terça-feira, 22 de março de 2022

SONDA O MEU CORAÇÂO NO MEIO DA NOITE


 

CARLO ROVELLI E O MISTÉRIO DO TEMPO

 


Meu artigo no JORNAL DE LETRAS:

Carlo Rovelli (n. 1956, Verona), professor de Física Teórica na Universidade de Aix-Marseille, em Marselha, França, tornou-se, merecidamente, um dos cientistas mais populares do mundo. Para isso muito contribuiu o seu livro Sete Breves Lições de Física, saído no original italiano (a língua de Galileu) em 2014, que se revelou um best-seller mundial ao vender mais de um milhão de exemplares em 41 línguas. Na língua portuguesa, saiu na Objectiva no ano seguinte ao do original. Depois dessa surgiram A Ordem do Tempo (Objectiva, 2018) e A Realidade Não É O Que Parece: a natureza alucinante do universo (Contraponto, 2019). A quarta obra publicada entre nós foi Anaximandro de Mileto: ou o nascimento do pensamento científico (Edições 70, 1921), sobre o filósofo pré-socrático grego que foi percursor da ciência. Acaba de sair nesta mesma editora o quinto livro, E Se O Tempo Não Existisse?, em excelente tradução de Miguel Serras Pereira do francês Et si le temp n’éxistait pas?.

O extraordinário êxito de Rovelli deve-se não só à originalidade do seu pensamento científico, que ousa penetrar nas questões mais profundos do Universo, mas também à sua notável capacidade de comunicação, na forma escrita e oral, que está bem patente nos seus livros e nas suas conferências (assisti à que deu em 2019 na Aula Magna da Universidade de Lisboa, a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde «contracenou» com o físico norte-americano, também muito popular, Michio Kaku). No seu percurso científico, feito em Itália, Reino Unido, Estados Unidos e, mais recentemente, em França, Rovelli não hesitou em enfrentar os grandes segredos do Cosmos: o que são o espaço e o tempo? Como ligar a teoria quântica de Bohr, Heisenberg, Schroedinger et al. com a teoria da relatividade geral de Einstein, que trata da gravidade, formulando uma teoria da gravidade quântica? O que diz essa teoria sobre o Big Bang, a explosão inicial do Universo, e sobre os buracos negros, esses prodigiosos abismos cósmicos onde o espaço e o tempo se acabam?

O novo livro, que assume a forma de uma autobiografia,  discorre sobre todas essas questões. Rovelli formou-se em Física na Universidade de Bolonha, a mais antiga do mundo, e doutorou-se em 1986, na Universidade de Pádua, também muito antiga. Na sua juventude chegou a ser preso, por ter recusado prestar serviço militar, que era então obrigatório em Itália. Experimentou o LSD, que ele diz que o conduziu a uma suspensão do tempo. Fez depois trabalho pós-doutoral na Universidade Sapienza, em Roma, no Centro Internacional de Física Teórica, em Trieste, e na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Em 1988, com o norte-americano Lee Smolin e o indiano Abhay Ashtekar, formulou a «teoria da gravidade quântica em laços», que se apresenta como uma alternativa à «teoria das cordas», a teoria mais cultivada por aqueles que buscam unificar as forças fundamentais (tal unificação era um sonho de Einstein). A teoria da gravidade quântica em laços logo excitou a comunidade da física teórica. Ao passo que a teoria das cordas, baseada em simetrias, exige um espaço a dez dimensões (na sua versão mais comum), a teoria da gravidade quântica em laços não passa de uma teoria da gravidade quântica no espaço tridimensional, não pretendendo descrever as outras forças nem sequer as partículas elementares que formam a matéria conhecida. Rovelli conta em E Se O Tempo Não Existisse? que a sua teoria parte da «equação de Wheeler-de Witt», onde o tempo pura e simplesmente não aparece. E, nas soluções da equação, o espaço surge discreto, em vez de contínuo como normalmente se supõe, tendo uma estrutura em laços a uma escala muito pequena. As intersecções desses laços são os quanta, ou «grãos de energia», do campo gravítico, o domínio de influência da gravidade. De facto, na nova concepção, o espaço também desaparece, tal como o tempo, sendo substituído pelo campo gravítico granular. O físico italiano é o primeiro a reconhecer que as suas aproximações são, por enquanto, especulativas. Apesar de a teoria ser muito abstracta e exigir matemática avançada, o autor consegue comunicar o essencial dela sem usar uma única equação. Apresenta as suas ideias de um modo muito sugestivo à medida que narra a sua vida científica. Depois de Yale esteve dez anos em Pittsburgh, onde teve a oportunidade de cultivar, em paralelo com a gravidade quântica, o seu interesse pela história e filosofia da ciência, bem patente no livro sobre Anaximandro.

Mas, mesmo que se trate de uma ilusão, o tempo é um conceito bastante útil para descrever os fenómenos naturais à nossa volta. Já Camões dizia que «todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades». Falamos de «seta do tempo» porque distinguimos entre passado e futuro. Rovelli explica de uma maneira engenhosa o fluxo do tempo que vivenciamos: não existindo o tempo à escala fundamental, ele emerge à escala macroscópica. Conta como, regressado à Europa, desenvolveu, em conjunto com o matemático francês Alain Connes (medalha Fields, o equivalente ao Nobel), essa teoria da emergência do tempo. Como mostra esse encontro, a ciência faz-se em troca e confluência de ideias, em conversas criativas.

Rovelli discute, para além da criação científica, questões filosóficas, políticas, sociais e culturais relacionadas com a ciência. Refere, por exemplo, as diferenças culturais entre os Estados Unidos e a Europa. E faz uma defesa intransigente da unidade da cultura, onde evidentemente inclui a ciência. Para ele não há dúvida de que ciência e arte estão ligadas. Veja-se este passo no final: «Há tanta beleza, inteligência, humanidade e mistério numa página de Schubert como numa pagina de Einstein. Ambas são testemunhos de uma maneira de compreender a realidade, com profundidade ao mesmo tempo que com fragilidade e ligeireza. Gostava que os jovens aprendessem a apreciar as duas e em ambas descobrissem igualmente aas chaves paras compreender o mundo e de compreenderem a si mesmos.»

Se o autor conhece outras obras de Rovelli, tenho a certeza de que vai querer ler esta. Se não conhece, pode começar por esta, porque a seguir vai querer ler as outras.

GIORGIO PARISI E O ESTADO DA FÍSICA

 

 O italiano Giorgio Parisi, último Nobel da Física (metade), acaba de publicar um livro muito interessante na Gradiva, onde dá uma longa entrevista sobre a sua vida e sobre a ciência. Transcrevo aqui uma das respostas, esperando abrir o apetite para as demais:

 Como se pode resumir o estado actual da física?

 Devo dizer antes de mais que, nos dias de hoje, é difícil ter uma visão de conjunto da ciência: a quantidade de publicações é enorme: por exemplo, a cada ano são publicados mais de 100.000 artigos de física e 20.000 artigos de imunologia em revistas especializadas. Mesmo que procurasse seguir todas as novidades inerentes apenas nestes dois campos, teria diante de mim uma tarefa impossível. Tal produção científica deve-se ao número de cientistas vivos, que é superior ao dos cientistas defuntos: as pessoas que, neste momento, trabalham em instituições científicas são em maior número do que todas aquelas que, no total, trabalharam no passado, em toda a História da Humanidade. A impossibilidade de seguir a enorme massa de resultados obtidos leva a uma hiper-especialização e a uma fragmentação do saber, que são muito prejudiciais, mas também difíceis de evitar.

