terça-feira, 17 de março de 2026

UM SISTEMA EDUCATIVO IRRECONHECÍVEL

No final de Janeiro passado, o Ministério da Educação Ciência e Inovação anunciou mais uma - mais uma ! - revisão curricular, concretamente, "da matriz curricular, em paralelo com as aprendizagens essenciais, que terão em conta a digitalização e inteligência artificial". Estava também em causa a fusão do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico. Na altura, disse o Ministro (ver aqui e aqui):

"O nosso objectivo é que estas alterações entrem em vigor em 2027/2028 mas com uma alteração mais profunda, não apenas das aprendizagens essenciais, mas também da matriz curricular e dos próprios conteúdos e tendo em conta também essa alteração da organização dos primeiros ciclos de aprendizagem do ensino básico".

Jornais de hoje referem outra mudança substancial, esta no próprio sistema:

"a reforma do sistema educativo, que está a ser levada a cabo até ao final do próximo ano, vai torná-lo “irreconhecível” com a aplicação de inteligência artificial (IA) (...) [e] defendeu a manutenção de um modelo centralizado por ter capacidade de obter eficiência através da tecnologia".

Estas mudanças, provavelmente entre outras, fazem parte da "visão estratégica" que o governo tem para a educação, focada na "tecnologia dentro das escolas e a reconfiguração de competências na era digital" (ver aqui).

"O ministro com a pasta da Educação defende a promoção do pensamento computacional e diz que temos de educar as crianças, jovens e adultos a interagir com as máquinas (...) e perceber quais são as competências humanas a desenvolver porque as máquinas são incapazes."

As expressões que destaquei tornaram-se banais, mas precisamos de pensemos nelas, sobretudo se somos educadores. Eis algumas tópicos que podem ajudar: 

o pensamento é um atributo humano, de modo que quando dizemos "pensamento computacional" estamos a admitir a possibilidade de ele poder ser assumido pela máquina, estamos a antropomorfizar a máquina; 

a interacção é outro atributo humano: temos capacidade de "agir" (o que é sempre intencional e moral, diferente de executar um comportamento) e de interagir (o que implica o agir num quadro relacional, entre pessoas); com as máquinas operamos, elas executam;

fica para a escola, para ensinar e aprender, competências que as máquinas (ainda) não foram programadas para fazer? A escola limita-se ao que vai restando? 

Tão grande retrocesso do sistema educativo em tempos de tão fantásticos avanços tecnológicos! Não preciso de conhecer a reforma anunciada que o vai deixar "irreconhecível", ele já está "irreconhecível".

1 comentário:

Jaime Carvalho e Silva disse...

O pensamento computacional não é uma atividade de uma máquina. O "computacional" significa que o pensamento, do humano, é feito com a assistência da máquina delegando nela as tarefas que ajudam o pensamento. De forma simplificada é a resolução de problemas clássica mas em que há um passo em que se tenta desenhar um algoritmo que ajude a efetuar uma parte laboriosa do problema em que é conveniente poder executar repetidamente determinada ordem. Como indico num artigo que escrevi, o pensamento computacional e a inteligência artificial atual são quase disjuntas e de interesse educativo muito desigual (DOI 10.1080/0020739X.2025.2496695)

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