quinta-feira, 11 de abril de 2013

NOVOS LIVROS DA GRADIVA - ABRIL


Uma obra excepcional e extraordinariamente acessível a todos os leitores, considerado livro do ano por The Economist  e Seed, sobre a importância que a teoria de cordas granjeou entre leigos e especialistas. Uma importância, questionada com sólidos argumentos pelo Autor, que está mesmo a condicionar a investigação na física, impedindo-a de seguir outros rumos, bloqueando ou atrasando o progresso científico na área.
«Ciência Aberta», n.º 199 . €26.,50 . €23,85
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Lev Tolstói
O que é a Arte?
De um autor enorme, conhecido sobretudo como romancista, esta é uma obra influente de reflexão sobre a natureza da arte, intelectualmente provocadora e destemida, só ao alcance de alguém com a coragem e a honestidade intelectual de Tolstói. Um conjunto de reflexões que não perdeu actualidade, pois o debate permanece aceso: afinal, o que pode ser considerado arte? As obras de, por exemplo, Damien Hirst serão arte? Quem as rotula como tal? Com que fundamento? Tolstói faz estas mesmas perguntas, e responde-lhes, relativamente aos artistas seus contemporâneos.
«Filosofia Aberta», n.º 23 . €14,00 . €12,60
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Eduardo Lourenço
Os Militares e o Poder
seguido de O Fim de Todas as Guerras e a Guerra Sem Fim
Eduardo Lourenço não cessa de nos surpreender com a sua clarividência - quase vidência - e argúcia. Neste livro, com textos dos anos 70 (à excepção do último, escrito propositadamente para esta colectânea), revelam-se com extrema clareza as características do povo português que o fazem viver ciclicamente momentos de angústia e dificuldade. Implacável e certeiro na análise, Eduardo Lourenço mostra-nos a uma luz crua o que somos e, consequentemente,o que nos espera.
«Obras de Eduardo Lourenço», n.º 20 . €13,50 . €12,15
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Cientistas de Pé
(David Marçal, coord.)
Toda a Ciência (Menos as Partes Chatas)
«Com esta obra, além de ficarmos a saber mais sobre alguns aspectos das multifacetadas ciências modernas, as ciências que tão fortemente moldam o mundo de hoje, ficamos também com uma imagem mais verdadeira da ciência e dos cientistas. Estes são capazes de não se levar demasiado a sério. Tal como estes Cientistas de Pé, os melhores cientistas são capazes do melhor humor. Uma das anedotas mais engraçadas da ciência que conheço é aquela em que alguém pede a Einstein para fazer uma conta simples, que deveria ser feita mentalmente por um físico laureado com o Nobel. Resposta, surpreendente, de Einstein: 'Julgam que eu sou algum Einstein?'» in Prefácio (Carlos Fiolhais)
«Fora de Colecção», n.º 388 . €9,00 . €8,10
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Jean-Claude Rodet
Manual do Caminheiro
Equipar-se, Alimentar-se e Cuidar de Si... Naturalmente
Numa obra que propõe uma abordagem prática inédita, extremamente acessível, encontramos um manancial de informações simples, conselhos preciosos e comprovados e soluções eficazes para iniciar com o pé direito - ou prosseguir - uma actividade de pedestrianismo. Numa altura em que este desporto ganha cada vez mais praticantes, urgia um manual do caminheiro assim, ecologicamente responsável, socialmente sensível e naturalmente consciente. Uma verdadeira bíblia para quem caminha, faça-o por recreação ou necessidade, em grupo ou sozinho, em peregrinação ou como desporto.
«Fora de Colecção», n.º 387 . €13,90 . €12,51

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Educação para adultos

A pedido do leitor José Batista, deixo a ligação para a crónica de hoje do programa "Pano para Mangas", da autoria João Gobern e intitulada "Educação para adultos".

Efectivamente, Gobern traça aqui um retrato global e mas preciso de grande parte dos problemas que, desde há muito, se fazem sentir no campo da educação formal.

Vale a pena ouvir.


MOOCs: Will Online Education Ruin the University Experience?


http://www.newrepublic.com/article/112731/moocs-will-online-education-ruin-university-experience

I don't see how a MOOC can be much more than a digitized textbook.

(via Instapaper)

terça-feira, 9 de abril de 2013

«VER» OS SONHOS

Crónica publicada primeiramente no Diário de Coimbra e em outra imprensa regional.


“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida”, disse-nos um dia o poeta cientista António Gedeão.

Alguns neurocientistas actuais que estudam a evolução do cérebro e das competências que nos tornam especificamente humanos, consideram, como hipótese de trabalho, ter sido o sonho a antecâmara da consciência.

Vejamos por partes. Considerando o sono uma função natural que é resultado de um estado funcional particular do cérebro, ele é tão importante para a sua boa saúde como é natural a necessidade de respirar. Durante o sono, enquanto o corpo restante está em repouso relaxado, o cérebro apresenta uma actividade considerável. Uma dessas actividades em particular caracteriza-se por períodos designados por sono REM (rapid eye movements, ou movimento rápido dos olhos) que, sendo breve, se repete quatro ou cinco vezes durante uma noite de sono. Nestes períodos sonhamos.

Não cabe aqui analisar nem rever as inúmeras teorias interpretativas sobre os sonhos. Mas há espaço para divulgar a ideia de que ao longo da longa noite da evolução da mente humana (em rigor, dos animais com cérebro) esses momentos oníricos (do grego óneiros, que significa sonho) exercitaram a capacidade de o cérebro interligar sensações experienciadas durante o estado de vigília e retidas em memórias, criando composições integradas ou imaginadas mas desligadas do nexo da realidade sensorial. 

Estes períodos (sonhos) de composição e integração de memórias aparentemente desconexas podem ter robustecido o tear das vias neuronais que, fora do sono, durante a vigília, se foram consolidando para produzirem uma nova aptidão para o cérebro: a capacidade de gerar pensamentos conscientes e eventualmente independentes da realidade sensorial. Assim o sonho fora a antecâmara da capacidade de pensar concreta ou abstractamente!

Investigar os sonhos sempre foi um tema interessante e por vezes decisivo para o destino de civilizações. Por isso é com entusiasmo que se divulga o artigo que uma equipa de Investigadores Japoneses publicou, na edição online de dia 4 de Abril da prestigiada revista Science. Nele são apresentados os resultados do estudo efectuado por imagiologia por ressonância magnética funcional (fMRI) de pessoas a sonhar. Através do uso de um algoritmo para isso desenvolvido, os investigadores foram capazes de descodificar a actividade cerebral e prever com uma precisão de cerca de 60% as imagens que as pessoas estudadas estiveram a sonhar!

Esta visualização dos sonhos, agora possível pelo grande desenvolvimento verificado nas técnicas de imagiologia cerebral nas últimas décadas, poderá permitir novas ferramentas de diagnóstico de perturbações e patologias numa maior aproximação a cada caso individual. Na realidade, esta nova ferramenta permite dizer-nos que não sabemos ainda o que vamos encontrar, que ilhas ou continentes os neurocientistas vão descobrir no mar dos sonhos.

A publicação deste artigo surge na mesma semana em que os EUA, pela pessoa do seu Presidente Barack Obama, acabam de anunciar o orçamento (100 milhões de dólares para o ano 2014) para um novo e ambicioso programa de investigação em neurociências. O projecto, apresentado pela desiganção “Brain Research Through Advancing Innovative Neurotechnologies”, ou simplesmente “BRAIN, visa “acelerar o desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias que permitam aos investigadores produzir imagens dinâmicas do cérebro, mostrando como as células individuais e os sistemas neurais complexos interagem à velocidade do pensamento”.

Abrem-se novos meios para descobrir o futuro do conhecimento. É o cérebro a decidir conhecer-se a si próprio. A desvendar o sonho imemorial da nossa evolução.

António Piedade

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A NEBULOSA ORDEM DOS PROFESSORES

Capa do opúsculo: "Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores"(edição do SNPL/1996).

