terça-feira, 7 de junho de 2016

O nascimento de investigação científica com moscas em filme

Estreia nacional de "The Fly Room" - dia 14 de Junho, 19h, Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. A entrada é livre, lugares limitados para a exibição no filme - registo necessário em http://goo.gl/RnBncn


"The Fly Room" é uma história tocante sobre o nascimento da investigação científica em moscas da fruta, contada pela perspectiva de Betsey, a filha do investigador Calvin Bridges, fundador da genética moderna.



A iniciativa do Instituto de Tecnologia Química e Biológica, Universidade Nova de Lisboa (ITQB NOVA) e do Pavilhão do Conhecimento - Centro Ciência Viva, contará com a presença do realizador do filme, o norte-americano Alexis Gambis, que foi investigador em mosca da fruta antes de se tornar cineasta.

O filme dá vida a um dos mais importantes laboratórios do século XX, a "Fly Room" da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Como o original já não existia, foi integralmente recriado em set, que esteve depois em exibição por vários locais do país.


Será possível conhecer mais sobre os investigadores em mosca da fruta em actividades experimentais disponíveis antes e depois da exibição do filme, onde se poderá ver à lupa as diferentes características destes insectos que os tornam organismos fundamentais para a construção do conhecimento científico. As moscas são organismos muito importantes para perceber processos biológicos em humanos. As actividades serão concebidas e apresentadas por investigadores do ITQB NOVA e do CEDOC-NOVA MS.



Depois do filme, haverá uma conversa com o realizador Alexis Gambis e com investigadores portugueses em mosca. Pedro Domingos (ITQB NOVA) e César Mendes (CEDOC-NOVA MS) são investigadores principais nos seus institutos, que se cruzaram com o realizador Alexis Gambis enquanto jovens investigadores na Universidade de Rockefeller. Junta-se Mónica Bettencourt Dias, investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência.

Programa:
14 de Junho
18h30 Conheça as moscas - com investigadores do ITQB NOVA e CEDOC-NOVA MS
19h00 "The Fly Room " – um filme de Alexis Gambis
20h30 Conversa com o realizador Alexis Gambis e os investigadores Pedro Domingos (ITQB NOVA), César Mendes (CEDOC-NOVA MS) e Mónica Bettencourt-Dias (IGC). Moderação: Ana Noronha (Ciência Viva)

Evento no facebook
https://www.facebook.com/events/1551626541807763/



Sobre o filme:
www.theflyroom.pt
Aos 10 anos, Betsey personifica a curiosidade que a ciência desperta em todos nós, e permite andar livremente entre o espaço científico pragmático e real e um espaço mágico onde as moscas e os humanos se misturam. Com a indomitável vontade de perceber os enigmas do laboratório de investigação, Betsey faz perguntas que clarificam conceitos cientificos complexos. Na linha da frente do filme está a narrativa dramática de uma menina a tentar perceber o seu pai através da sua investigação, o que também nos leva a perceber a importância de organismos modelo, como a mosca da fruta, na compreensão das leis universais da ciência e de que forma isso ressoa na nossa identidade e no que realmente somos.

O filme conta com pequenas participações não apenas da própria Betsey Bridges, como ela mesma, e com prestigiados investigadores:  Stuart Firestein (Universidade de Columbia) como Thomas H. Morgan; Leslie Vosshall (Universidade de Rockefeller) como Edith Wallace; Joseph LeDoux (Universidade de New York) como Theodore Dreiser; Ali Brivanlou (Universidade de Rockefeller) como Edmund Wilson

Organização:
ITQB NOVA – Instituto de Tecnologia Química e Biológica, Universidade Nova de Lisboa
Pavilhão do Conhecimento – Centro Ciência Viva

Com a colaboração:
CEDOC - Centro de Estudos de Doenças Crónicas, NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas, Universidade NOVA de Lisboa
IGC – Instituto Gulbenkian de Ciência

A SÉTIMA ARTE NOS SETE ANOS DO “ARTES”



Meu artigo no número de aniversário da revista cultural "As Artes entre as Letras":

Muitos parabéns, Artes, no teu sétimo aniversário, cresceste muito rapidamente! Nesta abertura do sétimo ano da revista cultural portuense na qual tenho o gosto de colaborar desde o primeiro número, a “sétima arte” é um tema inescapável. De resto, em Portugal estamos ainda no Ano Internacional da Luz (que encerra a 21 de Junho na Casa da Música no Porto) e o cinema é, tal como a fotografia, uma arte da luz, uma arte baseada em desenvolvimentos da ciência óptica.