Além disso, uma plena compreensão dos processos históricos que conduziram à física contemporânea não pode ser obtida sem considerar aspectos sociológicos e, mais em geral, extra-científicos, dos cientistas europeus nos Estados Unidos e o nascimento contemporâneo da Big Science; as relações com as indústrias; a utilização dos resultados obtidos nos campos industrial, tecnológico e militar; a política de financiamentos e assim por diante.

No decurso do século XX, a física alcançou finalmente uma formulação completa e satisfatória das suas leis, pelo menos no que respeita à escala que interessa às normais actividades humanas, no intervalo
que vai da física nuclear e subnuclear (10-16 cm) até ao movimento das estrelas e das galáxias.

Parte dos problemas que estavam no auge há três décadas já se resolveu, como um ciclo que chegou à sua conclusão natural ERRO. Durante um longo espaço de tempo, um dos problemas-chave da física consistiu em encontrar as leis fundamentais da Natureza, ou seja, em procurar determinar os constituintes elementares da matéria e as forças que agiam entre elas. Ainda há 20  anos a estrutura dos constituintes do núcleo (protões e neutrões) e a origem das forças nucleares eram desconhecidas: discutia-se afincadamente se os quarks eram ou não os constituintes dos protões, ao mesmo tempo que não se tinha uma ideia precisa de qual era a natureza das forças que operavam entre estes hipotéticos quarks.

Agora sabemos quase tudo sobre os quarks e sobre as suas interacções: as leis da física, dos núcleos ERRO atómicos às galáxias, parecem ser temas consolidados e é opinião corrente que o futuro não deverá reservar surpresas (ou, pelo menos, a esmagadora maioria dos cientistas não as espera). Ao contrário, a escalas pequeníssimas (muito mais pequenas do que um núcleo atómico) ou a enormíssimas (o universo inteiro) ainda há muitas coisas que não compreendemos e, sob certos aspectos, tacteamos completamente na mais total ignorância.

A pequenas escalas (10-16 cm) os fenómenos observados podem descrever-se bem no quadro geral da mecânica quântica relativista. Em particular, parece já estar consolidado que a matéria nuclear é composta por quarks e gluões, que interagem segundo as leis da cromodinâmica quântica. Estas partículas, que não podem existir isoladas, combinando-se, dão origem ao protão, ao neutrão (com um raio de 10-13 cm) e sucessivamente aos núcleos atómicos; os mesmos são ainda responsáveis pelas forças entre os núcleos. As forças electromagnéticas e nucleares fracas estão bem descritas pela teoria de Sheldon Glashow, Steven Weinberg e Abdus Salam. As previsões da referida teoria e da cromodinâmica quântica foram confirmadas por numerosas experiências,  utilizando aceleradores de partículas a altíssima energia.

A mecânica quântica não relativista é essencial para compreender a formação dos átomos e das moléculas. Por exemplo, os espectros de emissão e de absorção da luz, medidos experimentalmente, estão em óptimo acordo com os cálculos teóricos (exactos quando é possível, noutros casos aproximados). As técnicas da mecânica estatística permitem estudar as propriedades de agregados macroscópicos de muitos átomos e, por conseguinte, a estrutura dos gases, líquidos e sólidos, as transições de fase e assim por diante.

A necessidade de explicar novos fenómenos (por exemplo, o efeito de Hall quântico ERRO) levaram à construção de teorias extremamente sofisticadas.

Prosseguindo em escalas cada vez maiores, as forças gravitacionais, na forma enunciada da relatividade geral, são capazes de explicar com uma precisão quase incrível o movimento dos planetas, estrelas e galáxias. A escalas ainda maiores, as dificuldades são essencialmente de natureza observacional (não conhecemos bem a estrutura do Universo e a distribuição das galáxias), mas não existem motivos fundamentados para supor que as leis da gravitação falhem a estas distâncias.

A situação muda se progredimos para escalas mais pequenas que 10-16 cm ou para escalas muito maiores que galáxias. Aqui há muitas coisas que não compreendemos. No que respeita às escalas pequenas, não sabemos se a lista de partículas que conhecemos está fundamentalmente completa ou se existem novas partículas relativamente leves (de massa de umas centenas de vezes inferior ao protão) não ainda observadas. Com efeito, o esquema teórico actual não parece ser completamente satisfatório, se extrapolado a distâncias muito mais pequenas que 10-16 cm (por exemplo, a 10-19 cm).

Uma modificação da teoria muito razoável (a supersimetria) leva quase a duplicar o número de partículas existentes, face àquelas conhecidas. É extremamente importante individualizar a existência de partículas previstas pela supersimetria e experiências muito complexas estão já em curso. O quadro teórico das leis a pequena escala é completamente distinto, consoante a hipótese de a supersimetria estar ou não correcta; e apenas as experiências nos poderão dizer qual das duas hipóteses estará certa.

A uma escala ainda mais pequena (10-33 cm) é necessário enfrentar os problemas ligados à quantização da gravidade. Aqui, a situação é ainda mais difícil, na medida em que não temos a possibilidade de realizar experiências. A única esperança é que as informações já adquiridas sobre a estrutura das partículas sejam suficientes para determinar de forma consistente a teoria também a estas escalas. Tal esperança tem origem, em parte, na extrema dificuldade existente na construção de teorias coerentes da gravidade quântica.

Alguns físicos esperam obter uma equação (ou um conjunto de equações), a partir da qual a estrutura das partículas observadas (quarks, leptões e bosões mediadores das interacções fundamentais), a sua massa e as suas propriedades serão dedutíveis, em linha de princípio e de acordo com a experiência: quer as leis gravitacionais quer as forças nucleares seriam descritas mediante um tratamento único. Se este objectivo for alcançado (teorias de grande unificação), poder-se-ia de alguma maneira pensar que a pesquisa das leis físicas fundamentais ficaria concluída, não tanto porque as eventuais leis propostas estivessem irrefutavelmente correctas, mas porque uma sua possível violação seria observável apenas em regiões de energia não acessíveis ao observador. Apenas o futuro poderá dizer se estaremos em condições de construir esta formidável síntese teórica (que é jocosamente denominada TOE, Theory Of Everything, teoria de tudo).

Se um projecto similar chegasse a ser concluído e se se encontrassem as leis que regulam o comportamento dos constituintes elementares da matéria, não seria preciso de qualquer maneira temer um eventual desemprego dos físicos. Com efeito, como já tive oportunidade de considerar, o conhecimento das leis de base não implica de todo a compreensão dos fenómenos. As leis da física são frequentemente formuladas como equações, cuja resolução permite em princípio calcular o movimento dos componentes do sistema físico considerado. Por exemplo, em astronomia, a lei da gravitação universal de Newton (a aceleração é proporcional ao inverso do quadrado da distância) determina as trajectórias das estrelas e dos planetas. Esta lei é conhecida há mais de três séculos. Desde então, gerações e gerações de astrónomos dedicaram-se a procurar algoritmos que permitissem calcular efectivamente a posição dos objectos astronómicos partindo dessa lei.

