terça-feira, 12 de maio de 2020

DIA DA EUROPA

A propósito do Dia da Europa, celebrado no passado dia 9 de maio, a Casa da Comarca da Sertã convidou o Professor José Eduardo Franco (Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes | Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização), para uma conversa online, dia 12 de maio (terça-feira).

 A sessão será transmitida em direto no Youtube, a partir das 18h30, através do seguinte link:
https://youtu.be/_lcPLaeCnmM.

José Eduardo Franco, historiador e investigador, lançou recentemente o livro A Europa ao Espelho de Portugal: Ideia(s) de Europa na Cultura Portuguesa (edição: Temas e Debates), onde reflete com profundidade sobre a temática da Europa, a partir da perspetiva lusa, fornecendo um contributo atual para o conhecimento deste tema.

Sobre o livro: https://www.wook.pt/livro/a-europa-ao-espelho-de-portugal-jose-eduardo-franco/23372452

NOVIDADES DOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível nas lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas Supplementum” [Estudos]

 - Maria de Fátima Silva, Maria das G. de Moraes Augusto & Maria do Céu Fialho (eds.), Casas, património, civilização. Nomos versus Physis no pensamento grego (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019). 390 p.

[Esta reflexão sobre dois conceitos, baseada em abordagens literárias e filosóficas, produziu um corpus de textos, capaz de retomar, com uma focagem multidisciplinar, a famosa antítese que animou amplas discussões desde a Antiguidade, com origem na Atenas clássica, uma época de luzes que havia de marcar todo o pensamento ocidental ao longo de milénios. Por isso, ainda que assumindo como ponto de partida os argumentos em que assentou, no passado, a discussão dos dois conceitos – nómos vs phýsis –, o espaço de reflexão se tenha aberto ao estudo da sua transmissão e recepção, reconhecendo a essa polémica uma indispensável diacronia.]

Série “Documentos” [Edição de Fontes e Estudo]

- Helena Costa Toipa, Rainha Santa Isabel: fontes para o seu estudo (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 251 p.
Link: http://monographs.uc.pt/iuc/catalog/book/2

[A veneração e o culto da Rainha Santa Isabel, em Portugal, desenvolveram-se logo após a sua morte, que ocorreu em 1336, e ficaram registados em relatos cronísticos, hagiográficos, biográficos e notariais, entre outros, que reuniram abundante informação sobre a sua vida e milagres. Pedro Perpinhão, religioso da Companhia de Jesus que trabalhou, como professor, orador e investigador, em Portugal, entre os anos de 1551 e 1561, escreveu em latim uma biografia da Rainha Santa Isabel de Portugal, De Vita et Moribus Beatae Elisabethae Lusitaniae Reginae, que era a primeira nesta língua e a mais completa composta até então. Para ela, consultou todas aquelas fontes medievais portuguesas e utilizou-as de forma exaustiva e imparcial, num esforço claro de ser completamente fiel à verdade histórica; nela reúne todo o conhecimento da época sobre Santa Isabel, passados mais de dois séculos após a sua morte.]

Ildeu de Castro Moreira - Einstein e o Eclipse de 1919

LIÇÕES DA PANDEMIA


Meu depoimento sobre a crise pandémica ao JN publicado no domingo passado:

A actual crise fez virar as atenções de todo o mundo para a ciência. E há boas razões para isso:  qualquer nova doença transmissível representa  um desafio à ciência: para identificar a doença, para dificultar o seu espalhamento, para atacar a infecção com tratamentos adequados e, nos casos  extremos, para prestar cuidados intensivos.  A ciência tem correspondido às expectativas: nunca houve tantos e tão rápidos testes para identificação viral e nunca se tomaram tão drásticas medidas de confinamento.  Falta, porém, o resto:  fármacos antivirais específicos e – seria ouro sobre azul - uma vacina que prevenisse a doença. Muitos investigadores estão, a trabalhar a todo o vapor nessas metas. Embora a vacina possa demorar,  haverá decerto sucessos nesta área. São legítimas as esperanças na ciência: só ela nos pode salvar, embora obviamente ela sozinha não chegue para salvar. A ciência fornece conhecimento, não diz como ele deve ser aplicado. Espero que depois da pandemia – sim, ela vai findar – a ciência passe a ser vista com outros olhos quer pelos cidadãos quer pelos políticos.

Vivemos num mundo em que se confia na ciência, mas também num mundo que se desconfia dela. Há quem a negue. Espalham-se teorias absurdas sobre a doença (como a da sua origem nas emissões 5G); chefes de estado negam a comprovada virulência e  propõem mezinhas malignas (como a injecção de lixívia); e receiam-se as vacinas (inventando efeitos colaterais). Já alguém disse: se este é um mundo sem uma vacina, imagine-se como seria o mundo sem as outras! A pseudociência e as notícias falsas não vão acabar, pois a irracionalidade faz parte da natureza humana, mas bem podiam agora aprender alguma coisa. Não tenho ilusões: a ignorância vai continuar a ser atrevida. Vamos continuar a ver isso por exemplo na questão das alterações climáticas globais. Oxalá possamos aprender com o Covid como actuar globalmente…

Ver outros depoimentos aqui.



sábado, 9 de maio de 2020

Minhas declarações ao Jornal da 8 da TVI sobre COVID-19 e retorno a uma certa normalidade



(clicar na imagem para ver as declarações)

Assim fala a Ciência Ep.8: Vacinas, com Paula Alves

Assim fala a Ciência Ep.7: Quem está mais em risco? com Maria João Pereira e Filipe Froes

Assim fala a Ciência Ep.6: Recomendações e decisões de saúde pública, com Ricardo Mexia

Assim fala a Ciência Ep.5: Em que velhos e novos medicamentos podemos (ou não) ter esperança?

Assim fala a Ciência Ep.4: Os números e a evolução da epidemia, com Gabriela Gomes

Assim fala a Ciência Ep.3: O que sabemos e ainda não sabemos sobre o vírus?, com Maria João Amorim

Assim fala a Ciência Ep.2: A engenharia à procura de soluções em tempos de crise, com Rogério Colaço


Variações sobre os tempos


“ L’escargot, a au moins cet avantage sur l’habitant des villes, c’est qu’il ne sort pas de sa coquille…,” Paul Gadenne, La rue profonde, 1948.

Confinados (vocábulo esquecido que agora voltou ao nosso quotidiano, juntamente com outros, e muitos, neologismos), temos mais tempo para pensar, mais tempo para dedicar a outras actividades, mais disponibilidade... Estas são ideias que se ouvem e se lêem nestas últimas, longas semanas. Mas será mesmo assim? Há o tempo real e o tempo psicológico, o tempo do calendário e o tempo meteorológico, o tempo espiritual, o tempo da criação, o tempo material... Que tempo é este que estamos a viver?

