algumas considerações.

O domínio da química era na altura de Camilo, e até ao desenvolvimento da indústria farmacêutica moderna e dos estudos farmacológicos e clínicos controlados, de extrema importância para farmacêuticos ou médicos que pretendessem estar actualizados, ou não fosse a maioria dos medicamentos preparados na botica por receita do médico. Actualmente a química continua a ser fundamental para o desenvolvimento de novos medicamentos e o entendimento da acção de todos os fármacos, para além de ser importante para a compreensão da fisiologia dos organismos vivos. No entanto, a especialização e a complexidade actuais são de forma a que esta ciência, embora continue a ser importante para o entendimento geral e particular dos processos terapêuticos, deixou de ser para a maioria dos profissionais de saúde fundamental ao nível da acção diária, como era na altura de Camilo.

Segundo Costa Torres, Camilo passou nemine discrepante à cadeira de Botânica no dia 14 de Julho de 1845, nos preparatórios para medicina e não esqueceu a matéria estudada. A lista de cerca de vinte plantas com propriedades medicinais foi confirmada por Costa Torres que apenas lhe encontra pequenos erros. Por esta altura já começavam a ser identificados princípios activos extraídos das plantas. O filho José Macário, conhecido como José Fístula, é um adepto das plantas medicinais e dos remédios modernos da Farmacopeia do doutor Pereira Reis (5ª edição datada de 1858 do Código Faramacêtico Lusitano). Eusébio Macário é um boticário de outros tempos. Uma lista de unguentos e remédios secretos está registado no seu livro sebento de três gerações de boticários, alguns tão antigos que podem já ser encontrados, por exemplo, no D. Quixote de Cervantes. E já na altura de Camilo eram obsoletos ou comprovadamente nefastos. Costa Torres indica as receitas de todos estes unguentos (quase quarenta de "Eusébio Macário" e mais de vinte de "A Corja"), copiadas d Farmacopeia Lusitana (com edições de 1704 e 1711) de frei Caetano de Santo António, as quais Camilo deveria conhecer bem desde jovem. Alguns exemplos, a cujo pitoresco Camilo não resistiu, são o ceroto de espermacete, pomada mercurial (com óxido de mercúrio II), unguento de Santa Tecla, com litargiro (óxido de chumbo II, conhecido por fezes de ouro) e sebo de carneiro, unguento de basilicão, com colofónia (pez louro) fundida em azeite, terebentina, cera amarela e óleo de amêndoas, ungento de Genoveva com terebentina e cânfora, ungento de populão, com infrutescências de choupo branco (Populus alba, que contém salicina), folha de dormideira, beladona e manteiga, papa de linhaça, unguento egipcíaco, de cor verde, devido ao acetato de cobre, azougue de Falópio, entre outros.

Eusébio Macário era um boticário tão antiquado que nada sabia de oximéis, uma designação que era já empregue nas farmacopeias do século XVIII! As formulações e preparações continuam hoje em dia a ser um dos campos mais exclusivos da Farmácia, embora para o desenvolvimento de novos princípios activos concorra também a Química. No tempo em que Camilo escreve são muito poucos os medicamentos de síntese, e todos os que existem são de origem inorgânica. Estamos ainda muito longe da descoberta da aspirina, das modificações químicos de moléculas biologicamente activas para obter medicamentos mais poderosos, da pesquisa sistemática de novos fármacos e dos testes controlados dessas substâncias.

No "Eusébio Macário" é ainda digna de nota a referência que Camilo faz a Gavroche de "Os miseráveis" de Victor Hugo. Camilo, na minha opinião com algum provincianismo tipicamente português, diz que já havia sido inventado em Portugal. [Correcção: o autor apressado deste post confundiu Gavroche com Grantaire, o estudante boémio que faz metáforas com conhecimentos avançados de química, ficando assim este parágrafo sem grande sentido químico. Logo que possível publicarei um texto sobre a química em "Os miseráveis" de Victor Hugo.]

Na obra "O olho de vidro, romance histórico", publicada em 1866, Camilo apresenta-nos a vida trágica de Brás Luis Abreu (1692-1756), cristão-novo dos quatro costados que, por uma série de peripécias, perdeu o contacto com a sua família e a cultura judaica, torna-se um médico e autor famoso e acaba por casar com a irmã de quem tem oito filhos.

Neste livro, Camilo descreve com bastante detalhe o ambiente sufocante criado pela Inquisição. As referências aos medicamentos e tratamentos da época são também dignas de nota. Logo nas pimeiras páginas é referido o olhos de caranguejo (Oculi Cancrorum), formações de carbonato de cálcio, que se julgou serem os olhos dos carangejos, um remédio indicado para muitas doenças. Este mineral ainda tem usos medicinais actuais, mas não são tão fantásticos como na altura.

Camilo vai-nos apresentando algum receituário médico da época. Em particular, a descrição de um medicamento feito a partir de um pato assado é bastante divertida. Tal como a alternativa: cozer uma raposa inteira. É sobretudo este tipo de receitas fantasiosas, que se encontra na medicina barroca a par com os medicamentos secretos com nomes pomposos. Medicamentos sobretudo para suar e deixar de suar, para vomitar e deixar de vomitar, salivar e deixar de salivar. As purgas, os clisters, as sangrias, as fístulas (manutenção de uma ferida aberta para libertar humores), são ainda comuns. Não se pense ingenuamente que a ciência médica e farmacêutica avançou sempre de forma linear. As receitas de Garcia de Orta ou de Amato Lusitano, que viveram um século antes, são muito menos fantasistas pois baseiam-se na experiência e não em considerações retóricas.

Deus, a Liberdade e o Mal

Acaba de ser anunciada a publicação da minha tradução da conhecida obra God, Freedom and Evil, que Plantinga publicou originalmente em 1974. É aqui que se encontra a influente objecção ao problema lógico do mal, segundo a qual da divindade teísta é logicamente compatível com a existência de mal. Recorrendo a instrumentos da metafísica e lógica da modalidade, Plantinga mostra neste livro como se pode escrever sobre temas sofisticados numa linguagem relativamente acessível. O problema do mal ocupa aproximadamente metade do livro, sendo a outra metade dedicada a uma discussão mais acessível do argumento do desígnio, do argumento cosmológico e do argumento ontológico a favor da existência de Deus. Mais informação aqui. (São Paulo: Edições Vida Nova, 2012, 144 pp.)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PROF. CARLOS TEIXEIRA, UM MARCO NA GEOLOGIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX

Novo texto do Professor Galpoim de Carvalho, que o De Rerum Natura muito agradece.


Do meu tempo de aluno na Faculdade de Ciências de Lisboa, ficaram-me na memória, porque os conheci mais de perto, os professores Carlos Teixeira (1910-1982) e Torre de Assunção (1901-1987), dois homens muito diferentes, mas ambos simples, afáveis e cem por cento investigadores e professores dos seus alunos.

Recordo hoje o primeiro destes meus mestres, o que maior influência teve na minha vida profissional. Homem de grande destaque na Geologia portuguesa, o Prof. Carlos Teixeira tinha grande capacidade de intervenção nos organismos do Estado ligados a este sector, quer em Portugal quer nas ex-colónias, nomeadamente em Angola e Moçambique, além de que desfrutava de uma boa relação como o extinto Instituto de Alta Cultura e com a Fundação Calouste Gulbenkian, duas instituições financiadoras de uma grande parte da investigação científica no nosso País.

Foi membro activo da Academia das Ciências de Lisboa, dispunha de grande influência nos então Serviços Geológicos de Portugal e Serviço de Fomento Mineiro (duas prestigiadas instituições hoje fundidas no Laboratório Nacional de Energia e Geologia), na ex-Junta de Energia Nuclear e na ex-Junta de Investigações do Ultramar, organismos do Estado nos quais, com grande autoridade, manobrava os cordelinhos ao sabor dos seus propósitos em prol de sua dama, a Geologia, nunca a favor dos seus interesses pessoais.

A maioria dos geólogos portugueses, seniores e juniores, e alguns estrangeiros envolvidos em trabalhos no território nacional, eram os peões de xadrez na sua perspectiva de engrandecimento da geologia portuguesa. As gerações de geólogos, que se lhe seguiram, devem-lhe essa dedicação quase obsessiva. Depois de um pousio de algumas décadas sobre a fase pioneira e gloriosa da geologia nacional, na passagem do século XIX ao século XX, com homens como Carlos Ribeiro, Nery Delgado e Paul Choffat, o Prof. Carlos Teixeira foi o principal dinamizador do renascimento desta ciência entre nós, num período iniciado com o seu doutoramento na Universidade do Porto, em 1944, e continuado em Lisboa, na Faculdade de Ciências, até 1982, ano do seu falecimento.

