segunda-feira, 7 de setembro de 2009

VALE A PENA LER - O VOO DA PASSAROLA

No ano dos 300 anos das experiências de Bartolomeu de Gusmão, vale a pena ler "O Voo da Passarola", um relato fantasioso da autoria de Azhar Abidi, autor paquistanês que fez Engenharia em Londres e que vive na Austrália, e cuja tradução em português saiu em 2006 na Âmbar. Um blogue sobre o livro está aqui.

Excerto com um diálogo entre Luís XV de França e o Padre Bartolomeu de Gusmão:


" - Conhece este mapa, padre? - perguntou ele a Bartolomeu, apontando para uma carta na parede.
- É o Cosmographie Universelle, de Guillaume le Testu.
- Exactamente. Agore olhe para ele mais de perto, padre - pediu o rei.-O que é que vê?
- A Terra Australis, Majestade - respondeu Bartolomeu.
- E que significado tem para si?
- É o mítico continente do sul, claro, de que falou Ptolomeu e que Colombo acreditava ser uma terra de um verde luxurioso, com rios em abundância e habitado por povos que vestiam roupas de folhas de ouro.
A pergunta tinha sido um teste, e eu podia ver que Bartolomeu não respondera correctamente. O rei parecia desapontado.
- O que ele mostra é o paraíso, uma terra de felicidade. Mostra esperança, padre, aquele mapa. É por isso que eu gosto de mapas. Gosto deles com monstros marinhos e sereias. Gosto deles com dragões e centauros. Gosto ainda mais se eles estiverem incompletos e incorrectos porque assim a probabilidade de descoberta é ainda maior. O nevoeiro levanta e um novo cabo começa a aparecer... ah, que marinheiro não arriscaria a vida por tal visão?"

Louvores do original em inglês, premiado na Austrália:

"This enchanting fable seems in its compass to consider everything worth considering: enlightenment and religious authority, research and totalitarianism, gravity and ideas, adventure, love and fun, and all with a zest and pace missing from so much other fiction writing."
Thomas Keneally, author of Schindler's List

"Azhar Abidi is not an author who has his feet on the ground. And that's a compliment."
Alexander McCall Smith, The New York Times Book Review

Setembro no Museu da Ciência

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

PRÉMIO:


O Prémio Ackermann é atribuído anualmente pela EACSL (European Association for Computer Science Logic) ao melhor trabalho científico na área da Lógica em Ciências da Computação. Na sua edição de 2009, o prémio foi atribuído a Jakob Nordström pela sua tese de doutoramento intitulada Short Proofs May Be Spacious: Understanding Space in Resolution, trabalho desenvolvido no Royal Institute of Technology, em Estocolmo (Suécia).

SUGESTÕES:

- COMO OS ROMANOS VIAM O CÉU (10 de Setembro)
Se tem curiosidade em saber como os romanos viam o céu, passe pelo Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, a partir das 23h00.

- OS VALORES DA CIÊNCIA NA TEORIA DA EVOLUÇÃO (24 de Setembro)
Alexandre Quintanilha (Biólogo, Instituto de Biologia Molecular e Celular e Instituto Ciências Biomédicas Abel Salazar)

A experimentação, a recolha detalhada e pormenorizada dos dados, a formulação de hipóteses e mais importante a capacidade para rejeitar as nossas hipóteses preferidas quando os resultados não as confirmam são valores fundamentais da actividade científica. E vamos encontrá-los em Darwin e no seu trabalho.

- NOITE EUROPEIA DOS INVESTIGADORES 2009 (25 de Setembro)
A Researchers' Night é uma iniciativa desenvolvida pela Comissão Europeia que tem por finalidade promover actividades que aproximem os cientistas do público geral. Cientistas, laboratórios, empresas e universidades de toda a Europa abrem as suas portas, tiram as batas e contactam com o público num ambiente informal, na noite de 25 de Setembro.

- MAIL-ART : A (R)EVOLUÇÃO DE DARWIN (até Dezembro 2009)
No âmbito das comemorações do bicentenário do aniversário do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos do aniversário da publicação da sua obra mais importante A origem das espécies, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra lança o desafio aos artistas de Mail-Art de todo o mundo, no sentido de nos enviarem trabalhos inspirados na figura de Darwin ou na teoria da origem e evolução das espécies.

Mais informações aqui.

Museu da Ciência - Laboratorio Chimico, Largo Marquês de Pombal, 3000-272 Coimbra
E. geral@museudaciencia.org , T. 239 85 43 50, F. 239 85 43 59

O DEBATE HUXLEY - WILBERFORCE SOBRE A ORIGEM DAS ESPÉCIES


Na peça de teatro em cena pela Barraca no Teatro Cinearte, em Lisboa, "O Professor de Darwin", o autor, Helder Costa, recria a famosa cena, em 30 de Junho de 1860, na Universidade de Oxford, entre o bispo anglicano Samuel Wilberforce e o cientista Thomas Huxley sobre a evolução das espécies proposta por Charles Darwin.

Eis o diálogo, retirado do livro com o texto da peça, que acaba de ser publicado na Gradiva:

"Huxley: Meu caro bispo Wilberforce, será difícil verificar que o homem, os mamíferos, as aves e até os répteis têm muita coisa em comum? Dois olhos, duas orelhas, nariz, dois braços, pernas, um coração, sangue... Não acha que é vidente que viemos todos de uma mesma raiz, de uma mesma origem?

Wilberforce: Meu caro Thomas Huxley, como insiste que descende de um macaco, posso perguntar-lhe de onde vem esse seu antepassado: é da parte da sua avó ou do seu avô?

Huxley: Se a questão é se eu preferiria ter um pobre macaco como avô, ou um homem que utiliza a sua capacidade e influência para ridicularizar uma discussão científica séria, eu não hesitaria em afirmar a preferência pelo macaco.

(gargalhadas)

Wilberforce: Nada do que você afirma é, impossível. Está fora do senso normal de qualquer pessoa.

Huxley: Lamento a sua total ignorância científica e os seus preconceitos contra os avanços da Ciência. Já Galileu e muitos outros foram perseguidos pela ignorância e pela mentira, mas o mundo continuou a fazer o seu caminho e deixar para trás os que pensam e actuam como você. O castigo do mentiroso, além de ninguém acreditar nele, é ele nunca mais poder acreditar nos outros."

De volta à Ordem dos Professores


Novo post de Rui Baptista (na foto, recente manifestação de professores em Portugal):

É necessário elaborar uma ideia antes de se intentar uma definição” (James Baldwin, 1887-1924).

Os comentários de Helena Ribeiro e João Boaventura ao meu post anterior,“O Estatuto da Carreira Docente e a Fenprof, pelas questões pertinentes levantadas pela primeira e pelas perspectivas interessantes apresentadas pelo segundo, sugerem-me uma resposta que não deslustre, uma vez que abordam um problema que está longe de esgotado. Ou seja, a questão da Ordem dos Professores continua na ordem do dia, tendo passado de um silêncio quase envergonhado a uma viva discussão pública.

Começo pela questão da profissão liberal que continua a ser o último reduto argumentativo dos contraditores à criação dessa Ordem (como refere Helena Ribeiro). De início, eu próprio me debati com o problema do significado de profissão liberal stricto sensu (ou seja, aquela exercida por conta própria), embora mesmo nessa perspectiva não batesse a bota com a perdigota. Isto é, a fazer nela finca-pé só seria obrigatório aos médicos que trabalhassem nos seus consultórios a inscrição na sua ordem profissional. Mas a realidade é outra: ao médico, ainda que em exclusividade no serviço hospitalar (tendo como patrão o Estado), só é permitido o exercício da medicina sob essa condição.

Assim, não me contentando com esta espécie de raciocínio, embrenhei-me no estudo de fontes dignas de crédito que transcrevi no meu livro de 2004 Do Caos à Ordem dos Professores (pp. 108-1099):

“No desejo de encontrar o fio de Ariadne de uma controversa questão, afadiguei-me como postulante em buscas aturadas em fontes merecedoras de confiança. Deparei-me então com um parecer do Dr. Lopes Cardoso, à época bastonário da Ordem dos Advogados: É necessário que, mesmo quando exercida em regime de contrato de trabalho, essa profissão seja reconhecida socialmente como relevando de grande valor precisamente porque exigindo, pelo menos, uma independência técnica e deontológica incompatível com uma relação laboral de pleno sentido. Com efeito, como tem sido definido doutrinalmente, a noção jurídica de subordinação aparece no direito moderno como perfeitamente compatível com a independência técnica do assalariado" (Cadernos de Economia, Publicações Técnico-Económicas, ano II, Abril/Junho de 1994)”.