Para compreender bem a complexidade desta tarefa basta observar uma das imagens dos anéis de Saturno fotografados pela Voyager. Os anéis não são homogéneos: distinguem-se três; cada um divide-se numa miríade de anéis mais pequenos, separados por espaços vazios. Actualmente, parece razoável pensar que esta estrutura complicada é determinada pelos efeitos gravitacionais dos satélites de Saturno sobre asteróides minúsculos (por vezes com apenas algumas dezenas de metros de diâmetro) que compõem os mesmos anéis. Deduzir a forma destas subdivisões das leis de Newton é um dos problemas em aberto sobre os quais os astrónomos estão a trabalhar com persistência, embora prosseguindo com lentidão.

Dou um outro exemplo, desta vez num campo diferente da física: para além de cada dúvida razoável é sabido que, a uma escala microscópica, os electrões interagem repelindo-se com uma força inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles e que os seus movimentos estão regulados pela mecânica quântica. Neste quadro conceptual indiscutível, não é de todo evidente como e porque é que certos materiais se tornam supercondutores a uma temperatura relativamente elevada, ou seja, a apenas 180 graus Celsius abaixo de zero, e não perto do zero absoluto (-273 graus Celsius). A denominada supercondutividade a alta temperatura foi descoberta apenas recentemente e, não obstante a enorme massa de dados acumulados nestes últimos anos, estamos bastante longe de compreender a sua origem. Se bem que conheçamos as leis que regulam o comportamento de cada electrão, escapam-nos as causas da emergência desse comportamento colectivo dos electrões, que dá origem à supercondutividade.

A verdadeira dificuldade – que gostaria de reiterar – não está, por conseguinte, na formulação das leis fundamentais, mas em descobrir todas as consequências dessas leis e em construir, numa base puramente experimental ou em consequência das leis basilares, leis fenomenológicas do tipo: as molas alongam-se proporcionalmente à força aplicada. Este processo é cansativo e nem sempre é linear: aqui a metis grega desempenha um papel muito mais forte do que a sofia. Por outras palavras, uma abordagem dedutiva formal (adorada pelos matemáticos) na maior parte dos casos não leva a lado nenhum; é muito mais profícuo proceder por indícios e com base na intuição (como fazem os caçadores), formulando hipóteses de trabalho, cuja verificação é postergada, e efectuando várias simplificações. No final, obtém-se uma descrição nítida do fenómeno: chegados a este ponto, podem utilizar-se os usuais instrumentos lógico-dedutivos para construir uma teoria rigorosa.

Esta mistura de intuição e dedução permite fazer previsões sobre o comportamento dos sistemas físicos; previsões na maioria dos casos verificáveis. Lê-se frequentemente que a lei tal de fulano tal foi confirmada experimentalmente; mas a palavra teoria refere-se quase sempre não às leis de base, já para além de qualquer dúvida, mas a este procedimento, utilizado para deduzir as leis fenomenológicas.

Trata-se de um modus operandi que subsiste pelo menos desde o pós-guerra com a diferença que, enquanto nos anos 1950 não tínhamos uma ideia precisa daquilo que acontecia dentro do protão, agora sabemos, ou pelo menos acreditamos saber que um protão é composto por três quarks, que estes interagem com os gluões, no que diz respeito às interacções nucleares fortes, e com os bosões W e Z, no que respeita às interacções nucleares fracas.

As mudanças mais interessantes que ocorreram nestes anos dizem respeito seja ao tipo de leis fenomenológicas que se procuram obter, seja aos instrumentos conceptuais e concretos que se usam. Se a ciência, como dizia Bukharin, é um empreendimento prático que tem como objectivo o controlo (no sentido lato) da Natureza, os modos do seu desenvolvimento e as temáticas enfrentadas dependerão necessariamente dos problemas que a sociedade deve resolver e dos instrumentos técnicos à disposição.

Portanto, mesmo se por vezes sucede que algum físico se senta, como Alexandre Magno, a chorar diante do mar porque não há mais terras novas para conquistar, esta não é a sensação com que vive a maioria da comunidade científica.

Na verdade, o conhecimento das leis que operam entre os constituintes elementares de um sistema não implica de todo a compreensão do comportamento global. Por exemplo, não é fácil deduzir das forças que agem sobre moléculas de água a razão pela qual o gelo é mais leve que a água, que – ao contrário da maioria das substâncias – se torna menos densa quando é arrefecida abaixo dos 4 graus Celsius.

A resposta a este tipo de questões pode obter-se utilizando a mecânica estatística. Esta disciplina, que nasceu na transição entre o século passado e o início deste século, com os trabalhos de Boltzmann e Gibbs, tem por tarefa estudar o comportamento dos sistemas compostos por muitas partículas, não determinando a trajectória das partículas individuais, mas usando métodos probabilísticos.

Talvez o resultado mais interessante da mecânica estatística consista em ter compreendido de uma vez por todas como é que é possível a emergência dos comportamentos colectivos: enquanto para poucos átomos de água não estamos em condições de dizer se eles formam um sólido ou um líquido e qual é a temperatura de transição, afirmações semelhantes assumem uma natureza bastante precisa se considerarmos um grande número de átomos (com mais precisão, quando o número dos átomos tende para o infinito). As transições de fase nascem por conseguinte como efeito do comportamento colectivo de muitos componentes. Nos últimos decénios a mecânica estatística permitiu-se estudar as mais variadas transições de fase, nas quais nascem comportamentos colectivos distintos.

Hoje as capacidades preditivas da mecânica estatística estão muito aumentadas, seja pelo efeito de análises teóricas sempre mais refinadas, seja graças ao uso dos computadores que se revelaram  suportes válidos sobretudo na análise dos sistemas nos quais as leis são escolhidas de forma casual, ou seja os denominados sistemas desordenados (sobre os quais que já falei).

O FOTOGRAFO BERNARDINO PIRES DO PORTO

 




"E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer colisões, isso é… o LHC"

 


Ciclo Ciência às Seis (on-line) Na próxima terça-feira, dia 22 de Março às 18h realiza-se via plataforma Zoom, a palestra intitulada "E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer colisões, isso é… o LHC" com o físico André Tinoco Mendes do CERN e moderação de Carlos Fiolhais. 

 Sessão inserida no ciclo de divulgação científica "Ciência às Seis", iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, destinada ao público em geral interessado em cultura científica, de participação livre e gratuita, não sendo necessária inscrição. Acesso à sessão no Zoom: 



 ou ID da reunião: 897 7959 9745 16 

Resumo da Palestra: 

Foi no LHC, o maior acelerador de partículas de sempre, que foi descoberta a partícula de Higgs em 2013, feito que valeu o Prémio Nobel da Física aos dois físicos teóricos responsáveis pela sua previsão décadas atrás. Mas o que é o LHC? Para que serve? E o que fazem os milhares de físicos que lá trabalham? Agora que o acelerador está prestes a voltar a operar, após revisão, que resultados são esperados? 

 Breve Biografia:

 André Tinoco Mendes formou-se em Engenharia Física no Instituto Superior Técnico – IST em Lisboa no ano 2000 e doutorou-se em Física Experimental de Partículas também no IST em 2006. Trabalhou no LIP – Lisboa e está há mais de uma década a trabalhar no CERN, em Geneva , na Suíça. É líder de secção na equipa do detector CMS focado na actualização do calorímetro, um detector que apresenta vários desafios científicos e de engenharia. Entre 2015 e 2017, esteve no grupo do CMS que analisou a partícula de Higgs, em particular o seu decaimento em dois fotões. Esteve envolvido em combinações entre as equipas CMS e ATLAS, como a medição combinada do LHC da massa do bóson de Higgs. Os interesses de André incluem a divulgação científica e a utilidade do CERN para físicos de geral. É por isso que ele é guia oficial do CERN desde 2004 e esteve envolvido com a experiência CLOUD durante seis anos.

