segunda-feira, 8 de março de 2010

A mais antiga biblioteca pública no país


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que tem patente na Sala de São Pedro uma exposição intitulada "O serviço público da Biblioteca da Universidade":

A primeira “tese” da Mostra “Serviço público da Biblioteca da Universidade” é que, quase desde os seus primórdios, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra foi uma biblioteca pública, sendo não só a mais antiga biblioteca pública portuguesa que continua a existir como até uma das mais antigas do mundo.

Infelizmente, sabemos muito pouco da sua primitiva organização e nem sequer sabemos quando e como começou … A primeira notícia que temos remonta a 13 de Fevereiro de 1513, quando o Reitor João Alvares manda o Recebedor Fernão Afonso fazer o “cano da livraria para lançar agoa fora e assim lhe dise que mandasse fazer as cadeas para os livros da Livraria do Studo para que os ditos livros stem em sua ordem para studarem por eles”. Provavelmente, tratava-se de prover de correntes, como era habitual nas “livrarias” (assim se designavam então as bibliotecas), os 58 volumes encadernados que tinham acabado de ser legados por Diogo Lopes, Lente de Cânones, falecido em 1508, e que ainda não estariam incorporados na “livraria” (biblioteca) da Universidade. Transcreve-se esse texto histórico:
da chaue da liuraria

Aos xij dias do mes de feuereiro de bcxiij annos nas scolas geraes do studo de lixboa em conselho perante o mujto honrado doctor Joam alvarez d eluas do desembargo delRey noso Senhor etc Rector do dito studo lentes e conselheiros dele pareceo fernam d afonso Recebedor do dicto studo e per ele foy dicto que ele trazia ali a chaue da liuraria E por ser necessareo corregerse hum cano pera lancar agoa fora da dita liuraria que a quem mandauam entregar a dita chaue pera se correger o dicto cano e per o dito Rector foy dito que ele teuese a dita chaue e que elle mesmo dese ordem como se fezese o cano e per o dito Recebedor foy dito que lhe nom desem aquele cargo que o nam auja de fazer e per o dicto Rector lhe foy dito que pois ele tinha fectas todas as obras das scolas por que nam faria hua cousa tam pouca e per o dicto Recebedor foy dicto que per o dicto conselho lhe fora priuado que nam entendese nas obras do dicto studo que nam avia de fazer aquela nem outras e o dicto Rector lhe dise e se vos mandar penhorar nom ho fares e per elle foy dito que se o mandasem penhorar que darja huum penhor e que se o mandasem a cadea que ele se yria la e que em nenhua maneira nom auja de fazer o dlicto cano nem outra obra algua e vendo o dicto Rector a contumatia do dicto Recebedor nom quis proceder contra o dicto Recebedor mas foy logo acordado que ele entregase [per enventairo] a mjm bedel a liuraria com todolos liuros que nela stam per enuentairo pera a qual entrega foy ordenado per o dicto conselho o bacharel fernam gonçalvez conselheiro pera star presente ao receber e entrega dos ditos liuros o qual acordo mandaram que se asentase pera se asinar o bedel esto scpriuj.
bacalarius Johannes P.
Saluator Licenciatus bariholomeus
in Vtroque Rodericus
francisco dandrade João monteiro doctor
Gaspar
Manueil Licenciatus
de crasto bacalarius menendy

(Arquivo da Universidade de Coimbra - Vol. 1 dos Livros da Universidade de Lisboa de 1506 a 1526. Tomo 1, fol. 119)
Como seria essa “livraria” que estava em Lisboa e que será transferida (parcialmente, acredita-se) para Coimbra, com a transferência definitiva da Universidade?

Abria durante duas horas de manhã e duas horas de tarde, no Inverno, e no Verão, com mais luz solar, durante seis horas por dia. Era pública para “lentes, estudantes e quaesquer pessoas outras”, teria quase uma centena e meia de volumes, organizados corporativamente (os livros divididos pelas Faculdades onde se “liam”) e que se apresentavam ao leitor ou acorrentados às estantes ou fechados em “almários” (armários):

“… huma casa pera livraria da Universidade, na qual estarão os livros de todas as Faculdades postos em estantes, e presos por cadeas, e repartidos e ordenados na melhor maneira e ordem que poder ser … averá huma cathedra bem alta na dita livreria, da qual se possa bem ver tudo o que se fizer em toda a casa …” (Estatutos de 1559, Cap. 59).

A livraria foi por estes anos dirigida primeiro interina (1545-1547) e depois efectivamente (1547-1559?) pelo Bedel na Faculdade de Artes Fernão Lopes de Castanheda, que viria a ser o grande historiador da Índia. Não terá razão quem julga que esta Livraria “liberalmente franqueada” não sobreviveria ao tempo do reitorado de Frei Diogo de Murça. A biblioteca continuava a ser pública em 1591, que assim se declara nos Estatutos:

“Haverá na Universidade uma livraria pública” (Estatutos da Universidade, 1591, título XLVI).

Os Iónicos

A Origem da Comédia relembra que se caminha a todo o vapor para a segunda sessão do ciclo de Tertúlias Pré-Socráticas.

A sessão sobre os Iónicos — Tales, Anaximandro & Anaxímenes — realizar-se-á no dia 10 de Março, quarta-feira, às 18h00, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, e contará com a presença do Professor David Santos da Universidade da Beira Interior, e com uma performance poética pela Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra baseada em excertos do Fausto de Goethe.

Depois da primeira sessão contextualizadora, inicia-se a abordagem aos filósofos propriamente ditos. Tales, simultaneamente o primeiro filósofo e o primeiro cientista, abre as portas a uma tradição de questionamento empírico, que se tornará num dos pilares da tradição intelectual da sua cidade, Mileto, de cuja escola sairão, mais tarde, Anaximandro e Anaxímenes.

Querendo, poderá o leitor consultar bibliografia sobre os Iónicos aqui.

UNIVERSO FINITO OU INFINITO: O PARADOXO DE BENTLEY


Do livro "Mundos Paralelos", do físico Machio Kaku, que a Bizâncio vai reeditar em breve, em edição revista, deixamos aqui este pequeno excerto sobre um grande problema da teoria de Newton:

Como os Principia eram um trabalho muito ambicioso, surgiram os primeiros paradoxos intrigantes acerca da construção do Universo. Se o mundo é um palco, qual é o seu tamanho? É infinito ou finito? Esta é uma velha questão; até o filósofo romano Lucrécio se deixou fascinar por ela. «O Universo não é limitado em nenhuma direcção», escreveu.

«Se o fosse, teria necessariamente um limite algures. Mas é evidente que uma coisa não pode ter um limite, a menos que haja alguma coisa fora dela que a limite... E o mesmo acontece em todas as dimensões, deste ou daquele lado, para cima ou para baixo, no Universo não há fim.»

Mas a teoria de Newton também revelou os paradoxos inerentes a qualquer teoria de um Universo finito ou infinito. As questões mais simples levam a um pântano de contradições. Mesmo quando Newton desfrutava de fama devida à publicação dos Principia, descobriu que a sua teoria da gravitação estava irremediavelmente crivada de paradoxos. Em 1692, um clérigo, o Reverendo Richard Bentley escreveu a Newton uma carta muito simples, mas um tanto incómoda. Uma vez que a gravidade era sempre atractiva e nunca repulsiva, escrevia Bentley, isto significava que qualquer conjunto de estrelas entraria naturalmente em colapso sobre si próprio. Se o Universo era finito, então o céu nocturno, em vez de ser eterno e estático, seria cenário de uma incrível mortandade, quando as estrelas colidissem umas com as outras e coalescessem numa superestrela incandescente. Mas Bentley também sublinhou que, se o Universo fosse infinito, então a força exercida em qualquer objecto para o mover para a direita ou para a esquerda, também seria infinita e, por conseguinte, as estrelas seriam feitas em pedaços, em cataclismos de fogo.

À primeira vista, parecia que Bentley tinha derrotado Newton. Ou o Universo era finito (e entrava em colapso numa bola de fogo) ou era infinito (e, nesse caso, todas as estrelas seriam apagadas). Ambas as possibilidades eram desastrosas para a nova teoria proposta por Newton.

Este problema, pela primeira vez na história, revelava os paradoxos subtis mas inerentes a qualquer teoria da gravidade, quando aplicada a todo o Universo. Depois de muito pensar, Newton respondeu que tinha encontrado uma falha no argumento. Preferia um Universo infinito, mas totalmente uniforme. Assim, se uma estrela é arrastada para a direita por um número infinito de estrelas, este impulso é completamente anulado por um impulso igual de outra sequência infinita de estrelas noutra direcção.