Por seu turno, João Boaventura problematiza (e fundamenta com argúcia) uma outra forte objecção à criação da Ordem dos Professores de natureza institucional, quando escreve: “O Governo, por constituir-se como uma instituição a-científica, preocupada com a centralização da educação, perderia no confronto com a Ordem dos Professores por, contrariamente àquele, se constituir como uma instituição científica na medida em que a sua preocupação central seria a de libertar-se do jugo que tudo subverte”.

Mutatis mutandi, o sindicalismo perderá terreno (igualmente, e segundo penso) com a criação da Ordem dos Professores, dando a própria Fenprof conhecimento público desse receio no seu sítio em 20/06/2008:

“Em momentos particularmente agudos de ataque à classe e à profissão, tem caminho fácil a ilusão de que uma "ordem" contribuiria para unir a classe eventualmente dividida e, por essa via, aumentar a capacidade reivindicativa. É uma óbvia ilusão: a criação de uma ordem, no actual contexto, seria mais um factor de divisão. E é uma ilusão enganadora: o campo de intervenção de uma ordem restringe-se ao plano das questões éticas e deontológicas que não são, para já, as questões centrais das preocupações dos professores e das escolas - até porque há uma ética e uma deontologia historicamente construídas assumidas e respeitadas pela classe docente. Os Sindicatos de Professores têm sido e continuarão a ser espaços de análise e discussão das questões da Ética e Deontologia da profissão, conscientes que da sua clara assunção também beneficia a imagem social dos professores que só ilusoriamente seria melhorada pela criação de uma eventual ordem“.

Ou seja, propõe-se a Fenprof abusivamente meter foice em seara alheia em questões de natureza ética e deontológica da pertença de ordens profissionais. Aliás, dessa sua tendência nos dá conta Eugénio Lisboa: “Para tudo isto os sindicatos têm dado uma eficaz mãozinha, não raro intervindo, com desenvoltura, em áreas que não são, nem da sua vocação nem da sua competência” (“Jornal de Letras”, n.º 964, de 12 a 25/09/2007).

O Prof. António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, numa conferência realizada no Brasil, em Outubro de 2006, a convite do Sindicato dos Professores de São Paulo, intitulada “Desafios do trabalho do professor no mundo contemporâneo”, teceu valiosas considerações sobre uma melhor organização das profissões, de que faço o seguinte extracto:

“O primeiro desafio é a ideia de uma melhor organização da profissão. Os modelos de organização dos professores, e em particular dos modelos sindicais – falo da Europa que conheço melhor -, não têm sido capazes de atender aos grandes debates da profissão e aos grandes debates da escola. Isto é, eles não se renovaram suficientemente ao logo dos últimos 30 ou 40 anos. Ficaram um pouco prisioneiros de um combate num plano mais macro, que é um plano importante, sobre questões salariais, sobre determinadas conquistas dos professores, um plano absolutamente essencial. Mas eles não conseguiram criar um modelo de organização mais centrado nas escolas.

A profissão tem um deficit grande de organização no interior das escolas. Enquanto outras profissões conseguiram manter as duas camadas, uma mais macro, a exemplo das grandes ordens dos médicos, dos farmacêuticos ou engenheiros, que conseguiram manter um nível de debate político macro muito forte, mas isso não os impediu de terem modelos de organização nas instituições muito mais fortes do que os nossos. Os modelos de organização dentro das escolas são muito débeis, muito burocráticos. E isso tem-nos prejudicado muito”.


Confrontei algumas opiniões contra a criação da Ordem dos Professores de que não comungo por ser minha forte convicção que, nos contornos contemporâneos, a profissão de professor nada tem a ver com a distinção que na Roma Antiga se estabelecia entre profissões livres e profissões servis estando destinado aos escravos gregos o papel de pedagogos dos filhos dos senhores do Império Romano ou mesmo de meros acompanhantes a caminho da escola.

Rui Baptista

domingo, 6 de setembro de 2009

Ideias e tribalismos

Do texto de Fernando Savater de que aqui transcrevi uma parte deixo outra que a complementa, e na qual o filósofo distingue ideias de tribalismos.


"Ter algo assim assemelhado a um orgulho comum de partilhar uma imagem de civilização política baseada na lei, baseada nos direitos, baseada na protecção das minorias, no pluralismo, na institucionalização da tolerância, etc. Quer dizer, criar essa imagem de cidadão, de um cidadão que não prolongue meramente a tribo na cidadania, mas que acredita que a cidadania é a sua verdadeira identidade, que se identifique com a cidadania e não com as suas características tribais. Essa parece-me que seria a grande contribuição europeia.
(…)
Que futuro terá um país que se organize de acordo com critérios que não sejam critérios políticos? (…) Que não tenha a ver com ideias, que só tenha a ver com rótulo étnicos. O século XX esteve dominado pelo peso, por vezes sufocante, das ideias políticas. A história da Europa, a trágica história da Europa do século XX, é a tragédia do enfrentamento das ideias políticas destrutivas, devoradoras, totalitárias, que se confrontaram entre si, criando desastres sociais, campos de concentração, matanças massivas, e tudo o que vocês sabem. Mas, de alguma forma, lançaram-se no debate ideias sobre a forma de conviver no futuro. As ideias políticas, por muito atrozes que tivessem sido, são ideias que (…) têm argumentos a seu favor, ainda que nos possam parecer pouco convincente ou, mesmo, negativos. Mas, em contrapartida, face aos rótulos e às etnias não há argumentação possível. Ou se pertence ao grupo ou se está definitivamente excluído.

As ideias podem ser efectivamente destrutivas, podem ser terríveis, podem levar ao fanatismo, mas, em contrapartida, as etnias são forçosamente fanáticas porque não permitem a adesão de outras pessoas ao grupo (…) As ideias, más ou boas,não têm estrangeiros, têm partidários ou adversários. Mas, em princípio, ninguém é estrangeiro de uma ideia.
(…)
Aqui é bom que falemos de Voltaire. Voltaire quando defendeu a tolerância, criticou essa posição do fanático que diz: «pensa como eu, ou morres». Claro que isso é um fanatismo intolerável e que obriga uma pessoa a decidir entre dizer o que pensa, ou fingir que pensa, ou ser perseguido e morrer. Isso é terrível, mas mais terrível é quando alguém diz «se não fores como eu, morres» ou «se não fores como eu, deves ir-te embora, deves sair daqui», porque isso não deixa possibilidade de conversação, nem de pacto, nem de partilha de nenhum tipo. Essa invenção do estrangeiro converteu a Europa num dos… para mim, é um dos grandes problemas da convivência.

Impressionou-me, particularmente, a visita de dois jornalistas, um homem e uma mulher de Sarajevo. Quando começou o conflito em Sarajevo, visitaram o jornal El País, onde eu habitualmente colaboro, e falaram comigo. Então, um deles disse: «juro-te que até há seis meses na sabia se o meu vizinho que vivia na casa acima era croata, sérvio, muçulmano, eu não o conhecia». O mesmo acontece na minha casa de Madrid! Eu não sei se o vizinho que vive abaixo nasceu em Valência ou veio do Perú (…). Não o conheço e nem, sequer, me interessa, salvo se estabelecer algum tipo de amizade ou de relação pessoal com ele.

