sábado, 7 de julho de 2018

Levantar Voo em Horizontes Informáticos

                         

Meu artigo de opinião publicado hoje no "Jornal as Beiras", saído conjuntamente com o Semanário "Expresso":­ 

“A grande coisa neste mundo não é saber onde estamos, 
mas para que direcção estamos a ir.” 
 Oliver Wendell Holmes (1809-1984)

Estando eu a tentar arrumar a minha biblioteca de consulta constante, deparei-me num escaninho escondido de uma das suas prateleiras, como que a reprovar-me pelo esquecimento a que o votara, o meu “Livro de Curso” (1975), parte importante da minha saudosa juventude académica que deve ser recordada porque, como escreveu Pessoa, ”a memória é a consciência inserida no tempo”.

Em remorso tardio, reconcilio-me, assim, com a minha desarrumação para com os livros, alguns amarelecidos pelo tempo e com páginas roídas pelas traças por, a par de papéis em que fui ao longo dos anos tomando notas pessoais, serem eles minha fonte de consulta constante para a minha escrita mais ou menos elaborada, espalhando-os em desalinho pelo chão à mão de semear dada a minha declarada iliteracia informática e uma memória que se vai esvaindo com a velhice porque, recolhido de um texto de Eugénio Lisboa, segundo Ugo Belfi, “as memórias são como as pedras: o tempo e a distância corroem-nas como ácido”.

Ou seja, a minha iliteracia informática não me permite grandes voos em horizontes internéticos, apenas levantar os pés do chão com cuidados redobrados para não tropeçar num mare magnum de informação buscando eu muletas para esta penosa situação no desencanto de Ortega y Gasset: “Muitos meios e saber de pouco servem. Vivemos num tempo que se sente fabulosamente capaz de realizar, porém não sabe o que realizar. Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo. Sente-se perdido na sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnica do que nunca, afinal de contas o mundo actual vai, como o mais infeliz que tenha havido, permanentemente à deriva”. 

Porque “roubar a muitos é pesquisa, roubar a um só autor é plágio” (Wilson Minzer) reside aqui alguns dos perigos da informação aportada pelo mundo informático, utilizada, mesmo em provas de doutoramento pesquisadas na Net.

 Tentando retaguarda para a minha ignorância sobre este mundo novo, em corrida vertiginosa rumo ao futuro, procuro razão de mau pagador em Steve Balmmer, presidente da Microsoft: “Eu testo, mas não uso no dia-a-dia. Mais importante, meus filhos não usam. Eles são bons garotos”. E se, segundo o filósofo Erc Hoffer (1902-1983), “a única forma de prevermos o futuro é ter poder para formar o futuro”, talvez que esta minha “alergia” ao homem versus máquina se consubstancie no pólen letal libertado pelo filme “2001, Odisseia no Espaço” (1968) em que um computador, Hal 9000, de uma nave a caminho de Júpiter se revolta contra o respectivo comandante numa espécie de duelo ser pensante/inteligência artificial “podendo significar o fim da raça humana”, segundo Stephen Hawking um dos físicos mais brilhantes , ou mesmo o mais brilhante, da nossa contemporaneidade falecido em Março deste ano.

De igual modo, Erich Fromm (psicanalista e sociólogo alemão, 1900-1980) manifesta-se receoso de um futuro que ele já não conhecerá: “O problema não é que os computadores possam pensar como nós, mas que nós possamos pensar como os computadores”.

Será que estou a tentar encontrar desculpas esfarrapadas para a minha teimosa iliteracia informática? O futuro o dirá porque, como escreveu Mark Twain, com a ironia que o colocou no pedestal dos grandes humoristas da humanidade, “a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro!”

DIGNIDADE

Artigo de Maria do Carmo Vieira saído na revista Villa da Feira em Junho:


