segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Singularidades Urgentes (Parte II)

Raymond Kurzweil

A minha crónica semanal no jornal i, desta vez retomando a questão da Singularidade.

Há 2 semanas referi o conceito de singularidade, o momento do futuro em que a evolução tecnológica torna-se tão rápida e de forma profunda que representa uma ruptura na construção da história do Homem.

Curiosamente, a edição da semana passada da revista Time aborda essa temática, focando um dos seus maiores pensadores, o futurista Raymond Kurzweil. Engenheiro, inventor, orador internacional, Kurzweil começou por analisar os grandes passos da humanidade e a contar os intervalos entre os mesmos: entre a revolução agrícola e industrial tivemos 8000 anos, entre a lâmpada e a chegada à Lua viveram-se 90 anos e são apenas 9 os anos que distam entre o aparecimento da internet e o mapeamento do genoma humano.

O progresso não é linear, é exponencial! Os intervalos são, agora, vírgulas. Para Kurzweil, a singularidade ocorrerá em 2045, o ano em que a quantidade de inteligência artificial criada será mil milhões de vezes superior ao somatório de toda a actual inteligência humana. Para onde seguirá tal criatura? E nós?

Hoje, 30 000 pacientes com Parkinson têm implantes electrónicos, há robôs a combater no Afeganistão e, em 1997, Kasparov perdeu um jogo de xadrez para um computador e felicitou-o. A nossa convivência com as nossas criações artificiais é um namoro pacífico. "O Homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem do que poderia ter", dizia Sartre. Somos uma constante e imparável singularidade.

Química das coisas banais: lâmpadas eléctricas

Estamos tão habituados às lâmpadas eléctricas que estas parecem sempre ter existido e sido usadas. No entanto, só após o aparecimento, no final do século XIX, de formas práticas de obtenção de energia eléctrica, foram sendo abandonados os inúmeros tipos de velas, lamparinas, candeias e candeeiros que empregavam os mais variados combustíveis, e, mais tarde, as várias formas de iluminação a gás.

A iluminação eléctrica foi dominada, nos últimos cem anos, pelas lâmpadas incandescentes com filamento de tungsténio (também denominado volfrâmio). Estas lâmpadas produzem luz pela emissão de radiação devida à temperatura que atinge o filamento ao ser atravessado pela corrente eléctrica. Para impedir a rápida oxidação do filamento, é usado um bolbo de vidro cheio com um gás nobre, em geral árgon, o qual não reage com o metal e minimiza a lenta difusão do oxigénio através do vidro. O tungsténio tem pontos de fusão e ebulição muito elevados e assim apresenta baixa velocidade de evaporação. Desta resulta a lenta formação de uma camada de tungsténio na parte interior do bolbo e a diminuição da espessura do filamento que acaba por quebrar, ou por fadiga do metal, ou por fundir num ponto mais fino. As lâmpadas de halogéneo têm dentro do bolbo uma pequena quantidade de iodo ou bromo que reage com o tungsténio que se evapora, voltando a depositar este metal no filamento, impedindo assim a deposição de tungsténio nas paredes e retardando a degradação do filamento. As lâmpadas incandescentes vulgares são muito pouco eficientes em termos energéticos pois grande parte da energia é perdida sob a forma de calor como bem sabe quem já tentou mudar uma lâmpada acabada de fundir. Por essa razão estão a ser abandonadas.

Outras lâmpadas eléctricas funcionam por luminescência que é um processo mais eficiente em termos energéticos. Nas lâmpadas fluorescentes a corrente eléctrica é usada para excitar vapor de mercúrio que emite radiação ultravioleta, a qual é absorvida pelo revestimento de sais de fósforo e terras raras que emite de seguida radiação visível. Estas lâmpadas, agora muito populares na forma compacta que pode ser aplicada nos bocais das lâmpadas incandescentes, exigem algum cuidado com a sua deposição no lixo por conterem mercúrio e fósforo.

Uma forma de iluminação muito intensa é dada pelas lâmpadas de arco eléctrico, cujos primeiras aplicações públicas foram consideradas tão desagradáveis por Stevenson que as classificou como a iluminação do inferno. Actualmente existe uma grande variedade destas lâmpadas que produzem luz através da criação de um arco eléctrico entre dois eléctrodos de tungsténio num tubo contendo um material que pode formar um plasma, o qual torna o arco eléctrico muito brilhante e estável. Um exemplo clássico são as lâmpadas de vapor de sódio, que embora emitam apenas luz amarela, têm muita utilização na iluminação das ruas por serem eficientes e causarem relativamente menos poluição luminosa que outras lâmpadas.

Faltou referir as lâmpadas de LED e outras formas de iluminação que estejam em desenvolvimento. As lâmpadas eléctricas são objectos banais, mas têm muita química e um grande impacto no nosso modo de vida e bem-estar. Poupemos energia, aumentemos o seu tempo de vida útil e respeitemos a ciência que as desenvolveu, não as mantendo acesas de forma desnecessária.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A FUNDAÇÃO TEMPLETON E O DIÁLOGO CIÊNCIA RELIGIÃO

Destaque semanal para a coluna WHAT’S NEW do físico norte-americano Robert L. Park:

THE EPIPHANY: DOES THE TEMPLETON FOUNDATION MAKE YOU UNEASY?

It certainly makes me uneasy. An excellent News Feature in this week's Nature by Washington editor Mitch Waldrop gives some of the reasons why it should, but something important was left out. (Much of what follows was drawn from my book Superstition: Belief in the Age of Science (Princeton, 2000)). As Waldrop points out, the Templeton Prize was not originally created "to pursue Templeton's goal of building bridges between science and religion." Indeed, the first Templeton Prize winner in 1973 was a fanatic Catholic nun who founded the Missionaries of Charity in Calcutta and wore a cilice. A bridge to science, Mother Theresa certainly was not. But then, neither were the next 26 winners of the prize, most of whom had founded religious movements that few scientists have ever heard of, except for Billy Graham who founded the Evangelistic Association, and Charles Colson of Watergate fame who founded the Prison Fellowship. Later, the nicety of a prize committee would be added, although Templeton seems to have remained in total control. The first notable exception was Paul Davies in 1995, a theoretical physicist who authored the Mind of God, and numerous other popularizations of cosmology. Templeton wrote little and we know almost nothing first-hand about what was going on in his head during this period. He appears to have had an epiphany. In 1999 the prize went to Ian Barbour, a physicist who had been Enrico Fermi’s student at the University of Chicago and who played a major role in building the first the nuclear reactor. Certainly the most interesting winner of the Templeton Prize, Barbour was disillusioned by the atomic bombing without warning Hiroshima and Nagasaki. After finishing his doctorate at Chicago, Barbour dropped out of physics and took a degree in theology from Yale. At Carleton College he taught both physics and theology and is generally credited with having created the Dialogue Between Science and Religion. Barbour marked a sharp change in Templeton prize recipients. From that point on, recipients have been, almost without exception, physicists or cosmologists who, as Dawkins put it, "say something nice about religion." Sir John died in 2008, but things have changed little under his son. The 2009 prize went to a physicist; 2010 to biologist Francisco Ayala.