Um ditado medieval dizia Tempora mutantur et nos mutamur in illis, os tempos mudam e nós mudamos com eles, e, nada se afigura mais verdadeiro.

No entanto, o isolamento, a fuga ao bulício citadino, o recolhimento a uma vida interior mais autêntica pode, também, ser ocasião  propícia à reflexão, à imaginação, à criação artística, e disso nos chegam, todos os dias, inúmeros exemplos, através da comunicação social e das modernas tecnologias. 

Indo mais longe no tempo, já Ovídio, exilado por ordem de Augusto, para um local longínquo, bem afastado da sua convivência social e literária em Roma, escreveu, nessa zona inóspita e rude (“vivo em plena barbárie”)  muitos dos seus mais belos poemas. Camões, da sua passagem pelo Oriente distante, deixou-nos poemas imorredoiros, lembrando a pátria ausente.

Também o escritor francês Paul Gadenne (1907-1956) (aqui), citado por Pascale Seys na sua crónica semanal, é um bom exemplo de como o isolamento é propício ao recolhimento interior e à criação.
Professor, homem de letras, especialista em estudos da obra de Proust, Paul Gadenne viu a sua carreira docente interrompida, em 1933, pela tuberculose, que o obrigou a longos períodos de internamento em sanatórios. Nesse afastamento forçado da vida social e da actividade profissional, dedicou-se à reflexão e  à escrita, produzindo uma vasta obra que vai do romance à novela, à poesia e ao teatro, bem como ensaios e crónicas.
Já nesse tempo, observando a agitação da vida moderna, ele critica a incapacidade que as pessoas manifestam em escapar ao turbilhão da vida social, dizendo que “a maior parte dos homens não suporta nem a imobilidade, nem a espera”. Deste modo, o homem perde a sua aptidão para reflectir sobre si próprio, sobre a vida e o universo, perde a possibilidade de recriar o mundo que recebeu e de construir a sua própria vida de forma espontânea. 
“ A maior parte dos homens não suporta a imobilidade nem a espera. Não sabem parar de modo nenhum. Vivem mobilizados: mobilizados para a acção, para a agitação, para o prazer, para as honrarias. E contudo é apenas nos instantes em que suspende o seu gesto ou a sua palavra, ou a sua marcha em frente que o homem se sente impelido a tomar consciência de si mesmo” Paul Gadenne, Une grandeur impossible, Finitude, 2004.
Num discurso feito, em 1936, no liceu de Gap, onde foi professor, chama a atenção para estes factos, criticando, igualmente, a loucura que o homem moderno revela pela rua, pela vida social, pela agitação, e termina avisando: “car la vie, mês chers amis, cela ne se ramasse pas sur le pavé”,  a vida não se recolhe na calçada...
Um dos seus livros mais conhecidos, A baleia, metáfora realista, que alguém caracterizou como “um dos mais belos contos escritos em língua francesa”, alerta para o que é o mundo e a sociedade, num convite à reflexão sobre o outro, sobre a nossa individualidade, sobre o mundo. 

Voltando a Pascale Seys e à sua crónica do dia 6 deste mês de Maio (aqui) que ela dedica à “vida interior”:
“Há o que se vê e há o que não se vê, há, por um lado, o que nós disfarçamos, e, por outro, o que nós aceitamos mostrar de nós mesmos, das nossas falhas e das nossas dificuldades de viver. Há, portanto, o exterior e o interior, o de fora e as suas representações visíveis, e o de dentro e o seu lugar de recolhimento invisível. “
E, por isso, o exterior, nestes tempos de confinamento, mostra aquilo que procuramos esconder, o passar do tempo, que se manifesta, nos cabelos brancos, nas rugas, nos pêlos que crescem, aspectos que estes dias trouxeram à vista, fechados que estamos nas nossas casas. E lembra outros confinamentos do passado e os conceitos de beleza desde a Antiguidade:
“Do tempo de Péricles, quando causava destruição em Atenas a peste que o iria arrastar consigo, o excesso de pêlos ultrajava gravemente um modelo estético ao mesmo tempo que uma concepção da vida humana. É por isso que os cabeleireiros, os barbeiros e os depiladores, nesse tempo, pertenciam à classe das profissões essenciais.  Porque a cultura grega queria ser rica em humanidade, porque ela entendia exprimir, para a fazer valer, uma ruptura e um afastamento em relação à animalidade, os homens, tal como as mulheres tinham, necessariamente, de ser imberbes, o que atestam, notoriamente o detalhe dos kouroi e das kourai sobre os frisos do Pártenon e em qualquer outro exemplar da estatuária grega. “
No entanto, não devemos esquecer que:
“os cabelos, as barbas, as rugas e os pêlos são da ordem da aparência, que não pode alterar a vida invisível do “de dentro”.  Alguns adeptos do “de dentro” escolheram, por outro lado, deliberadamente, uma vida interior. É o caso de Proust, sabe-se, que adoptou uma vida auto-confinada no seu quarto, Beethoven que estava enclausurado na sua surdez, Zelda Fitzgerald, Virginia Woolf, Rothko e Camille Claudel que estavam encerradas no seu desgosto ou na sua loucura, enquanto Héloïse e a Princesa de Clèves se retiraram voluntariamente para um convento para não terem de morrer de um amor louco. Daqui resulta que as grandes obras, que resistem ao tempo, são inseparáveis do risco assumido na escolha da interioridade. Na sua Carta ao General X, Saint Exupéry declarava, num lirismo desesperado, que era necessário “absolutamente falar aos homens. Era necessário, implorava ele, que o mundo devolvesse aos homens um “significado espiritual” e fizesse cair sobre eles alguma coisa, insistia ele, que se assemelhasse ao canto gregoriano.”
“É que o cuidado que dispensamos à vida interior pode ser a fonte de uma revolução, de grandes subversões, de focos de resistência que levam a compreender até que ponto somos livres.”