Já expressámos, por inúmeras vezes, a nossa convicção de que o pouco interesse pela Cultura, manifestado por parte de quem manda, resulta da opção consciente em anular o que é espiritual, talvez porque também nunca tenham sentido os seus efeitos benéficos, defendendo e valorizando superlativamente tudo o que conduza, com facilidade e rapidez, à obtenção de um pretenso bem-estar material. Quanto mais ignorantes forem as pessoas, quanto mais se traírem, expondo-se perigosamente ao abdicar de pensar por si próprias, mais facilmente serão conduzidas e enganadas sem a menor compaixão. Testemunha-o o crescente populismo, seja qual for a ideologia que dele se aproveite, e a sociedade global e profundamente desumanizada em que vivemos. Ideias que repetimos porque constante a preocupação que não sentimos abrandada.
Este desejo de moldar o ser humano, estando dele ausente sensibilidade, espírito crítico e responsabilidade, por falta de educação e de treino, começa paradoxalmente na escola, temática que nos é cara e sobre a qual nos temos debruçado com regularidade. A obsessão pela facilidade e a não valorização da reflexão e do estudo, aspectos visíveis, por exemplo, no ensino da Língua Materna, com o uso forçado do absurdo e controverso Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), são sinais evidentes de uma autoridade, no sentido de competência, posta em causa, uma situação que se verifica igualmente em poemas, falsamente atribuídos a Fernando Pessoa, ortónimo e heterónimo, lidos e analisados em sala de aula. A rapidez com que se vai à internet, em procura de material didáctico, ocasiona esta lástima e as vítimas perpetuarão a ignorância.
Há sempre quem se deixe aliciar pela facilidade e cultive a preguiça no estudo e na reflexão, atitudes que não impedem intervenções arrogantes sobre o que não se conhece. Testemunhámo-lo, não há muito, com uma jovem professora universitária que, irritada pelo facto de se mencionar que Luís de Camões, em Os Lusíadas, estaria em consonância com a tese africana, representativa da vontade da nobreza que defendia a expansão para África, e não para Oriente, como desejava a burguesia, perguntou «se o poeta deixara isso escrito». E não se contentando com a questão que tentava confundir quem a expusera, no caso, eu própria, quis pôr à prova o conhecimento sobre outra matéria camoniana, indagando vivamente se o poeta também deixara explicado quem era a «Rosa» do seu soneto, «Rosa minha gentil, que te partiste». Um verso pretensamente decorado, e quem sabe se transferido para os alunos, adulterando o belíssimo soneto que se inicia com «Alma minha gentil que te partiste».
Este inebriamento pela própria ignorância encontra companhia fértil em quase toda a comunicação social, criada ao som da voz-do-dono e da procura do espectacular, com realce para a televisão, pública ou privada. O modo como se desenvolvem, por exemplo, muitos dos programas televisivos, explorando a privacidade humana, em que se incluem as próprias crianças, ou encenando uma assistência, previamente domesticada, que grita, ri ou aplaude sempre que recebe ordem para gritar, rir ou aplaudir, sentada ou de pé, em perfeita sintonia com apresentadores freneticamente apalhaçados, e de um nível cultural e linguístico confrangedores, é bem sintomático da vontade de alienar e de deseducar que grassa na sociedade. Mesmo nos programas de índole cultural, nomeadamente na Rádio, damo-nos, por vezes, conta de uma ignorância ostentada não só em relação à Literatura, mas também, e sobremaneira, em relação à História (tão maltratada porque desprezada tem sido a memória). Em relação a este último caso, não é raro que se confundam datas de acontecimentos históricos, dignos de referência, ou se galhofe com acontecimentos dramáticos e figuras históricas, ou até se espicace o entrevistado, estudioso na matéria que expõe, para uma abordagem picante de um dado assunto, como forma de o aligeirar cativando facilmente os ouvintes, assim devem pensar. Gostam estes mercenários da cultura de se ouvir e por isso interrompem constantemente, rindo de contínuo.
O mesmo pacto com a mediocridade, exposta sem pejo, aconteceu com o AO 90. Na verdade, é confrangedor ler ou ouvir a argumentação sobre o assunto, por parte de algumas pessoas ligadas à cultura e à política, a começar pelos mentores de tal aberração que a grande maioria dos portugueses inteligentemente contesta. Como é possível aceitar o critério acientífico da «pronúncia» na ortografia ou que esta se torne factor de sucessivos equívocos? Como é possível defender a «unificação ortográfica» quando, por exemplo, «recepção» e «concepção» continuam a existir no Brasil, pelo critério da pronúncia, tendo sido transformadas, em Portugal, nas aberrantes «receção» e «conceção», segundo o mesmo critério (neste caso, «p» não pronunciado), pondo em causa a vertente cultural da ortografia, ou seja, a etimologia?
Confunde qualquer um a estreita cumplicidade entre a comunicação social, salvo raras excepções, e com destaque para o jornal Público, e a classe política, em que é justo relevar a postura crítica do Partido Comunista, cumplicidade desde sempre visível no pacto de silêncio relativamente ao AO 90. Sem pejo, escondeu-se o embuste que foi o processo relativo ao desenvolvimento do Tratado Internacional que pelo seu significado exigiria uma maior seriedade, e, sem pejo, impediu-se igualmente a discussão que a matéria requeria porque a Língua, património colectivo, não é pertença de uns tantos supostamente iluminados; um embuste é ainda a unificação ortográfica pretendida quando a própria diversidade geográfica e cultural, da mencionada «lusofonia», a impede. Lamentável é o facto de alguma intelectualidade, traindo a sua função, aceitar acriticamente a «pronúncia» como critério científico ou que as crianças sejam estupidamente usadas em nome da facilidade que não procuram.
Como se tudo isto não bastasse, festejou-se, há uns anos, a entrada, na CPLP, da Guiné Equatorial, paradoxalmente reconhecida como voz «lusófona», sem falar português, e perdoada na sua completa indiferença pelos direitos humanos. Depois do espanhol e do francês (processo de adesão à francofonia há 18 anos) o português é o seu terceiro idioma oficial (anunciado há 5 anos), mas ainda não falado, e, segundo informação vinda a público, os governantes têm tido acesso a acções de formação através da embaixada do Brasil.
Tentar enganar não é um comportamento digno de um político. Trair a inteligência, o estudo e a função de alertar não é um comportamento digno de um
intelectual; obedecer à estupidez e aceitá-la com resignação é abdicar da dignidade que devemos a nós próprios.
Contamos consigo para subscrever, caso ainda não o tenha feito, a Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico (ILCAO), ajudando-nos também a divulgá-la e a angariar as subscrições em falta (menos de 3000). Para o efeito, consulte e partilhe o sítio oficial da ILC: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever/
Maria do Carmo Vieira

Professores para quê?

Georges Gusdorf publicou em 1963, um livro com o título Professores para quê? A pergunta marca uma inquietação que vem de longe, mas que há meio século, já próximo do "Maio de 68", este filósofo francês discutiu de uma forma sistemática e profunda, a um nível que faria história.

Deteve-se na relação única que se estabelece entre o professor e os alunos. Em concreto, no modo como o professor permite a (re)construção do conhecimento já construído pela humanidade para construção do pensamento dos alunos. Não, isto não é construtivismo, é a essência da educação escolar.

Esta perspectiva, partilhada por muitos outros autores, situados em diversos tempos e espaços (por exemplo, João Amós Coménio, John Dewey, Lev Vigostsky, Jerome Burner, Hannah Arendt, Michael Young, Carlota Boto, José Morais) define a identidade do professor. Identidade que se estabelece a partir do compromisso com aquilo que, afinal, tem valor do ponto de vista epistemológico e ético.

Numa altura em que se volta a insistir na ideia de que o professor
- tem de se tornar num mediador, num guia (em certo sentido, sempre foi um mediador, um guia) dado que, por razões de "mudanças de paradigma", não pode continuar a ter um papel "tradicional", ou
- é "ainda" preciso, mas ficando no ar a iminência da sua substituição por novas e fantásticas tecnologias
é importante voltarmos à pergunta: professores para quê?

Se a resposta for a conjectura de Gusdorf, encontramos a sua confirmação num trabalho de meta-análise que demorou cerca de uma década e meia a realizar, tendo sido publicado em 2008 e em 2009. O seu autor é John Hattie, professor da Universidade de Auckland.


Hattie, fez uma criteriosa revisão de mais de mais de 50.000 estudos (em língua inglesa) sobre os efeitos de múltiplas variáveis que podem interferir na aprendizagem (aqui ou aqui). A sua "meta-conclusão" nada tem de surpreendente: a variável mais relevante é a interacção (directa) professor-alunos, interacção que o (bom) professor organiza com a intenção de levar os alunos a aprender.

Podemos pensar: para quê tanto trabalho se o resultado é óbvio. Sê-lo-á, mas precisamos de dados desta natureza para explicar objectivamente a razão de os professores não poderem ser dispensados e de a sua função não poder ser mistificada.
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Mais informações aqui e aqui.

Dois novos volumes da Classica Digitalia

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Annablume.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas Supplementum " [Estudos]

- Paola Bellomi, Claudio Castro Filho, Elisa Sartor (eds.), Desplazamientos de la tradición clásica en las culturas hispánicas (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2018). 252 p.

[El presente libro reúne 12 trabajos sobre los influjos de la tradición clásica (las mitologías grecolatina y judío-cristiana, la filosofía griega y renacentista, el teatro clásico, etc.) en la producción cultural hispánica moderna y contemporánea, con especial enfoque en la literatura, la cultura popular y el cine. Dentro del amplio abanico de estudios propuestos, el monográfico se reparte en tres secciones temáticas. En la primera, se investigan las poéticas subjetivas en autores y autoras que se vuelcan sobre el tema del exilio y el imaginario odiseico. En la parte central, el libro enfoca la presencia de matrices mitológicas femeninas en la literatura hispánica reciente. La última sección está dedicada a estudios de cariz teórico sobre las relaciones entre mitologización y ficcionalidad en los artefactos culturales del mundo hispánico]

- V. M. Ramón Palerm, G. Sopeña Genzor & A. C. Vicente Sánchez (eds.), Irreligiosidad y literatura en la Atenas clásica (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2018). 422 p.