NOVA ATLANTIS

 A “Atlantís” disponibilizou o seu número mais recente (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review

v. 44 (2022)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

[Recensão a] BOSSI, Beatriz & ROBINSON, Thomas M. (eds.): Plato’s Statesman Revisited, Berlin-Boston, De Gruyter, 2018. pp. 360. ISBN: 978-311-060-46-34

Anna Pavani

[Recensão a] AMBURY, James M. & GERMAN, Andy (eds.): Knowledge and Ignorance of Self in Platonic Philosophy, Cambridge, Cambridge University Press, 2018. ‎284 p. ISBN: ‎ 978-1107184466

Alan Pichanick

[Recensão a] CARRILLO RODRÍGUEZ, Miriam: Muerte y ritual funerario en las Vidas Griegas de Plutarco, Zaragoza, Libros Pórtico, 2019, 101 pp. ISBN: 978-84-7956-193-2

Lucía P. Romero Mariscal

[Recensão a] JÚDICE, Nuno: Camões por cantos nunca dantes navegados, Lisboa, Sibila, 2019, 128 p. ISBN: 978-989-543-67-43

Rita Marnoto

segunda-feira, 21 de março de 2022

MORRER POR UMA IDEIA, POR UMA VISÃO OU POR UMA UTOPIA

Perguntaram um dia ao filósofo Bertrand Russell se seria capaz de morrer por uma ideia. Como filósofo cristalino e frontal, que era, respondeu sem hesitar:
“Não, porque poderia estar errado.” 
Irrefutável. Qualquer não fanático, com a mente asseada, sabe que pode sempre estar errado. Só os fanáticos acreditam em “verdades”. Os cientistas e os filósofos, não. Mesmo o mais notável pensador pode estar errado e o mais provável é estar. Portanto, se uma ideia pode estar errada, morrer por ela é um rotundo disparate. 

Mas, se não se deve morrer por uma ideia, muito menos se deve matar por ela. 

No entanto, é o que mais se tem visto por aí, desde tempos imemoriais. Muitos muçulmanos ainda hoje matam “infiéis”, isto é, gente que não acredita no que eles acreditam, como "verdade". Os jihadistas fazem-no com grande profusão e de boa consciência. Esses, ao menos, fazem-no pela medida grande: matam e matam-se, por uma crença, que teria alegadamente sido bichanada por Alá ao ouvido do seu profeta Mahomé. A Igreja Católica fê-lo também, com abundante derramamento de sangue – as cruzadas foram uma ignomínia – e puseram de pé um aparelho repressivo, chamado Inquisição, que torturou e matou, com sinistra eficácia, milhares de seres humanos a quem não fora dada a felicidade de acreditarem no mesmo em que ela acreditava e impunha que se acreditasse. 

Outras religiões, como o comunismo de Staline ou a revolução cultural de Mao fizeram o genocida Hitler quase parecer um menino de coro. Pol Pot, líder do Cambodja, liquidou, a bem da sua “verdade”, 1.5 a 2 milhões de compatriotas (um quarto da população do país). 

A dissidência tem sido um mau negócio para os que insistem em pensar pela sua cabeça.

Mais recentemente, apareceu Putine, com a desculpa esfarrapada de que estava a usar apenas uma “missão especial” devido ao desconforto de umas populações russas no sudeste da Ucrânia. A tal “missão especial” tem consistido em destruir um país lindíssimo, dotado de duas belíssimas cidades – Kiev e Odessa –, arrasando prédios de habitação, hospitais, maternidades, armazéns de alimentos e milhares de pessoas, mortas, além de para cima de três milhões desalojadas e exiladas. 

Um filósofo usando uma lógica simplista, sugeriria que em vez de uma guerra dantesca, ficava mais barato e destruía menos, enviarem os russos, de acordo com os ucranianos, uns transportes que levassem os ditos russos do sudeste da Ucrânia, para se estabelecerem nos vastos espaços desocupados da grande Rússia. Mas isto, além de ser demasiado simples, ia obviamente contra o “orgulho” próprio da utopia imperialista de Putine, uma das tais “ideias” pelas quais os tiranos não se importam de mandar matar, aos milhões, e destruir até perder de vista.

Eu acho que deve haver, nos habitáculos e labirintos da psiquiatria, um nome, para esta doença de que sofre o actual czar da Rússia. Há quem diga que não, que o rapaz é só muito “determinado”. Chamem-lhe o que quiserem. Uma junta médica não faria mal nenhum ao mundo. Para ele e outros que andam por aí. Há vários e são todos muito desnecessários.
Eugénio Lisboa

domingo, 20 de março de 2022

E sucedeu o contrário de tudo isto

Aproxima-se a estação vernal e a guerra continua na Ucrânia. Kiev está sob bombardeamento. Na noite, soam as sirenes e erguem-se clarões de luz. O dia é de crateras, nuvens de fumo, fissuras, escombros e pó. Os jardins estão enxameados de destroços, as casas arruinadas. As auroras são de um silêncio aterrador e os crepúsculos o prenúncio do inferno. 

Ao abrir o livro “O Diabo Solto em Moscovo” que contém, para além de uma autobiografia de Mikhail Bulgakov escrita por Homero Freitas de Andrade, a prosa autobiográfica do escritor russo, deparei-me com esta descrição onírica da cidade de Kiev, no império russo:

[Na primavera, os jardins desabrochavam em flores brancas, o Jardim do Tzar vestia-se de verde, o sol invadia todas as janelas, ateando incêndios atrás delas. E o Dniéper! E os crepúsculos! E o mosteiro de Vidubiétski nas encostas! O mar verde corria pelos degraus rumo ao plácido e multicolorido Dniéper. As densas noites negro-azuladas por sobre a água, a cruz de luzes da Catedral de Vladímir pendendo nas alturas…

Em suma, uma cidade maravilhosa, uma cidade feliz. A mãe das cidades russas. Porém, esses eram tempos lendários, tempos em que nos jardins da mais bela cidade da nossa terra vivia uma geração alentada, jovial. Foi quando nos corações dessa mesma geração nasceu a certeza de que a vida inteira passaria sem grandes atropelos, silenciosa e tranquila, auroras, crepúsculos, Dniéper, Kreschátik, ruas ensolaradas no verão, neve cálida, fofa, graúda e suave no inverno…

[…] e sucedeu o contrário de tudo isso.]

