domingo, 25 de abril de 2010

TODO O SABER DO MUNDO NUMA PEN

Uma das "15 ideias que podem mudar o mundo" da autoria da jornalista Christiana Martins, na revista "Única" do "Expresso" de sábado passado (a "Biblioteca de Babel" está descrita aqui):

"O que falta fazer é o mais complicado: levar a Humanidade a entender-se. O suporte já está criado e pode ser fixo ou móvel. Kindles, IPads ou o computador tradicional, o que interessa é que, segundo Carlos Fiolhais, físico, com a nanotecnologia, já é possível armazenar o conhecimento humano num dispositivo. Falta regulamentar o quadro legal de utilização de todo este saber. Questões como os direitos de autor, as formas de acesso ao conteúdo, o que realmente pode ser consultado, por quem e por quanto tempo. As letras pequeninas dos contratos. A Biblioteca de Babel é uma utopia ao nosso alcance, mas já no Génesis, os homens ficaram-se pelas discussões..."

Christiana Martins

Praga de cérebros


É hoje publicado no Público um artigo da autoria da jornalista Andrea Cunha Freitas com o título "Portugal está a travar a fuga de cérebros". Ou, se seguirmos a ligação da página principal, o título muda para uma versão mais contida: "Portugal tem novas armas para travar fuga de cérebros".

Quero começar por dizer que este trabalho não é fácil de fazer, por uma razão: faltam muitos dados. Não há nenhuma entidade que tenha por exemplo o número rigoroso de bolseiros de investigação em Portugal. E que até começa bem, sendo motivado pela verificação da afirmação repetida do Ministro Mariano Gago, de que Portugal consegue travar a fuga de cérebros de um modo exemplar.

O meu comentário a algumas passagens do texto:

"O PÚBLICO pediu ao Ministério da Ciência números que permitissem concluir até que ponto temos evitado a "fuga de cérebros". Na resposta, entre outros dados, o ministério referia que, desde 1994 até 2008, a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) concedeu mais de 4500 bolsas de formação avançada no estrangeiro (incluindo bolsas de doutoramento e pós-doutoramento) e ainda mais de 4000 bolsas de doutoramento mistas, que implicam períodos de formação e de investigação em Portugal e no estrangeiro."

O universo aqui definido é restrito aos bolseiros que tiveram bolsas no estrangeiro ou mistas. Deixam de fora os investigadores que nunca tiveram uma bolsa em Portugal (ou seja, que "fugiram" directamente a seguir à licenciatura) e os que tiveram bolsas que não incluem um período de formação no estrangeiro.

"E quantos voltaram? "Os dados disponíveis de inquéritos a ex-bolseiros da FCT mostram que a esmagadora maioria desses ex-bolseiros desenvolve actividades em Portugal", refere apenas o ministério."

Uma evocação vaga acerca de dados disponíveis (serão dados suficientes e adequados ou apenas disponíveis? E já agora quais?) e uma conclusão subjectiva (uma esmagadora maioria são 70%? 98%?). E, mesmo a ser verdade, seria a esmagadora maioria de um universo restrito que de modo algum é o universo a considerar para avaliar a fuga de cérebros.

"Assim, na ausência de números oficiais que mostrem de forma clara a relação entre os investigadores que saíram e os que voltaram, há sinais importantes. Vamos a exemplos."

Ou seja: na ausência de dados objectivos que permitiam tirar a conclusão que é o título deste artigo, vamos a exemplos.

E, no campo dos exemplos, tenho a informar que 2009 foi o ano em que nasceram mais crianças em Portugal desde sempre. Não só eu próprio fui pai, como vejo um sem número de carrinhos de bebés na rua, em que nunca antes tinha reparado, o que me leva a concluir que estamos perante um Big Bang demográfico.

Os exemplos dados são duas fundações privadas, um programa que não conheço (mas que tem um universo de 17 investigadores), o laboratório ibérico de nanotecnologia e um centro de biotecnologia em Cantanhede. Os quatro casos que conheço são sem dúvida bons exemplos, mas bastante atípicos.