O Prof. Carlos Teixeira era um homem só, sem família, no sentido mais amplo da palavra. Casara com a Geologia e dessa união tinha uma caterva de descendentes, todos eles seus subordinados nas carreiras académica e científica, a quem dava protecção, não só profissional mas também pessoal. Fiador de muitos dos seus assistentes nos contratos de água, gás e electricidade e nos de arrendamento das respectivas habitações, emprestava dinheiro, sem juros, a todo aquele que, numa aflição, lho solicitasse. À mesa do restaurante ou do café, era sempre ele que pagava a conta, como um pai. Ele, por assim dizer, configurava a galinha e nós os pintos, mas apenas enquanto não ousássemos “sair-lhe debaixo da asa”.

Mais do que as minhas, descrevem-no as palavras do igualmente saudoso Prof. Orlando Ribeiro, retiradas, avulsas, do texto que escreveu no Volume de Homenagem que lhe foi dedicado, publicado no Boletim da Sociedade Geológica de Portugal (Vol. XXII, 1980-81), sociedade de que Carlos Teixeira foi sócio fundador nos anos 40: “Carlos Teixeira era um lavrador do Minho (no sentido local de modesto proprietário), tão enraizado no terrunho como as cepas do vinho verde que tanto apreciava”... “Robusto de corpo e de espírito, insensível à fadiga e ao conforto, comendo e bebendo bem mas indiferente à hora das refeições, Carlos Teixeira foi sobretudo um infatigável trabalhador de campo... Insensível ao frio, ao calor e à chuva, dizia que não era solúvel”... “nunca procurou posições brilhantes e lucrativas”.

Impulsivo e autoritário, a diabetes acabou por cegá-lo e torná-lo um homem azedo, intolerante, por vezes colérico, que se foi incompatibilizando, um a um, com a maioria dos seus colaboradores, mesmo com aqueles que lhe foram mais íntimos e leais.

Por fim, dizia aos poucos amigos que lhe iam restando, que já correra com umas dúzias de “safardanas”, uma expressão muito sua. Amigo do seu amigo, enquanto o aceitasse como tal, personalidade de amores, desamores e rancores, nem sempre era justo nos seus juízos, nem sempre usando bem o elevado estatuto que tinha para avaliar pessoas e trabalhos, não só na Universidade como nos serviços ou departamentos que lhe reconheciam o muito saber que, de facto, tinha. “Confundindo, às vezes, a lisonja que alguns lhe prodigalizavam com o respeito e o mérito científico que todos reconheciam nele, não deixa, por isso, de ter sido uma grande figura e um marco importante na geologia portuguesa”, escreveu, ainda, o Prof. Orlando Ribeiro, uma afirmação que os seus alunos subscrevem.

Galpoim de Carvalho

CAFÉ, LIVROS E CIÊNCIA: PIPOCAS COM TELEMÓVEL

Livros gratuitos

A partir de amanhã, dia 20, e até dia 24, a versão Kindle dos meus livros Essencialismo Naturalizado e Pensar Outra Vez estarão disponíveis gratuitamente na Amazon.

PIPOCAS COM TELEMÓVEL, ENTREVISTA NO DIÁRIO DIGITAL

Entrevista aos autores Carlos Fiolhais e David Marçal, publicada no Diário Digital, acerca do livro Pipocas Com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência, editado pela Gradiva.


Carlos Fiolhais: «Não há nenhum fundamento científico que abone a eficácia da homeopatia»

Em «Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência», editado pela Gradiva, David Marçal, doutorado em Bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa, e Carlos Fiolhais, doutorado em Físia Teórica pela Universidade de Frankfurt, procuram desvendar algumas das pseudociências que assolam o nosso dia-a-dia, certezas que podem inclusive causar problemas de saúde.

«Iogurtegate», «Pulseiras quânticas», «A racionalidade diluída da homeopatia», «Não há duas sem ómega-3», «A bazófia dos basófilos» são apenas alguns dos sub-capítulos de «Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência», uma obra que tem todas as possibilidades de deixar o leitor incrédulo, já que certamente vai «abalar» com as suas convicções.

Uma obra portanto obrigatória e que deve ser lida com urgência, ainda mais quando procura desvendar as pseudociências que estão um pouco por todo o lado nas nossas vidas diárias.

Como explicam haver tanta falsa ciência a circular no nosso dia a dia?
David Marçal - A ciência tem credibilidade e, por isso, ajuda a vender. Muita gente usurpa a validade científica para vender a sua banha da cobra ou, pelo menos, para exagerar os benefícios dos seus produtos.
Enquanto uns ganham, os outros perdem: a falsa ciência pode fazer muito mal à carteira.

Porque as pessoas estão dispostas a aceitar isso como uma verdade?
Carlos Fiolhais - Por falta de cultura científica, isto é, por estarem pouco familiarizadas com a natureza e o método da ciência. A ciência baseia-se na observação e na experiência e não em auto-intituladas autoridades. Face a uma afirmação alegadamente científica devemos perguntar que provas existem em seu abono. A falsa ciência, em vez disso, apresenta cientistas da NASA que a NASA não sabe quem são ou meninas de bata branca e sorriso amplo em anúncios de televisão. Este tipo de marketing, que tanto vende curas quânticas como iogurtes que eliminam o colesterol, é muito eficaz: faz muitas vítimas.

Acreditam que a pseudociência é o principal mal da ciência?
David Marçal - A pseudociência é um mal da sociedade, não da ciência. Vendedores da banha da cobra sempre existiram e hoje em dia os vendedores de banha de cobra científica  evocam a ciência apenas para fazer passar melhor a sua mensagem. Curiosamente, nas sociedades modernas, que são modernas devido à ciência, a pseudociência continua a ter um lugar de relevo.

Mas essa pseudociência não acaba por atrair mais pessoas para a área?
Carlos Fiolhais - Não, de modo algum. A pseudociência não tem nada a ver com o processo de construção do conhecimento científico. Baseia-se até na negação desse processo. A pseudociência apenas atrai mais pessoas para a pseudociência. A cultura científica, o melhor conhecimento da ciência, é que atrai mais gente para a ciência.


Se a pseudociência chega ao dia a dia como uma verdade, não há uma falha da própria Ciência na sua comunicação?
David Marçal -  Sem dúvida. Em primeiro lugar há falhas no ensino das ciências, no qual falta demasiadas vezes a componente experimental. Por outro lado, há também falhas no transporte dos resultados e da atitude da  investigação científica aos cidadãos. Os cientistas devem intervir mais na sociedade e partilhar os seus conhecimentos e os seus valores. Nesse último aspecto, temos tido um grande progresso em Portugal nas últimas décadas graças, por exemplo, à editora Gradiva, à Agência Ciência Viva e a várias associações e instituições de investigação científica. Trata-se de uma aposta que tem que ser mantida e reforçada. Mas, faça-se o que se fizer, haverá sempre vendedores da banha da cobra. Poderão é ser menos ouvidos.

Como tiveram a ideia de explicarem a ciência através da falsa ciência?
Carlos Fiolhais - A falsa ciência assenta em equívocos acerca da natureza ciência e do processo científico. Esclarecer esses equívocos é uma das maneiras de mostrar o que é a ciência. O nosso livro anterior teve muito êxito (já vai na 3.ª edição) e nele já tratávamos a falsa ciência.

Na vossa opinião, qual a pseudociência mais popular?
David Marçal - A concorrência é grande! Talvez os produtos de grande consumo, tais como iogurtes com probióticos, que alegadamente têm benefícios para a saúde, ganhem nessa «competição». Tais benefícios não estão demonstrados e, por causa disso, as empresas produtoras têm sido multadas por publicidade enganosa e até proibidas de emitir certos anúncios em vários países. Por exemplo: há cerca de um mês, no Canadá, a Danone foi obrigada a indemnizar os seus consumidores ao abrigo de um processo judicial, por induzir erradamente a ideia de que os iogurtes reforçam o sistema imunitário. Cada consumidor vai receber entre 15$ e 50$. Não é muito, mas é simbólico, e, em Portugal, neste tempos de crise, seria certamente uma ajuda.

E qual a que provoca mais espanto?
Carlos Fiolhais - As falsas ciências que têm os defensores mais acérrimos são talvez as medicinas alternativas. E elas provocam-nos grande espanto. Entre elas, a homeopatia conseguiu adquirir um estatuto especial e muitas pessoas ficam surpresas quando lhes dizemos que não tem  qualquer fundamento científico. Pensam que há um fundamento qualquer porque é vendida em farmácias e há sistemas de saúde de alguns países que a comparticipam. Por isso nunca é demais dizer: não há nenhum fundamento científico que abone a eficácia da homeopatia. Nos ensaios clínicos que foram realizados (e são muitos) não funciona melhor do que um placebo. O que não admira porque os remédios homeopáticos são preparados através de um conjunto de diluições sucessivas e, no final, não sobra nada da substância original. É só água e açúcar. Na apresentação do livro eu e o David tomámos uma sobredose de medicamentos homeopáticos e estamos vivos.