Então, dizia-me esse jornalista: «(...) Mas, de repente, tive de tomar consciência do seu lugar de pertença porque a minha vida dependia disso. Havia-se criado uma situação em que a minha segurança dependia de não me enganar a respeito de quem se cruzava comigo na escada, se era amigo ou inimigo, não por qualquer razão especial mas pelo rótulo étnico» (…)

Pessoas que nasceram no mesmo lugar, que conviveram e que, de alguma forma, partilharam os mesmos odores, os mesmos sabores, a mesma paisagem na infância, que nasceram e cresceram juntos e, de repente, cria-se a obrigação duma separação entre eles (…)

Durante muitos anos, nós, em Espanha, tivemos de suportar a descrição do que era um verdadeiro espanhol. O verdadeiro espanhol não era qualquer pessoa que fosse espanhola, teria de reunir umas quantas condições estabelecidas por quem podia emitir certificados de «espanholidade» correcta. Então, o verdadeiro espanhol era católico, o verdadeiro espanhol era anticomunista, o verdadeiro espanhol falava castelhano e nenhuma outra língua inferior, o verdadeiro espanhol, pois, era do Real Madrid, enfim… Teria uma série de condições que não posso pormenorizar, mas todos sabíamos que havia uma descrição do que era o verdadeiro espanhol, e isso não era qualquer um.

E, quando nos libertámos disso, quando vimos que se podia ser espanhol de formas muitas diferentes, que se podia ser espanhol falando outra língua que não apenas o castelhano, que se podia ter uma ideologia que não apenas a do governo, que não era obrigatório ser crente do catolicismo para se ser considerado espanhol, e tudo isso, quando parecia que já tínhamos sacudido essa obrigação de um espanhol étnico e o havíamos substituído por um espanhol cidadão, quer dizer, um espanhol sobretudo virado para o futuro (…), de repente, numa parte de Espanha, no caso o País Basco, ressurgiu o «verdadeiro Basco e o falso Basco». De tal modo que Júlio Caro Baroja, o antropólogo sobrinho-neto de Don Pio Baralo, o romancista que foi meu colega durante um tempo na universidade no País Basco, dizia-me: «Veja lá Savater, que desgraça a minha… passei quarenta anos sendo um mau espanhol e agora converti-me num mau basco».

Bom, essa é uma das maldições que nos pode atingir. É uma maldição trágica. Não é somente algo retórico, mas algo que pode ter e está, efectivamente, tendo (…) um peso de morte. Há um livro muito interessante, bem, um ensaio do sociólogo alemão (…) Ulrich Beck (…), que se chama De vizinhos a judeus, que narra como um vizinho, quer dizer, a pessoa com a qual convivemos (…) de um momento para o outro, por uma questão ideológica, de etnia, de categorização étnica, se converte num judeu. Melhor, converte-se no inimigo, na pessoa a excluir (…). E isto é tanto mais terrível, se pensarmos que não se trata de um estrangeiro o qual se quer afastado, manter fora. Trata-se de uma pessoa que estava junto de nós e que transformamos num estrangeiro.

Assim, o terrível da guerra étnica não é simplesmente que se apliquem critérios de exclusão face ao estrangeiro que está fora, o que já é suficiente mau numa Europa que quer unir-se, o terrível é criarem-se novos mecanismos de exclusão e de estrangeiramento no seio da própria convivência."

Referência bibliográfica:
- Savater,
F. (2005). Identidade e Cidadania. Iberografias. Ano 1, n.º 1, páginas 27-31.

Imagem:
- Fotografia de V. Fraga (1912-2006).

ENTREVISTA SOBRE REGRESSO ÀS AULAS

Mini-entrevista sobre memórias escolares que dei ao "Correio da Manhã", publicada ontem:

P - Como recorda o seu primeiro dia de aulas?

R- O meu primeiro dia de aulas foi no início de Outubro de 1962 (mês em que se deu a crise dos mísseis de Cuba, que quase dava uma guerra mundial), na Escola Primária da Voz do Operário, na Ajuda, em Lisboa. Já não me lembro bem. Mas, pegando na expressão de Fernando Pessoa, de início estranhei, mas depois entranhei. Regressei sempre às aulas em todos os Outubros seguintes!

P- O momento mais marcante que teve na escola?

R- Quando entrei no doutoramento em Frankfurt, na Alemanha, em Outubro de 1979. Longe de casa, era um mundo novo que se abria para mim... Mal comparado, era como se tivesse estado na Terra e nessa altura descobrisse a Lua.

P- Aquele que considera ser o professor que o mais marcou e porquê?

P-Tive muitos e bons professores que me marcaram. Mas um dos que achei mais extraordinários foi um velho professor, ou melhor investigador, da Universidade de Coimbra, o Dr. Pedro Martins, infelizmente já falecido. Apesar de ser cego, ensinava, no último ano, recorrendo apenas à memória, a física teórica que ele tinha aprendido há muitos anos. Fixei aquilo tudo e ele deu-me a nota máxima no exame. Como é que não hei-de ter boa memória dele?

sábado, 5 de setembro de 2009

Lenda do Abade

Informação recebida da Editora MinervaCoimbra.

A Editora MinervaCoimbra e os Autores convidam para o lançamento do áudio-livro O Abade João, de Lurdes Breda, André Caetano e Jorge Brito, que se realizará no dia 8 de Setembro, pelas 16h00, na Sessão Solene comemorativa do Feriado Municipal, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho. A apresentação da obra será efectuada pela Professora Doutora Maria José Azevedo Santos.

Esta obra infanto-juvenil divulga uma das mais importantes lendas do concelho de Montemor-o-Velho do século IX, mas que ainda hoje povoa o imaginário de crianças e adultos desta região, conhecida pela Lenda do Abade (Beneditino do Mosteiro de Lorvão).

Introduz, ainda, as vertentes lúdica (com ilustrações inerentes ao conteúdo da história e a composição de temas musicais originais) e pedagógica (com pormenores históricos relativos à época da reconquista cristã, alusão a alguns dos povos que habitaram a Península Ibérica e informação acerca da Capela de Nossa Senhora de Seiça e do Castelo de Montemor-o-Velho, para além de um pequeno glossário).

O CD-Áudio conta com a participação especial de Sansão Coelho (jornalista e professor) na narração da epopeia d’ O Abade João. Os textos pedagógicos têm a voz de Álvaro Caetano (professor do Ensino Secundário).

AINDA CAGLIOSTRO EM LISBOA

Tendo achado estranho que a senhora de Cagliostro tenha sido paga em pistolas pelo seu amante português, fui consultar o relato que nos dá Camilo Castelo Branco, a partir do processo da Inquisição romana: "Compêndio da vida e feitos de José Bálsamo chamado o conde de Cagliostro ou o judeu errante tirado do processo formado contra ele em Roma no ano de 1790" e que pode servir de regra para se conhecer a índole dos franco-maçons" (tradução do italiano e prefácio do escritor português, Hugin, 2001; o título da capa é só "José Bálsamo, o Conde de Cagliostro", nº 8 da Biblioteca Maçónica). A versão deste livro difere ligeiramente pois já não fala de pistolas. Mas concorda no essencial:
"Vendo-se sem nenhum protector, [o conde Cagliostro e a mulher] passaram a Lisboa. Apenas chegaram ali, o primeiro pensamento de Bálsamo foi informar-se, como soía dizer-se das pessoas ricas e desenfreadas, e soube que havia um mercador, homem de carácter, como lhe convinha. Enviou-lhe logo a mulher a pedir-lhe uma esmola e o socorro que obteve foi uma moeda acompanhada de uma torpe pergunta, convidando-a a ir a uma sua quinta. Por espaço de três meses. foram frequentes as idas ao sítio indicado, recebendo ela como prémio, de cada vez, vinte moedas, O temor, porém, de algum desaguisado com a família do mercador, que bramava com tais amorios, fez com que Bálsamo deixasse Lisboa e passasse a Londres, não sem que primeiro mandasse sua mulher aprender a língua inglesa, que lhe ensinou uma rapariga da mesma nação, à qual, ele, entretanto, ensinava maus costumes."

HUMOR - CÉLULAS ESTAMINAIS 3

HUMOR - CÉLULAS ESTAMINAIS 2

HUMOR- CÉLULAS ESTAMINAIS 1

Células Estaminais – Elixir da Eterna Juventude?


Informação recebida do Centro de Informação de Biotecnologia (na imagem célula estaminal humana):

Concurso CÉLULAS ESTAMINAIS - Elixir da Eterna Juventude?