SELLING SCIENCE: THE PROBLEM WITH DISPROPORTIONATE WEALTH

Sir John Templeton saw Ian Barbour’s "dialogue between science and religion" and he coveted it. There is no point in being one of the richest men in the world if you can't buy the things you want. So the Templeton Foundation bought a magazine, Science and Spirit, and devoted it to publicizing the dialogue, but who reads Science and Spirit? So next, Templeton went to the American Association for the Advancement of Science with an offer of one million dollars to create the AAAS Dialogue between Science and Religion. That still sounds like a lot of money to scientists. The AAAS later backed out, but it serves to remind us that, however obtained, a disproportionate share of the world's wealth, even in the hands of the well-intentioned, is a threat to us all.

Robert L. Park

"E depois inventa-se uma história para explicar tudo"

Paula Rego, "a nossa pintora em Londres", recebeu na passada semana, em Portugal, uma distinção académica importante: o Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa. Disse nessa ocasião: «Tudo o que se faz é às escondidas, portanto pode-se fazer o que se quiser. Pode-se castigar quem não se gosta e quem se gosta. E depois inventa-se uma história para explicar tudo.»

Na infância, sempre na infância, pode encontrar-se a formação da capacidade de Paula para inventar e reiventar histórias que "explicam tudo" o que existe no mundo real e noutros que, não sendo reais, não deixam de o ser. Neste caso, a solidão ajudou a formar o pensamento e a dar jeito à mão que o exterioriza. Assim ela o conta frequentemente, e o dá a conhecer por escrito John McEwen, crítico de arte que há trinta anos se deixou envolver pela fantasia pictural que os quadros mágicos deixam perceber:

"O quarto de dormir da Paula era no andar de cima, autêntico refúgio para uma filha única. Ao contrário da animação em casa dos avós, onde lhe era permitido estar na cozinha, e onde a avó ajudava a preparar as refeições, a vida com os pais seguia um ritual estrito. Levavam uma vida retirada, e não queriam que a Paula convivesse com os criados. Acrescentar que nessa época ainda não havia televisão. As crianças, muito mais do que hoje em dia, tinham que arranjar maneiras de se entreter. O grande recurso para a Paula eram os brinquedos, sobretudo um teatro espanhol que tinha pertencido ao pai; e os desenho. Acima de tudo - desenhar. Conta a mãe:

Lá estava ela constantemente a fazer um som na sala - bum, bum, bum - sem parar. Era um sossego ouvir aquele som - porque enquanto ela entoava aquele bum, bum, eu sabia «Ah, a Paula está contente. Está a desenhar, está contente.» E, sabe, uma coisa, ela continua a fazer aquele barulho - bum, bum, bum, e continua a desenhar no chão - ainda hoje, depois de todos estes anos.

A pintura é uma actividade solitária, e Paula achou sempre que o isolamento da sua infância foi uma bênção. «Aqueles anos de infância passados assim, sozinha num quarto foi o melhor treino que podia haver para uma artista».

Mas a actividade criadora criadora não era a única coisa que a mantinha feliz agarrada ao quarto. «Foi no Estoril que eu primeiro tive consciência do mundo exterior, de uma realidade fora de casa - e isso aterrorizava-me ao máximo. Minha mãe diz que eu tinha medo das moscas, me eu tinha medo de tudo. Até as outras crianças me assustavam. Era horrível quando eu me encontrava lá fora. Um autêntico pavor». Felizmente que a praia não tinha o mesmo efeito. A praia era para ela um quarto de brinquedos ao ar livre.

Não há dúvida que o talento artístico de Paula algo ficou a dever à mãe. É aliás através da mãe que ela é uma prima afastada de Vieira da Silva, mulher também, e a figura artística portuguesa mais célebre internacionalmente. Maria Rego, que hoje se recusa a levar a sério os seus esforços como pintora, chegou a frequentar, muito jovem, uma escola de arte em Lisboa, actividade considerada mais convencional no meio português do que em Inglaterra. maria continuou com a pitura a óleo durante largo tempo, já casada. Luzia, a velha criada, que se ocupava de Paula, ainda hoje tem um pequeno quadro de Maria, sensível e de hábil factura."

Referência:
McEwen, J. (1998, 2.ª edição). Paula Rego. Lisboa: Quetzal Editores (tradução de Alberto Lacerda), página 18.

"Fui-me às palavras, roubei-as e, com elas, fiz cantigas"

Manuel Freire ficará sempre ligado a António Gedeão. Vai para meio século que a bela música de um (nos) tem dado a ouvir as belas palavras de outro. Mantendo-se as palavras do poeta, a música do trovador reinventa-se e surpreende. Talvez porque tais palavras apelam a múltiplas formas de as cantar.

Em 1996, no Jornal de Letras (Educação, página 20) Manuel Freire explicava como tinha "tropeçado" nas palavras de um tal senhor de nome António Gedeão...

"Um dia ao praticar um dos meus desportos favoritos, a leitura, tropecei num livro de poesia de um senhor chamado António Gedeão. descobri depois que este senhor, por mistério jeckillydiano, era também o autor de um compêndio liceal, pelo que era suposto eu estudar (pouco)...

Mas, mais do que tropeçar no livro, aconteceu-me esbarrar frontalmente com alguns conjuntos de palavras que lá vinham, choque esse acompanhado de comichão nos dedos, vibrações nas cordas vocais, tremores e palpitações (estes e estas internos).

Abreviando; fui-me às palavras, roubei-as e, com elas, fiz cantigas.

Depois houve discos, um programa de televisão muito importante chamado Zip-Zip e passaram trinta anos. Trinta anos durante os quais aquelas palavras e outras que o mesmo senhor escreveu foram correndo mundo, tocando ouvidos, aquecendo muitos corações, saindo de muitas bocas, entrando até talvez em alguns cérebros!...

Ao longo desses trinta anos, de terra em terra, fui companheiro de viagem dessas palavras, cantando-as, dizendo às pessoas que as havia escrito por mim e, até, imagine-se!, ganhado algum dinheiro com isso!...

A essas palavras devo amigos e tantas outras coisas, que, por nunca as poder pagar e por prudência ou pudor de caloteiro, não referirei. A essas palavras e a quem as juntou, a quem lhe deu música que eu não inventei, mas só descobri.