“Investiguei o melhor que soube e o melhor que pude: e declaro, a todos, que o não fiz nem por oiro, nem por prata, nem por salário, nem por soldo de nenhum príncipe, nem por conta de nenhum homem ou mulher que exista (…), mas, sim e unicamente, expor as coisas que aconteceram” ( Jacques du Clerc, 1420-1501).

Aposentado que estou (logo não me movem motivos de vir a colher quaisquer benefícios pessoais), e tendo, de há vários anos para cá, deixado de ser presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL), tenho continuado a insistir na vantagem da criação da Ordem dos Professores. Esta minha teimosia, encontra leitmotiv numa pergunta de António Mouzinho sobre a nebulosa Ordem dos Professores
.
Por se tratar de um assunto de interesse público, que mereceu a atenção editorial de um meu artigo de opinião , a página inteira, no “Jornal de Notícias” (08/03/2006),  espero  ter bases para uma resposta, devidamente fundamentada, sobre a verdadeira saga da formação da Ordem dos Professores”, no passado e  no presente (o futuro a Deus pertence), com a esperança que a acção do SNPL, sem manobras políticas de bastidores ou espúrios apadrinhamentos, não tenha lugar duvidoso na história ( como escreveu Gertrude Stein, a história faz memória) que precedeu a respectiva criação  (real e não apenas virtual, como a sigla da´Associação Sindical Pró-Ordem dos Professores). Não será altura, portanto,  do  Ministério de Educação, corrigindo erros e omissões  do passado,  nomear uma comissão com essa finalidade dando ao SNPL (devido, entre outros motivos , à massa crítica dos seus sócios licenciados por universidades) o lugar de destaque que merece  por a sua criação ter sido alvo de desconexos argumentos que o deputado do Partido Socialista, João Bernardo,  evocou, e subscreveu, como desculpa para a sua não criação?

Mas porque a memória dos homens é curta para as suas conveniências políticas e/ou pessoais, reporto-me, uma vez mais, e tantas quanto as necessárias, ao debate, na Assembleia da República (02/12/2005), sobre a  petição  do  SNPL (com 7867 assinaturas, sendo apenas necessárias 4000). Nesse debate, de triste memória,  o deputado do PS, João Bernardo, simultaneamente, secretário-geral do Sindicato Nacional e Democrático dos Professores (SINDEP), apresentou o seguinte e esfarrapado argumento “A criação de novas ordens, no momento em que o poder das mesmas, em Portugal, precisa de ser reflectida e devidamente estruturada numa lei-quadro que estabeleça as suas funções e as suas competências”. Acontece que esta legislação foi apenas publicada em 10 de Janeiro deste ano, mediando entre o seu anúncio, na Assembleia da República, e a sua publicação, em Diário da República, um espaço  de servidão  semelhante aos anos que Jacob serviu Labão!

Isto é, a reflexão, exigida por João Bernardo, numa espécie de política de funil, em que “o sentido íntimo das coisas é elas não terem  sentido íntimo nenhum” ( Fernando Pessoa),  foi bolsada no Parlamento em 2005. Entretanto,  foram  criadas a Ordem dos Psicólogos (2008), a Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas  (2009),  a Ordem dos Nutricionista (2010) e a Ordem dos Engenheiros Técnicos de Engenharia (2011).  Repare  o leitor que as três primeiras destas  ordens profissionais foram criadas na vigência do Partido Socialista, durante os  XVII e XVIII governos constitucionais  (12 de Março de 2005 a 05 de Janeiro de 2011). Por outro lado, surgiu a Ordem dos Engenheiros Técnicos seis dias após a cessação de funções do Partido Socialista numa gestação em ventre do Partido Socialista e parto no início do  actual governo PSD/CDS.

Mas mesmo anos antes, o então ministro da Educação do XII Governo Constitucional do Partido Socialista, Marçal Grilo, do XII, declarava  ao extinto semanário “O Independente” (Julho de 97) que “a sua estratégia passava por colocar as ordens profissionais na linha de fogo às loucuras do mundo académico” .  Neste insólito clima de excepção, a que título continuarem os professores, verdadeiros cabouqueiros do sistema educativo, órfãos de uma ordem profissional? E se para o jurista brasileiro Ruy Barbosa “não há nada mais relevante para a vida social do que a formação do sistema de Justiça”, não será justo avocar, por outro lado, o importante papel dos professores na formação, por exemplo, médicos e advogados, associados nas diversas, e inúmeras, ordens profissionais existentes?

Verdade seja dita que, pela voz do  deputado do CDS/PP, Abel Baptista, na Assembleia da República (02/12/2005), foi dado apoio incondicional  à criação de uma Ordem dos Professores: “Julgamos que a Ordem dos Professores pode e deve ser criada”. Por seu lado, em idêntica ocasião, o deputado do PSD, Fernando Antunes, reconheceu que”a ambição de criar uma Ordem dos Professores surge, pois, aliada a um forte sentimento de união de classe responsabilizando-a face a esse importante desígnio nacional que é a educação”.

Sendo o actual Governo formado por uma coligação PSD/CDS, não seria uma altura soberana de dar aos professores um estatuto que o passado justifica  e o presente impõe em nome da dignificação Ensino , dando apenas o seu aval a diplomas sérios de formação de professores, através de uma  organização profissional de direito publico em que a administração do Estado delegue poderes de responsabilização   perante a sociedade   pelos actos dos seus membros? Ou será preferível  continuar  deixar entregue algumas dessas funções, como dar pareceres sobre programas escolares, condições de acesso à profissão, regulamentação da actividade docente,  etc.,nas mãos de  sindicatos descaradamente politizados  que fazem da rua o seu palco ruidoso  de reivindicações que ultrapassam fronteiras  que se alargam muito para além de questões meramente laborais que lhes estão atribuídas constitucionalmente?

Parafraseando Winston Churchill sobre a temática da guerra, a Educação é um assunto demasiado sério para ser deixado em mãos ávidas dos sindicatos e de sindicalistas. Ou de caçadores de diplomas de ensino superior em que a Ordem dos Professores teria uma palavra para contestar tamanho regabofe em que a licenciatura de Miguel Relvas será apenas a ponta de um icebergue capaz de afundar o prestígio de diplomas de licenciatura de determinados estabelecimentos de ensino universitário privados de que o passado, também ele,  é pródigo em exemplos de idêntico cariz.

“Last but not least”, entendi não poder, nem dever, deixar passar em claro testemunhos  que possam  chamar a si o papel de actores principais de uma espécie de melodrama de que foram meros figurantes, tentando, assim,   nebulizar  o importante papel do SNPL em prol da criação da Ordem dos Professores com simples declarações de boas  intenções. Ora, como bem se sabe, no dizer do povo, o inferno está cheio de boas intenções!

E.. também experiências como a maternidade

O generoso reconhecimento, validação e certificação de competências, de que tenho falado em textos anteriores (por exemplo, aqui), vai tornar-se mais... generoso. A notícia é da jornalista Kátia Catulo e foi publicada no passado dia 4, no Jornal I. Os extractos que se seguem são da sua autoria.

"Se cumprirem o acordo alcançado nas últimas semanas, os 27 países da União Europeia vão ter em 2018 regras comuns para validar os conhecimentos que um português, um grego ou um italiano adquiriram fora da escola. Há mais de uma década que esta ideia andava a marinar nas instituições comunitárias sem nunca sair do papel. Agora, perante as estatísticas que demonstram que um quarto dos jovens europeus está sem qualquer ocupação profissional (38,2% dos portugueses), a UE a defende que esta missão é urgente.
(...)
Tão urgente que a comissária para a Educação, Androulla Vassiliou, queria o novo regime já em 2015, numa tentativa de melhorar as perspectivas de emprego jovem. A maioria dos estados-membros teve dúvidas de que conseguiria pôr no terreno o projecto com um calendário tão apertado e decidiu prolongar o prazo por mais três anos"
(...)
O certo é que a decisão está tomada e, em 2018, os 27 países da UE terão de disponibilizar aos europeus as ferramentas e os meios para poderem certificar dois tipos de conhecimentos: em primeiro lugar a educação formal, como cursos, workshops ou qualquer outra formação que envolva professores e alunos; em segundo lugar as aprendizagens adquiridas fora da sala de aula, sejam línguas aprendidas no estrangeiro, seja a participação em programas de voluntariado, as práticas de liderança em associações ou mesmo experiências como a maternidade (educação informal).
(...)
O problema, contudo, são os preços. As taxas para se ter acesso a um processo de validação em França podem chegar a mil euros, segundo a Comissão Europeia. O consenso agora alcançado entre os 27 países é que todos os cidadãos deverão ter a mesma oportunidade para pedir um reconhecimento oficial sem se sujeitar a burocracias e encargos pesados. A União Europeia, no entanto, não define referências máximas ou mínimas, mas ressalva que o processo deve ser acessível a todos."

