quarta-feira, 25 de março de 2020

ÁGUAS TURVAS: regime de excepção global, medidas à toa de inspiração local

Texto de Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, antes publicado no diário "As Beiras".

Das notícias, respigadas aqui e além, de forma aleatória:
“Os consumos domésticos de água disparam”. 
Madeira: Consumo de água subiu 30% numa semana.” 
 Penacova: Taxas por serviços não prestados ‘apimentam’ as facturas da APIN.” 
Penacova: As ‘facturas de transição’ da APIN apresentam consumos excessivos muito distantes dos consumos reais (nalguns casos 180 mou mais… a mais). 
 “Lisboa: A Empresa Portuguesa de Águas Livres (EPAL)… também decidiu suspender os cortes no fornecimento de água durante a actual pandemia, caso os clientes não consigam pagar a factura.” 
Mação: O Município irá isentar de pagamento o valor correspondente ao consumo de abastecimento de água, saneamento de águas residuais e gestão dos resíduos urbanos do mês de Março de 2020 a todos os consumidores do concelho.” 
COVID-19 na Marinha Grande: “Isenção de 50% do valor das facturas de consumo de água de Março e Abril aos consumidores domésticos” 
“Covid-19. Alcochete vai reduzir tarifa da água por tempo indeterminado.” 
“Covid-19: Coligação «Servir Portimão» propõe isenção de taxas e tarifas municipais de água durante os meses de Março e Abril.” 
Montalegre – Câmara decidiu isenção do pagamento das facturas de água, relativas ao período entre 17 de Março e 17 de Junho, como forma de apoiar as famílias e as empresas do concelho. Decidiu ainda prorrogar o prazo de pagamento da factura da água do mês de Fevereiro para 90 dias. 
Figueiró dos Vinhos‎ – Redução em 50% da factura da água, saneamento e resíduos para todos os munícipes e empresas do concelho. 
Condeixa-a-Nova – Câmara dá desconto de 50% no fornecimento de água durante os próximos meses a todos os consumidores. 
“Maia: Isenção da componente fixa da tarifa da água, saneamento e resíduos.” 
“Governo da Madeira isenta população do pagamento de água e luz devido à pandemia de coronavírus.” 
Covid-19. Quase 150 mil já assinaram petição para suspender cobrança de rendas e serviços de água, luz e gás…” 
Emannuel Macron: Contas de água …  devem ser suspensas para que os trabalhadores não fiquem sem os recursos necessários. Criar-se-á um fundo de solidariedade através de um financiamento do Estado.” 
Espanha: As medidas de suspensão de pagamento da água, demais serviços essenciais e hipotecas vão hoje a Conselho de Ministros.”
Já nestas páginas escrevemos:
“A comunidade internacional reconheceu o direito à água e saneamento como direito humano 
A 28 de Julho de 2010, a Assembleia-Geral das Nações Unidas adoptou uma resolução na qual reconhece a água potável e o saneamento como um direito humano essencial para o pleno gozo da vida e de todos os direitos humanos, tendo instado os Estados e organizações internacionais a assegurar os recursos financeiros, formação e transferência de tecnologias necessários, através de assistência e cooperação internacionais, com vista a melhorar o acesso à água e ao saneamento. 
A 30 de Setembro de 2010, O Conselho de Direitos Humanos da ONU

· reafirmou a decisão  e

· destacou que o direito à água e saneamento constitui componente do direito a um nível de vida adequado, tal como o direito à habitação ou à alimentação.

O Conselho colocou destarte O DIREITO À ÁGUA E SANEAMENTO em pé de igualdade com um conjunto de outros direitos humanos outrora reconhecidos.”
Em França, por exemplo, proibidos se acham os “cortes” por virtude do não pagamento de uma qualquer factura.

Não podem as entidades gestoras dos serviços de distribuição predial de águas usar da “excepção de não cumprimento” para suspender o fornecimento. Exactamente por se tratar de DIREITO HUMANO. A discussão sobre o pagamento far-se-á sempre noutra sede com os instrumentos de que dispõem os fornecedores para não se verem privados dos valores que lhes competem pelo fornecimento.

Para além de medidas avulsas, adoptadas localmente, Portugal, ao invés, entre outros, de Espanha e da França, não tem, ao que parece, uma política firme, em particular no que tange à água.

Cada uma das entidades gestoras age a seu bel talante.

Umas reduzem o tarifário. Outras isentam de pagamento durante um dado período. Outras excluem a tarifa fixa que é, em si mesma, ilegal por se tratar de um consumo mínimo proibido. Outras ainda diferem o pagamento da factura de Fevereiro e, eventualmente, a de Março…

Enfim… algo que se prende, afinal, com o núcleo dos serviços públicos essenciais que deveria estar na mira do Governo, que não ao livre alvedrio de cada uma das entidades titulares dos serviços ou deles gestoras, por forma a não criar uma profunda assimetria na mole imensa de consumidores que de Vila Real a Vila Real de Santo António e da Figueira da Foz a Figueira de Castelo Rodrigo se expõem à nula intervenção de quem de direito e a medidas outras pontuais que ferem de morte todos os princípios, mormente o da protecção dos seus interesses económicos e o da igualdade perante a lei.
Há coisas que são elementares. Não podem cair em olvido. Porque se prendem com o quotidiano de cada um e de todos.

Reverbere-se a omissão.

Mário Frota
apDC – DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

MARIO BUNGE (1919-2020)


Com a bonita idade de cem anos faleceu recentemente o físico e filósofo de ciência Mario Bunge. Conheci-o pessoalmente quando ele um dia visitou a Universidade de Coimbra coma mulher. Gostou tanto que queria cá ficar. Mas Portugal não tinha condições para lhe fazer uma proposta como não teve ao seu mestre, o físico Guido Beck, que durante a Segunda Guerra foi de Portugal para a Argentina, onde Bunge nasceu.  Bunge é um exemplo de clareza na escrita filosófica. E é um exemplo no combate à pseudo-ciência. Traduzi e publiquei um artigo seu sobre a teoria quântica na Gazeta de Física. Eis uma nota sobre ele que me chegou do meu colega Michael Matthews, da Austrália:

  Mario Bunge, the centenarian Argentine/Canadian physicist/philosopher passed away in the loving company of his wife Marta and children Eric and Silvia on 24th February 2020 in Montreal. 

