terça-feira, 25 de setembro de 2012

NOITE DOS INVESTIGADORES NO RÓMULO EM COIMBRA



HÁ VIDA NOS LIVROS!

Com a ajuda da ciência, o futuro está a bater-nos à porta. Pelos livros vamos sabendo como será.

O Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra espera por si...

DATA - 28 de Setembro de 2012, das 21h às 24h

LOCAL - CCV Rómulo de Carvalho - Departamento de Física da Universidade de Coimbra - rés-do-chão

PÚBLICO-ALVO - Todos os interessados em participar numa conversa informal com cientistas.
                                                                                                                              
                                                           Entrada Livre


O físico Carlos Fiolhais, Director do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, irá moderar a sessão que contará com a presença da bióloga Luísa Pereira e da jornalista Filipa Ribeiro, autoras de "O Património Genético Português: a história humana preservada nos genes", do biólogo Francisco Dionísio, autor de "Uma Tampa Para Cada Tacho: conflitos genéticos e evolução", do bioquímico António Piedade, autor de "Íris Científica" e "Caminhos de Ciência", e do botânico Jorge Paiva que nos vem falar dos livros de Rómulo de Carvalho, de quem foi aluno, incluindo "História dos Balões" e "História do Telefone".

O objectivo é o de reunir autores de livros de divulgação científica, designadamente na área das Ciências da Vida, e leitores interessados, no sentido de promover a aproximação da ciência com o público. 

Filosofia ao Vivo no Rio de Janeiro


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Compreender os livros e a economia



Em muitos casos, conhecer as coisas e reflectir ponderadamente, é uma boa ideia. Em muitos casos, é uma má ideia ir atrás das primeiras ideias populares e fáceis. Parece-me que é precisamente isto que acontece no caso dos livros escolares. A cada novo ano escolar, chegam as queixas, legítimas: os pais gastam demasiado dinheiro com os manuais escolares. Todas as queixas são legítimas, mas precisamos de nos perguntar se um conhecimento mais profundo das coisas não as mostra a outra luz.

Primeiro: precisamos distinguir a questão geral de ser justo e desejável gastar dinheiro comprando livros, da questão de saber se tais livros têm qualidade. São duas questões diferentes. Se me disserem que muitos livros que compramos, incluindo manuais escolares, não têm a desejável qualidade que justificaria o seu preço, eu concordo; mas o mesmo acontece com qualquer coisa que compramos.

Segundo: é crucial distinguir quem ganha 600 euros por mês e tem dois filhos em idade escolar, de quem ganha 10 mil euros por mês e tem um filho em idade escolar. Qualquer medida de suposta justiça social que permita que este último fique com os livros de graça não é um passo particularmente promissor na direcção da solidariedade social. O que precisamos é garantir que as pessoas que ganham abaixo de determinado escalão possam receber os livros gratuitamente. Mas não podemos esquecer que receber livros gratuitamente significa apenas que alguém os paga por eles — nomeadamente os mais ricos — e não que alguém os escreve de borla. Exigir esta última coisa seria puxar nas calças e perder na camisa, como se costuma dizer, pois para atender à injustiça social de uns estar-se-ia a explorar o trabalho de outros (os autores de manuais). O que nos conduz à terceira ideia:

Quem escreve os manuais escolares precisa ser pago. Presumindo que se aceita esta ideia de elementar justiça do trabalho, o que precisamos pensar é como será pago e por quem.

Muitas pessoas têm apenas uma ideia vaga do modo como funciona o mundo à sua volta. Não se apercebem que o que parece gratuito é de facto pago, e muitas vezes pago por quem não o consome, o que não é obviamente assim tão justo. Por exemplo, é muito populista defender o ensino universitário, ou outro, inteiramente gratuito. Mas eu gostaria que os professores que defendem tal ideia se oferecessem imediatamente para trabalhar de borla. Pois se ao mesmo tempo exigem que alguém lhe pague — nomeadamente, o estado — o que essas pessoas estão efectivamente a exigir é que toda a gente contribua para o seu ordenado, independentemente de essa pessoa ter filhos na universidade ou não. Não me parece que isto seja um passo sábio na direcção da justiça social, mas talvez eu esteja a ver mal. Não consigo perceber por que razão quem nem sequer tem filhos há-de pagar do seu bolso para que um miúdo possa estudar sem pagar, miúdo esse que depois vai ganhar muito mais do que ganharia se não tivesse tirado o curso que tirou — ou seja, é ele quem mais vai beneficiar do curso que tirou gratuitamente. Em muitos países os miúdos, para estudar, contraem empréstimos bancários bonificados, que depois terão de repor se e quando tiverem um emprego em que ganhem acima de um dado escalão — o que me parece da mais elementar justiça social. Mas talvez esta ideia esteja errada por outras razões, não sei.

Voltemos aos livros. Presumindo que quem como eu escreve manuais escolares merece ser pago, a questão é saber quem tem o dever de lhe pagar. E acho muito difícil defender que são os contribuintes em geral que têm esse dever, e não os pais das crianças que directamente usam os meus manuais. Contudo, talvez eu esteja a ver mal. Talvez faça sentido que quem ganha 6 mil euros por mês receba os meus livros de graça, sendo eu pago pelos impostos de todas as outras pessoas.

Em Portugal, os manuais escolares são os mesmos por períodos estabelecidos por lei, que são 6 anos. Podemos discutir se isto está bem ou não, e presumindo que está bem, podemos discutir se em vez de 6 anos deveria ser 4 anos, ou 20, ou 2 apenas. Ou se não devia haver qualquer lei. Além disso, por lei também, os manuais escolares são adoptados escola a escola e não professor a professor, o que significa que numa dada escola o manual de Física ou Filosofia do 10.º ano, por exemplo, é o mesmo para todos os alunos durante 6 anos.

Isto permite que as escolas, os pais e os alunos se organizem para trocar entre si os manuais dos anos anteriores, evitando assim as despesas. Contudo, isto só funciona num período de 6 anos, se aceitarmos a lei tal como está. Mas é importante ver o que acontece noutros modelos. Vejamos o que acontece nos EUA.

