sábado, 13 de fevereiro de 2021

PLAYLIST DA TSF DE CARLOS FIOLHAIS

A minha Playlist da TSF aqui com os comentários que escrevi. A ordem não é a que passou na rádio, pois aqui está por géneros musicais e dentro destes por ordem cronológica.

 

MÚSICA CLÁSSICA

 

1         Antonio Vivaldi, “Ah fuggi rapido”,  da ópera “Orlando o Furioso” (1727), por Cecilia Bartoli (2018), 2’22

 

           https://www.youtube.com/watch?v=h-x5C9wOxpo&list=RDh-x5C9wOxpo&start_radio=1

Em 1727 ficava terminada a construção da Biblioteca Joanina na Universidade de  Coimbra, que já tive a honra de dirigir. Data precisamente desse ano a ópera barroca “Orlando o Furioso” do compositor italiano Antonio Vivaldi, que se  baseia no famoso poema épico do seu compatriota Ludovico Ariosto. Sugiro a ária “Ah fuggi rapido”, na voz excepcional da mezzo-soprano italiana Cecila Bartoli, uma das minha divas preferidas. Aqui Bartoli canta acompanhada pelo ensemble Natheus dirigido por Jean-Christophe Spinosi, numa gravação de 2018. É o barroco no seu esplendor. 

2.  Johann Sebastian Bach, Concerto Brandeburguês n.º 1 (1741), Orquestra Mozart, dirigida por                 Claudio Abbado (2007), Allegro, 4.33 

https://www.youtube.com/watch?v=e0c-qGMTb1E

Embora seja difícil definir um génio, não tenho dúvidas de que o alemão Johann Sebastian Bach é um génio. É talvez o maior músico de todos os tempos. Os cientistas, em particular, são grandes entusiastas da sua música. Proponho a escuta do Allegro que abre o Concerto Brandeburguês n.º 1, que data de 1741, do tempo do nosso rei D. João V que mandou construir a Biblioteca Joanina (curiosamente Bach e D. João V morreram no mesmo ano, 1750). Foi uma música que me acompanhou no início dos anos 80 quando fazia o doutoramento em Frankfurt am Main, na Alemanha. Nessa altura a terra natal de Bach, Eisenach, ainda pertencia à República Democrática Alemã, pois o muro só caiu em 1989.  A versão que vamos ouvir de uma obra que esteve muitos anos perdida é tocada pela Orquestra Mozart, dirigida pelo italiano Claudio Abbado, num teatro de Reggio Emilia, Itália, em 2007.

3         Carlos Seixas, “Concerto em lá maior” (séc. XVIII) para cravo e orquestra, pela Orquestra Barroca da Casa da Música no Porto  (2020 )  5’17

https://www.youtube.com/watch?v=LeQ9kY1Pymc 

No tempo de D. João V houve um músico genial em Portugal: Carlos Seixas, nascido em Coimbra, nascido a 11 de Junho de 1704 (próximo do meu dia, eu faço anos a 12 de Junho) e falecido escassos 38 anos depois. Vamos ouvir o “Concerto em lá maior” para cravo e orquestra, pela Orquestra Barroca da Casa da Música no Porto, com o alemão Andreas Staier no cravo. É um concerto curto, de cerca de 5 minutos, com três andamentos:  Allegro, Adagio, e Giga allegro. Consta que Domenico Scarlatti, o famoso músico italiano que trabalhou na corte de D. João V, elogiou muito Carlos Seixas. Tinha para isso boas razões: Ouçam esta pérola musical do músico português!

4         Wolfgang Amadeus Mozart, Sinfonia n.º 40 em sol menor (1788), Orquestra  Filarmónica de Viena, dirigida por  Karl Bohm, 6’37.

 https://www.youtube.com/watch?v=nPbxIT9W1AY

Uma das viagens mais enriquecedoras que fiz na vida foi a Salzburg, à terra natal de Mozart. Se Bach era um génio, o austríaco Wolfgang Amadeus Mozart não lhe fica nada atrás. Génio precoce, morreu ainda mais novo do que Carlos Seixas, aos 35 anos, deixando-nos peças magistrais como esta Sinfonia n.º 40 em sol menor (que data de 1788), aqui tocada pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Karl Bohm. Fica o primeiro andamento, molto allegro. Há mais três andamentos de semelhante brilho. Os ouvintes podem procurá-los depois de ouvirem este intróito…

5         Haydn, Oratória, “A Criação” (excerto) (1798) “Mit Staunnen sieht das Wunderwer”, Elsa Dreisig , Orquestra Sinfónica de Berlim, dirigida por  Simon Rattle,  2’00

https://www.youtube.com/watch?v=Yj-dQ5rB3aM

O austríaco Joseph Haydn, mentor e amigo de Mozart, foi um dos mais prolíficos compositores de todos os tempos. Quando me pedem, por vezes, para ilustrar musicalmente o Big Bang, o início do mundo, escolho “A Criação”, de 1798, que começa com o caos primordial onde depois se faz luz. Proponho a ária “Mit Staunnen sieht das Wunderwerk”, “Com espanto vê a obra maravilhosa”, cantada pela jovem soprano franco-dinamarquesa Elsa Dreisig, acompanhada pela Orquestra Sinfónica de Berlim, dirigida pelo maestro Simon Rattle, no Festival de Lucerna, na Suíça, em 2017. Com espanto ouço esta obra maravilhosa. 

6         Giuseppe Verdi, “Va pensiero”, ou “Coro dos Escravos Hebreus”, da ópera “Nabucco” (1842),  Orquestra da Ópera Metropolitana de Nova Iorque (2001), dirigida por  James Levine, 5’15

https://www.youtube.com/watch?v=2VejTwFjwVI

Gosto de ópera. Rossini, Donizetti, Puccini, Wagner e outros que me perdoem, mas, para mim. o maior compositor de ópera de todos os tempos é o italiano Giuseppe Verdi. Escolhi um dos seus coros mais famosos: “Va pensiero”, em português “Vai pensamento", também chamado “Coro dos Escravos Hebreus”, da ópera “Nabucco” (1842), aqui na versão da Metropolitan Opera de Nova Iorque com a orquestra dirigida por James Levine. Quando Verdi morreu em 1901 foi-lhe feita uma grandiosa homenagem fúnebre com o maestro Arturo Toscanini a dirigir uma enorme orquestra que acompanhou um coro de mais de cem mil pessoas na rua em Milão. A versão que vamos ouvir foi cantada exactamente cem anos depois, em 2001, quando se assinalaram os cem anos da morte de Verdi. Verdi continua vivo entre nós através da sua música.

 

7         Franz Schubert, “Quinteto de cordas em dó maior” (1828), Quinteto de cordas  formado por Isaac Stern, Alexandre Schneider, Milton Katim, Pablo Casals e Paul Tortelier, final do allegretto 40’20 – 46’’.37 

https://www.youtube.com/watch?v=S3tmFhrOgNk 

Einstein tocava violino e Heisenberg tocava piano. Eu, físico bem mais modesto, não toco nenhum instrumento musical. Mas sei admirar a excelência dos grandes executantes. Para tocar a peça seguinte, de Franz Schubert, o terceiro austríaco do trio de ouro da música clássica vienense, formado por ele, por Haydn e por Mozart, juntaram-se em 1952 Isaac Stern e Alexandre Schneider (no violino), Milton Katims (na viola), e Pablo Casals e Paul Tortelier (no violoncelo) -  um verdadeiro quinteto de luxo. A peça é “Quinteto de cordas em dó maior” (de 1828). Vale a pena apreciar o virtuosismo dos músicos nos minutos finais do 4.º e último andamento, Allegreto. É raro um quinteto ter dois violoncelos como tem este, razão por que também se chama “quinteto dos violoncelos”. A gravação foi feita no Festival de Prades, nos Pirinéus Franceses, criado por Pablo Casals. Lembro que Casals foi companheiro da violoncelista portuguesa, nascida no Porto, Guilhermina Suggia.