[El análisis del fenómeno religioso en la literatura griega ha merecido una atención sólida en la tradición histórico-filológica más acreditada. Con todo, la tensión ‘religiosidad / irreligiosidad’ que comienza a prodigarse, particularmente en la Atenas Clásica, carece de estudios pormenorizados. Así, este volumen quiere ajustarse a la manifestación que el elemento irreligioso presenta en los géneros literarios de mayor incidencia en la Atenas Clásica: el drama, la oratoria, la historiografía. Tras una actualización científica de contribuciones especialmente relevantes para nuestro tema, ofrecemos un comentario de pasajes seleccionados, relativos a los géneros citados, que ilustren la dimensión de las categorías irreligiosas en la literatura de la Atenas Clásica. Hemos atendido a un principio metodológico: la verificación mediante criterios inductivos de la terminología irreligiosa que opera en los textos para, acto seguido, realizar las consideraciones oportunas. Esta labor queda completada con un epílogo: las reflexiones que los autores posteriores más significativos, desde Platón a Plutarco, efectuaron sobre el ‘problema irreligioso’]

sexta-feira, 6 de julho de 2018

AINDA A DEGRADAÇÃO DO ENSINO EM PORTUGAL

Começo por dizer que não estou só nesta afirmação. Há pouco mais de um ano, o Primeiro Ministro António Costa, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, disse, preto no branco: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.

Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos civismo, cultura democrática e cultura humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a Educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.

As muitas dezenas de comentários, desencadeados pelos meus escritos no Facebook sobre este tema, suscitaram um muito interessante debate, que me ajudou a consolidar a minha opinião sobre um grave problema que nos atinge e que urge enfrentar.

É, pois, minha convicção que:

Como no antigamente, a par de bons, muito bons e excelentes professores, muitos deles desmotivados, há outros, francamente maus, instalados na confortável situação de emprego garantido até à reforma.

A preparação científica e pedagógica dos professores não pode deixar de ser devida e profundamente avaliada, através de processos de avaliação a sério, criteriosamente regulados, por avaliadores devidamente credenciados.

Os sindicatos, nivelando, por igual, os bons e os maus professores, têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do nosso ensino público.

Os professores têm de saber muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino.

Os professores necessitam absolutamente de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm. É, pois, essencial libertá-los de todas as tarefas que não sejam as de ensinar.

É necessário e urgente repor, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar.

É necessário e urgente que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, aqui entendida como a obrigatoriedade de respeitar as normas estabelecidas democraticamente, o que evita o autoritarismo, conferindo a autoridade a quem a deve ter.

É necessário e urgente rever toda a política dos manuais de ensino, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e revisores.

É preciso repensar a política de exames, a começar pela creditação científica e pedagógica dos professores escolhidos para conceber e redigir os questionários.

É necessário resolver o gravíssimo problema da colocação de professores, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;

A remuneração dos professores tem de ser compatível com a sua superior importância na sociedade.

É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos titulares, como nas respectivas dotações orçamentais.

É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade e força política (despida de constrangimentos partidários), ao estilo de um “ACORDO DE REGIME”, capaz de promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial”, poderosa e, de há muito, instalada.
Lisboa 5 de julho de 2018
A. M. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 5 de julho de 2018

CÉLULAS ESTAMINAIS, ENVELHECIMENTO E REGENERAÇÃO: 3 EM 1



Na próxima 4ª feira, dia 11 de Julho, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra 
 "Células estaminais, envelhecimento e regeneração: 3 em 1”, por Lino Ferreira
Bioquímico, Investigador Principal e líder de grupo no Centro de Neurociências e Biologia Celular Universidade de Coimbra (CNC). Investigador Principal do «Enhancing Research in Ageing at the University of Coimbra – ERA@UC.


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seiscoordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.



ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

2027: Irá a procissão passar do adro?


Festejaram-se há dias os cinco anos de nomeação pela UNESCO da Universidade de Coimbra como Património Mundial da Humanidade. Relembro que a zona demarcada da cidade é ocupada pela Universidade em dois “pólos”: “Alta e Sofia,” o “pólo um” e o “pólo zero”, uma vez que o Mosteiro de Santa Cruz, contíguo à rua da Sofia, teve a ver primeiro com os Estudos Gerais no tempo de D. Dinis e depois com a fixação definitiva da Universidade em Coimbra no tempo de D. João III.

Há excelentes razões para todos nos termos regozijado com a aprovação da candidatura preparada pelo reitor Fernando Seabra Santos. E também há razões para estarmos satisfeitos com algumas das consequências da candidatura - um maior cuidado com a Alta e um maior afluxo de turistas, designadamente estrangeiros. Mas também há razões para insatisfação.

Um dos óbices do projecto foi o facto de não ter havido uma candidatura conjunta da Universidade e da cidade.

O divórcio continua à vista, com a Câmara a permitir o tráfego e estacionamento prolongado de autocarros na Rua Larga (uma via essencialmente pedonal que, apesar de larga, já não chega para o parque de estacionamento em que se transformou), a permitir pichagens em edifícios históricos muito próximos da Universidade (no outro dia passei pela Igreja de São Salvador e fiquei apavorado com o vandalismo) e a ser incapaz de fazer o que quer que seja em favor da rua da Sofia (essa rua, com monumentos por qualificar, fechados ao público, continua inerte como aliás toda a Baixa onde a rua se insere).

A falta de cuidado com o património revela afinal a incultura da actual gestão camarária: podiam ser dados outros exemplos, mas um verdadeiramente inacreditável é o abandono a que está votado um notável hospital medieval - o Hospital de São Lázaro, criado por testamento do rei D. Sancho I, que está sepultado em Santa Cruz de Coimbra ao lado de seu pai, D. Afonso Henriques. Pois a mesma Câmara que numa sua publicação classifica o Hospital como sítio de interesse cultural, permite aparentemente que os restos do Hospital, incluindo uma capela ancestral, sejam vítimas do camartelo para construir um centro de saúde.

A Universidade tem ficado também a dever a si própria uma continuação dos planos que tinha no tempo da candidatura para valorizar o seu património. O exemplo mais gritante é o da segunda fase do Museu de Ciência da Universidade a instalar, a instalar diante do Laboratorio Chimico, no Colégio de Jesus, estabelecido em 1542 e um dos mais antigos colégios jesuítas do mundo. Ajudei no planeamento da exposição “Segredos da Luz e da Matéria” que ainda hoje está como estava, praticamente sem renovação, no Chimico, e colaborei na elaboração de planos circunstanciados de musealização do Colégio de Jesus, ligado à actual Sé Nova.

