quinta-feira, 13 de agosto de 2015

UNIVERSITAR OS POLITÉCNICOS: EIS A QUESTÃO!



Meu artigo de opinião, saído hoje no "Público", em resposta ao artigo "Porquê a insistência num sistema binário?", de Joaquim Sande Silva, saído neste mesmo jornal (06/08/2015), e transcrito neste blogue no dia 8.Agosto.2015:

“A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais”.
Aristóteles

Defende Paul Ricoeur: “A história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico”. Embora tanto não se exija neste contexto, não posso, todavia, deixar de relevar o longo historial que é feito no artigo, “Porquê a insistência num sistema binário?”, subscrito por Joaquim Sande Silva, docente do ensino superior politécnico ("Público", 06/08/2015).

Isto por se tratar de um texto, como diria Eça, escrito “de pena ao vento”, que ocupa quase metade do artigo supracitado, trazendo-me à memória uma lengalenga da minha meninice. Nela, um símio dedilhando uma guitarra trauteava: “Do meu rabo fiz navalha / Da navalha fiz camisa / Da camisa fiz farinha /Da farinha fiz menina / Da menina fiz viola”.

Algo de semelhante se passou com o ensino politécnico. De um curso médio foi feito um curso de curta duração / De um curso de curta duração foi feito um bacharelato / De um bacharelato foi feita uma licenciatura / De uma licenciatura foi feito um mestrado / De um mestrado foi feito um doutoramento por, como escreve Joaquim Sande Silva (daqui por diante identificado com as iniciais do seu nome), existirem parcerias entre politécnicos portugueses e  universidades de Espanha”, encontrando possível  inspiração na vox populi: “Quem não tem cão caça com gato”.

Indo ao cerne da questão, JSS lança a pergunta: “Perante todos estes factos e  passados mais de quarenta anos sobre a concepção do actual sistema, porquê mantê-lo?” Lança a pergunta e numa conclusão que muito me honra, embora me dê um poder que não mereço, dá ele próprio a resposta: “Esta questão é respondida de uma forma muito clara no artigo publicado neste jornal sob o título ‘O sistema dual do ensino superior posto em causa’, no passado dia 29 de Julho”.

Para complementar e contextualizar, as transcrições de frases minhas feitas no artigo “Porquê a insistência num sistema binário?”, endosso o leitor interessado para a leitura completa do meu artigo “O sistema dual do ensino superior posto em causa”, publicado neste media, no passado dia 29 de Julho, onde aduzo razões para discordar dos que defendem um ensino superior politécnico em que a sacrossanta crisma para universidade possa resolver todos os seus  problemas. Ou seja, concedo em exemplo bastante exagerado, como se o facto  de chamar violino ao simples apito desse ao seu som agudo a sonoridade e a beleza das Czardas de Monti.

Seria injustiça da minha parte, não deixar de agradecer a JSS o engenho que me concede em levar a água ao meu moinho, quando escreve: “Apesar de não ter sido escrito por nenhum responsável político nem por nenhum dirigente de uma instituição de ensino superior, o artigo [isto é, o meu artigo] é bem esclarecedor quanto às razões que fazem com que o sistema não mexa e não mude”.

Ao ser feito por si o apelo à necessidade de uma opinião  por parte de  “um dirigente de uma instituição de ensino superior” , obrigo-me em evocar a opinião   do presidente de Reitores das Universidades Portuguesas, António Cunha, que passo a citar ipsis verbis: ”Temos sempre defendido um aprofundamento do sistema binário e uma maior diferenciação entre os sistemas” (Público, 08/07/2015). Quanto a uma contribuição de natureza  politíca, aqui deixo esta, em título a página inteira, do mesmo jornal desse mesmo dia : “MEC recusa acabar com distinção entre universidades e politécnicos”.

Enjeito o possível anátema de “corporativismo, puro e duro” por comungar da crítica de Adriano Moreira, à orientação em “universitar os politécnicos ou poléctinizar as universidades” (“Diário de Coimbra”, 01/12/2004).

A modos de quem está com as mão na massa, JSS não deixa escapar a ocasião de envolver nessa crítica, outrossim, “muitos responsáveis do subsistema politécnico que aplaudem de pé o discurso de ‘aprofundamento do sistema binário’, cada um tentando salvaguardar o seu quintal  da ‘ameaça universitária’”.

Aliás, como diziam os latinos, nihil novi sub sole (não há nada de novo debaixo do sol). Anos atrás, em situação, mais ou menos semelhante, deparei-me com a acusação que me foi feita, numa carta do leitor, subscrita por um professor do ensino superior politécnico, de  “xenofobia académica”.

Em resposta, escrevi, em transcrição dos últimos parágrafos do meu artigo de opinião titulado “Uma questão de honra” ("Público", 01/02/1997):

“Num dado momento, no texto em causa, são criticadas as minhas tomadas de posição da forma seguinte: ‘Utilizando uma linguagem belicista com o propósito de mobilizar os estudantes  universitários, o autor  acaba por tornar visível a xenofobia académica que tem vindo a alimentar algumas (algumas) das posições, através das quais se recusa, liminarmente, às ESE  a possibilidade de formarem professores para leccionarem no 3.º ciclo do ensino básico’.