Pode ler mais aqui.

Comemorando os 100 anos da Mecânica Quântica de Niels Bohr

Texto recebido do historiador de ciência António Mota Aguiar: 


Comemoramos por esta altura os 100 anos da teoria quântica de Bohr, a qual desembocou na física quântica actual, estabelecendo uma nova forma de descrever e interpretar fenómenos no mundo submicroscópico e abrindo caminhos a descobertas científicas.

A contribuição de Max Planck de 1900 foi pioneira, pois foi ele que primeiro introduziu a ideia de quantum, para descrever as unidades fundamentais da energia. Einstein, em 1905, compreendendo a novidade que apresentava a teoria dos quanta, generalizou a ideia de Planck, falando de quanta de luz (chamados depois fotões). Mas Einstein viria a “esbarrar”, mais tarde, na compreensão da teoria, pois  considerava la méthode de la mécanique quantique  conceptuellement insatisfaisante”, estando mesmo convencido que ela  viria a ser  une partie d’une théorie ultérieure, à l’image de l’optique géométrique au sein de l’optique ondulatoire ". Einstein dedicou toda a sua vida a tentar introduzir uma nova teoria da qual a teoria quântica actual fosse uma aproximação, mas nem ele, nem ninguém, conseguiu esse objectivo até agora.

O dinamarquês Niels Bohr (1885-1962), juntamente com Max Planck e Albert Einstein, foi, portanto, um dos fundadores da mecânica quântica. Juntando as ideias de Planck e Einstein, propôs uma descrição das órbitas electrónicas no átomo e da emissão e absorção de luz pelos átomos, cuja relevância seria reconhecida pela posterior história da ciência. Bohr continuou a ocupar um lugar de relevo no desenvolvimento da mecânica quântica, que ficou completada essencialmente em 1926, tendo dado contribuições decisivas tanto no campo da física atómica como, depois, no da física nuclear, que abriram as portas a numerosas aplicações. Além disso, apoiou os trabalhos de uma geração de jovens físicos.

Temos hoje uma grande dívida para com Niels Bohr. No centenário da sua descrição quântica do átomo, devemos relembrá-lo pelo enorme capital científico que nos deixou.

António Mota Aguiar

domingo, 7 de abril de 2013

«A EVIDÊNCIA DA EVOLUÇÃO – POR QUE É QUE DARWIN TINHA RAZÃO»

Recensão crítica publicada primeiramente na imprensa regional.
Numa era em que as pseudociências e o criacionismo se enraízam na superficialidade tornada de fácil consumo pelas novas tecnologias da informação, e em que esta informação tem evolução acelerada, importa ter acesso a bons livros que nos possam dar guarida para pormos os pés (a consciência e o pensamento) em terrenos firmes, férteis sobre um dado assunto, sem perder a criatividade, fortalecendo assim o direito à liberdade de expressão, bem como ao livre pensamento. Mas com a responsabilidade que define a própria liberdade. E o assunto da própria evolução da vida merece a nossa maior atenção, principalmente porque há excesso de má informação a circular sobre esta matéria. Matéria esta que é de importância central para o bom funcionamento das nossas diversas actividades, do nosso relacionamento com a vida do e no planeta Terra.

Enquadra-se neste contexto o excelente livro «A Evidência da Evolução – Porque é que Darwin Tinha Razão», de Jerry A. Coyne, recentemente editado pela Tinta-da-china e cujo original é de 2009, foi traduzido por Paula Almeida e teve revisão científica de Martin P. Melo do CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos). Jerry A. Coyne é professor no Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago (EUA) e um activo e excelente divulgador de ciência em geral, e da evolução em particular, para o grande público (ver http://whyevolutionistrue.wordpress.com/).

(Ver aqui a apresentação que o Professor Carlos Fiolhais fez deste livro)

A leitura desta obra interdisciplinar recomenda-se a todos, pois para além de ser de agradável leitura, consegue tornar compreensíveis os conceitos envolvidos na evolução das espécies, fornecendo inúmeros e esclarecedores exemplos e factos actualizados sobre esta realidade.

Ao longo de nove capítulos (1 - o que é a evolução; 2 – Escrito nas rochas; 3 – Resíduos: vestígios, embriões e organismos mal concebidos; 4 – A geografia da vida; 5 – O motor da Evolução; 6 – De que forma o sexo acelera a evolução; 7 – A origem das espécies; 8 – Então e nós?; 9 – A evolução revisitada) de notas oportunas e de um glossário útil para refrescar a memória, o leitor é confrontado com uma escrita alimentada por raciocínios lúcidos e rigorosos sobre milhões de anos de evolução da vida neste planeta.

A actualidade e robustez dos argumentos expressa-se não só nos mais recentes registos fósseis encontrados, mas também nos novos dados e confirmações que a genética moderna tem fornecido. A moderna biologia celular e molecular tem permitido confirmar a teoria da selecção natural de Darwin, e também entender o motor da evolução. O autor explica-nos, com simplicidade e rigor, os mecanismos genéticos subjacentes à evolução das coisas vivas. E também a nossa própria evolução.

Precisamos de bons livros para compreendermos melhor a importância da biodiversidade, como ela surgiu e evoluiu, e a nossa relação com a vida no único planeta de que temos conhecimento em que ela evoluiu. Este é um desses bons livros.

Não posso deixar de replicar aqui a acutilante opinião do prestigiado biólogo Richard Dawkins sobre este livro: «Quem não acredita na evolução ou é estupido, ou é louco, ou não leu Jerry Coyne.»

António Piedade

Dados Bibliográficos
Título: A Evidência da Evolução – Porque é que Darwin Tinha Razão
Autor: Jerry A. Coyne
Editora: Tinta-da-china
Tema: Ciência
Tradução: Paula Almeida
Co-edição: CIBIO | Serralves
Adaptação: Martim P. Melo
1.ª edição: Outubro de 2012
N.º de páginas: 376
Tipo de capa: Capa mole
Formato: 14x21 cm
ISBN: 9789896711337

Não, nem todos aguentam!

Cresce a miséria material no mundo e, na mesma proporção, a indiferença face a ela. Isto é assim, independentemente dos esforços publicitados ou reservados de uma multiplicidade de organizações - algumas com história outras recém-criadas - de caridade e de solidariedade...

A cada dia que passa, aumenta o número de pessoas a tentar sobreviver, aos montes em prédios decadentes, em becos, em baldios... nos passeios...

Há quem diga, com os pés pousados em confortáveis tapetes, num ambiente à temperatura ideal, antes ou depois do almoço ou jantar garantido, que essa gente, esses "sem abrigo" aguentam. Aguentam tudo.

"Esses", são aqueles em que, dadas as naturais oscilações (ou-lá-o-que-é) de mercado, qualquer um de "nós" (retirando-se deste "nós" quem diz) se pode tornar. Logo, há que encarar a circunstância sem dramatismos exagerados, com serenidade até, com a serenidade de que "esses" não somos "nós", de que "esses" são os danos colaterais de um empreendimento maior, brilhante que tem de prosseguir... Portanto, nem valerá a pena esmiuçar muito o assunto.


Lee Halpin, um jovem jornalista inglês, que certamente não achava nada natural este tenebroso (digo eu) modo de pensar, decidiu fazer um documentário sobre a vida dos sem-abrigo numa grande cidade.

Seguindo o exemplo de colegas que se guiaram pelo mesmo propósito, adoptou a estratégia de "observador-participante" e foi viver com "eles". “Estou prestes a passar uma semana como sem-abrigo (…), a imergir nesse estilo de vida da forma mais profunda que me for possível”, disse ele num vídeo que se pode ver aqui.