Acompanham este artigo, um conjunto de outros que apresentam vários exemplos de investigadores portugueses que optaram por ficar no estrangeiro ou que regressaram a Portugal. Subscrevo interiamente as palavras de António Coutinho, presidente do Instituto Gulbenkian de Ciência:
"Mas, mais do que se são portugueses ou não, interessa-nos que sejam bons e tenham o espírito de construir alguma coisa."

Aquele...

De Sophia de Mello Breyner Andresen, um poema dedicado ao seu (e de muitos) herói da Revolução de Abril: Salgueiro Maia.
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"Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse."
.
Poema que fecha o Prefácio de Mário Soares ao livro Salgueiro Maia: Um homem da liberdade, da autoria de António de Sousa Duarte e publicado em 1999 pela editora Âncora (páginas 10 e 11). Publicação original no livro Musa, da editora Caminho.

sábado, 24 de abril de 2010

UM ESTUDO INÚTIL SOBRE TELEMÓVEIS


Habitual destaque semanal à coluna electrónica de Robert Park "What's New", desta vez sobre um estudo grande e caro sobre segurança de telemóveis que o físico considera pura e simplesmente inútil:

"COSMOS: THE COHORT STUDY ON MOBILE COMMUNICATIONS.

Yesterday, the cell-phone controversy was taken to a new and substantially lower level. The Cohort Study on Mobile Communications (COSMOS) was launched in the UK to determine whether microwave radiation from wireless devices can induce cancer. It will track 250,000 users for 30 years to catch any slow growing cancers. Note the built-in job protection. The study will look for neurological diseases such as Parkinson’s and Alzheimer’s as well. Participants aged 18-69 are being recruited in Britain, Finland, the Netherlands, Sweden and Denmark. In Britain, COSMOS is inviting 2.4 million cell phone users to take part, and hoping 100,000 or so will accept. If they do the study really well, it will confirm Albert Einstein’s 1905 explanation of the photoelectric effect, for which he was awarded the 1921 Nobel Prize. Of course, the photoelectric effect is confirmed thousands of times annually by students in elementary physics lab courses. If it is done badly, this tedious and expensive study could perpetuate the public’s unfounded fear of radiation below the ultraviolet threshold. This must be stopped."


Robert Park

Os professores primários e os outros professores

A igualdade de que não se pode sair é um cárcere horrível. O despotismo da igualdade é o mais insuportável e o mais feroz dos despotismos, porque tem a sua origem na vontade dos impotentes, dos estúpidos, dos insignificantes(Camilo Castelo Branco, 1825-1890).

O título por mim escolhido para este post, com a devida vénia, colhi-o de uma carta, da autoria de António Cândido Miguéis, de Vila Real, publicada hoje no Público. Sem delongas, transcrevo-a na íntegra, reservando-me o direito de fazer no final alguns esclarecimentos:

“Actualmente, existe uma situação no sistema educativo, pós-25 de Abril, que muita gente tem receio de aflorar pelo melindre, pelo desconforto e pelo conflito que, eventualmente, poderá provocar em ambiente laboral, agora que existem os Agrupamentos Verticais (adoro este designação), que mais não trouxeram do que confusão e burocracia, fazendo jus ao anexim de que ‘muita gente junta não se salva…´