E, continua, exemplificando:
“Em 11 de Julho de 1936, num discurso célebre, o escritor Paul Gadenne convidava, também ele, os homens a não perderem o sentido da interioridade, quando a maior parte de nós vivemos mobilizados, incapazes de interromper as nossos acções e sempre engolidos por uma agitação incessante.”
“O mundo, ousava ele dizer, pertence àqueles que sabem manter-se imóveis.”
E em apoio ao seu convite ao silêncio e à resistência interior, ele evocava a correspondência de Dostoiëvski que, lembrando os seus anos na prisão, tinha resumido numa frase magnífica dirigida ao seu irmão o que esses quatro anos de reclusão e de privação lhe tinham sugerido:
“Irmão, há muitas almas nobres no mundo”

Mas, tempus fugit, e já o nosso velho Horácio avisava:

Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo;
colhe o dia, confiando o menos possível no amanhã.
                                       Horácio, Odes, I, 11 (trad. de Pedro Braga Falcão, ed. Cotovia)
Ou, nos versos do nosso Pessoa:
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos.  No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
                                 Ricardo Reis

Resta-nos, pois, aproveitar estes tempos da melhor forma possível, em reflexão, mas também em atenção aos outros, ao mundo e à sociedade que nos rodeia e lembrando a sabedoria dos provérbios populares: com tempo e esperança tudo se alcança, mas sem esquecer que nada se faz sem tempo, que com tempo tudo se cura e nada melhor do que o trabalho pois, para além do mais,  o trabalho ajuda a passar o tempo...  e, como o tempo é o relógio da vida, demos valor ao nosso tempo, à forma como o passamos para que a nossa vida tenha sentido e o relógio não deixe de dar-nos sempre as horas certas.

UM CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA


“O amor é aquilo que depois do casamento se chama engano” (Oscar Wilde).

Aproximando-se o período eleitoral contam-se espingardas  e uns tantos tabus vão sendo desfeitos.

Neste particular bateu recordes Marcelo Rebelo de Sousa hábil jogador nesta  complexa e matreira matéria. Ficámos, finalmente,  a saber que se recandidata à Presidência da República  o que não me causa  perplexidade.

Após o seu  namoro com o Partido Socialista, com altos e baixos em que o pico maior de arrufo sucedeu aquando do sacudir água do capote de ambos na polémica gerada pelas recentes comemorações de1.º de Maio, é anunciado,  agora, com pompa e circuntância, um casamento de conveniência  para assegurar vitórias para a Presidência da República  e para as   legislativas por parte do Partido Socialista sem a sobrecarga de uma  Geringonça posta na sucata. 

Como reagirão  os seus “compagnons de route” abandonados na berma da estrada? Que acordos farão num momento em que o Chega continua a crescer em percentagens  comparativas com outros partidos que vão ficando para trás, entre eles o CDS com tradição no panorama político nacional, um dos baluartes  contra a ditadura do  Partido  Comunista  durante o chamado “Verão Quente”?

Os esponsais por conveniência entre o Presidente da República e o PS têm os convites feitos e o luxuoso e farto “Copo de Água” encomendado com os convidados com água a crescer na boca receosos que a água do copo  se possa entornar  à porta do Registo Civil!

Estas simples questões levantadas por quem pouco percebe de política,  a não ser sentir na pele os seus reflexos sobre os cidadãos agravados numa época de crise  por os entes da numerosa família socialista  preenchem os lugares da governação num espécie de herança monárquica que passa de pais para filhos e, por vezes, sobra para parentes menos chegados e amigalhaços. Quase a totalidade destes cavalheiros e senhoras fazem manchete nos jornais e abrem os noticiários televisivos com escândalos diários que ferem de morte a fazenda pública.

Não me compete e, muito menos,  tenho o perfil de analistas, pagos a peso de ouro, que enchem  os ecráns televisivos, prevendo o que se vai passar e desculpando-se, posteriormente,  do seu papel de falsos profetas  Nessa não caio eu porque avisado estou pela crítica mordaz de Mark Twain: “A profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”.

Todavia, dado que Marcelo Rebelo de Sousa não podendo recandidatar-se a uma terceira eleição não tem nada a perder, arrisco que ainda vamos assistir a muito escaqueirar de louça entre Costa e Marcelo  desavindos. Aposto, mesmo,  dobrado contra singelo!

AVALIAÇÃO DO GOVERNO


Meu depoimento ao DN:


DN- O que acha da forma como o Governo está a gerir a crise? Tanto do ponto de vista social como económico. De 0 a 20, que nota dá a esse desempenho?

CF- Dou crédito ao primeiro-ministro por, em coligação com o Presidente da República, ter controlado a curva epidémica. Para já, o pior foi evitado. Mas agora é preciso gerir bem o resto, não só na saúde, mas também nas avassaladoras questões económicas e sociais. Soubemos confinar, falta saber desconfinar. Vejo algumas debilidades no governo: a ministra da Saúde tem falhado na contagem de infectados; o ministro das Finanças, que era o “Ronaldo”, parece estar fora de jogo; o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior tem sido incapaz de representar a ciência; e a ministra da Cultura, que era inexistente, assim continua. 

Dar notas? Isso é mais para o Prof. Marcelo…

Ver outros depoimentos (com algumas notas) aqui.:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-mai-2020/governo-recebe-um-bom-de-nota-pela-gestao-da-crise-sanitaria-e-economica-12172290.html?fbclid=IwAR33TYCmrMaVmS0Kn7OxW1-LiTM_mz7F1kjO8srBRrSnW3jNAe8UYr1-Cso

quinta-feira, 7 de maio de 2020

POR UM TEMPO SEM IDADES


Meu artigo no Público de hoje:

Em memória de Maria de Sousa, que foi nova até aos 80 anos

A epidemia que vivemos tem assumido particular incidência nos lares de idosos. Segundo um estudo da London School of Economics, que inclui dados da Bélgica, França e Irlanda, cerca de metade das vítimas viviam em lares. A situação é semelhante na Itália, Espanha, Reino Unido e  EUA (os valores são incertos, pois parte desses mortos não está nos números oficiais). Em Portugal, fonte oficial informou que a percentagem é de 40 por cento. Há casos dramáticos, como o do Lar da Misericórdia de Aveiro onde morreram 23 dos 77 infectados num total de 119 pessoas.
Há quem relativize o ápice da tragédia experimentado pelos idosos. Argumentam, com uma certa frieza, (...)

Ver o resto no jornal (só para assinantes; assine se puder, ajudando a comunicação social livre).

terça-feira, 5 de maio de 2020

Mensagem da Directora-geral da UNESCO no Dia Mundial da Língua Portuguesa (5/maio)


Mensagem da Senhora Audrey Azoulay, Directora-geral da UNESCO por ocasião do Dia Mundial da Língua Portuguesa (traduzido do francês pela UNESCO): 

5 de Maio de 2020

Esta terça-feira, 5 de Maio, assinala-se a celebração do primeiro "Dia Mundial da Língua Portuguesa", cujo intuito é realçar o rico contributo da língua portuguesa para a civilização humana.

A celebração deste primeiro Dia realiza-se como é evidente num contexto particular - o da pandemia da COVID-19- , que está a levar a humanidade a enfrentar a sua crise mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Nestes momentos de angústia pelo presente e de dúvidas com o futuro, a língua portuguesa pode ser o fermento de uma nova resiliência, através do poder de evocação e de unidade da cultura.