Portanto, em termos sociais, a pseudociência na saúde, por exemplo um iogurte que afirma reduzir o colesterol, é o principal problema de uma sociedade?
David Marçal - Os iogurtes não são problemas desde que as pessoas que precisam de medicamentos para o colesterol não os troquem por iogurtes. Do ponto de vista social, o principal problema está nos falsos tratamentos médicos que levam as pessoas com doenças graves a abandonarem tratamentos com provas dadas substituindo-os por outros que nada fazem ou até agravam a situação. Por exemplo, na África do Sul, no início do século XXI, foram vendidos suplementos vitamínicos para tratar a SIDA, levando muitas pessoas a usa-los em vez dos medicamentos anti-retrovirais. Isto foi criminoso e resultou na morte prematura de milhares de pessoas. Outro caso é o dos adeptos dos movimentos anti-vacinas, que não só se colocam em risco a si próprios como a toda a comunidade...

Apesar de ser um tema sério, a pseudociência, escolheram o tom do humor na hora da escrita. Porquê?
Carlos Fiolhais - Se a ciência pode ser divertida, a pseudociência, com todo o carrossel mirabolante de ideias que a procura justificar, pode ser muito mais divertida. Nalgumas situações rir poderá ser o melhor remédio. Mas há vários tons no livro, não apenas o humorístico. Este é um livro sério sobre um assunto sério. Se o leitor duvida, experimente ler.


Crenças em Deuses



Veja o video abaixo: 



domingo, 18 de novembro de 2012

A CIÊNCIA NA POESIA PORTUGUESA



"Por volta de 1935, num poema do heterónimo Álvaro de Campos, surgem os famosos versos pessoanos sobre ciência matemática e criação artística: « O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.(...)» 

Esta breve fulguração poética poderá ser motivo suficiente para dar mote à conferência que reunirá os Professores e Investigadores da Universidade de Coimbra, Carlos Fiolhais e António Piedade, e ainda, os co-autores Maria Bochicchio e Vasco Graça Moura da Antologia de Poesia e Ciência na Literatura Portuguesa: O binómio de Newton & A Vénus de Milo, produzida para a Fundação Champalimaud, considerada obra de referência, e encontrando-se actualmente esgotada.

A iniciativa com moderação pela Professora da Faculdade de Letras da UC, Maria Helena Santana, realiza-se no próximo dia 19 de Novembro, pelas 18h00, na 
Casa da Escrita, em Coimbra."


Informação enviada pelo Departamento de Cultura da Câmara Municipal e pela Casa de Escrita de Coimbra.

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA


Comemorou-se no passado dia 15 deste mês de Novembro “O Dia Mundial da Filosofia". Em registo da efeméride, foi hoje publicado neste blogue um nota de Sara Raposo, professora de Filosofia do ensino secundário e co-autora do blogue "Dúvida Metódica", “Sobre o lugar da Filosofia no Ensino Secundário”.
Com a ousadia de me intrometer em disciplina alheia, mas, por outro lado, amante  desta disciplina desde os meus estudos liceais de natureza científica, cometo o crime  de, embora humildemente, dar o meu modestíssimo contributo,  através de um artigo que publiquei no “Diário de Coimbra” (13/02/2006), intitulado “O Exame Nacional de Filosofia”, e transcrito, com o mesmo título,  neste blogue, em  23 de Julho de 2007.

Reproduzo esse texto:

"O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização, ou antes, na desorganização do sistema de ensino, a todos os níveis (Georges Gusdorf).
Abel Salazar foi professor universitário de Medicina, em inícios e meados do século passado, com um notável e eclético saber nos diversos domínios científicos e culturais: médico, escritor, pintor, escultor e filósofo, tendo-se doutorado, em 1915, com 20 valores com a tese Ensaio de Psicologia Filosófica. Com conhecimento de causa, sentenciou ele: “Um médico que só sabe de medicina nem isso sabe!”
Hoje, numa época em que os responsáveis pela tutela da Educação – em nome de uma deplorável facilidade no acesso ao ensino superior, ou (apenas) como tal plasmado na lei! – em boa hora arrepiaram caminho na decisão em acabar com o exame nacional de Literatura Portuguesa, mas persistem em manter essa decisão no que se reporta à Filosofia, uma questão se levanta. Deverá a Filosofia ser valorizada no âmbito dos cursos de humanidades e subalternizada no domínio das ciências naturais?

A questão nem sequer é nova! Segundo Georges Gusdorf, “na primavera de 1964, assistiu-se ao facto de “os decanos da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris, proclamarem que a Medicina é doravante uma ciência; ninguém poderá pretender ser iniciado se não for geómetra, se não possuir noções de base como as de função, logaritmo, derivadas. A formação médica pressupõe uma escolaridade secundária que passa pelas classes terminais de ciências e de matemática dos liceus”. (“Da História das Ciências à História do Pensamento”).
Ainda segundo este autor, “os distintos decanos preveniam os interessados e as famílias contra a deplorável perda de tempo e de inteligência que representaria um estágio na classe de Filosofia. Um jornalista foi, então, perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Responderam-lhe que lhes parecia, pelo menos, impensada. O conhecimento dos logaritmos é talvez útil ao médico, mas o conhecimento do homem e da condição humana é primordial; é deplorável que não entre em linha de conta na aprendizagem médica. Os estudantes tinham cem vezes razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo, que existe entre os potentados universitários como no homem da rua” (id., ibid.).
Este descabido, ridículo e insolente ataque à matriz de todas as ciências é tanto mais insólito quando nomes grados da Ciência se distinguiram no frutuoso deambular pelos caminhos de um Conhecimento sem fronteiras. Três exemplos, de entre muitos: Max Planck, físico e Prémio Nobel da Física (1918), preocupado com a relação entre a ciência e religião ; Ernest Krestchemer, médico psiquiatra alemão, doutor “honoris causa” em Filosofia pelas Universidades de Wurzburgo e Católica do Chile; e Bertrand Russell, matemático e filósofo britânico, “Prémio Nobel da Literatura”,  em 1950. E isto para não falar já em Albert Einstein, presença obrigatória em diversos manuais de Filosofia!
Poder-se-á objectar que a disciplina de Filosofia continua a fazer parte do currículo do ensino secundário, mas... o facto de não ser avaliada em exames nacionais coloca-a numa posição, no mínimo, insólita. E não me venham com a teoria de que os exames nacionais são uma forma menos válida ou justa de avaliar os alunos. O mal não está nos exames, mas na forma que preside à respectiva elaboração!
A facilitação em deixar passar os alunos sem testar os conhecimentos adquiridos em exames nacionais nos diversos graus de ensino conduziu a população escolar portuguesa à crítica demolidora de Vasco Pulido Valente: “Um ensino, em particular ensino superior, ineficiente e caótico e, além disso, irreformável”!
Na verdade, chegou-se a níveis de ignorância que campeiam entre os próprios diplomados do ensino superior e que não são escamoteáveis por mais tempo, pese embora, como escreve Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma, “haver sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”.
Numa altura em que novas (e, ainda mais, facilitadoras!) formas de acesso a escolas de ensino superior se divisam no futuro prenunciando técnicos despojados de uma necessária formação cultural - a que a leitura constante de textos literários e a reflexão filosófica conduzem - e em que a quantidade de diplomados pelo ensino superior supera em muito a sua qualidade, os claustros universitários devem manter-se como guardiães esforçados da Cultura Humanística, do Conhecimento Científico e da Investigação Pura e Aplicada. Num contexto de elevada qualidade e numa tradição multissecular na formação de elites!”

Camilo e a Química: Os narcóticos e o envenenamento de D. João II




(...) “Narcóticos” não quer dizer que ele seja um extracto de papoila ou essência de morfina (…) é o mesmo que chamar “linimento de sabão com ópio” à tintura de iodo e “clister de linhaça” a uma injecção de petróleo e aos beliscões “beijos”! A modéstia acrisolada tem aberrações metafóricas. Chamar-se um sujeito a si “suporífero”, quando toda gente, depois de o ler, bebe láudano de Sydenham para dormir (…) [Camilo Castelo Branco, Os narcóticos, vol I, 5ª edição, 2007, Bonecos Rebeldes, 1ª edição, 1882]

Camilo Castelo Branco no primeiro volume de Os narcóticos defende a tese de que D. João II foi envenenado. Para tal, socorre-se das descrições da época, em especial das de Garcia de Resende e de D. Agostinho Manuel de Vasconcelos. Também a comprovada incorruptibilidade de cadáver do monarca, a qual se manteve, com mais ou menos nariz, segundo a prosa irónica de Camilo, até à passagem dos franceses por Alcobaça, concorreria como prova desse envenenamento. 

A incorruptibilidade do cadáver não poderia ter origem na sua santidade, ou não tivesse o monarca sido, segundo Camilo, homicida traiçoeiro, implacável destruidor dos seus parentes, o primeiro que em Portugal perseguiu judeus vindos de Castela (…) devasso que em matéria de sexto mandamento era só acenar-lhe (...) 