Bunge, five years ago, wrote a 500-page autobiography HERE.  By drawing upon his prodigious memory for decades-old readings, events and conversations, it laid out in fascinating detail his personal, family, cultural and scholarly life.  The Memoir is enormously educative and a delight to read.  It has 1,200 entries in its Name Index.  He manages to say something insightful about the life and work of nearly every person mentioned in the Index.  It is a ‘Who’s Who?’ of modern South American, Anglo-American, and European physics and philosophy.  The book with ample quotations is reviewed HERE. A 30-page account of Bunge’s life, achievements and central philosophical positions can be read HERE.  His scientific, philosophical, social and educational positions are elaborated and appraised in a recent 41-chapter Festschrift HERE.

In 70 books  and 540 articles , written over an 80-year span, he made substantial contributions to physics, philosophy of physics, metaphysics, methodology and philosophy of science, philosophy of mathematics, philosophy of psychology, philosophy of social science, philosophy of biology, philosophy of technology, moral philosophy, social and political philosophy, medical philosophy, criminology, legal philosophy and education HERE.

For many, Bunge’s realist interpretation of quantum mechanics was his major contribution to modern physics.  In 2003 he surveyed the arguments in his ‘Twenty-Five Centuries of Quantum Physics: From Pythagoras to Us, and from Subjectivism to Realism’ HERE.  In a journal double-issue, ten physicists and philosophers laid out and appraised his ‘signature’ account of quantum mechanics, with Bunge replying HERE.

The unifying thread of Bunge’s life and research was the constant and vigorous advancement of the Enlightenment project that brings science and philosophy together for the advancement of human welfare.  He expended the same energy on criticism of cultural and academic movements that deny or devalue the core principles of the project: naturalism; the search for objective, trans-personal, non-subjective truth; the universality of science; the value of rationality; and respect for individuals. 

Bunge’s passing is a loss for his family and the scholarly world.  Hopefully some in the succeeding generations of philosophers, physicists and educators will be inspired to emulate his example of a wide-ranging, in-depth, cosmopolitan approach to the advancement of knowledge and the formation of a just and equitable society.  He embodies the best, and more, of the liberal education ideal.


My own obituary for this friend and fine person can be read HERE.

Professor Michael R. Matthews 
School of Education, UNSW, Sydney 2052, Australia
Author, Science Teaching: The Contribution of HPS: www.routledge.com/9780415519342
Author, Feng Shui: Teaching About Science & Pseudoscience https://www.springer.com/gp/book/9783030188214
Editor, HPS&ST Research Handbook (3 vols) https://www.springer.com/gp/book/9789400776531
Editor, Mario Bunge Festschrift: https://www.springer.com/in/book/9783030166724
Editor, Science, Worldviews and Education https://www.springer.com/gp/book/9789048127788

Editor, HPS&ST Newsletter: http://www.hpsst.com/

O corredor da morte

Crónica de Santana-Maia Leonardo no jornal As Beiras de hoje:

Já estive, por duas vezes, no corredor da morte e, por duas vezes, a Vida foi condescendente comigo, ao contrário do que sucedeu com a minha sobrinha por quem não teve qualquer misericórdia, apesar de ser bastante mais nova do que eu. Tudo isto para dizer que, fazendo eu parte do grupo de risco à COVID-19, não me posso queixar se a Vida não me amnistiar de novo.

 Devo confessar, no entanto, desde já, a minha absoluta ignorância relativamente a uma matéria sobre a qual a esmagadora maioria dos portugueses evidencia sinais de enorme sabedoria, a fazer fé na convicção com que se expressa nas redes sociais, ainda que com muitos erros de ortografia e de gramática.

Aristóteles, Edmund Burke, Einstein e Karl Popper, meus professores à distância, ensinaram-me que o ignorante tem certezas onde o sábio tem dúvidas. Por isso, é sempre bom ouvir os conselhos dos ignorantes que são os únicos que verdadeiramente sabem de tudo e mais alguma coisa. E é isso precisamente que eu faço, ainda que, por espírito de contradição, nunca siga os seus conselhos.

Aliás, em qualquer circunstância (boa ou má), tenho sempre presente a parábola do Mestre Zen. Quando alguém o procurava para lhe dar conta da sua alegria (“Mestre, veja a sorte que eu tive! O meu filho fez anos e deram-lhe um cavalo!”) ou de uma desgraça (“Mestre, veja a grande desgraça que me aconteceu! O meu fi lho caiu do cavalo e partiu uma perna!”), o Mestre Zen, na sua imensa sabedoria, a todos respondia: “Veremos!”.

Ora, como ensina o mestre Zen, muitas vezes são os acontecimentos, as circunstâncias e as decisões que aparentemente parecem ser as piores, como é o caso da queda do cavalo, que acabam, a curto ou médio prazo, por se revelarem excelentes (por ter partido a perna, o filho já não foi chamado para a guerra que, entretanto, rebentara) e vice-versa.

 E há uma regra que me habituei a seguir que raramente falha: quando a maioria dos portugueses, hoje tão bem representada por Marcelo Rebelo de Sousa, defende convictamente uma solução, eu desconfi o dela... (“Veremos!”, como diz o Mestre Zen). No entanto, em situações de “alerta vermelho”, como é o caso, respeito sempre a cadeia de comando, como aprendi no serviço militar, apesar de saber que o “espírito de corpo” é um conceito desconhecido por estes lados.

terça-feira, 24 de março de 2020

VÍRUS; FILOSOFIA E HUMOR

Recebi isto. Tem piada:

O que os filósofos diriam sobre estes tempos de Coronavírus?

PLATÃO
Fiquem na caverna, porra!

FRIEDRICH NIETZCHE
Fique em casa, por mais difícil que seja suportar sua própria presença.

RENÉ DESCARTES
Habito, ergo sum.

HEGEL
Tese: fique em casa;
Antítese: fique em casa;
Síntese: fique em casa.

HERÁCLITO
Não se pega duas vezes o mesmo vírus, na segunda vez o vírus e você já são outros.

JEAN JACQUES ROUSSEAU
O homem é bom por natureza, mas o vírus o corrompe.

ARISTÓTELES
O vírus está apenas cumprindo seu papel no Cosmos ao infectar corpos.

SANTO AGOSTINHO
A medida de amar é amar longe.

SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Onde houver vírus, que eu leve álcool em gel.

PROTÁGORAS
O vírus é a medida de todas as coisas.