8         Franz Lehár, “Lippen schweigen”, da opereta “Viúva Alegre” (1905), Diana Damrau e Jonas Kaufmann (tocada em 2015) ,  3’26

https://www.youtube.com/watch?v=vJL7r6Xa7Jk´

Lippen schweigen”, “Fechar os lábios” é uma ária do final do 3.º e último  acto da Viúva Alegre”, uma divertida opereta do compositor austro-húngaro Franz Lehár. Estreada em Viena em 1905, o ano da teoria da relatividade restrita de Einstein, a peça pertence à época dourada da opereta vienense. No enredo, várias pessoas tentam casar uma viúva rica para ficar com o seu património. Diz a letra da canção, cuja música lembra uma valsa: “Embora os lábios estejam fechados, os violinos sussurram:/ Cuida de mim!/ Todos os nossos passos de dança me dizem:/ Cuida de mim!” Aqui a gravação é de um espectáculo ao vivo em 2015 com a soprano Diana Damrau e o tenor Jonas Kaufmann, os dois alemães. Formam nesta música um par perfeito.

9         Richard Strauss,  “Assim falava Zarathusta” (início), 1’47

https://www.youtube.com/watch?v=dfe8tCcHnKY

Quando eu entrava na adolescência foi a época das missões Apollo da NASA, cujo destino era a Lua. A música que acompanhava as emissões da RTP da altura era “Assim falava  Zarathustra”, do alemão Richard Strauss, um poema sinfónico inspirado no livro do filósofo Friedrich Nietzsche com o mesmo título, que foi estreada em 1896 em Frankfurt, na Alemanha, a cidade onde fiz o doutoramento. Esta música é muito conhecida porque surge no filme “2001. Odisseia no Espaço” do realizador norte-americano Stanley Kubrick, estreado em 1968, um ano antes de Neil Armstrong e Buzz Aldrin terem pisado pela primeira vez o solo lunar. Ouçamo-la… Para mim é como voltar aos anos dourados da exploração espacial…

10     Gustav Holst, “Os Planetas” (1918). versão vocal de “Júpiter”, por Catherine Jenkins” (2018). 4’46

https://www.youtube.com/watch?v=2TdyNL0y0Jw

Depois da Lua, falemos de outros astros do sistema solar. O inglês Gustav Holst escreveu durante a 1.ª Guerra Mundial uma suite com sete movimentos alusiva a sete planetas do sistema solar: Marte, Vénus, Mercúrio, Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. Nessa altura ainda não se conhecia Plutão, que hoje nem sequer é planeta. Há pouco de científico nesta música: a influência de Holst era aliás mais astrológica do que astronómica, já que ele era dado ao misticismo. Vamos ouvir uma versão vocal de uma bela melodia do movimento de Júpiter, cantado aqui pela mezzo-soprano galesa Catherine Jenkins, num Concerto Promenade de 2018. Esta música, também chamada “World in Union” foi o hino da Taça de Mundo de Rugby realizada no Reino Unido em 1991. Ganhou a Austrália…

11      Kurt Weyl,  “Die Moritat von Mackie Messer”, cantada por  Ute Lemper, da “Ópera dos três vinténs” (1928)   3’06

https://www.youtube.com/watch?v=Vb7lmLuG6kE

Estudei, como já disse, em Frankfurt, no coração da Alemanha, onde pude assistir a peças do teatro musical do alemão Bertold Brecht. Uma delas é a “Ópera dos três vinténs”, musicada por outro alemão, Kurt Weyl,  que estreou em Berlim em 1928, entre as duas guerras mundiais. Vamos ouvir “Die Moritat von Mackie Messer”, a Balada de Mack the Knife. Esta música já foi cantada por Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong e Tom Waits, mas proponho a versão de uma artista alemã de que gosto e que já vi ao vivo em Portugal:  Ute Lemper. É, literalmente, a canção de um bandido. 

12     George Gerswin, área da ópera “Porgy and Bess” (1935), Orquestra Sinfónica de Berlim, dirigida por Simon Rattle (2012), 3’.05

https://www.youtube.com/watch?v=3EXndPGTPm0

Passei também um tempo da minha vida nos Estados Unidos. Não admira por isso que um dos compositores que mais admiro seja o norte-americano  George Gerswin, que viveu no início do século XX, tendo morrido com apenas 38 anos. Tenho muitos discos dele e é difícil a escolha. Escolhi um trecho da ópera “Porgy and Bess” (1935), tocada aqui pela Orquestra Sinfónica de Berlim, dirigida por Simon Rattle, sendo solistas  o baixo-barítono britânico Sir Willard White, a soprano Latonia Moore, e a mezzo-soprano Tichina Vaughn, as duas americanas. A ópera está baseada na vida dos negros americanos na Carolina do Sul nos anos 20. Eu vivi mais a Sul, em Nova Orleães, na Louisiana, mas nessa época a situação dos negros do Sul era semelhante.

JAZZ / POP

13     Frank Sinatra, “Night and Day” (1932, tocada em 1957), 4’02

https://www.youtube.com/watch?v=E10L8G67ozU

Há quem chame a Frank Sinatra “a voz”. Venha a nós a sua voz! Escolhi: "Night and Day”, uma canção escrita por Cole Porter em 1932 para o filme musical "The Gay Divorcee", “A alegre divorciada”, que mais tarde foi adaptado num filme homónimo interpretado por esse par extraordinário que foi formado por Fred Astaire e Ginger Rogers. A versão de Sinatra é de 1957, quando eu tinha apenas  um aninho. Não podia apreciar, mas agora posso. É uma das grandes canções de amor do reportório do século XX!

14     Ella Fitzgerald, “Blue Moon” (1934) , 3’17

 https://www.youtube.com/watch?v=dqwSde_eEv4

“Blue Moon” é um tema da música norte-americana que fala de um evento astronómico relativamente incomum, a Lua Azul. Chama-se assim a segunda lua cheia que acontece num mês: A última foi em 31 de Outubro passado e só volta a haver em 31 de Agosto de 2023. Escrita em 1934 pelos americanos  Richard Rodgers e Lorenz Hart, “Blue Moon” é outra canção clássica do século XX. Foi tal como “Night and Day” cantada por grandes artistas como Frank Sinatra, Billie Holiday  e Bob Dylan. Na cultura popular, já apareceu em filmes musicais como Grease e Blue Moon. É o hino do Manchester City, onde joga Bernardo Silva. Vamos ouvir na interpretação extraordinária de Ella Fitzgerald. Ela é ela e não há ninguém como ela!

15     Lady Gaga e Tony Bennett, “Cheek to cheek” (1935, tocada em 2011)  3’40

https://www.youtube.com/watch?v=ZPAmDULCVrU

“Cheek to Cheek” é uma canção escrita pelo compositor norte-americano de origem russa Irving Berlin para o filme musical de 1935 "Top Hat", “Chapéu alto”, que foi imortalizada com uma cena em que Fred Astaire e Ginger Rogers, de quem já aqui falei a propósito de “Blue Moon”, dançam ao som dos versos cantados pelo próprio Astaire.  Na versão que escolhi, mais recente,  o dueto vai ser entre a jovem Lady Gaga   e o veterano Tony Bennett (tem 94 anos, mais 60 anos do que Gaga). Não há diferença de idades no dueto! Nem esta canção mostra qualquer diferença de idade.

 6      Louis Armstrong, “April in Portugal” (1953) 2’55

   https://www.youtube.com/watch?v=UEx5Knw9_xY

Já aqui falei da estada científica que me foi dado fazer em Nova Orleães, a terra de Louis Armstrong, de alcunha Satchmo. De criança pobre de uma cidade do Sul subiu aos palcos de todo o mundo. Do seu enorme reportório escolhi a mais internacional das canções portuguesas, “Abril em Portugal” ou, no original,  “Coimbra”. A canção Coimbra é uma composição de Raul Ferrão com letra de José Galhardo. Surgiu pela primeira vez no filme “Capas Negras” (1947) protagonizado por Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro, onde é cantada por esta último. Amália faz de tricana e Alberto de estudante de Direito neste melodrama coimbrão. Mas foi a versão registada por Amália Rodrigues que o tornou um dos fados mais conhecidos internacionalmente. Aqui Armstrong, com o seu trompete e a sua voz, toca-a em 1953.