Desta forma, a incorruptibilidade do cadáver só poderia ser de natureza química. E, dado que não há notícia de embalsamamento nem condições favoráveis no enterramento do rei, a incorruptibilidade do cadáver deveria ter origem no veneno. 

Camilo sintetiza tudo isto com o humor negro: As podridões modernas pegam-se aos santos incorruptos. Tudo podre. Sem o auxílio da química, já não se arranja hoje uma múmia.

Camilo refere explicitamente o arsénico (na realidade o óxido de arsénico) um veneno de eleição por não ter cheiro ou sabor e ser, por isso, na altura muito difícil de detectar. Consultou José Carlos Lopes, lente da Escola Médico-Cirúrgica, o qual não é conclusivo sobre a relação entre incorruptibilidade e envenenamento: não escasseiam condições para explicar o fenómeno que tem santificado um avultado número de patifes (…) não carece de recorrer-se de uma causa que se presta a contestação.”

Na altura eram conhecidos muitos outros venenos além do arsénico, nomeadamente o acónito, o meimendro, a cicuta, os cogumelos venenosos do género Amanita, o ópio e a beladona. A noz vómica, que contém estricnina, começava também a ser conhecida. E sabia-se que podia ser obtido um veneno poderoso (contendo cianeto) por destilação de folhas de louro cerejo. No entanto, a maior parte destes venenos origina sintomas característicos ou é de fácil detecção e nenhum, além do arsénico, origina sintomas semelhantes aos descritos para as crises de D. João II.

Oliveira Martins, Braacamp Freire, Pinheiro Chagas e outros historiadores foram da mesma opinião que Camilo. No entanto, com base nos sintomas descritos pelos cronistas, o professor Ricardo Jorge e o médico António de Lencastre não concordaram com a tese de Camilo, atribuindo as crises e a morte do monarca a uremia como consequência de uma nefrite crónica. 

Assim, actualmente a maioria dos historiadores é da opinião de que D. João II não foi envenenado e só haveria uma forma de confirmar ou invalidar as suspeitas: encontrar os ossos do monarca e fazer a análise química destes para detectar arsénico ou de outros venenos inorgânicos.

Estranhamente, ou não, dado o título, quase não há outras referências a narcóticos ou drogas no resto do livro. E, no entanto, para pagar as dívidas, incluindo as do fisco, Camilo teve de vender a sua valiosa e extensa biblioteca ao Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, facto que refere com amargura anestesiada: Na minha idade, depois de trinta anos de trabalho, o escritor que vende os livros para não ser devedor insolúvel despede-se deles com um grande desvanecimento de ter nascido em Portugal (…)

O Custo do Congresso Brasileiro


Sobre o lugar da filosofia no ensino secundário

A propósito do Dia Mundial da Filosofia que se comemorou na passada semana, uma nota da Sara Raposo, professora de Filosofia na Escola Secundária Pinheiro e Rosa, coautora do blogue Dúvida Metódica, que vale a pena visitar.

A Unesco assinalou, no passado dia 15 de Novembro, o Dia Mundial da Filosofia. É oportuno, nesta data simbólica, pensar no impacto que tiveram algumas decisões políticas no ensino desta disciplina nas escolas secundárias portuguesas.

Na legislação e no programa de Filosofia (e até de outras disciplinas), é repetida - como “elevada” meta a alcançar - a necessidade dos professores desenvolverem “a atitude crítica e a capacidade argumentativa” dos alunos.

Fica bem escrever essas palavras em documentos oficiais, mas serão elas mais do que formalidades necessárias? Serão tais competências realmente exercitadas nas aulas e alcançadas pelos alunos?

A introdução do exame nacional de Filosofia foi, a meu ver, uma medida muito positiva, apesar das críticas que possam incidir na formulação de algumas das questões nos exames entretanto já feitos. Contudo, os resultados obtidos pelos alunos sugerem que a resposta à pergunta anterior é “não”. Embora o exame fosse opcional, a média nacional negativa nas duas fases permite concluir que a maioria dos alunos avaliados - tal como acontece, aliás, noutras disciplinas - não adquiriu nas aulas conhecimentos e competências filosóficas básicas.

Este facto deveria levar os responsáveis do ministério a alterar o programa de Filosofia, tornando-o menos extenso e reformulando alguns dos seus conteúdos. Julgo que essa medida, associada ao exame nacional (que na minha opinião deveria ser obrigatório), teria um impacto significativo no ensino da disciplina e na formação das gerações futuras.

Por outro lado, serão dadas condições de trabalho aos professores do secundário para desenvolverem, junto dos alunos, a capacidade de refletir e argumentar? Não creio que isso aconteça na maioria dos casos. Deixo o meu exemplo: no presente ano letivo sou professora de cinco turmas, de três níveis e sou ainda diretora de turma. Sei de colegas que estão em situações piores. Melhorar a qualidade do ensino da Filosofia através de medidas simples e eficazes, eis a minha sugestão para comemorar todos os dias o Dia da Filosofia.

Afinal, em Portugal, é ou não importante (para além de se encontrar escrito nos documentos oficiais dos diferentes governos) formar cidadãos capazes de pensar e de discutir ideias?

Sara Raposo

sábado, 17 de novembro de 2012

Camilo e a Química: O meu condescípulo e O que são os ventos? de Cavar em ruínas




Em O meu condescípulo, último capítulo do livro Cavar em Ruínas, Camilo Castelo Branco refere algumas peripécias dos seus estudos de Química na Academia Politécnica do Porto.

A frequência desta disciplina, assim como as de Anatomia e Botânica, fazia parte dos preparatórios para o curso de Medicina, nos quais Camilo se matriculou em 1844, é referida por vários autores. Em particular, Isabel Cruz, no TriploV, traça a história dessa época na Academia Politécnica e analisa o que é facto e ficção nesta narrativa de Camilo.

Para além de Camilo, que se apresenta como aluno boémio e pouco dado ao estudo, o texto refere-se a Francisco Pereira de Amorim e Vasconcelos (1812-1859), farmacêutico do Porto que foi durante algum tempo preparador na Escola Politécnica, de forma muito elogiosa: Amorim era doutíssimo na sua especialidade, e, sem favor, o primeiro químico experimental do Porto. Era disertíssimo e correcto; benfazejo, liberal com os pobres e consigo, austeramente económico e abstinente. Devo à sua memória esta notícia em paga de ele me ajudar a fingir uma vez que eu sabia química.

Tendo desistido de estudar para o ponto, o qual incidiria sobre a “kermes mineral entre outras coisas”, não sabendo sequer em que página a matéria começava, Camilo acaba por encontrar à porta do quartel general, onde tinha ido ouvir música, Amorim e Vasconcelos que se propõe ajudá-lo. Nas suas próprias palavras: Escutei-o até às duas da madrugada. Quando saí, sabia o ponto, sabia os rudimentos da química, sabia a história e a filosofia da ciência, conhecia Berzelius, Gay-Lussac, Orfila e não sei quem mais. Competentemente instruído por Amorim e Vasconcelos, Camilo acabou por fazer um ponto nemine discrepante e, não fora o número escandaloso de faltas e fugidas, teria, nas palavras de Amorim, sido premiado.

Camilo Castelo Branco sabia muito bem dosear os factos e a ficção. Isabel Cruz confirma que Camilo identifica correctamente o livro adoptado e o professor, mas alerta-nos para o facto de Amorim e Vasconcelos só ter estado matriculado no curso de Química uma década mais tarde.

A referência à kermes mineral é, na minha opinião, um aspecto pitoresco a que Camilo não resistiu. No livro adoptado (Abrégé élémentaire de chimie de Jean-Louis Lassaigne), que Camilo denomina Lasagne, referindo não lembrar a ortografia, as propriedades e preparação do kermes mineral são, de facto, descritas de forma detalhada. Trata-se de um medicamento de antimónio com uma composição variável de trissulfureto e trióxido de antimónio, obtido de forma artificial e que, desde o século XVIII, e ainda na altura de Camilo, teria aplicações médicas como emético, purgante e sudorípero. Camilo, que conhecia desde jovem as farmacopeias da casa do seu cunhado médico, provavelmente conheceria este medicamento.

Mais tarde, Amorim e Vasconcelos acabaria por se tornar um adepto da homeopatia e do espiritismo, como foi aliás comum entre vários cientistas da época (basta lembrar Crookes). Camilo foi-o encontrando cada vez mais magro e alienado, afirmando que o lugar dos espíritos não era neste mundo. Mais tarde Amorim e Vasconcelos acaba por se suicidar, deixando-se cair de uma varanda.1

A análise que Camilo faz da homeopatia é de uma grande sagacidade e clareza: Não duvidava assegurar-me que dez gotas de nux lançadas das Berlengas ao mar podiam converter o oceano num remédio bom para dores de estômago, de cabeça e outras. As demonstrações saiam-lhe claras e irrecusáveis como uma operação algébrica.