Todas as forças se equilibram em todas as direcções, o que cria um Universo estático. Assim, se a gravidade é sempre atractiva, a única solução do paradoxo de Bentley é um Universo uniforme e infinito.

Newton tinha, de facto, encontrado uma falha no argumento de Bentley. Mas Newton era suficientemente inteligente para perceber os pontos fracos da sua própria resposta. Admitiu numa carta que a sua solução, embora tecnicamente correcta, era intrinsecamente instável.

O Universo uniforme mas infinito de Newton era como um castelo de cartas: aparentemente estável, mas sujeito a desabar à mais leve perturbação. Era possível calcular que o mais pequeno movimento numa única estrela desencadearia uma reacção em cadeia e os aglomerados de estrelas começariam imediatamente a entrar em colapso. A resposta de Newton era frágil porque apelava a um «poder divino» que impedisse que o seu castelo de cartas desabasse. «É preciso um milagre contínuo para impedir que o Sol e as estrelas fixas se precipitem em conjunto por causa da gravidade», escreveu.

Para Newton o Universo era como um relógio gigantesco a que Deus deu corda no início do tempo, que tem trabalhado desde sempre, de acordo com as suas três leis do movimento, sem interferência divina. Mas, por vezes, até o próprio Deus tem de intervir e sacudir um pouco o Universo, para que ele não entre em colapso. (Por outras palavras, Deus ocasionalmente tem de intervir para impedir que os cenários do palco da vida colapsem sobre os actores.)

Michio Kaku

domingo, 7 de março de 2010

Bullying: para grandes males, grandes remédios






"Eu sou eu e as minhas circunstâncias" (Ortega y Gasset, 1883-1955).

De um comentário de Carlos Medina Ribeiro no Passatempo com prémio, publicado no blogue Sorumbático (06/03/2010), respigo:

“Quando andava no liceu, era o mais novo da turma, com as consequências habituais nesses casos…O ‘assunto’ só se resolveu quando, já mais crescidote ( farto de levar ‘porrada’…) resolvi aprender defesa pessoal!

Então, eu e outro jovem nas mesmas circunstâncias dirigimo-nos ao ATENEU, e quisemos inscrevermo-nos no judo. Era, no entanto, necessário comprar um quimono, e não tínhamos dinheiro para ele!

Fomos, então, encaminhados para a luta greco-romana (!), onde se podia usar uma roupa qualquer.

Nem sabíamos onde nos estávamos a meter! Depois da primeira sessão de treino, ficámos de cama sem nos podermos mexer, com distensões em todo o corpo.

Mas, depois de recuperarmos, voltámos lá…e acabou por valer a pena: os músculos cresceram, a auto-confiança também, e nunca mais levámos ‘porrada’ dos outros…”

A seu exemplo, motivado pelo seu percurso de vida “desportiva”, vieram-me à lembrança as circunstâncias que me levaram a praticar pesos e halteres.

Inicialmente, motivado por um colega de turma, inscrevi-me no então 6.º ano do liceu numa classe de ginástica educativa do Ginásio Clube Português, dirigida por um afamado professor de Educação Física sueco, chamado (se a memória me não falha e a ortografia me não atraiçoa) Kurt Johanson. Era uma classe, como se diria agora, sem discriminação de idades. Eu, na altura, com os meus 16 anos tinha como companheiro de classe o hoquista Sidónio Serpa, ex-campeão do mundo, já “reformado” das andanças dos patins, de compleição física invejável (dizia-se que o espirómetro que soprava nos exames médicos acusava mais de 6 litros!).

A páginas tantas, achando que precisava de algo mais para me pôr os músculos salientes para poder mostrar o muque (flexão do antebraço sobre o braço para contrair o bicípite), e não apenas o escanzelado osso do braço, resolvi dirigir-me à classe de halterofilismo dirigida por um antigo campeão da modalidade, o senhor Sales. Aí chegado, disse-lhe ao que vinha. Olhando para mim de soslaio, como quem tem um sósia do Woody Allen pela frente, com um ar, de certo modo, condoído, aconselhou-me : “Vai para casa, come umas sopinhas, e depois aparece”!

Não me resignei. No dia seguinte, lá estava eu novamente. Perante a minha persistência, pôs-me nas mãos uma barra de peso irrisório (10, 11 quilos, talvez), dizendo-me: “Levanta lá isto acima da cabeça”. Fi-lo como quem levanta uma pena. De carga em carga, levantei o meu próprio peso que, diga-se de passagem, não devia exceder em muito metade de um quintal.

O senhor Sales, entusiasmado, virou-se para um dos seus atletas, ordenando-lhe: “Vai à sala da luta greco-romana [frequentada simultâneamente pelos halterofilistas], e diz àqueles “maricas” que venham cá acima ver este lingrinhas levantar o seu peso”! Assim foi! Inchado, que nem uma rã, voltei a repetir a minha façanha. Poucos dias depois, desisti destes violentos treinos que me deixavam o corpo moído como se tivesse sido agredido selvaticamente por todos os meus colegas de turma.

Virei-me então para o culturismo (hoje eufemisticamente chamado musculação para não assustar a “clientela”). A minha saga aí foi diferente. O treinador era o senhor Jeremias, que tinha frequentado um ginásio da modalidade em Paris. Era um tipo pequeno, fibroso de carnes, um tanto fadista e de humor inconstante.

Um dia, aconselhei-me com ele que prometia fazer de mim um campeão: “Senhor Jeremias, não acha que preciso de mais dorsais?” Estava nos seus dias de boa disposição: “Vais fazer estes exercícios assim-assim", e lá me indicou uns tantos. Segui-os religiosamente, como quem obedece a um moderno pastor de igreja.

No dia seguinte, com entusiasmo juvenil, voltei a aconselhar-me com ele: “Senhor Jeremias, não acha que preciso de mais peitorais?” Azar o meu. Estava ele num daqueles dias em que se fosse mulher eu diria estar com o “período”. Respondeu-me, com ar desdenhoso: “O senhor precisa é de …TUDO!” Apesar desse “TUDO”, continuei a fazer musculação até hoje, em idade provecta. Do meu modestíssimo currículo desportivo consta o de campeão de Moçambique de Levantamentos Culturistas, andava eu então na casa dos trinta e tal anos.

Moral da história: Cheguei à conclusão de que os atletas mais fortes, com que privei na minha juventude, de entre eles o Hipólito Cruz, campeão nacional de halterofilia e de luta greco-romana, eram pacholas, não se servindo da força física para humilhar, ofender ou bater nos mais fracos, aquilo a que hoje se dá o nome de “bullying”. Eram, isso sim, um exemplo a seguir para não fazermos da fraqueza força tornando-nos nos “valentões” que povoam escolas oficiais actuais em que a lei da selva se fez rainha e senhora!

sábado, 6 de março de 2010

A propósito do "bullying" - Passatempo com prémio


A PROPÓSITO
do - agora tão falado - bullying, e no seguimento das crónicas que Rui Baptista publicou no DRN acerca desse assunto [aqui e aqui], este blogue, mais uma vez em colaboração com o Sorumbático, propõe aos seus leitores a discussão desse problema.

Será atribuído um exemplar do livro cuja capa aqui se vê ao melhor comentário que seja feito - aqui - até às 24h do próximo dia 8, segunda-feira.
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Actualização (9Mar 10/22h19m): O De Rerum Natura e o Sorumbático decidiram atribuir a seguinte classificação: 1.º: GMaciel; 2.º e 3.º (ex-aequo): Luis Ferreira e Rui Guimarães.
Os três têm, a partir de agora, 24h para escreverem para premiosdepassatempos@iol.pt indicando 3 dos 4 livros disponíveis (por ordem decrescente de preferência - ver [aqui]) e morada para envio.

A real dimensão do bullying nas escolas





“Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperança do reino do céu é fazer-lhes esquecer o dever forte para com o reino da terra” (Eça de Queirós).

Como se se tratasse de um fait divers, foi preciso a morte de uma criança portuguesa vítima de bullying para a consciência nacional despertar para uma situação relatada, por exemplo, já no ano de 2008, na imprensa regional, como se tratasse de uma ocorrência sem interesse relevante para comprometer seriamente o Ministério da Educação pelo que se estava a passar nas escolas oficiais de um país de brandos costumes.