Numa altura em que, mais do que nunca, precisamos de nos unir, perante um vírus que ignora os passaportes, a língua portuguesa pode assim ajudar a forjar essa "solidariedade intelectual e moral da humanidade" a que se refere a Constituição da UNESCO.

Com efeito, a língua portuguesa constrói pontes entre os povos. Produto de uma história multissecular e transcontinental, o mundo lusófono é hoje o cadinho de muitas culturas, que se enriquecem mutuamente através das suas diferenças.

"Minha pátria é a língua portuguesa", como escreveu o grande poeta Fernando Pessoa na sua obra-prima, O Livro do Desassossego. Esta "pátria" tem hoje mais de 265 milhões de falantes, o que a torna a língua mais falada no hemisfério sul.

Assim, a língua portuguesa tende para a universalidade, fervilhando de criatividade em todas as latitudes, de Angola ao Brasil, de Portugal a Moçambique, de Timor-Leste a Cabo Verde.

Este Dia recorda-nos, por isso, o quanto a diversidade cultural, na era da globalização, é um recurso precioso que devemos proteger e promover. É com este espírito que a UNESCO trabalha incansavelmente para favorecer a diversidade linguística e o multilinguismo no conjunto do seu mandato.

Tal como precisamos de unidade na diversidade para fazer face à pandemia, também precisamos do poder evocativo das línguas no momento presente.

Porque uma língua é mais do que um meio de comunicação: é uma forma de ver e sentir, um reservatório de símbolos e experiências, um caleidoscópio de sonhos e utopias criadoras.

Através das suas literaturas, filmes e músicas, a língua portuguesa oferece-nos desta forma a sua variedade e riqueza para nos permitir, neste tempo de confinamento, escapar e recarregar energias.

Que este Dia seja uma oportunidade para o aproveitar ao máximo: um excelente Dia Mundial da Língua Portuguesa para todas e todos.

Audrey Azoulay,

Luiz Alberto Oliveira - Ciência Sob Ataque

À MARGEM DAS REGRAS

Imagem colhida em "Um olhar Povoacense"
Em tempo de paz, sem perspectiva de guerra no horizonte, e feita a recruta, a vida no quartel, nos anos em que a vivi (1952-1954), era uma pasmaceira. Cumpridas as tarefas que a todos competiam, o resto do tempo era uma espera para o dia seguinte.

Uma regra de ouro de um miliciano era estar “desenfiado”, um termo militar, muito usado em artilharia, que quer dizer fora do alcance da vista. Outra regra era, no caso contrário, dar a impressão de que se ia em serviço, com passo firme, decidido e, de preferência, com um papel na mão. Estar à vista, parado ou a deambular sem destino, era condição quase certa para que um superior o chamasse e lhe desse uma qualquer incumbência que, na maior parte dos casos, ele havia recebido de um superior dele.

Por exemplo, o comandante do regimento encarregava o segundo comandante de resolver uma dada tarefa. Este, um tenente-coronel, chegando ao seu gabinete, chamava um major a quem entregava da sua resolução. Por sua vez, este graduado declinava-a num capitão. E era nesta fase que um subalterno como eu podia ser apanhado, se estivesse à vista, com ar de desocupado.
- Ó nosso alferes!
- Eu, meu capitão?
- Sim, você! Vê aí mais alguém? Vá ao parque auto e confira este inventário.

E agora, das duas uma: ou eu tratava, pessoalmente, do assunto ou, o que era mais certo, chamava um furriel, que sempre descobria um cabo que acabava por fazer o trabalho. Cumprido este, o nosso cabo entregava-o ao furriel e, através da mesma cadeia, mas agora em sentido inverso, o dito inventário, conferido, chegava às mãos do comandante.

Era, pois, sempre em passo rápido, decidido, e com um rolo de papel na mão que, nas muitas tardes de ociosidade, atravessava a parada, a caminho das cozinhas ou da oficina do sargento carpinteiro. 

Das cozinhas porque aí, de vez em quando, me juntava a meia dúzia de rapazes da minha geração, independentemente das graduações de cada um, para saborearmos uns queijos do Redondo, um tinto das Cortiçadas, um coelho frito trazido pelo furriel Silva, caçador num fim de semana de licença, ou de umas farinheiras assadas vindas do fumeiro dos pais do 127 de 53.

O chefe cozinheiro, um soldado pronto, rapaz com quem eu jogara à bola (de trapo) no grande terreiro dos Salesianos, que participava nestas confraternizações, arranjava-nos um canto resguardado, sendo exímio na preparação dos petiscos, não raras vezes retirados do caldeirão do rancho, condimentados e apurados à parte e a preceito.

Todos sabíamos que aquele convívio era passível de procedimento disciplinar, mas nunca houve uma denúncia e só são boas as recordações desses momentos.

Outra das fugas que, com relativa frequência, fazia dentro do quartel, tinham por alvo a oficina do sargento carpinteiro. Autodidacta em muitos saberes e de uma notada sensibilidade poética, era um artista a trabalhar a madeira, encafuado no seu espaço, para ele um santuário. O quotidiano do quartel, praticamente, apenas o solicitava para trabalhos menos nobres, rudes, tais como fazer um caixote, colocar umas prateleiras, armar um alpendre ou um estrado na parada, em dia de cerimónia militar.

Tudo isto ele fazia de bom grado, com rapidez e perfeito, granjeando a estima dos superiores, restando-lhe muito tempo para dar expressão à sua criatividade e alimento à sua curiosidade intelectual.

Só passada a recruta, com mais tempo disponível, me apercebi que tínhamos ali um exímio marceneiro, restaurador de móveis antigos e, ao mesmo tempo, um filósofo. De estatura mediana, seco de carnes e meio dobrado pelo ofício, usava óculos de lentes cortadas a meio, só para ver ao perto, e lápis atrás da orelha. Ao canto da boca, pendida, estava sempre uma ponta de cigarro, daqueles que se enrolavam à mão, a maior parte do tempo, apagada. A passar constantemente os dedos pelos ralos cabelos, lisos, alourados, a virarem a branco, o mestre, como eu o tratava, andava o dia todo de cabeça descoberta. Perdera o bivaque ou, melhor, nunca sabia onde o deixava nem procurava encontrá-lo.

Ao cruzar-se com um superior, levava a mão à altura da testa e, num gesto descontraído, e sem tirar a beata da boca, mesmo assim descomposto, fazia uma espécie de continência, sem parar. A não ser um ou outro superior, recém-chegado à unidade, mais militarista, todos o aceitavam naquele seu modo de estar. O sargento carpinteiro era uma espécie de paisano excêntrico dentro do quartel, uma excepção consentida na uniformidade própria da instituição militar.