Embora Camilo não tenha tido como Goethe uma iniciação profunda nas ciências experimentais, as suas observações pertinentes revelam que Camilo sabe do que fala quando se refere a aspectos científicos. Não me parece que Camilo procurasse criticar a Ciência ao mostrar as tolices pseudocientíficas em que as pessoas inteligentes se podiam envolver, ou reduzindo o ensino da química a eloquência recamada de protos, de deutos, de bis, de sesqui, de pilhas, de retortas, e várias coisas com que os homens entretêm a vida para não morrerem de tédio. Camilo apreciava com certeza a Ciência mas não tolerava o ridículo e procurava os efeitos cómicos da caricatura.

Também em Cavar em ruínas, Camilo faz a análise de um texto anónimo de 1732 denominado A Fenix das tempestades, escrito a propósito de uma grande tempestade que se abateu sobre Lisboa. Vai comentando o texto anacrónico e pseudocientífico nas suas mais variadas vertentes e quando chega ao domínio da ciência das tempestades não deixa de referir a falta de Gay-Lussac no panfleto. Mais à frente desculpa o autor anónimo por apenas depois de 1750 é que Demaison estudou o fenómeno da congelação, e Saussure escreveu as suas observações sobre as nuvens, chuvas e formação de vapores. As auroras boreais, o raio e a electricidade foram também depois examinadas por Franklin e Mairan. Dufay e Volta estudaram o orvalho e a saraiva. E termina com bom efeito cómico: Apesar disso sejamos lisos e modestos: o autor da Fénix das Tempestades foi o asno mais desmedido do seu tempo.
1 Este tipo de suicídio foge à tipicidade de forma que mais tarde se tornou quase uma verdadeira mania nacional entre os intelectuais. No final do século XIX e princípio do século XX, intentado principalmente à pistola (Camilo foi um deles), por vezes com recurso a mais do que um tiro, mas também com veneno, corte dos pulsos, enforcamento, afogamento e até com explosivos, foram identificados por José Brandão quase duas dezenas de suicidas notáveis!

ÁLCOOL: A DROGA MAIS NOCIVA DO MUNDO


Para memória futura: o papel do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados e da Associação Nacional de Professores Licenciados para a criação da Ordem dos Professores

“As ordens devem estar na primeira linha dos que resolvem ficar para ultrapassar a crise, usando com imaginação e vontade as regras da arte”  (Adriano Moreira).
 
Num extenso e bem elaborado post, o Prof. Carlos Fiolhais, “UM ANO DE EDUCAÇÃO” (15/11/2012), publicado no DRN, aborda, “ao correr da pena”, como diria Eça, a criação de uma Ordem dos Professores. Desse texto, respigo as linhas finais do respectivo parágrafo sexto:” Multiplicam-se os sinais de descontentamento dos professores relativamente à acção sindical. Algumas vozes têm-se levantado desde há algum tempo em favor de uma Ordem dos Professores que, sem se substituir aos sindicatos, pudesse valorizar a profissão”.
Hoje em dia estou absolutamente à vontade para me fazer defensor da respectiva criação pelo facto de, há anos para cá, me encontrar aposentado – não vindo a colher, portanto, qualquer benefício directo e/ou profissional desse facto – continuando, todavia,  a lutar por uma causa a que dediquei toda a minha energia durante os doze anos em que fui presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL). E mesmo para além disso!

Este facto torna-se impositivo para que, de  entre “as vozes que se têm levantado desde há algum tempo em favor de uma Ordem dos Professores”, eu exaltasse (e continue a exaltar) a acção do SNPL nestas conjuntura, através de artigos nos media e inúmeros posts por mim publicados neste blogue em defesa de uma associação pública de professores que, de acordo com o artigo 267, ponto 4.º da Constituição, “só pode ser constituída para a satisfação de necessidades específicas não podendo exercer funções próprias das associações sindicais tendo organização interna baseada no respeito dos direitos dos seus membros e na formação democrática dos seus órgãos”.
Fazendo um pouco de história, o SNPL teve a sua génese na Associação Nacional dos Professores Licenciados (criada em Agosto de 90, na cidade de Viseu). Dois anos mais tarde, reunidos os seus dirigentes, nessa mesma cidade,  o Jornal de Notícias (27/05/92) disso dava conta, em notícia intitulada “Professores Licenciados Forma Ordem”. Do referido text, transcrevo estes breves excertos:

“Nesta reunião os dirigentes da ANPL, visivelmente descontentes, manifestaram a sua total disposição para avançar ‘decididamente’ com a constituição da Ordem dos Professores, tendo mesmo constituído uma comissão a que preside o coordenador distrital de Coimbra, dr. Rui Baptista. Os professores licenciados pretendem com a criação da Ordem, ‘moralizar o que sucede no País relativamente aos falsos licenciados por Institutos e Universidades que se multiplicam’ (mantém-se o negrito do original) e às quais os professores catedráticos emprestam apenas o seu nome”. Ou seja, a procissão ainda ia no adro do que viria a acontecer com casos escandalosos que têm sido notícia recente  nos jornais, na rádio e na televisão nacionais.
Sobre os posts publicados neste blogue, da minha autoria, referentes à criação de uma Ordem dos Professores, elaborei uma lista de 28, publicada  em anexo, para que o leitor interessado ou os próprios poderes institucionais  os possam consultar  in loco.

Por outro lado, encontrando-se a Associação Nacional dos Professores entre as vozes que se têm mostrado activa na defesa  da criação da Ordem dos Professores entendi, de justiça, referenciar  a acção daquela associação neste particular. O leitmotiv? O leitor, desta forma,  poder cotejar a acção do SNPL e da ANP neste contexto, transcrevendo, parcialmente, o post aqui publicado em 29 de Outubro de 2012, intitulado “A Ordem dos Professores, o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados e a Associação Nacional de Professores”. Nele escrevi:
“A recente nomeação, para secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, de João Granjo, diplomado pela Escola do Magistério Primário do Porto (1980), habilitado com o Curso de Estudos Superiores em Administração Escolar (Instituto de Ciências Educativas, 1993) e Mestrado em Administração e Planificação da Educação (Universidade Portucalense, 2007), foi noticiada no jornal “Público (26/10/2012) referenciando o facto de ter sido presidente da Associação Nacional de Professores e defensor da criação da Ordem dos Professores.

Esclarece-se que a Associação Nacional de Professores sucedeu à Associação Nacional de Professores do Ensino Básico, constituída por diplomados pelas antigas Escolas do Magistério Primário e Escolas de Educadores de Infância, sendo reclamante da criação da Ordem dos Professores desde 1985 e tendo anunciado 'num seminário realizado em 91, em Viseu, o firme propósito de se transformar em Ordem”' (“Diário de Coimbra”, 07/05/91). Reclamação, aliás, sem tradição, ou simples analogia, com as ordens profissionais existentes, porque destinadas a representar, apenas, profissões detentoras de licenciatura universitária. Só, posteriormente, foram criadas ordens profissionais sem obedeceram a este requisito, como sejam os casos da Ordem dos Enfermeiros (Decreto-Lei n. 104/98, de 21 de Abril) e da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (Decreto-Lei n.º 310/2009, de 26 de Outubro). Lá mais para diante se voltará a esta temática que me mereceu estudo aturado no livro 'Do Caos à Ordem dos Professores' (Rui Baptista, edição do SNPL, Janeiro de 2004) e, posteriormente, num pequeno opúsculo 'Livro da Ordem' (Edição do SNPL, 1997) sobre uma 'Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores' de que fui o coordenador. Da respectiva 'Nota Prévia', transcrevo:

'A proposta de estatutos elaborada por um grupo de colegas que o SNPL patrocinou com apoio logístico e financeiro, foi entregue ao Presidente da Assembleia da República (20/06/96) e foi difundida por todos os Executivos do SNPL, pelas Associações Científicas de Professores, por instituições de Ensino Superior ligadas à formação de professores, pela Confederação Nacional das Associações de Pais, grupos parlamentares e partidos políticos e outras organizações intervenientes no processo educativo, e também pelas Ordens existentes'.
 (…) Faço, agora, referência a um bem elaborado Estudo Nacional (encomendado pela Associação Nacional de Professores), intitulado “Ser Professor – Satisfação Profissional e Papel das Organizações de Docentes”, realizado pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco e da autoria de João Ruivo (coordenador), João Sebastião, José Rafael, Paulo Afonso e Sara Nunes.