10º ao 12º Ano - Envio até 30 de Abril de 2010

O CiB – Centro de Informação de Biotecnologia está a organizar o concurso «Células Estaminais – Elixir da Eterna Juventude?» destinado aos alunos do Ensino Secundário ou equivalente, durante o ano lectivo 2009/2010.

Com este concurso o CiB pretende contribuir para a promoção do conhecimento científico sobre os usos potenciais das células estaminais e para estimular a cultura científica e tecnológica, nomeadamente na área da biotecnologia aplicada à saúde.

A Biotecnologia é fonte para excelentes histórias. Para as contar é necessário partir em busca de respostas com a curiosidade aguçada. Para abordarem e discutirem o tema proposto - Células Estaminais – Elixir da Eterna Juventude? - os alunos podem utilizar a sua criatividade utilizando três tipos de formato: texto e imagens, áudio ou vídeo.

Serão seleccionados os três melhores trabalhos enviados até 30 de Abril de 2010. Os premiados terão os seus trabalhos publicados e divulgados pelo CiB. Os prémios incluem leitores MP4 e vales-cheque destinados à aquisição de livros e material informático. Todos os alunos e professores premiados receberão um diploma.

Mais informações aqui.

Cosmogonias: Mito, Filosofia, Ciência


Informação recebida da Associação de Professores de Filosofia (clicar para ver melhor cartaz e programa):

A Associação de Professores de Filosofia vai promover no próximo dia 3 Outubro os Segundos Encontros de Filosofia Antiga, que serão, de novo, amistosamente acolhidos pela Liga dos amigos de Conimbriga e decorrerão no Auditório do Museu Monográfico. Estes encontros estão inseridos no âmbito da celebração de 2009 como Ano Internacional da Astronomia, à qual a Associação de Professores de Filosofia aceitou associar-se. Neste sentido, propusemos à reflexão dos nossos convidados o tema “Cosmogonias: Mito, Filosofia, Ciência”, que pretende fazer uma abordagem diacrónica e crítica das primeiras cosmologias e reflectir sobre a persistência/ausência das suas representações na cosmologia contemporânea.

AS UNIVERSIDADES E A CRISE ECONÓMICA


Do artigo de Drew Gilpin Faust (na imagem), Reitora da Universidade de Harvard, sobre o papel das universidades no mundo de hoje, com o título "The University’s Crisis of Purpose", publicado no "New York Times" de 1 de Setembro (ver aqui), respigamos o final:

"Universities are meant to be producers not just of knowledge but also of (often inconvenient) doubt. They are creative and unruly places, homes to a polyphony of voices. But at this moment in our history, universities might well ask if they have in fact done enough to raise the deep and unsettling questions necessary to any society.

As the world indulged in a bubble of false prosperity and excessive materialism, should universities — in their research, teaching and writing — have made greater efforts to expose the patterns of risk and denial? Should universities have presented a firmer counterweight to economic irresponsibility? Have universities become too captive to the immediate and worldly purposes they serve? Has the market model become the fundamental and defining identity of higher education?

(...) As a nation, we need to ask more than this from our universities. Higher learning can offer individuals and societies a depth and breadth of vision absent from the inevitably myopic present. Human beings need meaning, understanding and perspective as well as jobs. The question should not be whether we can afford to believe in such purposes in these times, but whether we can afford not to."

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

AS PEDRAS PRECIOSAS NO MUSEU EPISCOPAL DE BEJA


Recebemos o seguinte convite da diocese de Beja:

O Bispo de Beja, o Director do Departamento de Mineralogia e Geologia do Museu Nacional de História Natural, o Presidente da Câmara Municipal de Beja e o Director do Departamento de Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja têm a honra de convidar V. Ex.a para a sessão AS PEDRAS PRECIOSAS NO MUSEU EPISCOPAL DE BEJA - Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres pelo Dr. Rui Galopim de Carvalho, gemólogo e Executive Liaison Embassador, ICA - International Colored Gemstone Association, que terá lugar a 5 de Setembro de 2009, pelas 16.30 horas, na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, em Beja.

Actividade integrada no âmbito do Programa Geologia no verão da Agência Ciência Viva do Ministério da Ciência, da Tecnologia e Ensino Superior.

Entrada Livre

PORTUGAL, BENFICA E THOMAS KUHN


Informação recebida da editora Guerra e Paz:

O amor e o ódio a Portugal e os erros que poderiam ter tramado o “nosso Benfica” são duas das maiores apostas da Guerra e Paz Editores para a rentrée deste ano.

Uma aposta da editora é um novo livro de António Costa Santos, autor de “Proibido”, um bestseller que vai já na 6ª edição. A nova obra, “10 Razões para Amar e Odiar Portugal” é um relato vivo dos motivos que umas vezes nos fazem desesperar amargamente da nossa condição nacional, mas que outras vezes nos enchem de orgulho, brio e, até, arrebatamento patriótico.

Em “12 Erros Que Tramaram o Nosso Benfica”, João Vasco Almeida e Frederico Valarinho fazem uma visita bem-humorada aos 105 anos da gloriosa história do clube de seis milhões de portugueses, provando, cientificamente, que o Benfica é indestrutível. O livro, indispensável em qualquer casa portuguesa, é ilustrado por Ricardo Cabral.

A editora anuncia ainda a publicação de “A Estrutura das Revoluções Científicas”, de Thomas S. Kuhn, considerado pelo New York Times um dos 100 livros mais influentes do século. É um clássico da história e filosofia das ciências e nunca tinha sido traduzido em Portugal.

O Estatuto da Carreira Docente e a Fenprof


Depois de merecidas férias, voltam os posts sobre educação de Rui Baptista:

“(…) num povo, onde essa minoria intelectual, que constitui o capital de orgulho de cada nação, se vê condenado a cruzar os braços com inércia desdenhosa ou a deixá-los cair desoladamente sob pena de ser esterilmente derrotado...” (Manuel Laranjeira, O Norte, 1908).

Sem sequer recuar aos primórdios do século XX, julgo que um dos males de que enferma o nosso ensino superior reside na confusão que se tem estabelecido entre os seus dois subsistemas, o universitário e o politécnico, uma confusão que remonta a décadas.

Ainda agora no Público, em notícia bem destacada, deparei com o seguinte título: “Transportes públicos já estão a metade do preço para universitários até aos 23 anos”. A ser correcta a notícia, estaríamos na presença de uma medida discriminatória porque abrangeria unicamente uma parcela dos estudantes do ensino superior. Mas não. Logo no seu parágrafo inicial são desfeitas as dúvidas: “Secretária de Estado diz que a medida visa tornar os transportes públicos ‘mais apelativos para os jovens’ [do ensino superior público ou privado], em detrimento do uso do transporte individual”. Mas, lamentavelmente, como se tratasse de filhos de um deus menor, surgem excluídos desta medida os alunos do básico e secundário.

Aliás, esta confusão, que quase apelidaria de institucional, tem dado azo a que o ensino politécnico se desvalorize a si próprio na indefinição de um estatuto que o dignifique sem ser através da tentativa de uma espécie de clonagem com o ensino universitário, a ponto de, anos atrás, a Federação das Associações do Ensino Superior Politécnico ter defendido, à outrance, que o ensino politécnico passasse “a formar mestres e doutores tal como as universidades” (Diário de Notícias, 26/10/96).

Era o assalto que se desenhava no horizonte a todos os outros graus académicos do ensino universitário, secundado pelo então presidente do Instituto Politécnico de Viseu, João Pedro de Barros, ao chamar a atenção para a injustiça de “os alunos do ensino universitário privado conseguirem notas mais altas que os alunos das Escolas Superiores de Educação (ESE) e passarem à frente destes, mesmo com uma preparação inferior”(Jornal de Notícias, 26/10/1996). Transferindo esta argumentação, sai ela bastante reforçada quando se aplica ao ensino universitário oficial, de maior exigência curricular, de mais longa duração e com classificações de diploma inferiores às do ensino politécnico público.