HANNAH ARENDT
Para o vírus, matar é uma tarefa banal e cotidiana.

IMMANUEL KANT
Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado lá fora e eu aqui dentro.

SIGMUND FREUD
O vírus dá plena vazão a suas pulsões reprodutivas porque não é reprimido sexualmente, na infância, pela civilização.

LUDWIG WITTGENSTEIN
Aquilo que não se pode contrair, não se pode transmitir.

JACQUES DERRIDA
O objetivo de todo vírus deve ser a desconstrução do corpo infectado.

ZYGMUNT BAUMAN
A maior evidência da sociedade líquida é sua dependência do álcool.

VILÉM FLUSSER
O DNA do vírus não pode ser decodificado porque a escrita acabou.

MICHEL FOUCAULT
Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo são o que podemos chamar vírus.

WALTER BENJAMIN
A reprodutibilidade excessiva e sem freios do vírus traz como consequência a perda de sua aura de sacralidade.

SIMONE DE BEAUVOIR
Não se nasce infectado, se torna infectado.

JEAN PAUL SARTRE
Nada a retificar, o inferno são os outros.

KARL MARX
Trabalhadores do mundo, separai-vos.

CRISTO
Amai-vos uns aos outros ficando longe uns dos outros.

OLAVO DE CARVALHO
O vírus é um idiota, eu sou um idiota. Na verdade nem sei o que estou fazendo aqui nesta lista, nunca fui filósofo.

JUDITH BUTLER
O fato de esta lista ser composta por 95% de homens revela como a história da humanidade é a história da dominação patriarcal. Homens são o verdadeiro vírus.

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A CIÊNCIA, A PSEUDO-CIÊNCIA E A CULTURA CIENTÍFICA: MINHA ENTREVISTA A INÊS NAVALHAS

Continuação da minha entrevista à estudante de doutoramento Inês Navalhas (IN), da Universidade Nova de Lisboa, sobre a ciência nos tempos de hoje. A entrevista foi dada nos tempos a.V. (antes do vírus), mas não se desactualizou, julgo:

IN: Considera que a divulgação científica tem força para fazer frente às pseudociências? Como encara a facilidade que existe hoje em dia de as informações erradas se difundirem?

CF: A ciência está a ser vítima do seu próprio sucesso. A ciência inventou a Internet, que não existia quando eu acabei o curso. Qual foi a grande transformação provocada pela Internet? Antes havia um grupo de pessoas que emitia informação e havia muitas pessoas que a recebiam e hoje em dia qualquer receptor pode ser um emissor. Qualquer pessoa pode colocar o que me apetecer na Internet. Estando esta tão generalizada como está, existe uma Torre de Babel, em que não há escrutínio nenhum…

Acresce que a nossa atenção é atraída mais depressa por aquilo que é  estranho, bizarro, falso. Como regra pode-se dizer que  a maior parte das coisas bizarras são falsas. As pessoas clicam logo no bizarro. Quanto mais extraordinária for a coisa, mais as pessoas se interessarão por ela. As notícias falsas tendem a ser extraordinárias e propagam-se mais rapidamente do que as verdadeiras, alcançando audiências que são maiores. Esse fenómeno tem a ver com o funcionamento do nosso cérebro: é certo que somos racionais, duvidamos, mas às vezes somos crédulos, demasiado crédulos, imaginamos coisas com alguma ingenuidade. Vemos, por exemplo, “cavalos nas nuvens”, apesar de lá não haver cavalos nenhuns. Já em tempos remotos víamos figuras fantásticas em conjuntos de estrelas:  daí os nomes das constelações. Procuramos sentido em coisas que às vezes não têm sentido nenhum… E habituámo-nos a confiar nas primeiras impressões, que são muitas vezes enganadoras. Em ciência são precisas segundas e terceiras impressões. Hoje em dia não podemos confiar na Internet pois a maior parte do que lá está é falso. Quando me dizem que algo está na Web, desconfio logo...

Carl Sagan, o grande astrofísico e autor de divulgação científica, anteviu no século passado o que se está hoje a passar. Tem uma frase premonitória, num artigo dos anos 90, quando a Web estava apenas a começar, na revista Skeptical Inquirer, dedicada ao cepticismo, uma frase que retomou depois no seu livro O Mundo Infestado de Demónios. Escreveu, e cito de cor, que "vivemos num mundo em que praticamente tudo depende da ciência e tecnologia, mas ao mesmo tempo num mundo em que ninguém sabe praticamente nada de ciência e tecnologia". As pessoas olham a ciência e tecnologia como coisas distantes, ocultas, mágicas. Hoje a relação da maioria das pessoas com a ciência dá-se de modo indirecto, através da tecnologia. Compram telemóveis, onde está a física quântica, mas ninguém sabe de física quântica; usam o GPS, que recorre à teoria da relatividade geral de Einstein, mas não é preciso saber nada dessa teoria para usar o GPS. O truque dos tecnólogos está em fazer um design aliciante e colocar uns botões para a pessoa interagir facilmente. Sagan acrescentou, porém, que essa coexistência entre sabedoria e ignorância era uma “receita para o desastre”. Queria dizer que a mistura de grande poder (saber é poder, sempre foi, e grande saber é grande poder) e grande ignorância é explosiva. Há uma grande ignorância das populações em geral e dos seus representantes, que são os políticos…. Se olharmos para o mundo de hoje, se olharmos para a Casa Branca em Washington DC ou para o Palácio do Planalto em Brasília, assistimos a um desastre. A mistura de poder e ignorância está a explodir na cara do mundo, com consequências imprevisíveis. Prognósticos só depois do jogo.

Como podemos contrariar essa situação? É muito difícil, num mundo de “verdades alternativas”, num mundo em que a mentira é inseminada e disseminada de um modo profissional, num mundo em que há agências governamentais e grandes empresas multinacionais a colocar e a espalhar mentiras, num mundo onde reina a chamada “pós-verdade,” o que podemos fazer? Não quero ser pessimista porque podemos sempre fazer qualquer coisa. Mas há bastantes razões para estar pessimista. Temos de usar o optimismo da vontade contra o pessimismo do intelecto.