Pois esses planos foram todos postos na gaveta. Assisti ao Concurso Internacional de Arquitectura para adaptar o edifício em face das novas necessidades museológicas, mas, nos últimos cinco anos, nada se passou de visível. Os turistas trazidos em autocarros que poluem o Património Mundial e prejudicam a vida universitária, quase só vão à sobrecarregada Biblioteca Joanina, onde outro dia uma “funcionária” (duvido que o fosse, devia ser uma precária sem formação) me quis despachar de forma malcriada, quando eu ciceroneava um grupo estrangeiro, anunciando que só tinha cinco minutos. Respondi-lhe, obviamente, que tinha o tempo que fosse preciso para mostrar tudo aos nossos convidados. Os turistas não têm restauração decente na Alta. Se a procuram descendo à Sofia não a encontram.

Foi, depois de muita espera e parece que bastante hesitação, anunciado o nome de um responsável pelo projecto “Capital Europeia da Cultura 2027”, que se faz acompanhar de um conjunto de nomes, alguns deles respeitáveis na área da cultura, que formam porém uma comissão desenhada com intuitos mais políticos do que culturais.

Por muita arte que tenha o responsável, o mágico Luís de Matos, as fragilidades da Comissão estão bem à vista: por exemplo, o arranjo partidário começou-se a desmanchar logo à partida quando um representante do PSD se demitiu. Não sei nem ninguém sabe que linhas mestras já existem para rumo estratégico da referida capital. Mas a defesa do património – que em Coimbra tem o expoente reconhecido na “Universidade – Alta e Sofia” – devia ser um das principais desígnios da Comissão, que estranhamente não tem ninguém de áreas, essenciais para Coimbra, como o património e o urbanismo.

O tempo já está a contar para 2027. A procissão ainda agora vai no adro, mas se tanto a Câmara como a Universidade de Coimbra continuarem desirmanadas entre si e da cultura, pensando que esta se resume à atracção de turistas (que nem sequer ficam um dia inteiro na cidade), o cortejo não irá passar do adro.

E, se sair, Coimbra arrisca-se a que a Europa não queira ver o andor.

Carlos Fiolhais 

"Ora, nos centros de explicações trabalha-se diretamente para as notas"

Um leitor anónimo, em comentário ao texto "Professores apaixonados" ou o marketing de um negócio em florescimento, escreveu o seguinte:
Ora, nos centros de explicações trabalha-se diretamente para as notas. Repetem-se, até à náusea, a resolução das provas de exame dos anos imediatamente anteriores e, dada a simplicidade da reduzida matéria alvo de avaliação, os exercícios propostos, ao longo de anos sucessivos, são sempre tão parecidos [pelo] que acaba por compensar andar em explicações. 
As explicações não se destinam, principalmente, aos alunos menos dotados, como noutros tempos em que já era muito bom passar de ano, agora o grande objetivo do aluno médio é atingir os vinte valores, nem mais nem menos, e, muitas vezes, atinge! 
A massificação do ensino, com o golpe de misericórdia da escolaridade obrigatória até aos dezoito anos, afastou da escola o critério da qualidade, acabando por ter o efeito perverso de guindar aos cursos com melhores saídas profissionais os alunos mais ricos que têm dinheiro para pagar colégios, explicações e notas elevadas!
O meu comentário ao comentário é o seguinte:
As políticas para a escola pública traduzem-se na legitimação da "narrativa" da OCDE, a qual é corroborada por muitos académicos, directores e professores. Não sabemos que efeitos terá nas práticas lectivas, mas algum efeito deve ter.
Acontece que os exames nacionais estão (ainda) desfasados dessa narrativa. Os nossos exames nacionais, ou pelo menos alguns deles, requerem o domínio de conhecimentos disciplinares e demonstração de capacidades cognitivas. 
Se na escola o ensino é desviado da sua essência, dificilmente os alunos que pretendem terminar a escolaridade obrigatória ou prosseguir estudos superiores aprendem com a extensão e profundidade que lhes permita obter classificações para passar ou para entrarem nos cursos pretendidos.
Em suma, os sistemas educativos ao mesmo tempo que aligeiram a aprendizagem disciplinar, mantêm exames que testam a efectiva aprendizagem disciplinar. 
As empresas de explicações, como empresas que são, aproveitam esta manifesta incongruência para fazer negócio.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Professor não; mediador sim, dizem alguns professores

"O grande desafio daqui pra frente não é mais saber conteúdos, 
posto que esses estão todos disponíveis na Internet, 
mas quais informações são importantes e relevantes 
para o crescimento cognitivo, 
como essas informações vão mudar o modo de ver o mundo 
e de fazer as pessoas crescerem intelectualmente."

Cláudio de Musacchio,  2014 (aqui).  

"Ele [o professor] ainda cumpre uma função,
é necessário à escola e pode ensinar (...) mas cumpre fazê-lo com cuidados.
O primeiro passo é responder ao que os seus alunos querem saber (...)
 Esse reposionamento do professor deixa lugar à actividade dos alunos,
coloca-os como guias e protagonistas últimos da educação escolar."

Afonso Mancuso de Mesquita, 2010, 72 (aqui).

Certas afirmações/declarações sobre o ensino são realmente difíceis de compreender. E são ainda mais difíceis de compreender se proferidas por especialistas em educação e por professores.

Uma delas é a que se prende com recusa do papel de ensino, que é específico do professor, de modo, claro está, que os alunos aprendam.

Que empresas, políticos e sociedade a veiculem e, mais do que isso, a queiram impor, é estranho, mas enfim, podemos sempre pensar que não estão por dentro do que é a escola e do trabalho que nela se faz ou que têm algo a ganhar com isso, contudo é desconcertante quando se trata de quem conhece e desempenha o ofício.

Realizou-se recentemente em Portugal uma conferência, que foi declarada como o "maior evento de educação do ano", sobre a
“mudança do papel” do professor de “fonte primária” de conhecimento para “medidor” entre alunos.
O organizar, um professor, presidente da Casa do Professor, explicou que os alunos aprendem agora de um modo diferente, não aprendem como aprendiam no passado. Nas suas palavras divulgadas na imprensa:
“... aprendem de forma diferente de há uns anos, as suas formas de aprender as matérias não são exatamente as mesmas, não têm os mesmos processos, são uma geração nascida no pós-internet e isso veio alterar a forma como os jovens se posicionam no mundo”.
Logo, disse, o professor "muda de papel":
“passa de fonte primária do conhecimento a orientador, um tutor, um verdadeiro mediador (...). Anteriormente, o professor era a voz do discurso pedagógico, hoje os alunos têm outros estímulos, reagem de forma diferente, têm uma atenção repartida durante o período da aula e tem que se os estimular no sentido de estarem atentos, mas não apenas focados no professor”.
Assim sendo,
“... este novo papel merece reflexão, exige constante formação e apresenta desafios, vai exigir muito dos professores e esta conferência var dar resposta a esse novo papel no sentido de acompanhar a inovação pedagógica, os desafios que se lhe colocam hoje em dia, porque 
Pergunta, com toda a pertinência, o jornalista, se neste "novo paradigma", o professor perde protagonismo "para as novas tecnologias". A resposta é que não, pois
“... há algo que o computador não consegue (...). As novas tecnologias não conseguem humanizar o contexto de sala de aula e nesse sentido o computador não vai nunca substituir o professor. Confere-lhe um novo lugar, mas não necessariamente um lugar secundário”.
Estas declarações, que têm tudo de nebuloso, não constituem uma novidade. São, na verdade, a replicação, ad nauseam, da "narrativa" da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre a aprendizagem no século XXI.