A páginas tantas, nesse estudo é feita, com a isenção que um trabalho desta natureza impõe, referência destacada ao papel do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados nesta matéria que se transcreve textualmente:
'De acordo com Baptista (2006), já em 20 de Junho de 1996 o SNPL submeteu à Assembleia da República uma proposta de estatutos da possível Ordem a criar. Mais tarde, a 25 de Fevereiro de 2004, este sindicato submeteu, também à Assembleia da República, uma petição para a criação da Ordem, contendo 7857 assinaturas. Por último, e de acordo com o autor supra mencionado, no dia 2 de Dezembro de 2005 debateu-se na Assembleia da República a petição n.º 74/IX (2.-ª) do SNPL e outros para a criação da Ordem'.
(…) Uma pequena rectificação, mas uma correcção de fundo do supracitado Estudo Nacional, que se transcreve: 'De acordo com Vilarinho (2004), o SNPL exigia o grau de Licenciatura e o cumprimento do código deontológico para aceder à Ordem'.
Vamos por partes. Quanto 'ao cumprimento deontológico para aceder à Ordem', nada a corrigir porque aqueles que pretendem estabelecer um código deontológico sem ser a Ordem dos Professores a fazê-lo e a zelar pelo seu cumprimento (como tenho visto para aí defendido…) assumem para si o papel de porem o carro à frente dos bois, em linguagem popular. Quanto à exigência de uma licenciatura universitária (deixando de fora os diplomas de ensino médio e bacharelatos politécnicos), é facilmente desmentido pela leitura da 'Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores', publicados em 1977. Nela especifica-se, sem lugar a qualquer dúvida por no ponto 1, do artigo 13.º estar escrito, preto no branco, o seguinte articulado: 'Podem inscrever-se na Ordem, como membros efectivos, os portugueses ou estrangeiros que residam em Portugal de posse de uma licenciatura e profissionalização, por si reconhecidas'.
Para a inscrição de indivíduos, de posse do diploma das antigas Escolas do Magistério Primário, por exemplo, foi estabelecida a categoria de membro associado (Pontos 1 e 2, do respectivo artigo 15.º) obedecendo aos critérios seguintes:
Ponto 1: 'Podem ser inscritos como membros associados os docentes profissionalizados de nacionalidade portuguesa que à data da publicação deste Estatuto exerçam funções docentes com o grau de bacharel ou com habilitação constante do artigo 13.º conjugado com o artigo 31.º, n.º 5 da Lei n.º 44/86, de 14 de Outubro.'
Ponto 2: 'A inscrição como membro efectivo dos membros associados está condicionada à obtenção dos requisitos exigidos pelo artigo 13.º do presente Estatuto.'
Aliás, estas condições de inscrição na Ordem dos Professores encontra inspiração na doutrina por mim encontrada em poeirentos textos legais que dizem que a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Farmacêuticos contemplaram nos seus estatutos os direitos dos profissionais sem o grau de licenciatura, embora com restrições, como sejam os médicos formados pela Escola Médico-Cirúrgica de Goa, pela Escola Médica do Funchal e diplomados com o curso da Escola de Farmácia de Coimbra (Rui Baptista, Correio da Manhã, 06/03/19969).
Todavia, embora o reputado filósofo e sociólogo francês, Pierre Bourdieu, tenha defendido que 'só uma política inspirada pela preocupação de atrair e promover os melhores, esses homens e mulheres de qualidade que todos os sistemas de educação sempre celebraram, poderá fazer do ofício de educar a juventude o que ela deveria ser: o 1.º de todos os ofícios', em Portugal vigora o princípio de habilitações diferentes para o mesmo grau de ensino. Assim, a título de mero exemplo, antes do Processo de Bolonha, a habilitação para a docência da Matemática, no 2.º ciclo do básico, tanto contemplava uma licenciatura universitária em Matemática como uma licenciatura pelas escolas superiores de educação habilitando para ministrar, simultâneamente, esta disciplina e Ciências da Natureza fazendo, como tal, jus à maior das injustiças. Ou seja, a de igualar desiguais dando, com isso, ar de virtuosa medida a uma medida de duvidosa moral!
(…) Se outros motivos não houvesse (mas há-os, e muitos!), estes os suficientes para a urgente criação de uma Ordem dos Professores sem se deixar enfeudar por interesses sindicais e/ou das escolas de formação de professores para que “não insultemos a democratização pela mediocratização de tudo”, como escreveu o catedrático jubilado António Manuel Baptista”.
Para finalizar e em resumo, de entre “algumas vozes que se têm levantado desde algum tempo em favor da Ordem dos Professores”, outra mais alta se tem levantado passando, inclusivamente, das palavras à acção pela apresentação na Assembleia da República (25/02/2004) de uma petição com 7857 assinaturas para a criação de uma Ordem dos Professores, aí debatida em 2 de Dezembro de 2005.  Refiro-me, como é evidente, ao Sindicato Nacional dos Professores Licenciados.
ANEXO: Listagem de 26 artigos sobre a Ordem dos Professores por mim publicados no DRN:
Ano de 2008: “Do Caos à Ordem Dos Professores” (15/06);  “A (Des) Ordem dos Professores” (03/08); “A Génese das Actuais Ordens Profissionais” (25/08); “O Professor Oliveira Marques e a Ordem dos Professores” (01/0); “Dez Perguntas Sobre a Ordem dos Professores” (25/09).
Ano de 2009: “Vital Moreira e a Ordem dos Professores” (18 Maio); “A Ordem dos Professores na Ordem do Dia” (09/06); “A Ordem dos Professores: a Canção e os Cantores” (10/06); “De volta à Ordem dos Professores” (07/09); “A Ordem dos Professores e a Política do Compadrio” (09/09); “Um singular Combate às Corporações” (06/10).
Ano de 2010: “Uma Ordem dos Professores”(17/04); “Ordem dos Professores: Breve Historial das Ordens Profissionais” (21/04); “Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins e Ordens Profissionais” (15/07).
Ano de 2011: “Reflexões Sobre o Sindicalismo Docente” (13/01); “A Docência como Profissão Liberal” (19/03); “Para Memória Futura: A Ordem dos Professores” (12/04); “Uma Carta Sobre a Ordem dos Professores” (11/05); “Um Comentário Sobre a Ordem dos Professores” (23/06); “Marçal Grilo e a Ordem dos Professores” (06/07).
Ano de 2012: “A Revisão Curricular e a Ordem dos Professores (08/01); “Ordem dos Professores versus Sindicatos” (12/01); “A Ordem dos Professores e o Mito de Sísifo” (12/02); “Ao Correr da Pena: Ordem dos Professores”(25/04); “O Ministério da Economia, a Ordem dos Professores e a FENPROF” (02/06); “Ainda as Ordens e as Câmaras Profissionais”(06/06);  “A Ordem dos Professores, o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados e a Associação Nacional de Professores”(29/10);  “Já Agora, a Ordem dos Professores e a FENPROF” (31/10).

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

CONTRIBUTOS DOS TRÊS LIBERAIS, G. CENTAZZI, COR. AMORÓS, E D. PEDRO IV PARA A GINÁSTICA NA CASA PIA - 5

Quinta parte do texto do Professor João Boaventura. As anteriores podem ser acedidas a partir daqui.

Para o efeito importa referir que os alunos da Casa Pia, à data da sua criação, em 1780, pelo corregedor Pina Manique, ficaram instalados no Castelo de S. Jorge. Com Lisboa ainda em ruínas, rescaldo ainda do terramoto, com vadios e gatunos, jovens e adolescentes, muitos deles órfãos, tornou-se obrigatória a recolha de todos, para benefício da cidade e dos carenciados de atenções em cama, mesa, roupa e educação. Homens e mulheres que vagueavam pela cidade, desocupados, foram igualmente conduzidos para o Castelo de S. Jorge, onde se abriu uma loja, e muitas oficinas, com a vinda de mestres do estrangeiro para a fabricação de lonas, brins e tecidos de malha, fiação, tecelagem de seda e algodão, cordoaria, serralharia, carpintaria [28]. O ensino não foi descurado: matemática, química, artilharia e fortificação, óptica, alemão, francês, latim, inglês, anatomia, cirurgia, obstetrícia, desenho, música. A ginástica ou a educação física não figuravam no currículo.

Pina Manique queria mais, desejava actualização, e enviou os melhores alunos para o estrangeiro para estudarem ciências e artes, Londres, Copenhague, Edimburgo, Roma, e também Universidade de Coimbra, o que levou Latino Coelho a considerar a Casa Pia como a Universidade dos Pobres.

Até que as tropas da primeira invasão francesa, em 1807, o ocuparam para se aquartelarem, o que implicou o descalabro da obra de Pina Manique, e a distribuição dos casapianos por outros destinos: asilos, paróquias e conventos. Com o fim da 1.ª invasão a Casa Pia reorganizou-se, em Julho de 1811, no Convento dos Bernardos, mais conhecido como o Convento do Desterro, nele se reagrupando todos os casapianos distribuídos algures, mas, para o efeito, dada a sua responsabilidade na matéria, o Desembargador e Intendente Geral da Polícia, Filipe F. de Araújo e Castro, resolveu, em 31.10.1820 requerer à Academia Real das Ciências a nomeação de uma comissão para estudar e propor as reformas necessárias ao engrandecimento e prosperidade da Casa Pia do Desterro [29].

