sexta-feira, 3 de agosto de 2018

APRENDIZAGENS ESSENCIAIS: O Português no Ensino Secundário


Na continuação de texto anterior (aqui).

Num artigo de opinião saído hoje no jornal Público (Vale a pena? Não vale a pena? Ou a alma é afinal pequena?), Helena Buescu (na foto), professora da Universidade de Lisboa e Coordenadora do Programa e Metas Curriculares de Português do Ensino Secundário (2014) pronuncia-se sobre o documentos Aprendizagens Essenciais para essa disciplina e esse nível de escolaridade.
Depois de deixar assentar alguma poeira do furor legislativo do actual Ministério da Educação, o panorama que se propõe para os próximos anos é infelizmente desolador. Não, nem todos os cidadãos são iguais. Sobretudo, nem todos serão iguais. 
As Aprendizagens Essenciais agora propostas efectivamente reduzem Programa e Metas Curriculares, que o próprio documento considera continuarem em vigor (e em cuja elaboração estive activamente envolvida). Assim, entre Programa e Metas, por um lado, e Aprendizagens Essenciais, por outro, cada um navegará nas águas pardacentas de um simplismo escorado na ignorância e na confusão. 
Falo apenas da disciplina de Português para o Ensino Secundário – e para já apenas da Educação Literária, que foi “naturalmente” onde a poda se deu (pois onde poderia ela dar-se, senão aqui?). 
Vejamos: no 10.º ano desaparecem três curtas narrativas (Fernão Lopes e uma narrativa da História Trágico-Marítima) cuja função era, além de permitir ler belíssimos, se bem que breves, textos, dar a ver como a nossa literatura se tece de História – mas, como a disciplina de História também levou machadadas, nada disto é de estranhar. Impõe-se a pergunta: a quem é que isto NÃO interessa? Compreender diferentes perspectivas históricas obriga os alunos a pensar: há quem considere que não devemos dar-lhes esse trabalho. 
No 11.º ano, permitam-me dizer que há, não um, mas dois escândalos: o desaparecimento da orientação explícita de que Os Maias são uma das obras preferenciais de Eça de Queirós a ler (porque são uma das obras referenciais do cânone da literatura portuguesa, como apontaram Carlos Reis e Manuel Alegre); e aqueloutra que, de Cesário Verde, se limita a dizer que é obrigatória a leitura de três poemas, sem mencionar o extraordinário O Sentimento dum Ocidental, poema sem o qual Fernando Pessoa não existiria, como muita da poesia do século XX nunca teria podido existir. Não perceber isto representa uma terrível ignorância. Como se pode operacionalizar a reflexão sobre o lugar da épica na poesia portuguesa (proposta no Programa) eliminando o maior elo entre Camões e Fernando Pessoa, que é Cesário Verde? 
No 12.º ano, em um lugar do documento mencionam-se apenas Pessoa ortónimo e os três heterónimos clássicos, Campos, Caeiro e Reis – mas em outro lugar do mesmo documento refere-se o estudo de “prosa” de Pessoa, referindo-se O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (que não é ortónimo). Em que ficamos? Desaparecem ainda quaisquer referências a narrativas do século XX que não um dos dois romances propostos de José Saramago. No Programa e Metas Curriculares estavam três brevíssimos e belíssimos contos de diferentes autores, para se escolherem dois. Quem acabar o 12.º ano ficará a pensar, com razão, que no século XX não houve escritores de narrativa, à parte o nosso Nobel (que, sendo grande, não deve apagar nada). 
Eis algumas das consequências do desvanecimento democrático que as AEs vêm propor (e fico-me pelo Português): 
1. Flexibilização curricular: escolher escolas, resignar-se a outras – umas, mais exigentes, serão procuradas por pais, exigentes, de futuras “elites” (e estas existem sempre, senhores educadores, resta saber onde são escolhidas e como são formadas); noutras, para os filhos dos que vêm de casas menos afortunadas pela cultura, negociar-se-ão conteúdos mais apropriados, que lhes facilitem a vida à primeira vista – e não lhes dêem demasiada formação (porque basta ir ao Google, senhores!, como respondeu uma responsável de uma associação de professores). 
2. Escolas públicas para diferentes públicos: teremos assim escolas públicas com diferentes programações e percursos diferenciados. Um dos cavalos de batalha deste Ministério da Educação foi o de que o melhor ensino é e deve ser o público. Pois bem, a resposta certa é: “depende”. Das negociações de conteúdos. Do lugar geográfico. Do director. Das relações com a autarquia. Da preparação e da escolha dos professores. Em suma: dos interesses instalados. 
3. Simplificação e desqualificação: cidadãos de segunda. Eis aqui o deficit democrático em todo o seu esplendor. Alguns saberão menos do que o mínimo. Não estarão, pois, preparados para nada de exigente no futuro, porque isso lhes foi negado (sim, a exigência é uma oportunidade, não uma traição à cidadania). Os cidadãos de primeira saberão que só com esforço se atinge qualidade. Os outros farão a sua vida por onde os políticos lha terão permitido fazer. 
4. A casa dos que sabem e a casa dos que não querem saber: a origem social e pessoal dos estudantes tornar-se-á cada vez mais o factor diferenciador dentro e fora da escola. Esta abdica ainda mais da sua função de elevação social. Às elites aquilo a que elas têm acesso fora da escola. E às massas aquilo que a escola, cada vez mais rasa, consegue fornecer. Os alunos não conseguem ler Os Maias? A solução está à mão: deixemos de ler Os Maias. Todos. A literatura é difícil? Substitua-se, a pouco e pouco, por textos “mais acessíveis” e que preferencialmente a ninguém exijam o esforço de pensar criticamente. 
5. Uma História sem História: Almeida Garrett e Eduardo Lourenço disseram ambos (por palavras mais sábias) que Portugal é um país pequeno com uma História muito grande. A questão é a seguinte: elevamo-nos e qualificamo-nos pela História? Ou fazemos apagões históricos, em todas as disciplinas, para que o nosso pequeníssimo presente nos dê a medida do que somos? 
A resposta está à vista: vale a pena? Não vale a pena? Talvez a alma seja afinal pequena.
Helena Buescu