Num mundo cada vez mais feio, porco e mau, as pessoas especiais como António Gedeão são as que nos fazem acreditar que esse mundo pode ser, que o podemos fazer, que temos de o fazer, um pouco mais lindo, mais limpo, melhor são os imprescindíveis!

O António Gedeão não merecia este texto; mas que fazer? Eu sou bom é com as palavras dele e estas são as minhas."

Mais do que escrever palavras em forma de poema, mais do que dar-lhes som em forma de música, Gedeão e Freire envolvem, chamam alunos para as ler e as cantar, como aconteceu ainda recentemente na Escola EB 2/3 de Ansião (ver aqui).

sábado, 19 de fevereiro de 2011

«Este pode entrar»

Em 1996 li, no jornal Público, uma entrevista a Rómulo de Carvalho, a propósito das comemorações dos seus 90 anos.

Por me ter impressionado muito, nunca mais me esqueci da passagem em que ele explicava a razão de ter saído do ensino quando fez 68 anos de idade e completou 40 de trabalho: a entrada no seu Liceu dependia da autorização dos jovens alunos, o mesmo acontecendo com todos os outros professores.
"Preferi parar nessa altura, até por causa do 25 de Abril, houve uma grande desordem. Nas escolas a confusão era enorme. Os rapazes não iam às aulas. No Liceu Pedro Nunes, onde estava na altura, deixou de haver empregadas às portas como era costume. Quem estava lá eram os alunos. Havia um que tinha um pauzinho na mão e quando eu chegava à porta - ou outra pessoa qualquer - batia-me com o pauzinho no ombro e dizia: «Este pode entrar». E eu entrava. Não se tirava proveito nenhum do ensino e eu decidi reformar-me".
Nas suas Memórias, saídas recentemente, o professor, contou de modo mais pormenorizado o acontecido:
"Com as perturbações que a vida nacional sofreu após a revolução do 25 de Abril, com apropriação de uma liberdade irresponsável que nunca soubemos nem sabemos, por temperamento, utilizar, imaginarão vocês o que se terá passado nas escolas, e no ensino em geral. O liceu em que eu trabalhava, o Pedro Nunes, serve de exemplo. A partir daquele famoso dia foi abolida, tacitamente, toda a autoridade. Nem professoras nem pessoal auxiliar tinha voz para fosse o que fosse. O acesso ao edifício estava limitado meia porta. Por essa metade aberta só entrava quem os alunos deixassem. Lá estavam uns tantos de guarda fiscalizando as entradas e as saídas sem saberem bem o que estavam a fazer nem com que finalidade. Quando lá quis entrar, após a revolução, os alunos vigilantes olharam-me, e um deles, tinha um pau na mão, tocou-me com a ponta do pau no ombro e disse: «Este pode entrar».

Penso que houve qualquer ordem superior para estabelecer esta regra, pois num dia seguinte em que precisei de ir ao Liceu Filipa de Lencastre lá estavam à porta alguns alunos que me perguntaram o que é que eu queria e, benevolentemente, pois nem sequer me conheciam, me permitiram a entrada depois de eu declarar que o que lá ia fazer e que era o de me encontrar com uma professora da casa com quem preparava então um Compêndio de Física que em breve seria editado."

Referências completas:
- Carvalho, R. (2011). Memórias. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, página 313.
- Salema, I. (1996). Humanidades e ciências é tudo a mesma coisa. Entrevista a Rómulo de Carvalho, Público de 24 de Novembro, página 2.

O país e as faquinhas de barrar

Uma certa marca de manteiga oferece, em cada embalagem, uma faquinha. As faquinhas têm cabos coloridos, verdes, azuis, etc. Permitem fazer conjuntos de uma só cor ou de cores diferentes. Podem usar-se para barrar pão fresco, tostas, bolachas com manteiga, paté, queijo, doces vários.. Não ficam nada mal numa mesa do dia-a-dia ou de visitas mais chegadas.

E, melhor do que tudo, não tendo código de barras, podem, com discrição, separar-se da embalagem de manteiga, bastando rasgar-se um auto-colante que as segura, e guardarem-se algures, no bolso ou na carteira… Ficam a preço zero, não custam nada!

A avaliar pela quantidade de embalagens de manteiga a que falta a faquinha, no supermercado onde vou, deduzo que este seja o raciocínio de alguns que por lá se passeiam.

Uma coisa sem importância absolutamente nenhuma, dirão os leitores. Talvez... Mas, não deixo de pensar que pode ser uma coisa importante, uma coisa que (mesmo que apenas e só no domínio do simbólico) explique porque é que, como país, toleramos, nas palavras de Salgueiro Maia, “o estado a que chegámos” na política, na economia, na saúde, na educação… porque é que toleramos as imposturas com que nos deparamos todos os dias, porque é que toleramos os múltiplos discursos falaciosos, porque é que toleramos o óbvio retrocesso nos direitos humanos básicos, porque é que toleramos as pessoas que sabemos desonestas, porque é que toleramos a humilhação dissimulada, o permanente controlo, porque é que toleramos quem sorri elegante e manipulativamente... E, sobretudo, porque é que não toleramos de maneira nenhuma quem nos apresenta claramente a verdade, quem nos aponta caminhos que nos desviem dos vários abismos que vemos à nossa frente, ou ao nosso lado...

Num país em que se destacam da embalagem de manteiga faquinhas para barrar ainda teremos capacidade para perceber o que significa destacar da embalagem de manteiga faquinhas para barrar?

PLANETA HUMANO


Trailer, em grande formato, da série da BBC: aqui.

A Junta de Educação Nacional


Novo post do historiador António Mota de Aguiar, onde ele conta porque houve no século XX um retrocesso da ciência em Portugal (na figura, o médico Celestino da Costa):

Em Portugal, no início da década de 1920, tinha-se consciência que era preciso arrancar o país ao subdesenvolvimento e criar os mecanismos institucionais e financeiros de apoio à investigação científica.

A primeira tentativa de criação de uma instituição nesse sentido, partiu de Simões Raposo, em 1922, sendo criada na altura a Junta de Educação. Contudo, como escreveu mais tarde Celestino da Costa, os seus meios de acção eram “quase nulos”, e, por isso, o projecto falhou.

Em 1923, António Sérgio, na altura Ministro da Instrução, criou a Junta de Orientação de Estudos, a qual, nas suas palavras, se destinava ao “…desenvolvimento da cultura crítica da mocidade, a dar bolsas de estudo no estrangeiro, a criar institutos de investigação científica onde trabalhem depois os seus bolseiros…

Mas, o ministro cairia poucos meses depois e, mais uma vez, o projecto falhava. Por fim, em 1929, já na vigência do Estado Novo, seria criada a Junta de Educação Nacional (JEN), por um lado, na esteira do projecto de António Sérgio, por outro lado, concebida à semelhança da Junta para Ampliación de Estudios e Investigaciones Científicas, em Espanha.