Recorro a uma metáfora para definir melhor a minha ideia. Há uma história sobre uns passarinhos chineses que, quando uma floresta estava toda a arder, resolveram ir buscar água a um lago e com os pequenos bicos despejavam-na sobre a floresta em chamas. Apareceu o génio da floresta e perguntou-lhes: “O que estão a fazer?”. “Estamos a tentar apagar o fogo”. “Mas vocês não vêem que não conseguem fazer nada” E o chefe dos passarinhos respondeu-lhe: “Claro que vemos, mas que mais   podemos fazer?” Foi uma resposta sábia, esta história traz muita água no bico…

Aquilo que podemos fazer é simples e ao mesmo tempo complicado: fazer mais e melhor o que temos vindo a fazer. É preciso mais e melhor comunicação de ciência. Deve começar pela escola, lugar por excelência da comunicação formal de ciência. Mas não podemos dizer que a escola esteja a cumprir o seu objectivo, no mundo em geral, não só em Portugal. Toda a gente passa pela escola, as crianças e os jovens passam cada vez mais tempo na escola, mas isso não está necessariamente a tornar as pessoas mais racionais, mais capazes de interagir com o desconhecido, mais capazes de efectuar escolhas bem informadas. Depois continua pelos média, que têm hoje um peso enorme na sociedade. Aliás as pessoas esqueceram a escola, aquilo que sabem ouviram dizer aqui e acolá, chega-lhes ou por contactos sociais directos ou através dos média, sejam estes  tradicionais ou novos. Ora esse conhecimento, que é informal, é também disperso, contraditório, incoerente. São bits que nem sempre conseguem colar.

 Nós, cientistas e professores, temos a obrigação de fornecer da melhor maneira a melhor informação de que dispomos, no quadro das nossas possibilidades, daquilo que a sociedade nos pede e também nos permite. De resto, a comunicação que não é desejada é inútil. Estou convencido que, neste mundo difícil e perigoso em que vivemos, num mundo que tem todos os meios para comunicar e que, no entanto, não sabe comunicar, muitas vezes não consegue comunicar, temos de continuar em busca da comunicação. Hoje como no passado fornece-se muita informação errada, em processos a que podemos chamar propaganda, manipulação, desinformação... Mas hoje a quantidade e a qualidade da mentira são muito maiores.

Não penso que a ciência e os cientistas tenham um segredo para derrotar  a mentira. Mas as pessoas formadas de modo a conhecer e praticar o método científico estão mais capazes de oferecer soluções  para aqueles que são os reais problemas do mundo, não para os problemas que são estritamente do poder ou do mercado. Hoje enfrentamos os problemas das doenças e longevidade, das alterações climáticas, da energia, da desigualdade... Temos que usar o método científico para tentar resolver esses problemas, embora eles tenham componentes que ultrapassam largamente a ciência. Temos sobretudo que ser racionais.

Qual é o papel da comunicação científica? Mais do que comunicar os conteúdos científicos, que vão evoluindo, importa comunicar o método científico. Veja-se o caso das dietas recomendadas, que vão mudando à medida que se sabe mais: o ovo já não tem o perigo do colesterol que tinha antigamente. A ciência avançou, sabemos hoje mais do que sabemos ontem. Temos de disseminar o método científico mais do que os resultados da ciência. Na área da comunicação de ciência um erro que estamos a cometer é passar demasiadas informações e poucas atitudes... Por exemplo, o Universo nasceu há 14 mil milhões de anos com o Big Bang, a dada altura formaram-se os átomos, depois as estrelas e galáxias, com os planetas em redor das estrelas. E pelo menos neste planeta surgiu a vida, etc. Ora as questões principais não são nenhumas das que essas questões dão resposta. As questões principais são: Como sabemos isso? Será que pode estar errado aquilo que sabemos? E como vamos saber mais? E é isso que nos torna pessoas mais capazes, pessoas que duvidam, que não acreditam em qualquer coisa, pessoas que sabem distinguir o verdadeiro do falso. A grande mensagem da ciência é que temos de estar disponíveis para admitir o erro e corrigi-lo! A pseudociência não tem quaisquer dúvidas, está sempre certa, mas a ciência é  precisamente ao contrário. Sabe que na maior parte do que diz está certa, mas que em muitas coisas pode estar errada.

Como funciona o método que Galileu e outros nos legaram? Baseia-se em coisas simples como a observação, a experimentação, que é a observação controlada, e o exercício da razão, que se apoio na lógica e na matemática. Com ele podemos chegar – temos chegado -  a conclusões sobre o mundo onde vivemos, no qual se inclui o próprio ser humano. O método científico é muito forte e não tem alternativa. A comunicação ocupa também um lugar no fim do seu processo: a ciência expõe-se à critica. Posso tirar conclusões, com base na observação, experiência e raciocínio, mas alguém me pode dizer que me enganei. Ou vi mal, ou experimentei sem cuidado, ou fiz um raciocínio errado. Os chamados “pares” criticam e é da discussão que nasce a luz. É da troca de dados e argumentos que na ciência emergem consensos. Por exemplo, no caso das alterações climáticas, houve uma altura em que não havia o grande consenso que há hoje. E o consenso estabeleceu-se através de um número enorme de comunicações, artigos, debates, congressos, etc. É hoje inequívoco que o planeta está a aquecer devido à acção humana. Esse consenso não significa unanimidade, não é preciso haver unanimidade na ciência.. Não é preciso uma votação esmagadora como na Coreia do Norte. Haverá sempre algum contestatário do consenso e é bom que isso aconteça.

 É preciso comunicar o método da ciência, mostrando a sua utilidade e eficácia. As pessoas que conhecem o método científico têm a chave para resolver muitas questões, as questões da organização do mundo natural, incluindo o homem, embora obviamente não todas, pois há questões da ordem da política, da religião, etc. Uma pessoa pode ignorar os problemas, ou pode olhar para eles e dar-lhes soluções erradas... Mas o método científico permite olhar bem para eles e procurar as melhores soluções de que somos capazes.

A ciência, usando o seu método, responde a questões que nos permitem viver melhor no mundo. E não há qualquer alternativa ao método científico. Começou há cerca de 300 anos com Galileu e hoje não conseguimos, do ponto de vista metodológico, fazer melhor do que ele. Falamos hoje dos átomos, cuja existência ele desconhecia, mas o método que usamos é o mesmo que ele usou. É um misto de observação, experimentação, raciocínio e, por fim, abertura à critica para obter validação.