O seu período de trabalho era de uma semana mas só aguentou três dias. Não importa que tenha morrido de frio, de fome, de um ataque ou de outra coisa qualquer. O que importa reter é que, por ser pessoa e ter decidido viver como as pessoas que procura compreender, não aguentou.

Quantas serão as não aguentam como Lee? Nunca saberemos porque morrem num canto, são retiradas discretamente e discretamente se lhe faz um funeral discreto.

É nesta discrição, com a vaga consciência de que existem "nós" e "eles", que toleramos que se diga que "eles" aguentam.

Por isso, Lee tornou essa vaga consciência, na forma de má-consciência, mas apenas por um dia ou dois, que a morte de alguém, ainda que tão noticiada, não nos pode tomar mais tempo nesse tal empreendimento-luz...

sábado, 6 de abril de 2013

Impasse

Em tempos mais recentes, a situação do país tem sido, pode dizer-se, de impasse. Impasses há sempre e de muita natureza, mas em certos momentos instalam-se certos tipos de impasses onde "parece jogar-se tudo - afectos, inteligência, ideais, ideologias..."  A passagem que se segue, do livro dos filósofos Fernando Gil, Paulo Tunhas e Danièle Cohn, é muito esclarecedora.

"Sabemo-nos certos de que vale a pena defender o modo de viver ocidental (...). E estamos quase certos de que esse modo de viver está ameaçado. Respiraremos de alívio se nos for mostrado o contrário (...).
Desgraçadamente o debate parece hoje impossível, e esse é um dos nossos fios condutores. Estamos numa situação parecida com o que Jean-François Lyotard qualificou pela palavra diferendo, cujo sentido ecoa em impasse. Um diferendo mais é uma contenda, nem um diálogo de surdos por não haver uma medida comum às posições que se afrontam. No diferendo há medida comum, fala-se das mesmas coisas. Mas um nó cego faz com que cada uma das posições seja inaudível, inteiramente inaudível, para a outra. Por isso o diferendo contém uma quota-parte de mistério - é estranho que ele possa existir entre embarcados no mesmo barco. Mas é assim. Pelo nosso lado, confessamos não compreender, simplesmente não compreender, a insensibilidade por tantos assumida relativamente aos perigos que nos rodeiam. Como não entendemos o gosto em procurar confirmações de crenças ideológicas que, a verificarem-se, não seriam menos terríveis para o adepto da ideologia do que para o seu adversário )o barco é mesmo o mesmo, in our name, pese a quem pretender o contrário).

Porém (...) a estranheza diminui ao darmo-nos conta de que muitas vezes a controvérsia recobre uma má-fé que, ela, resulta de decisões mais ou menos inconscientes. Não que a liberdade do sujeito seja menos enigmática (ela é uma interrogação perene na filosofia), sobretudo quando a má-fé se transforma em epidemia. O nome desta última é niilismo, e foi diagnosticada há muito tempo. Mas o bloqueamento das posições não é necessariamente definitivo - por isso preferimos dizer impasse (...)

No conflito actual parece jogar-se tudo - afectos, inteligência, ideais, ideologias (...)."

Toma Toma Toma

Em tempos desconcertados e desconcertantes só a poesia, que tem um inigualável poder de desconsertar, consegue consertar algumas pontas da realidade. As pontas que bastam para não desacreditar, de vez, na realidade. Nisso, Alexandre O´Neill foi mestre.

Toma Toma Toma 

Ainda prefiro os bonecos de cachaporra,
contundentes, contundidos, esmocados,
com vozes de cana rachada e um toma toma toma
de quem não usa a moca para coçar os piolhos,
mas para rachar as cabeças.

O padreca, o diabo, a criadita,
o tarata, a velha alcoviteira, o galã
e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista,
tramavam para nós a estafada estória
da nossa própria vida.

Mundo de pasta e de trapo
que armava barraca em qualquer canto
e sem contemplações pela moral de classe
nem as subtilezas de quem fica ileso
desancava os maus e beijocava os bons.

Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.

Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses
matraquilhos da comédia humana.

In Poesias Completas (1951-1986) de Alexandre O´Neill. Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 371.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O que se segue?

Para rematar um texto que escrevi em Julho passado, a que dei o título Uma caixa de Pandora.

Aconteceu ontem, a meio da tarde, o que muitos portugueses já consideravam uma miragem: o ministro Relvas demitiu-se.

Do que ouvi até ao momento, ressalta que a razão principal (ou, a razão explicitada) que precipitou essa demissão é a sua (pseudo)-licenciatura.

Partamos do princípio que assim é, que a demissão do senhor se deveu ao generoso "reconhecimento, validação e certificação de competências" de que beneficiou no ensino superior, então impõe-se perguntar: o que se segue?

Leva-se até ao fim a investigação dos mais de trezentos casos congéneres que já foram identificados? E, fica-se por aqui ou avança-se para o ensino secundário? E porque não para o ensino básico? A investigação centra-se nos estudantes/formandos que terão sido beneficiados ou nos professores/formadores, nas escolas/instituições ou, ainda, na diversa legislação que abre a possibilidade de "história de vida", "competências profissionais" e "habilitações académicas" poderem equivaler-se?

Foi, como o próprio Ministro da Educação e Ciência admitiu, uma caixa da Pandora que se abriu... não vejo como se pode fechar, pelo menos a curto prazo.

Passaroco ou pardejo?


   

Lá vai João Brandão a tocar o violão, casaco à moda na mão, e então e então...

Canção da minha infância que mais tarde vim a conhecer a quatro vozes, na versão do maestro Lopes Graça, no coro do Orfeão Universitário do Porto, e que remota a uma época da nossa história de grande analfabetismo.
   
Os documentos de carácter administrativo e jurídico que envolviam autores, procuradores e testemunhas, como assentos paroquiais ou notariais, eram, no passado, como hoje, validados com assinaturas. Quando as pessoas não sabiam escrever, e nem sequer desenhar as letras do seu nome, assinavam de cruz. A cruz, perpendicular (+) ou inclinada (X) era por vezes um pouco mais elaborada, incluindo uns tracinhos à moda da Cruz de Cristo das caravelas, um círculo em volta, ou ainda terminando em losango. Não admira que fosse uma cruz o sinal escolhido para garantir a verdade do que se afirmava, assim como se jurava a mesma sobre os Evangelhos, num país onde o cristianismo moldava as consciências e influenciava a organização social.
   
Mas não há regra sem excepção e fui descobrir o senhor Manoel Brandão2 que viveu em Ruivães (11.05.1660 - 9.01.1740), no concelho de Vila Nova de Famalicão, que, além de saber escrever o seu nome, desenhava um passaroco ao lado da sua assinatura. A primeira vez que nos deparamos com tal grafia ornitológica ainda poderemos pensar tratar-se da criação de alguma criança, que tivesse apanhado o livro aberto na sacristia e o tivesse rabiscado. No entanto, o padrão repete-se de cada vez que Manoel Brandão foi testemunha de algum matrimónio nesta freguesia. 
Fica-nos a dúvida... Teria este senhor vocação para ornitologista ou seria antes um grande devoto do Espírito Santo? 

O abade Bento Lopes de Carvalho, na resposta ao inquérito nacional lançado por Marquês de Pombal (Memórias Paroquiais de 1758)4, informava, a 22 de Maio de 1758, que o orago da freguesia de Ruivães era o Divino Salvador e que os altares colaterais eram da Nossa Senhora do Rosário e de S. Sebastião. Existiam três Ermidas na freguesia: S. Pedro, Senhora do Calvário e Santo António. Não parece portanto ter havido lugar a uma devoção particular ao Espírito Santo ou à Santíssima Trindade.