M. Bulgakov, em “A Cidade de Kiev”

Bulgakov, que considerava Kiev a mãe de todas as cidades da Rússia, era um monárquico moderado, atento aos movimentos ultrareaccionários e ultranacionalistas que aí proliferavam, no expirar do império russo. Os artistas também se envolveram nestes movimentos. Por exemplo, o escritor ultranacionalista Dmytro Dontsov, nascido em Melitopol, juntou-se em 1905 ao Partido Trabalhista Social Democrata Ucraniano. Antes, Volodymyr Vynnychenko (considerado por Ryszard Kapuscinski como o melhor escritor ucraniano a par de Mykola Khvylovy, da região de Sumy) alistara-se no Partido Revolucionário Ucraniano. Outro escritor ucraniano, Mykhailo Kotsiubynsky, criticou, ainda que timidamente, o czarismo e Lesya Ukrainka e Ilya Ehrenburg opuseram-se ao império russo, apoiando as teorias marxistas. Logo no primeiro romance de M. Bulgakov, “A Guarda Branca”, Kiev surge-nos desde o império russo, passando pela guerra civil, à revolução bolchevique. Durante a Primeira Guerra mundial, Bulgakov mudou-se para Tchernovtsy. Nessa altura a Ucrânia estava devastada pela guerra e ocupada pela Alemanha. Em 1917, os Románov caíram e foi criado um governo provisório liderado por Keriénski. No mesmo ano, em outubro, os bolcheviques chegaram ao poder, com V. Lenin e L. Trostsky, que nascera em Ianovka, na Ucrânia. Em novembro, o Conselho Central da República Popular da Ucrânia declarou a independência e, um mês depois, a República Soviética Ucraniana foi declarada em Kharkiv. Com o fim da Primeira Grande Guerra, o império russo, com a Ucrânia incluída, mergulhou numa guerra civil desde 1918 a 1921. Kiev era disputada pelos bolcheviques e pelos nacionalistas partidários da Petliúra (movimento independente da Ucrânia iniciado por Symon Petliura, que, imagine-se, perseguia os judeus). Entretanto, o Exército Vermelho, onde militava o poeta de Odessa, Eduard Bagrítzky, acabou por derrotar o Exército Branco, contra-revolucionário.  

A Crimeia, que fora entregue à Ucrânia em 1954, foi anexada pela Rússia, em 2014. Entre 1932-33, Estaline retirou a fértil estepe aos camponeses da Ucrânia, acabando estes por morrer à fome. Ainda assim, Estaline expandiu a área arável. Esta crise ficou conhecida por Holodomor. Os artistas, também aqui, não passaram ao lado da crise. O poeta Mykola Zerov foi condenado à morte, em 1937. Mykola Khvylovy suicidou-se em 1933, depois de preso, e Isaac Babel foi executado em 1940. Apesar disto, Ivan Kulyk e, sobretudo, o poeta Pavlo Tychyna, indicado ao Nobel, apoiaram o comunismo.

Outro escritor russo, Ivan Bunin, apaixonou-se pela Crimeia e por Odessa. Num dos seus contos, “Gália Ganskaia”, podemos ler: Não sei por que me lembrei da primavera de Odessa – disse o marinheiro. – Tu, como odessense melhor do que eu, evidentemente, conheces todas as suas maravilhosas especificidades – uma mistura de sol muito quente com um frescor marítimo ainda de inverno, um céu muito claro e nuvens marítimas primaveris.

A primavera está aí e, mais uma vez, quando não se esperava sucedeu o contrário da paz. É óbvio que a cultura dos dois países se cruza e que logo após o golpe de Estado de 2014 se cometeram excessos irreparáveis. Como escreveu Marina Tsvietaieva, ainda que em relação ao amor, a “solução está saturada” e a Ucrânia não é um “copo sem fundo”.

sexta-feira, 18 de março de 2022

CONSELHO DE UM GRANDE DRAMATURGO RUSSO AOS DRAMATURGOS DE TODO O MUNDO

SE NO PRIMEIRO ACTO COLOCAR UMA PISTOLA NA PAREDE, 
NO ACTO SEGUINTE ELA DEVE SER DISPARADA. 
CASO CONTRÁRIO, NÃO A COLOQUE LÁ.
Anton Tcheckov 

Quando Putine começou com os exercícios militares de grande dimensão, às portas da Ucrânia, lembrei-me muitas vezes deste conselho dado pelo grande dramaturgo de A GAIVOTA e tantas outras peças admiráveis, que vi encenadas por todo esse mundo fora. Pedi aos deuses todos do Olimpo que Tcheckov tivesse razão nos palcos dos teatros, mas não no palco da vida.

Lembrei-me também de Robert Openheimer, quando estava em Los Alamos, a dirigir a construção da bomba atómica, ter querido sossegar alguém, dizendo-lhe que uma arma tão destrutiva serviria só para dissuasão e nunca seria disparada. Esse alguém respondeu-lhe que, quando os militares dispunham de um brinquedo novo, nunca deixavam de o usar. 

Putine deu razão a Tcheckov, mostrando que seria má construção dramática exibir uma arma no primeiro acto e não a disparar no segundo. Devemos ler os clássicos com mais atenção. Mas deu também razão ao interlocutor do pai da bomba atómica, ao notar que os militares não gostavam de desperdiçar dinheiro numa arma de destruição, sem depois, a usarem.

Preocupa-me que Putine tenha falado em armas nucleares. O acto que se segue pode ser um apocalipse. 

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 17 de março de 2022

"És capaz de parar de ler esse livro idiota?"

A evolução da "narrativa" da dita Educação do século XXI/do futuro e das medidas "pedagógicas" que dela decorrem, cuja implantação em diversos países é bem observável, transporta-nos, inevitavelmente, para uma certa ficção disruptiva saída da pena de diversos escritores. Ficção que, note-se, construiriam, com imaginação, a partir da realidade e do que ela lhes sugeria.

Isaac Asimov foi um desses perspicazes escritores. Escreveu, designadamente, sobre os contestáveis fins da educação (formal) e os estranhos modos de o concretizar. Num conto saído em 1957 com o título A profissão – o primeiro no alinhamento da obra Nove amanhãs – faz, além do mais, uma brilhante abordagem sobre o lugar do livro e da leitura, do estudo individual, sempre difícil, demorado e caro, na aprendizagem para... se aprender mais! E que sentido tem aprender-se mais? Hábito, necessidade... faculdade de criação... são razões que perpassam no conto. Mas quem as percebe?

(…) gritou para Omani: És capaz de parar de ler esse livro idiota? 
Omani virou a página e leu ainda algumas palavras, depois levantou a cabeça (...) e disse: O quê? O que é que tu ganhas em ler esse livro? – Avançou e bufou. 
– Mais electrónica – E arrancou-o das mãos de Omani.
Omani levantou-se devagar e apanhou o livro. Endireitou uma página amarrotada sem visível rancor. 
– Chama-lhe satisfação da curiosidade – disse – aprendo alguma coisa hoje, talvez um pouco mais amanhã. De certa forma é uma vitória. 
– Uma vitória. Que espécie de vitória? É isso que te satisfaz na vida? Chegares a saber o suficiente para seres um quarto de engenheiro electrónico registado quando já tiveres 65 anos? 
– Talvez quando tiver 35.
– E nessa altura quem é que te quererá? Quem é que te vai usar? Para onde é que vais? 
– Ninguém. Ninguém. Para lado nenhum. Ficarei aqui a ler outros livros. 
– E isso satisfaz-te? Diz-me! Tu arrastaste-me para a aula. Fizeste-me ler e memorizar, também. Para quê? Nada disso me satisfaz.
– O que é que ganhas em negar-te a satisfação?
– O que te estou dizendo é que desisto desta farsa. Vou fazer o que sempre planeei fazer desde o início, antes de me teres convencido com tua conversa mansa (…)".

O USO DAS PALAVRAS

Dedico este poema ao futuro carrasco de Putine.

Canta a guerra quem não vai à guerra
e vai à guerra só quem a não canta:
quem é pela guerra a verdade enterra
e a mentira, em solo fértil, planta.

Com a mentira, os que não morrem
matam os que morrem antes de terem vivido.
Com palavras, eles arrebatam
quem nelas não vê o vero sentido.

Com palavras, se mata e se morre,
que as palavras são balas também:
das palavras, há sangue que escorre,

visto que balas não poupam ninguém.
Com as palavras, tudo se obtém,
dão-nos o sublime e o horror também!