Qualquer pessoa que saiba o que se passa com os manuais escolares do ensino universitário comum (isto é, sem pensar nas universidades de ponta) fica algo perplexa: os manuais norte-americanos são vendidos ao dobro do preço dos britânicos — num país onde, dada a sua dimensão, os livros são, em geral, um terço mais baratos. O que acontece é que os miúdos norte-americanos gostam de ganhar dinheiro, têm um espírito norte-americano típico de tentar fazer um dólar sempre que possível. E têm o hábito enraizado de chegar ao fim do ano académico e vender os seus manuais escolares — por mais barato que seja, ganham algum dinheiro extra, até porque geralmente foram os pais que lhos compraram, portanto é tudo lucro. Por sua vez, há nas imediações das universidades, e por vezes nas próprias universidades, livrarias especializadas em comprar e vender manuais em segunda mão.

Isto parece óptimo, não é? Deste modo, os alunos podem comprar manuais mais baratos, em segunda mão. Mas nem tudo o que parece é. E este é um desses casos. Na venda de livros em segunda mão há uma injustiça económica profunda: é que quem investiu o seu tempo escrevendo os livros, e quem investiu dinheiro imprimindo-os, não vê qualquer percentagem das vendas, ao contrário do que acontece com os livros novos. Assim, imagine-se que sou autor de um manual de Filosofia particularmente bem-sucedido. No primeiro ano vendo 20 mil exemplares, o que é suficiente para me pagar adequadamente o trabalho monstruoso de escrever o manual. Mas como uma percentagem muito elevada dos estudantes vende os livros depois de os usar, ao fim de 3 anos, eu tenho vários livros em circulação, usados por 18 mil pessoas, mas não vejo dinheiro algum dessas transacções. Quem o vê são os alunos e os livreiros. Consequência: 1) Nos EUA há edições novas dos manuais universitários aproximadamente a cada 2 anos, para tornar artificialmente obsoletos os manuais das edições anteriores; 2) os manuais novos são caríssimos, pois já se sabe que deles só se irão vender um número reduzido de exemplares, em apenas dois anos, no máximo.
Moral da história: é preciso ter cuidado com o que parece uma ideia muito boa, pois pode acabar por se revelar uma ideia muito má. Mas, claro, para isso é preciso reflectir cuidadosamente nas coisas e ter algum conhecimento da realidade.

Termino com uma nota muito simples. O mundo é em grande parte consequência das nossas escolhas económicas. A razão pela qual há mais sapatarias nos centros comerciais do que livrarias, é porque as pessoas livremente preferem sapatos a livros. Isto pode ser lamentável, mas não estamos a dar um passo na direcção certa se quisermos impingir livros de borla às pessoas, à custa ou da exploração os autores ou pedindo que a sociedade em geral financie a cultura que não lhe interessa. Um passo certo na direcção certa é convidar as pessoas a gastar mais dinheiro em livros, e menos em cinema ou sapatos, a gastar mais dinheiro em livros, e menos dinheiro em iPhones, a gastar mais dinheiro em livros, e menos dinheiro em carros e televisões de plasma. Mas tem de ser só e exclusivamente um convite simpático. A palavra última sobre o que fazer ao dinheiro de cada um a cada um deve — por elementar justiça — pertencer. Mas talvez eu esteja a ver mal.

Uma medalha de cada cor

Informação muitíssimo gratificante chegada ao De Rerum Natura. Os nossos parabéns aos alunos, aos professores, às escolas e ao Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

A equipa portuguesa que se apresentou em Granada, entre16 e 23 de Setembro, para competir nas XVII Olimpíadas Ibero-americanas de Física obteve três medalhas: uma de ouro, uma de prata e uma de bronze.

Essa equipa era constituída por (esquerda para a direita): João Ricardo Pais Correia (E.S. c/ 3º ciclo de Santa Maria da Feira), que foi medalha de ouro; Pedro Manuel Vianez (E.S. Eça de Queirós, Póvoa de Varzim), que foi medalha de prata; João Nuno Pereira Lourenço (E.S. Filipa de Vilhena, Porto), que foi medalha de bronze; e Miguel Martins Duarte (E.S. Avelar Brotero, Coimbra).

Em competição estiveram 63 estudantes finalistas do ensino secundário de 18 países. No final de duas longas e difíceis provas de Física (uma prova teórica e uma prova experimental), o vencedor foi um espanhol.

Os team-leaders que acompanharam a delegação a Espanha, Fernando Nogueira e Orlando Oliveira, fazem um balanço extremamente positivo da prestação portuguesa: “É um óptimo resultado, ficámos separados da segunda medalha de ouro por algumas décimas, o que seria um resultado histórico. Portugal obteve o 2.º e 7.º lugares da classificação geral, o que é excelente.”

Os docentes da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra destacam “a prova teórica, que era muito longa e cobria variadíssimos tópicos de Física. Também se deve salientar o bom desempenho na prova experimental, que os próprios alunos atribuíram ao seu trabalho de preparação ao longo do ano, para além da escola. É preciso recordar que a componente experimental do ensino secundário português é praticamente inexistente, ao contrário do que se passa noutros países...”

As Olimpíadas de Física são uma actividade promovida pela Sociedade Portuguesa de Física com o patrocínio do Ministério da Educação e Ciência e da Agência Ciência Viva. O treino da equipa decorreu no Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, integrado nas actividades da Escola Quark! de Física para jovens, com o apoio do programa operacional QREN-Mais Centro.

domingo, 23 de setembro de 2012

Esperando os Bárbaros

Em dia de espera de comboio e de país, Alexandre O´Neill salva-me do tédio. Numa loja de restos de edições, encontro Coração Acordeão, colectânea de crónicas que escreveu para um jornal e alguns dispersos (Independente e Assírio e Alvim, 2004). No idos de 76, O´Neill vê-nos desorientados entre o passado e o futuro, sem grande ideia do que fazer no presente. E lembra-se dum poema, Esperando os Bárbaros, dum grego, Constantino Cavafy (1863-1933) (páginas 153-155):

“Que esperamos agrupados nesta praça?
      Hoje chegam os bárbaros.  
Porque está inactivo o Senado e, imóveis, 
os pais da pátria não legislam?
      É porque hoje chegam os bárbaros. 
      Que leis irão votar os senadores? 
      Quando chegarem os Bárbaros serão eles a ditar a lei. 

