sexta-feira, 6 de junho de 2014

No ensino público, laico, obrigatório...


"Quando pronuncio estas palavras, tenho treze anos. Eis-me sobre o estrado, recitando versos de Virgílio, aprendidos de cor. Estes são do início da Eneida. O herói é apanhado no meio de uma assustadora tempestade. Tremendo, suplica, implora, geme, evoca aqueles dos seus que morrem em combate, com um final mais glorioso do que afogarem-se no gelo. lamenta não morrer em combate e fica desolado com o obscuro destino que o ameaça...
Todos os períodos tínhamos sessões de recitação latina. Um de cada vez, tirávamos à sorte um papel com uma referência e íamos declamar corajosamente algumas linhas de Tito Lívio ou de Cícero, alguns versos de Horácio ou de Virgílio - como eu, nesse dia.
O mesmo ritual era repetido todos os períodos, todos os anos. As sessões de recitação latina eram dadas no oitavo ano, no nono, no décimo. Precisemos o seguinte: eu não andava num colégio de padres, nem numa instituição particular. Nunca o meu pai admitiria que eu fosse aluno do ensino particular. A recitação latina não era de modo algum uma excentricidade, ou uma incrível excepção. A cena passa-se num liceu da República, em Paris, há apenas algumas décadas.
No ensino público, laico, obrigatório e gratuíto eu tinha sessões de recitação latina, temas gregos, exposições sobre as Guerras Púnicas, a conquista das Gálias, ou as comédias de Pauto.
O latim, nessa altura, era ensinado desde o sexto ano. Iniciei-o, portanto, aos dez anos. No oitavo, podíamos juntar-lhe o Grego, que me fez descobrir outras formas de letras - em todos os sentidos: grafia diferente, alfabeto distinto, mas também epopeias, tragédias, discursos políticos - mais tarde, textos filosóficos.
(...) Eu não tenho qualquer gosto pelas memórias e prefiro que os episódios, como é devido, obscureçam no passado. Nostalgia? Nem pensar. tenho consciência de que os tempos mudaram: uma época dessas encontra-se ultrapassada, definitivamente. Inútil, portanto, defender um retorno a essas pedagogias. Esses tempos já não existem..."
Estas palavras de Roger-Pol Droit, que aparecem nas páginas 15 e 16 do seu livro Voltar a ler os Clássicos (2010, Temas e Debates/Círculo de Leitores), são o mote para uma alargada reflexão do filósofo sobre o afastamento da cultura clássica do currículo da escola pública, da escola a que todos têm acesso. Se os métodos podem mudar em virtude de novo conhecimento pedagógico, o conteúdo da aprendizagem, se é fundamental, deve manter-se. E a cultura clássica é fundamental.

A cultura clássica, matriz da nossa civilização, do nosso pensamento, não é só nem principalmente passado, é sobretudo futuro. Oferece a cada um a possibilidade de se encontrar com a humanidade e, nesse encontro, construir-se e projectar-se para além da sua condição.

É precisamente isso que estamos a negar às gerações que vão chegando ao mundo e hão-de partir dele sem ter percebido a beleza a que Roger-Pol Droit começou a ter acesso ainda em jovenzito.

Maria Helena Damião

2 comentários:

  1. Prof.ª Helena Damião:
    A chave da abordagem deste excerto (não do livro) está nesta frase: «tenho consciência de que os tempos mudaram: uma época dessas encontra-se ultrapassada, definitivamente. Inútil, portanto, defender um retorno a essas pedagogias. Esses tempos já não existem..."».
    O problema está em saber qual a parte do abandono dos clássicos resulta de modismos pedagógicos e qual resulta das alterações sociais (concretamente com reflexos na Educação), alterações que aconteceram em todas as épocas e que, em dados momentos, se constituiram como rupturas de natureza cultural.
    Se é dever exigir esta reflexão não devemos, contudo, embarcar em nostalgias que nos levem à ilusão do retorno puro e duro ao passado.
    E há muita confusão a este propósito e muitas «guerras de palavras» e de conceitos educativos a este propósito, que na maioria dos casos são verdadeiramente inúteis, pois não passam de cortinas de fumo para outros propósitos.

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    1. Prezado Leitor Manuel Silva
      Um das grandes fontes de contestação de algumas áreas disciplinares - como é o caso das Clássicas, da Literatura e da Filosofia ou até das Artes e de algumas Ciências - é a metodologia que se lhes associa e que se categoriza como "tradicional", logo torturada para as pobres crianças a que interessam coisas mais ligadas ao quotidiano concreto…
      Ora, uma coisa é a essência dessas áreas, outra coisa é a metodologia que se usa para ensinar o conhecimento que agregam. Se hoje sabemos mais nesta matéria seria natural que ajustássemos as metodologias e não que afastássemos essas áreas. Se consideramos a metodologia do ensino do Latim errada, expulsamos o Latim do currículo. E a velha tendência de deitarmos a criança fora com a água do banho!
      Este desprezo pelo que é nuclear em termos civilizacionais não se deve apenas a modismos pedagógicos, embora eles tenham corroborado esse desprezo, há manifestos interesses de entidades, com peso crescente na definição do currículo, de deixar apenas e só o que entendem ser funcional. E que isso seja ensinado de modo “activo”, e colaborativo, com jogos e tic… A sociedade acha bem e a tutela legitima e assim estamos a preparar (quase) todos os nossos alunos para serem alegres funcionários…
      Maria Helena Damião

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