A JEN teve à sua responsabilidade o envio para o estrangeiro de bolseiros a fim de, graças aos estágios em centros onde a ciência estava mais avançada, trazerem para Portugal mais valias. À frente deste projecto estiveram homens imbuídos da vontade de contrariar o atraso português e com vontade de levar a bom porto a Instituição, como o professor Simões Raposo (1875-1948), e os médicos, Marck Athias (1875-1946) e Celestino da Costa (1884-1956), primeiros presidentes da JEN. Este último era também professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa, bastante empenhado na promoção do ensino e da investigação, mormente na sua Universidade.
Celestino da Costa escreveu:

“É hoje em Portugal opinião unânime de aqueles que se preocupam com o desenvolvimento político, moral e económico da nação, que nenhum progresso sólido poderemos atingir sem uma reforma geral e profunda do ensino público…”

Segundo ele, a JEN destinava-se a:

“Promover e auxiliar por todos os modos a investigação científica, organizar bolsas de estudo no país e no estrangeiro, velar pela colocação dos antigos bolseiros, o intercâmbio cultural e a expansão da língua portuguesa no estrangeiro, estabelecer escolas de ensino pedagógico, subsidiar publicações científicas, promover a melhoria progressiva da educação nacional”.

E, no campo político, protegia os bolseiros:

“A JEN (…) é em absoluto alheia a quaisquer sistemas políticos, religiosos ou sociais. Se os seus vogais, os seus funcionários, os seus bolseiros têm ideias políticas, religiosas ou sociais as mais diversas, ignora-o”


Com a criação da JEN pretendia-se organizar a investigação científica em Portugal, preparando bolseiros no País e no estrangeiro que pudessem especializar-se nas áreas clássicas e técnicas do saber. A JEN e o Instituto para a Alta Cultura (IAC), este último a partir de 1936, apoiaram igualmente a vinda a Portugal de professores estrangeiros de renome, assim como centros de investigação, como, por exemplo, os centros de estudos de matemática de Lisboa e Porto, além de revistas científicas.

Entre 1929 e 1950 foram atribuídas 812 bolsas a 434 bolseiros. Diz o autor desse estudo que: “Em matéria de subsídios e bolsas para fora do País, definiu-se claramente o critério de dar a preferência ou só tomar em conta casos reconhecidos oficialmente pelas Escolas e outros organismos do Estado, a que os interessados possam prestar ulterior cooperação, após o seu regresso, para assim se ter a garantia de que a especialização adquirida pelos bolseiros não redunda em exclusivo benefício pessoal”.

A maior parte dos bolseiros eram de de medicina (126), seguindo-se as Letras (87) e as Ciências Exactas e Naturais (72) e as Engenharias (39). Mas outras bolsas foram concedidas para várias disiciplinas, incluindo a Arqueologia, História de Arte, Filosofia, Psicologia, Literatura e Pedagogia.

O autor diz-nos ainda que a acção seguida “…deixou a Junta claramente perceber que o envio de bolseiros ao estrangeiro não era um fim, mas apenas um meio da sua acção, que principalmente se propunha consagrar ao fomento da investigação.” Na “atribuição de subsídios e bolsas procurou-se sempre subordiná-la ao princípio do merecimento (idoneidade científica, qualidades morais e intelectuais (…).”

Nas décadas de 20 a 40 do século XX, verificou-se muita agitação cultural envolvendo, em particular, médicos, físicos, químicos, matemáticos e astrónomos, alguns regressados do estrangeiro, onde realizaram estágios, graças à acção profícua da JEN e do IAC, que tinham enviado para fora estudantes portugueses desejosos de aprender. Havia, portanto, grande esperança no desabrochar da ciência em Portugal.

Contudo, a partir dos anos 30, o Estado Novo empreendeu uma perseguição aos professores. Desse tempo fica-nos na memória o intelectual ilustre que foi Mário Silva, catedrático da Universidade de Coimbra e director do Laboratório de Física, assistente de Madame Curie de 1925 a 1930 no Instituto do Rádio de Paris, e o seu intento de criação do Instituto do Rádio de Coimbra. Foi preso pela polícia política em Agosto de 1946 e aposentado compulsivamente da Universidade no ano seguinte.

Em consequência do sucedido, o período de 1930 a 1950 foi de retrocesso para a ciência em Portugal, uma vez que muitos cientistas portugueses qualificados foram afastados do sistema educativo: quando não foram presos, exilaram-se no estrangeiro.

No final da década de 40, com o capital humano de formação científica que tínhamos, havia condições para melhorar a situação de atraso crónico em Portugal. O número de cientistas já se poderia considerar significativo para o despertar da ciência, mas, por puramente razões políticas, perdemos esta magnífica oportunidade.

António Mota de Aguiar

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Congresso Luso-Brasileiro de História da Ciência


Entrevista que dei à jornalista Barbara Lacor sobre o Congresso Luso-Brasileiro de História da Ciência, que se vai realizar em Coimbra em Outubro próximo:

P - Que importância teve a criação da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra (UC), em 1911?

R- Em 1911, um ano após a implantação da República, houve uma refundação republicana da UC. As Faculdades de Matemática e de Filosofia, criadas com a Reforma Pombalina em 1772, foram fundidas para formar a Faculdade de Ciências, que, embora hoje tenha o nome de Ciências e Tecnologia, vai portanto agora fazer cem anos. Na mesma altura são fundadas as Universidades de Lisboa e Porto, com Faculdade de Ciências novas, que ficaram herdeiras das anteriores escolas politécnicas que existiam nas duas principais cidades do país. O ideal republicano, que tem uma ligação forte às ciências do século XIX, mostrou, com a criação de três Faculdades de Ciências, a sua esperança nas ciências para ajudar a formar um país novo. Essa foi uma das maiores contribuições da República para a nossa modernidade, apesar de todas as vicissitudes e contradições da 1ª República.

P - Quais são os momentos mais marcantes da História da Ciência na UC? Porquê?