17     Louis Armstrong, “What a wonderful world” (1967), 3’ 36

 https://www.youtube.com/watch?v=2nGKqH26xlg

Volto a Louis Armstrong, o único artista que aqui repito. Escolhi a canção “What a wonderful world”, dos americanos Bob Thiele e George Weiss, que ele canta  com a sua voz inconfundível. Ouvi-lo-emos cantar após a sua introdução oral original de 1967. O tema visava contrariar o racismo nos Estados Unidos, que estava extremamente agudo no final dos anos 60. E ainda há casos de racismo como o de George Floyd no ano passado. A canção não teve êxito imediato nos Estados Unidos, mas foi um êxito estrondoso na Europa. Hoje é um clássico contemporâneo, uma bandeira de todos os que sonham com um mundo melhor, com o ser humano em harmonia consigo e com a Natureza.

18     Diana Krall, “Garota de Ipanema” (1962, tocada em 2009), 4’03

https://www.youtube.com/watch?v=T1S5BgZmyiY

"Garota de Ipanema" é uma canção brasileira de bossa nova que foi composta em 1962 por António Carlos Jobim, o maior nome da música popular brasileira, com base num poema de Vinicius de Moraes.  Eu já estive no Rio de Janeiro, no botequim que terá inspirado Jobim. Uma versão de 1964, gravada por Astrud Gilberto e Stan Getz nos Estados Unidos, tornou a canção um sucesso internacional. Proponho aqui uma versão em inglesa cantada ao vivo pela pianista e cantora canadiana Diana Krall num espectáculo em 2009.

19     The Beatles, “Hey Jude” (1968), 0,50- 8’00

    https://www.youtube.com/watch?v=A_MjCqQoLLA

Cresci no tempo dos Beatles. “Hey Jude" é uma canção desse grupo britânico composta por Paul McCartney, hoje com 78 anos, que integra o lado A do single “Hey Jude / Revolution” lançado pela Apple Records em 1968, o ano das revoltas estudantis. Apesar da longa duração do tema (mais de sete minutos, o que era incomum na época), foi um dos “singles” mais vendidos pelos Beatles. Vamos a ouvi-la aqui num espectáculo ao vivo na televisão britânica da época do disco em que os jovens Beatles põem toda a gente do estúdio a cantar com eles.

20     Elis Regina e Tom Jobim, “Águas de Março” (1974), 3’30

https://www.youtube.com/watch?v=E1tOV7y94DY

Volto à música brasileira e a Jobim. “Águas de Março" é uma famosa canção brasileira do compositor  António Carlos Jobim ou Tom Jobim, de 1972. Lançada inicialmente no disco “O Tom de Jobim e o Tal de João Bosco”, já foi considerada a melhor canção brasileira de todos os tempos. A versão que vamos ouvir é de 1974, o ano da Revolução de Abril em Portugal, e é um memorável dueto entre Elis Regina – grande voz! - e o próprio compositor Tom Jobim.

21     Whitney Houston, “Greatest Love of all” (1977)

https://www.youtube.com/watch?v=IYzlVDlE72w

A cantora norte-americana Whitney Houston, falecida em 2012, é a artista mais premiada de todos os tempos: recebeu Emmys, Grammys e tudo o mais que havia para receber. Tem vários temas, interpretados no seu estilo inigualável, que foram grandes êxitos mundiais: escolhi como exemplo da sua classe musical o original de 1977 “Greatest Love of All“, uma música que se ouve muito em minha casa. A letra começa assim “Acredito que as crianças são o nosso futuro e deixe-as conduzir o seu caminho”. Dedico-a, por isso, a todos os professores.

22     Rita Lee, “Amor e sexo” de “Balacobaco” (2003)

https://www.youtube.com/watch?v=ho-iGFctXe8

Eu gosto muito da brasileira, Rita Lee, a rainha do rock brasileiro”. “Balacobaco”, que significa no Brasil” Muito Bom”, foi o título de um seu álbum lançado em 2003. Uma das músicas muito boas que me ficou nos ouvidos, graças às suas numerosas passagens nas rádios, foi “Amor e Sexo”. Comprei logo o disco. A letra explica, para quem não saiba, a diferença entre os dois…

MÙSICA PORTUGUESA 

23.   Carlos do Carmo, “Pedra Filosofal” (1975), 5´18 

https://www.youtube.com/watch?v=2QMz6VwxZ8M

Sou um grande admirador da obra de Rómulo de Carvalho, o professor de Física que foi também poeta sob o nome de António Gedeão, além de divulgador e historiador da ciência. Em sua honra criei há 12 anos o Rómulo,  Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. “Pedra Filosofal” é um poema de Gedeão publicado no seu primeiro livro, “Movimento Perpétuo”, saído em Coimbra em 1956, quando Rómulo já tinha 50 anos e decidiu criar o pseudónimo de Gedeão. Nem a mulher sabia quem era Gedeão… Manuel Freire musicou o poema em 1970,  tornando-se um tema contra o regime então vigente. Passo aqui a versão de Carlos do Carmo, de 1975, em homenagem ao artista recentemente falecido.

24     Sérgio Godinho, “Com um brilhozinho nos olhos” (1981, tocada em 2020), 4’51 

https://www.youtube.com/watch?v=Gqea5-hrg6I

Tenho o gosto de conhecer pessoalmente um dos artistas portugueses que mais admiro, Sérgio Godinho, que além de músico é romancista, poeta, actor, etc.. “Canto da boca” foi o seu álbum lançado em 1981, que conheceu um grande e merecido sucesso. Tem lá dentro, entre outras pérolas como “É terça-feira”, e “Espalhem a Notícia”, uma canção que entrou no nosso imaginário colectivo:  "Com um brilhozinho nos olhos". Na versão que vamos ouvir o arranjo foi de Filipe Raposo (que está ao piano) para a Orquestra Metropolitana de Lisboa. O espectáculo de Sérgio Godinho teve lugar no Teatro de S. Luís em Lisboa (2020) e o disco saiu há pouco tempo.

25     Carlos Paredes, “Dança Palaciana”, Concerto em Frankfurt (1983), 2’01

https://www.youtube.com/watch?v=pVqmf1PRmGU

Já aqui falei do coimbrão Carlos Seixas, do século XVII. No século XX um outro grande artista de Coimbra foi Carlos Paredes, um virtuoso da guitarra portuguesa, cuja música levou aos quatro cantos do mundo. Em 1983 publicou o álbum ao vivo “Concerto em Frankfurt”, gravado na Ópera Antiga, em Frankfurt. Não pude assistir a esse espectáculo porque tinha saído de Frankfurt em Dezembro de 1982, após um doutoramento que demorou pouco mais de três anos. Desse disco proponho a escuta da melodiosa “Dança Palaciana”. 