Pode datar-se o nascimento do cinema: a 28 de Dezembro de 1895, no Salon Indien do Grand Café em Paris (bem no centro da Cidade Luz, no n.º 14 do Boulevard des Capucines, sítio onde hoje é um hotel, cujo restaurante  se chama Lumière) foram projectados numa sessão pública com entradas pagas dez filmes de menos de um minuto cada um, o primeiro dos quais ficou famoso precisamente por ser o primeiro: La Sortie de l’Usine Lumière à Lyon.  Os irmãos Lumière, que tinham por nomes próprios August e Louis (só dois anos de idade os separavam), eram proprietários de uma fábrica de filmes fotográficos em Lyon e tinham desenvolvido uma versão própria de uma câmara conhecida por cinematógrafo. Na véspera da inauguração do cinema tinha havido uma sessão limitada a alguns convidados, entre os quais se encontrava o  Georges Méliès, um artista francês de ilusionismo.  Méliès entou sem êxito comprar uma câmara aos Lumière  mas obteve-a de um ingles. É ele o primeiro autor de filmes de ficção, uma vez que os filmes dos Lumière eram apenas documentários.  O mais famoso filme de Méliès é Le voyage dans la lune, de 1902, inspirado no romance de  Júlio Verne com o mesmo título. Charlie Chaplin chamou ao pioneiro realizador francês o “alquimista da luz”. Tal como o primeiro filme dos  irmãos Lumière o filme de Méliès pode ser hoje facilmente revisto no Youtube.

 Em Portugal a première dos Lumière teve logo impacto. Em 1896 o empresário portuense Aurélio Paz dos Reis filma A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança, que é uma rélica lusitana do filme francês. Apenas um pequeno atraso, portanto!

O cinema é uma arte do século XX e haveria de marcar o século XX, através de desenvolvimentos técnicos e artísticos sucessivos (no cinema a técnica e arte aparecem bem mescladas!).  A primeira sala de espectáculos que mostrava apenas cinema foi o Nickledeon, em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Em 1910 o realizador ameriacno David D. W. Grifith foi o primeiro a rodar um filme em Hollywood, entao um lugarejo nos arredores de Los Angeles, In Old California. Uma outra data importante é 1927, quando surgiu o cinema sonoro, isto é, o cinema com som e imagens sincronizados. A primeira película desse tipo foi The Jazz Singer, realizada pelo norte-americano  Alan Crosland e produzido e distribuido pela Warner Bros., uma grande empresa de entretenimento fundada em 1923 e ainda hoje existente. Até aí, para haver som, tinha de haver músicos em palco que actuavam durante a projecção. Com o fim da Primeira Guerra Mundial o cinema deixou de ser predominantemente europeu, centrado em Franca e Italia, para se tornar essencialmente uma indústria norte-americana. A cor era usada de forma muito limitada ate aparecer em 1936 o Kodachcrome, um produto da Eastman Kodak, uma empresa que sobrevive hoje apesar de ter passado por um processo recente de bancarrota, resultado das grandes mudanças tecnológicas. No fim da Segunda Guerra Mundial foi o triunfo de Hollywood, onde estavam e estão instaladas grandes companhias cinematográficas como a Warner Bros., a Paramount, a Columbia e a RKO. Eis pois como uma arte nascida na Europa se americanizou.