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 16 de março de 2022

Sobre a coragem em tempos sombrios


Uma jornalista, filha de pai russo e mãe ucraniana, entrou inesperadamente num telejornal do principal canal da televisão russa. Desenrolou um cartaz escrito à mão onde denunciava a manipulação da verdade a que a comunicação social é obrigada, ajustou-se no espaço de modo que a mensagem fosse lida, demorou-se alguns segundos e saiu. Antes havia gravado uma mensagem em vídeo para explicar o seu acto bem consciente. Esperava-a, como é bom de ver, a prisão... Por ser um acto único, teve as atenções (e os elogios) do mundo. É um acto, que como outros desencadeados por valores que valem, colocam em perigo quem decide concretizá-los. Interroga-nos, de modo muito incisivo, sobre a nossa própria coragem para agir em circunstâncias adversas. Eis o que George Steiner diz sobre essa incómoda interrogação, que foi sua durante toda a vida:

... atormentavam-me as reacções que teria podido ter em certas condições: como me comportaria se a Gestapo batesse à porta? O que é ser torturado? Como reagir frente a essa obscenidade extrema que é a tortura? Ninguém, a menos estar seguro dos seus actos, pode responder (...). A minha posição é confusa: sou um intelectual que não teve qualquer preparação que lhe permita enfrentar a violência (...)Só posso repetir e sublinhar que não sei e que invejo os homens e as mulheres que sabem. 
Arthur Kostler não atribuía um átomo de importância ao facto de ser considerado um dos homens mais célebres do século XX. O que contava para ele era ter sido capaz de aguentar quando na prisão franquista de Málaga, estava à espera de ser fuzilado. Ele sabia. Quando me contava estas coisas, eu não podia deixar de achar que era uma experiência maravilhosa (...). 
Admiro igualmente Marc Bloch (...) que foi fuzilado pelos alemães. Entre os condenados estava um rapazinho de treze ou catorze anos que estava cheio de medo e no momento em que iam ser passados pelas armas, Marc Bloch deu-lhe a mão e pediu aos alemães que os deixassem morrer assim. Tendo obtido o acordo deles, Marc Bloch segredou ao ouvido do rapaz que era um professor célebre e prometeu-lhe que a execução não seria dolorosa. O rapaz acalmou-se. O meu próprio sonho seria ter tanta coragem como Marc Bloch, mas não faço a menor ideia do que sentiu (...) Como nos comportamos quando o momento chegar? (...) 
Os meus amigos do liceu Jeason-de-Sailly e os do liceu francês de Nova Iorque morreram nos fornos crematórios. Foram presos no Velódromo de Inverno de Paris, ao passo que eu escapei por uma sorte raríssima. Tenho por isso o dever de falar deles e por eles (...) Não tenho vivido até hoje neste luxo extraordinário que é a segurança? 
Steiner, G. & Jahanbegloo, R. (2000). Quatro entrevistas com Georges Steiner. Lisboa: Fenda, pp. 70-73.

segunda-feira, 14 de março de 2022

OS FRUTOS DA GUERRA

O horror tornou-se quotidiano, 
a destruição transformou-se em hábito,
o mundo foi ficando kafkiano, 
o morrer, agora, volveu-se súbito,

as lindas crianças servem de alvo,
e os olhos das mães gritam de espanto!
Se nada do que temos está a salvo,
fina-se a fala e também o canto.

A morte agora veste-se de aço 
e vomita incêndio majestoso:
volatiliza com desembaraço

o museu, o palácio esplendoroso,
o hospital, o armazém, a praça
e tudo quanto o horror devassa! 

Eugénio Lisboa

sexta-feira, 11 de março de 2022

O comboio rufa

O comboio rufa e vou, com os lábios apegados à janela, preso aos matos densos, aos milheirais, às espigas verdes, aos riachos, às aldeias magoadas e à inércia dos rios margeados de faúlha, onde corre um ou outro carro desancando a paz dos pinhais intransitáveis. Em seguida, e com os dois bilhetes furados na mão, o pai abre-me o seu mundo: – Aqui é Liceia… aqui é Santana, terra de música. Têm aí uma banda que já foi à festa da Nossa Senhora das Neves. Não se chega à dos Covões, mas é uma boa banda. Aqui é o apeadeiro de Costeira. Aqui é o apeadeiro de Alhadas. Olha, ali é a serra!?... E agora vem aí a noite na brenha… Pendente, nas pedras húmidas, nos musgos e na vertigem da velocidade, cerro os olhos e abro-os, quando o pai grita: – Olha a ponte e o rio da cidade dos capelos! e, neste momento, subo aos pilares de metal e desço aos pauis, e do lado esquerdo, contornando a cabeça de uma mulher idosa, vejo a serra e os pinheiros bravos, subindo em cascata ao céu cendrado. Além da serra, haveria mais tarde de ver o meu anjo. Haveríamos de parar para nos conhecermos. Mas, hoje, o dia é de praia e a névoa desvanece-se. Há comboios partindo para Alfarelos, para Coimbra, para os confins do mundo. Há hangares com comboios caducos, ferro marrom, troços espessos de eucaliptos e uma estação com uma latrina cheia de merda e papel higiénico, sem fechadura. Rodo o autoclismo e urino, sob o olhar do pai, que desabafa: – Já está, ou não? Deixa tudo limpo, rapaz! Abriste a água, não abriste?! Fecha bem as torneiras! e eu, sem lavar sequer as mãos, digo em surdina (é assim que falo, assim, como uma boca senil, inspirando ar para falar): – Já, pai. Tomamos o pequeno-almoço, no bar da estação. O pai pediu leite morno e eu pedi um bolo de arroz. Agora, vamos, pela margem do Mondego, observando o revoluteio das gaivotas ao redor dos navios alvos ancorados e das tábuas, carcomidas e atafulhadas de cordas e silêncio, a água escura e as canas inclinadas dos pescadores de robalo, com baldes com camarões e encafuados em botas de borracha, descortinando na corrente algum sigilo. Só os guinchos me apoquentam, de tal modo que à indagação do pai: – É maravilhoso, não é?! Agora ficarias aí o dia todo…, eu, amuado e leviano, sacudo os ombros e balbucio interjeições: – Oh... oh! Abeiramo-nos do mercado municipal. O fedor a merda de cão, à entrada, é de tal modo repugnante e nauseabundo que estugo o passo, e entro, cheirando a fragrância dos morangos, das nectarinas, das uvas pretas de moscatel e das pinhas de ananases, enquanto as feirantes, espevitadas e desenvoltas, namoram o pai: – Olhe, leve para o seu neto! Que olhos lindos ele tem! Azuis, como os seus. Leve, homem, que é uma pechincha! e o pai, sem as corrigir e todo transido de orgulho: – Vim mostrar isto ao rapaz e comprar um chapéu para o sol. Sabe que o sol é perigoso nesta idade… Olhe, chapéus é ao fundo, ali ao lado do peixe. Invade-me, de novo, a salmoura, os pregões das peixeiras e o sangue de peixe, escorrendo pelas batas dos peixeiros espadaúdos que ostentam, nas mãos, olhares desorbitados, e que, com facalhões, cortam às postas peixe-espada e mexem em carapaus e sardas imersas em água e gelo. Caminhamos, de novo, sobre o sal, correndo pelo chão, e com os meus chinelos chapinando na imundície. Caminhamos até à barraca dos bonés de todas as cores, onde uma mulher baixa, vestida de negro e resoluta, fixa em mim uns olhos conspícuos e escuros: – É para o rapaz? É, sim senhora. E de qual é que ele gosta mais? Diz lá, amor?! e, passando-me a mão pelo cabelo, continua: – Gostas mais do verde, do vermelho ou do azul? e eu desembucho, tímido e atarantado: – Vermelho. – És do Benfica, não és? – Sou! Ah, que lindo menino!  e, entrementes, o pai, com minúcia, retira da carteira uma nota para pagar à mulherzinha o boné. Já com o boné vermelho espetado na cabeça, e, deixando os despojos dos cães e os ramos dos abrunheiros-dos-jardins, soergo a cabeça para o farol encarnado, o pai agarra-me pelo braço e guia-me até ao estuário, como se andasse nas trevas. Ali permaneço, alguns minutos, especado e absorto, a ver as ondas rebentar, nos recifes negros, e a boca exígua do rio a encher suavemente, graças às vagas do indomável mar. Ali permaneço, a ver o denodo dos pescadores, pregados aos escolhos, e, como se o rugido não lhes varasse o corpo, enrolando papel, retirando tabaco das onças, abandonando o cigarro num canto da boca e soltando palavras inaudíveis, sempre com o olho na cana, na maré e nos traseiros das jovens que correm no passeio.