R - Não se pode falar de ciência em Portugal sem falar de ciência na UC. Na época dos Descobrimentos, quando o rei D. João III coloca definitivamente a Universidade em Coimbra, um dos maiores cientistas portugueses, o astrónomo e matemático Pedro Nunes, vem para Coimbra ensinar. Pouco depois estudou em Coimbra o maior astrónomo mundial entre Copérnico e Galileu, o jesuíta alemão Christophorus Clavius, que foi o principal responsável em Roma pela reforma que levou à adopção do calendário gregoriano. No século XVIII é um estudante de Coimbra, o brasileiro Bartolomeu de Gusmão, que efectua a primeira ascensão mundial em balão, embora não tripulado. No mesmo século, o marquês de Pombal executa um verdadeiro "terramoto" intelectual, ao promover em Coimbra o ensino experimental das ciências. Manda construir o Laboratório Chimico e e reúne colecções nos gabinetes de Física Experimental e de História Natural, hoje no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, além de criar um Observatório Astronómico e um Jardim Botânico. Além dos mestres estrangeiros que contratou, chamou grandes cientistas nacionais como, na matemática, Monteiro da Rocha e Anastácio da Cunha. No século XIX, grandes cientistas de Coimbra foram o botânico Avelar Brotero e o metalurgista brasileiro Andrada e Silva. Outro grande cientista português do século XIX, o matemático Gomes Teixeira, ensinou no Porto depois de ter estudado em Coimbra. No início do século XX, o Prémio Nobel da Medicina Egas Moniz começa por estudar e trabalhar em Coimbra antes de se transferir para a nova Universidade de Lisboa. E este é só um brevíssimo resumo, claro.

P - Que interesse tem este congresso para o público em geral?

R - O congresso dirige-se em primeiro lugar a especialistas portugueses, brasileiros e outros estrangeiros interessados na história da ciência, com particular foco na ciência realizada na Universidade de Coimbra e nas relações científicas luso-brasileiras. Mas está aberto a todos os interessados, em particular às pessoas curiosas pela história da ciência que se desejem inscrever. O interesse para o público será sempre a melhor compreensão que resultar sobre o nosso passado científico. Só conhecendo melhor quem fomos, poderemos saber quem somos e, acima de tudo, quem queremos ser.

P - O Congresso contará, para além dos trabalhos apresentados pelos investigadores, com as intervenções de especialistas convidados? Já está confirmada a presença de algum orador?

R - Sim, é um congresso aberto à participação, com submissão de trabalhos on-line, de quem trabalhar na área e tem também apresentações de convidados. Estes incluem cientistas portugueses, como o historiador de ciência Henrique Leitão, que falará sobre Pedro Nunes, o historiador Fernando Catroga, que falará sobre as ligações à ciência da ideologia republicana, e o médico João Lobo Antunes, que falará sobre Egas Moniz. E cientistas brasileiros como os historiadores de ciência Jaime Benchimol que falará sobre a medicina nos trópicos no século XIX, e Augusto Passos Videira, que falará sobre a teoria das cores no século XVIII. E ainda cientistas europeus como o italiano Ugo Baldini, que falará sobre Clavius, a francesa Bernadeth Bensaúde Vincent, que falará, neste Ano Internacional da Química, sobre a recente e gradual transformação da química em nanotecnologia, e ainda o belga Robert Halleux, que falará sobre a escola dos jesuítas na UC que antecedeu a Reforma Pombalina.

MAIS GRÁFICOS PARA MEDITAR


O gráfico de cima mostra, a preços constantes (de 2006), com base nos dados da Pordata, qual foi nas últimas décadas a evolução em Portugal de um índice económico importante: o crescimento do PIB. Independentemente dos governos há uma diminuição do crescimento em média. Quer dizer, actualmente é negativo, mas a tendência já vem de trás.


E o segundo gráfico, de Luís Aguiar Conraria, sobrepõe os dados do desemprego, nos últimos anos, com o crescimento do PIB. Parece haver a correlação que seria de esperar: se o PIB cresce menos, o desemprego aumenta. O grave problema do desemprego só se poderá resolver se a economia crescer.

GRANDES ERROS: A FRAUDE DA HOMEOPATIA


Há um vício de alguns órgãos de comunicação social de quererem, perante problemas que em boa verdade são incontroversos, levantar a controvérsia dando igual espaço às pessoas "prós" e aos "contras". Criam um dilema, que parece ter dois lados em paridade, quando em rigor ele não existe. Aconteceu mais uma vez com a "Visão" desta semana, em que a revista se interroga na capa: "Homeopatia: cura ou fraude?" e dá espaço substancial aos "dois lados", num artigo de Luís Ribeiro. Não sei o que está fazer a interrogação no final. Sabe-se há muito que a homeopatia é uma completa fraude. Se algumas pessoas que tomam produtos homeopáticos vêm a curar-se por uma ou outra razão, não será seguramente devido à acção directa desses produtos.

Veja-se apenas a explicação pseudo-científica da homeopatia dada na revista por um seu defensor (Francisco Patrício, presidente da Sociedade Homeopática de Portugal):

"A homeopatia baseia-se na energia, na radiação. A informação passa através de fotões. Da mesma forma que acontece com as pessoas: os olhos vêem e o cérebro regista essas imagens".

Quando o jornalista responde que a água não tem olhos e nem cérebro, o homeopata não se fica:

"Sim, mas o princípio é o mesmo. No caso da água, as vibrações da substância que por lá passou vinculam a informação, através de um efeito químico".

Estas frases não fazem sentido nenhum. Não há nenhum efeito físico, nem sequer químico. Porque não usar o Ano Internacional da Química para desmascarar as virtudes desta alquimia moderna que usa fraseologia aparentemente científica para veicular os maiores dislates?

SANCTUM



Já está nos sistemas o filme "Sanctum" produzido por James Cameron e realizado por Alister Grierson (por vezs quase só o primeiro nome é que aparece, numa estratégia de vendas). Inspirado num história real, conta uma aventura de mergulho subterrâneo nas profunddezas de uma gruta...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Desemprego em Portugal


“Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se… ofende.” (Volker Braun referindo-se ao Muro de Berlim, em 1965).

O desemprego e a pobreza que lhe está associada é um dos maiores flagelos das sociedades modernas e exemplo mitigado da Grande Depressão que atingiu os Estados Unidos nos idos de 1929, em face da quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Reflecte a crise do capitalismo actual e recorda os tempos de miséria dos estados socialistas europeus que deram azo à queda do Muro de Berlim, em 1989.

Aliás, o próprio cristianismo tem falhado, por culpa dos gananciosos que repartem entre si com voracidade uma grossa fatia da riqueza (ou pobreza) nacional, a promessa de uma sociedade mais justa, fraterna e humana. Reconheceu-o Eça, em "Cartas de Inglaterra”:

“Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, ‘que teríamos sempre pobres entre nós’. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam”.

O 25 de Abril de 1974, em Portugal, o veio anunciar e os tempos de grave crise social e económica actuais o confirmam com “Outro gráfico para meditar”, aqui publicado e comentado por Carlos Fiolhais no pretérito dia 16, sobre as curvas do desemprego em Portugal, desde 1990 a 2010, em dados do insuspeito Instituto Nacional de Estatística. Dele é feita uma leitura pelo Secretário do Estado do Emprego Profissional, Valter Lemos, de tal forma viciada (ou tendenciosa?) que levaria qualquer aluno do ensino básico, se assim tivesse respondido num qualquer teste de avaliação escolar, a vê-la riscada a vermelho.