5 comentários:

  1. Para quê estarem preocupados com a falta de Literatura No Secundário, se não se preocupam em explicar a formação das palavras e respectivos prefixos e sufixos e respectivos significados e usos, na pré-primária e primária?
    O que se passa depois, é resultado do que se passou antes ...

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    1. Estamos preocupados com a falta de literatura no secundário porque querem proibir os professores licenciados de a lecionarem.
      De resto, não suba o sapateiro (educador de infância) além da chinela!...

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    2. A sua resposta mostra um caso iliteracia pior do que o expus, numa resposta mais adiante, relativamente aos prefixos "equi" e "iso"!

      Nos seu caso, confunde "sapateiro" com "educador de infância", o que é um nível de confusão mental tal, que me leva a questionar:

      1º - Como é que consegue ensinar, explicar e classificar provas literatura, senão consegue distinguir estas nobres profissões?

      2º - Que raio de pré-primária e primária teve, que o/a leva desprezar estas etapas FUNDAMENTAIS e BÁSICAS da formação de qualquer Cidadão?

      3º - Não sei se acredita na Escolástica "Geração Espontânea", mas os bebés, quando nascem, normalmente, precisam de começar pelo B+A BÁ, e por aí fora para chegar Literatura (Ok, também há Sobre dotados, talvez seja esse o seu caso...)

      Mas já que estamos preocupados com Sandálias, Chinelos, pés descalços, saltos altos, etc ponho a questão da seguinte maneira:
      Se uma cavalgadura for ferrada por um mau ferrador, por mui boa que seja, andará sempre mal e coxa.

      Ou seja, se estão preocupados com o facto de se "proibir os professores licenciados de a leccionarem" (provavelmente, para se diminuir o número de chumbos!) é porque se descurou o ensino da BASE onde assenta a Literatura, a sua sandália, a sua ferradura ...
      Caso contrário o "desenvolvimento e crescimento" Literário, o melhor entendimento das matérias de Ciências ou de Humanidades, etc seria "natural" nos alunos.

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  2. Haja alguém que ponha um travão a esses especialistas da educação que têm a arrogância de pretender que sabem mais de Literatura e Ciência do que os professores que as ensinam!

    NÃO VÁ O SAPATEIRO ALÉM DAS SANDÁLIAS!

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  3. Uma das características duma Constituição Democrática é termos o Direito de Erramos, indo além das chinelas, sandálias, sapatos de salto alto ... (porque no cimo é que está a virtude), deixando para trás a Constituições de 1933, onde o erro era de facto Proibido, e/ou Escolásticas de Grandes Iluminárias, que, de tão encadeados com a sua sapiência, se esquecem do chão que pisam.
    Dito isto, o que afirmei vem do contacto com alunos e professores onde detectei este problema (por exemplo, para mui gente "equi" e "iso" não são equivalentes, nem dizem a mesma coisa, e, sendo assim, acham que isto não é o primeiro de mui passinhos para catástrofe?).
    Acham que, uma vez feito e estabelecido o caos de entendimento na mente de alguém, esse alguém tem capacidade para entender um artigo de jornal, quanto mais Pessoa, Camões, Padre António Vieira?
    Por isso, reafirmo que é urgente começar no Básico, porque, como qualquer General competente dirá, ele é essencial para o Quartel operacional e a cheirar bem.

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