sábado, 3 de abril de 2021

O RACISMO N’OS MAIAS’


Novo texto de Eugénio Lisboa:

Uma estudiosa cabo-verdiana, doutoranda numa universidade norte-americana, Vanusa Vera Cruz, julgou, aliás em termos louvavelmente moderados, descobrir no romance Os Maias traços de racismo numa fala de João da Ega, dirigida ao funcionário superior da Instrução pública, Sousa Neto.

Para começar, é de um primarismo clamorosamente lamentável, ainda mais numa doutoranda, confundir as opiniões de Eça com as opiniões dos personagens que congeminou para a sua soberba comédia humana. Imagine-se confundirmos Shakespeare com Macbeth, Victor Hugo com Javert ou Eça com o Conselheiro Acácio!

Confundir as opiniões dos personagens com as do seu criador é sempre um erro de palmatória e faz lembrar aquele espectador que não conseguia dissociar o actor do personagem que, no palco, encarnava e, no final da peça, indignado com o comportamento do “vilão”, subiu ao palco e deu um arraial de pancada ao actor que o representava…

Aliás, uma leitura que nem precisa de ser muito cuidada do grande romance de Eça permite rapidamente perceber que João da Ega nem sequer está a dizer a sério o que pensa da escravatura: está simplesmente a “gozar” sadicamente o funcionário superior da Instrução Pública, que é ignorante e estúpido como uma porta. É o mesmo, Sousa Neto, que, noutro ponto do romance, pergunta, seriamente, a Carlos da Maia se, na Inglaterra, havia literatura. Carlos da Maia dá-lhe a resposta que ele estava mesmo a pedir, dizendo-lhe, com desplante gozão, que não, que na Inglaterra não havia literatura… Sousa Neto, sempre solene, sempre obtuso, aplaude aquele povo prático aquele povo essencialmente prático!

Se alguma coisa Eça faz, nesta admirável passagem do seu romance, é pôr a ridículo o personagem de Sousa Neto, ao mesmo tempo que, enviesadamente, faz a demolição da escravatura e dos que ainda a defendem, naquela altura. Usando, para este seu combate, a mais poderosa e mortífera das armas: a sátira, em que foi mestre. Eça (e Ega também) goza, de uma ponta à outra, com a estupidez de Sousa Neto, tanto mais obscena quanto o é de um funcionário superior da Instrução Pública.

Eis por que não vejo qualquer necessidade de se conspurcar qualquer edição de Os Maias, com notas explicativas de pé de página, sobre o racismo prevalecente naquela época, para desculpar um grande romancista que não precisa de desculpa nenhuma: Eça, nisto, como em muitas outras coisas, estava destemidamente à frente de preconceitos e valores negativos próprios da época em que vivia. Do que Os Maias precisam não é de caganitas de pé de página a explicarem o por demais evidente, do que precisam mesmo é de que o leiam com a atenção que merece o mais notável romance da literatura portuguesa.

O problema é que os adeptos da “political correctness” são quase sempre despidos de sentido de humor, de sentido de ridículo e, sobretudo, providos de uma imensa falta de respeito pelas grandes obras de arte. Por isso enveredam facilmente por aquilo que Orwell cunhou, para sempre, como “polícia do pensamento”, muito usada por todas as ditaduras de direita e de esquerda.

Já agora, deixo aqui, para meditação e proveito, esta pergunta feita por um dos maiores críticos de arte do século XX, Robert Hughes, autor do notabilíssimo The Shock of the New e do muitíssimo incómodo A Culture of Complaint. A pergunta é, singelamente, esta: “O que é que se prefere? Uma arte que luta por mudar o contrato social e falha? Ou uma que procura seduzir e divertir e consegue?” 

Eugénio Lisboa

2 comentários:

  1. A produção literária, mais do que a produção de livros, tende a ser banalizada como um efeito da abundância, mas isto não significa que tenha perdido a importância nem, muito menos, que nunca a tivesse tido.
    Ficamos estupefactos quando lemos que alguns dos maiores mentores da nossa civilização não deixaram obra escrita. Eu acredito que, se o tivessem feito, tinham assegurado menos o seu futuro, não obstante, este dependeu da escrita e da sua divulgação.
    Também sabemos de casos notáveis, de que Descartes é mero exemplo, que não publicaram em vida, por medo da polícia do pensamento que, na época, metia na ordem Galileu Galilei. Nos tempos que correm tudo isso parece ficção e é difícil, para não dizer impossível, ensinar às crianças que estamos a falar de absurdidades cometidas por estúpidos, provavelmente assassinos, contra génios da humanidade a quem devemos imenso.
    Mas a questão nem é essa. Génio ou louco, todo e qualquer livro, todo e qualquer objecto cultural deve estar a salvo de todo e qualquer juízo de todo e qualquer humano. Sabemos que não é só pela falta de confiança em todo e qualquer humano para julgar seja o que for, mas mais pela necessidade de não nos submetermos uns aos outros. Isto é verdadeiramente crucial. Nenhum humano, em nome do humano, deverá poder negar este.
    Os livros podem ser as maiores aberrações, como sabemos que são os mais adorados e celebrados e respeitados, mas devem existir, não devem ser proibidos, não devem ser destruídos, porque não fazem mal a ninguém.
    Só poderiam fazer mal a quem não os ler.
    São objectos tão insignificantes, tão quietos, só papel e tinta em caracteres, nem sequer têm ideias, não pensam, nem falam, nem pisca-piscam… É impossível não odiar quem se sente incomodado com a humildade de um livro. Como justificar guerras por causa de cem ou duzentas folhas de papel? A culpa é de um livro? Dessem um tiro no livro. Enforcassem o livro. Limpassem o cu ao livro. Mas não.
    O problema dos livros é que eles, mesmo cobertos de teias de aranha, são terríveis. Dentro deles está algo que, quando entra num cérebro, começa a produzir efeitos. Quaisquer que sejam estes efeitos, a polícia do pensamento, coisa terrível de imaginar, mas que é a nossa realidade essencial, o humano é essencialmente polícia do pensamento, definir o humano implica dizer que é um EU, que é construído de base por censura, autoridade, dever, polícia, violência, deus, pai, poder, dever-ser.
    A liberdade ainda está a ser inventada pelos livros. Não propriamente pelos livros, mas enquanto eles são o suporte dessa experiência que a memória, só por si, deixa escapar.
    Não adianta querer destruir os documentos para destruir a história. Destruir a história dos outros é destruir a nossa. No fim, fica uma história, a única que existe.

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  2. "Sutor, ne ultra crepidam"
    Analisar uma obra-prima, como é "Os Maias", de Eça de Queirós, não está ao alcance de qualquer doutoranda de universidade norte-americana, mesmo que saiba falar português!...

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