26. Dulce Pontes, “Canção do Mar” (1993) 5’,16

https://www.youtube.com/watch?v=kVqbGQLF9To

97% de Portugal é mar, pelo que temos, como um poeta já disse, o mar nas veias. Dulce Pontes canta desde 1983 “Canção do Mar” escrita em 1955 Frederico de Brito (letra) e Ferrer Trindade (música), que foi cantada por Amália Rodrigues no filme “Os Amantes do Tejo” desse ano.  É uma das canções portuguesas mais conhecidas no estrangeiro graças não apenas a Amália, mas também a Dulce Pontes. Foi incluída no filme americano “A Raiz do Medo”, de 1996, com Richard Gere. E há várias versões internacionais… 

27     António Chainho e Marta Dias, “Fadinho Simples” (2003), 4´27´´

https://www.youtube.com/watch?v=v2nXJ-hgJDk

Outro grande guitarrista português é António Chaínho, que em Janeiro de 2003 gravou ao vivo um disco no Centro Cultural de Belém, “Ao Vivo no CCB”.  A cantora Marta Dias, uma portuguesa com origens em S. Tomé e Príncipe, que actuou com  Chaínho em digressões nacionais e internacionais,  acompanhou-o no CCB. Aqui Marta Dias interpreta o tema "Fadinho Simples", que tinha sido publicado no disco de Chainho “A Guitarra e outras mulheres”, de 1998. Tal como noutros temas anteriores, surgem na letra o sol e a lua. A música tende a reflectir o céu.

28     José Afonso, “Os índios da meia praia” , de álbum “Com as Minhas Tamanquinhas,” (1976) 3’42

https://www.youtube.com/watch?v=J7ntDFAF1AE

José Afonso é natural de Aveiro, mas passou por Coimbra. Um colega meu do Departamento de Física tocou com ele. Foi um grande criador de música portuguesa: escolhi, o tema "Os índios da Meia Praia" um tema de José Afonso, incluído no álbum “Com as Minhas Tamanquinhas,” lançado em 1976, nos anos quentes da Revolução de Abril, a que assisti como estudante universitário. Os “índios da meia-praia” eram os moradores do bairro 25 de Abril na Meia-Praia, em Lagos, que beneficiaram de apoios do SAAL, em 1974. A letra começa assim: “Aldeia da Meia-Praia / Ali mesmo ao pé de Lagos/ Vou fazer-te uma cantiga/ Da melhor que sei e faço.”  E não é que é mesmo do melhor que Zeca Afonso sabia e fez?!

29     Brigada Vítor Jara, “Ao Romper da Bela Aurora”, de “Eito Fora” (1977)

https://www.youtube.com/watch?v=_zxgNzS7NRA

Um grupo de Coimbra que marcou uma época da música popular portuguesa no pós 25 de Abril foi a Brigada Vítor Jara. Fundada em 1975, publicou dois anos depois o disco em vinil – não havia aliás CDs na época -  “Eito Fora – Cantares regionais“, de onde extraí este belo “Ao romper da bela aurora”, com letra e música popular da Beira Alta. A letra diz “Gosto de quem canta bem/ Que é uma prenda bonita/ Não empobrece ninguém / Assim como não enrica.” Pode não enriquecer os músicos, mas esta música enriquece-nos a todos.

30. “Alfama”, de “Lisbon Story” (1994), Madredeus  com  Teresa Salgueiro, 3’33

https://www.youtube.com/watch?v=E51Laabj7ZU

Só fui uma vez ao Japão, onde os portugueses chegaram em 1543. E entre os poucos discos de música portuguesa que lá encontrei estavam os do grupo “Madredeus”. Escolhi desse grupo o tema “Alfama” que aparece no filme “Lisbon story” ou “Viagem a Lisboa” de 1994, do realizador alemão Wim Wendres. A vocalista é Teresa Salgueiro. Escolhi-o como homenagem à cidade de Lisboa, onde nasci. É uma cidade com uma luz extraordinária onde gosto sempre de voltar.

31     Cristina Branco com Mário Laginha e a Frankfurt Radio Big Band, “Oh Laurinda Linda Linda” (2019) 6’38

https://www.youtube.com/watch?v=QjbClnL7KOI

Outra grande voz da moderna música portuguesa é Cristina Branco. Escolhi aqui uma sua interpretação jazzística do tema de música popular “Ó Laurinda, linda, linda”, uma canção recolhida em Monchique por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça.  Lembra-nos a enorme riqueza do nosso património musical. Cristina Branco é acompanhada por Mário Laginha no piano e pela Frankfurt Radio Big Band, numa gravação de 2019 feita na Alemanha para a Hessische Rundfunk, a Rádio do Estado do Hessen. Trago aqui esta interpretação como um exemplo de caldo de culturas.

Meu depoimento no Sol de hoje sobre o jardim da Praça do Império em Lisboa


Tendo em criança residido em Belém, o jardim da Praça do Império, em frente aos Jerónimos, foi o meu primeiro espaço de recreio. As minhas primeiras fortes recordações são a Fonte Luminosa, o eco no túnel por baixo da linha de Cascais e a Rosa dos Ventos junto ao Padrão dos Descobrimentos.

A Câmara de Lisboa, que anunciou, sem concretizar até agora, o Museu dos Descobrimentos, quer intervir naquele jardim, eliminando um conjunto de brasões vegetais relativos às ex-colónias. Na minha opinião, não devemos discricionariamente mexer em símbolos do passado, por muito odioso que este tenha sido (e, no caso do colonialismo, a violência foi inaudita). Não se deve apagar a memória, esteja esta gravada em pedra num belo mosteiro manuelino como os Jerónimos, num monumento do Estado Novo como o Padrão dos Descobrimentos ou num jardim que foi desenhado para combinar com a fonte brasonada no meio.

 Os jardins estão maltratados? Pois há que cuidar deles em vez de inventar jardins novos, fazendo remendos caprichosos nos que existem. Na mesma lógica de revisionismo da obra de Cottinelli Telmo, autor do jardim e do Padrão, poder-se-ia pensar em destruir a cidade universitária de Coimbra, também da sua autoria. Não corresponde aos gostos de hoje (eu não gosto!), mas já é património nacional. Ou em destruir em Coimbra o Portugal dos Pequenitos, de Cassiano Branco, também da mesma época.

 Não penso que todos os símbolos do passado sejam intocáveis, mas em casos como este as alterações devem ser consensuais, o que não é o caso.

A Playlist de... Carlos Fiolhais

A Playlist de...

Mensagens de vários passados: a pandemia esquecida e recordada


[Este escrito foi composto entre Abril e Junho de 2020 e ficou inédito. Assim ficaria, embora continue actual, se não fosse a evocação da tragédia de António Fragoso, lida num livro menos conhecido, a qual merece ser relembrada. É uma mensagem de dois passados: 1918 e 2020]

A epidemia de gripe de 1918, muito recordada atualmente, teve um enorme impacto nas autoridades sanitárias e ficou na memória coletiva, mas aparece pouco na literatura. Seabra e outros na Epidemia Esquecida (ICS, 2009) indicam que Vitorino Nemésio e Raul Brandão, entre outros, não a referem. Rómulo de Carvalho (pseudónimo de António Gedeão), sempre atento, nas Memórias (Gulbenkian, 2010) também não a parece indicar. Surge nos Novos Contos da Montanha, no conto “Renovo”, de Miguel Torga, assim como no livro de Leonardo Jorge, publicado no Brasil em 1968, António Fragoso: um génio feito Saudade (reeditado em 2018), em Amadeo (Circulo de Leitores, 1984) de Mário Cláudio, no Perfumista (Oficina do Livro, 2006) de Joaquim Mestre e em poucos mais. Daniel Melo refere que mais de metade dos romances históricos que envolvem essa época quase nada dizem sobre esta epidemia. E, no entanto, muitos, Torga e Jorge, em particular, assistiram a tragédias pungentes que dizimaram famílias inteiras. Jorge, filho de um médico de Cantanhede, a residir, por causa da epidemia, na Pocariça com seu avó, do Rio de Janeiro conta a memória da tragédia de António Fragoso e da sua família. Havia um ambiente de festa, a Pocariça parecia ser poupada e a família de Fragoso foi das mais visitadas. Mas, no espaço de alguns dias, morreram quatro dos cinco filhos do casal, António, Maria Leonor, Maria Isabel e Carlos. Só escapou Maria Fernanda, com três anos. Morreram também três parentes Elisa, Joana e a tia Corina, mulher de um professor de medicina do Porto, irmão do pai, dizendo, desesperada, que não queria morrer! O horror sentido por todos foi registado por Jorge e Torga e repetiu-se por todo o país. Os médicos impotentes, só davam conforto, mas havia falta destes. Foram registados mais de cem telegramas dos responsáveis. Apesar da censura, nos jornais havia relatos pungentes. Mas, com o fim da guerra, a crise financeira e muitas outras epidemias, a pneumónica raramente foi capa. E, no entanto, esta foi provavelmente mais mortífera do que as duas guerras mundiais e serve de estudo e referência para as epidemias de gripe.