Uma outra questão é a de saber se conseguimos levar o conhecimento do método para a sociedade em geral. Não sei, em parte sim, com certeza. Mas não na medida suficiente. Há possibilidades que a Internet tem, que porventura não estão suficientemente exploradas, mas que podem ser muito úteis na comunicação de ciência. Acho que a ciência não está a dar atenção suficiente às possibilidades que a Internet abre, portanto aos meios que ela própria criou. Por exemplo, a interacção directa das pessoas com os cientistas é algo que a Internet permite. Nas TED Talks por exemplo, indivíduos que sabem muito conseguem transmitir os seus conhecimentos ao globo todo em palestras de 18 minutos. Existem as redes sociais e podemos pensar em fazer mais coisas, usando-as. Temos um potencial que ainda não explorámos devidamente. A ciência inventou tudo isso e, porventura, não estar a tomar o devido partido. Hoje os jovens já não querem ser astronautas, querem ser influencers. E ganham dinheiro com isso, as marcas pagam a algumas dessas pessoas para publicitar os seus produtos. É uma maneira de usar a Internet, entre outras. A questão é se alguns de  nós, cientistas e professores, somos capazes de ser influencers.

O que seria Sagan nestes tempo da Internet? Ele usou a televisão, um meio muito poderoso naquela altura. Conseguiu transformar a televisão num grande meio ao serviço da ciência, tendo o livro sido mero subsidiário (o livro Cosmos, que a Gradiva publicou, é o guião da série).. Usou também os jornais, que têm nos EUA maiores tiragens ao domingo. Ele percebeu bem o poder dos média mais influentes. Agora, neste tempo em que a TV deu lugar à Netflix e ao HBO, e em que as redes sociais substituíram em parte em jornais, como é que a comunicação de ciência pode aproveitar os meios existentes? Se calhar são os próprios governos que têm que pensar na comunicação de ciência em formatos muito diferentes e apostar também em ligações adequadas aos privados. Por exemplo, pensar em grandes documentários ou filmes ficcionais com bons ingredientes de ciência. Já há coisas muito interessantes de ciência na Netflix, no Facebook, que as pessoas hoje usam além ou em vez da televisão ou dos jornais, mas pode haver mais. Julgo que os livros serão eternos, mas, para além dos livros, há outros formatos e a questão é se somos capazes de ser suficientemente criativos e arranjar grandes cientistas que sejam influencers. Sagan foi um influencer.  Hawking foi outro, cada um à sua maneira. Ele conseguiu comunicar sem sequer falar. O seu rosto transformou-se numa imagem da ciência, ainda que a sua voz natural não pudesse ser a voz da ciência.  São precisos novos Sagans e Hawkings.

IN- Que temas científicos lhe parecem mais relevantes actualmente na divulgação científica?

CF- Há temas que são sempre do interesse geral, como as questões da astronomia e as questões da biomedicina ligadas à saúde humana. Mas hoje há temas muito actuais. porque nos afectam a todos e provavelmente vão afectar ainda mais no futuro: a saúde e a longevidade, as alterações climáticas, a biotecnologia (incluindo a genética), a inteligência artificial. Em todos eles a ciência tem uma palavra... Alguns vêm mesmo da ciência. Na área do clima e do ambiente há muita gente a interrogar-se  sobre o que se pode fazer para as mitigar. Hoje, com base na ciência, podemos fazer alterações genéticas nos seres vivos, é possível mudar a nossa linha de descendência. Muitas pessoas não imaginam nem a utilidade nem os perigos que essas técnicas podem ter, não estão suficientemente informadas sobre essas possibilidades. As questões da inteligência artificial também começam a estar omnipresentes. É, por exemplo, uma tecnologia que a Netflix usa. O ecrã vai mostrando mais títulos associados ao que já vimos, porque, se mostrassem a oferta toda, estaríamos perdidos. A inteligência artificial já está em todo o lado, no Google, na Amazon... Também aqui as nossas possibilidades de escolha estão condicionadas por algoritmos. E não está ninguém do outro lado a condicionar, são as próprias máquinas que o fazem. A questão é: que podem as máquinas fazer sozinhas e que novas ajudas podemos nós obter delas? É um domínio novo que a ciência trouxe à nossa vida, está em curso uma revolução completa, avançando a grande ritmo... Vamos ver carros automáticos a circular e vamos ver nos hospitais máquinas a decifrarem sozinhas uma falha no interior do corpo humano… As pessoas não estão preparadas para lidar com a nova realidade. Portanto, a ciência e a tecnologia estão a avançar de um modo vertiginoso nas nossas vidas e nós  temos dificuldades em acompanhar ao mesmo ritmo.

O pior que nos pode acontecer é confiar cegamente nos produtos tecnológicos. Temos que ter uma percepção minimamente correcta do mundo e de nós próprios. Esse é um grande desafio da comunicação da ciência, proporcionar essa percepção. Não é apenas uma coisa para se fazer agora e já, mas sim um desafio continuado. A questão da comunicação de ciência não é um problema que possamos resolver agora de repente, é um problema com o qual estaremos sempre confrontados. Como os progressos científicos que referi são tão recentes, é natural que haja más decisões, que haja erros, às vezes tem de haver grandes erros para aprendermos colectivamente alguma coisa. Poderá haver grandes erros, tragédias até, não sei. E pode ser que, nesse caso, se aprenda alguma coisa.  Acho que, como sempre, vamos aprender com os erros que fizermos.

No passado houve erros e aprendizagens. Apesar dos grandes problemas que houve na história, das duas guerras mundiais, apesar das crises que nos afligem, vive hoje mais gente hoje e em média vive-se melhor do que alguma vez se viveu. Sei que persistem desigualdades, mas vive-se em média mais e melhor. Vamos continuar a viver aqui na Terra, de um modo que tem necessariamente de ser sustentado. A ciência ajudará a que vivamos mais tempo, num planeta que é finito e que, por isso, tem recursos limitados. O que não é limitado e que nos vai permitir viver mais tempo é a imaginação humana, a nossa capacidade de conhecer baseada na imaginação. Há uma frase de Einstein que eu gosto de citar: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado, a imaginação dá a volta ao mundo.”  De facto, a imaginação dá saltos enormes. Podemos com ela procurar resolver um problema. Hoje, por exemplo, não há falta de alimentos, como se receou no passado. O que há é uma economia e uma política que não asseguram uma bos distribuição de alimentos. Há um problema na economia e na política, e não na ciência e na tecnologia. 