De lá para cá, “tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Continua a insistir-se numa situação no que tange à docência do 2.º ciclo do ensino básico em que se sujeitam os licenciados por universidades a uma competição desleal com os licenciados pelas ESE, com os direitos a sobejarem para estes e a escassearem para aqueles, em desrespeito pelo princípio sagrado de iguais deveres para direitos iguais, defendido em sociedades democráticas e respeitado em Estados de direito. Recue o leitor comigo no tempo. Um dos objectivos que levou à criação das ESE foi a elevação formativa dos professores do antigo ensino primário que era levada a cabo, com muita seriedade e dignidade, no então chamado ensino médio (Escolas do Magistério Primário). Essa formação passou a ser feita no ensino politécnico, mas a megalomania do corpo docente das ESE levou à generalizada abertura de cursos para a docência do 2.º ciclo do ensino básico com negligência do importante papel da formação de professores do 1º. ciclo, a base de uma bem alicerçada aprendizagem futura. Os responsáveis pela educação nacional deveriam ter o bom senso de reconhecer a actual injustiça. Não, não se trata de competição na conquista de mercados de trabalho. Trata-se, isso sim, de evitar os perigos advindos de uma deficiente alfabetização da juventude portuguesa que, neste momento, salta à vista de toda a gente.

E o que dizem os sindicatos? Em recente conferência de imprensa (Público, 2/9/2009) a Fenprof defendeu a revisão do Estatuto da Carreira Docente. Seria a altura soberana para, simultaneamente, se proceder à atribuição da exclusividade da docência do 2.º ciclo do ensino básico aos actuais mestrados universitários porque não se pode continuar a acreditar que, quanto menor for a preparação académica dos docentes, maior será a qualidade do ensino por eles ministrado. A competição desenfreada tem levado à diminuição da exigência dentro das próprias faculdades, que não querem que os seus formandos sejam prejudicados em concursos nos quais só conta a nota final do curso. Interesses particulares não podem justificar a má qualidade do ensino ministrado no 2.º ciclo do ensino básico. E não podem merecer o aval de certas cúpulas sindicais, que assim revelam estarem simplesmente ao serviço das suas clientelas.

Rui Baptista

Contra um código de conduta

Em Inglaterra existe um organismo denominado General Teaching Council for England que reúne diversos actores educativos e assume várias funções no campo da educação, desde a análise de manuais escolares, ao reconhecimento de diplomas para acesso à carreira docente, passando pelo incentivo às escolas para introduzir as Novas Tecnologias da Informação. Também realiza estudos vários e dá, naturalmente, pareceres.

Há uns tempos este organismo propôs um código de conduta para professores designado por Code of Conduct and Practice for Registered Teachers (que se encontra publicado no livro Deontologia das Profissões da Educação, de A. Reis Monteiro, Almedina, 2008), que entrará em vigor no próximo mês de Outubro.

Nesse código estão consagrados oito princípios:
1. Pôr o bem-estar, desenvolvimento e progresso das crianças e jovens em primeiro plano;
2. Assumir a responsabilidade de manter a qualidade das suas práticas de ensino;
3. Ajudar as crianças e jovens a tornarem-se alunos confiantes e bem sucedidos;
4. Demonstrar respeito pela diversidade e promover a igualdade;
5. Esforçar-se estabelecer parcerias produtivas com pais e outros parceiros educativos;
6. Trabalhar como parte integrante da escola e de equipas;
7. Cooperar com outros profissionais na organização do trabalho dos alunos;
8. Demonstrar honestidade e integridade e manter a confiança pública na profissão de ensino.

No último ponto deste oitavo princípio preceitua-se que o professor deve: “Demonstrar padrões adequados de comportamento que permitam manter um ambiente de aprendizagem eficaz, a confiança do público e a confiança na profissão”.

Ora, é sobretudo este aspecto que tem deixado os professores ingleses muito apreensivos.

Chris Keates, secretário geral do maior sindicato de professores, o National Association of Schoolmasters and Union of Women Teachers (NASUWT), afirmou que o código "deu a impressão que os professores não são de confiança” e que, com base nele, é possível haver intromissão na sua vida privada, constituindo uma afronta aos direitos humanos.

Concretizando, disse que, por princípio, o sindicato não está contra um código de conduta, mas que não pode estar a favor do código em causa, pois ele abre a porta a abusos. Por exemplo, se o professor falar de um modo apaixonado dos assuntos que lecciona, pode ir contra o que está preceituado no código por não estar a ser imparcial?

Efectivamente, ao prescrever comportamentos e atitudes aos professores, mesmo quando eles não estão na escola, em serviço, permite um controlo de todos os aspectos da sua vida e não apenas naqueles que tocam estritamente à docência. Nessa medida, qualquer desvio da norma, em qualquer circunstância pessoal ou profissional, poderá pôr em causa a carreira dos professores.

Tudo isto foi negado por Keith Bartley, que dirige o referido General Teaching Council for England, quando afirmou estar "absolutamente explícito" que o código não se intromete na vida privada dos professores.

O que é certo é que o NASUWT redigiu e está a fazer correr uma petição que apela à anulação do tal código e que já reuniu milhares de assinaturas de docentes, os quais, pelos vistos, não estão muito certos de que isso seja verdade...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Como pode ter a certeza disso? - 2

Uma questão que, desde há cerca de três quartos de século, tem preocupado os investigadores que se interessam pela formação pedagógica dos professores e pela eficácia docente é se aquela tem ou não impacto nesta e, a ter, que impacto é esse.

Perguntam, em concreto, se os professores transpõem as competências adquiridas durante a formação, inicial ou contínua, para o seu quotidiano de ensino de modo que isso se repercuta nas aprendizagens.

Shulman num artigo publicado em 1986, em que analisou o assunto, lembrou que os estudos realizados no quadro teórico designado por behaviorista – que teve grande impacto na pedagogia entre os anos de 1920/30 e os anos de 1960/70 – tendiam inicialmente a confirmar que:
- era possível identificar as competências mais adequadas para ensinar, bem como transpô-las para programas de formação;
- os professores, quando devidamente instruídos, eram capazes de as adquirir;
- os professores eram capazes de recorrer a elas quando passavam para o contexto de aula;
- se as condições anteriores se verificassem, ocorreriam as mudanças pretendidas nos resultados académicos dos alunos.

Tudo levava a crer que tais conclusões eram dignas de crédito, pois tinham sido apuradas com turmas concretas e aplicados testes de avaliação estandardizados. No entanto, a acumulação de dados empíricos levou a duvidar da linearidade acima apresentada.

Na verdade, quando se analisava, de modo isolado, cada estudo que procurava “descobrir” a eficácia docente, percebia-se a supremacia de certas competências docentes na implementação de certas aprendizagens, mas quando se analisavam, em conjunto, os inúmeros estudos disponíveis, percebia-se que nem todos apontavam para as mesmas competências, e que estas perfaziam um número incomportável para poderem ser objecto de formação.

Por outro lado, a análise da transposição das competências contempladas num determinado programa de formação para o quotidiano de ensino levava a concluir que os professores submetidos a treino, que muito provavelmente as tinham adquirido e consolidado, nem sempre as manifestavam com mais frequência do que os seus colegas dos grupos de controlo, que não tinham passado pelos programas de formação.

Também se verificou, através de estudos longitudinais que acompanharam os mesmos professores durante vários anos lectivos, que, se nalgumas circunstâncias, competências referenciadas como eficazes conduziam a aprendizagens desejáveis, noutras circunstâncias tal já não acontecia.

Estamos perante impasses que (ainda) não foram resolvidos e nos quais não se tem investido de modo particular, entre outras razões porque após os anos de 1970/80 as opções teóricas prevalecentes na pedagogia foram outras que não essa de tipo correlacional. Berliner, um autor de referência na área, reconhece que, apesar de o estudo da eficácia docente não se ter extinto, tem sido negligenciado, advertindo para a necessidade de se intensificar a procura daquilo que funciona, no desempenho do professor, para que os alunos aprendam e do modo como se devem formar os professores nesse sentido. Na sua expressão, é preciso investir no "whats works". Para tanto, propõe uma abordagem ecléctica, que, não excluindo a abordagem behaviorista, integre outras, como a cognitivista, de modo a perceber melhor o que é o trabalho do professor.

Este é, muito abrevidamente, o estado da investigação internacional sobre o assunto. Vamos ao caso do nosso país.