A carpintaria, a um extremo do vasto campo de instrução, era um verdadeiro “atelier de artista, cheio que nem um ovo, onde obras finas começadas se misturavam com restauros há muito por acabar. De chão nunca varrido, os montes de serradura e raspas acumulavam-se na base de pranchas e tábuas empinadas à parede onde, suspensa de pregos e escápulas, saltava à vista uma profusão caótica de tudo e mais alguma coisa. Ir para a oficina do sargento carpinteiro, de quem me tornei amigo, tinha o sabor da evasão. Só entrava ali, de tempos a tempos, uma ordenança a transmitir-lhe algum recado ou a chamá-lo, o que era para ele sempre uma interrupção forçada. Mais parecendo um civil, saía, então, do seu canto, com ferramentas nos bolsos e tábuas nas mãos ou aos ombros, em passo rápido, alheio a tudo e todos, só se sabendo ser um militar pelas divisas de segundo sargento, quase imperceptíveis pela falta de Solarine no latão de que eram feitas.

Com fama de bom jogador de xadrez, a chegada de novos aspirantes milicianos trazia-lhe parceiros para jogos intermináveis e entusiásticas conversas aos fins da tarde. A primeira vez que ali entrei trouxe-me à lembrança a oficina do mestre Roberto, onde, como já escrevi por diversas vezes, me iniciei no gosto de trabalhar a madeira, um gosto que nunca perdi.

Os cantares das serras e serrotes, das plainas e garlopas, o som do ferro de pua, qual bicho da madeira, a abrir caminho, o do rebolo de amolar a dar desbaste às ferramentas de corte, voltaram aos meus ouvidos quase duas décadas depois. Também os cheiros das diversas madeiras, os da grude, dos vernizes e outros me trouxeram à memória aquele meu pequeno mundo onde brinquei julgando ser aprendiz. Com ele passei a conhecer muitas madeiras para além do pinho, do carvalho, do azinho ou da nogueira, que me eram familiares. Vinhático, cerejeira, andiroba, pau-santo, acácia, vidoeiro estavam ali para que as pudesse conhecer, algumas delas em antigos móveis restaurados ou à espera de o serem ou, ainda, em restos de outros. O mestre soprava-os do pó, explicava-me as suas particularidades específicas e falava-me das suas características como matéria-prima da sua arte.
- Esta aqui – dizia ele, encorajado pelo meu interesse – é angelim. Resiste ao tempo como nenhuma outra. Só o fogo dá conta dela. Veio da Índia. E esta – deu-me a cheirar – é criptoméria. É oriunda do Japão, mas dá-se muito bem dos Açores.

Foram muitas as horas que passei “desenfiado” neste canto esquecido do quartel, umas dando largas a uma vocação que não tivera continuidade, outras, em longas conversas com o sargento. Curioso dos meus saberes no domínio da preparação académica que era a minha, ensinou-me outros, os que aprendera nos livros e os que a vida lhe facultara.
A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 4 de maio de 2020

CASA VAZIA: À MEMÓRIA DE MARIA ANTONIETA

Do meu amigo Eugénio Lisboa, em saudosa lembrança de sua falecida Mulher: 
Esta saudosa casa onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, íntima noite se ocultou
Teixeira de Pascoaes 
Esta saudosa casa em que brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Esta casa que teu ser habitou
Tornou-se hoje, p’ra mim, um escuro inverno. 
Em negra, íntima noite se ocultou
Tua presença doce e gentil.
De tudo quanto fomos só ficou
Memória do que foi, saudades mil. 
Quem dera que esta noite que assaltou
Com agreste vigor e crueldade
Esta casa que outrora o sol dourou
Deixasse que esta casa se tornasse 
De novo esta grande raridade:
Um ninho onde o amor se eternizasse! 
Eugénio Lisboa 

Embora a melhor terapêutica para a peste seja o bom humor e a Ladinice, nem sempre é possível fugir a um tom mais melancólico. A musa impõe as suas razões às razões do poeta.

domingo, 3 de maio de 2020

A RECENTE ENTREVISTA DA MINISTRA DA SAÚDE

“Há quem defenda os seus erros como se estivesse a defender uma herança” (Edmund Burke)

A entrevista de Rodrigo Guedes de Carvalho na “Sic”( 02/05/2020) à ministra da Saúde, Marta Temido, eu porque me sinto desiludido do presente e sem esperança no futuro, recorro a Eça, meu  escritor de eleição, por esta frágil figura de governante, ser paradigma do “achismo”, tão em voga hodiernamente, para justificar o que não tem justificação, como argumentos trapalhões “hesitando, tataranhando, amontoando, embaralhando fazendo um pastel confuso que nem o Diabo lhe pega ele que pega em tudo”. 

Sem intenções demoníacas, apenas para me referir ao "eu acho", que ela repetiu várias vezes, quando se viu atrapalhada na entrevista concedida a Rodrigo Guedes de Carvalho que fazia soar o gongo da misericórdia, deixando-a recompor-se no seu canto, mudando de assunto com novas e mais fáceis perguntas. 

Se a razão não me fizer companhia, penitencio-me perante Marta Temido e o seu ministério até porque a procissão ainda vai no adro de uma discussão em que as máscaras de combate ao coronavírus surgiram como se esta discussão não fosse um assunto sério sem vestígios carnavalescos ou malabarismo circenses porque hoje “só me diverte o circo da minha infância” (Fernando Pessoa).

Uma virtude lhe reconheço: a falta de patuá dos políticos que fogem aos assuntos que lhes não convêem como enguias em mãos oleosas, dizendo uma coisa hoje e outra amanhã, como se quem os ouve sofresse de amnésia de que eles sofrem por conveniência ocasional ou mesmo vício!

Sacudir a água do capote é expressão da gíria militar que criou raízes em civis mesmo que não tenham prestado serviço militar, ou dele tenham desertado numa retirada estratégica de quem, apenas, dizia, não comungar da Guerra do Ultramar condenando maldosamente Salazar por nos ter livrado da II Guerra Mundial em que morreram incontável número de soldados e civis deixando cidades completamente arrasadas, de que Londres foi o exemplo mais citado! Ou seja, simples perspectiva enviesada ao sabor de interesses convenientes e desonestos! Os mesmos argumentos não podem servir para defender ou atacar causas desiguais. Ou seja, "pão, pão; queijo, queijo", na sabedoria popular.

Com falta de verticalidade se sobe cada vez mais alto na frondosa árvore partidária carregada de frutos rendosos e suculentos, ainda que mudando de partido como quem muda de fato “Hugo Boss”, como se desculpam alguns janotas lusitanos, qual Petrónio tido como modelo de elegância na Roma dos Césares.