IN- O conhecimento científico é fundamental para uma opinião pública bem fundamentada?

CF-  Sim, é. Sem a ciência a nossa cidadania ficaria bastante limitada. A ciência é uma fonte de conhecimento, que está hoje na base da riqueza das nações, mas também uma fonte de inspiração que nos serve para alicerçarmos o nosso espírito crítico. A ciência ensina a dúvida mais do que as certezas. A ciência ensina  a evitar os erros. No nosso dia a dia temos muitas vezes que distinguir entre o certo e o errado. Procuramos fazer o certo e não o errado. Para evitar o erro o método científico é um precioso auxiliar. Nem sempre o que parece é. Temos de procurar ver para além das aparências.

A ciência tem de ligar com a política e, numa democracia, esperamos que essa ligação seja fértil. É o conhecimento baseado na ciência que permite que os regimes democráticos proporcionem desenvolvimento à população, um desenvolvimento que deveria ser justamente  distribuído. Hoje em dia, para que haja desenvolvimento é preciso conhecimento, é preciso que os governos estejam bem informado sobre a ciência, é preciso que actuem racionalmente com base na melhor informação disponível, embora eu saiba que muitas as decisões são em última análise políticas e não científicas.  Um governo que tome más decisões pode pagar um preço por isso. A democracia tem um meio de evitar o “erro” – coloco entre aspas porque o sentido é  diferente do que lhe é dado na ciência – na medida em que as eleições permitem afastar os maus representantes dos cidadãos. Na ciência pode não se alcançar a verdade, mas evita-se a mentira. Na democracia pode-se não alcançar o bom governo, mas evita-se o mau.

IN- Como vê o futuro do  cientista como divulgador de ciência no mundo e em Portugal?

CF-  A divulgação científica não tem de ser feita apenas pelos cientistas, mas, mesmo quando há moderadores, tem de ser feita em colaboração com os cientistas, porque estes são,ao fim e ao cabo, os criadores de conhecimento. Os cientistas quando acrescentam conhecimento usando o método científico fazem-no em nome de todos, em nome da sociedade. Quer dizer, a ciência não é deles, mas de todos. É obrigação deles entregar à sociedade o resultado do seu trabalho. O cientista terá de estar sempre associado à divulgação da ciência, usando agora não apenas formatos tradicionais como o livro, mas novos formatos associados em novas tecnologias, as que existem e as que estão para vir.

Em Portugal este processo ocorrerá como no resto do mundo, uma vez que a ciência é um empreendimento global, um empreendimento que não conhece fronteiras. Em Portugal a ciência e a tecnologia progrediram muito nas últimas três décadas, graças à visão de José Mariano Gago. Ele teve a visão de considerar a cultura científica essencial para a mobilização para a ciência. Criou para isso em 1996 a Ciência Viva – Agência Nacional para a Promoção da Cultura Científica e Tecnológica, que soube de início com grande mérito envolver os cientistas na disseminação da cultura científica. Infelizmente, o crescimento do investimento em ciência e tecnologia foi interrompida com a intervenção da troika em Portugal em 2009 fez com que Portugal deixasse de convergir nesse índice para a média da União Europeia. Estamos a gastar 1,4% do PIB nessa área, um valor que se tem mantido aproximadamente constante nos últimos anos,  quando a média europeia é de 2,1% do PIB. Por seu lado a Ciência Viva não se soube renovar, mantendo as mesmas pessoas e procedimentos de há 20 anos. Há uma enorme assimetria na distribuição de recursos no território nacional. Não tem dado suficiente atenção, por exemplo, aos livros e bibliotecas – por exemplo, interrompeu inexplicavelmente o apoio ao Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, que é um dos poucos que funciona no interior de uma Universidade e o único centro da rede nacional que é uma biblioteca de cultura científica com uma densa agenda de eventos de elevada qualidade, com a presença de cientistas e humanistas das mais variadas áreas. O apoio à publicação, seja este em papel ou electrónica, feito pela Ciência Viva é escasso e sem aparente critério. Era preciso um outro dinamismo, por exemplo na renovação dos temas trazidos ao debate público, no uso das novas tecnologias, etc. Era preciso uma maior e mais viva participação da comunidade científica.

Eu sou optimista não só por natureza mas também por formação. Na ciência há a ideia de progresso: amanhã saberemos mais do que hoje. Neste sentido, a ciência só pode progredir. Do mesmo modo, na cultura científica entre nós também espero que amanhã seja melhor do que hoje. E farei os possíveis por isso.

Uma foto. Uma rede social. Uma hashtag

A notícia é do jornal Público online, não é da sua antítese, o Inimigo Público (os destaques são meus).
Ministério da Educação quer ver fotografias [dos] alunos a partilharem fotos dos ambientes de estudo em casa.
O desafio, explica o jornalista, Daniel Dias, integra-se nas celebrações do Dia Nacional do Estudante, que é hoje, 24 de Março.
... o Governo lança-lhes o desafio: partilharem nas redes sociais, com a etiqueta #EstudoEmCasa, uma fotografia no seu novo e provisório ambiente de estudo.
A ideia é criar "um movimento nacional de motivação” 






Sim é verdade: no sítio do Governo consta, com data de ontem, o seguinte Comunicado à Imprensa (aqui): 
"Por força das medidas de contingência provocadas pelo surto epidemiológico causado pelo novo coronavírus, a comunidade em geral, e as escolas em particular, atravessam um momento ímpar na organização dos seus processos de ensino-aprendizagem. 
De facto, a escola mudou-se para casa por uns tempos. Mas a vontade de aprender e de estudar deve ser estimulada por todos. 
Uma foto. Uma rede social. Uma hashtag 
(...) o Ministério da Educação vem desafiar os mais novos a partilharem imagens a estudar na sua sala de aula provisória. A ideia é que, esta terça-feira, os alunos ou encarregados de educação partilhem nas suas redes sociais uma foto em casa, em ambiente de estudo, e coloquem a hashtag #EstudoEmCasa, criando um movimento nacional de motivação para que alunos, famílias, docentes, não docentes e escolas prossigam esta caminhada, num ano letivo que, inesperadamente, já tem contornos diferentes do habitual. 
Esta é também uma forma de os alunos reconhecerem o trabalho dos seus professores. As fotografias espalhadas pelas redes sociais serão compiladas na página de instagram (...)
A seguir o Ministério assegura que 
"(...) apenas serão partilhadas as que não identifiquem o aluno e/ou a sua localização."
Tanto quanto parece, os pais têm correspondido, havendo já quase oitenta publicações, que asseguram, mais ou menos, o anonimato. O mínimo que se pode esperar em termos de protecção dos menores.