Na verdade, uma das classes profissionais – para além dos pressurosos e estimados regentes agrícolas (e outros), com o 5.º ano antigo dos liceus + dois anos de escolas agrícolas, ‘passaram’ a intitular-se ‘engenheiros não lhes servindo o título de técnicos agrícolas, andando agora, por aí, travestidos de ‘engenheiros’, (olaré) – que mais beneficiou com a revolução abrilina foi a classe dos professores primários, hoje designados, e bem, professores do 1.º ciclo. Se no regime autoritário do professor António O. Salazar já era uma classe simpática, respeitada e dignificada – lembremo-nos nas aldeias a ‘importância’ do sr. Cura, do médico e do professor primário, com o 25 de Abril ainda se tornaram mais simpáticos, mais respeitados (e ladinos) ao alcançarem a proeza de ingressar na Carreira Única, igualando (nalguns casos ultrapassando) e colocando-se ao nível do designado professor do liceu de outrora, que, nestes tempos ensandecidos, desceu de ‘importância’ e é um Zé-ninguém. Efectivamente, hoje, um professor primário aufere, sem grande maçada, um vencimento igual a um professor do 2.º e 3.º ciclos e secundário. Ou seja, um professor que ensine s primeiras letras, mais a adição e a subtracção às criancinhas na escola primária – depois é vê-los transitar para o 2.º ciclo e aí os professores verificam que as irrequietas, engraçadinhas e inocentes criancinhas não sabem nada de nada – tem o mesmo vencimento de um professor com as turmas do 10.º, 11.º e 12.º anos, que leccione disciplinas como Matemática, Língua Portuguesa e Filosofia. Dir-me-ão que ‘a trabalho igual, salário igual’. Mas…será? Poder-se-ão equiparar os supostos conhecimentos, a agilidade e a destreza mental, a capacidade de intelecção, o ritmo de trabalho e o ‘background’ de uma criatura que ensina (e entretém) criancinhas, e uma outra que discorre sobre ‘A crítica da razão pura’ de Kant, a ‘Incomensurabilidade dos paradigmas’, de Thomas Kuhn, a ‘Factorização de polinómios com 3 termos do tipo Ax^2 + Bx + C, o ‘Existencialismo’ na ‘Aparição’ de Vergílio Ferreira ou aborda as características da poesia do ortónimo em Fernando Pessoa?

Por estas e por outras é que Platão, há muitos anos atrás, já questionava certas incongruências do sistema democrático ao afirmar que ‘a democracia é um regime que confere uma espécie de igualdade tanto para os iguais como para os desiguais’… Teria razão ou já era, ao tempo, um vil reaccionário? “

Compreendendo certas feridas deixadas em aberto pelo azorrague da injustiça, e que podem até justificar um certo exagero de análise por parte do autor da carta, retenho e reproduzo novamente esta passagem: “Actualmente, existe uma situação no sistema educativo, pós-25 de Abril, que muita gente tem receio de aflorar pelo melindre, pelo desconforto e pelo conflito que, eventualmente, poderá provocar em ambiente laboral (…)”.

Se assim é no dia de hoje, véspera de 25 de Abril, não o foi sempre num passado mais ou menos recente. Faço prova, para memória futura, cingindo-me a factos devidamente suportados em documentos escritos que atestam uma discordância bem mais antiga, que eu quase diria visceral, por este statu quo. Assim, por exemplo, em transcrição parcial um artigo de jornal em que escrevi:

“Em Agosto de 90, reunidos na Escola Secundária Alves Martins, em Viseu, os licenciados que exercem a docência no ensino não superior decidiram organizar-se numa associação de classe, cuja necessidade de há muito era sentida. Ao contrário do que se quer fazer crer, a ruptura entre professores licenciados e professores não licenciados existe e, como tal, tem de ser encarada. Nestes últimos tempos, discutiu-se muito, moveram-se influências insólitas, estabeleceram-se pactos entre sindicatos que fariam corar de vergonha o próprio Fausto, e (a demonstrá-lo) em inequívoca prova foram recentemente publicadas as tabelas salariais dos professores dos ensinos preparatório e secundário em que, para uma igualdade entre desiguais, há aumentos de 15,6% para licenciados e 45,4% para não licenciados (alguns, unicamente, com o antigo curso das escolas técnicas, caso dos professores de trabalhos manuais), com os mesmos ou mais 29 anos de serviço” (Correio da Manhã, 18.Jan.91).

Esta já mais que generosa medida obtida em negociações da Fenprof e FNE com o Roberto Carneiro em benefício das suas clientelas, veio acompanhado da reforma com 52 anos de idade e 32 de serviço para os professores primários e de 56 anos de idade e 36 de serviço, em penalização pelo “crime” destes terem estudado mais anos e em esforços de nível académico bem superior e com dispêndio económico bastante maior.

Alguns meses mais tarde, em conferência de imprensa (Correio da Manhã, 22.Dez.91), os sócios desta novel associação profissional davam conta pública do seu descontentamento institucional com a seguinte argumentação, transcrita aqui parcialmente:

“Os professores licenciados não querem ser tratados como os outros docentes que dispõem de menos habilitações académicas e sentem-se lesados com o actual estatuto da carreira docente que, segundo afirmam, favorece quem tem menores habilitações.