É pecado vender a alma ao diabo sob qualquer que seja o pretexto, "ipso facto", assumindo o papel de vira casacas sem um mínimo de dignidade já que nela, evocando Pascal, “reside o principio da moral”. Princípio ético tão arredado da política nacional em que os crimes por mais hediondos que sejam contra a fazenda pública comungam da benevolência, ou mesmo compadrio partidário, da injusta justiça!

O QUE VOU FAZER QUANDO VOLTAR UMA ESPÉCIE DE NORMALIDADE


O Expresso perguntou-me e eu respondi (a resposta saiu no jornal em papel e no sítio do Expresso de ontem: https://expresso.pt/coronavirus/2020-05-02-Fomos-perguntar-qual-e-a-primeira-coisa-que-as-pessoas-querem-fazer-quando-sairem-de-casa-e-as-respostas-sao-um-espanto ):

O que me tem feito mais falta? O que vou fazer mal me possa desconfinar?

Fazem-me falta as rotineiras visitas às livrarias e aos alfarrabistas. Não é a mesma coisa comprar pela Internet ou "ao postigo"  ou aceder de repente, por incrível serendipidade, a uma obra que julgava inacessível.  Eu sou da cultura do papel  e gosto de encontrar e guardar escritos mais ou menos antigos que só o papel sabe guardar.

Faz-me falta o diálogo directo com as pessoas no meu trabalho de cultura científica. Não é a mesma coisa falar com  alguém no Skype ou no Zoom  ou ao vivo, a cores e em três dimensões. A espontaneidade, o intercâmbio e o fulgor são outros. Costumava  correr o país de lés-a-lés e, num instante, o meu carro viu-se, na garagem. em inércia prolongada. Tenho saudades da cirandagem em nome da ciência.

Fazem-me também falta os jantares fora com a família e com os amigos. Eu vou-me restaurar  logo que a restauração reabra,  prosseguindo os colóquios e os projectos de uma maneira que só a mesa comum permite.

Por último - quiçá a maior falta - faz-me falta o mar, pois da minha janela ele não se enxerga. O horizonte do mar é precisamente o oposto  do horizonte doméstico, no qual o malfadado vírus me aprisionou. O mar encerra grandeza e mistério e, por isso, é inspirador,  convida-nos à demanda. Foi Isaac Newton que, numa bela metáfora, se comparou "a um rapazinho que se diverte a descobrir uma pedrinha  mais lisa ou uma concha mais bonita, enquanto o imenso oceano da verdade continua misterioso diante de meus olhos."

sábado, 2 de maio de 2020

O trabalho entre professores e alunos explicado em 20 frases muito simples

Dos diversos títulos publicado pela Direção Geral da Educação para ajudar os professores em tempo de pandemia a que aludi no texto anterior (aqui), transcrevi o texto do primeiro: "Trabalho entre professores e alunos".

"Estas sugestões devem ser usadas de acordo com soluções da sua escola.
Professores partilham e colaboram em espírito de equipa.
Privilegiam as plataformas já usadas na escola.
Estabelecem o equilíbrio articulando entre as diversas disciplinas.
Têm em conta as áreas de competências do "Perfil dos alunos".
Equacionam o tempo total dedicado à aprendizagem.
Criam rotinas de trabalho para os alunos.
Preveem algumas actividades de carácter lúdico.
Comunicam com os alunos...
... sem inundar os alunos de múltiplas soluções de comunicação.
Privilegiam a tecnologia que estão habituados a usar na escola.
Usam metodologias diversificadas e enquadradoras.
Fomentam a autoreflexão e o trabalho autónomo dos alunos.
Promovem um papel activo do alunos no processo de novas aprendizagens...
Através de projectos interdisciplinares.
Incentivam a interajuda entre os alunos...
... e a colaboração na realização das tarefas
... e na regulação interpares
Valorize o progresso dos seus alunos.
Promova a aprendizagens diferenciadas que garantam a inclusão de todos."
Os restantes títulos são exactamente do mesmo teor. 

A CIÊNCIA E A CRISE DA COVID19


Minhas declarações à LUSA sobre a resposta da ciência à actual pandemia, que a agência já divulgou (ver https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/quem-chegar-primeiro-a-uma-vacina-segura-e-eficaz-vai-ficar-rico-num-mundo-em-suspenso-a-ciencia-esta-mais-ativa-do-que-nunca), juntamente com declarações do David Marçal:

Nesta crise pandémica que tem fechado muitas actividades a ciência está mais activa do que nunca. Apesar de haver alguns laboratórios e institutos fechados em muitas partes do mundo, o certo é que o cérebro não desliga. O confinamento e o desmarcar de compromissos proporcionam um ambiente

propício para o estudo e reflexão. E, estando as viagens muito limitadas, os encontros entre cientistas podem fazer-se através dos meios telemáticos que a própria ciência proporcionou (um cientista não pode fazer ciência sozinho, tem de comunicar).

Há aqueles cujo trabalho está, directamente ou indirectamente com vírus, doenças infecciosas e epidemiologia. É sobre esses que se exerce a pressão maior por parte da sociedade. A sociedade quer mais conhecimento  rapidamente assim, como também rapidamente: soluções: fármacos antivirais e o santo Graal que será uma ou mais vacinas. De facto uns e outras já existem, mas têm de ser testadas em grupos grandes de indivíduos para demonstrar a sua segurança, primeiro, e a sua eficácia, depois, o que demora tempo (meses ou anos), um tempo que neste caso será provavelmente encurtado. Há várias soluções a competir umas com as outras. O mais certo é não haver um remédio, mas vários, só se podendo ver depois qual é o melhor. Alguns anúncios que se estão a fazer são precipitados, não querendo mais do que ganhar a atenção mediática, que possa por exemplo garantir financiamento.

Em momentos de crise aguça-se o engenho humano: veja-se o caso da 2.ª Guerra Mundial, que nos deu o radar, o computador e a energia nuclear, que mudaram completamente o mundo. Talvez aí haja um paralelo: a utilização do radar foi inovadora e decisiva na Batalha de Inglaterra, os computadores de válvulas fizeram-se para melhorar a balística  e a bomba nuclear foi desenvolvida por algumas das melhores mentes do mundo nas instalações secretas de Los Alamos com o objectivo de pôr termo à guerra (haveria de dar a energia nuclear em tempos de paz). Mas ninguém consegue prever as soluções criativas precisamente porque são criativas.

Depois há muitos cientistas que não estando a fazer investigação em áreas relacionadas, mobilizando-se para a realização de tarefas práticas como testes ao novo coronavírus, ou a construção em impressoras 3D de equipamentos de protecção: há exemplos bons em Portugal.