Ana Luisa Alves, 24 Março 2013

1- Family Search Org: Registos da Igreja Católica\Braga\V. N. Famalicão\Landim\Santa Maria\Mistos 1755-1784\imagem 105
3- Family Search Org: Registos da Igreja Católica\Braga\V. N. Famalicão\Ruivães\S. Salvador\Mistos 1652-1765\imagem 287
4- cf. CAPELA, José Viriato - As freguesias do distrito de Braga nas memórias paroquiais de 1758: a construção do imaginário minhoto. [Braga]:[s.n.], 2003


quinta-feira, 4 de abril de 2013

"IN MEMORIAM" DE JOÃO BOAVENTURA: A PETIÇÃO DA ORDEM DOS PROFESSORES PELA NEGATIVA



Em continuação do meu post anterior, intitulado “Um comentário em que se confundem as coisas ‘para a posteridade e mais além’” (31/03/2013), transcrevo, na íntegra, a carta de João Boaventura, dirigida ao director do “Diário de Coimbra” e publicada neste jornal, em 2 de Março de 2006, com o título “A petição da Ordem dos Professores pela negativa”, do seguinte teor:

“Senhor Director: Tenho acompanhado com algum fervor o combate ingrato do meu amigo, Dr. Rui Baptista, a propósito das criação de uma Ordem dos Professores, contra essa muralha virtual erguida frente ao Parlamento, com uma paciência que não lhe permite esgotar a argumentação, antes a renova. O defensor desta causa, que parece quase perdida nos passos perdidos da Assembleia, mas que lhe dá energias sustentadas, não tem que admirar-se das argumentações tecidas pelos deputados de cada partido [em meu nome pessoal e “a latere”, evoco a excepção de concordância com a criação da Ordem dos Professores por parte do  deputado do CDS/PP, Abel Baptista], e contrárias ao objectivo a alcançar porque, já o dizia o filósofo americano Ralph Emerson, em 1870,  “uma seita ou um partido político é apenas um eufemismo elegante para poupar um homem do vexame de pensar”. E sabia do que falava, no século XIX, mas não sabia que o seu conceito se manteria no século XXI. Exactamente como o nosso Dr. Sousa Martins sabia do que falava, no século XIX, ao classificar os deputados em três categorias: “Os de língua dourada, os de língua danada e os de língua calada” . O que o Dr. Sousa Martins não sabia era que a classificação continuaria actual no século XXI.

Isto para significar que para os lados de S. Bento, pelo quadro apresentado, o Dr. Rui Baptista não pode esperar nem grande atendimento, nem grande discernimento. De resto já sentiu na pele o fraco e insípido contraditório que sai do Parlamento, só porque ao Estado é de bom tom afirmar a sua autoridade, mesmo que violente o direito legítimo de uma petição, como a Ordem dos Professores, com as argumentações sem sustento, ou porque há Ordens a mais, ou porque há que repensar as Ordens, ou porque qualquer desculpa serve. E nisto se funda a autoridade ilegítima de um Estado quando lhe falta a capacidade de discernir
.
Em tais circunstâncias eu sugeriria ao meu amigo Dr. Rui Baptista, que desenvolva, como S. Tomás de Aquino na teologia negativa (De Deus não sabemos o que ele é, mas sabemos o que ele não é), e apresente ao Estado (que também não sabemos o que é, mas sim o que ele não é), uma petição nos mesmos termos com este título: “Da Ordem não sabemos o que é, mas sabemos que ela não é a Desordem”. Como a negativa continua actual porque até definimos saúde pela negativa – é o estado de não doença – pode ser que o Parlamento acabe por aceitar um documento onde demonstre que a Ordem é o estado de não Desordem.

Eu já aprendi com o Estado. O meu filho pediu-me uma máscara para brincar ao Carnaval. Como lha neguei perguntou-me a razão da negativa dado que havia muitas crianças com a máscara, respondi que já havia demasiada máscaras, que iria repensar o problema das máscaras, que enfim tinha quefazer uso da minha autoridade de pai, e viver com a minha imbecil argumentação de pai”.

João Boaventura (Lisboa).

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Democracia e dinheiro

UMA CONSTANTE COSMOLÓGICA COM 96 ANOS


Crónica a propósito do 96.º aniversário do jornal "O Despertar":
Desde 1917 que “O Despertar” se expande e é uma constante para os seus leitores. Ano após ano junto deles compaginando a vida com as notícias da região e do mundo.

Em 1917 Albert Einstein publica “Considerações Cosmológicas sobre a Teoria da Relatividade”, a partir de uma modificação da sua Teoria da Relatividade Geral. No mesmo ano do nascimento de “O Despertar”, Einstein apresenta um modelo estático para o Universo e introduz na sua teoria a famosa “constante cosmológica” (representada pela letra grega lambda maiúscula - Λ) que o mantem estático. Famosa porque algumas décadas mais tarde Einstein considerou-a o seu maior erro. Isto, depois de aceitar que os dados que se foram acumulando pela progressiva observação do Universo longínquo, no tempo e no espaço, com telescópios e instrumentação cada vez mais precisa, indicavam que aquele se encontra em expansão.

Não deixa de ser curioso que hoje em dia os cosmólogos e os novos modelos para o Universo (que incluem os dados observacionais mais recentes) consideram que a constante cosmológica é necessária para compreender a matéria e a energia escuras (ou negras, como também se apelidam) aparentemente responsáveis pela expansão acelerada observada do próprio Universo.

Mas voltemos ao ano de 1917. Willem de Sitter (físico, astrónomo e matemático holandês) demonstra a partir da Teoria da Relatividade Geral de Einstein, e não considerando o “factor correctivo” introduzido pela constante cosmológica, que o Universo deveria estar em expansão. Diga-se, a propósito, que outros físicos famosos como Alexander Friedmann e Georges Lemaître chegaram posteriormente à mesma conclusão através de cálculos também feitos a partir daquela teoria que tão bem descreve o Universo actual.

Neste contexto, refira-se a personagem de Georges Lemaître, padre católico e astrofísico belga, que propôs o que ficou popularizado (sarcasticamente pelo físico Fred Hoyle) como “Big Bang”: uma teoria sobre a origem do Universo por ele designada por “hipótese do átomo primordial”.

Mas voltemos um pouco atrás. Apesar de contrariar Einstein no seu modelo cosmológico, Sitter haveria de ser co-autor com ele de um artigo publicado em 1932 no qual apresentam a conjectura de que deveria haver no universo uma grande quantidade de matéria que não emitia luz, designada como matéria negra.

Hoje, no modelo cosmológico mais aceite entre os cientistas (precisamente designado por ΛCDM) calcula-se que a matéria e a energia escuras correspondem respectivamente a cerca de 23% e 73% da matéria e energia do Universo. E uma constante cosmológica, com um valor positivo, é necessária para a representar neste modelo de um universo que se iniciou há cerca de 13,7 mil milhões de anos numa singularidade designada por “Big Bang” e que está em expansão acelerada.

Passados 96 anos de evolução no conhecimento científico, o que diria Einstein sobre a actual importância da sua constante cosmológica!? Daria uma entrevista sobre isso ao “O Despertar”? 

Bom, pelo menos recordar-se-ia daquele importante ano de 1917.

Parabéns ao “O Despertar”.

António Piedade

terça-feira, 2 de abril de 2013

Alunos brilhantes, profissionais excelentes?

No passado mês de Março, o Jornal de Leiria pediu-me colaboração para um trabalho sobre a relação entre o desempenho académico e profissional.

JL: Será possível que pessoas que não tenham sido alunos brilhantes se tornaram excelentes profissionais?
R: Sim, encontramos facilmente exemplos de pessoas que não tendo sido alunos brilhantes ou nem sequer tendo frequentado a escola tornaram-se profissionais excelentes, mas também encontramos exemplos contrários. Podemos sempre invocar uma grande variedade de exemplo para "provar" o nosso ponto de vista sobre a relação entre o desempenho escolar e a profissional. Em rigor não há uma relação directa entre escolaridade e competência profissional. E isto porque as competências que a escola, no seu sentido mais geral, proporciona não são necessariamente aquelas que o mercado de trabalho, no seu sentido mais geral, exige. Nem tem de ser. Estes dois mundo, mais uma vez no sentido mais geral, devem manter alguma independência, ainda que possam (e devam) existir alguns pontos de contacto. Excepção para as escolas profissionais ou com uma forte vocação profissional. A relação de tais escolas com o mercado de trabalho é ou deve ser necessariamente estreita. Neste particular, possivelmente encontramos uma relação mais próxima entre bom aluno e bom profissional (isto se conseguirmos definir e medir o que é "bom aluno" e "bom profissional"). Mas, atenção, pelo facto de não podermos estabelecer uma relação directa e linear entre ambos, podemos ser levados a pensar que para obtermos bons profissionais não precisamos de assegurar uma boa escolaridade. Não é assim. Ainda que a escolaridade tenha falhas e possa ser questionada, é preferível temos mais escolaridade do que menos escolaridade e, claro, pugnarmos pela sua qualidade.