Mas como  me sinto feliz e orgulhoso pelo reconhecimento público de que tenho sido um esforçado centurião (aliás, desde 87) da recusa em as ESE poderem formar professores para o 3.ºciclo do ensino básico. Nunca me perdoaria deixar que os estudantes universitários pudessem ser apanhados desprevenidos nas teias que à sorrelfa se urdiam nos gabinetes da 5 de Outubro para lhes usurpar um mercado de trabalho já saturado e da sua natural pertença.

E porque, como escrevi referindo-me, respectivamente, aos universitários e alunos do politécnico, ‘uns são os invadidos e outros os invasores’ (Público, 17/12/96), tenho que aceitar a acusação que me é feita de ‘xenofobia académica’, mas que colhe nobre exemplo nos franceses que, durante a II Guerra Mundial, lutaram contra os alemães nas forças da Resistência enquanto companheiros seus colaboravam com os invasores. Nesta perspectiva, portanto, a minha ‘xenofobia académica’, mais do que uma mera opção deve ser tida como uma questão de honra!” (Público, 01/ 02/ 1997).

Assim, como tenho como uma questão de honra responder aquilo que JSS tem, em forte e descabida adjectivação, como “um corporativismo pacóvio e bafiento que tudo bloqueia e entrava”.

Last but not least, porque como escreveu Jules Renard, ”o homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão”, apelo à coligação ou partido saídos das próximas eleições legislativas, para que continuem esse “bloqueio e entrave” com a finalidade, como escrevi no meu artigo, generosamente aqui citado, “em  atribuir  à universidade o que é da universidade e ao politécnico o que é do politécnico, não permitindo, consequentemente, qualquer tipo de ceifa do politécnico em seara universitária”. Apelo que reforço em nome do “soberaníssimo bom senso” de que nos falava Antero!

7 comentários:

  1. Sr. Prof. Rui Baptista
    No seu artigo é evidente a causa que o motiva. Não é uma análise sobre as vantagens e inconvenientes do sistema binário para o desenvolvimento do País, e isso seria interessante, é a velha questão corporativa, sempre presente nos problemas da educação, assunto que, só interessando aos professores, nem devia ocupar os órgãos de comunicação.
    O que me motivou a escrever-lhe foi o terceiro parágrafo do seu artigo. Tal como está, o Sr. Prof. parece desconhecer a génese do Ensino Superior Politécnico. Vou dar-lhe a minha experiência vivida.
    Nos anos 40 e 50, em Lisboa, concluída a instrução primária, ingressei no ensino técnico industrial (5 anos), depois, os preparatórios para os Institutos Industriais (mais 2 anos), o curso de engenharia no IIL, que era de 4 anos, seguido de estágio profissional de 6 meses e outros tantos para elaboração dos respectivos relatórios e exame de defesa destes perante um júri de três professores, no qual se podia reprovar. Havia um Instituto Industrial em Lisboa e outro no Porto, ambos enquadrados num sistema de ensino designado por ‘ensino médio especial’. Havia o ‘ensino médio’ e o ´ensino médio especial’.
    Nos anos 70 integrei a Direcção do meu Sindicato e, nessa condição, tive uma audiência com o Ministro da Educação, Prof. Hermano Saraiva, que nos explicou o sistema de ensino que estava em estudo, o Ensino Superior Politécnico, no qual seriam enquadrados os institutos industriais. Frisou bem que este tipo de ensino se destinava a formar técnicos superiores nas várias valências necessárias ao desenvolvimento do País e que os profissionais por ele formados, que quisessem prosseguir estudos, o fariam nas Universidades.
    Antes de se concretizar esta reforma, o Prof. Hermano Saraiva deixou o ME e foi já o Ministro seguinte, o Prof. Veiga Simão que, com o Secretário de Estado do Ensino Superior António Brotas, acabou por lançar esta importante reforma do ensino superior. Os Institutos Industriais e os Institutos Comerciais de Lisboa e do Porto foram as primeiras escolas deste sistema. Logo nesse ano de 74, os bacharéis de engenharia que quiseram prosseguir os estudos candidataram-se ao IST ou à FEP, para, num ciclo de 2 anos obterem a licenciatura e, depois, eventualmente, o mestrado e o doutoramento.
    Foi assim que as coisas foram criadas. Era assim, para bem do País, que deviam ter sido mantidas e desenvolvidas.
    Como é costume em Portugal, as invejas e os interesses pessoais, que as fracas lideranças não conseguem ou não querem evitar, destroem tudo o que convém ao bem comum para prevalecerem os interesses individuais ou de grupo.
    Agora, o Ensino Superior Politécnico está definitivamente desvirtuado e não será mais nem “peixe” nem “carne”.
    Apresento-lhe os meus melhores cumprimentos.
    JoséGeraldes
    13-08-2015

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    1. Senhor Engenheiro José Geraldes: Desde já, agradeço a forma correcta, honesta e bem elaborada como está escrito o seu comentário.