E o imperador, já a pé de madrugada,
que faz sentado no seu alto trono,
coroado e solene às portas da cidade?
     É que hoje chegam os Bárbaros 
     o imperador vai acolher o chefe 
     dos Bárbaros, a quem fará entrega
     de um extenso pergaminho repleto das menções honoríficas, de títulos retumbantes.
Por que vestes os nossos dois cônsules e os pretore
suas togas vermelhas e brocado fino
e ostentam braceletes de ametista,
anéis de esmeraldas refulgentes?
Por que trazem bastões de ouro e prata cinzelados a capricho?
      Por hoje chegam os Bárbaros
      e todas essas coisas os bárbaros deslumbram. 

Por que não acorrem como sempre nossos ilustres oradores
a oferecer-nos com o chorilho feliz de sua eloquência?
       Porque hoje chegam os Bárbaros
       que odeiam a retórica e os discursos compridos.

E a que vêm, agora, essa inquietação 
e esse agitação?
(Como os nossos rostos se tornam graves!).
E por que esvazia a multidão ruas e praças
e cada um, com ar sombrio, volta a cada?
      E que a noite caiu e Bárbaros não chegam.
      Pessoas recém-vindas das fronteiras
      garantem que já não há Bárbaros.

E agora que será de nós sem os Bárbaros?
Essa gente, apesar de tudo, sempre era uma solução."

Na nota sobre o poema, O´Neill não entra nos sentidos que a palavra "bárbaro" tem, que são muitos, deixa carta branca ao leitor para se socorrer do seu próprio entendimento. E escreve: "...as sociedades ensimesmadas desdobram passadeiras vermelhas para, trajadas a rigor, darem passagem e homenagem aos Bárbaros, que estão a chegar. Experimentam o terror? Nem isso! Incapazes de sentimentos fortes, a tudo puseram surdina para se esvaziarem voluptuosamente nas formas que quiseram perpetuar".

Cores e Movimentos


El pueblo no se va, el pueblo no se va...


Estive a ver um documentário que há muito queria ver. Interessa-me muito a história recente da Argentina, nomeadamente desde a ditadura militar. Vejam de espírito aberto, sem ideias feitas. Não procurem os paralelismos fáceis. Procurem perceber o drama deste povo quando em 2001 a sua economia colapsou.

Vejam as imagens do povo na Praça Mayo. Sintam a força dos cânticos: el pueblo no se va, el pueblo no se va… Tentem perceber como um país rico, que eu visitei duas vezes, foi aparentemente traído pela… democracia.

Este é um documentário essencial para entender a Argentina: o título original é “Memoria del Saqueo“, com realização de Fernando E. Solanas. Depois destas impressionantes imagens, a Argentina recuperou a sua economia e hoje apresenta um crescimento económico que é o maior da sua história. Reduziu a pobreza para menos de 20% (registava 57% em 2001) e a taxa de desemprego para menos de 7% (registava 24% em 2001).


Publicado originalmente em http://re-visto.com/el-pueblo-no-se-va-el-pueblo-no-se-va

O DECLÍNIO DA FRANCOFONIA

Texto do Professor Galopim de Carvalho, com os agradecimentos do De Rerum Natura.

Definindo francofonia como a adopção da língua francesa como língua de cultura, ou como língua franca por quem tem outro idioma como vernáculo, podemos afirmar que Portugal foi um país francófono, numa tradição vinda da Europa de séculos atrás.

No meu tempo de Liceu, o francês era a segunda lingua obrigatória, ao passo que o inglês podia pemutar com o alemão. Nos meus anos de Faculdade, como aluno e como assistente, o francês dominava nas relações académicas e nos livros da especialidade, nos compêndios e nos manuais de estudo.
Quem, da minha geração, não matou os olhos nas 1523 páginas dos dois volumes (mais de três quilos de papel) dos “Príncipes de Géologie”, de Paul Fourmarier? Quem é que não se perdeu no “Manuel de Paléontologie Animale” e no de ”Paléontologie Végétale”, com cerca de mil páginas de informação sobre a vida do passado?

Nesse período áureo da penetração da inteligência gaulesa na nossa vida cultural e científica, em particular, no ensino superior e na investigação, a maioria dos estágios dos nossos assistentes e jovens investigadores tinha lugar em França, muitos deles em Paris. São numerosos os nomes dos grandes autores francófonos sobre os quais assentou o essencial da preparação dos universitários da minha geração, da medicina à física e química, da zoologia e botânica à mineralogia e geologia. A par das obras francesas, as alemãs, que as havia de grandes autores, pouco entravam nas estantes das nossas bibliotecas, mercê de uma língua que só um ou outro dominava.

Com maior divulgação, mas não tanta quanto a dos livros em francês, havia os dos autores que faziam uso da língua inglesa, em especial, americanos, britânicos e uns tantos do Norte da Europa. Os anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1939–1945) deram hegemonia ao inglês, em grande parte por influência dos Estados Unidos da América, situação que se acentuou com a globalização de múltiplos sectores da actividade dos povos deste planeta, já referido, por alguns, por “aldeia global”.

Nos três anos que vivi na “Cidade da Luz”, de 1962 a 1964, no seio de uma comunidade de geólogos e geógrafos, participei em algumas reuniões internacionais e, condição imposta e assente, o francês era a via de comunicação inter pares. Mas a hegemonia de língua de Molière tinha os dias contados.

Um caso paradigmático desta evolução de que fui testemunha, passou-se com o livro “Géologie des Argiles”, de George Millot, editado em Paris, pela Masson, em 1964. Obra notável e pioneira deste que foi meu mestre, abriu-me o caminho aos estudos que empreendi, permitindo que me antecipasse, aos meus pares americanos e ingleses, nas conclusões a que cheguei, dada a pouca penetração do francês no universo anglófono. As concepções deste ilustre professor de Estrasburgo só tiveram a divulgação, que se impunha, e a correspondente penetração na comunidade dos geólogos, a partir da edição deste seu livro, em inglês, sob o título “Geology of Clays”, na Springer-Verlag, N.Y., em 1971.