Organização que também marcou presença na mencionada conferência, fazendo-se representar por um "alto quadro". Nem outra coisa seria de esperar: determinando ela a educação escolar no mundo,  tem de estar muito atenta ao que se diz e ao que se faz, não vá dar-se o caso de surgirem desvios.

Quer ser prontamente “aviado”? Compre medicamento falsificado!

Texto gentilmente partilhado pelo Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo.
Medicamento falsificado não é o feito à base de farinha de trigo. Esse é grosseiramente o placebo. 
Medicamento falsificado é, segundo a União Europeia, “qualquer fármaco com uma falsa apresentação: da sua identidade, incluindo a embalagem, rotulagem, nome ou composição no que respeita a qualquer dos seus componentes, incluindo os excipientes, e a dosagem desses componentes; da sua origem, incluindo o seu fabricante, país de fabrico, país de origem ou o titular da autorização de introdução no mercado; ou da sua história, incluindo os registos e documentos relativos aos canais de distribuição utilizados.” 
Os medicamentos falsificados são susceptíveis de conter componentes de baixa qualidade ou com uma dosagem incorrecta (demasiado elevada ou baixa), o que constitui uma grave ameaça para a saúde dos cidadãos em geral. 
Estão intimamente associados à “dispensa” via internet. 
São letais: matam! 
Mais de 500 000 pessoas sucumbem, por ano, aos medicamentos falsificados (OMS).
Há, na internet, mais de 35 000 “farmácias” ilegais que fornecem sobretudo medicamentos falsificados a preços mais acessíveis que os genuínos dispensados em farmácias e sítios autorizados. 
Mais de 60% dos consumidores recorrem a farmácias ilegais na internet, o que permite entrever os perigos e riscos a que se expõem.
Mais de 50%, ao que se estima, de medicamentos disponíveis na internet, fora dos circuitos legais, são falsificados. 
Os medicamentos contrafeitos e pirateados importam em mais de 200 biliões de US dólares/ano. 
A OMS estima que mais de 30% de medicamentos dispensados em determinados pontos da Ásia, Africa e América do Sul e Central sejam objecto de contrafacção. 
A directiva europeia que versa sobre medicamentos falsificados representa um enorme progresso no que tange à segurança e qualidade dos medicamentos dispensados na UE.
Por um lado, dificultar-se-á a comercialização dos falsificados e, por outro, o acesso a medicamentos na internet será mais seguro.
Garantirá, além disso, que só se empregarão princípios activos de qualidade na composição de medicamentos na UE.
O que tem manifestamente efeito positivo na protecção da saúde pública. 
A Directiva Europeia pretende obstar à disseminação dos falsificados, através de medidas, como
. Reforço da qualidade, eficácia e segurança dos fármacos,
. A adopção de um logótipo comum susceptível de propiciar aos consumidores o seu reconhecimento como websites legítimos, ligados a entidade devidamente habilitada a dispensar medicamentos,
. Informações sobre os riscos associados à dispensa de medicamentos por sítios ilegais;
. Enunciação das entidades aptas a dispensar medicamentos à distância. 
A directiva manda ainda: “A Comissão, em cooperação com a Agência e com as autoridades dos Estados…, deve realizar ou promover campanhas de informação, destinadas ao grande público, sobre os perigos dos medicamentos falsificados.
Estas campanhas devem sensibilizar os consumidores para os riscos associados aos medicamentos vendidos ilegalmente à distância ao público através dos serviços da sociedade da informação e para o funcionamento do logótipo comum, dos sítios na Internet dos Estados-membros e do sítio na Internet da Agência.
” 
A ausência de campanhas de sensibilização, em Portugal, é algo de profundamente negativo em todo este processo. 
Louvor a José Inácio de Faria, eurodeputado, pelo seu papel no Parlamento Europeu em prol de medidas do estilo. 
P.S. “Aviado”: despachado, com um passaporte para a morgue, etc.
Mário Frota
apDC – sociedade portuguesa DIREITO DO CONSUMO – Coimbra (sociedade científica)

PORTUGAL NA AMÉRICA

Abade José Correia da Serra

Crónica de Carlos Fiolhais, no Público de hoje:

Marcelo Rebelo de Sousa no seu recente encontro com Donald Trump na Casa Branca não perdeu a oportunidade de dizer ao seu par, algo desinteressado, que a Declaração da Independência dos Estados Unidos, cujo rascunho foi escrito por Thomas Jefferson e cuja versão final data de 4 de Julho de 1776, foi celebrada com vinho da Madeira. E mais lembrou que Portugal foi um dos primeiros países neutros a reconhecer a independência da nova nação, em 1783.

Mas podia ter dito mais. Por exemplo, que o abade José Correia da Serra, um grande amigo de Jefferson, o terceiro presidente americano, após George Washington e John Adams, foi considerado por este o “homem mais ilustrado que conheceu”, o que não era dizer pouco, pois Jefferson além de estadista era um sábio. O abade chegou à América em 1812 e em 1816 foi nomeado embaixador do reino de Portugal, Algarve e Brasil, quando já era presidente o sucessor de Jefferson, James Madison. Sendo visita regular da casa de Jefferson, a mansão Monticelllo, na Virgínia, o dono da casa tinha reservado para ele um quarto, que hoje os visitantes podem ver (o Abbé Corrêa’s room). Com Jefferson, o Abade alimentou a utopia de uma nova civilização nas Américas, que ambos queriam mais avançada do que a europeia (para Serra os dois países eram “as duas grandes potências do hemisfério ocidental”). A América do Norte ficaria para os Estados Unidos e a América do Sul para Portugal. É curioso como um padre católico se entendia bem com um protestante unitarista, mas unia-os a filiação maçónica. Em 1820, no ano da Revolução Liberal, um ano antes do regresso da corte do Rio de Janeiro a Lisboa e dois anos antes da independência do Brasil, o embaixador luso regressava à sua terra natal.

Marcelo podia também ter dito que o prémio científico mais antigo da nação americana, e que ainda hoje é atribuído, foi estabelecido pela Sociedade Filosófica Americana, sedeada em Filadélfia, em 1786, com 200 guinéus doados pelo português João Jacinto Magalhães, que vivia em Londres e era amigo do fundador da Sociedade, o físico e diplomata Benjamin Franklin. O Magellanic Premium, que se destina a recompensar o “autor da melhor descoberta ou mais útil invenção relacionada com a navegação, a astronomia ou a filosofia natural,” já foi dado 34 vezes, uma das quais aos inventores do GPS.