No entanto, foi ainda um europeu que deu o nome de sétima arte ao cinema. O baptismo deve-se ao teorico e critico de cinema italiano Ricciotto Canudo, um dos membros do movimento futurista, que viveu boa parte da sua vida em Paris.  O seu Manifeste des Sept Arts, de 1923, mas baseado em rascunhos que recuam a 1912, anuncia ao mundo que o cimema e a “arte total”, ou ainda a “alma da modernidade”. Quais eram as outras artes? Para ele, mas nao necessariamente nesta ordem para todos os outros autores, eram a arquitectura, a escultura, a pintura, a musica, a dança (hoje associada ao teatro, nas chamadas artes cénicas), a poesia (hoje junta-se a literatura)  e, finalmente, o cinema.  Já foram acrescentadas, depois dele, a  oitava arte - a fotografia, que de facto precedeu a setima arte, a nona arte - a banda desenhada, que também precedeu o cinema, a décima arte  - os jogos video, e a décima primeira arte - as artes digitais. De facto, podemos ficar só com dez artes, pois os jogos vídeo são parte das artes digitais, que de certo modo são um sucedâneo do cinema. O cinema moderno já é, em grande medida, digital.

Assim como ha outras artes para além da sétima, o Artes vai  ter decerto conhecer novos anos para alem do sétimo. À directora, Nassalete Miranda, e à sua excelente equipa, desejo os maiores êxitos. Os sete anos passados fizeram por merecer um futuro bem sucedido.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

CARTA ABERTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO, TIAGO BRANDÃO RODRIGUES

CARTA ABERTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO, TIAGO BRANDÃO RODRIGUES, justa e vibrantemente aplaudido, ontem, num momento alto do discurso de António Costa, no encerramento do 21º Congresso de PS.

Excursão de geologia na Serra do Marão (foto de Luis Miguel Pires Correia)
Embora se perca muitas vezes, só a luta pode alcançar vitória. E é por isso que me habituei a não desistir de lutar. Assim, uma vez mais, lanço esta CARTA ABERTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO, a par de mais uma que procuro fazer-lhe chegar às mãos sobre o ensino da Geologia nas nossas escolas Básica e Secundária.

Quem, a nível político, tem decidido sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares referentes à disciplina de Geologia mostrou desconhecer a real importância deste domínio do conhecimento como motor de desenvolvimento e bem-estar, mas também como componente da formação cultural dos portugueses.

Como é público, insisto em afirmar que, no panorama das nossas escolas, e com as sempre necessárias e honrosas excepções, esta disciplina limita-se a um conjunto de matérias desarticuladas e desinseridas de um contexto unificador, tidas por desinteressantes e, até, fastidiosas. São muitos os professores mal habilitados que as debitam sem entusiasmo, por dever de ofício. São muitos os que, sem capacidade crítica, seguem o estereotipado e igualmente acrítico manual adoptado, que o aluno decora por obrigação de um programa de mérito discutível, e que lança no caixote do esquecimento, passado que foi o exame final. Tem sido este o quadro nas nossas escolas, onde a Geologia sempre foi subalternizada. Foi este o quadro em que cresceram e se formaram a imensa maioria das mulheres e dos homens que hoje temos na política, na administração, nas empresas, na cultura, na comunicação social, no cidadão comum.

É preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si meia dúzia de professores desta disciplina capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais adoptados, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame sem esquecer a necessária e conveniente formação dos respectivos professores. Sempre disse e insisto em dizer que o professor, deve saber muitíssimo mais do que os alunos a quem se dirige. Não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, torno a dizer, estereotipadas e acríticas dos manuais de ensino.

Imenso e tido por inabarcável, ao tempo dos descobrimentos marítimos, o nosso Planeta é hoje assustadoramente pequeno face ao crescimento exponencial da população, além de que começa a dar preocupantes sinais de agressão já evidentes na poluição do ar que respiramos, da água que bebemos e dos solos onde, é bom não esquecer, radica a maior parte da cadeia alimentar que nos sustenta. Sendo a geologia uma disciplina científica que nos fornece o essencial dos conhecimentos necessários à defesa do ambiente natural e à protecção da natureza, é fulcral atribuir-lhe, ao nível da Escola, a importância que, realmente, tem. Da exploração racional dos recursos geológicos, mineiros e energéticos, todos eles não renováveis (e são tantos) e das águas subterrâneas à protecção do ambiente e à prevenção de catástrofes naturais, a geologia faculta-nos os conhecimentos indispensáveis.