Habituados que estivemos ao seu optimista desempenho anterior, como secretário de Estado da Educação do ministério de Maria de Lurdes Rodrigues, não mereceria, sequer, qualquer espanto ou sequer palmatoadas de um ensino exigente a sua leitura do referido gráfico:

“Durante 2010 o crescimento do desemprego desacelerou bastante em relação a 2009. Nesse sentido, falei em estabilização e mantenho essa perspectiva, estamos numa estabilização com valores muito elevados que temos de conseguir baixar”
(Valter Lemos, Público, 16/02/2011).

Mas, para desgraça nossa, o desemprego é um verdadeiro flagelo que apanha em suas garras odiosas uma percentagem substancial da população portuguesa, uma população sem dinheiro para comer e, pior do que isso, para acalmar a fome de seus filhos infantes ou adolescentes. Para evitar tiradas como a transcrita só viverem os políticos, com responsabilidade neste estado de coisas, nas suas próprias entranhas, o desemprego, tendo as suas contas congeladas no banco e sem poderem recorrer a empréstimos de qualquer espécie. Meia dúzia de meses bastariam, para não ser draconiano subsidiados pelo fundo de desemprego, como qualquer simples cidadão e em idêntica e magra fatia.

Então, sim! Leituras destas deixariam de ser feitas com a mesma displicência e o desemprego desceria em flecha. Alguém duvida?

Sobre Marck Athias (1875-1946)

Novo post do historiador António Mota Aguiar:

Marck Athias, nasceu no Funchal em 1875, com pai de ascendência judaica, director de um estabelecimento bancário na Madeira. Ainda jovem, foi estudar para Paris, onde, com 22 anos, terminou a licenciatura em Medicina.

Após o curso, trabalhou num laboratório de Paris, onde se afirmaria como histologista, tendo sido premiado pela Faculdade de Medicina de Paris pelo trabalho científico produzido. Durante a sua estada em Paris contactou com notáveis especialistas de histologia e química, o que, a par da educação que recebeu na Faculdade, lhe augurou desde logo uma carreira profissional promissora.

Mas, na época que Marck Athias viveu em Paris, a sociedade francesa estava profundamente afectada pelo Affaire Dreyfus, e dividida entre os defensores da inocência de Alfred Dreyfus e os que o acusavam de ter vendido à Alemanha documentação secreta. Em 1894 Dreyfus foi condenado a prisão perpétua, para só ser libertado em 1906, após se ter provado a sua inocência. O antisemitismo que lavrava na sociedade francesa desse tempo deve-o ter afectado pelas suas raízes judaicas, mas, mesmo assim, preferia ficar em França, pelo que concorreu a um lugar no laboratório onde trabalhava. Foi, porém, preterido por um colega francês.

Voltou para a Madeira e, em 1907, veio para Lisboa, onde Miguel Bombarda lhe ofereceu o lugar de director do laboratório de histologia do Hospital de Rilhafoles. Aí iniciou o ensino de histologia, criando um curso de técnica histológica para médicos. Começaria aqui a carreira científica de Marck Athias no nosso país, iniciando uma nova fase da medicina experimental em Portugal, criando uma escola de investigação associada a uma estratégia de renovação da mentalidade portuguesa defendida pelo ideário positivista, característica do republicanismo, que marcou o Portugal desta época.

Escreveu a Professora Isabel Amaral da Universidade Nova de Lisboa:

“No período em que a escola de investigação se desenvolveu, foram erguidas as estruturas sociais, logísticas e epistemológicas, basilares da comunidade médica de Lisboa, nas primeiras décadas do século XX: reformou-se o ensino, surgiram as especialidades, criaram-se laboratórios e institutos de investigação, formaram-se investigadores, fundaram-se revistas e sociedades científicas, privilegiando assim um novo modelo de ensino universitário em que os docentes passaram a ser julgados não pela sua erudição livresca, mas pela sua capacidade de produzir saber original com base na experimentação. A escola de investigação de Marck Athias criou assim as condições para a emergência da bioquímica em Portugal”.

A escola de Athias criou ramificações profundas na ciência portuguesa e deixou muitos discípulos que se notabilizaram, como os médicos Ferreira de Mira e Celestino da Costa, este último impulsionador da Junta de Educação Nacional, criada em 1929.

António Mota de Aguiar

Centúrias de Curas Medicinais de Amato Lusitano


Convite recebido da Ordem dos Médicos (este ano celebram-se os 500 anos do nascimento do grande médico português que ficou conhecido por Amato Lusitano):

O CELOM - Centro Editor Livreiro da Ordem dos Médicos tem a honra de convidar V. Ex.ª a assistir à apresentação do livro “Centúrias de Curas Medicinais” da autoria de Amato Lusitano, que terá lugar na Sociedade de Geografia de Lisboa no dia 24 de Fevereiro de 2011, pelas 18h30. O livro será apresentado pela Profª. Doutora Isilda Rodrigues e pelo Prof. Dr. José Luís Dória.

Com a reedição desta obra, numa iniciativa da Ordem dos Médicos, o CELOM associa-se às comemorações dos 500 anos do nascimento de Amato Lusitano, que se celebram em 2011.

Sociedade de Geografia de Lisboa
Rua das Portas de Santo Antão, 100 1150-269 Lisboa
Tel.: 21 3425401/5068 - Fax 21 3464553

Telémaco, filho de Ulisses

Não bastaram aos Gregos dez anos de combate junto às muralhas de Ílion para tomarem a cidade de Príamo. Não bastaram os esforços de grandes guerreiros como Diomedes, Ájax, Agamémnon, Menelau, Pátroclo ou Nestor, nem sequer as inigualáveis qualidades bélicas de Aquiles (que tiraria a vida a Heitor, o combatente mais emblemático do lado troiano), para fazer com que Páris expiasse o sacrilégio de haver raptado Helena, a bela esposa de Menelau, seu antigo anfitrião.

O que a força bruta das armas não havia conseguido, irá ser alcançado pelo subtil recurso à imaginação: os Aqueus fingem desistir da campanha, que já inúmeras vidas tinha ceifado, queimam as tendas e zarpam nas suas côncavas naus. Na praia troiana deixam, como oferta aos deuses, em aparente sinal de capitulação, um cavalo de madeira. Iludidos pela expectativa de verem o fim a tamanhas tribulações, os Troianos dividem-se quanto ao destino a dar à insólita oferta: deveriam rachar¬ lhe a madeira com o bronze impiedoso dos machados, precipitᬠla num abismo, ou antes acolhê¬ la no interior da cidade?