Neste particular, pode-se afirmar que existe um grande desconhecimento acerca das relações formação-ensino-aprendizagem. Baseio-me, sobretudo, num artigo ainda recente de revisão de estudos empíricos realizado por Estrela, Eliseu & Amaral (2007) onde se destaca que, quanto à formação, os estudos analisados se revelam “pouco elucidativos das repercussões nas práticas dos professores”, fazendo notar a necessidade de se criarem “dispositivos que acompanhem os professores nas suas práticas (durante e após a formação)”.

Teço todas estas considerações a propósito de uma comunicação da ministra da Educação que abriu um congresso sobre os Planos de Acção da Matemática (conjunto de medidas da actual legislatura para promover o sucesso nesta área disciplinar). Nele se destaca que mais de 17 mil professores tiveram acesso a um programa de formação contínua, dando a entender que essa formação foi, em grande medida, responsável pela “subida das notas positivas nos exames e provas de aferição”. Ver aqui e aqui.

Ora, como afirmei em texto anterior, estas são afirmações que, sob o ponto de vista científico, não se podem fazer. Poderão ser do domínio da política, mas não são do domínio da ciência.

Referências bibliográficas:
- Berliner (1990). The place of process-product research in developing the agenda for research on teacher thinking. Educational Psychologist, 24 (4), 325-344.
- Shulman, L. S. (1986). Paradigms and research in the study of teaching: a contemporary perspective. M. C. Wittrock (Ed.). Handbook of research on teaching. New York: Macmillan Publishing Company, 3-36.
- Estrela, A.; Eliseu, M. P. & Amaral, A. (2007). Formação contínua de professores em Portugal. O estado da investigação. In Albano Estrela (org.), Investigação em Educação. Teorias e práticas (1960-2005). Lisboa: Educa & Ui&dCE, 309-319
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CIENTISTAS AO PALCO, ON THE ROAD!


Os Cientistas ao Palco vão andar em digressão, com ante-estreias de espectáculos (com e sobre cientistas) a serem preparados para a Noite Europeia dos Investigadores de Lisboa - a 25 de Setembro, no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian.

Fica a informação sobre os próximas dois espectáculos, em Lisboa e em Bragança:

1. Cientistas de Pé na Ilga

Sete cientistas das mais diversas áreas (excepto das que têm empregabilidade) fazem o espectáculo Cientistas de Pé. São abordados temas como o futebol, sexo, religião, o maior problema ambiental do mundo, mensagens para os extraterrestres, ciências leves, ciências duras e o papel dos homens na ciência (não necessariamente por esta ordem). A comicidade é assegurada por uma série de rigorosos testes realizados em laboratório, pelo que o público nem precisa de se preocupar em rir. A duração do espectáculo é cerca de 50 minutos (mais encores).


Ficha técnica
Actores: Bruno Pinto, Cheila Almeida, Daniel Silva, João Damas, Sandra Mateus, Sofia Leite e Sofia Vaz
Direcção de Texto: David Marçal
Direcção de Actores: Romeu Costa
Duração: 1h

11 de Setembro
22h00
Rua de S. Lázaro, 88
Autocarro: 790
Metro: Martim Moniz

Mais sobre os Cientistas de Pé: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7

2. Cientistas ao Palco de Bragança

Ante-estreia de dois dos espectáculos: Cientistas de pé (ver acima) e Teatro Fórum.

TEATRO-FÓRUM

De que falamos quando falamos de cientistas? - Um espectáculo de teatro

A vida dos cientistas tal como ela é: como se começa a carreira de investigação, como é que se conjuga o trabalho com a família e amigos, ficar ou ir embora de Portugal, o que são os orientadores e o que fazer quando desorientam. O que são bolsas e empregos científicos? De que vivem, o que querem, de onde vêem e para onde vão?

Só vale a pena ser cientista se for para descobrir a cura definitiva do cancro, a vacina para o HIV ou ganhar o prémio Nobel?

Cientistas que se transformaram em actores para explicar tudo isto e mais, num espectáculo de teatro fórum que tenta responder à grande pergunta: Afinal, de que é que falamos quando falamos de cientistas?

O Teatro-Fórum contém dois momentos: primeiro há a apresentação do espectáculo, com vários momentos de conflito entre personagens, e depois é pedida a intervenção do público em palco para substituir actores e propor uma resolução do(s) problema(s) apresentado(s).

Ficha técnica

Actores: Américo Duarte, Ana Castro, Ana Osório Oliveira, Andrea Santos, Ângela Crespo, Catarina Francisco, Catarina Silva, Cláudia Andrade, Cláudia Gaspar, Leonor Alves, Mariline Justo e Sónia Negrão

Autoria: David Marçal, Joana Lobo Antunes e Romeu Costa

Direcção: Joana Lobo Antunes e Romeu Costa

Encenação: Romeu Costa

Duração: 1h15

Mais sobre os Cientistas ao Fórum: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10

12 de Setembro
21h30

Teatro Municipal de Bragança

Praça Professor Cavaleiro Ferreira

5300-252 Bragança

Entrada: 2€
Telefone bilheteira: 273 302 744
e-mail bilheteira: bilheteira-teatro@cm-braganca.pt

Video de uma reportagem da Sábado sobre actuação dos Cientistas de Pé no final de Junho no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa:


UMA EXCURSÃO A URBINO




Foi em Urbino, cidade histórica não muito longe da Riviera italiana, que Maquiavel, então modesto secretário da Senhoria de Florença, encontrou, em 1502, César Bórgia, o filho de um papa que ele tomaria como modelo para o seu "Príncipe". Ontem como hoje, Urbino é dominada pelo imponente Palazzo Ducale, que alberga um museu com um boa colecção da Renascença, a época de ouro da urbe.

Mas o turista faz bem em entrar na Duomo, de facies neo-clássico, mas muito mais antiga do que parece, mesmo ao lado do palácio. E em descer às catacumbas, um conjunto de capelas que serviram para guardar alguns dos muitos tesouros de Veneza durante a Segunda Guerra Mundial. O visitante português não pode deixar de lembrar que um dos clérigos de Urbino chegou a papa com o nome de Clemente XI: foi a esse pontífice amigo das artes e das ciências que D. João V enviou uma embaixada com coches que estão no Museu dos Coches de Lisboa.

Em Urbino há, porém, um terceiro lugar de peregrinação, além do palácio e da igreja. É a casa de Rafael, evidentemente situada na Via Raffaelo. O grande pintor renascentista (a Palmira já aqui falou dele) nasceu aí, filho de um pintor muito menos conhecido do que ele (na imagem, o busto rafaelita à entrada da casa da família de pintores). Apesar de ter morrido aos 37 anos, Rafael compete com Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci para o lugar de "príncipe" dos pintores renascentistas. Não se pode é dizer que, depois dele, a pintura não voltou a ser a mesmaque era antes porque, no século XIX, a Irmandade dos Pré-Rafaelitas, em Inglaterra, quis voltar à arte do tempo antes de Rafael... Uma das obras-primas de Rafael, "Scuola di Atenas" , começou a ser pintada em 1509, faz este ano 500 anos, aparecendo nela retratados Leonardo da Vinci no papel de Platão e Miguel Ângelo no papel de Heráclito. Não, não está em Urbino, o turista, para ver a obra ao vivo, tem de ir a Roma, ao Vaticano.

SEXO, PISTOLAS E TOPÁZIOS

Pode ser um facto conhecido nas lojas maçónicas, mas para mim foi novidade descobrir que o Conde Cagliostro, aliás Giuseppe Balsamo, viveu em Lisboa com a sua mulher Serafina, intitulada Condessa de Cagliostro (na imagem). O casal tinha fugido de Madrid, depois de ter fugido de Barcelona, onde tinham interrompido uma suposta peregrinação a Compostela, durante a qual encontraram Casanova (não, não foi Casanova que tentou seduzir Serafina, foi Serafina que, aparentemente sem êxito, tentou seduzir Casanova). Corria o ano de 1771, portanto, o tempo do Marquês de Pombal.