Rezava essa notícia: “O tema está em voga e os casos sucedem-se. O mais recente foi em Castanheira de Pera, onde um aluno de 12 anos da Escola Básica 2.º e 3.º Ciclo Bissaya Barreto agrediu uma professora. A situação foi de tal maneira grave que até a GNR foi chamada ao local” (Diário as Beiras, 19.Abril.2008).

É esta a génese de um fenómeno mais grave com que nos deparamos hoje com a inevitabilidade de estarmos perante, apenas, o diagnóstico do bullying sem perspectivar por parte da hipocrisia oficial uma solução verdadeiramente eficaz a não ser a de chorar lágrimas sobre o leite derramado. Mas é bom que se tenha em mente que o bullying, que já causou suicídios de estudantes nos Estados Unidos, não se circunscreve a agressões físicas e/ou psicológicas entre os estudantes O fenómeno é bem mais amplo como dei conta conta neste parágrafo do meu post mais recente, Bullying nas escolas portuguesas (04/03/20010):

“O terreno foi terraplanado por cabouqueiros que transformaram o ensino em tenda privilegiada de um circo de indisciplina, sendo destinado aos professores o papel de palhaços pobres. Com o aplauso e gáudio da pequenada, entrou-se num processo que conduziu à situação de haver professores que são agredidos por pirralhos do 1.º ciclo do ensino básico (antiga instrução primária). Em entreactos de um triste drama, um estudo de 2006 concluiu que o número de agressões a professores por alunos portugueses é o dobro do que ocorre na Inglaterra. E isto é tanto mais insólito quanto o número de professores da velha Albion é o triplo dos seus colegas lusitanos”.

Será que para chamar a atenção da sociedade portuguesa para esta forma de agressão física dos alunos aos professores, não chega o facto devidamente fundamentado em dados estatísticos de os professores serem uma percentagem substancial da clientela que enche os consultórios psiquiátricos? Será preciso um(a) professor(a) suicidar-se para os zelosos corifeus do ministério da Educação reconhecerem que chegou a altura de abandonar, de uma vez por todas, a permissividade perigosa de ter matulões em escolas inclusivas oficiais como se tratassem de crianças do coro de igreja?

Não, não se pense que se trata de pura ficção do celulóide. São factos do dia-a-dia. Quantos professores não transpõem o umbral da sala de aula para ganhar o pão que o diabo amassou com a coragem e a resignação de Maria Antonieta ao subir os degraus do cadafalso revolucionário de Paris do século XVIII? E como se isso não bastasse deparam-se, ainda, os docentes mesmo dentro do recinto da própria escola, por vezes, com encarregados de (des)Educação que os agridem em desagravo pelo mau rendimento escolar dos “bons selvagens” a que a sociedade escolar retirou a bondade e a possibilidade de engrossar a religião de analfabetos diplomados? E o que dizer de sindicalistas que esperam à porta de escolas oficiais entidades oficiais que as visitam para as apupar diante dos alunos com palavras grosseiras de quem deixou a carroça à porta?

O ministério da Educação tem por hábito assobiar para o lado como que o que de mau ou perverso se passa nas escolas, endossando a solução dos problemas para elas próprias, enjeitando, assim, a responsabilidade que lhe cabe de ter sido ele próprio a publicar e manter um estatuto do aluno que lhe dá todos os direitos e lhe não exige qualquer dever ainda que a simples frequência assídua e respeitosa nas salas de aulas pagas pelo erário público. Ou seja, pelas remediadas ou magras bolsas de todos aqueles que pagam impostos num país em que fugir aos impostos é prova de um malabarismo que se aplaude como se aplaudem as habilidades circenses.

Com a devida reserva de fidelidade da fonte, unicamente como medida de reflexão e obediência ao bordão popular que nos aconselha a pôr as barbas de molho quando vemos as do nosso vizinho do lado a arder, dou conta de uma notícia que corre na Internet sobre as medidas tomadas pelo governo britânico no combate ao bullying. São elas:

"As intimidações verbais e físicas não podem continuar a ser toleradas nas nossas escolas, seja quais forem as motivações' sublinhou a Secretária de Estado para as Escolas'. Disse também que ' as crianças têm de distinguir o bem e o mal e saber que haverá consequências se ultrapassarem a fronteira'.

Acrescentou ainda que 'vão reforçar a autoridade dos professores, dando-lhes confiança e apoio para que tomem atitudes firmes face a todas formas de má conduta por parte dos alunos'. A governante garantiu que 'as novas regras transmitem aos pais uma mensagem bem clara para que percebam que a escola não vai tolerar que eles não assumam as suas responsabilidades em caso de comportamento violento dos seus filhos. Estas medidas serão sustentadas em ordens judiciais para que assumam os seus deveres de pais e em cursos de educação para os pais, com multas que podem chegar às mil libras se não cumprirem as decisões dos tribunais'. O Livro Branco dá ainda aos professores um direito 'claro' de submeter os alunos à disciplina e de usar a força de modo razoável para a obter, se necessário”.

Em contrapartida, no nosso país chegam-nos zunzuns de que o governo se prepara para retirar os esquálidos benefícios sociais ao agregado familiar do aluno violento como se a forma eficiente de combater a agressividade fosse fazer passar ainda mais fome a quem chega a ter dificuldade em adormecer por ter o estômago vazio. Ou seja pagam possíveis justos – nem sempre a escola dos pais é a escola dos filhos – por um único pecador.

Embalar a alma lusitana na esperança sebastiânica de que o bullying nacional se trata de um fenómeno esporádico e de pouca expressão é tentar fazer com que ela, na sua pureza ingénua, se esqueça do dever que o governo tem para com uma sociedade, com escreveu Camilo Castelo Branco, em que “há lágrimas espremidas pelas mãos da prepotência por a lei se acobardar de levar aos olhos do fraco o lenço que vela os olhos da Justiça”.

A EDUCAÇÃO NO PLANO INCLINADO


Hoje, pelas 22 horas, na SIC Notícias, o programa "Plano Inclinado", moderado por Mário Crespo, aborda questões da educação, incluindo os casos de "bullying" em escolas portuguesas.

ENCONTRO DE ASTRÓNOMOS AMADORES

Informação recebida da Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores (A.P.A.A.):

Anúncio do 8º Encontro de Astrónomos Amadores aqui.

O MODULOR 2 DE LE CORBUSIER

Informação recebida da editora Orfeu Negro:

O Modulor/Modulor 2, um dos mais importantes textos da autoria de Le Corbusier, dá agora à estampa, pela primeira vez, em língua portuguesa.

O Modulor (1.º vol.), originalmente publicado em 1950, incide na explicação do sistema de medidas concebido por Le Corbusier entre 1943 e 1950 designado Modulor. Baseado nas dimensões do corpo humano e da matemática, trata-se de uma fórmula de coerência a partir da qual é possível gerar duas séries de medidas em harmonia com o corpo humano e entre si, estabelecendo uma ponte entre dois sistemas métricos: o sistema anglo-saxónico e o métrico decimal. Modulor 2 (1955) analisa o impacto e as diferentes reacções provocados nos leitores pelo volume anterior.

Obra de uma universalidade e intemporalidade ímpares, tornou-se constante objecto de estudo em todo o mundo.

Le Corbusier (1887-1965), pseudónimo por que é conhecido o arquitecto, urbanista e pintor Charles-Edouard Jeanneret, nasceu na Suíça, mas viveu a maior parte da sua vida em França. Fez diversas viagens pelo mundo, observando diferentes estilos e influências, e foi um dos criadores dos CIAM (Congrès Internationaux d'Architecture Moderne). É hoje considerado um dos mais importantes arquitectos do século XX, a par de Lloyd Wright, Alvaar Alto e Oscar Niemeyer.

APOIO À DIVULGAÇÃO:
Ordem dos Arquitectos

Título O MODULOR / MODULOR 2
Tradução prefácio e notas Marta Sequeira
Ano de edição 2010
N.º pp. 300/396
Formato 14,5 x 14,5 cm
Preço 42 €

À venda nas livrarias a partir de 15 de Março

"OS INFINITOS" DE BANVILLE

Na secção de livros do "New York Times" de hoje a recensão do último livro de John Banville

THE INFINITIES 273 pp. Alfred A. Knopf. $25.95

começa assim:

"What, if any, is the desirable ­intersection of the finite and the infinite, the mortal and the divine? That’s the question John Banville asks in his latest novel. Or perhaps that metaphysical query is only a bluff. Perhaps what “The Infinities” is really about is how much you can get away with if you’re a genius, a game-changer, a master (literally) of the universe."

Para mais ler aqui.