Mas a questão vai muito além da semi-protecção da identidade da crianças e dos jovens: centra-se na exposição encenada, que, supostamente, desencadeia "motivação" pela aprendizagem. Ora, a aprendizagem escolar nada tem a ver com exposição, nem com a publicitação do acto de aprender; é um acto de interiorização que requer acompanhamento próximo, mesmo que ele, por razões indesejáveis como a que estamos a viver, tenha de ser feito à distância, mas sob orientação de quem conhece os alunos e os sabe ensinar.

Este vírus há-de passar, mas a aprendizagem da exposição indiscriminada do "eu", até no reduto privado que é o do estudo em casa, fica.

Mudanças climáticas e coronavírus

“O homem perdeu a sua capacidade de prever e prevenir. 
Acabará destruindo a terra”. 
 Albert Schweitzer (1875-1965)

A previsão catastrófica deste médico, filantropo e Prémio Nobel da Paz, serviu de pórtico à minha conferência proferida na Sociedade de Estudos de Moçambique, “Educação Física, Ciência ao Serviço da Saúde Pública” (1973), editada posteriormente num opúsculo desta agremiação cultural-científica. 

Sem estar, obviamente, na ocasião, de posse de notícias actuais, que nos alertam para o facto do degelo, por aumento da temperatura da terra, poder estar a libertar vírus de há 15 mil anos, passo a citar da agência noticiosa “Lusa”, uma notícia promissora para a saúde do nosso castigado planeta (Março do ano em curso): 
“A procura do petróleo, o abrandamento no consumo de carvão e a suspensão de milhares de voos fazem com que se registe uma redução de emissão de CO2 calculada em 9,6 milhões de toneladas”. 
Na minha conferência supracitada, escrevi em citação “verbo pro verbo”: 
"A enorme taxa de industrialização dos nossos dias, o ritmo trepidante da vida moderna, o conforto exagerado que essa vida proporciona e, mais recentemente, o espectro da poluição que ameaça a humanidade a ponto de , salvo erro, os cientistas mais pessimistas (ou mais realistas?) preverem a extinção de espécie humana para daqui a um século, nas cidades de maior densidade populacional e mais atingidas pela laboração em massa das respectivas fábricas, se não forem tomadas medidas adequadas, exigem que sobre estes problemas nos debrucemos procurando afincadamente as respectivas soluções. Claro que não terei a estultícia de atribuir unicamente à Educação Física a situação quixotesca de se apresentar como panaceia para todos estes males. Mas um facto é incontroverso, quanto menos favoráveis forem as condições mais se impõe o seu revigoramento físico. E neste particular, de condições desfavoráveis de sobrevivência, não posso deixar de pensar na preparação física a que são submetidos os astronautas americanos antes de serem catapultados para espaço, a ponto de possuírem uma forma física invejável. Para quem, como aos homens do espaço, são exigidas tarefas que conduzem facilmente à fadiga pelo meio hostil em que são realizadas, tem incondicional importância uma boa condição física. O cunho científico dessa preparação faz com que ela se processe dentro da maior eficiência, pela inclusão das técnicas mais avançadas do condicionamento físico”. 
Hoje fala-se com insistência na colonização pelo homem do nosso satélite lunar, apenas com 27% do diâmetro da terra. Mas quando isso vier a acontecer, aposto dobrado contra singelo, que os governantes desse mundo, mais ou menos próximo, tudo farão para manter o hábito actual criminosamente egoísta de não cumprirem com as suas promessas em horas de eleições, abandonando à sua triste sorte o povo que os elegeu!

Aliás, segundo William Shakespeare, 
“as palavras são como os patifes, desde o momento em que as promessas os desonram; elas tornam-se de tal maneira impostoras que me repugna servir-me delas para provar que tenho razão”. 
O presente faz prever o futuro de Adões e Evas, a exercerem as suas influências para ocuparem os poucos lugares iniciais das naves espaciais, quais minúsculas “Arcas de Noé”, que os conduzam ao lado iluminado da lua enquanto o astro-rei se não extinguir sendo teletransportados, posteriormente, para outros astros, quais judeus errantes em procura desesperada pela Terra Prometida!

segunda-feira, 23 de março de 2020

JOEL OU A COMPLEXA QUESTÃO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Ainda se encontra disponível online, no sítio da RTP Play, um filme argentino que toca, entre outras questões, as políticas de inclusão escolar, muito uniformes na Europa e na América do sul. 

Sendo apresentadas e vistas como políticas bondosas e inequivocamente certas, não deixam de levantar múltiplas questões teóricas e dificuldades práticas que, em geral, ficam na penumbra.

Ora, este belo filme, realizado por Carlos Sorinque, trata, com grande discernimento e sensibilidade, esse problema. E fá-lo sob o ponto de vista das directrizes ministeriais, das dinâmicas da escola (no caso, uma escola pública), e das vivências pessoais. Onde a discussão pedagógica não chega ou não chega de modo adequado e/ou suficiente pode chegar a arte.

O título, corresponde ao nome do protagonista: Joel, um menino de 9 anos de idade a quem o "superior interesse da criança" não consegue proteger do medo, que continuamos a ter, do "diferente".

Acesso ao filme: aqui.

A BRIGADA DO MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO PARA APOIAR AS ESCOLAS

Ouvido o discurso dos principais representantes do Ministério da Educação de Portugal, infere-se que no sistema de ensino tudo está a funcionar bem na modalidade à distância, que, até há poucos dias, antes da pandemia, era presencial. Em quinze dias conseguimos, reafirmam, fazer a reconversão de uma modalidade para outra e em todos os níveis de escolaridade, incluindo a educação de infância!