O que tornava a pneumónica terrível era matar sobretudo as pessoas na força da idade. Não há referências literárias ou artísticas dos próprios, como na tuberculose ou na sífilis, porque estes morriam rapidamente e surpresos. Rostand (1868-1918), conhecido pela peça Cyrano de Bergerac, Guillaume Apollinaire (1880-1918), o príncipe Savoy-Aosta (1888-1918) e Egon Schiele (1890-1918), por exemplo. Por aqui morreram João Lúcio [Pousão Pereira] (1880 – 1918), Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918), José de Freitas Pimentel (1894-1920) e António de Lima Fragoso (1897-1918), alguns já referidos, alguns dos pastorinhos de Fátima, entre muitos outros.

É interessante ver que medicamentos tinham e o que faziam em 1918. Usavam da quarentena, isolamento e higiene, como atualmente, mas havia coisas que não tinham. Ainda não tinham sido inventados os ventiladores e a maior parte dos medicamentos (que eram poucos) eram fabricados nas farmácias.

Este tipo de problemas só pode ser resolvido com mais ciência. Mais tarde ou mais cedo, vamos ter vacinas e medicamentos. Há universidades e companhias a testá-los. Chegámos a fases clínicas [isto foi escrito entre abril e junho de 2020]. A literatura ajuda-nos a perceber como funciona mas conta também histórias de ficção arrepiantes e distorcidas. Gostamos assim: a ficção ser mais arrepiante e tenebrosa do que a realidade. No livro A invenção da Gripe (Terramar, 2010), A. Travers refere as guerras das farmacêuticas, com as suas  vacinas e medicamentos, a propósito da crise da gripe A/H1N1, em 2009. Os nomes são diferentes, mas quase os mesmos. Esta história tem terroristas de muitas nacionalidades, cartéis de droga, raptos e as coisas usuais. Sempre me espantou que as pessoas acreditassem que os livros relatassem a realidade como ela é. Os livros podem ser muito melhores! Retratam as coisas como achamos que elas são e ao mesmo tempo permitem-nos viajar e pensar. Têm muitos aspetos reais e realistas mas são ficção. Em O Fiel Jardineiro (D. Quixote, 2001), de John le Carré, que deu um filme com o mesmo nome, o fundo é verdadeiro, mas não as ações, obviamente. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

ASSASSINOS DA SAÚDE PÚBLICA À SOLTA!


Acabo de ler que os participantes da festança que, ontem, juntou dezenas de pessoas num restaurante de Lisboa, cantaram "Grândola Vila Morena"! Ilação a tirar: aproxima-se o 25 de Abril, há que tomar medidas enérgicas contra quaisquer manifestações políticas futuras deste género. Aliás, a percentagem de pessoas que no passado contraíram o coronavírus tem coincidido com Festivais do PCP. 

Foram os participantes do almoço supra citado apenas multados como se as vidas que fizeram perigar tivesse o valor de simples euros! Situações destas deveriam merecer prisão efectiva porque, para grandes males grandes remédios, nunca por nunca ser, simples aspirinas. Com desculpas de mau pagador, mesmo que em promessas, com as mãos atrás das costas a fazerem figas, devem ser tomadas todas as medidas preventivas não devendo ser permitidas aglomerações de pessoas que o passado demonstrou porem o partido à frente de tudo. 

E de todos! E, porque o passado deve ser um meio de encarar o presente e prever o futuro, devemos ter sempre presente, o dito de Estaline: "A morte de um homem é uma tragédia, a morte de um milhão é uma estatística!" Em nome de milhões de portugueses que prezam a sua vida e dos seus familiares não se permita mais mortes de pessoas que sacrificaram a sua saúde mental em cumprimento das regras do confinamento, sem verem, abraçarem e beijarem os seus entes mais queridos e amados. 

E, principalmente, honrando o sacrifício colossal dos profissionais de Saúde, médicos. enfermeiros e pessoal auxiliar, que arriscam a vida para salvarem vidas! Senhores do Governo não permitam esta espécie de crime que faz, outro tanto, perigar a vida económica do país. Crime que, adicionado à corrupção do uso indevido das vacinas, diria mesmo de lesa pátria. Tão responsável é quem toma estas inclassificáveis atitudes como quem as consente! Senhores governantes e políticos deste país, já chega de porreirismo nacional de "laissez faire, laissez passer".

Há que cuidar dos vivos para não enterrar os seus cadáveres! E porque "mais vale prevenir que remediar", aqui deixo esta minha advertência para não voltarmos à época gonçalvista de ser o "povo quem mais ordena"! O povo só deve ordenar quando deita o seu voto em urnas de eleições democráticas!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

"Eça de Queirós e a ciência do seu tempo" no Rómulo, no dia 16 de Fevereiro, 18h


 Dia 16 de Fevereiro às 18h, realiza-se via Plataforma Zoom, a palestra intitulada "Eça de Queirós e a ciência do seu tempo" com Maria Helena Santana, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e coordenadora do Grupo de investigação “Património Literário” do Centro de Literatura Portuguesa.

Sessão inserida no ciclo "Ciência às Seis" online, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, coordenado por Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade.

Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição. No fim da apresentação do orador, os participantes poderão colocar questões e fazer comentários.

Acesso à sessão no Zoom:  https://videoconf-colibri.zoom.us/j/88683469290

ou ID da reunião: 886 8346 9290

Resumo da Palestra:

O século XIX acolheu o Positivismo como ideologia dominante, assente no valor do conhecimento e do progresso da Ciência. A Literatura quis-se associar ao novo paradigma, criando romances “científicos”. Abordar-se-á esta problemática incidindo na obra de Eça de Queirós, cuja perspetiva evoluiu ao longo do tempo.

Biografia:

Maria Helena Santana é professora associada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Faz parte do Centro de Literatura Portuguesa, onde coordena o Grupo de investigação “Património Literário”. Tem-se dedicado à narrativa moderna e contemporânea, em particular ao romance do século XIX e à história cultural deste período. Publicou, entre outros trabalhos, o livro Literatura e Ciência na ficção do século XIX - A narrativa naturalista e pós-naturalista portuguesa (2007).

Evento no Facebook

MARIA FILOMENA MÓNICA E O SEU PAÍS


Minha recensão no I de hoje:

Quando, em 2014. me foi dado dizer, no Centro Cultural de Belém, umas palavras de apresentação do livro A Sala de Aula, de Maria Filomena Mónica (MFM), publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, comecei por referir a numerosa bibliografia da autora. Para o provar, enchi uma mochila com livros da sua autoria, que retirei da minha estante (não os levei todos porque não cabiam!), e fui-os acumulando na mesa à minha frente. Julgo que o momento foi gravado em vídeo, com a autora a ficar cada vez mais escondida pela montanha de livros!

No último livro de MFM, O Meu País. Notas sobre o Nacionalismo, saído em Novembro na Relógio d’Água, diz a badana que ela é autora de mais de duas dezenas de livros. Sendo verdade, não diz a verdade toda. Pelas minhas contas são mais de cinco dezenas, tendo eu pena de não ter a colecção completa. Ainda não consegui encontrar o primeiro, Educação e Sociedade no Portugal de Salazar (Presença, 1978), que é a tese em Sociologia que defendeu na Universidade de Oxford em 1978. MFM, licenciada em Filosofia na Universidade de Lisboa em 1969, é hoje investigadora emérita do Instituto de Ciências Sociais desta universidade.