FRANCIS COLLINS E A RELIGIÃO


Destaque para um dos comentários do físico Bob park na sua coluna electronica semanal "What's New":

BELIEF: FRANCIS COLLINS IS FREE TO HOLD ANY BELIEFS HE LIKES.

This week, saw the publication of his new book, "Belief: Readings on the
Reasons for Faith.” But he is now the director of the nation’s largest
science agency, having promised to set his personal quirks aside for the
time. The argument is made that the book is work he did before he became director, but that's pretty thin cover. He could wait until he steps down.

Modern science had its birth with the assertion of the Greek philosopher Thales in 585 B.C. that every observable effect has a physical cause. We should not regard any person as educated unless he understands those words, including the director of NIH.

Lavagens


Com a devida vénia, publicamos a crónica do médico J.L. Pio Abreu no "Destak" de ontem:

As lavagens cerebrais foram estudadas pela CIA durante duas ou três décadas a partir dos anos 50. O nome do projecto era MK ULTRA. Os documentos que se conseguiram resgatar mostram que se tratava de experiências infantis baseadas na administração de drogas que produziram mais acidentes problemáticos do que conhecimento sobre o assunto.

Nos anos 60, Frantz Fanon, no seu livro Os Condenados da Terra, explicava como se lavavam as mentes dos anticolonialistas presos na Argélia. Pura e simplesmente, eles eram convidados a escrever ensaios sobre as vantagens do colonialismo francês. Estes ensaios eram classificados e, ao atingir uma certa pontuação, os presos eram libertos. Na verdade, os prisioneiros já eram inofensivos, pois as convicções antigas tinham-se evaporado enquanto escreviam as teses contrárias.

Na lavagem cerebral, as palavras são mais importantes do que qualquer droga, com a vantagem de se poderem administrar massiva e inadvertidamente. Entram-nos pela casa dentro, na hora do descanso, pela voz dos jornalistas e comentadores televisivos. Os sinais da lavagem consistem em usar, nas conversas e fóruns, as frases feitas por eles.

Resta saber se os jornalistas e comentadores também sofrem lavagens cerebrais, já que eles se repetem uns aos outros com frequência. Podem-se invocar várias razões para este fenómeno, entre as quais a de serem mal pagos, não terem tempo para se informar com autonomia e terem de pôr os olhos na concorrência. Mas é de ter em conta a possibilidade de eles se lavarem uns aos outros.

J. L. Pio de Abreu

sexta-feira, 5 de março de 2010

Um massacre

Uma grande editora destruiu muitos livros. Dezenas de milhares, diz-se nas notícias.

Ao que parece havia de tudo nos lotes que se alienaram: desde manuais escolares desactualizados a obras antigas de Vasco Graça Moura, Jorge de Sena...

"É uma inevitabilidade", foi a justificação dum responsável editorial. Justificação que eu já antes tinha percebido ser aceite pacificicamente nos meios editoriais.

Felizmente não é aceite desta maneira pela Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, que considerou essa destruição "um massacre", prometendo que tudo fará para encontrar uma solução a curto prazo.

O TEMOR DA TERRA


Minha crónica na rev ista "Tabu" do semanário "Sol":


No Chile a terra costuma, de vez em quando, tremer. E, quando treme, é de temer! Na lista dos dezoito tremores de terra mais violentos de todos os tempos que a Wikipedia elenca, seis tiveram epicentros no território chileno. O mais recente, ocorrido na região de Maule, no Norte do Chile, no dia 27 de Fevereiro último, alcançou a magnitude 8,8 na escala de Richter, causando 730 óbitos até à data. O mais violento terramoto de todos os tempos ocorreu também no Chile, a 22 de Maio de 1960: localizado na cidade de Valdivia, no Sul, teve a magnitude de 9,5 na mesma escala e originou cerca de 1700 mortos. Para termo de comparação, acrescente-se que o terramoto do Haiti de 12 de Janeiro passado teve a magnitude 7,0 e fez mais de 220 000 mortos. Ainda para comparação: ao grande terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755 é atribuída a magnitude de 8,7 (um cálculo, pois na época não havia os sismógrafos que há hoje) e cerca de 60 000 mortos (um número muito incerto). Viu-se agora relegado do 10.º para o 11.º lugar na referida lista dos terramotos.


O que significa o valor de 8,8 na escala de Richer, que acaba de ser registado no Chile? Essa escala mede a energia libertada no sismo, o que se traduz no seu potencial poder de destruição. Claro que se o sismo destrói muito (como aconteceu no Haiti ou em Lisboa) ou pouco, causando mais ou menos vítimas mortais, depende de outros factores como a densidade e a qualidade da construção. A energia libertada no Norte do Chile foi o equivalente a 16 mil milhões de toneladas de TNT, o que contrasta brutalmente com a energia, correspondente a 15 mil toneladas, da bomba atómica que explodiu sobre Hiroxima no final da Segunda Guerra Mundial. Impressiona a energia do último abalo de terra chileno, e mais ainda a do abalo de terra extremo de 1960, quando cotejada com a das armas de destruição massiça que o homem inventou.


Num dos versos de “A Fala do Homem Nascido”, escreveu o poeta António Gedeão: “as forças da Natureza nunca ninguém as venceu”. De facto, o homem tem de se sentir pequeno perante as fúrias do seu planeta. No Chile, agora como de outras vezes, deu-se um embate frontal da placa Nazca, no Pacífico, e da placa da América do Sul, mergulhando a primeira por baixo da segunda. A tendência, que se manifesta de forma muito lenta, consiste no alargamento do Atlântico e na diminuição do Pacífico. Mas o homem quer ser grande: “Quero eu e a Natureza que a Natureza sou eu”. Por enquanto, não é capaz de prever quando se libertará a gigantesca energia acumulada na zona de contacto entre placas tectónicas. Mas persegue essa possibilidade. Pode bem ser que, com o progresso da sismologia, consiga um dia antecipar catástrofes iminentes. Nessa altura diminuirá o temor da Terra...

PRAGA VISTO POR UM PORTUGUÊS RESIDENTE



Com a autorização do autor, professor de Português em Praga, transcrevemos artigo recente do "Semanário Económico":


Praga é uma cidade monumental. Talvez excessivamente, para quem a habita todos os dias e tem que se deparar com engarrafamentos de turistas um pouco por toda a cidade velha. Claro que nesta babel de línguas, costumes, sons e cores de gente reside boa parte do encanto da cidade das cem torres, como também é conhecida a capital da República Checa.

Apesar de conhecida por um certo número de locais e construções - catedral de S. Vito, o Castelo, o Teatro Nacional, a ruela do ouro ou o relógio astronómico – Praga insiste em fugir aos clichés, surpreendendo quem decida dedicar energia e tempo à descoberta dos seus recantos e segredos: se visitar o castelo é uma obrigação turística, acabar nos parques verdes reais é uma necessidade absoluta. Visitar o bairro de Mala Strana, com a igreja do Menino Jesus de Praga, o Palácio do Senado e o jardim de Valdštein é obrigatório, mas terminar este percurso na taberna “UHrocha” é uma das mais interessantes experiências sociológicas ao alcance do turista de espírito aventureiro(há quem diga que os dois empregados da ‘hospoda’ nunca viram a luz do sol, tal a amplitude do horário de trabalho, que se inicia antes do alvorecer e termina depois do ocaso). E depois há Mozart. Esmetana e Dvorak e Janacek, os mais ilustres compositores que viveram a/na cidade e contribuíram para o seu esplendor cultural, que prevalece nos teatros nacionais ou na Ópera de Praga, espaços que convivem com os quase sempre esgotados 50 teatros que da cidade, quase todos com companhias residentes.

No entanto, a visão que tenho da cidade é outra: a música que oiço não é só a dos executantes e virtuosos na sala de concertos do Rudolfinum, mas também a do primeiro violino da Orquestra Nacional que, nas horas vagas, vai tocar para a ponte de Carlos, ou a do velho resistente que, com neve, chuva ou sol, toca no saxofone êxitos norte americanos imortalizados por Frank Sinatra ou pela Glenn Miller Orchestra. Chapéu negro, estilo cowboy incluído!

Mas o livro é o melhor amigo dos checos. Onde quer que estejam, no hospital à espera de consulta, no metro, no eléctrico ou no parque, lêem compulsivamente. Ir ao café significa passar horas com uma cerveja e um livro – disponibilizado pelo estabelecimento, é claro. Praga é a cidade de Kundera e de Kafka, os menos checos dos escritores checos, e de Jaroslav Sejfert, o Nobel da literatura; mas mais terra-a-terra, quem não conhece a história do “Valente Soldado Šveik”, de Jaroslav Hašek?