Uma influência da francofonia na nomenclatura petrográfica foi a que, em minha opinião, deu origem a uma imprecisão que ainda hoje persiste em muitos manuais de ensino e, até, em textos científicos. O petrógrafo francês, Alfred Lacroix (1863-1948), que dedicou muito de seu estudo às rochas magmáticas portuguesas, usava a expressão rocha eruptiva, como sinónima de rocha magmática ou ígnea. O qualificativo magmática indica, e bem, que a rocha resultou da solidificação de um magma, isto é, um material rochoso total ou parcialmente no estado de fusão e, portanto, incandescente ou ígneo, de que temos exemplo na lava saída de uma erupção vulcânica. Neste caso, a rocha que se forma, o basalto, por exemplo, é, de facto, eruptiva.

Outras rochas magmáticas, como granito, resultam da solidificação em profundidade, na crosta, de magmas que nunca brotam à superfície e que, portanto, não dão origem a erupções. Designar estas rochas por eruptivas é, de facto, um erro. Os grandes petrógrafos franceses do princípio do século XX foram beber esta imprecisão aos seus antecessores alemães, da segunda metade do século XIX, eles, sim, os criadores do termo germânico, Eruptivgestein, aplicado a qualquer rocha magmática, eruptiva ou não, e, daí, a expressão roche éruptive dos autores franceses. Foi, sobretudo, a partir destes que a expressão rocha eruptiva, com o mesmo significado de rocha magmática, entrou, erroneamente, na terminologia geológica portuguesa.

Há uma vintena de anos, ao tempo do Presidente François Mitterand, veio a Lisboa um seu enviado especial, com o propósito de contactar a comunidade dos nosso cientistas especializados em França e, desses contactos, concluir sobre as medidas a serem tomadas pelo seu governo, no sentido de reactivar a francofonia, já então, em franca regressão. O sujeito, cujo nome se me apagou da memória, ouviu de nós recomendações, entre as quais, recordo, as relacionadas com o preço das edições francesas e a necessidade de se aumentar o número de bolsas de estudo a subsidiar pelo seu governo. Posto isto, regressou à pátria e nunca mais ninguém ouviu falar dele nem do problema que o trouxera até nós.

Hoje em dia, os investigadores científicos portugueses e espanhóis, à semelhança de franceses, belgas e outros francófonos, quaisquer que sejam os seus domínios de especialização, escrevem os respectivos trabalhos (papers) na língua de Shakespeare. Isto, se quiserem que os seus resultados tenham a divulgação que pretendem dar-lhes e, o que também é considerado importante, sejam indicados internacionalmente no exigente e selectivo Scientific Citation Index.

Galopim de Carvalho

sábado, 22 de setembro de 2012

Duas propostas do Reitor da Universidade de Coimbra

O discurso que o Reitor da Universidade de Coimbra – Professor João Gabriel Silva – pronunciou na Sala dos Capelos, no passado dia 19 de Setembro, na abertura solene das aulas, foi uma peça de qualidade que merece ser conhecida (pode ser lido aqui e visto aqui)

Envolvido na formalidade dos atos e esquecido pelos órgãos de comunicação social, que se limitam à espuma das coisas, vale a pena dar atenção a duas das suas propostas referentes à crise atual. O excerto que se segue diz respeito a essas propostas e tem um grande interesse para todos nós. Acresce que o Reitor da Universidade de Coimbra tem autoridade moral para falar. Não só porque as universidades (e a de Coimbra também) têm sido sujeitas a níveis de austeridade elevadíssimos, e não comparáveis a outras instituições que não têm, nem de longe, a mesma função científica, cultural e social, mas sobretudo porque são um exemplo de boa administração.

Recordo que várias vezes o anterior reitor, Fernando Seabra Santos, antes ainda da crise atual, falou no caso, deveras notável, de em todos os edifícios do Pólo II da Universidade de Coimbra nunca ter havido a mínima derrapagem financeira, sendo o custo final dos diversos departamentos, que se construíram na década de 90, exatamente igual ao que tinha sido orçamentado.