terça-feira, 8 de março de 2022

DO BOM USO DE VICTOR HUGO

 Novo texto de Eugénio Lisboa, com poema de Victor Hugo:


Victor Hugo é sobretudo conhecido dos leitores portugueses pelos seus romances NOTRE DAME DE PARIS (O CORCUNDA DE NOTRE DAME), LES MISÈRABLES, L’HOMME QUI RIT, QUATRE VINGT TREIZE e LES TRAVAILLEURS DE LA MER, todos eles traduzidos em português. No entanto, o autor de LES MISÉRABLES é também um enorme poeta francês. André Gide, exigente e bem informado leitor de poesia (a sua ANTHOLOGIE DE LA POÉSIE FRANÇAISE, publicada na Bibliothèque de la Pléiade, é justamente célebre), considerava-o - quase a contragosto, mas considerava-o – o maior poeta francês: grande lírico, grande épico, grande e castigador satírico.

Destemido combatente de grandes causas, o seu frontal ataque a Napoleão, o Pequeno, obrigou-o a um longo exílio, primeiro, em Bruxelas (1851) e depois em Guernesey (1855). Foi, durante o exílio em Bruxelas que publicou a sua recolha de poesia – LES CHÂTIMENS  (1853), que foi parte desse combate. Deste livro, disse Émile Faguet, conhecido crítico do século XIX: “LES CHÂTIMENTS tem partes maravilhosas, onde Hugo ultrapassa tudo, onde faz recuar todos os limites da poesia eloquente, onde quase inventa (…) um novo género: a sátira lírica, a imprecação sagrada, a verdadeira Nemésis. É deste livro que traduzo um pequeno excerto (tradução um bocadinho livre, mas só um bocadinho). Dedico-a, desta vez, aos muitos russos decentes, que senão reveem neste actual regime de Putine, que tudo atropela, direitos, humanidade, ética, decência. Não me custa aceitar que se sintam, em relação ao seu governo, como Hugo se sentia em relação a Napoleão, o Pequeno, e que este eloquente livro tão bem traduz.

 

UM PEQUENO EXCERTO DE LES CHÂTIMENTS

DEDICADO AOS MUITOS CIDADÃOS RUSSOS DECENTES

 

POSTO QUE O JUSTO ESTÁ NO ABISMO,

POSTO QUE DÃO O CEPTRO AO SADISMO,

POSTO QUE OS DIREITOS SÃO VIOLADOS

E OS ALTIVOS FICAM CALADOS,

PORQUE, EM TODO O LADO SE DIZ

A DESHONRA DO MEU PAÍS 

(…………………………………)

PORQUE AS ALMAS ESTÃO ABALADAS,

PORQUE SE HESITA E, OLVIDADOS

O EXACTO, O PURO, O GRANDE, O BELO,

OS OLHOS IRADOS DA HISTÓRIA,

A HONRA, A LEI, DIREITO E GLÓRIA

E TANTOS MORTOS SEM APELO

 

QUE EXÍLIO E DOR NÃO TEMA!

TRISTEZA SÊ MEU DIADEMA!

Mario Novello - Quantum e Cosmos

NOVIDADES DA GRADIVA


Explicar os Humanos

Camilla Pang

€15,00

VENCEDOR DO PRÉMIO ROYAL SOCIETY INSIGHT INVESTMENT SCIENCE BOOK 2020

Diagnosticada com uma perturbação do espectro do autismo aos oito anos de idade, Camilla Pang tem lutado para compreender o mundo à sua volta. Deses­perada ­por ­uma ­solução, Camilla perguntou à mãe se não haveria um manual de instruções para humanos que ela pudesse consultar. Sem ter o plano da vida humana por que ansiava, Camilla começou a criar um por si própria.

Na posse de um doutoramento em bioquímica e dos «superpoderes» que ele lhe conferia para entender a neurodiversidade, Camilla desmontou as nossas práticas sociais e costumes e, usando a sua experiência única e a linguagem da ciência, que domina,­ identificou­ o­ que­ significa,­ de­ facto,­ ser humano. Explicar os Humanos, escrito­ de ­fora ­para ­dentro, isto é, tendo a autora como primeira destinatária da sua leitura, é uma explicação tão original quanto ­incisiva da ­natureza­ humana e ­da ­estranheza­ de­ algumas­ normas­ sociais.­ A­ perspectiva­ singular­ que ­Camilla ­tem ­do mundo diz ­muito ­sobre todos nós a cada um de nós, constituindo um guia fascinante­ para ­uma ­vida coerente ­e ­feliz

https://www.gradiva.pt/catalogo/54778/explicar-os-humanos-

VEJA AQUI A ENTREVISTA COM A AUTORA - https://www.youtube.com/watch?v=N9dzOD4ByK0

 

Cabra-Cega

Roger Vailland

€15,00

«Uma das mais marcantes leituras do final da minha adolescência. Outros tempos na nossa Terra que o romance, apaixonante, de Roger Vailland, de alguma forma evocava. A valentia, a dignidade, a coragem, o desejo, a traição, num turbilhão de empolgante leitura. Um livro que é também um retrato de Vailland, intelectual, libertino, resistente, militante clandestino nos anos de brasa da ocupação alemã. Um homem que mesmo na fase em que foi comunista nunca deixou de pensar pela sua cabeça e de ser um homem de liberdade. Uma leitura que recomendo muito vivamente.»