JL: O "saber livresco" opõe-se ao "saber do mundo real"?
R: Não existe qualquer oposição nem desvalorização do primeiro em favor do segundo. O saber que é veiculado em muitos livros (não em todos, infelizmente) é simplesmente precioso. Foi nos livros que, como humanidade, guardámos o saber e continuamos a guardá-lo, mesmo como outros suportes. Os livros digitais mantêm a designação. Foi o saber dos livros que nos permitiu chegar ao patamar civilizacional em que nos encontramos e é neles que continuamos a confiar. A escola precisa de livros para ensinar e aprender e os livros precisam da escola para continuarem a ser lidos e escritos. Isto não significa que os livros contenham todo o saber. Num entendimento distorcido da pergunta, podemos ser levados a pensar que os livros por não traduzirem exactamente o mundo real (nem todos o traduzem, efectivamente), devem ser desvalorizados e que o saber do mundo real (seja isso o que for) devem ser entronizado. Lembro que este discurso, com grande acolhimento nas democracias ocidentais, tem sido apanágio de vários totalitarismos, justificando a destruição, a queima de milhares de livros.

JL: O que é um bom aluno, o que tira nota 19 porque decora toda a matéria ou aquele que consegue responder além disso? 
R: Um aluno pode tirar 19 por diversas razões, porque decorou (atenção que decorar é importante), porque compreendeu (que é igualmente importante) porque trabalhou muito e bem, porque respondeu além do que estava previsto, porque copiou... À partida um 19 não diz muito de um aluno. Um aluno pode responder além da "matéria" e errar...

JL: Para o mercado de trabalho, o que interessará ao empregador: um colaborador com um currículo invejável ou alguém que responda de improviso e não apenas de forma automatizada, como “decorou na escola”?
R: Parte-se do princípio que a escola apenas leva o aluno a decorar e a responder de forma automatizada. Por muitos problemas que a escola tenha, e tem muitos, não se restringe a tal, ainda que tal também seja importante... Incidindo mais directamente na pergunta eu diria que depende do empregador e da função profissional em causa. Se estivermos a falar de uma empresa de aviação, duvido que se contrate alguém para pilotar um avião, que além de conhecimentos profundos e automatismos seguros, não possua competências de decisão em situações imprevistas... Se estivermos a falar de uma fábrica, para empilhar embalagens segundo uma ordem previamente definida, talvez se opte por contratar alguém capaz de manter automatismos por períodos longos de tempo, esperando-se que não improvise formas de empilhamento.

PRÉMIO UNICÓRNIO VOADOR 2012

A Comunidade Céptica Portuguesa COMCEPT criou o Prémio Unicórnio Voador, para distinguir aqueles que mais se destacam na promoção da pseudociência. Segundo o sítio da COMCEPT:
O Prémio Unicórnio Voador – um prémio feliz para actuações infelizes – é concedido pela COMCEPT às personalidades ou entidades nacionais que, durante o ano anterior mais tenham contribuído para a disseminação da pseudociência, da superstição e da desinformação no geral em quatro categorias distintas:   
O Rei Vai Nu – Para todos os que façam afirmações duvidosas e incríveis sem evidências ou contra elas. 
Dom Quixote – Para a afirmação ou teoria mais alienada, para a recusa em encarar a realidade e para a defesa do indefensável.
Grafonola – Para os meios de comunicação e os seus agentes (jornalistas, impressa, televisão). 
Estrela cadente – Para as estrelas de televisão e do mundo artístico, desportivo ou social.
E os premiados deste ano são:
O Rei Vai Nu – Escola Básica do 2.º e 3.º ciclos de Arazede – Uma escola que promoveu a pseudociência do fosfenismo, colocando alunos a olhar para lâmpadas para obterem melhores resultados escolares. Um assunto que foi aprofundado por Carlos Fiolhais e David Marçal no seu livro Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência
Dom Quixote – Fundação Bial – Pela atribuição de bolsas de investigação a estudos de parapsicologia, uma área frequentemente associada a estudos de qualidade questionável e que há mais de cem anos falha em produzir evidências conclusivas da existência de fenómenos paranormais. 
Grafonola –  SIC – Pelo tempo de antena dado ao programa “Cartas da Maya”, onde se chegou a oferecer conselhos médicos, sem qualquer valor, mas muito bem pagos através de chamadas de valor acrescentado. 
Estrela cadente – Fátima Lopes – Pela promoção acrítica e quase diária de todo o tipo de pseudociência e superstição no programa “A Tarde É Sua” da TVI, desde a bruxaria à homeopatia, passando pelas premonições e a mediunidade. A isto acrescenta-se a humilhação pública de pessoas a quem é dito que a “máquina da verdade” consegue realmente distingui-la da mentira, algo que não é aceite nem pela comunidade científica nem pelos tribunais.
A pseudociência tem ampla amplificação e lugares cativos no espaço público. Aqueles que procuram esclarecer os enganos pseudocientíficos não tem tantas facilidades, por isso o trabalho consistente e persistente que a COMCEPT tem vindo a desenvolver é da maior importância. Os meus parabéns, por mais esta iniciativa.

SOBRE ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA


Texto sobre António José Saraiva da autoria do editor da sua obra completa, Guilherme Valente, dito na sessão de homenagem ao ensaista realizada recentemente no Centro Cultural de Belém:

É na condição de amador de AJS e da sua obra que escrevo estas linhas.

Mas disponho de dados profissionais para dar conta duma aberração, uma aberração que é um indicador expressivo dos tempos que vivemos: a obra de AJS não é lida, nem na Universidade, que a devia estudar e divulgar.

Publicam-se livros sobre tantas obras, mesmo menores, sobre tanta gente, mas sobre AJS e a sua obra... nada. Silêncio absoluto sobre aquele que é, porventura, um dos maiores dos raríssimos grandes pensadores da cultura portuguesa. Por isso saúdo a iniciativa redentora, de verdadeira emergência cultural, de Guilherme de Oliveira Martins e Vasco Graça Moura que foi a homenagem realizada no passado dia 17 de Março no CCB. E aproveito esta oportunidade para agradecer também a Ernesto Rodrigues ter continuado o trabalho de edição das obras de AJS, iniciado por Leonor Curado Neves, cuja memória, com muita saudade, evoco.

Conseguiram «matar» AJS e silenciar a sua obra. Mas não para sempre, apenas para este tempo deles, que, todavia, não podemos dizer não ser também o nosso... A razão para esse silêncio parece-me clara. AJS viveu e escreveu fiel à sua consciência, ao que criticamente ia pensando e mesmo nos seus próprios livros escrevera.

Como ele próprio disse de Oliveira Martins, «a sua honestidade não admitia outro juiz senão a sua consciência». «Sê tu próprio», dizia-se na Grécia Clássica, como já dissera Confúcio. Isolaram-no, tentaram diminui-lo e até expulsá-lo. Por não suportarem a visão contrastante do intelectual e da obra.

Não foi o primeiro, e esse isolamento ou mesmo «liquidação» do «outro» contrastante, revelador da mediocridade geralmente dominante, continua... «A abordagem que adoptou está desactualizada», disseram e dizem.

Sim, está desactualizada, de facto, na inteligência finíssima, no conhecimento e nas referências estelares, num pensamento só comprometido com a busca da verdade, na qualidade da escrita. Livre e irreverente, indomável, o homem fora e é um exemplo temível, a obra fazia-lhes sombra. Mas nunca o atingiram: "A surdez dá-me jeito em certas situações" - dizia-me - "Nas reuniões e nos conselhos, quando a «geringonça» - era o termo que usava - quando a «geringonça» deles me começa a cansar, desligo o aparelho".