Podia ainda ter dito que dois dos maiores escritores portugueses do século XIX - Antero de Quental e Eça de Queiroz - visitaram os Estados Unidos e que outros dois grandes nomes das letras, estes do século XX - José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena – lá viveram numa boa parte da sua vida (os dois morreram no exílio). E podia, como Onésimo Almeida referiu no seu discurso do 10 de Junho em Ponta Delgada, que grandes cientistas americanos contemporâneos como o Nobel da Medicina Craig Mello e o físico e ex-secretário de Estado da energia Ernest Moniz têm ascendência lusa, os dois com raízes na ilha de S. Miguel. E podia ainda ter acrescentado que numerosos cientistas portugueses trabalham hoje nos Estados Unidos como a bióloga Sílvia Curado, presidente da Portuguese American Postgraduate Society, que reúne a diáspora científica nos Estados Unidos e Canadá e que acaba de celebrar 20 anos com um encontro na Universidade de Harvard, em Boston (brindou-se com Porto). Receio, contudo, que, com essa overdose de informação, Trump tivesse ficado KO.

Marcelo rematou que “Portugal é um pouco diferente dos Estados Unidos” quando Trump engendrou uma candidatura de Ronaldo à presidência. É-o, de facto. Há coisas melhores cá (um emigrante gritou a Marcelo em Boston: “És melhor do que o Trump!”) e outras melhores lá (por exemplo, o sistema científico-tecnológico). A escritora micaelense Natália Correia, que em 1950 visitou a América (era na altura Mrs. Hyler pois tinha casado com um americano), resumiu no seu livro com o sugestivo título Descobri que era Europeia (Ponto de Fuga, 2018), o gap entre a América e a Europa: “A América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-lo partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela ‘possa ser’, escolhemos o caminho mais longo, pois somos estruturalmente diferentes.”

terça-feira, 3 de julho de 2018

"Professores apaixonados" ou o marketing de um negócio em florescimento

Imagem encontrada aqui.
De actividade individual, mais ou menos modesta, mais ou menos recatada, as explicações passaram para um nível empresarial bem organizado e consolidado.

Basta dar-se uma volta, que nem precisa de ser  grande, pelas nossas cidades, quer seja pelas maiores quer seja pelas mais pequenas, para se perceber que o negócio floresce: encontram-se em praças, ruas e travessas apartamentos, lojas e prédios letreiros a indicar "centros" e  "academias" de "reforço escolar".

Anunciam múltiplos serviços de apoio para todos os anos de escolaridade - básico, secundário e superior - e para todas as disciplinas, temas, etc.

A sua dimensão pode ser local, regional e nacional, mas começam a surgir transnacionais; a sua sede não é só física mas também virtual.

Com esta dupla configuração, ganham flexibilidade para atenderem às necessidades dos clientes (neste caso, o termo "cliente" está correctíssimo):
Dou aulas presenciais na casa do aluno. Dou aulas por webcam. Dou aulas presenciais em minha casa ou na casa do aluno. 
Usam o marketing que qualquer outra empresa usa: os "sites" são apelativos; a linguagem é multifacetada, moderna, os termos em inglês são frequentes; os professores-explicadores, jovens e sorridentes, são apresentados como "perfeitos", "apaixonados", diz-se estarem sempre "disponíveis"; afirma-se a personalização do trabalho e a atenção individualizada, bem como o conforto; garantem-se resultados em testes e exames...

A progressiva expansão destas empresas e o modo como se apresentam constitui um indicador muito fiável da diluição da escola pública: enquanto em relação a esta (ensino gratuito, para todos) se recusa a função do professor, afirmando-se que o aluno descobre por si mesmo ou com os pares o seu próprio conhecimento; naquelas (onde se paga, para alguns) a marca é o que professor faz para o aluno aprender. E, ainda que a tecnologia esteja em destaque, o (velho) método é destacado. Como diz um professor, na promoção dos seus serviços.
Acredito que a melhor metodologia para as sessões seja uma sucessão de pequenas introduções teóricas, seguidas de bastantes exercícios. Desta forma, o aluno começa com uma ideia geral da matéria e aprofunda esse conhecimento através da resolução de problemas práticos. 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

A trivela de Quaresma explicada pela física


Um artigo da Radio Renascença, com declarações de Carlos Fiolhais, acerca da trivela de Quaresma:

Um físico, um linguista e jovens promessas. Fomos ao fundo para descobrir como se faz uma trivela

Se Ricardo Quaresma entrar em campo frente ao Uruguai, pelos lares, ruas e cafés de Portugal, é bem provável que se grite: “Chuta de trivela!”. O “Harry Potter” da seleção já nos explicou em campo que trivelas é com ele. Mas sabemos ao certo que magia é esta que o número 20 da seleção nacional faz?

“Não há nada que se passe no jogo de futebol que a física não consiga explicar. É um ramo da física antigo, chamado mecânica, e foi estabelecido por Galileu e por Newton. O movimento da bola é dado pelas leis da mecânica”, sentencia Carlos Fiolhais, físico, que explica à Renascença a mecânica por detrás da trivela.

Num remate normal, há muitas forças em jogo: à força que o jogador imprime na bola, junta-se a da gravidade, que puxa a bola para o chão, a resistência do ar, que faz com que a bola perca um pouco de velocidade, e ainda o efeito de Bernoulli - o mesmo que mantém os aviões no ar -, que resulta da passagem do ar pela bola e que a empurra ligeiramente para cima.

A equação é, contudo, mais complexa quando se trata da trivela. “Quando a bola está a girar, há outra componente curiosa: o efeito Magnus. É isto que permite explicar o pontapé que o Quaresma deu na bola para marcar o último golo no mundial de futebol", sustenta o professor da Universidade de Coimbra.


O efeito giratório, somado às costuras da bola, arrasta o ar em diferentes direções: de um lado, a bola está a empurrar o ar contra o movimento, e no outro, está a empurrar o ar a favor do movimento. A bola muda de trajetória em pleno voo e trai o guarda-redes. Está feito um golo de trivela.

“Em câmara lenta, no golo do Quaresma, a bola parece que até vai para o poste, para o canto mais afastado do guarda-redes. Mas quando parece que vai ao canto ou até parece que vai sair, a bola encurva para a direita e vai entrar no canto superior direito. Ele já fez isto várias vezes, ele é especialista neste tipo de jogadas”, completa Fiolhais.

A origem obscura do termo "trivela"

Trivela. Substantivo feminino. No dicionário online Priberam, a palavra é descrita como um “pontapé dado na bola com a parte exterior do pé, para criar um efeito de rotação à bola.”

A definição coincide com a explicação do físico Carlos Fiolhais, mas a origem desta palavra perde-se no tempo. Apesar de a explicação mais comum falar do uso de três dedos exteriores para pontapear a bola, para Salvato Trigo, linguista, esta não é a mais verosímil. "A explicação que me parece mais plausível para a utilização da palavra 'trivela' é relacioná-la diretamente com tri-velocidade. 'Trivela' seria uma espécie de acrónimo de trivelocidade, um fenómeno da física”, explica o especialista, que é reitor da Universidade Fernando Pessoa.