Poesia em tempo de emergência


 Publicado pelo Expresso:

"Esta ausência não foi por nós pedida,
este silêncio não é da nossa lavra,
já nem Pessoa conversa com Pessoa,
com o feitiço sempre imenso da palavra
Este tempo só é o nosso tempo
porque é nossa a dor que nos sufoca
e faz de cada dia a ferida entreaberta
do assombro que esquivando-se nos toca
Esta ausência é dos netos, dos filhos, dos avós,
é a casa alquebrada pelo medo,
é a febre a arder na nossa voz
por saber que o mal a magoa em segredo
Este silêncio é um sussurro tão antigo
que mata como a peste já matava;
vem de longe sem nada ter de amigo
com a mesma angústia que nos castigava
Esta ausência é uma pátria revoltada
que se fecha em casa sempre à espera
que a febre não a vença nem lhe roube
a luz mansa que lhe traz a Primavera
Esta casa somos nós de sentinela,
à espera que a rua de novo nos console
e que festeje debruçada à janela
a alegria que só nasce com o sol
Esta ausência mais tarde há-de ter fim,
por nada lhe faltar nem inocência;
que se escute o desejo de saúde
anunciando que vai pôr fim à inclemência
Que se abram as portas e as janelas,
que o medo, derrotado, parta sem destino
por ser esse o sonho colorido
que ilumina o riso de um menino."

José Jorge Letria (20 de Março de 2020)

domingo, 22 de março de 2020

EM HORAS DE ÓCIO FORÇADO

 “Na regra de aprender as lições importantes na vida, 
devemos todos os dias superar o medo”.
Ralph Emerson (filósofo e poeta, 1803-1882)


A obrigatoriedade de permanecermos prisioneiros dentro das paredes de nossa casa, porque desocupados com as tarefas do nosso múnus profissional em que andamos em rodopio, quais baratas tontas, de casa para a rua e da rua para casa, impedem-nos de fazer uma retrospecção sobre a verdadeira finalidade das escolhas que faremos neste tempo de clausura, sem o recurso dos cábulas, aprisionados pelos progenitores nos quartos para estudarem mas, que entediados, em vez de o fazer se entretinham a matar, com pequenos elásticos, pobres e inocentes moscas pousadas em tudo que era sítio.

Por esse facto, agradeço, vezes sem conta, ainda que com o risco de me repetir, com as mãos da gratidão levantadas à memória de  minha falecida mãe, de nome Sofia (como é sabido, sabedoria em grego), senhora  de uma grande cultura literária devota queirosiana, camiliana, etc. Reside aqui a gratidão filial por me ter sido transmitida em herança o hábito de ler (e reler) grandes autores da nossa riquíssima literatura como forma de combater o hábito da preguiça, em voga nos escolares de outros tempos e hoje ampliada por sinopses de meia centena de folhas da grandes obras literárias.

Como escreveu Eça, referindo-se ao seu tempo, bem pior hoje pelas distracções advindas das novas tecnologias (audiovisuais), não se lê folheando apenas os livros de alguns grandes autores portugueses. Hoje, exceptua-se, quiçá, com a morbidez curiosa de uma paixão incestuosa, “Os Maias”, presente habitual nos programas escolares, meu escritor de mesinha de cabeceira, com o seu fino recorte literário e humor requintado em que que uma risada crítica sua sobre a estupidez humana fazia ruir instituições levando-o, como tal, a farpear, de parceria com a Ramalhal figura, a velha tolice humana que, para eles, tinha cabeça de touro!

Contrariamente, tempos atrás, foi expurgado, do ensino escolar português, o escritor de São Miguel de Seide, como escrevi no meu post, aqui publicado com o título provocatório de “O Ódio de Perdição” (09/08/2018), autor deste livro editado também em França com o título (“Amour de Perdition”) mas difícil de encontrar nas livrarias gaulesas pela sua grande procura. Daqui se colhe o aforismo de que “santos ao pé da porta não fazem milagres”, mas daí a cometer este crime de lesa cultura vai um percurso, criticado por Maria Amélia Vaz de Carvalho para quem a prosa camiliana constitui a “personificação do génio português”.

Hoje, por vezes, as próprias instituições empregadoras nacionais (incluso universidades) dão guarida a indivíduos desacreditados sob o ponto de vista cultural-científico excluindo aqueles que têm a verticalidade e a coragem excepcionais para reagir contra este “status quo” pagando com os juros elevados de serem preteridos nas suas carreiras profissionais por “Francis, o macho que fala”, personagem de um filme, com este nome, da minha juventude, que servia de chacota para referenciarmos pessoas de micro cérebro e macro ego do tamanho do Universo!

Dois poemas sobre a doença de Fernando Pessoa




Ainda motivado pelo Dia Mundial da Poesia, e por que vivemos dias de doença 
deixo  dois poemas de Fernando Pessoa sobre a doença. estão logo a abrir 
na antologia  de José Fanha e Pedro Quintas ( "Poemas da saúde e da doença" ,
Coimbra:  Lápis de Memórias, 2016)

Fernando Pessoa

A vida é um hospital
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
s. d.
Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind
 e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). 
 - 110.



Álvaro de Campos

Tenho uma grande constipação,

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.
14-3-1931
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
  - 48.
1ª publ. in Presença, 2ª série, nº1. Coimbra: Nov. 1939.

TRÊS POEMAS DE HANS MAGNUS ENZENSBERG


Como ontem foi Dia Mundial da Poesia, deixo três pequenos poemas do poeta alemão, que tão bem sabe ligar literatura e ciência, muito bem traduzidos por outro poeta, Alberto Pimenta, do livro "66 Poemas" de H.M. Enzensberger  (Edições do Saguão, 2019). Há coisas que a ciência não consegue dizer, mas que a ciência diz muito bem:


Dado o caso

Escolhe entre os erros,
que tens à tua disposição,
mas escolhe certo.
Talvez seja errado
fazer o que está certo
no momento errado,
ou esteja certo
fazer o que é errado
no momento certo?
Um passo ao lado,
impossível de corrigir,
O erro certo,
uma vez desaproveitado,
não é fácil que volte a surgir.

Interferência

Esperança seria dizer muito,
mas quando por sobre as aldeias destroçadas
aparece um duplo arco-íris,
durante minuto
seles baixam as facas
e ficam a olhar, a ver como,
ante os olhos raiados,
ele vai lentamente desaparecendo.

O sabonete

Que orgulhoso, que activo no início
o seu aroma! Por quantas mãos passou,
que desinteressado serviu, e de cada vez
lá ficava a sujidade. E eles sempre imaculado.
E assim consumindo-se, mirrando,
sem se dar por ela, já muito fino,
quase transparente,
ate que uma manhã
acabou por desaparecer,
não ficou nada.

HANS MAGNUS ENZENSBERG

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...