      Durante cerca de 18 anos fui professor de uma Escola Industrial de que guardo as melhores recordações da minha vida docente.

      Brevemente, desenvolverei a minha resposta ao seu comentário em homenagem aos meus alunos desse saudoso tempo e agradecimento a si por ter posto esta discussão a um nível que enalteço.

      Constará o meu comentário de excertos de artigos meus, sobre o ensino técnico, que ao longo dos anos fui publicando (de que poderá consultar os originais), como prova que me não move um oportunismo ocasional em me retractar de quer que seja. Fá-lo-ia se fosse caso disso. Mas não é, de forma alguma!

      Até breve, com os meus melhores cumprimentos.
      Rui Baptista

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  2. A verdade é realmente esta: «A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais». Aristóteles

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  3. Grato pelo seu comentário.

    Aliás, subjacente à máxima aristotélica o princípio defendido por Rui Alarcão, ex- Reitor da Universidade de Coimbra e professor catedrático jubilado da respectiva Faculdade de Direito, ao sentenciar: "O que é desigual deve ser tratado desigualmente”.

    Encontramos no filósofo Agostinho idêntica defesa: "A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade".

    Definidos estes dois contornos, jurídico e filosófico, encontro cómodo respaldo num terceiro de natureza política de Raymond Polin ( "Iniciação Política", o Homem e o Estado", Europa América/1976), p. 144. Escreveu ele: "Reivindicar direitos sem proclamar obrigações é querer o impossível, é jogar às utopias ou às catástrofes".


    Infelizmente, em Portugal as questões da Educação tem sido deixadas ao Deus-dará empurradas, isso sim, por ruidosas exigências sindicais em que se "reivindicam direitos sem proclamar obrigações".

    Pior do que isso, com os olhos atentos à boca das urnas em que se depositam votos que ganham eleições, não se deve continuar a permitir aos políticos que "façam de cada solução um problema" (Wood Allen).
    .


    Cumprimentos respeitosos,
    Rui Baptista

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  4. Eng.º José Geraldes: o seu comentário ao meu post, obriga-me a separar o trigo do joio (o que farei , tanto breve quanto possível), ou seja, responder em separado ao seu parágrafo inicial em que, um tanto "à vol d'oiseau", emite opiniões com as quais discordo completamente no que tange:
    1. À evidência da causa que diz ter motivado o meu post;
    2. Ao facto de eu não ter feito uma análise sobre as vantagens e inconvenientes do sistema binário;
    3. E mais importante, ainda, de eu abordar um tema que só interessa aos professores (logo desmentido por lhe ter interessado) e que, "ipso facto", "nem devia ocupar os órgãos de comunicação" (sic.).

    "Sans racune", envio-lhe cumprimentos cordiais.
    Rui Baptista

    P.S.: Quanto ao que se reporta aos cursos das escolas e institutos industriais, que merecerá um outro comentário meu em separado, a nossa concordância me parece ser quase total, com excepção (não é verdade não haver regra sem excepção?) de eu discordar com a evolução do ensino politécnico desde a atribuição de cursos de 2 anos (sem atribuição de grau) até a atribuição de mestrados e o desejo de conceder doutoramentos. Aliás, a analogia que faço entre esse facto e a lengalenga que cito o demonstra.

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    1. Sr. Prof. Rui Baptista
      Começo por lhe agradecer ter apreciado o meu comentário.
      Mais uma vez verifico que, quando se trata de um assunto complexo, a comunicação escrita, mesmo entre duas pessoas que já se conhecem, não é fácil, Quando não se conhecem, como é o nosso caso, mais difícil se torna. Mas, por aproximações sucessivas chegamos lá.
      Vou deixar os aspectos acessórios e fixar-me no que, para mim, nesta questão, é fundamental: O Ensino Superior Politécnico só se justifica se os seus objectivos forem distintos do Universitário. Como disse no meu comentário anterior a base foi a experiência adquirida com os Institutos Industriais e Comerciais, a cujos diplomados se deu, de imediato o grau de bacharel e a possibilidade, que não tinham, de prosseguir os seus estudos, mas na Universidade.
      Nesta época, um país que conheci bem, a Suíça, tinha duas universidades de engenharia e em cada cantão uma Escola Técnica Superior. Deste modo, os profissionais formados agrupavam-se formando uma pirâmide com o vértice para cima. Em Portugal temos a tendência de formar estas pirâmides com o bico para baixo!
      Em conclusão, com tudo o que fizeram ao Politécnico, está perdido e sem conserto. Haja um ministro que tenha a coragem de acabar com ele.
      Sr. Prof., como deve ter concluído, no essencial temos opiniões concordantes. Esta curta mas elevada conversa deu-me imenso prazer.
      Os meus melhores cumprimentos
      j.c.geraldes@sapo.pt
      José Geraldes

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    2. Senhor Engenheiro José Geraldes: Acabo de publicar a minha resposta ao seu comentário com o seguinte título: "As causas da minha causa".
      Cumprimentos muitos cordiais.
      Rui Baptista

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