Algo que tenho notado é que muitos cientistas, cuja área de trabalho tem pouco a ver com a doença como é o meu caso), estão a olhar para os dados, em Portugal como no mundo, para fazer modelos e descobrir tendências. A matemática sozinha é útil mas não muito, é preciso ter algumas noções de epidemiologia de modo a que os modelos tenham um olhar informado pela situação real. Neste bricolage com os números, que é relativamente fácil de fazer até com uma folha Excel, tenho visto alguns disparates e também algumas descrições argutas. Mas é difícil fazer previsões: o vírus é novo, tem um comportamento nalguns aspectos estranho e os resultados dependem criticamente quer de parâmetros que em parte são desconhecidos quer do comportamento das populações, que também não se pode adivinhar totalmente, apesar das imposições reinantes nalguns sítios.

Há grandes assimetrias nacionais e regionais e um trabalho interessante é a sua explicação. Tenho visto análises muito interessantes e é preciso tentar ver para além do nevoeiro mediático que resulta do manancial diário de dados (um dia não significa nada, pois há flutuações que não têm significado, e há números que não tem grande significado, apesar de serem amplificados pelas autoridades e/ou pelos media). Eu todos os dias de manhã olho para o Worldmeter e tento perceber para onde vão as coisas: embora lentamente, parece que na Europa o pior já foi. Mas convém ter muito cuidado pois o vírus pode a qualquer altura alastrar num sítio.

Uma mudança muito visível na ciência é a publicação rápida de resultados e análises. Neste momento qualquer trabalho em preprint relacionado com o vírus ou a doença é imediatamente colocado num servidor em acesso livre, mesmo antes de estar sujeito a apreciação por pares. Quer isto dizer que há muitos trabalhos que não estão certos. Pode não seu por fraude (que também as pode haver), mas por precipitação, por haver amostras limitadas ou por não ter havido suficiente cuidado na verificação.  Há conclusões contraditórias e serão precisas metanálises, pois é assim que a ciência funciona: com mais e melhores dados, as conclusões serão melhores. A ciência nunca é um artigo, mas assim o consenso que se gera a certa altura a partir da discussão de vários, muitos, artigos. A ciência não é o que um cientista diz, mas sim aquilo em que a comunidade, passado suficiente tempo, concorda. Isto pode parecer estranho a muita gente, mas a ciência não funciona por passes de mágica,  não tira coelhos da cartola.  Demora necessariamente o seu tempo, para se minimizarem os erros.

Certo é que há muitos meios à disposição quer no sector público, quer no sector privado. Quem chegar primeiro a uma vacina segura e eficaz vai ficar rico. Um processo moroso, logo que haja um protótipo funcional, será também o fabrico e a administração maciças. Será um grande desafio! Haverá sempre factores para lá da ciência: não conta só a ciência, mas também a ética, a economia, a política...

Estou em crer que haverá uma solução: ou haverá uma tecnologia farmacêutica, baseada na bioquímica, ou ganharemos imunidade (não sabemos por quanto tempo), perante exposição controlada ao vírus. Ou pode até ser que o vírus tenha mutações que lhe diminuam a letalidade, não sabemos.

Acima de tudo, a sociedade faz bem em confiar na ciência: o conhecimento é um bem inestimável, designadamente em alturas como esta. O conhecimento ganhará mesmo contra os seus inimigos, que os há sempre (por exemplo os que espalham notícias falsas e promovem a pseudociência). Mas a sociedade está também a aprender que a ciência não é uma fonte de certezas. Devemos confiar na ciência simplesmente porque, quando falamos do mundo natural (e nós e os vírus somos parte do mundo natural) o método científico é o meio mais fiável para fazer diminuir a incerteza. Como dizia no século XVI o médico português Garcia de Orta, que fez a primeira descrição europeia da cólera asiática:

- "O que não sabemos hoje amanhã saberemos."

"Não paramos, estamos ON": (mais) um exemplo da insuportável infantilizarão do ensino

"O professor é aquele que faz um trabalho 
que mais ninguém faz: ensina."
Olga Pombo (aqui). 

Uma análise histórica, sociológica e deontológica do ensino não pode deixar de revelar fragilidades na afirmação desta ancestral acção humana como profissão.

É importante estarmos conscientes disto para percebermos, nomeadamente, o modo como o professor é encarado e como ele próprio se encara, o modo como é formado e como ele perspectiva a formação, o modo como as mais diversas entidades o substituem e como ele aceita ser substituído, o modo como as instâncias de poder o declaram e como ele aceita ser declarado.

Entendo que, em vez de se darem passos no sentido de se entenderem os professores como profissionais e de eles se entenderem como tal, dão-se passos em sentido contrário. De facto, a destituição da sua função identitária - o ensino -, a par da mistificação (ou, mesmo, subversão) dessa função, é uma das marcas mais visíveis da "narrativa da educação do futuro/do século XXI". 

Nessa narrativa, imposta ao mundo que estabelece o "novo normal" desaparece o adulto-educador, por princípio (bem)formado, cuja função é instruir e formar os mais jovens, para aparecer o aplicador, destituído de pensamento, discernimento e destreza de acção. Há que lhe dizer tudo aquilo que deve fazer para tornar a educação que se quer instituir numa realidade, mas de maneira muito simples e linear, como se fosse uma criança pequena.

Um exemplo: a Direção Geral da Educação (Iniciativa Laboratórios de Aprendizagem) publicou em Abril um conjunto de vídeos com o título "Não paramos, estamos ON", no quais se apresentam "sugestões" que "devem ser usadas de acordo com soluções da sua escola" (ver aqui). 

Como esperado, em todos se solicita atenção às:
- áreas de competências integradas no "Perfil dos alunos";
- "Aprendizagens essenciais"
E todos terminam com duas frases:
"Valorize o progresso dos seus alunos
Promova a aprendizagens diferenciadas que garantam a inclusão de todos"
Eis os onze títulos, cada um dos quais com pouco mais de dois minutos:
"Trabalho entre professores e alunos"
"Dar e receber feedback"
"Portefólio individual do aluno"
"Aprendizagem em casa para alunos mais novos"
"Questões a distância"
"Criar mapas de conceitos"
"Aprendizagem autónoma com o milagre"
"Gerir uma sessão em videoconferência"
"Dinamizar uma sessão síncrona"
"Aprendizagem cooperativa"
"Aprendizagem baseada em problemas"
Vale a pena ver um ou dois para se perceber o que  acima mencionei.

Este texto continua aqui.