Apesar de ínfima no contexto da biodiversidade, esta criatura, a última de uma linhagem evolutiva de milhares de milhões de anos, a que foi dado o nome de Homo sapiens, só por si e desde o advento da Revolução Industrial (finais do século XVIII, começos do XIX), tem vindo a atentar, a ritmo crescente, contra o meio físico que a todos rodeia, atingindo, no presente, níveis alarmantes que justificam, entre outras reuniões internacionais, a COP 21, que teve lugar no passado ano em Paris.
Na sociedade de desenvolvimento, tantas vezes descurando os bem conhecidos preceitos de sustentabilidade, privatizam-se os benefícios da produção e distribui-se pelos cidadãos a subsequente poluição. À desenfreada procura de lucro de uns poucos, tem de opor-se a necessária cultura científica por parte desses mesmos cidadãos. E a Escola tem, forçosamente, que fornecer essa cultura em articulação harmoniosa e inteligente com os saberes de outras disciplinas. Não o “molho” de definições que (salvo honrosas excepções) tem sido a sua praxis.

Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente da Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação científicas, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe correctamente o acesso aos conhecimentos que, constantemente, a ciência nos revela.

Com os respeitosos cumprimentos.

Lisboa, 5 de Junho de 2016
António Marcos Galopim de Carvalho
(Professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa)

Deus Todo-Poderoso numa entrevista de emprego

LIVROS DA FEIRA

Já fui à Feira do Livro de Lisboa. De entre os vários livros que feirei, deixo uma lista de 10, que são de publicação recente (por isso, o desconto de feira foi pequeno, comparado com o de outros). A ordem é alfabética do apelido do autor

- Jason Brennan, Capitalismo. Porque não? Em defesa do capitalismo, Gradiva, 2016.

Um volume em pequeno formato de uma nova colecção "Filosofia Aberta . Política". Brennan responde a Cohen, um volume publicado ao mesmo tempo. E um prazer ler esta polémica socialismo/capitalismo. Para Brennan o capitalismo não só e mais viável na prática do que o socialismo como tem um fundamento mais ético.

- G. A. Cohen, Socialismo. Porque não? Em defesa do socialismo, Gradiva, 29016

Cohen, um dos grandes pensadores marxistas (já falecido) defende o socialismo com base numa interessante -  um acampamento durante o qual varias pessoas tem de partilhar os seus dias.

- Mário Correia, Aviadores Portugueses, 1920/1934. A Aventura dos pioneiros,  A Esfera dos livros,   2016

O voo de Sacadura Cabral e Gago Coutinho (por esta ordem), em 1922, mas também o grande voo do Oriente, de 1925, de Bento Pais, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia e a grande viagem de ida e volta a Timor, de 1934,  de Humberto da Cruz e António Lobato.

- Cristina Dangerfiel-Voght e Svenja Laender, A Vida numa Mala, Armando Rodrigues de Sá e outras histórias, Oxalá Editora (Dortmund),  2016

Rodrigues de Sá foi em 1964 o milionésimo emigrante a chegar a Alemanha. Uma jornalista alemã refaz a viagem, na companhia do neto do emigrante. E entrevista emigrantes actuais.

- George Orwell, Ensaios Escolhidos, Relógio d Agua, 2016

É um  prazer ler os escritos do escritor inglês, autor de 1984.sobre literatura, política, ciência, etc.

- Luís Moniz Pereira, A Máquina Iluminada, Cognição e Computação, Fronteira do Caos, 2016.

Um especialista português em inteligência artificial expõe as potencialidades das máquinas  e os problemas que essas capacidades levantam.

- Enrique Pinto-Coelho, Portugal das Maravilhas. Um pais desconcertante esmiuçado por estrangeiros, Marcador, 2016

Um luso-espanhol tenta, com a ajuda de outros estrangeiros, ver Portugal a partir de fora. Portugal, eterna questão.

- Manuel da Silva Ramos e Miguel Real, O Deputado da Nação, Parsifal, 2016

Um romance satírico a quatro mãos sobre os políticos e a política nacional. A classe política sai arrasada.

- Lawrence Weinstein e John Adam, Problemas e estimativas. Resolução dos Problemas do mundo no verso de um guardanapo, Gradiva, 2015

Resolução inteligente e rápida de problemas que pareciam difíceis, na linha das questões do físico italiano Enrico Fermi - quantos afinadores de piano há em Chicago?