O contributo de Magnus não é esquecido na justificação linguística de Salvato Trigo: "Eu julgo que a explicação mais plausível, que, aliás, o professor João Paulo Vilas Boas, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, terá aventado, referindo-se ao lance de Quaresma, é que o pontapé era pura física, chamado o pontapé de efeito de Magnus”.

"Julgo que será relativamente difícil encontrar uma origem etimológica para uma palavra como 'trivela', que apenas surge na língua portuguesa durante o século XX e ligada ao fenómeno desportivo. A palavra terá surgido nas décadas de 60 e 70, porque terá sido um jogador brasileiro, chamado Rivellino, o autor do primeiro pontapé de trivela”, remata Salvato Trigo.

Fiolhais mostra-se cético sobre a origem científica do termo. “A designação é popular” e, por isso, para o físico da Universidade de Coimbra, será muito difícil saber ao certo de onde veio. “Não é muito antiga, talvez seja de origem brasileira”, arrisca o professor universitário, que lembra que ingleses e alemães usam outras expressões para designar este remate.

Pode um físico ensinar a marcar trivelas?

Na hora do remate, Ricardo Quaresma e os outros ases da trivela sabem o que fazer: rematar de lado, com a parte de fora da bota, para imprimir efeito ao remate e trair o guarda-redes. Mas precisam de saber as forças e os vetores por detrás do remate? Para Fiolhais, a resposta é simples: não.

“Eu não perderia tempo a ensinar ao Quaresma as equações. Acho que os físicos podem muita coisa, mas não podem tudo. Os físicos sabem mais explicar. Pode ajudar a garantir e explicar a mecânica das jogadas. Mas não penso que isso seja muito útil”, diz Fiolhais, ele próprio um amante de futebol.

Por muitas explicações que se dê, a execução é muito difícil. A Renascença comprovou isso na visita ao AD Constance, um clube de formação de Marco de Canaveses, em que jovens estrelas tentaram imitar o craque que admiram.

"É muito difícil chutar, mas faz um arco fixe", foi a linguagem técnica utilizada por um dos executantes. A sessºao de treino foi mais fácil para Bruno, o guarda-redes, que defendeu a maior parte dos remates dos companheiros de equipa.

Paulo Sousa, um dos técnicos do AD Constance, reconhece que os miúdos tentam copiar os seus ídolos, "até nas chuteiras", e a trivela não é exceção. "Os miúdos têm essa referência e vão tentando. Alguns deles chegarão lá, mas é um gesto técnico difícil. Não há ninguém que o consiga fazer como o Quaresma faz. É um gesto técnico que não é para qualquer um", assume o treinador, que no próximo jogo, depois da sessão de testes realizada, espera ver uma série de trivelas em campo.

domingo, 1 de julho de 2018

Um "Período de Autêntico Fulgor" na História do Desporto Nacional



“Fazei primeiro vosso aluno são e forte 
para que possais vê-lo inteligente e sábio”. 
 Jean-Jacques Rousseau


Escreveu um anónimo este comentário ao meu post, “Da poesia à crise do Sporting Clube de Portugal” (27/06/2018), chamando a atenção para a minha incoerência com a seguinte argumentação:
“Pois, e Portugal nunca dantes na História conhece tantos e tão espantosos desportistas de elite como agora. E nunca antes teve tantos campeões mundiais ou europeus a actuarem numa mesma era desportiva. Nunca ganhámos tantas medalhas, nunca tivemos tantos desportistas federados a praticar desporto de competição. É um período de autêntico fulgor, com campeões em modalidades tão diversas como Judo, Motociclismo, Ténis, Futebol, Canoagem, Triatlo, Ténis de Mesa, Ginástica, Ciclismo, Futsal, Natação…”
Pela forma correcta como foi redigido o comentário - indo ao encontro (não confundir com “de encontro”) de António Sérgio que escreveu judiciosamente que “contestar a ideia de um certo homem, ou defendida por um certo homem, não é insultar esse mesmo homem” -  merece que clarifique aquilo que tive como decadência do império romano e apogeu de uma educação integral helénica.

No primeiro caso, reportava-me ao futebol profissional, que arrasta multidões  numa espécie de ópio do povo tão criticado no tempo de Salazar e hoje servindo, em doses maciças,  aos nossos políticos para fazer esquecer as agruras desse mesmo desgraçado povo, em que os escândalos se sucedem em catadupa para além do que referi relativamente ao Sporting Clube de Portugal de parceria com outros grandes clubes portugueses, sob suspeita de jogos combinados para ganhar campeonatos nacionais, árbitros comprados para favorecerem determinadas equipas, dopagem de  futebolistas, etc., etc.. 

No segundo caso, referia-me à ausência de uma educação integral helénica causada pela letargia dos nossos políticos, responsáveis pelo pelouro da Educação, em que os mais prejudicados têm sido os alunos das nossas escolas por escassearem horas nos horários escolares de Educação Física, preconizadas pela própria Organização Mundial de Saúde (OMS), faltarem instalações  gimnodesportivas condignas (ou, nas que existem, desleixo  em as conservar para evitar a sua evidente degradação), situações agravadas pelo facto de ter sido defendido por determinados pais/encarregados de educação, mais interessados no êxito escolar dos filhos do que na sua saúde, que a classificação de Educação Física do ensino secundário devesse continuar a não contar para o acesso ao ensino superior  para não prejudicar a entrada dos seus rebentos, agarrados aos calhamaços escolares horas e horas diárias, e em sôfregas buscas de informação na Net, quais lapas fixadas em rochedos, para o ingresso em Medicina tirando, com isso, possível vantagem embora se transformem em  Ernestinhos “com membros franzinos, ainda quase tenros, que lhe dão um aspecto débil de colegial”, tão bem caracterizados pela pena de fina ironia de Eça de Queiroz. Ou seja, já é tempo de acabar com aqueles que se sentem iluminados pela deusa romana Minerva tentando fazendo crer, como tenho criticado publicamente, vezes sem conta, de que que as capacidades físicas estão nas razão inversa das capacidades cognitivas, ou vice-versa!

Felizmente que prevaleceu “o soberaníssimo bom senso”, defendido por Antero, no processo de avaliação dos alunos que passou, finalmente, a contar para o ingresso em todos os cursos superiores, pela qual me bati e da luta sem quartel das associações de professores de Educação Física com o arrimo forte do parecer de um grupo de professores catedráticos da Faculdade de Medicina de Coimbra sobre as vantagens da aulas de Educação Física para a saúde dos alunos num tempo em que se denominam certas doenças provocadas pela falta ou pouca exercitação física de doenças hipocinéticas. Aliás, encontro uma possível razão para a minha voz ecoar no deserto no fenómeno a que os psicólogos sociais denominam de erro de atribuição, ou seja a tendência humana para certos indivíduos desacreditarem certas argumentações motivados por questões de natureza política, ou de qualquer outra natureza, que lhes merecem os seus subscritores!