Eis, pois, a parte do discurso de João Gabriel Silva, a que me refiro:
«Portugal já passou por momentos piores do que os atuais: a fome e a morte durante as grandes guerras do século XX, a noite de chumbo do Estado Novo e da guerra colonial, a guerra civil e as invasões francesas no século XIX, a perda de independência no final do século XVI e a guerra para a recuperar no século XVII, o garrote da inquisição dos séculos XVI ao XVIII, as pestes recorrentes na Idade Média, entre muitos outros.
Sobreviveremos também a esta crise, bem menor que essas outras. Portugal é um país de resistentes. Somos um povo que muitas vezes não se sabe governar, ou não teríamos chegado a esta situação, mas que sempre consegue descobrir a energia que lhe permite sair rijo da tempestade.
Quero por isso renovar a palavra simples que vos quis trazer quando tomei posse: o otimismo. Creio firmemente que a Universidade de Coimbra, graças ao intenso trabalho de todos, sairá reforçada desta crise.
Há, no entanto, um grave perigo que paira sobre nós: o envelhecimento. Uma Universidade é, em primeiro lugar, as pessoas que a compõem, e nenhum reitor pode assistir, sem manifestar a sua indignação, à progressiva degradação dos salários dessas pessoas. Mas também não pode assistir ao envelhecimento do seu corpo de professores, por indisponibilidade financeira para contratar tantos jovens brilhantes que ficam no desemprego. Estes jovens podem contribuir decisivamente para o avanço do conhecimento, a única verdadeira esperança para Portugal criar a riqueza necessária para sair da crise, e nós estamos a deixá-los inativos, ou a levá-los a emigrar contra a sua vontade. A crise que nos colocou nesta situação é-nos inteiramente exterior.
A Universidade de Coimbra, como outras universidades portuguesas, não tem dívidas nem pagamentos em atraso. No entanto, por sermos tão profundamente afetados por ela, sinto a obrigação de, em defesa da instituição que represento, me pronunciar sobre a origem da crise e sobre a forma de a debelar.
 É neste contexto que pretendo realçar hoje duas propostas que reputo de centrais para a compreensão e resolução da crise. Não são inéditas mas, no meu entendimento, não têm tido a atenção prioritária que deveriam ter. Não quero produzir, como tantos, apenas uma declaração de oposição ao que está a ser feito por causa da crise: quero apresentar propostas concretas.
Em primeiro lugar, penso que é necessário definir melhor os limites do mandato dos nossos governantes. Sendo eleitos apenas pela geração atual, entendo que os Governos não estão mandatados para gastar o dinheiro das gerações futuras. Muitos dos jovens que sofrem os terríveis níveis de desemprego atual, e continuarão a sofrer no futuro próximo, nem sequer ainda tinham direito de voto quando foram tomadas muitas das decisões que nos levaram a esta situação. Tem de haver um limite ao que os governos podem pedir emprestado. A Constituição da República Portuguesa, garante da nossa liberdade e da nossa soberania, que por causa disso estabelece tantos limites à ação dos Governos, tem de conter também balizas para o endividamento, pois neste momento nada limita mais a nossa soberania, a nossa capacidade de escolher o nosso destino, a nossa liberdade, do que o peso sufocante da dívida. A Constituição tem de nos proteger da dívida excessiva, tal como nos protege de tantos outros abusos de poder.
A segunda proposta é mais profunda. A estrutura de impostos em Portugal tem de começar a mudar. A recente decisão do Tribunal Constitucional de declarar inconstitucional o corte dos subsídios salariais na função pública, "por violação do princípio da igualdade", convoca-nos para a discussão do que poderá ser uma distribuição justa do peso da dívida. Sendo a matéria em apreço de nível constitucional, importa lembrar que o objetivo último da organização da sociedade é permitir a todos viver com dignidade, quer agora quer no futuro. Nos tempos atuais poucas circunstâncias comprometem mais esse objetivo do que o desemprego, que leva à falta dos recursos mínimos indispensáveis a essa dignidade. Recuso por isso que a discussão sobre a distribuição do peso da dívida se reduza à discussão da sua repartição entre os salários do setor público e os salários do setor privado. Temos sim de encontrar mecanismos que retirem esse peso dos rendimentos do trabalho, parando e até invertendo o crescimento da carga fiscal sobre os salários. Se os custos com as pessoas são muito elevados, todas as instituições e empresas vão tentar ter o mínimo de pessoas, e ninguém as pode censurar por isso. É uma questão de sobrevivência. A carga fiscal muito elevada sobre o emprego é causa direta de desemprego. Reconheço que, em tempo de crise, não se pode pedir ao Estado para prescindir de receita. No meu entendimento há duas origens alternativas aos rendimentos do trabalho: os recursos naturais não renováveis e as transações financeiras. Vou debater apenas esta última pois não podemos esquecer que a origem primeira da atual crise é o descontrolo dos mercados financeiros, com a sua quase ilimitada capacidade para gerar especulação tóxica.
Defendo a introdução em Portugal de um imposto sobre as transações financeiras. Não é uma ideia nova; já foi muitas vezes aplicada em vários países. Por exemplo, no Brasil foi um dos instrumentos centrais que permitiu sair da época de hiper-inflação do final do século passado e entrar no atual período de forte desenvolvimento. Custa-me que em Portugal quase nunca se fale deste assunto, apesar de ser um importante motivo de discussão na Europa. Ainda agora uma sua versão bastante mitigada foi introduzida em França, e a chanceler alemã também a defende, como forma de financiar os mecanismos de estabilização financeira europeus
Uma variante particularmente conhecida foi proposta pelo já falecido Prémio Nobel da Economia James Tobin como forma de estabilização dos mercados cambiais, sendo por isso conhecida como "taxa Tobin". A ideia é aplicar a todos os movimentos bancários um imposto muito baixo, por exemplo de apenas 1%. Pode parecer pouco, e é pouco de facto, mas o volume das transações bancárias diárias é tão elevado que mesmo uma taxa baixa geraria montantes relevantes.
Portugal é um país particularmente adequado para uma taxa deste tipo, pois tem um sistema bancário muito evoluído, e um sistema de pagamentos eletrónicos dos mais avançados e mais abrangentes do mundo. É um imposto muito simples, pois não envolve o preenchimento de declarações por parte dos cidadãos, e muito robusto contra evasões fiscais, pois quase todo o dinheiro passa pelos bancos. A maioria esmagadora do dinheiro, como é bem sabido, nunca chega a ter a forma de nota ou moeda, sendo apenas um valor que viaja entre contas bancárias.
Há muitas vantagens neste mecanismo. Em primeiro lugar, alarga muito a base tributária para além dos salários. Incide sobre todo o PIB e não apenas sobre os salários, que representam menos de metade do PIB. Acresce que o dinheiro movimentado na "economia informal" (há quem diga que corresponde a um adicional de cerca de 25% do PIB) também passa, em larga medida, pelos bancos, pelo que também essa economia passaria a ser tributada, gerando muito maior justiça social. Abrange ainda o capital especulativo, como aquele que é controlado por robots que fazem compras e vendas em alta velocidade para aproveitar as micro-oscilações dos mercados de câmbios e das cotações da bolsa. Ao perder uma parte do dinheiro especulativo em cada transação, mesmo que muito pequena, a especulação financeira inevitavelmente abrandaria e causaria muito menos estragos na economia real.
Repare-se que um imposto de apenas 0,5% sobre as transações bancárias equivale aproximadamente ao corte de 7% nos salários do setor privado que foi agora anunciado pelo governo, pois a sua base de incidência é muito mais larga. É muito mais justo aplicar 0,5% a toda a gente do que 7% a apenas alguns.
Este novo imposto deve ser consignado ao pagamento da dívida. Assim, todo o dinheiro que por esta via é retirado do sistema financeiro é-lhe devolvido logo a seguir, atenuando muito a perturbação que a sua introdução poderia trazer. A objeção principal que é apresentada a este tipo de imposto é a de que pode levar à fuga de capitais se for introduzido por um país isoladamente. A França, que acaba de o fazer, não parece ter esse medo, mas se for introduzido simultaneamente num conjunto grande de países é claramente melhor.
Permitam-me neste momento a reafirmação de um princípio. Nas palavras do nosso colega reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, no seu notável discurso do dia 10 de Junho deste ano, para os portugueses a Europa não é uma opção. É a nossa condição. Nós somos europeus, e só o podemos ser com muito orgulho, pois ter orgulho na Europa é ter orgulho em nós próprios. Eu tenho imenso orgulho em Portugal, nestas gentes que são as minhas gentes, com quem quero viver e junto de quem desejo morrer em paz, quando for a hora.
Penso que Portugal deve estar na linha da frente da criação deste novo imposto multinacional, pois os enormes sacrifícios que estamos a aceitar dão-nos essa autoridade. Ser membro da União Europeia, e da zona euro, dá a Portugal a possibilidade de intervir nos locais onde estas decisões são tomadas. As pessoas não podem continuar a ser a referência principal dos impostos.
Taxemos os robots, taxemos o dinheiro, libertemos as pessoas. Aliviando os salários ajudamos também a evitar a perigosa espiral regressiva em que estamos mergulhados, em resultado da brutal redução do poder de compra dos portugueses.
A UC declara-se desde já disponível para ajudar a desenhar os mecanismos concretos para operacionalizar estas duas propostas.»