Mas a pressurosa esperança é irmã gémea da imprevidência. Prevaleceu o terceiro parecer e, juntamente com o cavalo, os súbditos de Príamo trouxeram até si a morte ruinosa. Levados por um incauto sentimento de vitória, não se aperceberam de que o interior oco da besta se encontrava recheado com a elite dos guerreiros gregos, que em breve iriam sair, a coberto da noite e da cega embriaguez do inimigo. Sepultados pelo vinho abundante dos festejos, foram muitos os Troianos que logo passaram do torpor do sono à frigidez eterna da morte. E com eles, perecia também Ílion.

Este relato, que marca o fim de Tróia, não o ficamos a conhecer na Ilíada, mas somente na Odisseia (canto VIII, vv. 469-520), pela boca de Demódoco (o aedo da corte dos Feaces), a pedido de Ulisses. E são as lágrimas do herói, emocionado ao escutar o belo canto, que levam o rei (Alcínoo) a desconfiar da verdadeira identidade do esgotado hóspede que acolhera no palácio.

O valor mais cultivado pelo herói homérico é a noção de excelência (arete, em grego), um conceito que se traduz, na prática, na forma como cada guerreiro se distingue no campo de batalha e no hábil uso que faz da palavra, quando se encontra reunido com os seus pares. A estas qualidades, que marcam todos os grandes guerreiros tanto do lado grego como troiano (o tratamento positivo de Heitor é o exemplo máximo da imparcialidade de Homero), Ulisses vem acrescentar a astúcia, visível tanto na destreza diplomática como na capacidade para deslindar situações difíceis. É isso que justifica o seu epíteto específico de ‘herói dos mil artifícios’ (polymetis ou polymechanos) ou, para dizer de outra forma, o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação. É isso, também, que torna a Odisseia na grande precursora de todo o tipo de literatura de viagens e de aventuras.

No entanto, a epopeia homérica constitui, igualmente, um poema de saudade (de nostos), a expressão de um desejo imenso de regressar à segurança de Ítaca, ao ponto de partida. Assim, a mesma imaginação fulgurante que torna Ulisses na incarnação da curiosidade e do espírito agónico característico da mentalidade grega — e, por extensão, do ser humano em geral — comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. E de novo o paradigma homérico se revela esclarecedor: Ulisses, o inventor dos mil expedientes, é também o ‘herói que muito sofreu’ (polytlas), pois não hesitou em aceitar novos desafios, mesmo que deles viesse a resultar um prejuízo pessoal imediato, mas que o tempo saberia compensar.

Alem de Penélope, Ulisses deixou em Ítaca também um filho, que o não conhece e por isso mesmo tem de partir, para saber de fonte segura, junto de outros heróis que tenham combatido na longínqua planície troiana, os notáveis feitos que o pai havia cometido. É que não bastava ao jovem ser Telémaco, para se afirmar como pessoa: precisava de ser Telémaco – o filho de Ulisses. Também uma civilização que não tenha consciência do seu passado, das suas raízes linguísticas, do seu património cultural, em suma da própria natureza matricial, não pode obviamente ter futuro, pois está condenada a andar numa constante deriva identitária. Já a Odisseia nos faz compreender essa realidade, ao fazer Telémaco sair de Ítaca – em busca do pai, em busca do seu lugar na aventura do conhecimento.

Delfim Leão

MEMÓRIAS DE RÓMULO DE CARVALHO


O título completo é, à maneira barroca, “Memórias que para instrução e divertimento de seus tetranetos escreveu certa pobre criatura que, entre milhares de milhões de outras, vagueou por este mundo na última centúria do seguindo milénio da era de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Mas na capa vem só, lapidarmente, “Memórias”.

A “pobre criatura”, cujo retrato ocupa todo o frontispício, é um dos mais notáveis homens de cultura portugueses da última centúria: Rómulo de Carvalho, professor de Ciências Físico-Químicas, prolixo autor de vários manuais escolares e pioneiro na divulgação de ciências para “gente nova”, exímio historiador de ciência com especial predilecção pelo século das luzes, e, como se isso tudo fosse pouco, também poeta, durante muito tempo escondido, sob o pseudónimo de António Gedeão. Apesar de os destinatários directos da obra, os tetranetos do autor, ainda não terem nascido, temos a sorte de a podermos ler hoje, graças à amável autorização dos herdeiros que transcreveram um muito legível manuscrito, e à atenção do Serviço de Educação e Bolsas da Fundação Gulbenkian, que foi inexcedível a prodigalizar os necessários cuidados de impressão. É mesmo uma sorte, pois o livro, extraordinariamente bem escrito (ou não fossem Rómulo e Gedeão mestres, respectivamente, da prosa e da escrita em língua portuguesa), é um retrato não só de um autor, que os seus alunos, directos e indirectos, amigos e leitores muito estimam e admiram, mas também um retrato do nosso século XX, ou quase um século, pois a vida do autor vai de 1906, quando a monarquia constitucional vivia nos seus últimos tempos, até 1997, já Portugal, adiantado na era pós 25 de Abril, estava a entrar no segundo milénio.

O dia do nascimento de Rómulo de Carvalho, 24 de Novembro, é, hoje, concretizando uma ideia do Ministro da Ciência e Tecnologia José Mariano Gago, o Dia Nacional da Cultura Científica e Tecnológica. Conta o próprio Rómulo no início da obra: “Chamo-me Rómulo e nasci no dia de São João da Cruz com sete meses de gestação.” Não foi só no nascimento que Rómulo se revelou prematuro. Entrado no ensino primário com apenas cinco anos, quando já sabia ler, concluiu aos sete anos, com a nota de "óptimo", o exame de primeiro grau da instrução primária, para, pouco depois, concluir o exame do segundo grau e ficar como assessor da professora a ensinar os outros meninos. Foi também prematuro ao versejar como aliás também faziam a sua mãe Rosinha e a sua irmã mais velha Noémia, que tinham o "dom" mediúnico de comunicar com os mortos. Mas não se revelou nada precoce em dar a conhecer a sua alma poética, pois só publicou a sua primeira obra de poesia quando tinha meio século, no ano da graça de 1956.

O dia da morte não sobreveio cedo: 19 de Fevereiro de 1997. As Memórias terminam com a palavra "Adeus" escrita duas semanas antes de falecer. Antes do “Adeus” o autor recupera as palavras do início atrás citadas e acrescenta “Faleci em de de ”, onde os intervalos seriam preenchidos pela sua segunda esposa, a escritora Natália Nunes, que, num apaixonado Post scriptum, escreve: “Coube-me a mim, tua Natália, preencher os espaços que deixaste em branco para escrever as datas da tua morte. Não te digo adeus. A minha alma estará sempre contigo, que foste o meu único e grande amor.”