Ouçamos o que diz o historiador australiano Ian McCalman, no livro, que recomendo, "O Último Alquimista" (Pergaminho, 2007):

"[Em Barcelona] sucessivos fidalgos ricos contrataram Giuseppe para trabalhar como artista ou químico em troca do acesso aos favores da sua jovem companheira. Graças a essa troca, Giuseppe conseguiu um ano de trabalho regular em Madrid, que terminou quando se envolveu numa questão litigiosa com outro artista. Mudaram-se para Lisboa, onde Serafina foi bafejada pela sorte: com o encorajamento activo de Giuseppe, ela atraiu as atenções de um mercador português fabulosamente rico, Anselmo da Cruz, que dava a Giuseppe oito pistolas por cada visita matinal de Serafina e a cobria de ofertas. Giuseppe investiu os ganhos em topázios brasileiros, convencido que os venderia a bom preço na florescente metrópole comercial de Londres."

O casal de intrujões mudou-se a seguir para Londres. Parecia, então, um casal inseparável, mas foi Serafina que, bastante mais tarde, haveria de denunciar o marido à Inquisição romana...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

HUMOR CIENTÍFICO NO "INIMIGO PÚBLICO"


Inquérito conclui que Isaac Newton é o responsável pelo acidente na arriba

As conclusões do Ministério Público quanto às causas da queda da arriba na praia Maria Luísa apontam o dedo à gravidade. Os técnicos em férias do Instituto de Medicina Legal de Lisboa explicam: "o problema é a massa da Terra, que exerce uma força de atracção sobre todos os corpos". Mas o inquérito vai mais longe: "a força é igual à massa vezes a aceleração. Ora o bocado de rocha que caiu tem uma massa considerável, se multiplicarmos pela aceleração da gravidade, dá uma força que beu beu". Newton incorre numa pena de dois a quatro anos de prisão ou a uma multa de 180 dias. Foram-lhe aplicadas como medidas de coacção, termo de identidade e residência e apresentações periódicas no posto da GNR de Albufeira.

David Marçal

HÁ MARTE E MARTE: HÁ IR E NÃO VOLTAR


Como a NASA está sem dinheiro para ir à Lua e muito menos a Marte, o físico norte-americano Lawrence Krauss sugere aqui, num artigo de opinião no "New York Times", que se vá, mas não se volte. Sempre ficava mais barato.

UM PLANO ALGO TARDIO

O Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, o social-democrata Carlos Encarnação, vai apresentar, nesta altura eleitoral em que se candidata à autarquia, um "plano estratégico" para a cidade de Coimbra. Parece uma ideia excelente, essa de haver um plano. Só que há aqui um pequeno pormenor: ele é Presidente há dois mandatos sucessivos, perfazendo um total de oito anos. Não faria mais sentido dizer agora qual foi a parte realizada do seu plano inicial? Ou simplesmente não havia plano?

UM PASSEIO A BOLONHA




Bolonha não tem o número de turistas de Florença, mas os turistas têm na capital da Emília Romana muito que ver. A Basílica de São Petrónio, a quinta igreja do mundo em tamanho, mostra uma fachada do século XIV inacabada, mas o interior é do melhor gótico italiano. Uma curiosidade científica é um relógio de Sol na forma de uma linha meridiana no chão, cujo cálculo foi feito no século XVII por Giovanni Cassini, astrónomo na velha Universidade.

Da Catedral pode-se ir a qualquer lado pelas arcadas. Bolonha é a cidade das arcadas, com mais de 35 km de passeio coberto dessa forma. E é também a cidade das torres, como as duas torres inclinadas da figura, do século XII, a Asinelli e a Garisenda, que pedem meças a Pisa, mais pequena, e que só não são gémeas porque uma mede o dobro da outra. De qualquer modo, Bolonha, graças ao número de torres e não só, já foi chamada a Nova Iorque medieval.

A Universidade, a alma mater studiorum, que remontará a pelo menos 1088, ufana-se de ser a mais antiga do mundo ocidental (há universidades árabes mais antigas). Não admira por isso que a declaração de Bolonha das universidades europeias tenha o nome que tem. Impressiona, tanto ou mais que a antiguidade, a lista dos nomes das pessoas que passaram como alunos ou professores pela Universidade bolonhense: Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Nicolò Copernico (estudou lá Teologia), Paracelso, Marcello Malpighi, Giovanni Pico della Mirandola, Albrecht Dürer, Torquato Tasso, Carlo Goldoni, Luigi Galvani, e, já nos nossos dias, Pier Paolo Pasolini e Umberto Eco. Porém, um dos filhos mais famosos de Bolonha, Guglielmo Marconi, não estudou lá...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Como pode ter a certeza disso?

Não querendo, evidentemente, afirmar que o modo científico de pensar é o único modo de pensar, nem, sequer, que é o mais importante modo de pensar (a filosofia, a arte, o senso-comum, a religião… são outros modos de pensar a que não se pode retirar o valor), defendem alguns que a sociedade, em geral, e certos sectores, em particular, ganhariam em discernimento e desenvolvimento se a ele recorressem para se analisarem certos fenómenos e, a partir daí, tomarem decisões.

Karl Popper sublinhou esta ideia, dando particular destaque à transposição do modo de pensar científico para o campo político, que é o que interessa neste texto, por se reportar a recentes declarações dum secretário de estado da educação a um jornal, aqui lembradas por Carlos Fiolhais.

Afirmou esse secretário de estado: "Temos essa espuma dentro das escolas, provavelmente aqui à porta do ministério e nos blogues, mas nas salas de aula não foi assim. Ali as medidas de política tomadas resultaram. (...) Dificilmente me lembro de um período de que as escolas se possam orgulhar tanto em relação ao resultado do seu trabalho".

Ora, esta é uma declaração nitidamente acientífica, entre muitas outras de tal teor provenientes desta equipa ministerial e doutras que passaram e que se seguirão. Corresponde ao tipo de declarações ao qual nos habituámos e, nessa medida, ouvimo-las sem lhes dar demasiada importância. E, se damos é para concordar ou discordar a partir da nossa perspectiva, da nossa opinião, apresentada sempre, como não poderia deixar de ser, de modo altivo.

Desta maneira, não haverá muitas pessoas que perguntem: “Em que dados se apoia o senhor secretário de estado, para afirmar que sabe, com certeza, o que acontece nas salas de aula e que as medidas de política tomadas, efectivamente, resultaram? E, já agora, a que resultados se refere, em concreto?"

São perguntas, que como sociedade, deveríamos fazer, exigindo, correlativamente, respostas fidedignas e consistentes. Não procedendo assim, somos, como está bem de ver, co-responsáveis pela demagogia de que nos queixamos (cada vez mais) em privado.

Ora, sendo o secretário de estado em questão: (1) licenciado em Biologia; (2) Master of Education pela Universidade de Boston (3) Mestre em Ensino das Ciências por equiparação pela Universidade de Lisboa; (4) professor; (5) responsável na área da formação de professores… poder-se-ia pensar que recorre a alguns princípios do raciocínio científico, que a sua formação e funções desempenhadas lhe devem ter permitido incorporar, para se pronunciar sobre o que, de facto, se passa na educação à escala nacional.

Porém, e voltando à declaração acima transcrita, o que se me oferece dizer é que pouco se sabe acerca do que se passa nas nossas salas de aula. Estudos sobre o ensino que abranjam um campo alargado, teoricamente bem fundamentados, que recorrem a metodologias rigorosas e instrumentos adequados, por diversas razões (que aqui omitimos), não se têm realizado. Do que dispomos é de estudos pontuais, centrados em casos e em percepções dos sujeitos, alinhados por teorias várias, que recorrem a metodologias e instrumentos dispersos, não permitindo, portanto, comparações fiáveis. Tal não significa que este último tipo de estudo seja destituído de qualquer interesse, o que significa é que, mesmo que o senhor secretário de estado recorresse a eles, não poderia pronunciar-se acerca do que se passa na generalidade das aulas portuguesas, desde as do ensino básico até ao ensino secundário.

Na década passada a conscialização da importância de se conhecer de perto e da maneira mais objectiva e rigorosa o ensino em sala de aula ressurgiu de modo particularmente acutilante, por via da discussão que os dados dos programas de avaliação internacional TIMSS (no qual Portugal só participou uma vez) e PISA (no qual Portugal participou três vezes, indo participar também que se realizará neste ano lectivo) desencadearam.