- Andrea Wulf, A Invenção da Natureza. As aventuras de Alexander von Humboldt, o herói esquecido da ciência, Temas e Debates, 2016.

Descrição da vida e obra do grande naturalista alemão, que viajou pelas América do Sul.


domingo, 5 de junho de 2016

AINDA A ESCOLA PÚBLICA E A PRIVADA

Já quase tudo foi dito sobre a vontade do actual governo de introduzir modificações no serviço público nas escolas que vem sendo prestado por privados. Claro que estou de acordo com o princípio que o Estado tem de assegurar o ensino público para todos, assegurando equidade de acesso, recorrendo aos privados apenas quando não o conseguir fazer pelos meios de que dispõe. Para mim é tão claro que não merece qualquer discussão. Esteve bem o ministro Tiago Rodrigues quando, nas poucas vezes em que falou (por que dão dá uma entrevista a explicar-se?), enfatizou esse ponto. E é também claro que o ensino privado tem todo o direito à existência. Há em Portugal, felizmente, liberdade para ensinar e aprender e o ensino público tem convivido com o privado, como aliás acontece em muitos outros países.

Uma outra coisa é o cumprimento pleno dos contratos que o Estado português celebrou com entidades privadas quando teve de recorrer a elas. Havendo divergências, que são públicas e notórias, entre as partes que celebraram os contratos sobre a interpretação dos textos que assinaram  -  existem até  pareceres jurídicos muito distintos (como é costume os pareceres pedidos por uma parte abonam a interpretação dessa mesma parte...) - parece-me claro que têm de ser os tribunais a decidir, devendo fazê-lo o mais rapidamente  possível. O poder judicial terá não só a independência como a legitimidade necessária para dirimir a questão.

Andei sempre na escola pública, sou um produto da escola pública, e defendo e defenderei a escola pública. Não percebo, porém, a necessidade de uma manifestação, nesta altura, com forte apoio de um sector sindical, para defender a escola pública. Alguém a atacou?

O NOTÍCIAS MAGAZINE ESTÁ MAIS POBRE

Hoje abri, como faço sempre a revista de domingo do Diário de Notícias e concluí  que estava mais pobre.  Não encontrei nem a  crónica do David Marçal nem a do Ferreira Fernandes, duas vozes desassombradas que opiniões que merecem leitura.  Assim, não se admirem que cada vez menos gente compre jornais...

Modelos com Big Bang



Excerto do livro do físico Jorge Dias de Deus (Gradiva), que acaba de ser publicado e que foi lançado na Feira do Livro de Lisboa na passada sexta-feira:

Todas as sociedades parecem ter criado as suas próprias histórias baseadas em memórias e mitos com fundamentação mais ou menos religiosa. Essas histó‑ rias surgem hoje como bases para modelos científicos que envolvem um conjunto amplo de cientistas (astro‑ físicos, biólogos, antropólogos, etc.). «De facto, explicações científicas e míticas das origens não são nem complementares nem contraditórias; têm simplesmente objectivos diferentes e estão sujeitas a diferentes constrangimentos. Histórias míticas são uma maneira de preservar memórias colectivas que não podem ser verificadas nem pelo ouvinte, nem pelo contador de histórias» (Luminet 2004). A sua função não é explicar o que aconteceu, por exemplo, no início do Universo: tal cabe à ciência com as suas teorias e modelos apoiados na observação na experiência. 


Tomemos o caso da Cosmologia Relativista, que inclui a estrutura do Universo e a dinâmica da sua evolução no quadro da Teoria da Relatividade Geral de Einstein (de 1915). De facto, Einstein elaborou uma teoria correspondendo a um Universo estático e eterno, estruturalmente estável. Mas, para isso, teve de introduzir na sua teoria uma constante: a chamada constante cosmológica. Surgiu, porém, a descoberta feita pelo astrónomo norte‑americano Edwin Hubble (1899‑1953), nos anos 20 do século passado, de que o Universo estava em expansão, sendo o afastamento entre galáxias proporcional às suas velocidades relativas. O Universo «inchava» como um balão e, deste modo, o modelo estático de Einstein tinha que ser abandonado!