João Boavida

SINFONIA DE OUTONO TRISTE



Ocorreu o equinócio de Outono boreal. Nos antípodas, renasce a natureza no esplendor da Primavera austral.
Por aqui, os dias vão ficar cada vez mais escuros até ao solstício de Inverno. 
Hoje, a Terra espreguiça-se ociosamente antes de entrar para os tempos mais difíceis que agora chegam. 
Só hoje, o dia é igual à noite. Numa singularidade cósmica, uma harmonia celestial na eclíptica e na órbita elíptica de Kepler. 
O amanhã, será mais escuro, cada vez mais escuro. Apesar do colorido deslumbrante com que as plantas se despedem da clorofila. Amanhã, só as estrelas nos darão esperança e sonho, embalados na viagem sideral por mais uma sinfonia outonal, música das esferas perdidas, do "fá" e do "mi" terrestres.

António Piedade

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A IGNORÂNCIA É PARCEIRA DA CORRUPÇÃO


RELVAS


O ministro da Educação e Ciência Nuno Crato está a fazer uma grande maldade ao primeiro ministro Passos Coelho. Ao não apressar a publicação do inquérito à licenciatura a Miguel Relvas, que a Inspecção do Ensino Superior está a realizar há demasiado tempo, dá azo a que a opinião pública continue  a ter fortes razões para não dar crédito nem a Miguel Relvas, que se intitula de "doutor" sem o ser verdadeiramente, nem a Passos Coelho, que persiste em o apoiar. A pose displicente e arrogante de Relvas no Brasil numa altura de crise política grave deveria chegar, mesmo que o relatório da Inspecção tardasse, para o afastar da governação. Mas não chegou. As pessoas começam a interrogar-se se, para sair o ministro dos Assuntos Parlamentares, é preciso que saia ao mesmo tempo o primeiro-ministro. De facto, nem os ministros nem os primeiros-ministros são eternos.

PORTAS

De Eugénio Lisboa, ensaísta e crítico literário, que tem lustrado este blogue com posts de grande interesse cultural, foi recebido este texto da autoria do Professor Ernesto Rodrigues, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ficcionista (v.g., “A Serpente de Bronze” e “O Gramático”), ensaísta, tradutor do húngaro, etc., que se publica abaixo:

"A atitude de Paulo Portas, líder do CDS/PP, no domingo passado, foi repugnante. Disfarçou-a de «patriotismo», que, para ele, se reduz a mais uns dinheiros de investidores estrangeiros. Fraca consciência, e péssima razão. A solidariedade interministerial não existe, pelos vistos.

Quanto ele disse, deveria tê-lo dito já como ex-ministro, fora da embarcação de governo tão insalubre. Ganhava milhas de indulgência. Mas, num partido alegadamente democrata-cristão, prefere-se “bon vivant” e Fernão de Magalhães dos ares à figura de um novo Saulo fulminado pela ética. 

Assim, após a sua impávida retórica, eu espero a demissão do ministro das Finanças, se tem vergonha na cara. Como se olharão estes ministros de Estado nas reuniões pantanosas de quinta-feira? 

O Portas dos pensionistas e reformados deitou borda fora os velhinhos e, qual escorpião, mordeu quem lhe deu passagem, antes de ele mesmo se afogar. Fica aviso aos futuros coligadores. Estou a vê-lo, sentado na Redacção do semanário Tempo, no início dos anos 80, debruçado para frases em breve assassinas n’O Independente. Alheio ao ruído de fundo, que também é jovialidade e informação, ele treinava anaforizações discursivas com tanto de António Vieira quanto de ludíbrio e vazio. De moral, nem se fala.

Há portas mais inteligentes”. 

Ernesto Rodrigues

OS DINOSSÁURIOS NÃO PASSARAM DE MODA…

Texto do Professor Galopim de Carvalho, com os agradecimentos do De Rerum Natura.

Os dinossáurios não passaram de moda...


 ... nem estão em hibernação. O que, em meu entender, acontece, é que tem havido menos acções de qualidade científica e pedagógica viradas ao grande público e um menor número de interessados a falarem deles nos media. Pelo contrário, no recato da investigação científica nunca houve entre nós tanta produção e isso alegra-me bastante.

Sem falsa modéstia, devo dizer que a semente que ajudei a lançar à terra, não como especialista (que toda a gente sabe que nunca fui nem sou) mas como divulgador pela palavra escrita e falada e como responsável de mais de uma dezena de grandes exposições levadas a efeito no Museu Nacional de História Natural e noutras instituições, germinou e é hoje uma "árvore" a dar frutos.

Não obstante a tradicional escassez de financiamentos, nunca tivemos tanta gente a trabalhar, a tempo inteiro, em paleontologia e paleobiologia dos dinossáurios. Nunca, como nos últimos anos, conduzimos ou participámos em tantas escavações no país e no estrangeiro. Nunca se publicou tanto sobre este tema.

Na continuação de uma linha que iniciámos em 1992, com "Dinossáurios regressam em Lisboa", vai ter lugar no próximo mês de Outubro, no Pavilhão do Conhecimento, da Agência Ciência Viva, nesta cidade, na qual estou envolvido, uma exposição sobre o celebérrimo Tyrannosaurus rex, na qual se discute se este grande carnívoro foi um necrófago ou um predador activo, apoiada no saber científico de profissionais nas áreas da geologia e da paleontologia.