Alguns investigadores, como Keitel & Kilpatrick (1998), têm alegado para que esses programas no colocam face a um “jogo de números”, fazendo notar a necessidade de se empreenderem estudos que permitam compreender o que se passa e como se passa nas salas de aulas nos diversos países que neles participam, bem como o que dele resulta em termos de aprendizagem.

A título de curiosidade, refiro que a equipa do TIMSS foi a primeira a procurar uma melhor compreensão para os dados obtidos nos testes de conhecimentos/competências implementando o Videotape Classroom Study, que incidiu nas aulas de Matemática no 8.º ano de escolaridade nos Estados Unidos, Japão e Alemanha, e foi dirigido por James Stigler da Universidade da Califórnia; o Survey of Mathematics and Science Opportunities Study, que incidiu no ensino da Matemática e Ciências em seis países, e foi dirigido por William Schmidt, da Universidade do Estado de Michigan; e o Curriculum Analysis Study, que incidiu nos propósitos curriculares, e foi dirigido por William Schmidt, igualmente da Universidade do Estado de Michigan.

Foi com base nestes estudos e em muito outros com validade científica reconhecida que o Painel Consultivo constituído nos Estados Unidos da América para estudar o estado do ensino da Matemática se pronunciou, tendo recomendado vivamente mais recolhas nos terrenos em que a aprendizagem tem lugar.

A rematar, diria que a resposta à citada declaração do secretário de estado é dada por uma personalidade lendária do mesmo partido político, Edmundo Pedro, apesar dessa resposta não se referir a ele mas ao próprio primeiro ministro, a propósito da utilização do mesmo tipo de lógica:

… falei com José Sócrates e perguntei-lhe como é que ele estava tão certo de que o partido vai bem. Eu até acredito que ele pense isso, mas não vai às secções. Como pode, então, ter a certeza disso? Perguntei-lhe como formou essa opinião, se foi através das pessoas que o rodeiam. Mas se essas pessoas também não vão às secções! Limitam-se a consultar os secretários e para eles é tudo cor-de-rosa. Mas não é verdade.

Eu não iria tão longe, não subscreveria a afirmação final, pois, no caso em apreço, não podemos dizer que não é verdade o que o secretário de estado disse, nem... o contrário. Apenas podemos dizer que pouco sabemos sobre o assunto e que seria importante empenharmo-nos em saber mais.

Referências bibliográficas:
- Keitel, C. & Kilpatrick, J. (1998). International comparisons in mathematics education (Studies in mathematics education series 11) Londres: Falmer Press.
- Popper, K. (1992). Em busca de um mundo melhor. Lisboa: Fragmentos.
- U.S. Department of Education (2008). US Presidential Math Panel 2008. Final-report. Education Publications Center: U.S. Department of Education.

SUGESTÃO DE BLOGUE 3


"Estação chronographica" é um blogue sobre o tempo e os relógios da autoria do jornalista Fernando Correia de Oliveira: aqui.

SOBRE OS ANÓNIMOS DA NET

Destaco do jornal "i" de ontem (número cem, muitos parabéns!) o final do artigo de Maureen Dowd, jornalista do New York Times:

"A Internet iria ser supostamente o paraíso da livre expressão, sem censura a cada passo e onde todos pudessem finalmente ter voz. No entanto, neste infinito reino da verdade, muitos querem esconder-se. Quem são essas pessoas, prontas a dizerem o que pensam sem no entanto dizerem quem são? Que mentalidade os leva a incomodar-nos, ficando escondidos por detrás de uma máscara? Os pseudónimos têm um historial nobre. Os revolucionários em França, os primeiros colonos dos EUA e os dissidentes soviéticos usaram-nos. O grande poeta Fernando Pessoa servia-se de heterónimos para escrever em diferentes estilos e até para rever as obras criadas pelos seus alter egos.


Como escreveu Hugo Black em 1960, "É evidente que o anonimato tem por vezes sido utilizado para os mais construtivos dos fins". Mas, na Internet, serve menos para se ser construtivo do que para encobrir a cobardia. "

UM CAGLIOSTRO DA EDUCAÇÃO?

Talvez devido às críticas que agora começam a chover do interior do seu próprio partido (primeiro Marcos Perestrello no "Expresso" e depois Edmundo Pedro no "i") à acção recente do Ministério da Educação, o Secretário de Estado da Educação Valter Lemos deu uma entrevista de fundo, em jeito de balanço de mandato (nas respostas, a ministra quase não existe), ao jornal "As Beiras", que foi publicada na edição de 29 de Agosto. O conteúdo e o tom geral da entrevista, com o título "Estamos a construir a escola do futuro", dada pelo governante agora candidato a deputado pelo círculo de Castelo Branco percebem-se só a partir de alguns excertos:

Sobre o objectivo do Ministério:

- "O objectivo unificador de todas as medidas políticas era o de conseguir melhorar os resultados escolares. "

Sobre o descontentamento nas escolas:

- "Temos essa espuma dentro das escolas, provavelmente aqui à porta do ministério e nos blogues, mas nas salas de aula não foi assim. Ali as medidas de política tomadas resultaram. (...) Dificilmente me lembro de um período de que as escolas se possam orgulhar tanto em relação ao resultado do seu trabalho".

Sobre a avaliação dos professores:

- "A avaliação é uma das garantias de que a escola presta contas, e de forma transparente, à sociedade".

Sobre as "novas oportunidades":

- "(...) estamos a fazer uma operação que até do ponto de vista civilizacional é um orgulho para o país".

Sobre o Magalhães:

- "A esmagadora maioria das crianças que receberam o Magalhães, ou o computador do e-escola não teriam nos próximos anos o acesso à informação. (...) Por isso considero de uma pobreza de espírito inacreditável alguns comentários feitos a propósito do Magalhães".

O Conde Cagliostro, esse grande mago das palavras e das curas milagrosas, não teria dito melhor...

ITALO CALVINO SOBRE DANTE E GALILEU

O escritor italiano Italo Calvino escreveu em "Ponto final. Escritos sobre Literatura e Sociedade" (Teorema, 2003), sobre a relação entre Dante e Galileu:
"Quando eu disse que Galileu continua ser o maior escritor italiano, Carlo Cassola saltou a dizer: o quê, julgava que era Dante! Obrigadinho, que bela descoberta. Eu, em primeiro lugar, tinha intenção de dizer escritor em prosa; e então aí a questão põe-se entre Maquiavel e Galileu, e eu próprio fico embaraçado porque também amo muito Maquiavel. O que posso dizer é que na direcção em que trabalho agora encontro maior alimento em Galileu, como precisão de linguagem, como imaginação científico-poética, como construção de conjecturas. Mas Galileu - diz Cassola - era cientista, não escritor. Este argumento parece-me facilmente desmontável: do mesmo modo também Dante, num horizonte cultural diferente, fazia obra enciclopédica e cosmológica, também Dante através da palavra literária procurava construir uma imagem do universo. Esta é uma vocação profunda da literatura italiana que passa de Dante a Galileu: a obra literária como mapa do mundo e do saber, o escrever movido por um impulso cognitivo que é ora teológico ora especulativo ora feticista ora enciclopédico ora de filosofia natural ora de observação transfigurante e visionária."

A CASA DE DANTE


Dante, considerado quase unanimemente o maior escritor italiano, nasceu em Florença. Não se conhece o local exacto de nascimento, mas foi provavelmente no centro histórico de Florença. Bem perto da Piazza della Signoria há uma Casa di Dante, que funciona como Museu (o visitante encontra lá várias edições da "Divina Comédia", essa obra-prima da cosmovisão medieval), mas essa casa é bem mais recente do que Dante.

Embora haja um túmulo de Dante na Basilica de Santa Croce, ele está vazio. O verdadeiro túmulo de Dante está em Ravenna, cidade onde o poeta morreu, exilado de Florença (foi até condenado à morte pelos seus conterrâneos, uma pena extensiva aos seus filhos). No ano passado, Florença resolveu reabilitá-lo honrando um dos seus descendentes com a maior distinção da cidade, o Fiorino d' Oro, mas o acto foi polémico não por dúvida sobre os méritos de Dante mas sim por vários vereadores acharem absurda uma decisão desse tipo passados 700 anos (ver aqui).

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...