A escola é uma das preocupações de MFM, um interesse que terá a ver com a sua formação académica em sociologia da educação. Sobre ela escreveu Vale a Pena Mandar os Filhos para a Escola? (Relógio d'Água, 2008) e Os Filhos de Rousseau (Relógio d'Água, 1997), onde contestou a teoria do construtivismo social que ganhou força entre nós, que é aparentada às ideias pós-modernistas. Na apresentação do livro enfatizei a originalidade da ideia de MFM, que consistia em dar voz directamente aos professores. Ela pediu a alguns deles que escrevessem diários da sala de aula garantindo-lhes o anonimato (era uma espécie de câmara oculta na sala de aula). A conclusão era que existia um clima de indisciplina, fruto da falta de autoridade dos professores, a qual, pelo menos em parte, tem a ver com a “centralidade no aluno” que aquelas doutrinas apregoam. O professor não tem por missão ensinar, mas apenas deve ser um “facilitador da aprendizagem” (sic).

MFM é uma das mais lúcidas observadoras da realidade portuguesa que ela conhece bem não só pela sua experiência de vida (nasceu em 1943 em Lisboa, com raízes em Ferreira do Zêzere), mas também por ter estudado a fundo a sua história mais recente. É autora de vários livros sobre os séculos XIX e XX portugueses: saliento as biografias de D. Pedro V (Temas e Debates, 2007), de Fontes Pereira de Melo (Afrontamento, 1999; reedição Alêtheia, 2009) e da família açoriana dos Cantos (Alêtheia, 2010, reedição 2018). Conhece a literatura desses séculos: a sua predilecção incide sobre Eça de Queiroz, de quem escreveu uma biografia (Quetzal, 2001; reedição, 2009) e cujas Farpas (Principia, 2004; reedição, 2013), escritas a meias com Ramalho Ortigão, editou. Como socióloga interessa-lhe a questão das desigualdades na sociedade portuguesa: escreveu sobre os dois extremos da escala social: duas das suas últimas obras são Os Pobres (A Esfera dos Livros, 2016) e Os Ricos (A Esfera dos Livros, 2018).

Porém, uma boa porção dos seus escritos são de pendor opinativo  e autobiográfico,  que têm proporcionado sucessivas recolhas de crónicas saídas em jornais nacionais.  A última é: Nunca Dancei num Coreto, Crónicas do Expresso (Relógio d'Água, 2018). Publicou as memórias aos 52 anos: Bilhete de Identidade, Memórias 1943-1976 (Alêtheia, 2005; reedição 2017) causou polémica pelo desassombro pouco habitual entre nós. Como MFM já viveu muito mais, talvez pudesse pensar na continuação dessas memórias.

Vou focar-me no último livro de MFM. O título O Meu País tinha sido também o título do primeiro capítulo de A Minha Europa (A Esfera dos Livros, 2015), obra em que ela abria e fechava no mesmo tom autobiográfico. Começava assim: “Quando nasci, a Europa estava em guerra, mas o meu país não. Quando atingi a idade da razão, a Europa desenvolvia-se, mas nós não”.  Agora começa: “A minha terra é Lisboa. Não considero que seja a melhor cidade do país, nem muito menos do mundo. Mas foi aqui que vivi e foi aqui que cresci. Gosto dos bairros onde vivi e de quem neles habitou”.

A obra, tal como o título indica, é um olhar sobre Portugal que parte de dentro, em contraponto com o olhar externo que está materializado no recente livro O Olhar do Outro (Relógio d’Água, 2020), onde MFM compila depoimentos sobre estrangeiros que visitaram o nosso país. No novo livro, embora o olhar da autora seja, como é seu costume, central (o título do livro não engana!), o recurso a depoimentos de estrangeiros é abundante. De facto, concordo com ela, só poderemos conhecer quem somos se acrescentarmos ao nosso olhar os dos outros, pois o nosso olhar está fortemente enviesado pela nossa cultura. Desculpamos coisas que os outros não desculpam.

Como leit motiv de toda a obra está a questão do nacionalismo e do patriotismo. MFM diz no final que descobriu a diferença, achando o nacionalismo uma coisa má e o patriotismo uma coisa: «Foi ao escrever este livro que compreendi serem o nacionalismo e o patriotismo coisas diferentes: o primeiro é inseparável do desejo de poder, enquanto o segundo é meramente defensivo. O facto de a minha pátria ser Portugal não me leva a pensar que seja a melhor do mundo: reconheço tão-só que foi aqui que nasci, foi aqui que cresci, foi aqui que tive filhos e netos. E agora, que me foge a curta vida, gosto mais dela porque finalmente me deu a oportunidade de pensar, falar e escrever livremente.”

A sua síntese histórica sobre Portugal e a portugalidade começa em 1848, quando ocorreram na Europa as revoluções nacionalistas que ficaram conhecidas por “Primavera dos Povos”. A autora não se perde a discutir teorias histórico-filosóficas sobre o nacionalismo (algumas muito interessantes, vejam-se O Mito das Nações, de Patrick Geary, 2008, e Nações e Nacionalismos, de Ernest Gellner, 1993, ambos publicados pela Gradiva), mas faz, nos sete capítulos que medeiam entre a introdução e a conclusão, uma sinopse da história pátria desde 1848 até 1985, quando Mário Soares assinou no mosteiro dos Jerónimos a entrada do país na CEE. Em 1848 já tinha terminado entre nós a revolta de Maria da Fonte contra Costa Cabral, mas ainda não tinha entrado triunfalmente em Lisboa o Duque de Saldanha, iniciando a Regeneração, período no qual Fontes Pereira de Melo pontificou nas obras públicas.

No capítulo 1, MFM discorre sobre a identidade nacional, citando, entre outros, autores como Eduardo Lourenço, José Gil e Onésimo Teotónio Almeida. No capítulo 2, descreve a preferência de alguns intelectuais lusos sobre uma aliança estrangeira, com a Espanha, com a qual existe proximidade geográfica, ou com a Inglaterra, com quem celebrámos o tratado de Windsor, um dos mais antigos tratados políticos do mundo. Antero de Quental, que achava a decadência um problema comum da Ibéria, foi um dos autores que defendeu a União Ibérica. MFM prefere claramente Eça de Queiroz, mais dado aos ares para lá dos Pirinéus. Diverti-me imenso a reler uns excertos de Eça judiciosamente escolhidos pela autora.

A nossa explosão nacionalista é descrita no capítulo 3. Em 1890 ergueu-se um clamor nacional contra a Inglaterra, a velha aliada que tinha  humilhado Portugal ao exigir a retirada dos ocupantes portugueses de terras entre Angola e Moçambique  marcadas no “mapa cor-de-rosa”.  A nação cedeu, apesar dos gritos de indignação. A voz mais clarividente foi então, mais uma vez, a de Eça, que tinha sido cônsul em Bristol. Lembro que o hino nacional surgiu nessa altura de brado contra os “bretões”; que, em Angola, o explorador Silva Porto se imolou embrulhado na bandeira nacional; e que foi feita uma subscrição nacional para adquirir uma embarcação de guerra, que reforçasse a nossa depauperada marinha. No capítulo 4 MFM fala da agonia do regime monárquico: a sucessão de governos, o descalabro financeiro, o assassinato do rei D. Carlos e, finalmente, a revolução republicana, na qual bastaram poucos militares para que a coroa caísse.

O capítulo 5 trata a 1.ª República. O resumo não é famoso: “Ao fim de 16 anos de vigência, a República estava desacreditada. Enquanto durou existiram oito Presidentes da República, 45 governos, uma Junta Constitucional e uma Junta Revolucionária.” Fará em Outubro cem anos que ocorreu a “noite sangrenta”, na qual foi assassinado o primeiro-ministro António Granjo. O capítulo 6 aborda o “Estado Novo”, o regime do “orgulhosamente sós”, que MFM viveu na sua juventude e que a guerra colonial fez colapsar. E, no capítulo seguinte, é apresentada a Revolução dos Cravos, de que ela, no Largo do Carmo, foi  testemunha ocular.