O que está, na verdade, em hibernação, é a vontade política dos responsáveis das administrações central e local em levar a cabo, concluir ou prestar assistência de manutenção ou de conclusão de importantes projectos que lhes entreguei, alguns deles há mais de uma vintena de anos. São, nomeadamente, os casos das seguintes jazidas:

• "Pego Longo" do Cretácico superior, com cerca de 95 milhões de anos, perto de Carenque, com projecto de arquitectura aprovado pela Câmara Municipal de Sintra, em 2001, completamente deixado ao abandono;

• "Pedreira do Avelino", "Pedra da Mua" e "Lagosteiros", as duas primeiras com pegadas de herbívoros (saurópodes) do Jurássico, com cerca de 150 milhões de anos, e a última do Cretácico inferior, com cerca de 120 milhões de anos, cujos projectos continuam perdidos em uma ou mais gavetas da autarquia de Sesimbra;

• "Pedreira do Galinha", com pegadas de herbívoros do Jurássico médio, com cerca de 175 milhões de anos, a única visitável, cuja musealização não foi concluída e que, por falta de manutenção, se encontra num estado de degradação preocupante;

•"Vale de Meios" (Alcanede, Santarém), uma importante jazida com pegadas de terópodes (carnívoros) do Jurássico médio, com cerca de 175 milhões de anos, à espera de melhores dias.

O alto valor científico, o correspondente interesse pedagógico e a monumentalidade destas jazidas justificam o investimento que nelas se possa fazer (algo insignificante face ao que já foi feito), na certeza de que o seu potencial interesse turístico o compensará amplamente.

Se a incúria por parte das administrações, "em tempos de vacas gordas", foi a que está à vista, não é difícil imaginar o destino deste valiosíssimo Património Natural, nos tempos que correm.

Galopim de Carvalho

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Os professores vistos pelos seus alunos


Recebi na minha caixa de correio institucional uma mensagem, daquelas que são enviadas a milhares de pessoas. O endereço era o de um sindicato de professores e o assunto: Dia Mundial do Professor. Na duas primeiras linhas li o seguinte [omito a identificação das entidades em causa, que isso não é o que interessa]:
[O sindicato] em parceria com [nome duma empresa], promoveu um concurso de desenho e pintura, nas escolas portuguesas, sobre a imagem que os alunos têm dos seus professores. 
Perguntas (ou apreensões) que me surgiram de imediato:
- Um sindicato de professores em parceria com uma empresa!?
- Um sindicato pode entrar nas escolas portuguesas e interagir, ainda que por interposta pessoa, com os alunos!? E uma empresa!?
- "Escolas portuguesas", significa escolas de norte a sul do país ou só do centro, que é a zona de abrangência do sindicato? Mesmo que sejam só escolas do centro, a publicidade chega a uns milhares e, portanto, pelo menos para a empresa deve valer a pena...
- Quanto à empresa, é legítimo fazer publicidade junto de alunos, quando estes ainda não terão formado uma consciência crítica que lhe permita fazer face às suas sedutoras estratégias?
- Desenhos sobre a "imagem que os alunos têm dos seus professores"!? Os professores em apreciação pública!? Sem qualquer cuidado de recolha que não seja: "miúdos desenhem..."
- Se a iniciativa se concretizou dentro do recinto escolar, foi preciso obter autorização de alguém. Mas de quem? Dos directores?
- Se os desenhos foram feitos em contexto de aula, os professores aceitaram o que era proposto? Se aceitaram, fizeram-no de livre vontade ou sentiram-se coagidos de alguma forma?
- E aos encarregados de educação não lhes devia ter sido pedida autorização para os seus miúdos desenharem algo que um sindicato e uma empresa pretendia!? Alguém lhes pediu?

Não parecendo, as duas linhas que acima reproduzi têm muito que se lhe diga... Em curtas palavras revelam a grandessíssima confusão em torno da função da escola e da sua relação com outras entidades sociais. Estas entidades vendo-a como um apetecível campo de divulgação vão solicitando a entrada...Por seu lado, a escola, com receio de (continuar a) ser apontada como um reduto de fronteiras herméticas, abre as portas de par-em-par a quem queira entrar...

"O resultado foi muito positivo", afirma o sindicato. Mas, para quem? No cenário em causa, não me parece tenha sido sequer positivo (quanto mais muito positivo) para a imagem dos professores.

A partir de hoje começaram a circular pacotes de açúcar onde se reproduzem os desenhos premiados. Quando o leitor fizer uma pausa para café, talvez tenha oportunidade de pensar neste assunto.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Aprender Fazendo:O que são cordas vibrantes?


Homem Só, Meu Irmão


Luiz Goes, trovador de Coimbra, escreveu, compôs e cantou canções como Homem Só, Meu Irmão. Uma voz fica e que continua a encantar.

Tu, a quem a vida pouco deu,
que deste o nada que foi teu
em gestos desmedidos...
Tu, a quem ninguém estendeu a mão 

e mendigas o pão dos teus sentidos,
homem só, meu irmão!

Tu, que andas em busca da verdade
e só encontras falsidade
 em cada sentimento,
inventa, inventa, amigo, uma canção
que dure para além deste momento,
 homem só, meu irmão!
 

Tu, que nesta vida te perdeste
e nunca a mitos te vendeste
– dura solidão –,
faz dessa solidão teu chão sagrado,
agarra bem teu leme ou teu arado,
homem só, meu irmão!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Miguel Relvas, Ministro dos Negócios Nacionais?


“O tempo passado e o tempo presente, ambos fazem parte do futuro”
T.S. Eliot
(1888-1965)


Defendo que a história não deve ser feita de omissões de textos antológicos dos nossos maiores vultos da Literatura. Nesse sentido, sem pretender entrar em generalizações sempre perigosas, deixo este pequeno texto do Padre António Vieira (1608-1697) sobre o qual fiz a devida reflexão. Reflexão essa que desejo partilhada com os leitores.