Os preciosos volumes das Cartas recentemente editados - para Óscar Lopes, Luísa Dacosta e, agora, para Teresa Rita - proporcionaram-me o reencontro, quase real, com o AJS com quem convivi nesse último período, breve, da sua vida. Um AJS com limitações físicas, mas igual a si próprio no espírito intocado. É desta fase, e atesta-o, A Tertúlia Ocidental, um livro admirável.

Fiz um bom exame de Português do sétimo ano do Liceu apenas com os livros que fora lendo, nessa idade em que se lia muito, ou nunca mais se leria nada, e usando como único guia a Breve História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva.

António José Saraiva era para muita da melhor juventude da minha geração uma referência intelectual e cívica. E hoje, quem são as referências? Foi também nesse tempo que pela primeira vez ouvi falar de Teresa Rita. Os seus poemas chegaram-nos de Paris, trazidos por um amigo, para os publicarmos no Pinhal Novo, um suplemento cultural que eu criara com outros amigos, integrado no semanário A Região de Leiria, um dos poucos jornais de província que pudera iludir a razia promovida pela Ditadura.

Não me surpreenderia, então, a possibilidade de vir a ser editor, mas não poderia imaginar ser um dia o editor da obra de AJS, e, muito menos, ter o sentimento gratificante da sua inequívoca amizade. Amizade que se alargou à família, a José Hermano Saraiva e seus familiares, de quem recebia afectuosas atenções.

Teresa Rita Lopes, no Prefácio às Cartas, deu-me a chave para compreender essa amizade que me surpreendia. Surpreendia-me porque se eu o conhecia há muito tempo, a mim, ele conhecia-me há pouco: "Precisava de se sentir amado", explica Teresa Rita, "embora tivesse a coragem de ser impopular, detestado mesmo, quando defendia uma ideia ou tomava uma atitude que se lhe impunha como justa e verdadeira".

Maneira de ser que me lembra alguém - a anos de luz de distância, claro -, alguém com quem sou obrigado a conviver sem descanso. E não terá sido apenas isso que nos aproximou e ligou. No seu breve passeio matinal de todos os dias, acompanhado pela Leonor ou trazido pelo Pedro, AJS fazia sempre uma paragem na Gradiva. Antes de entrar na minha sala, ao fundo de corredor no edifício antigo que continuamos a habitar, cumprimentava os amigos nos vários gabinetes por onde ia passando, detendo-se habitualmente na sala da responsável dos serviços editoriais, uma jovem mulher, inteligente e cativante.

Um dia, como ela, com afecto, gostava de contar, disse-lhe: «Esta noite sonhei consigo...». e, depois da bem calculada pausa, acrescentou candidamente: «Mas não foi o que está a pensar...». Apanhava-me depois na minha sala e saíamos juntos, amparado no meu braço, a caminho da Tentadora, para o café, a soda, de que gostava tanto, e a conversa para mim inesquecível.

Foi aí, nomeadamente, que fui acompanhando a escrita e reescrita da Tertúlia Ocidental. O desfile de títulos que foi pensando para o livro. Tertúlia do Extremo Ocidente, esteve para se chamar assim, expressão chave para a compreensão desses autores cuja vida e obra o fascinavam. Testemunhei o gosto com que saboreava o pequeno passo de ficção que inicia a obra. Um livro longa e profundamente reflectido. Uma estrutura laboriosamente pensada, entretecidos os textos e os andamentos da análise critica, para construir a tapeçaria do pensamento cruzado e implicante desses autores enormes que, com Vieira, o acompanharam sempre (sei que pensava ou teria mesmo começado a escrever um livro sobre o Padre António Vieira...). Oliveira Martins (o seu preferido, suponho), Antero, Eça, todos os outros, e também, como que em contraponto, Teófilo.

Teófilo, que apesar de surgir, como figura secundária, é também real no seu desenho, lembrando-me aqueles heróis da Íliada, que, como notou André Bonnard, surgem só para morrer, mas o Autor retrata inteiros, na descrição, em dois versos, do modo como morrem. Um bom exemplo de recriação impressiva é o episódio da partida de Antero para Ponta Delgada, a que AJS nos leva a assistir. Oliveira Martins, que fora ao cais despedir-se, tem uma síncope, pressentindo que não voltará a ver o amigo tão querido. Em nenhum outro autor do género que tenha lido, se verifica, como em AJS, a integração da escrita analítica de pensamento (tão rara entre nós) com a expressividade polissémica da escrita literária, como só encontramos na nossa melhor ficção, género para que seremos culturalmente mais vocacionados. A actualidade do que o livro narra, é incrível. Aquilo que estamos hoje a viver parece a repetição da História... ou, melhor, continuamos a ser os mesmos. Só não há é um grupo de homens como aqueles.

Também a Ciência atraía e fascinava AJS. Lia e discutia comigo os livros da colecção Ciência Aberta, que eu criara e persistentemente ia editando, o seu espírito de argonauta sobrevoando inesperadas e inebriantes paisagens. Sempre o seu espírito interrogativo, desafiado pelo enigma, mas aberto para o exame crítico de todas as respostas - é isso, afinal o verdadeiro espírito científico -, sensível «ao mistério do ser».

É dele esta expressão, que retive da definição que fez do positivismo, quando, na Tertúlia, caracterizou Teófilo: «O Positivismo, de que Teófilo será um dos protagonistas em Portugal, é a filosofia dos que são insensíveis ao mistério do Ser», escreveu, clarificando lapidarmente a questão. Um dia, num fim de manhã em que o sol de uma primavera precoce lhe iluminava e aquecia o olhar, sentados, com Leonor Curado Neves, numa mesa da Tentadora, manifestou-me, de um modo inesquecível, tão seu, essa amizade que, apesar de toda a insegurança que me caracteriza, não posso deixar de reconhecer ter sido um facto.

Parecendo dirigir-se apenas à Leonor, no seu tom quase sussurrado, mas tão expressivo, contou : «Tenho um amigo aqui no meu bairro, um amigo de quem gosto muito, com quem preciso de estar, mas estou muito triste, porque vou ficar sem a sua companhia»... Não percebi imediatamente que esse amigo era eu.

De facto, eu partiria no dia seguinte para Macau para uma estadia de dois anos. Depois, a visitar um Filho e as netas que o embeveciam e de quem ternamente falava tanto, foi também ele um tempo para Macau, e aí continuámos o nosso convívio. Curiosamente, foi nesse Oriente Extremo que praticamente concluiu A Tertúlia Ocidental.

Quando agora reli o livro, tive o sentimento amargo de que o último capítulo, sobre Eça, teria sido escrito com pressa...

A foto, com a minha filha, fixada num jantar na minha casa em Macau, é, porventura, uma das últimas fotografias de AJS, por isso a público.

Lembro-me desse seu olhar tranquilo, induzido, porventura, por um ambiente familiar como eu sempre pressenti que apreciava. Uma fotografia que com a sua obra me será grato deixar em herança à minha filha. Tínhamos então uma empregada que cozinhava admiravelmente. AJS comeu imenso. E eu preocupadíssimo que lhe pudesse fazer mal.

No dia seguinte telefonei a saber se teria passado bem a noite. «Maravilhosamente», respondeu. «Como a minha mãe dizia, quando comemos com gosto em boa companhia nada nos faz mal», acrescentou esse evocação da mãe, para ele tão grata. A minha mulher fez-me então notar não ter parado de lhe encher o copo de chá... Regressou a Lisboa e eu permaneci em Macau. Pouco tempo depois, chegou-me a notícia de que nos tinha deixado. Partiu a falar na sua obra, na cerimónia em que recebeu o Prémio de Ensaio do Pen Club – honra ao júri que o atribuiu! - crítico, irónico, livre, tal como eu o havia lido e conhecido. Diminuído fisicamente, mas incólume no que é humano na nossa Humanidade.

Quem, porventura, pudesse aliviar-lhe o sofrimento físico, o andar doloroso, decidiria, seguramente, não o fazer, para não correr o risco de lhe tocar o espírito.