 Em 1931, o físico belga Georges Lemaître (1894 ‑1966) apresentou o seu modelo para o nascimento do espaço e do tempo e para o crescimento do Universo à custa de um «átomo» inicial. Nascia assim a teoria do Big Bang.

 Nos anos 50, o conceito de «criação contínua» tinha alguma aceitação entre a comunidade científica. O austro‑inglês Hermann Bondi (1919‑2005) e o austríaco Thomas Gold (1920‑2004) avançaram então com uma teoria de «estado estacionário» — um estado que se sustentava — tendo como referência de peso o filósofo grego Aristóteles! Este tinha sempre defendido que o mundo era eterno, sem princípio nem fim. Já Platão tinha defendido a ideia oposta: o mundo tivera um co‑meço e teria um fim na altura própria. Para compensar pela gradual diluição da matéria resultante da expansão do Universo, os teóricos do estado estacionário tiveram que recorrer à criação contínua de matéria. 

Em 1948, o astrónomo britânico Fred Hoyle (1915‑2001) demonstrou que o modelo de estado estacioná‑ rio era viável, bastando para isso introduzir um novo  campo que assegurasse para sempre energia negativa e uma situação global estacionária. Mas já era tarde para modelos de «estado estacionário» e, em 1965, os físicos norte‑americanos Arno Penzias (n. 1933) e Robert Wilson (n. 1936) descobriram uma radiação elec‑ tromagnética universal (Cosmic Background Radiation, CBR), abrindo o caminho à afirmação da teoria do Big Bang. Segundo esta, o Universo teria tido uma densi‑ dade infinita há 10‑20 mil milhões de anos. Todo o espaço se encontra cheio com radiação térmica a uma temperatura de 2,73 kelvins. Estes factos são coerentes com a ideia de que o Universo começa com uma súbi‑ ta descompressão, um grande Big Bang (Phillips 1996). De facto, foi‑se mais longe: havia não só um constan‑ te afastamento das galáxias distantes como esse afas‑ tamento era, sabemos hoje, acelerado. 

Cabe aqui lembrar o conflito entre Einstein e Hoy‑ le, de um lado, e Friedmann e Lemaître, do outro. Os primeiros defendendo um Universo estacionário, eternamente estacionário, os segundos defendendo um Uni‑ verso em evolução. Enquanto Hoyle parodiava as ideias de Lemaître, inventando a «marca» Big Bang, o russo George Gamow (1904‑1968) e os seus colaboradores iniciavam a recuperação das ideias de Lemaître, no‑ meadamente a formação de núcleos leves a altas tem‑ peraturas e a emissão da radiação de corpo negro (a temperatura encontrada seria de 3,5 kelvins, não subs‑ tancialmente diferente do valor observado 2,73 kelvins). 

Como já escrevi noutro lado: «As leis gerais que se supõe governarem o Universo em seu conjunto são as da Relatividade Geral e as da Termodinâmica. A feno‑ menologia da Ciência do Universo parte da evidência experimental, multiplamente confirmada, do afastamento generalizado das galáxias e da presença da radiação térmica de fundo preenchendo uniformemente todo o espaço que nos rodeia» ( Dias de Deus, 1985). Faltou dizer na altura que a expansão era acelerada! 

O modelo‑padrão cosmológico baseia‑se na hipótese de que o Universo é homogéneo e isotrópico para es‑ calas suficientemente amplas. A inflação pode dar uma explicação para a homogeneidade a grandes escalas em resultado de uma expansão exponencial do Universo. Também estão presentes perturbações da métrica que concordam com a anisotropia da radiação de fundo. Tal pode provocar perturbações do valor da constante cosmológica (da ordem de um por cento).

De acordo com o modelo‑padrão para o Big Bang, o Universo desenvolveu‑se aproximadamente segundo as linhas gerais seguintes: 

1) Nanossegundos após o Big Bang: O Universo está cheio de um gás de partículas e antipartículas (quark‑antiquark, leptão‑antileptão, neutrino‑antineutrino, gluões, fotões). Quando a temperatura vai abaixo de 109 kelvins, os quarks, antiquarks e gluões desaparecem por aniquilação, mas, como os quarks estão em excesso (quebra de simetria matéria‑antimatéria), dá‑se a transição para partículas mais pesadas, como os neutrões e os protões do Universo actual. 