O estilo de MFM prima pela clareza. Em contraste com a pena de alguns literatos nacionais, diz em frases curtas o que tem a dizer, na boa tradição anglo-saxónica. Vem daí, em boa parte, o seu êxito jornalístico e editorial. Não há entre nós muita gente a dizer o que pensa de uma maneira clara, pois ou dizem o que pensam de uma maneira obscura ou dizem o que pensam os outros, obscurecendo-o. O estilo de MFM pode ser exemplificado por uma frase tão simples e directa como esta: “Eu queria pertencer à civilização europeia, queria viver num país mais justo e, acima de tudo, queria ser livre”. Não são precisos rodriguinhos para se ser grandiloquente.

 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A MINHA OPINIÃO SOBRE A ILEGALIZAÇÃO DO CHEGA

“Acho que se não pode criar em nome do antifascismo uma nova forma de fascismo” (Sophia de Mello Breyner).

A democracia perfeita é uma utopia. Não existe. Reconheceu o próprio Churchill: “A democracia é a pior forma de governo com excepção de todas as outras”. Esse o drama. Serão o PCP e o Bloco de Esquerda mais democratas do que o Chega no futuro? Essa é a minha duvida até porque, cedendo a palavra a Mark Twain, “a profecia é algo muito difícil principalmente em relação ao futuro”.

O PCP durante a época gonçalvista deu provas de querer implantar em Portugal um comunismo do tipo soviético. As forças democráticas a isso se opuseram. Hoje em dia, o PCP em termos estatísticos é uma sombra do que foi, embora tenha um secretário-geral simpático  e de rosto humano: Jerónimo de Sousa.

Eu sei do que falo por experiência própria por ter vindo de Moçambique para Portugal empurrado pelos ventos da descolonização. Para evitar suposições, desde já, declaro que não estou filiado no Chega por não ter por hábito passar cheques em branco. Nem, muito menos, tenho o hábito de retirar às pessoas o direito de defenderem o princípio sagrado de se expressarem politicamente. Passado o chamado “verão quente” ninguém se arrojou a exigir a ilegalização, por exemplo, do MRPP, onde militava Ana Gomes.

Porquê então tratar, desse modo, o Chega por simples "achismo" tão ao gosto nacional? Na campanha para a Presidência da República nem o André Ventura nem Ana Gomes fizeram uso de linguagem civilizada no esquecimento de que “aquele que luta contra monstros deve ter muito cuidado para não se transformar também ele num monstro", como defendeu Nietzche.

Mas isto é um assunto que muita água fará ainda correr por baixo da ponte da discórdia. Vejamos o que nos espera numa democracia em que as recentes eleições para a Presidência da República trouxeram à tona de água os resultados obtidos numa espécie de competição que Ana Gomes quer ganhar não nas urnas, mas em contestação de uma legalidade já conferida.

DEMOCRAGIA E LIBERDADE

 Esclarecimento recebido de Eugénio Lisboa relativo ao seu texto anterior:

Há quem tenha ficado muito perturbado por, na minha crónica anterior, ter admitido que a democracia, para sobreviver saudavelmente, não o pode fazer sem limitar certas liberdades. 

Porém, se democracia fosse o uso ilimitado da liberdade, sem quaisquer constrangimentos, isso significaria a anarquia e a rápida destruição da democracia e da ordem social. A democracia, para preservar o benefício de uma sociedade tão livre e ordenada quanto possível, tem de suprimir um número muito grande de liberdades. E tem-no feito e continuará a fazê-lo.

Por exemplo, numa democracia adulta, ninguém é livre de não mandar os filhos à escola; nem de matar ou roubar; nem de fumar onde lhe aprouver; nem de conduzir um automóvel acima de uma certa velocidade; nem de incitar ao crime ou à insurreição; nem de praticar incesto; nem de bater na mulher… 

A democracia está cheia de limites à liberdade para se poder preservar a si e ao máximo de liberdades possíveis. Uma das liberdades importantes que a democracia preserva até aos limites da difamação é a liberdade de expressão. E só as democracias a preservam, na sua máxima extensão. Democracia não é nem pode ser liberdade irrestrita. Atacá-la por ela reconhecer e respeitar os seus limites, só por demagogia e má fé. 

Os verdadeiros democratas são humildes, reconhecem os seus limites e fogem de certezas absolutas como da peste. Os demagogos vivem contentes na babugem das suas certezas e prometem irresponsavelmente a lua. Bertrand Russell, campeão do pensamento lúcido e do estilo cristalino, dava-nos esta medalha de valor não efémero: “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as pessoas idiotas estão cheias de certezas.” 

As democracias conhecem os seus limites mas conhecem também os seus valores sagrados. As democracias, sendo vulneráveis aos inimigos dela, devem, pois, saber defender-se, com decisão, dos que querem destruí-la, aproveitando as suas portas abertas. As democracias devem fazê-los achar-se ao engano: em vez de lhes permitir um passeio fácil por entre um monte de ruínas, deve cortar-lhe o caminho, com um escudo forte que diz: “Não passarás: aqui termina a liberdade que tinhas!”

Se a democracia tiver complexos de inferioridade quanto às suas limitações e abrir as portas aos inimigos dela, será cúmplice da sua própria destruição. É com essa fraqueza que contam os aspirantes a gauleiter. Há que recusar-lhes a vitória, mostrando-lhes que a liberdade também sabe ser forte. Que nela partam os dentes os demagogos sedentos de poder, são os desejos sinceros de qualquer bom democrata. Os democratas sabem isto que Jean Rostand tão bem condensou num aforismo admirável: “Ter um espírito aberto não é tê-lo escancarado a todas as tolices.” 

 Eugénio Lisboa 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A CRÍTICA DE ANTÓNIO BARRETO AOS REVISORES DA HISTÓRIA

“Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação (António Barreto).

Numa altura em que o patriotismo (ou seja, o amor ao país onde se nasce e se vive) sofre tratos de polé, a ponto de Cunhal ter tido Moscovo como o Sol do mundo, quiçá em inspiração de Karl Marx que afirmou os operários não terem pátria, o sociólogo António Barreto, deve ser lido, discutido mas, essencialmente, meditado para que a portugalidade  não seja letra morta caindo  no esquecimento das gerações vindouras.

Aliás, o conceito de pátria tem conceitos diferentes consoante as ideologias professadas e dos tempos decorrentes. Assim, para Benjamim Franklin, a pátria é “onde mora a liberdade” e, segundo Karl Marx, “os operários não têm pátria”.

Mas onde a situação se torna escandalosa, tenho-a no facto do socialista Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, ter uma obra orçamentada em 778 mil euros (em moeda antiga, 155.000 contos) para a jardinagem da Praça do Império sem os brasões que a ornamentam em lembrança histórica.

Não haverá uma obra meritória como por exemplo, aplicar essa quantia no Serviço Nacional  de Saúde, num país em crise económica e humanitária vigente de proporções futuras inimagináveis? Medina deve explicar aos portugueses, que se têm manifestado contra esta medida, a razão desta obra que brada aos céus!

Passo a transcrever, ”verbo pro verbo”, o artigo de António Barreto (14/05/1020):  

«É triste confessar, mas ainda estamos para ver até onde vão os revisores da História. Uma coisa é certa: com a ajuda dos movimentos anti-racistas, a colaboração de esquerdistas, a covardia de tanta gente de bem e o metabolismo habitual dos reaccionários, o movimento de correcção da História veio para ficar.

Serão anos de destruição de símbolos, de substituição de heróis, de censura de livros e de demolição de esculturas. Até de rectificação de monumentos. Além da revisão de programas escolares e da reescrita de manuais.

Tudo, com a consequente censura de livros considerados impróprios, seguida da substituição por novos livros estimados científicos, objectivos, democráticos e igualitários. A pujança deste movimento através do mundo é tal que nada conseguirá temperar os ânimos triunfadores dos novos censores, transformados em juízes da moral e árbitros da História.