Praga é também uma cidade viva e moderna, estrategicamente situada no centro da Europa e com um crescimento visível no que toca à atracção de multi-nacionais que contribuem para a preservação da cidade, recuperando palacetes e casas de estilo, recorrendo à construção de edifícios de raiz, seguindo linhas estéticas de nova arquitectura e dando ao espaço uma aparência dinâmica e contemporânea. Com uma taxa de desemprego reduzida, atrai as gerações mais jovens, o que dá uma dinâmica social e uma ‘movida’ cosmopolita.

A relação de Portugal com este país tem raízes históricas que remontam, pelo menos, ao século XVI, quando o Infante D. Pedro se bateu em terras da Boémia contra os hussitas. Há registos da passagem do humanista Damião de Góis e de intercâmbios científicos, de que a apresentação do nónio de Pedro Nunes é apenas um exemplo.

Com cerca de um milhão de habitantes, a cidade recebe cerca de quatro milhões de turistas por ano, a maioria para visitar monumentos, museus e ver concertos, mas muitos para participar numa das novas vocações de Praga: conferências e congressos.

JOAQUIM COELHO RAMOS

joaquimramos@instituto-camoes.pt

quinta-feira, 4 de março de 2010

Bullying nas escolas portuguesas





"O mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que o observam e deixam o mal acontecer" (Albert Einstein).

Mesmo depois de ter sido noticiada a possibilidade de suicídio de uma criança vítima de bullying, em artigo assinado por Graça Barbosa Ribeiro, lia-se hoje no jornal Público que “Gina Tomé, psicóloga da equipa de investigação em Psicologia da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, comentou apenas que os estudos feitos no seu departamento comprovam que o número de casos de bullying baixou entre 2002 e 2006, em Portugal pelo que não há qualquer razão para 'alarme social'”.

Em contrapartida, segundo a mesma fonte, um estudo realizado pela Universidade do Minho, a cargo da investigadora Maria Tomás de Almeida, sobre a violência nas escolas em 2008 e 2009 tem esta ocorrência como “um dado preocupante”, embora os casos tendam a diminuir, ainda são “13,5 por cento os jovens que se dizem vítimas do bullying”. E logo acrescenta o referido estudo, "com medo de represálias, muitas vezes nas escolas diz-se que não existe bullying. E isto porque esta forma de violência, de agressão física e/ou psicológica continuada, é exercida de maneira camuflada e os alunos que a sofrem não se queixam”.

Em notícia de Ana Fragoso, ibid., lia-se em título de página inteira: “Menino que se lançou ao rio Tua era há algum tempo agredido verbal e fisicamente”. E, em subtítulo: “Instaurado inquérito sobre o caso de suicídio de criança de 12 anos. Colegas e familiares afirmam que o aluno era uma vítima de outros estudantes e até já identificaram os agressores”.

Ou seja, mais uma vez se verifica o aforisma bem português: “Depois de casa roubada trancas na porta”. Talvez por preferir um outro que diz que “mais vale prevenir do que remediar”, foi publicado, em 11 de Março de 2008, neste blogue, um post da minha autoria, intitulado Sementes de violência. Trancrevo-o na íntegra pela sua actualidade em denunciar uma responsabilidade que não pode continuar a ser enjeitada ou escamoteada pela sociedade portuguesa como que a querer "sacudir a água do capote", servindo-me de uma linguagem militar:

"Portugal, na década de 50. Passava então na tela dos cinemas um filme norte-americano com o título de que me apropriei para este texto. Nele contracenavam Glenn Ford e Sidney Poittier. Aquele como professor e este como aluno de uma high school pobre e degradada em que os problemas de disciplina se agravavam num conflito de natureza racial.

Anos mais tarde, meados da década de 70, assistia Portugal à invasão dos liceus públicos por docentes com escassas habilitações académicas com a intenção política da lavagem ao cérebro de cabeças juvenis, num ataque ao poder paternal e a princípios morais transmitídos em casa. Do dia para a noite, os pais passaram a ser considerados ditadores por tentarem que a liberdade dos filhos se não transformasse em libertinagem. Depois, seguiu-se um período de euforia sem responsabilidade, em nome de uma sociedade que entoava hinos de louvor às pedagogias do 'eduquês' e remetia para as profundezas do inferno o conhecimento científico.

O terreno foi terraplanado por cabouqueiros que transformaram o ensino em tenda privilegiada de um circo de indisciplina, sendo destinado aos professores o papel de palhaços pobres. Com o aplauso e gáudio da pequenada, entrou-se num processo que conduziu à situação de haver professores que são agredidos por pirralhos do 1.º ciclo do ensino básico (antiga instrução primária). Em entreactos de um triste drama, um estudo de 2006 concluiu que o número de agressões a professores por alunos portugueses é o dobro do que ocorre na Inglaterra. E isto é tanto mais insólito quanto o número de professores da velha Albion é o triplo dos seus colegas lusitanos.

Tardiamente, ao apelar para 'a necessidade de reforçar a autoridade da escola com medidas disciplinares de carácter educativo, adaptando-as às circunstâncias actuais que comprometem a eficiência educativa' ('Público', 10.Março.2007), a ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues veio reconhecer publicamente que a Lei n.º 30/2002, de 20 de Dezembro (Estatuto do Aluno do Ensino não Superior), não cumpria os desígnios de um combate eficaz contra a indisciplina.

Meses mais tarde, no jeito bem português de 'dar uma no cravo e outra na ferradura', noticiava a Agência Lusa (25.Outubro.2007) um autêntico sacrilégio na luta contra a indisciplina: 'A Comissão Parlamentar da Educação aprovou ontem a realização de uma prova de recuperação para os alunos que ultrapassem o limite de faltas, independentemente de serem justificadas ou não'. Todos os partidos da Oposição, ainda segundo a Lusa, 'se opuseram a esta medida com o argumento de que ela não promove a assiduidade, nem uma maior exigência e qualidade do ensino, já que o estudante transitará de ano lectivo, mesmo que não obtenha aproveitamento'.


Não me parece ser com medidas geradoras de mau ambiente escolar (por permitirem que os alunos gazeteiros se passeiem em plena impunidade pelos corredores da escola quando lhes dá na real gana em visita tumultuosa e provocadora a professores e colegas) que se combate eficazmente a agressão verbal, física ou psicológica, como esta aqui transcrita:'Recentemente [com total impunidade] duas professoras minhas conhecidas foram alvo de mimos de três adolescentes: uma foi ameaçada com uma faca e à outra entornaram-lhe um copo de água nas costas' (Editorial, 'O Primeiro de Janeiro', 4.Março.2008).

Esta forma de agressão, com tradições antigas em todo o mundo nas comunidades juvenis – cuja única novidade trazida a Portugal foi a adopção da palavra inglesa 'bullying', que se pode traduzir por amedrontar ou agredir os mais fracos -, muito se agrava no Agrupamento Vertical de Escolas, em que frequentam o mesmo estabelecimento de ensino alunos desde o início do 2.º ciclo do básico até ao final do secundário. Ou seja, com uma diferença de idades de oito ou mais anos! Quer isto dizer que não houve qualquer cuidado por parte da tutela em fazer publicar normas legislativas que diminuíssem os efeitos da indisciplina e, muito menos, de promoverem a sua pelo menos parcial erradicação. Bem pelo contrário!"

quarta-feira, 3 de março de 2010

A Grécia Arcaica

A primeira tertúlia de um ciclo organizado pela associação A Origem da Comédia terá como tema a Grécia Arcaica, como pano de fundo histórico-cultural da revolução científica e filosófica protagonizada pelos filósofos que serão tratados nas tertúlias seguintes.

A tertúlia será presidida pela Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, contarando ainda com o grupo de teatro clássico Thíasos, que fará a ante-estreia de um recital de poesia intitulado Pintar com Vinho as Setas do Amor (a partir da Anacreontea, uma colecção de poemas gregos recentemente traduzida para português pela primeira vez, por Carlos Jesus).

Dia 5 de Março, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, pelas 18horas. A entrada é livre.

HUMOR ROBÓTICO 3


- Conta-me mais coisas sobre o teu programador...

HUMOR ROBÓTICO 2


- Se aquele puto algum dia fizer alguma coisa, será algo perigoso...

HUMOR ROBÓTICO 1

- Será que assim ficamos lésbicas?
- Cala-te e liga!