A Academia acedeu logo a este desejo, tendo a Comissão elaborado a respectiva Memória, subscrita por três académicos mas, sem data, abordando, na “Secção I – Cap. III (educação física e moral), a pp. 396-399, mas o tema é o recreio e as actividades físicas associadas aos diferentes ofícios braçais e manuais (funileiro, sapateiro, tecelão, ferreiro, carpinteiro); na “Secção II – Cap II (Melhoramentos na educação física, e moral / Quanto à educação física no estado de saúde)”, a pp. 404-408, e mais, considera que, di-lo a pp. 404-405:

Convém regular de uma forma sistemática, da qualidade dos exercícios e recreios em que devam entreter-se os Órfãos, e melhorar suas disposições físicas, sendo muito para recomendar, que na ordem dos exercícios se guarde alguma semelhança com os da forma militar; não só porque utilizam ao vigor da constituição; mas até porque dão mais airosidade ao corpo; além das vantagens que resultam da formação de uma espécie de Escola Militar, sempre útil a qualquer Nação, ainda nos empregos civis.
Casa Pia no Castelo de S. Jorge (1780-1807)

Depois da revolução de 1822, a Casa Pia do Convento do Desterro (1811-1833) 
chegou a mudar o nome para Colégio Constitucional dos Artistas [30]

No Capítulo IV, da mesma Secção II – Melhoramentos da Administração, expende as funções adequadas ao Director da Educação Física e Moral (pp. 412-415), considerando que um hábil Médico de probidade e acreditados estudos seria o mais próprio para o desempenhar, sem dúvida um higienista assente no aforismo de que a higiene é a clínica do homem são, posto que aborda os preceitos da Polícia sanitária, tanto nos dormitórios como nas enfermarias, além de tratar das moléstias dos internados. Daqui se deduz que o conceito de educação física igualava ou se assemelhava ao de higiene, e não propriamente ao conceito de ginástica ou de movimento [31]

Portanto, quando Morais Rocha e Fernando Barreto aludem que a parte final apresentada pela Academia foi no sentido de se ensaiar, na Casa Pia do Desterro, uma Escola Nacional de Educação Física [32], tal sugestão não se define apesar de, na Síntese Cronológica, os autores reincidirem na referida Escola, com o senão de que a Memória da Academia não figura na bibliografia, pelo que se fica na incerteza sobre a fonte que permite a asserção.

A única referência que aparece na Mémória, de 36 páginas, diz respeito à formação de uma espécie de Escola Militar, incluída na 20.ª página do relatório, e não no final, e é muito provável que a sugestão dos académicos se tenha reflectido na orientação futura dos casapianos, como mais tarde se verificará [33], porque, atingida a idade de serviço militar, a maioria dos internados preencherá o quadro de recrutas, derá um bom contingente de cabos e sargentos, e alguns oficiais que frequentaram a universidade. Mas a Escola Militar nunca terá a Casa Pia como sede.

D. Pedro IV, pelo decreto de 28 de Dezembro de 1833 [34], expedido da Secretaria de Estados dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, ordenou a transferência da Casa Pia para o Mosteiro dos Jerónimos, o que poderá denunciar ter visitado a instituição do Desterro, antes de 28 de Dezembro de 1833, como se deduz nos três primeiros artigos:


Decreto de 28.12.1833 (In Crónica Constitucional de Lisboa, n.º 135, 31.12.1833)

A sede da nova Casa Pia foi instalada nos claustros do
Mosteiro dos Jerónimos por decisão de D. Pedro IV

Dois dias depois de ter oficializado a transferência da Casa Pia para o Mosteiro dos Jerónimos, terá visitado algumas instituições de acolhimento, dando assim uma atenção muito especial aos órfãos e desvalidos, e motivando a solidariedade, conforme se lê na notícia do Paço das Necessidades, de 30.12.1833:
(In Crónica Constitucional de Lisboa, n.º 135, 31.12.1833)

Ficando assim desfeitas as dúvidas, sobre qual a Casa Pia visitada por D. Pedro IV, bem como a data da visita, retoma-se o historial de Guilherme Centazzi.

Onde se nota o ausentismo pela questões ginásticas ou da educação física, apesar de referenciais para a tese de Paris e para o manuscrito oferecido à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa (SCML), está patente na assunção concordante do Parecer da Comissão de Higiene da SCML, aprovado pela mesma Sociedade, acerca deste escrito, onde se conclui que é por conseguinte a Comissão de parecer, que se deve aprovar o escrito, e intenção do Sr. Centazzi, 1.º por ser o primeiro escrito que trate especialmente desta matéria em nossa língua, 2.º porque ele preenche o fim a que é destinado, e 3.º por ser de suma utilidade para o nosso País. (…). Em 17 de Março de 1836.

Parece um pouco tardio o aparecimento da obra de Centazzi para ser o primeiro escrito sobre a matéria, se não houvesse outras do mesmo âmbito, antes de 1836. Para não criar distâncias maiores era do conhecimento geral que a imprensa se debruçava sobre a matéria. A contribuição dos periódicos da época merece especial destaque, como se pode verificar, entre outros:

A Gazeta de Lisboa, n.º 136, de 9.6.1827, informava que um periódico de Bruxelas publicara um longo artigo onde se demonstrava que “uma boa educação física nas classes inferiores produz em primeiro lugar a importante vantagem de prevenir muitas enfermidades, dando ao mesmo tempo maior aptidão para o trabalho”.

O Interessante, Jornal Instrução e Recreio, n.º IX, de 1835, que, num artigo intitulado “Da ginástica, ou exercício das forças do corpo” (pp. 898 a 900) louva as vantagens da prática da “ginástica, da luta, da carreira, do jogar a barra, e a bola”, e faz ainda alusão ao médico francês Tissot com louvor ao seu trabalho Ginástica Médica, publicado em 1780. Esta referência permitiu a M.J. Henriques de Paiva a sua tradução imediata para português, com notas pessoais, com o título Aviso ao povo acerca de sua saúde por mr.Tissot.

M. J. Henriques de Paiva (1752-1829), entre as inúmeras obras publicadas, alude igualmente ao exercício físico no Aviso ao povo ou sumário dos preceitos mais importantes, concernentes às diferentes profissões e ofícios, aos alimentos e bebidas, ao ar, ao exercício, ao sono, aos vestidos, à intemperança, à limpeza, ao contagio, às paixões, (Offic. Morazziana, Lisboa, 1787).

Com o título de Aviso ao povo ou Summario dos preceitos mais importantes, concernentes á criação das Crianças, estipula, no Artigo V, dedicado ao exercício, que “os homens não podem gozar de perfeita saúde sem exercício”; era higienista quando assevera que “cumpre que as crianças andem sempre limpas”, porque era voz corrente que a higiene era a clínica da saúde; também é pedagogo quando aconselha que “não se confranjam as crianças a estarem assentada”. E acrescenta que “o exercício é o primeiro mantimento da saúde, e o bom ar o segundo”. E é normativista quando estabelece em seis parágrafos, como num decreto, os itens necessários para que do exercício se colham os resultados que a saúde exige.

O seu autor é nada mais que o insigne professor da Casa Pia, Director da Farmácia da Real Casa Pia do Castelo e seu Professor de Química. Depois da 1.ª Invasão Francesa, por ser considerado um afrancesado devido às relações que manteve com os franceses em 1808 ou 1809 (?), foi preso e degredado para a Baía, naturalizando-se brasileiro em 1822 [35]. O pai, António Ribeiro Paiva, era sobrinho de António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1782).

Martinho de Mendonça de Pina e Proença (1693-1743), formado na Escola de Artes de Coimbra, redigiu, em 1734, um volume de 355 páginas com o título de Apontamentos para a educação de um menino nobre, que para seu uso particular fazia (Na Oficina de Joseph António da Sylva, Impressor da Academia Real), que parece quase cópia da obra de Jokn Locke (1632-1704) publicada em 1693 (ler a este propósito pé de página 36). Nele se aconselha a dançar, a esgrimir, e montar a cavalo, fazendo gosto de se aplicar a estes exercícios. E, a páginas 311 e sgts acrescenta: 

O gosto de conduzir um principiante para o delicioso campo das ciências, nos ia fazendo esquecer dos exercícios do corpo, não menos úteis, e agradáveis, e mais salutíferos, que os do espírito. A arte ginástica foi algum dia parte da Medicina; e ainda hoje Sydenham, e outros Médicos aconselham a equitação, como remédio universal de insuperáveis achaques nos primeiros anos: basta, que aos meninos, se lhe permita liberdade, e alguma largueza, que a inclinação natural os encaminhará aos exercícios do corpo, correndo, e saltando: mas se algum for de génio tão preguiçoso, e pesado, que o não faça; se deve provocar, e obrigar a que ande, e corra, ou jogue a péla, exercício cómodo, e que aconselham antigos, e modernos. (…)/ O exercício da espada é utilíssimo à saúde, e vigor do corpo, costumando a estar de pé, e de passos com firmeza, e fortificando os braços, de sorte que não é inútil à profissão de Soldado; (…) nenhum homem sisudo julgará mal empregada uma hora cada dia aplicada ao exercício mais conveniente, para adquirir uma compleição robusta entre todos os que se podem executar dentro de casa; (---) A dança, que além de dar vigor ao corpo, lhe comunica bom ar, e graça, está hoje entre as nações da Europa como divertimento.