Deixou-nos num relâmpago. A morte não o quis matar.

Guilherme Valente

Algumas notas sobre o empreendedorismo e o papel das empresas e universidades


Recentemente a Enternships, um portal de acesso a estágios para recém-licenciados no Reino Unido, anunciou uma parceria com a Wayra para oferecer 130 estágios pagos em várias startups espalhadas pelo mundo. Estas startups foram seleccionadas pela Wayra, um dos maiores aceleradores de startups do mundo, suportado pelo gigante espanhol de telecomunicações Telefónica.

Na cerimónia, Simon Devonshire, director do Wayra Europa, afirmou: “Estamos a assistir ao nascimento de uma nova economia - a economia digital - que acredito ser algo mais significativo que a revolução industrial. A parceria com a Wayra e Enternships fornece aos alunos uma oportunidade real de se envolverem pessoalmente nesta revolução e ganhar uma valiosa experiência ao trabalhar com os pioneiros de uma nova era."

Este evento é significativo por várias razões. A telefónica percebeu que se quiser conquistar clientes precisa de adquirir e promover a criatividade e o talento. Nada melhor para o fazer do que apoiando startups, uma vez que dentro da sua estrutura corporativa é muito mais difícil fazê-lo. Por outro lado, isso permite-lhe acesso a novas oportunidades de negócio e conquistar novos clientes.

Além disso, este acordo permite também que as universidades possam mudar a percepção negativa em relação aos empresários e mostrar aos alunos finalistas que existem outras formas de se ser bem sucedido do que trabalhar num banco ou numa grande empresa. As startups são cada vez mais um espaço de inovação geradoras de emprego de elevada qualificação. Trabalhar neste ecosistema pode ser tão sexy como trabalhar em qualquer multinacional.

Parte da solução para o desemprego juvenil é precisamente apoiar e incentivar o empreendedorismo.  O desafio para as universidades é como levar o empreendedorismo para fora das escolas (ou, nalguns casos, como o trazer para dentro de portas) e passar das palavras à acção. Os poucos programas curriculares actuais nesta temática são demasiado teóricos e necessitam de um pouco mais de pragmatismo. Como se constrói uma startup é muito diferente de como se lança uma empresa tradicional. São necessárias competências únicas, tais como fazer um bom pitch e escrever business cases, ou estabelecer roadmap realistas numa abordagem cada vez mais lean. São competências que devem ser ensinadas não apenas a alunos de MBA, mas incorporadas noutros curricula para estudantes de engenharia ou ciências.

É preciso desmistificar o estereótipo do empresário e identificar e apoiar grupos de apoio ao empreendedorismo. Actualmente a maior parte da educação para o empreendedorismo é extra-curricular. Porém, ela deveria ser incorporada activamente nos curricula.

A incorporação da cultura startup dentro dos curricula iria facilitar as parcerias como esta entre a Wayra e a Enternships e tornar uma prática comum a compensação dos jovens pelos seus estágios. Isto, ao invés do que acontece actualmente, onde eles são usados de forma abusiva pelas empresas para terem acesso a trabalho gratuito em troca da vã promessa de integração na empresa e de alguma experiência.

After God: What can atheists learn from believers?


http://www.newstatesman.com/lifestyle/religion/2013/03/god-dead-long-live-our-souls

They separate their atheism from their secularism and argue that a secular state need not demand of the religious that they put their most cherished beliefs to one side when they enter public debate; only that they shouldn't expect those beliefs to be accepted without scepticism.

(via Instapaper)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Noise - a Human History of Sound and Listening


http://www.newstatesman.com/books/2013/03/reviewed-noise-human-history-sound-and-listening-david-hendy

In classical music, the asymmetry of the right to make noise is quite recent. Chamber music used to be the mainly ignored soundtrack to parties, while opera-goers would heckle or cheer ad libitum.

(via Instapaper)

O PAPEL DO PAPEL

Fiz há dias, em Tomar, para Tecnicelpa, Associação dos Técnicos da Indústria de Papel, uma conferência intitulada "O papel do papel: O futuro dos livros e das bibliotecas". Entre os vários factos sobre a indústria de papel que aprendi ao preparar a conferência, alguns estão sumariados numa página da "ID2 Communications" na Internet, que, embora com algum remorsos, imprimi:

"O consumo médio de papel per capita nos EUA é de 333 kg ao passo que no mundo é de 48 kg."

"O escritório sem papel, que era previsto pela sociedade da informação, não aconteceu. Os analistas da estimam que 95% da informação de negócios é em papel."

"O utente médio da Web imprime 28 páginas por dia"

"A edição de domingo do "New York Times" exige 75 000 árvores."

"45% do papel é reciclado nos EUA" (77% na Holanda e 67% na Alemanha)

"Cada tonelada de papel reciclado permite poupar cerca de 17 árvores."

O CÉU NAS PONTAS DOS DEDOS


Informação que recebi da editora Plátano sobre um novo livro de Guilherme de Almeida, professor de Física e Química e astrónomo amador que tem colaborado com este blogue. O  lançamento do novo livro, será na FNAC ALFRAGIDE, dia 06 de Abril próximo (Sábado), às 16:00. :

O CÉU NAS PONTAS DOS DEDOS

Autor: Guilherme de Almeida
Coleção: Astronomia
Ano de edição: 2013
Editora: Plátano Editora, Lisboa • Formato: 28,5 cmx28,5 cm • 48 páginas a cores • Inclui um planisfério celeste de 274 mm de diâmetro
ISBN: 978-972-770-928-1

Fica maravilhado com o céu noturno cheio de estrelas?
Deseja aprender a localizar estrelas e constelações no céu?
Como encontrar o Leão, o Pégaso, o Capricórnio ou o Escorpião?

A utilização de telescópios exige o conhecimento essencial do céu a olho nu. Quem já conhece o céu pode usar o planisfério celeste para planear oportunidades de observação: o planisfério celeste não é só para a iniciação.

O céu nas pontas dos dedos contém informação essencial para a iniciação ao céu noturno a olho nu, apresentada de forma acessível, mas vai muito além disso. Inclui um útil planisfério celeste para interação directa do leitor com o céu usando literalmente as pontas dos seus dedos. Com o apoio deste livro, e do planisfério celeste que o acompanha, é possível começar rapidamente a identificar estrelas e constelações no céu nocturno e fazer interessantes previsões.

• Permite saber que estrelas e constelações estarão visíveis à hora e data desejadas.
• Utilizável em todo o território português e optimizado para latitude 39º N.
• Fácil utilização, ao longo de todo o ano e para dezenas de anos.
• Muito portátil e capaz de resultados rigorosos com exatidão de poucos minutos.
• Possibilidade de saber as horas a partir do aspeto do céu
• Tem 24 modos de utilização diferentes, dos básicos aos avançados.
• Explicação passo a passo das funções básicas e das funções avançadas, com exemplos práticos.
• Adequado para utilizadores de qualquer idade.

O planisfério está equipado com escalas facilmente ajustáveis para simular o que é visível na data e hora
desejadas, antecipar o que se poderá ver mais tarde, prever as horas a que nascem ou se põem as estrelas e
constelações pretendidas e muito mais.

SEIS ANOS DEPOIS

O blogue "De Rerum Natura" fez seis anos no passado mês de Março. Com mais de três milhões e meio de visitas, mais de oito mil posts e mais de quarenta e dois mil comentários, só vemos razão para continuar. Com uma equipa em parte renovada, com a a entrada como autores residentes de alguns colaboradores habituais, este espaço livre de opinião onde ciência e cultura se cruzam parte para o seu sétimo ano, aberta, como sempre, à colaboração dos leitores. E, falando em colaboração dos leitores, justo é uma palavra de gratidão e memória para com João Boaventura, que nos honrou várias vezes com a sua amável colaboração, e que nos deixou no passado dia 26 de Março.

MIL GENOMAS, MIL HISTÓRIAS



Um TED talk sobre o projecto que consiste em sequenciar de modo completo o genoma de mil pessoas de todas o mundo e disponibilizá-lo na Internet (sem identificar os "donos" do genoma, claro).

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...