Roboparty: uma festa da Robótica

Realizou-se em Guimarães, na Universidade do Minho, mais uma edição do Roboparty. A edição deste ano teve a participação de 440 alunos, ficando mais do dobro em lista de espera por falta de espaço no evento para acomodar tanta gente.

A alma deste evento é o Fernando Ribeiro, docente da Universidade do Minho e especialista em robótica móvel. Pensou este evento tendo por imagem as lanparties muito populares no público jovem. As características do Roboparty são estas.

Vejam vídeos desta grande festa da robótica nacional neste link

Fotos dos vários dias do festival aqui.

Parabéns Fernando Ribeiro por mais este grande evento.
You're the man...
:-)

terça-feira, 2 de março de 2010

Latim - uma chave para o sucesso

Em Inglaterra, várias escolas básicas desenvolvem actividades relacionadas com o ensino do latim a crianças. Professores, Especialistas e Directores de escolas enumeram as vantagens desta aprendizagem precoce a nível cognitivo, atitudinal e instrumental.

O latim aparece como um modo de imprimir sucesso a aprendizagens futuras. As crianças parecem ficar fascinadas com histórias de heróis longínquos e o seu nível de desempenho torna-se verdadeiramente superior a nível linguístico. Assim, o elitismo em que parecia consistir o ensino do latim democratiza-se, permitindo o alargamento de horizontes.

Assistam aqui .

Prémios para iniciativas portuguesas de astronomia

Informação recebida da organização do Ano Internacional da Astronomia, que está quase a acabar:

Menção honrosa recompensa o "Galileo Teacher Training Program", uma iniciativa internacional liderada por uma investigadora luso-brasileira

Suscitaram o despertar para a beleza da ciência e a partilha desinteressada do conhecimento acerca do Universo que nos rodeia. Em Portugal e não só. O Ano Internacional da Astronomia (AIA2009) acaba de galardoar duas das dezenas de milhares de iniciativas que contribuiram para a sensibilização do público para os feitos astronómicos e incentivaram profissionais e amadores a usar a Astronomia como ferramenta na promoção da educação e da cultura científica. A exposição "Da Terra ao Universo" e o programa mundial de formação de professores, "Galileo Teacher Training Program", reflectiram o espírito do AIA2009 como um todo. Os responsáveis pela dinamização dos dois programas em Portugal congratulam-se pela atribuição desses prémios de excelência.

"A visão do "Galileo Teacher Training Program"
(GTTP) é criar uma rede de professores e estudantes sem fronteiras físicas ou financeiras que os separe ou classifique", esclarece a chair do GTTP, Rosa Doran. Em Portugal como no resto do mundo, educadores receberam apoio na utilização de recursos modernos para o ensino da ciência, estimulando a partilha das melhores ferramentas e a troca de experiências e saberes. "Vamos a pouco e pouco construindo uma rede de entreajuda que vai muito além da promoção de boas técnicas de ensino", frisa a responsável.

A investigadora luso-brasileira e presidente do Conselho Executivo do Núcleo Interactivo de Astronomia (NUCLIO) avalia em 300 o número de docentes que usufruiram do programa. "Portugal foi um dos países com maior número de professores a receber formação na utilização das novas tecnologias em sala de aula", revela Rosa Doran. O "Galileo Teacher Training Program" veio consolidar as bases de uma comunidade muito activa de professores em Portugal e no mundo, construindo uma forma completamente inovadora de motivar os estudantes para as ciências e em especial para a Física e a Química.

"O AIA2009 foi um momento muito importante para atrair a atenção de educadores que não conheciam o programa. Posso citar, por exemplo, a participação record este ano de escolas portuguesas no programa de procura de Asteróides", refere Rosa Doran. O GTTP partilha o terceiro galardão anunciado pelo AIA2009 com o projecto "Galileoscope", um kit que inclui um telescópio de baixo custo para que crianças e adultos no mundo inteiro possam reviver as descobertas de Galileu. A primeira menção honrosa "International Year of Astronomy 2009/Mani Bhaumik" distingue o webcast de 24 horas "Volta ao Mundo em 80 Telescópios", uma das iniciativas das "100 Horas de Astronomia" que decorreram em todo o mundo entre 2 e 5 de Abril.

Aprender Astronomia e despertar para a beleza da ciência

O primeiro prémio "International Year of Astronomy 2009/Mani Bhaumik" recompensa um dos mais ambiciosos projectos do AIA, o "Da Terra ao Universo" (From Earth to the Universe - FETTU). A original exposição contou, entre outros, com o trabalho do português António Pedrosa, director do planetário do Centro Multimeios de Espinho e membro da Fundação Navegar, que integrou a equipa internacional responsável pelo certame global.

João Fernandes, coordenador do Ano Internacional da Astronomia em Portugal, faz um balanço positivo da mostra não convencional que se instalou nas ruas, nos parques e nos centros comerciais do país, expondo a grande variedade de imagens astronómicas de uma beleza estonteante disponíveis hoje e revelando as noções básicas de astronomia escondidas por trás das imagens.

"Talvez o local de exposição mais original e marcante em Portugal tenha sido o estabelecimento prisional de Coimbra que expôs os posters do FETTU nas paredes interiores da prisão", defende João Fernandes, sublinhando que "o simbolismo de uma exposição deste tipo numa prisão é enorme: até dentro dos muros de uma prisão, as estrelas podem brilhar!".

"Da Terra ao Universo" foi particularmente bem acolhido em Portugal e superou as expectativas dos membros da Comissão Nacional do AIA. "Os 1100 posters previstos para o certame foram todos distribuídos. As escolas, por exemplo, pediram muitas vezes à comissão para ficar com os mupies para os terem expostos em permanência", salienta o coordenador do AIA2009.

Os diferentes prémios e certificados serão atribuídos aos vencedores em Março durante a conferência "Communicating Astronomy with the Public 2010", na África do Sul (Cape Town).

Apoios do ensino especial

Com a devida vénia, reproduzimos um texto da autoria de João Lopes, professor da Universidade do Minho, enviado ao jornal Público, a propósito de editorial recentemente publicado sobre os Apoios do Ensino Especial.

Não pretendendo discutir a questão do ensino especial propriamente dito, parece-me importante questionarmo-nos sobre a razão pela qual se procura sistematicamente e com tanto afinco incluir a hiperactividade e a dislexia na educação especial? E porquê misturar isso com o slogan da escola inclusiva?

A resposta mais óbvia é que se insiste, contra toda e qualquer evidência empírica disponível, em favorecer uma perspectiva médica do ensino/aprendizagem, em particular no que diz respeito aos problemas de aprendizagem da leitura e escrita (não vou ocupar-me aqui da hiperactividade, embora aconselhe as pessoas a, antes de se pronunciarem peremptoriamente sobre este assunto, consultarem a literatura especializada, portuguesa e estrangeira).

Por outro lado, seria interessante que alguém explicasse que tipo de apoio tinham os alunos com problemas da leitura (os erradamente chamados disléxicos) antes da alteração legislativa referida na notícia. A sugestão de que o apoio existia e foi retirado, é simplesmente falsa. De forma organizada (organizacional) esse apoio não existia, não existe e muito provavelmente continuará a não existir. Ainda assim, neste momento, em muitas escolas, há uma maior preocupação de sinalização e de intervenção junto de alunos com dificuldades, felizmente sem ter que se esperar por diagnósticos de dislexias, nem por autorizações de Direcções de Educação. E muito menos – felizmente – sem ter que se esperar por um ensino especial que vem tarde e a más horas e cuja utilidade é desconhecida (seria interessante que fossem fornecidos dados sobre os brilhantes resultados que o ensino especial obteve nos anos em que “havia apoio”).

Por ora e para não ocupar demasiado espaço, pretendo apenas demonstrar que os modelos médicos aplicados às questões de aprendizagem constituem, eles sim, uma verdadeira patologia social, incapaz de ajudar os alunos quando eles precisam. A medicina nada tem a dizer sobre este assunto, tornando-se simplesmente inaceitável que haja tanta gente a tentar patrocinar má ciência e caricatos modelos em que causas, características e intervenção nunca casam e nunca casarão. A este propósito, cinco pontos têm que ser devidamente realçados:
(a) não existe qualquer evidência de afecção cerebral (brain injury) em alunos com problemas de aprendizagem;
(b) os modelos explicativos da denominada dislexia não representam mais do que uma hiper-generalização a partir de sujeitos atípicos e adultos;
(c) a neuropsicologia (área da medicina que com maior persistência invade este território) tende a considerar como clinicamente significativos (de dislexia) sinais ou sintomas que têm uma taxa de incidência tão elevada, que virtualmente todos os sujeitos apresentam pelo menos um ou dois desses sintomas;
(d) a perspectiva neuropsicológica da dislexia e das dificuldades de aprendizagem é caracterizada por um elevado nível de inferência que se auto-dispensa de demonstrar a sua validade;
(e) não se conhece qualquer sugestão inerentemente neuropsicológica que apresente eficácia igual ou superior às já há muito tempo conhecidas estratégias eficazes de instrução (com filiação na educação e não na medicina, evidentemente).