Ribeiro Sanches (1699-1783), a quem a imperatriz Catarina a Grande deu um brasão de armas com o mote Acreditava ter nascido para ser útil, não a si próprio, mas ao Mundo todo, em 1760 escreveu as Cartas sobre a Educação da Mocidade, onde se aconselha os exercícios e as práticas desportivas da época, e elaborou o Tratado da Conservação da Saúde dos Povos, explicando a necessidade das actividades físicas no capítulo XXV - Do ócio e do exercício dos Soldados considerados para a Conservação da Saúde.

O bacharel Luiz Carlos Moniz Barreto traduziu a obra francesa de Ambroise Riballier, publicada em 1785, com o título, fiel ao original, Tratado da educação física, e moral das crianças de ambos os sexos, com 358 páginas, e editada dois anos depois, em 1787, pela Oficina. da Academia das Ciências, mas muitas eram as referências médicas fazendo apelo ao movimento, desde o Antigo Regime.

Almeida Garrett (1797-1867), na sua obra, publicada em 1829, Da Educação (ed. Em Casa de Sustenance e Stretch, Londres, 1829), aconselhava: “Os dois breves, simples e excelentes tratados dos D.D. Mello-Franco e F.J. d’Almeida devem andar nas mãos de todos os pais e educadores” (1829: II, 3.ª). Os volumes em referência tinham o mesmo título, aprovados e editados pela Academia Real das Ciências de Lisboa, Tratado da Educação Física dos meninos, para uso da nação portuguesa, o de Francisco de Mello-Franco [36]  (1757-1823), em 1790, e o de Francisco José de Almeida [37] (1755-1844), em 1791.

Garret, na introdução do seu trabalho evidenciava que, “exceptuando algumas memórias sobre educação física, não sei que tenhamos nada escrito nem de educação pública nem da particular” (ix), acrescentando que “na educação do corpo ou física, compilei e simplifiquei as regras gerais da boa higiene e da ginástica” (xiv), para opinar ainda que a dança, a equitação e a esgrima eram artes, não profissões, considerando-as “como gentil ornato da educação nobre ou necessário elemento (...) de toda a educação” (xv), e condenando a profissionalização, nestes termos: “Toda a Europa ri dos gentlemens ingleses que degeneram de cavaleiros em picadores; e não conheço nada tão ridículo como um cavalheiro n’um salão de baile fazendo passos e dificuldades de dançarino da ópera” (I, I, 45).

E acrescentava ainda: “não me canso de repetir que a educação física, a moral e a intelectual são conexas e inseparáveis”, mas “a primeira coisa de que devemos tratar é de formar um bom corpo robusto e sadio, e firmar n’esta educação a base sólida, que só ela pode ser, das outras duas” (xvi, xvii). Na educação do corpo ou física, compilei e simplifiquei as regras gerais da boa higiene e da ginástica ( I, I, 1.ª, 14).

De Centazzi, que nunca indicou nenhuma bibliografia, nem na tese, nem no trabalho oferecido à Academia das Ciências, natural terá sido considerar que o seu trabalho era o primeiro no género a ser publicado em Portugal. O mais grave é a própria Academia confirmá-lo, ignorando os trabalhos já existentes sobre a matéria, quando, muitos deles foram editados pela mesma Academia.

Ainda tentou introduzir em Portugal a prática da ginástica de medicina preventiva, mas as suas intenções esbarraram na incompreensão da época dessa actividade física considerada pouco masculina.

Fique ao menos a glória de ter sido o primeiro escritor português a merecer a primeira tradução para alemão, em 1840, do seu primeiro romance moderno português “O estudante de Coimbra”. A Câmara Municipal de Faro, muito justamente, homenageou-o dando a uma das ruas o seu nome.


O nome do Dr. Centazzi faz parte da toponímia farense desde fevereiro de 1987
(Fonte: blog Marafado)

NOTAS: 

[28] "Real Casa Pia de Lisboa” in “Branco e Negro. Semanário Ilustrado”, n.º 1, 04.04.1897, Lisboa, p. 2.
[29] O relatório pode ser lido a pp. 386 a 453 na “Memória da Comissão encarregada de visitar o Estabelecimento da Casa Pia”, in História e Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa (Tomo VII, Na Tipografia da mesma Academia, Lisboa, 1821). A Memória da Comissão ocupa as pp 386-421, com 29 Documentos apensos desde a p.423 até à p.504.
[30] Apud História da Formação Profissional e da Educação em Portugal, de Carlos Fontes (29.09.2012).
[31] Quando perguntaram a Herman Boerhaave (1668-1738), famoso médico holandês conhecido mundialmente (um cientista chinês escreveu-lhe uma carta com este endereço : Ao ilustríssimo Boerhaave, médico na Europa.), e considerado o fundador da clínica médica. Como se dizia que a ginástica era a parte da higiene que trata dos efeitos dos diferentes exercícios sobre a economia animal, perguntaram-lhe o que era, para ele, a ginástica, respondeu que era gesta, acta, que em latim significa movimentos, isto é, a ginástica não era mais que movimentos. O médico português Januário Peres Furtado Galvão, no seu Curso elementar de Higiene, de 278 pp, publicado em 1845, apreendeu esta interpretação de Boerhaave, porque no índice pode ler-se Título III- Gesta, e no Cap.I –Ginástica – a arte de conservar uma harmonia salutar entre todas as funções da economia animal e as do sistema locomotor diz-se ginástica. Deduziu daqui que os gesta=movimentos equivaleriam aos gesta=sistema locomotor, já que é neste que se geram os movimentos. Quem estudou com o grande Boerhaave, foi Ribeiro Sanches, chegado à Holanda, em 1730, para fugir da Inquisição, e que, pelo seu valor, em 1731, foi recomendado por Boerhaave à corte imperial da Rússia, onde exerceu durante dezasseis anos altas funções nos exércitos dos czares. E fê-lo porque Boerhaave já tinha convites para a montagem de clínicas em Edimburgo, Londres, Oxford, Cambridge, Dublin, disseminando Institutos Clínicos em toda a Europa. 
[32] Opus cit., pp 25-26.
[33] Em 1897, a Real Casa Pai já tinha um corpo militarizado a imitar o melhor possível o Real Colégio Militar, quer na organização quer na disciplina, quer na farda. Mais tarde, estes normativos. Decreto de 29.09.1909 - Criando um curso de instrução militar na Real Casa Pia de Lisboa (DG n.º 259. 07.09.1903) (M. Guerra); e o Decreto de 02.05.1904 - Aprovando o regulamento da Real Casa Pis de Lisboa (DG n.º 100, 06.05.1904) (M. Reino) haverá ginástica e exercícios militares e "o curso de instrução militar é regido por dois professores oficiais, nomeados pelo Ministério da Guerra, sob proposta da provedoria. Além destes professores haverá um segundo sargento para cada 20 alunos." (Art.º 95)
[34] In Crónica Constitucional de Lisboa, n.º 135, de 31.12.1833, p. 748.
[35] Apud Carlos Maria Eugénio de Almeida “Relatório da Administração da Real Casa Pia de Lisboa; relativo ao ano de 1889-1890.
[36] Uma nova edição do Tratado seria produzida muitos anos depois, por José Martinho da Rocha, em Nosso Primeiro Puericultor, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora (1946). Verifica-se nos escritos de F.M.Franco alguma influência do trabalho de John Locke, influência já patente aliás na obra, editada em 1790, com o título de Tratado da educação física dos meninos, para uso da nação portuguesa. Mas já anteriormente, Martinho de Mendonça, da Academia Real da História, tinha publicado, em 1734, a Educação de um menino nobre, que, segundo Gomes (1964: 132), seria um decalque da obra de de John Locke (1632-1704), publicada em 1693, sobre a educação, o que reflectia a forte influência do pensador inglês. Ao abrigo da Lei de 02.04.1768 (Por Direito Natural e Divino pertence aos Soberanos proibir a introdução, venda, e publicação de todos os livros e papeis, que contém prejuízo da Monarquia, e dos vassalos dela) a Real Mesa Censória proibiu a circulação da obra de Locke, quer na língua original quer traduzida.
[37] Doutor em Medicina pela Universidade de Leyden (Holanda), depois de ter estudado em Coimbra. Segundo Silva (1859, II, 401) “Este medico, conhecido geralmente em Lisboa pelo diminutivo de Almeidinha, em razão da sua exígua estatura, pois era tão pequeno em corpo como grande na sciencia, foi durante muitos annos havido por maçon (...)”

João Boaventura

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