A morte aparece como lenitivo de um final de vida bastante sofrido pela progressão da doença: “a vida tornou-se-me um martírio”. Algumas das últimas palavras são de um enorme desprendimento:

“A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para viver…”

À visão do autor, nos seus últimos dias, marcados por um darwinismo extremo (“O mundo é repugnante e a vida não tem sentido. É uma luta permanente e feroz em que cada um busca a satisfação dos seus interesses exactamente como outros quaisquer seres vivos, animais ou plantas, que se espreitam e atacam”) contrapõe-se a voz crente da mulher (“Peço a Deus que te dê a paz eterna, pelo que trabalhaste, sofreste e amaste, pela tua bondade e generosidade para com todos”). O mundo pode ser uma selva, mas Rómulo foi, de facto, nessa selva um homem bom, um homem de princípios, e, como ele diz com alguma modéstia, um homem “útil” (útil? muito útil!).

Apesar de a vida não ter seduzido o autor este livro resume 91 anos intensamente vividos. Deixou-nos, numa escrita onde o rigor e a objectividade se aliam literariamente à ironia e ao humor, uma biografia completa e cheia. Desde a infância na Rua do Arco do Limoeiro, perto da Sé de Lisboa, até à velhice na Rua Sampaio Bruno, em Campo de Ourique, também em Lisboa, não muito longe do “seu” Liceu Pedro Nunes, passando pelos anos do Porto e de Coimbra, muitas foram as peripécias de um século que, em Portugal conheceu vários regimes, embora tivesse sido dominado pelo Estado Novo do “Deus, Pátria e Família”. Para conhecer melhor esse século, desde pormenores do quotidiano doméstico até às vicissitudes da vida cultural passando pelo sistema escolar, não há como ler estas páginas. Alguns trechos são implacáveis para o modo de ser português: basta reparar como o autor reage à instituição nacional da “cunha”, que o pai, funcionário dos Correios e Telégrafos, cultivava como era uso e costume à época. Rómulo abandonou o seu lugar de professor no Liceu Camões para ingressar no Pedro Nunes simplesmente por não ter querido favorecer um aluno, em cujo sucesso o Reitor tinha especial empenho. Era possível ser íntegro num tempo de não-integridade!

Seja-me permitida terminar com uma nota pessoal. Frequentei, passados alguns anos, a mesma escola, o Liceu Normal de D. João III, em Coimbra, onde o professor Rómulo de Carvalho exerceu a sua profissão. O que ele conta do Reitor de então foi também testemunhado por mim. O Reitor Guerra era tão pequenino e belicoso que lhe chamávamos o “Pulga Escaramuça”. Atacava os alunos à estalada fosse porque iam a correr no corredor fosse porque tinham faltado a uma sessão da Mocidade Portuguesa. Na Biblioteca desse Liceu encontrei, para meu grande proveito, a ciência viva nos volumes da colecção Ciência para Gente Nova que Rómulo escreveu em Coimbra para a editora Atlântida, inaugurando a sua faceta de divulgador científico. Como estudante do último ano do liceu visitei o Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, guiado pelo Doutor Almeida Santos que tinha recebido o professor liceal interessado no seu estudo - só agora na leitura das Memórias soube da saga que foi a publicação do seu livro sobre o Gabinete, que inaugurou os seus estudos sobre história da ciência portuguesa. Foi, finalmente, numa livraria de Coimbra, talvez frequentada outrora por Rómulo, que comprei as obras de António Gedeão, que foram iniciadas nessa cidade nas condições de secretismo descritas nas Memórias. É, por isso, natural que, na escolha da designação para a biblioteca e mediateca especializada no ensino e na divulgação das ciências que criei na Universidade de Coimbra, no quadro da rede de Centros Ciência Viva espalhados pelo país, o nome tenha sido imediato e inescapável: Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho.

- Rómulo de Carvalho, “Memórias”, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

Química das coisas banais: lápis e borracha

Os romanos escreviam com estiletes de chumbo em papiro e não podiam apagar ou corrigir. Esse meio de escrita foi usado até ao século XVI, altura em que foi descoberta na Grã-Bretanha uma grande jazida de grafite quase pura que possibilitou o fabrico de lápis a partir deste material. Tornou-se assim possível apagar, mas só após a descoberta da vulcanização da borracha se atingiu a qualidade de hoje.

A grafite é uma forma alotrópica do carbono como o diamante ou os fulerenos. No processo actualmente usado para produzir lápis, grafite e argila são pulverizadas e misturadas em água. E é a proporção relativa de argila e grafite que determina a dureza do lápis: mais argila, mais duro. A massa resultante é feita passar por orifícios redondos, levada a alta temperatura e finalmente mergulhada numa cera. A madeira dos lápis é de cedro que não lasca e tem cheiro e cor de nobreza ancestral. O aroma é devido ao cedrol e outros terpenos, mas saber isso não retira sabor às memórias de infância.

Para fazer os lápis, placas de madeira de cedro com sulcos semicirculares recebem os cilindros de grafite e argila. Estes conjuntos são colado a outras placas com sulcos e os lápis são finalmente separados (veja-se este poster da Viarco ou o site da Faber-Castell).

O lápis é económico, a ligação da grafite ao papel é muito estável e a escrita com lápis não é sensível à humidade, luz e agentes químicos. O seu único ponto fraco são as borrachas de apagar que, no entanto, têm um segredo. A borracha natural, mesmo após o processo de vulcanização, não se liga bem à grafite. Por isso as borrachas de apagar têm na sua composição óleos vegetais vulcanizados, também chamados factice, que ligam bem à grafite. No processo de apagamento são arrancados pedaços da borracha que vão levando esse material junto com a grafite, mantendo a borracha utilizável. Actualmente, existem borrachas de polímeros sintéticos, por exemplo policloreto de vinílo (PVC) e copolímero de estireno-butadieno, que são muito eficientes e menos abrasivas para o papel.

A Viarco Fábrica Portuguesa de Lápis, uma empresa portuguesa de que nos devemos orgulhar, faz 75 anos em 2011 (tal como a Sociedade Portuguesa de Química faz 100 anos) e está a preparar uma surpresa para quem gosta de química...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

OUTRO GRÁFICO PARA MEDITAR


Foi anunciado pelo Instituto Nacional de Estatística que, no último trimestre de 2010, a taxa de desemprego em Portugal atingiu um novo máximo de 11,1%. A evolução nos últimos anos pode ver-se no gráfico do economista Luís Aguiar Conraria, preparado a partir dos números oficiais, e que ainda não inclui os últimos dados. É um gráfico para meditar.

Depois de ter meditado, o Secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional afirmou (transcrição no "Público" de hoje):

“Durante 2010 o crescimento do desemprego desacelerou bastante em relação a 2009. Nesse sentido, falei em estabilização e mantenho essa perspectiva, estamos numa estabilização com valores muito elevados que temos de conseguir baixar”.

Depois de ter meditado?

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...