2) Um segundo após o Big Bang: O Universo consiste num gás de neutrões e protões, electrões e positrões, neutrinos e antineu‑ trinos e fotões. Com o decréscimo da temperatura, diminui a densidade do Universo, que fica demasiado baixa para haver interacção de neutrinos com a matéria. O desacoplamento a T = 2 kelvins dos neutrinos corresponde a um espectro universal, semelhante ao electromagnético, que ainda não foi detectado experimentalmente. 

3) 100 segundos após o Big Bang: Os quarks que restaram (os antiquarks tinham desaparecido) produziram neutrões que se com‑ binaram com protões dando origem a núcleos leves. Surge então um universo onde, aproximadamente, 75% da massa é hidrogénio e 25% é hélio. 

4) 300 000 anos após o Big Bang: A temperatura desce até valores da ordem de 4000 kelvins, suficientemente baixa para a for‑ mação de átomos estáveis. Núcleos de hidrogénio e hélio combinam‑se com electrões para criar átomos estáveis desses elementos. 

Até agora, o Big Bang levou‑nos a um Universo composto de hidrogénio e hélio com vestígios de elementos leves. Esta matéria primordial foi enriquecida em elementos pesados, com um ciclo de formação e evolução, em que a matéria foi transferida, entre estrelas e matéria interestelar (Phillips 1996). Um dos objectivos principais da astrofísica consiste em utilizar este ciclo para explicar as abundâncias de elementos químicos que integram actualmente o Universo. 

Os elementos químicos observados, por exemplo, no sistema solar, são em grande parte um produto da nucleossíntese durante o Big Bang e da nucleossíntese durante a evolução estelar. A fusão termonuclear numa estrela é determinada pela sua massa. O hidrogénio será queimado se a massa for superior a 0,8 vezes a massa do Sol. No caso da queima do hélio tem‑ ‑se para o limite de massa 0,5 massa do Sol. A massa de uma estrela determina em geral a sua evolução e o seu destino. Estrelas como o Sol evoluem devagar e terminam a vida como anãs brancas. Estrelas maciças evoluem rapidamente e terminam a vida por colapso catastrófico (quando a massa do núcleo central de fer‑ ro excede o chamado limite de Chandrasekhar, 1,4 vezes a massa do Sol). 

As várias fases no desenvolvimento da Cosmologia Relativista: 

1915‑1927: Os primeiros modelos (Einstein) para universos relativistas foram obtidos na ausência de observações cosmológicas.

1927‑1945: Desvios cosmológicos para o vermelho compatíveis com soluções de Friedmann‑Lemaître para Universo em expansão. 

1945‑1965: Produção por nucleossíntese de elementos leves e previsão da existência da radiação elec‑ tromagnética de fundo. 1965‑1980: Triunfo da teoria do Big Bang.

 1980‑1998: Física das altas energias e efeitos quân‑ ticos na descrição do Universo inicial. 

1998‑ : Cosmologia experimental de alta precisão com os parâmetros fundamentais sendo actual‑ mente medidos com a precisão de poucos pontos percentuais e com a emergência de novos proble‑ mas (natureza da energia escura, topologia do Universo, novas cosmologias em teorias de gra‑ vitação quântica, etc.). 

Escreveu o astrofísico francês Jean‑Pierre Luminet: «Em 1915, Einstein, e também Hilbert, apresentaram as equações correctas de campo para uma teoria re‑ lativista da gravitação. Esta teoria, designada como Relatividade Geral, propõe um novo referencial para uma compreensão do Universo. Einstein argumentava que a gravidade não era uma força, mas um efeito resultante da curvatura do espaço‑tempo causado pela distribuição de massa e energia. O Universo, até então um conceito relativamente vago, ganha uma consistência nova e transforma‑se numa entidade física definida pela sua estrutura de espaço‑tempo e a sua composição de matéria, luz, radiação, de facto todas as formas de energia. O espaço‑tempo ganha uma estrutura rica, expressa geometricamente em termos de curvatura e topologia, e fisicamente em termos do conteúdo em matéria e energia» (Luminet, 2004).