Por tudo isto e ainda por razões que por falta de espaço não se desenvolvem aqui, as abordagens neuropsicológicas aos problemas de aprendizagem, de entre as quais a “dislexia” constitui porventura a mais representativa categoria, são irrelevantes para uma classificação eficaz, imateriais para uma intervenção eficaz, fornecem uma ideia errada sobre condições do cérebro para as quais não existe evidência sólida, e são potencialmente prejudicais, porque sugerem erradamente que processos ou estruturas físicas disfuncionais são a causa dos problemas de aprendizagem.

O arrastamento da questão da leitura para a genética e para a neurologia, tem-na desviado do seu campo óbvio e do único que plausivelmente a ela pode conduzir: o acto social do ensino-aprendizagem. E este desvio é tão acentuado e apriorístico que quando se postula que o mau ensino deve constituir factor de exclusão da dislexia, ninguém se dá ao trabalho de verificar se o sujeito foi bem ensinado. Parte-se simplesmente do princípio de que, se o sujeito esteve num grupo onde a maioria aprendeu a ler, é porque o ensino foi bom. E se o ensino foi bom, o aluno é que é mau (genética ou neurologicamente mau, bem entendido). Dir-se-ia que esta visão retrata um verdadeira fé em que o ensino grupal chega a todos da mesma maneira, desde que os sujeitos sejam minimamente inteligentes.

A dislexia, enquanto categoria ou doença não existe, porque a leitura se distribui num contínuo, não existindo pontos de corte que separem grupos de leitores entre si. Isto é simplesmente um facto, que muita gente reconhece (muita outra nem disto se apercebe) mas que finge ignorar, insistindo na mirífica ideia de um grupo de pessoas que comete erros que ninguém mais comete e que, enquanto grupo, apresenta característica únicas e idênticas.

Infelizmente, o que se vislumbra no estudo referido pelo Público, é um desejo de injectar mais professores no sistema de ensino. É um desejo legítimo, porque parte de organizações sindicais cuja obrigação é defender os interesses dos seus associados. O Estado, porém, tendo em conta as melhores práticas nesta área, deve rejeitar liminarmente as perspectivas médicas que inspiram estudo e deve ainda afirmar com todas as letras que as dificuldades de aprendizagem constituem um problema do ensino regular e não do ensino especial (o mesmo se deve dizer, aliás, da hiperactividade).

Termino lembrando que durante anos a fio houve muita gente no ensino especial que se empenhou em evidenciar que este não servia para nada e que tudo tinha que ser ensino regular (ou ensino inclusivo). Essas mesmas pessoas não se coíbem porém de clamar por ensino especial para disléxicos e hiperactivos, sem que consigam explicar onde está a patologia e qual o grau conhecido de eficácia do ensino especial na intervenção com estes sujeitos. No meio disto, continua-se a discutir os problemas dos professores, não dos alunos.
João Lopes

D. MANUEL DO CENÁCULO, UM ILUMINISTA CATÓLICO


Foi o iluminista Voltaire que disse “Deus é um comediante a actuar para uma plateia assustada de mais para rir”. De facto, o espírito das luzes, que ganhou força na Europa no século XVIII, não conviveu bem com a religião dominante no Velho Continente. Mas houve muitos iluministas católicos e até um movimento com o nome de Iluminismo Católico que tentou trazer para dentro da Igreja, adaptando-o convenientemente, algum do espírito das luzes.

Um dos nomes maiores do Iluminismo católico português foi decerto D. Manuel do Cenáculo (1724-1814), que participou na Junta de Providência Literária que preparou a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra e que dirigiu a Real Mesa Censória, um alto cargo na governação do Marquês de Pombal, e que foi também Bispo de Beja e de Évora. A principal marca que nos deixou foi a criação de bibliotecas, como a Biblioteca da Real Mesa Censória, a Biblioteca da Diocese de Beja e a Biblioteca Pública de Évora, que em 2005 celebrou os 200 anos.

D. Manuel do Cenáculo, de seu nome completo D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas Anes de Carvalho, deixou resmas de manuscritos, incluindo pormenorizados diários e correspondência trocada com um grande número de personalidades da época, que em boa parte se encontram guardados hoje na Biblioteca de Évora. Uma pequena mas significativa amostra desses escritos saiu há pouco no volume coordenado por Francisco António Lourenço, professor de história na Universidade de Évora, com o título “D. Manuel do Cenáculo. Instruções Pastorais, Projectos de Bibliotecas e Diário”, que é o número 8 da colecção “Ciência e Iluminismo” da Porto Editora. Essa colecção é um verdadeiro achado, para os leitores, como eu, que têm particular interesse e simpatia tanto pela ciência como pelo Iluminismo (os dois estão, como é sabido, muito próximos). A série abriu com a publicação de documentos de um outro iluminista, cientista botânico, o Abade José Correia da Serra, e continuou com textos, entre outros, de Domingos Vandelli, o químico e naturalista que de Pádua veio para Lisboa e Coimbra, e Diogo de Carvalho e Sampayo, o autor do curioso embora desconhecido “Sistema das Cores”.

Vejamos, em mais pormenor, a biografia do prelado que tem o seu retrato, merecidamente em grande, na Biblioteca Pública de Évora. Nasceu em Lisboa de origem humilde (o pai era serralheiro de Constantim, arredores de Vila Real). Aos 16 anos entrou para a Ordem Terceira de S. Francisco, da qual viria a ser superior provincial. Forma-se em 1749 em Teologia na Universidade de Coimbra, onde ensinou até 1755, o ano do grande terramoto. O Marquês nomeou-o para o importante lugar de confessor e perceptor do príncipe D. José, filho de D. Maria I e neto de D. José (o livro aqui em causa contém uma lista de livros recomendados para a educação do príncipe). Este príncipe, que casou aos 15 anos com uma tia que tinha o dobro da idade, acabou por falecer de varíola aos 27 anos, permitindo que o trono real fosse ocupado por seu irmão mais novo, que se tornou D. João VI. Em 1770 D. Manuel do Cenáculo foi nomeado o primeiro bispo de Beja, já que a diocese foi criada nessa mesma data. A Junta de Providência Literária serviu para escrever os Estatutos da Universidade de 1772 (o livro em causa dá conta, na parte dos diários, das reuniões realizadas para esse fim). A Real Mesa Censória, fundada em 1768, e da qual D. Manuel do Cenáculo foi o segundo presidente, desempenhou um papel essencial no despotismo do Marquês. Os livros contra a religião eram sumariamente proibidos pela junta formada quase só por clérigos. Mas não eram só esses os livros proibidos: também os “livros que neguem obediência ao Santo Padre, os livros de astrologia, feitiçaria, que promovam a superstição, livros obscenos, os que deturpam as sagradas escrituras e ainda os dos pervertidos filósofos destes últimos tempos”. E até obras dos jesuítas foram alvo de censura, o que não admira sabido como é o ódio do Marquês aos jesuítas. D. Manuel do Cenáculo tentou lá criar uma biblioteca dos livros entregues, que de algum modo é precursora ainda que distante do Depósito Legal.

Com a morte de D. José, o Marquês caiu em desgraça. E o mesmo aconteceu com os seus mais próximos colaboradores. D. Manuel do Cenáculo deixou a política activa, recolhendo à sua diocese de Beja. Aí a sua pastoral desenvolveu-se no sentido da instrução básica do povo analfabeto e de uma instrução mais elevada para os clérigos. Para isso valorizou o papel dos livros e das bibliotecas. D. Manuel do Cenáculo era um bibliófilo, com conta aberta em vários livreiros a quem comprava compulsivamente tudo o que, na sua opinião, de melhor saía no país e lá fora. E coligiu antiguidades: foi um coleccionista e um arqueólogo avant la lettre. Em 1808, o Regente D. João lembrou-se do mestre do seu falecido irmão para a diocese de Évora (nesse tempo o poder temporal e eclesiástico não eram distintos como hoje) O novo bispo de Évora subiu um pouco mais a Norte no Alentejo, mas continuou a sua acção na mesma linha. Muitos objectos que trouxe de Beja fazem hoje parte do Museu de Évora. E, de novo, fundou uma Biblioteca, a de Évora, que bem podia ter o seu nome. O projecto da Biblioteca da Real Mesa Censória e os Estatutos da Biblioteca Pública de Évora encontram-se transcritos no livro em apreço. Tanto as colecções arqueológicas como as colecções de livros viriam a sofrer com as Invasões Francesas, quando o bispo de Évora já estava velho e alquebrado. Desterrado para Beja, resistiu como pôde. Morreu próximo dos livros.