Serão criadas comissões de correcção, com a missão de rever os manuais de História (e outras disciplinas sensíveis como o Português, a Literatura, a Geografia, o Meio Ambiente, as Relações Internacionais…), a fim de expurgar a visão bondosa do colonialismo, as interpretações glorificadoras dos descobrimentos e os símbolos de domínio branco, cristão, europeu e capitalista.

Comissões purificadoras procederão ao inventário das ruas e locais que devem mudar de nome, porque glorificam o papel dos colonialistas e dos traficantes de escravos. Farão ainda o levantamento das obras de arte públicas que prestam homenagem à política imperialista, assim como aos seus agentes. Já começou, aliás, com a substituição do Museu dos Descobrimentos pelo Memorial da Escravatura.

Teremos autoridades que tudo farão para retirar os objectos antes que as hordas cheguem e será o máximo de coragem de que serão capazes. Alguns concordarão com o seu depósito em pavilhões de sucata. Outros ainda deixarão destruir, gesto que incluirão na pasta de problemas resolvidos.

Entretanto, os Centros Comerciais Colombo e Vasco da Gama esperam pela hora fatal da mudança de nome.

Praças, ruas e avenidas das Descobertas, dos Descobrimentos e dos Navegantes, que abundam em Portugal, serão brevemente mudadas.

Preparemo-nos, pois, para remover monumentos com Albuquerque, Gama, Dias, Cão, Cabral, Magalhães e outros, além de, evidentemente, o Infante D. Henrique, o primeiro a passar no cadafalso. Luís de Camões e Fernando Pessoa terão o devido óbito. Os que cantaram os feitos dos exploradores e dos negreiros são tão perniciosos quanto os próprios. Talvez até mais, pois forjaram a identidade e deram sentido aos mitos da nação valente e imortal.

Esperemos para liquidar a toponímia que aluda a Serpa Pinto, Ivens, Capelo e Mouzinho, heróis entre os mais recentes facínoras. Sem esquecer, seguramente, uns notáveis heróis do colonialismo, Kaúlza de Arriaga, Costa Gomes, António de Spínola, Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de Carvalho, Mário Tomé e Vasco Lourenço.

Não serão esquecidos os cineastas, compositores, pintores, escultores, escritores e arquitectos que, nas suas obras, elogiaram os colonialistas, cúmplices da escravatura, do genocídio e do racismo. Filmes e livros serão retirados do mercado.

Pinturas murais, azulejos, esculturas, baixos-relevos, frescos e painéis de todas as espécies serão destruídos ou cobertos de cal e ácido. Outras comissões terão o encargo de proceder ao levantamento das obras de arte e do património com origem na África, na Ásia e na América Latina e que se encontram em Portugal, em mãos privadas ou em instituições públicas, a fim de as remeter prontamente aos países donde são provenientes.

Os principais monumentos erectos em homenagem à expansão, a começar pelos Jerónimos e pela Torre de Belém, serão restaurados com o cuidado de lhes retirar os elementos de identidade colonialista. Os memoriais de homenagem aos mortos em guerras do Ultramar serão reconstruídos a fim de serem transformados em edifícios de denúncia do racismo. Não há liberdade nem igualdade enquanto estes símbolos sobreviverem.

Muitos pensam que a História é feita de progresso e desenvolvimento. De crescimento e melhoramento. Esperam que se caminhe do preconceito para o rigor. Do mito para o facto. Da submissão para a liberdade.

Infelizmente, tal não é verdade. Não é sempre verdade. Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

E, se quisermos ir mais longe no tempo, não faltam exemplos. Quando os revolucionários franceses rebaptizaram a Catedral de Estrasburgo, passando a designá-la por Templo da Razão, não estavam a aumentar o grau de racionalidade das sociedades. Quando o altar-mor de Notre Dame foi chamado de Altar da Liberdade caminharam alegremente da superstição para o preconceito.

E quando os bolchevistas ocuparam a Catedral de Kazab, em São Petersburgo e apelidaram o edifício de Museu das Religiões e do Ateísmo, não procuravam certamente a liberdade e o pluralismo. E também podemos convocar os Iconoclastas de Istambul, os Daesh de Palmira ou os Taliban de Bamiyan que destruíram símbolos, combateram a religião e tentaram apropriar-se tanto do presente como do passado.

Os senhores do seu tempo, monarcas, generais, bispos, políticos, capitalistas, deputados e sindicalistas gostam de marcar a sociedade, romper com o passado e afastar fantasmas. Deuses e comendadores, santos e revolucionários, habitam os seus pesadelos. Quem quer exercer o poder sobre o presente tem de destruir o passado.

Muitos de nós pensávamos, há cinquenta anos, que era necessário rever os manuais, repensar os mitos, submeter as crenças à prova do estudo, lutar contra a proclamação autoritária e defender com todas as forças o debate livre.

É possível que, a muitos, tenha ocorrido que faltava substituir uma ortodoxia dogmática por outra. Mas, para outros, o espírito era o de confronto de ideias, de debate permanente e de submissão à crítica pública.

O que hoje se receia é a nova dogmática feita de novos preconceitos. Não tenhamos ilusões.

Se as democracias não souberem resistir a esta espécie de vaga que se denomina libertadora e igualitária, mergulharão rapidamente em novas eras obscurantistas.»

Praza a Deus que Medina, em fúria iconoclasta, não tenha a ideia luminosa de destruir o brasão em pedra do Arco da Rua Augusta, em Lisboa, mandando construir, em seu lugar,  um mamarracho qualquer. Valha-nos um momento de  bom senso na sua cabeça. Será que posso acreditar nesse milagre?!

CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO: CARLOS FORTUNA fala sobre AS NOVAS CIDADE


Realiza-se na terça-feira, dia 9 de Fevereiro 2021, pelas 18 horas, a palestra intitulada "Sociologia das Outras Cidades", inserida no ciclo agora em curso “Ciência às Seis! (temporada 5)”, com a coordenação de Carlos Fiolhais e a colaboração de António Piedade. O evento on line destina-se a todo o público. Será palestrante Carlos Fortuna, Professor de Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais.

Para aceder à sessão via zoom bastará entrar no evento criado no Site e no Facebook.

Ou Entrar na reunião Zoom
https://videoconf-colibri.zoom.us/j/86321433577
ID da reunião: 863 2143 3577

Resumo:

As outras cidades são os territórios diferentes que a sociologia e as outras ciências sociais ignoram ou são incapazes de entender. São as cidades de configurações socio-económicas e políticas que não as figurino urbano não-ocidental e que crescem às avessas do que a disc
iplina tomou como padrão. São também as cidades do sensível, do imaterial e de tudo que a cegueira epistémica da sociologia "não deixa ler". São ainda os lugares que a pandemia devassou e que tantos ensaiam reabilitar. A sociologia também. O sucesso desses desígnios será tanto maior quanto mais nos facilitar viver urbanidades diferentes, mais consentâneas com as de outras cidades.

Biografia:

Carlos Fortuna fez o doutoramento em Sociologia (na State University of New York - Binghamton - 1989), é Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Investigador Permanente do Centro de Estudos Sociais. Tem sido coordenador científico dos Programas de Doutoramento em "Sociologia" e em "Sociologia: Cidades e Culturas Urbanas". As suas áreas de interesse são: Culturas Urbanas; Turismo, Patrimónios e Memórias; Identidades e Imagens das Cidades; A Cidade dos Sentidos. É autor de vários livros, sendo as suas publicações mais recentes são: “Cidades e Urbanidades” (Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2020),  "Simmel: A Estética e a Cidade" (Coimbra, Imprensa da Universidade,2010) (Org.); Diálogos Urbanos (Coimbra, Almedina, 2013) (Org.), Cultura, Formação e Cidadania (Lisboa, GEPAC; 2015) (vários autores).

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Romuloccvuc

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