quinta-feira, 2 de junho de 2016

"A escola mudou pouco e é natural"

Reproduzimos extractos de um depoimento de António Rodrigues, director do Centro de Competência Entre Mar e Serra (Cf. Jornal de Leiria, entrevista "A escola não deve ser a Disneyland das crianças") pela clareza com que trata algumas questões que têm vindo a lume neste blogue.
A escola mudou pouco e é natural. Sendo uma instituição que transmite à nova geração os valores da anterior é normal que seja conservadora. Os alunos também não mudaram assim tanto. O que mudaram foram os contextos em que eles são criados. As crianças têm uma enorme capacidade de aprender o mundo em que vivem. Se o mundo em que vivem é rodeado de tecnologia, é natural que a aprendam. Há também aspectos da mudança da estrutura familiar e demográfica que alteram o nível e o tipo de relação que as famílias têm com as crianças. Acredito que sejam os contextos sociais e familiares que alteram de forma mais significativa o comportamento das crianças e não propriamente aquelas ideias mirabolantes de que as crianças mudaram em ruptura com a geração anterior. 
(...) a maior mudança parece resultar do facto de a escola de hoje ser para todos. No meu tempo havia jovens que abandonavam a escola porque consideravam que não tinham jeito para ela. A partir do momento em que a escola é para todos (querendo os jovens ou não) tem de haver respostas muito diferenciadas, de acordo com as especificidades de cada um e isso cria os desafios mais complicados às escolas e aos professores. 
A escola está organizada e os professores foram formados para o que se designa por “escola de massas”, em que se desenham estratégias que se acredita serem adequadas à generalidade dos alunos, mas que, muitas vezes, falham para determinados grupos de alunos. Há poucas formas aceitáveis de ensinar quem não quer aprender, pois a aprendizagem é um acto voluntário e que exige algum esforço (...). A escolaridade obrigatória vai até aos 18 anos. Como motivar jovens que não querem lá estar? A diferenciação pedagógica na sala de aula e a diversidade no modo como se organizam os planos de estudos são a chave para o sucesso de uma escola que tem de lidar com a diversidade. 
A maior parte das vezes, os alunos não aprendem porque não têm a disciplina necessária para suportar a natureza e modelos de organização do trabalho escolar. O mais fácil é rotulá-los de preguiçosos (“não aprende porque não quer”) como se estar ou não estar motivado dependesse apenas da sua vontade (...). 
Não sou adivinho, mas posso garantir que a escola do século XXII, terá professores do século XXI e pedagogias do século XX pelas simples regras da aritmética e da vida. A escola nasceu com o pecado genético de nunca estar preparada para a geração actual e requer permanentemente a sua reinvenção (...). Revejo-me na previsão de Alvin Toffler, que caracterizou o nosso tempo com o das “múltiplas minorias”.  
Obviamente que a escola tem outros problemas de circunstância que tornam esta questão muito mais complicada, como a desmotivação dos professores, que foram muito maltratados nos últimos 10/15 anos (...). 
Há uma enorme diferença entre o que é informação e o que é conhecimento. Há também uma grande diferença entre a acessibilidade à informação e o saber procurá-la. Não tenho dúvidas de que os alunos têm acesso facilitado à informação factual, mas, quando passamos para aprendizagens mais conceptuais, as coisas complicam-se na capacidade dos alunos utilizarem essa informação na construção do seu próprio conhecimento (...). 
Quando começámos a usar a tecnologia em sala de aula ela produzia uma motivação para aprender. Actualmente, os computadores, tablets e smartphones vulgarizaram-se e deixaram de produzir aquele “brilhozinho nos olhos”. Temos agora um grande dilema: ou utilizamos a tecnologia quando ela é realmente eficaz na melhoria das aprendizagens (e para isso é necessário avaliar os seus impactos) ou a utilizamos para fazer uma escola mais divertida. 
A ideia de que o desígnio primordial da escola é ser divertida para as crianças é tão abominável como o seu contrário, pois ela deve preparar para a vida e esta nem sempre é uma festa. Se aprenderem de uma forma mais divertida melhor, mas custa-me ver concepções em que a escola nos aparece como Disneyland ou a Las Vegas dos mais novos.

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...