Duas palavras mais sobre o iluminismo católico e a ciência. Um documento do livro coordenado por Lourenço Vaz é bem elucidativo da tentativa de conciliar fé e razão. Tendo havido dúvidas sobre a qualidade da água baptismal de uma certa pia, o bispo não hesitou em fazer ele próprio uma experiência:

“Fiz uma junta composta de dois teólogos, de dois médicos, e dois cirurgiões, todos práticos na matéria, e eu provei a água que vossa mercê me enviou em uma redoma: todos igualmente provámos, e cheirámos a mesma água. Não lhe achámos coisa alguma que a inabilitasse para o Sacramento.”

Por outro lado, como bem informa o presente livro, D. Manuel do Cenáculo estava a par das novas correntes científicas. Não deixou de criticar Voltaire, mas isso não o impediu de reconhecer o importante papel desse filósofo como divulgador das ideias de Isaac Newton, que marcaram o século das luzes: “Quis Newton, diz Voltaire, que a luz fosse conhecida, e conhece-se a luz”. E sobre o grande antecessor de Newton que foi Galileu Galilei escreveu:

“Favorece a Providência o empenho de Galileu na invenção do Telescópio. Desta sorte o artifício aumentou as luzes dos modernos para emendarem os erros, tanto negativos, como positivos, dos que não conheceram semelhantes instrumentos, nem souberam, nem puderam trabalhar como os Galilei, e os Cassini.”

- Francisco António Lourenço Vaz (introdução e coordenação editorial), “D. Manuel do Cenáculo. Instruções Pastorais, Projectos de Bibliotecas e Diário”, Porto Editora, 2009.

SOBRE O LIVRO "CHAMO-ME GALILEU GALILEI"

Nas escolhas que fiz de livros e que estão no sítio do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, a última adição é de um livro de Guilherme de Almeida para jovens: "Chamo-me... Galileu Galilei (Didáctica Editora). Ver o breve vídeo aqui.

segunda-feira, 1 de março de 2010

"TESOUROS" NO PÚBLICO


O "Público" de hoje, pela pena da jornalista Maria João Lopes, fala do livro "Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra", com coordenação de António Eugénio Maia do Amaral, que saiu há pouco na Imprensa da Universidade de Coimbra. Ler aqui.

Na imagem: manuscrito autógrafo de Almeida Garrett.

Manifestação de Bolseiros dia 11 de Março


Informação recebida da ABIC - Associação dos Bolseiros de Investigação Científica. Na imagem: protestos dos bolseiros em frente ao Ministério da Ciência e Tecnologia, em Junho de 2007.

A ABIC convoca um protesto nacional de bolseiros de investigação, para o próximo dia 11 de Março, em frente à Assembleia da República, pelas 17.30.

Este dia será o primeiro (de dois dias) da discussão e votação final do Orçamento do Estado (OE) para 2010, e queremos marcar presença para alertar o Governo, os Grupos Parlamentares e o País sobre a nossa situação.

Apesar das recentes promessas do Governo, a condição dos bolseiros de investigação em Portugal continua altamente precária, sem que se prevejam mudanças neste panorama:

- não há perspectiva do Governo alterar o Estatuto do Bolseiro, limitando o uso das bolsas para períodos de formação e conduzindo a celebração de contratos de trabalho com os actuais bolseiros que são efectivamente trabalhadores;

- existem muitos bolseiros cujo trabalho assegura o funcionamento permanente das instituições de I&D, em violação do actual Estatuto do Bolseiro;

- os bolseiros não têm direito ao Regime Geral de Segurança Social, incluindo o subsídio de desemprego, apenas ao Seguro Social Voluntário com uma comparticipação segundo o escalão mínimo, não segundo o montante da sua bolsa;

- os montantes das bolsas não são actualizados desde 2002, o que representa uma perda de poder de compra de quase 20%;

A ABIC defende que as bolsas devem ser limitadas a períodos de formação e que os investigadores doutorados e técnicos financiados com bolsas deverão passar a ter contratos de trabalho, usufruindo dos mesmos direitos e deveres de qualquer trabalhador. Exigimos ainda a actualização urgente dos montantes das bolsas.

Numa fase em que o novo OE se encontra em discussão, apelámos ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) para que esclarecesse alguns pontos relativos ao investimento na melhoria das condições de trabalho dos investigadores científicos. Não obtivemos qualquer resposta do MCTES. No entanto, o Ministro Mariano Gago reuniu com a Comissão Parlamentar de Educação e Ciência no dia 26 de Janeiro e as suas respostas às interpelações do BE, PCP e PSD relativas aos bolseiros de investigação foram claras*:

- não há qualquer intenção de actualização dos montantes das bolsas;

- o Ministro reconhece a necessidade de estabelecer contratos de trabalho com os investigadores doutorados mas descreve o processo como tendencial e difícil;

- em relação a outro tipo de bolsas não associadas a formação (como BI, BTI e BGCT, por exemplo), não se prevê qualquer mudança vedando deste modo o acesso à condição de trabalhadores a estes investigadores;

- o Ministro não reconhece que o actual estatuto de Bolseiro de Investigação permite a utilização de bolsas para assegurar necessidades permanentes das instituições, promovendo a precariedade laboral no meio científico, remetendo a correcção de eventuais casos de utilização abusiva para acções de fiscalização (sem no entanto definir uma entidade responsável por estas acções).

* Partes desta audição referentes aos bolseiros de investigação em:







Face a esta postura do Ministro Gago, não se prevêem quaisquer alterações à situação dos bolseiros de investigação. Atendendo às promessas feitas e não cumpridas durante a anterior e actual legislaturas, à necessidade de actualização das bolsas, à manutenção da situação de precariedade de milhares de bolseiros e à propaganda do Governo sobre o investimento em ciência em Portugal, há que manifestar a nossa opinião publicamente e alertar para a situação precária em que se encontram os trabalhadores científicos em Portugal.

LAW AND DRAMA IN ANCIENT GREECE

Informação recebido pelo De Rerum Natura.

Publica-se neste mês de Março o livro Law and Drama in Ancient Greece, pela Duckworth (Londres). Editado por Edward M. Harris, Delfim F. Leão e P.J. Rhodes, integra contribuições de classicistas de universidades europeias e americanas nas áreas da literatura clássica, da história antiga e da história do direito.

Autores: Roger Brock (Senior Lecturer in Classics, University of Leeds); Chris Carey (Professor of Greek, University College, London); Maria de Fátima Silva (Professor of Classics, University of Coimbra); Maria do Céu Fialho (Professor of Classics, University of Coimbra); Edward M. Harris (Research Professor of Greek History, Durham University); Delfim F. Leão (Professor of Classics, University of Coimbra); Douglas M. MacDowell (Professor Emeritus of Greek, University of Glasgow); F.S. Naiden (Associate Professor of History, University of North Carolina, Chapel Hill); P.J. Rhodes (formerly Professor of Ancient History, now Honorary Professor, University of Durham); Alan H. Sommerstein (Professor of Greek, University of Nottingham).

Sobre o livro: The relationship between law and literature is rich and complex. In the past three and half decades the topic has received much attention from literary critics and legal scholars studying modern literature. Despite the prominence of law and justice in Ancient Greek literature, there has been little interest among Classical scholars in the connections between law and drama. This is the first collection of essays to approach Greek tragedy and comedy from a legal perspective, providing a sample of different approaches to the topic. Some essays show how knowledge of Athenian law enhances our understanding of individual passages in Attic drama and the mimes of Herodas and enriches our appreciation of dramatic techniques. Other essays examine the information provided about legal procedure found in Aristophanes’ comedies or the views about the role of law in society expressed in Attic drama. The volume reveals how the study of law and legal procedure can enhance our understanding of ancient drama and bring new insights to the interpretation of individual plays.

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...