Esta visão distorcida e preconceituosa  para com o Corpo (em reminiscência do dualismo cartesiano),  com excepção de uma máquina de fabricar taças e medalhas com dividendos políticos, foi criticada de forma lapidar por um ilustre colega meu de Educação Física José Esteves, doutor “honoris causa” pela Universidade Técnica de Lisboa, percursor da actual Sociologia Desportiva portuguesa, quando escreveu numa época planetária de exacerbados nacionalismos (v.g., a disputa  travada entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética pela hegemonia de medalhas olímpicas ou de campeonatos europeus ou mundiais) em nome de um povo acolitado por uma ideologia política, hino ou simples bandeira nacional: “Não troco a formação desportiva de uma centena de crianças das nossa escolas primárias por uma medalha de ouro olímpica”.

Aqui chegado, o meu polémico texto (?) reportava-se, tão-só,  ao interesse paroxístico do planeta terra pelo futebol profissional (repare-se que o estádio russo onde decorreu o último Portugal-Irão tem o nome de “Monrávia Arena”, isto é arena local onde decorriam as ancestrais pugnas do circo romano) e, em antítese, à parcimónia de meios atribuídos à Educação Física escolar portuguesa contrastando com uma Educação Integral helénica, por mim defendida, decorridos quase seis decénios, num artigo intitulado "A Educação Física ao nível da Educação Intelectual”. Nele escrevi: 

”Numa civilização em que se procura auscultar as preferências e as aspirações dos adultos por meio de inquéritos e estatísticas, num século em que as percentagens jogam papel quase dogmático, nota-se pouca preocupação em saber o que a criança quer, e dentro desse querer, condicionado pela experiência do adultos, orientá-la então por processos menos rígidos, menos intelectualizantes, de harmonia com as suas necessidades não só intelectuais como físicas, encarando a criança, enfim, na sua complexidade intelecto-físico-moral ( Jornal “Diário”, de Lourenço Marques, 23/08/1961).
Ora o exemplo do comentário que comento (passe a redundância) não se encaixa em nenhum destes aspectos: futebol profissional e Educação Física escolar. Reporta-se ele ao grande impulso dado ao Desporto Nacional nos últimos anos que, em minha opinião,  justifica e corporiza uma acção desenvolvida com muito mérito pelos grandes clubes (como o exemplo por mim dado do eclectismo do Sporting Clube de Portugal), pelos simples clubes de bairro, pelas autarquias, pela própria pequenada que fazia uma espécie de iniciação desportiva obedecendo a jogos tradicionais, que caíram em desuso, putos que saltavam e corriam nas ruas em que viviam, etc. Aí sim, a verdadeira génese dos exemplos por si apresentados e por si adjectivados, com toda a propriedade, como “um período de autêntico fulgor” comungando eu desta sua opinião acerca do desporto actual relativamente a decénios atrás.

Desta forma, a nossa discordância parece-me ter sido só aparente porque, como diria Fernando Pádua, presidente do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva, “há sempre um modo diferente de ver os problemas dependendo ‘del cristal com que se mira’”! Ou seja, encarámos nós o mesmo problema por caminhos diferentes em que ambos, por não serem paralelos, se encontram finalmente na nossa concordância com  “um período de autêntico  fulgor na história do Desporto Nacional”.

HAWKING OU COMO FIQUEI SEM VOZ


Minha contribuição para a revista "Antimatéria" dos estudantes de Física da Universidade de Coimbra:

No dia da morte de Stephen Hawking, 14 de Março de 2018 (curiosamente o aniversário do nascimento de Einstein e também o dia do pi por ser 3/14 na notação anglo-saxónica), fui acordado de madrugada por um jornalista da rádio, que me transmitiu a infeliz notícia pedindo-me um depoimento. Seguiu-se uma avalanche de outras chamadas, às quais procurei responder. Nesse dia tinha de ir cedo de carro para Guimarães e lembro-me que estava uma tempestade terrível. Escrevi rapidamente um artigo para o Expresso on-line ainda antes de partir. Na autoestrada, usando o telefone de alta-voz, dei uma entrevista ao Público, que no dia seguinte apareceu no jornal sem grande edição (disseram-me que não saiu mal, mas tudo foi um grande improviso em movimento). No Porto parei nos estúdios da RTP no Monte da Virgem para dar uma entrevista em directo.

Com tantas declarações e a meteorologia tão desfavorável fui perdendo a voz. Lá disse o que tinha a dizer no Minho (uma sessão combinada há muito), com a voz cada vez mais fraca. Entretanto comprometi-me a passar ao fim do dia pelos estúdios da SIC e da TVI no Porto, para intervenções em directo. Na SIC uma amabilíssima funcionária, além do oportuno copo de água, deu-me umas pastilhas para a garganta, que minoraram momentaneamente o meu problema. Mas no fim do dia, depois de ter ingerido uma canja, a entrevista que dei, em directo, à Judite de Sousa, já me foi bastante custosa. A minha voz não parecia minha e não sei se alguém conseguiu perceber alguma coisa. No estúdio em Lisboa estava uma doente com uma doença neurológica, como aquela que tinha afectado Hawking a partir dos 20 anos, que, apesar do seu problema motor, se expressava melhor do que eu. A jornalista perguntou-me qual era a razão de Hawking falar tantas vezes de Deus e eu lá tentei dizer que ciência era uma coisa, crença era outra e o físico inglês usava a palavra Deus basicamente para chamar a atenção: quando um cientista fala em Deus toda a gente levanta as orelhas!

Depois foi o regresso a casa pela mesma autoestrada, felizmente agora sem a necessidade de falar. Fiquei uns dias praticamente sem voz (o que foi bom: há quem diga que o calado é o melhor).´ Parece-me que no dia 3/14 falei a todos os media nacionais, excepto talvez ao Observador que teve o azar de me telefonar quando eu tinha a linha ocupada. No dia seguinte lá me li nos jornais. Vendo à distância, com todas as falhas que podem ter acontecido devido ao improviso, estou em crer que fiz o que tinha a fazer, pois Hawking era o cientista mais mediáticos da actualidade e, com Einstein, Darwin e poucos mais, um dos mais mediáticos de sempre. Falar sobre Hawking era uma ocasião para falar de ciência, para falar dos mistérios do mundo e da tentativa de desvendar desses mistérios que a ciência é. Hawking pensou o Universo todo, desde o seu início, o Big Bang, até aos fins que são os buracos negros (que para ele não eram afinal negros). Assuntos enigmáticos sobre os quais ele, mesmo sem voz, conseguia falar e que nos deixam a maior parte de nós mudos, por pouco termos a dizer. Foi irónico que eu, embora temporariamente, tenha ficado mudo tal como Hawking na maior parte da sua vida. Passe a comparação, pois é preciso salvaguardar as distâncias cósmicas que há entre um físico genial e um seu admirador.

Muitas pessoas estão mesmo dispostas a trocar a privacidade pela conveniência

Texto que o Professor Mário Frota nos enviou. Assina-o Ricardo Pintão, advogado de Tecnologia, Media & Comunicações e foi publicado hoje...