 João Barroso Soares

O romance Cabra-Cega foi publicado imediatamente após o final da Segunda Guerra Mundial, e recebeu, ainda em 1945, o importante prémio Interallié.  É considerado o grande romance da resistência francesa. É certo que o autor fez questão de o classificar como obra de ficção. Mas não é menos verdade que Vailland fizera parte da resistência francesa e que o livro tem por isso uma autenticidade muito especial, que faz dele uma espécie de ficção-verdade.  Na França ocupada, alguns homens jogam, como que independentemente das suas vontades, o jogo perigoso da resistência armada e da paixão amorosa. O libertino Marat, o romântico Rodrigue, o ingénuo Frédéric vivem a actividade terrorista como um ofício tirânico, onde o risco é a regra do dia-a-dia. Cabra-Cega desenha-nos, com um misto de lucidez cínica, de pequenos apontamentos psicológicos e até de reflexão política, o quadro pitoresco de uma Paris em que patriotas e colaboracionistas tentavam esquecer, muitas vezes nos mesmos locais, aquilo que o amanhã podia reservar-lhes. Cabra-Cega relata-nos o envolvimento de muita gente nas teias da resistência mesmo não sendo filiados em qualquer partido político.  Mas, aderindo à causa passando por todos os perigos, usando todos estratagemas desde documentos falsos, moradas clandestinas, sempre jogando o jogo do inimigo, uma caça do gato e do rato que a Gestapo jogava muito bem.

https://www.gradiva.pt/catalogo/54779/cabra-cega


Tango 4 - Dobro ou Nada em Quito

Philippe Xavier, Matz

€16,50

Uma viagem de lazer é habitualmente pontuada por episódios agradáveis, locais desconhecidos e oportunidades fotográficas…
Por vezes, também há surpresas desagradáveis…
Quando Tango e Mario fazem escala no Equador, o que acumulam são inimigos mortais. Não há tempo para turismo: é preciso salvar a própria pele e a de quem vem em seu auxílio…

https://www.gradiva.pt/catalogo/54780/tango-4---dobro-ou-nada-em-quito

LEIA AQUI AS PRIMEIRAS PÁGINAS - https://www.gradiva.pt/media/5160/tango_04.pdf


Alix Senator 3

Valérie Mangin, Thierry Démarez

€16,50

 

Roma, ano 12 a.C. O imperador Augusto é todo-poderoso. Alix tem mais de cinquenta anos e é senador.
Recém-regressado do Egipto, vê-se obrigado a afrontar a corte imperial. Augusto não lhe perdoa ter poupado e reabilitado Enak, que em tempos o traíra em favor de Cleópatra. Começa então para o senador e os seus filhos uma lenta mas inexorável descida aos infernos. Nada parece poder salvá-los, exceto talvez a misteriosa Conjura das Rapaces, disposta a tudo para assassinar o imperador.

https://www.gradiva.pt/catalogo/54781/alix-senator-3-

LEIA AQUI AS PRIMEIRAS PÁGINAS - https://www.gradiva.pt/media/5159/alix_senator_3.pdf

 

DISPONÍVEIS A 22 DE MARÇO

 

O Estranho Mundo do Confinamento

Maria do Céu Machado, Maria Leonor Duarte de Almeida

€16,50

 

«Esta estranha história desenrola-se de meados do século XX aos nossos dias. Emoções, paixões escondidas, incoerências, evolução civilizacional e o seu retrocesso constituem a trama do livro. Questões de «confinamentos» vários – sociais, políticos, económicos, educacionais e de cultura – são abordadas tendo como pano de fundo a pulseira electrónica da pandemia.»

Leonor Duarte de Almeida

«Em plena pandemia, esta é a história de quatro gerações de uma família lisboeta: as memórias dos mais velhos, os pesadelos dos mais frágeis, a insegurança das relações e a ambivalência dos adolescentes suspirando por autonomia e independência que acrescente risco ao seu dia-a-dia.»

Maria do Céu Machado

https://www.gradiva.pt/catalogo/54795/o-estranho-mundo-do-confinamento-

 

A Chave, a Luz e o Bêbado

Giorgio Parisi

€14,50

PRÉMIO NOBEL DA FÍSICA 2021 PELOS SEUS ESTUDOS DE SISTEMAS COMPLEXOS

«Vem-me à cabeça uma velha anedota. Um bêbado, de noite, põe-se à procura de uma chave por baixo de um candeeiro de rua. Chega uma pessoa que o ajuda. Mas, não encontrando nada, pergunta-lhe se tem a certeza de ter perdido ali a chave. O bêbado responde-lhe que, na verdade, a chave foi perdida do outro lado da estrada, mas que lá não havia luz.»

Com este exemplo divertido, Parisi explica como se desenvolve a investigação científica fundamental. E acrescenta: «Os cientistas fazem as coisas que conseguem fazer. Quando se dão conta de que dispõem dos meios para estudar alguma coisa que até ao momento tinha sido deixada de lado, então empenham-se nessa via.» Numa conversa animada muito compreensível, um dos mais extraordinários físicos teóricos da actualidade conta como a física evoluiu modernamente, de que problemas se ocupa, que interacções existem entre a pesquisa de base e o desenvolvimento tecnológico, que cenários se poderão abrir na sinergia entre a física dos sistemas complexos e a biologia.

https://www.gradiva.pt/catalogo/54797/a-chave-a-luz-e-o-bebado-

Apolo

Luc Ferry, Clotilde Bruneau, Luca Erbetta

€16,50

Um novo título da colecção Sabedoria dos Mitos dirigida por Luc Ferry.

APOLO. Filho de Zeus e Leto, irmão gémeo de Ártemis, Apolo é considerado o mais sedutor de todos os olimpianos e encarna tanto a luz ofuscante como as belas-artes, a medicina e a beleza.

Percorrendo o mundo na sua quadriga, sempre acompanhado da lira e do arco infalível, Apolo protege o cosmos do caos e procura estabelecer a ordem e a harmonia em todas as coisas e circunstâncias. É também capaz de adivinhação e prodigaliza-a nos seus oráculos espalhados por toda a Grécia, em templos que lhe são consagrados, e em particular em Delfos, onde a Pitonisa revela a sua palavra.

Mas é também um deus complexo, fascinante, intolerante e arrogante, e são muitos os que testemunham a sua cólera terrível por terem ousado desafiá-lo, incluindo os seus congéneres divinos...

https://www.gradiva.pt/catalogo/54798/apolo

segunda-feira, 7 de março de 2022

SONETO DO FÉRTIL DESESPERO

 

Outro poema de Eugénio Lisboa, inspirado pela guerra:

 

Dá-me, Musa, do verbo, a indignação,

o verbo bem duro e assassino,

que alimente fúria e acção

e oponha justiça ao desatino.

 

Dá-me, ó Musa, o verbo eloquente,

a força destemida da resposta,

que saiba opor à fúria do demente

a razão, à loucura, sobreposta.

 

Um povo tão pequeno e destemido,

mal armado e mal alimentado,

defendendo um país destruído,

 

dá tudo o que tem e o que não tem,

com desespero augusto e consumado,

e à morte que vier diz Amém!


Eugénio Lisboa


Dedico este soneto à homérica coragem do povo ucraniano, nesta hora histórica, em que se espera que a infâmia morra às mãos da fisga de David.

sábado, 5 de março de 2022

Ciclo "O Laboratório de Física: Ontem, Hoje e Amanhã"




Na próxima terça-feira, dia 8 de Março às 18h realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "A investigação em Física na UC no final do século XX" com o físico Carlos Fiolhais. Sessão inserida no ciclo de palestras "O Laboratório de Física – Ontem, Hoje e Amanhã” e integrada na 24ª Semana Cultural da Universidade de Coimbra, é de participação livre e gratuita.


Ainda no âmbito dos 250 anos da criação do Gabinete de Física Experimental, encontra-se patente no r/c do Departamento de Física da UC, a Exposição "O Laboratório de Física da Universidade de Coimbra: 1900-1975" que pode ser visitada de forma livre e gratuita até 30 de Abril de 2022.

 

OLHE LÁ, VOCÊ ...

Isaltina Martins e Maria Helena Damião Num texto ainda recente com o título O 'Você' (ver aqui ), Jorge Mangorrinha, pós-doutorado ...