Escreveu este pensador que nos deixou um espólio de 200 sermões e que teve um lugar de destaque na actividade diplomática do seu tempo:
“Tantos trabalhos, tantos cuidados, tantos desvelos, tantas diligências, tantas negociações, tantos subornos, tantas lisonjas, tantas adorações, tantas indignidades, tanto atropelar a razão, a justiça, a verdade, a consciência, a honra e a vida! E porquê? Para alcançar a vaidade de um posto, de um lugar, de um título, de um nome, de uma aparência”. 
Nada me permite tornar Miguel Relvas, homem da passagem do século XX para o século XXI, personagem a papel químico de uma crítica nada abonatória para a historia portuguesa do século XVII. Acontece, todavia, que Miguel Relvas, vindo da Juventude do PSD, como se as juventudes partidárias fossem incubadoras de políticos valorosos (Secretário-Geral da JSD, 1987/1989, e 1.º vice-presidente da Comissão Política da JSD, 1990/1992), actual Ministro Adjunto dos Assuntos Parlamentares com a função de apoiar o Primeiro Ministro na coordenação politica do governo, parece ter-se tornado numa espécie de embaixador dos Negócios Nacionais de Portugal junto do Brasil e de Angola.

E isto numa altura em que a sua função exigia, mais do que nunca, fazer a ligação entre os diversos ministérios e a Assembleia da República; e em que, ipso facto, ele tanta falta deve fazer numa casa em que todos os partidos da oposição puxam as orelhas ao Governo sem indicarem soluções que façam Portugal sair milagrosamente de uma crise social e económica sem fim à vista.

Não seria possível Miguel Relvas, com todo o seu valioso currículo profissional e político, reconhecido e creditado pela Universidade Lusófona para a obtenção de uma licenciatura em condições deveras polémicas e nada dignificantes (gestor e administrador executivo, consultor de várias empresas e Secretário de Estado da Administração Local do XV Governo Constitucional), em desígnio patriótico que os portugueses saberiam agradecer, regressar e aparecer em público neste País com a sua longa experiência para dar uma mãozinha deixando os seus negócios nacionais em banho-maria por uns tempos?

Um país em dificuldades económicas nunca foi um bom negociador com países em franco crescimento por maior que seja (ou melhor, que fosse!) a habilidade de gestor e administrador de Miguel Relvas.

PORTUGAL, UM PAÍS DE CIDADÃOS

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho, nosso estimado colaborador.



Se é certo que a política é uma ciência que se estuda e ensina, da qual, devo começar por dizer, não tive escola, a política partidária afigura-se-me como uma arte que visa adaptar a dita ciência ao sabor de interesses, nem sempre confessados, pela qual nunca me senti atraído e pela qual me não deixei envolver, logo ensinada às juventudes partidárias e bem aprendida por estas, como está bem à vista, e apenas para citar dois exemplos, na actuação de dois dos seus rapazes mais brilhantes, bem parecidos, bem falantes e convencidos, mas sem a imprescindível preparação e experiência de vida: o que recebeu de nós a missão de governar e o que, por direito e dever, assume o principal papel da chamada oposição.

Na Grécia antiga, cidadão era aquele - nunca aquela - que gozava do direito de participar na vida política da cidade, um direito igualmente vedado a estrangeiros e a escravos. Mais tarde, na Europa, e até finais do século XVIII, foi condição de dignidade do homem – nunca da mulher - que recebia esse título honorífico. A cidadania plena é uma vitória das ideias do iluminismo e do liberalismo, saídas do pensamento de John Locke, naturalista, filósofo e político inglês do século XVII. Visa a valorização de todos os indivíduos e encoraja a cooperação entre eles, sem estabelecer distinções de sexo, de idade, de religião, de etnia ou de condição sociocultural, num propósito bem assumido de desenvolvimento das suas formações ética e estética, das suas faculdades intelectuais e profissionais e do seu bem-estar físico e social.

Há quase dois séculos e meio, Pierre Auguste Beaumarchais, dramaturgo francês, autor dos textos que inspiraram as óperas “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, e “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, gritava para uma multidão, em Paris: «Não sou nem um cortesão nem um favorito. Sou um cidadão!». Tendo por meta a defesa intransigente da liberdade individual contra a autoridade ilegítima, a cidadania ganhou dimensão com a Revolução Francesa, vingou com a tomada da Bastilha e afirmou-se com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada em 1789 (na figura ao lado). A cidadania nasceu, assim, fundamentada na liberdade, na igualdade e na fraternidade.

A liberdade, por enquanto, está bem de saúde e recomenda-se. Conquistámo-la nós, portugueses da minha geração, há quase quatro décadas, não o esqueçamos, graças aos capitães de Abril, com cravos nos canos das espingardas. Essa liberdade temos sabido defendê-la e conservá-la e uma das evidências dessa sabedoria foi dada pelas centenas de milhares de homens e mulheres de todas as idades que, no último Sábado, saíram civilizadamente à rua, por todo o País, numa manifestação de maturidade e cidadania ímpares.

Porém, a igualdade e a fraternidade estão cada vez mais longe de atingir o patamar eticamente exigível e legitimamente esperado pela esmagadora maioria dos povos e, entre eles, os portugueses, que o mundo do dinheiro na sociedade dita do desenvolvimento tem vindo e continua a negligenciar ou, pior ainda, a explorar.

Uma das formas de combater as flagrantes desigualdades e injustiças que, ao invés das esperanças de Abril, têm vindo a agravar-se, é alargar a cidadania onde for preciso, criá-la onde ela anda esquecida, e encorajar o cidadão a fazer pleno uso dela, como contribuição pessoal no tecido social de que é parte. Neste capítulo estamos no bom caminho. Vamos em frente! E que cada um se regozije e envaideça com a expressão inteligente e ordeira da unidade de um povo que mostrou no passado dia 15 de Setembro.

Com esta grandiosa manifestação, Portugal deu ao Mundo uma magnífica lição de cidadania.

Galopim de Carvalho

Ecologia e Evolução

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

Seminário em Ecologia e Evolução orientado pelo especialista em vida selvagem da Universidade de Extremadura, Gregorio Rocha, na quarta-feira, dia 19 de setembro, às 15h00.
Doutorado em Medicina Veterinária e Engenheiro Florestal, Gregorio Rocha discute o tema “Es posible la competencia entre Streptopelia Decaocto y S. Turtur en la Peninsula Iberica?”.

Os Seminários em Ecologia e Evolução têm uma periodicidade mensal e pretendem ser espaços de  apresentação e discussão de ideias novas e da investigação em curso.

PASSAPORTE DE CIDADANIA PARA IR ONDE? FAZER O QUÊ?

Há poucos anos integrei na minha colecção de "produtos pedagógicos estranhos" uma folha que me chegou às mãos cujo título é "...