Cristina Ferreira e Lili Caneças na "Passadeira Vermelha"

Dias atrás, na “Passadeira Vermelha” da “Sic”, tomei conhecimento das queixas de Cristina Ferreira aos comentários insultuosos de que tem sido vítima na Net. 

Ora isso, julgo por ser ela uma figura pública com êxitos reconhecidos por entrevistas feitas aos nossos mais destacados políticos, como escrevi com palavras semelhantes no meu post aqui publicado “Cristina Ferreira o Serviço Nacional de Informação” (22 de Abril deste ano), a modos de eles se redimirem de pecados ou simples pecadilhos para limparem a alma em seu confessionário em que mostra um ar consternado de quem se obriga a dar-lhes a absolvição ou pena reduzida. 

Entretanto, senti-me defraudado por ter pensado que a “Passadeira Vermelha” era a passadeira de Hollywood que atribui globos de ouro aos melhores filmes. Nada disso, era uma passadeira a nível caseiro! 

Mas imaginemos, a imaginação tem asas, por vezes, atrevidotas, que se tratava de Hollywood, capital do cinema e aqui quem a acompanharia nessa cerimónia de flashs, a dispararem sem descanso, seria, e aqui a dúvida, George Clooney ou Brad Pitt? 

Na noite seguinte, no mesmo local, Lili Caneças, personagem, do “jet-set”, em disputa pelo segundo lugar com Cristina Ferreira na atribuição de globos de ouro, surgindo lamuriosa diz que o comentário que mais a magoou foi chamarem-lhe velha. Ou seja, idosa ainda vá que não vá, agora velha são os trapos e ela vestindo-se de bons costureiros não pode tolerar tamanha falta de gosto! 

Regressando a Cristina Ferreira, ela tem que se ir habituando a ser figura pública, com a carga positiva de um dia de sol radioso de elogios e negativa com o negrume de uma noite sem lua carregada de ataques soezes. Seja como for, o mal não está tanto nos comentários, mas nos blogues sensacionalistas que não fazem a respectiva triagem atirando para o lixo os comentários deste jaez. 

Ora tão ladrão é o que vai à vinha como aquele que fica à porta, porque o pior de tudo é falar nas costas das pessoas não assumindo a responsabilidade ética da sua atitude. Nunca deixe que a ira se apodere da sua vontade. Ignore esses comentários ou contradiga-os sem palavrões – que hoje são moeda em circulação – do tipo mercado do Bolhão. 

Mas falemos a sério. Acho miserável que sob o anonimato se espete um punhal nas costas a modos de vendeta italiana. Sejam cavalheiros e damas, tiram a máscara do coronavírus e ataquem frontalmente. E que os apunhalados em estertor de vida honrada não resmunguem, ou chorem baba e ranho, porque a vida são dois dias. Quanto a mim, sejam bem vindos comentários promotores de uma civilizada e saudável polémica, como tenho escrito várias vezes , que muito possam valorizar os "posts", porque a vida é uma luta constante pela sobrevivência. Ou seja, castiguem quem vos quer castigar com a arma mais temível porque, como se dizia na Roma Antiga, “ridendo castigat mores”. Riamos, pois, tenhamos esse “fair-play”!

sexta-feira, 1 de maio de 2020

VARIAÇÕES SOBRE UMA CANÇÃO DE AMIGO

Mais um texto poético  do meu amigo Eugénio Lisboa, bem a propósito da  "PESTE QUE NOS ASSOLA VINGATIVA E PERIGOSA":



Sabedes que sen amigo

nunca foi mulher viçosa

Cantiga de amigo



Quando a peste nos assola

vingativa e perigosa,

e a amiga se isola,

vai-se o viço e a cor de rosa:

porque, ausente o seu amigo,

a bela mulher viçosa,

sozinha no seu abrigo,

sente a alma vagarosa!

Sabei pois que sem amigo

nunca foi mulher viçosa

e que sem um beijo amigo,

todo o verso se faz prosa!

Se é verdade rigorosa

que o viço requer calor,

dai pois à mulher viçosa

um amigo, por favor!



Eugénio Lisboa,

que vai aproveitando a peste para ir remergulhando nos clássicos, os quais sempre nos deram boas dicas, nos dias de grande aflição.

"Aulas interrompidas, aprendizagem ininterrupta". Siga-se o modelo chinês.

Tanto a OCDE como a UNESCO têm apontado as medidas adoptadas pela China em matéria de educação escolar em tempos de COVID 19 como modelo a seguir por todos os países do mundo, incluindo, evidentemente, os Ocidentais. 

De notar que a declaração "é preciso seguir o modelo da China" faz parte da "narrativa da educação do futuro/do século XXI": vemo-la destacada, por exemplo, nas publicações do PISA (da responsabilidade da OCDE), desde o seu início. Porém, tanto quanto me lembro, nunca ela foi tão ostensivamente invocada como no último mês, e não só pela primeira organização internacional que mencionei, mas também pela segunda.

Um exemplo recente é o Manual de Apoio à Aprendizagem Flexível durante a Interrupção do Ensino Regular: A Experiência Chinesa na Manutenção da Aprendizagem durante o Surto de COVID-19divulgado em 15 de Março pela UNESCO e concretizado numa parceria entre o seu Centro Internacional para a Investigação e Formação para a Educação Rural (INRULED) e o Instituto de Aprendizagem Inteligente da Universidade de Pequim (SLIBNU), 

A tradução para português foi rápida (presumo que em muitos outros países também tenha sido), estando disponível na internet ao acesso das escolas e professores, como suporte para o seu trabalho. Trabalho que, como bem sabemos, em poucos dias, passou de um regime presencial para um regime que, com muito boa vontade, se designa, "à distância". Isto porque, alega-se, a aprendizagem não pode ser interrompida. 

“Aulas interrompidas, aprendizagem ininterrupta”, foi, de resto, o slogan adoptado pela China para a sua iniciativa de ensino à distância...
"... com o intuito de proporcionar aprendizagem online flexível a centenas de milhões de estudantes nas suas casas. Inspirado na solidariedade conjunta e nas experiências inovadoras de milhões de professores e alunos"
 Assim, o manual em causa...
"... tem como objetivo definir o termo “aprendizagem flexível” através de exemplos vividos e histórias emocionantes (...) descreve várias estratégias flexíveis de aprendizagem online implementadas durante o surto de COVID-19."
Vale muito a pena ler o documento, que não é muito longo, para se perceber aquilo que as grandes organizações internacionais têm em mente em termos de sistema educativo global, nomeadamente, o que entendem por "aprendizagem flexível", que métodos e recursos lhe associam, que papéis reservam aos alunos e aos professores, etc. 

Interessa-me de modo muito particular, analisar o lugar das empresas no dito "new normal". Dessa análise darei conta num próximo texto.

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...