O decreto-lei 409 provocou muitas injustiças. Não teve em conta as habilitações académicas. Permite que tanto um licenciado como uma pessoa que dispõe apenas da quarta classe e um ano de magistério (os antigos regentes) atinjam o topo da carreira”.

Em 3 de Julho de 92, foi criado o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) em substituição da Associação Nacional dos Professores Licenciados (atrás referida) com a seguinte orientação expressa nesta linha doutrinária: “O SNPL representa a ruptura com as orientações sindicais então existentes, em oposição frontal à instituição de uma carreira única de professores, pois pretende revalorizar a profissão em todo o seu percurso, em consonância com os valores e as necessidades dos professores dos nossos dias” .

Seria sol de pouca dura enublado pela adesão do SNPL à Plataforma Sindical de que foi porta-voz a Fenprof. Situação que fez com que eu, ao tempo presidente da respectiva Assembleia Geral, em discordância frontal de uma decisão que deixava o SNPL órfão de uma progenitura de princípios até então seguidos, em 14 de Dezembro de 2008, me demitisse desse cargo.

Quanto à aberração de uma carreira docente única tive-a “qual ‘Leito de Procusta’, em que se esticam os professores menos ilustrados e se cortam as pernas aos mais habilitados para nesse crime teratológico caberem à medida todos os docentes, com parca distinção das respectivas estaturas científica, técnica e pedagógica” (Do Caos à Ordem dos Professores, Rui Baptista, edição do SNPL, Janeiro de 2004, p. 101).
Como tudo isto continuasse (e continue) na mesma voltei à carga:

“Consequentemente, os responsáveis pelas normas estatutárias de uma mesquinha e/ou tirânica carreira docente devem assumir a responsabilidade do mal-estar por parte dos professores do ensino secundário ao serem metidos num mesmo fato ‘prêt-à-porter’ com os educadores de infância e os professores do primeiro ciclo do ensino básico.

(…) Ainda que só em mero exercício, ‘ab absurdo’, por que não incluir, outrossim, no Estatuto da Carreira Docente os professores catedráticos com o mesmo estatuto remunerativo que os professores do 1.º ciclo do ensino básico, por exemplo? Ridículo, não é?

Verdadeiramente ridículo, mas não tanto como isso se for tomada em linha de conta, sem qualquer espécie de ‘parti pris’ ou desprimor da minha parte pelos esforçados cabouqueiros (expressão que se tornou já um lugar-comum!) do ensino das primeiras letras, que o ‘décalage’ entre uma matéria ensinada na Universidade e ministrada no ensino secundário é bem menor que a diferença entre o bê-à- transmitido por um professor do 1.º ciclo do ensino básico e a filosofia de Kant, ministrada no ensino secundário” (O Leito de Procusta, Rui Baptista, edição do SNPL, Outubro 2005, ps. 14 e 15).

E que melhor companhia podíamos nós desejar que a de Platão, e quem, porventura, comungue de igual desencanto por este estado de coisas: “A pior forma de desigualdade é tentar fazer de duas coisas diferentes duas iguais”.

NOVA EQUIPA DA EDUCAÇÃO EM DIFICULDADES

Análise de Nuno Crato publicada hoje no "Diário Económico":

"O governo anterior, na segunda metade dos seus quatro anos, perdeu por completo o norte educativo: envolveu-se numa guerra sem sentido e embrenhou-se em ofertas de computadores, na simplificação dos exames e na manipulação de estatísticas. Viveu para a imagem. Perdeu-se pela imagem. O resultado, dramaticamente para todos, é que se comprometeu uma oportunidade histórica para melhorar o sistema educativo. A nova equipa está com dificuldades aparentemente insuperáveis. Mas não basta voltar atrás em tudo o que o Ministério anterior fez. É preciso avançar para a qualidade do ensino. Será necessário, por exemplo, aumentar a coerência dos programas e subir o seu grau de exigência. A nova ministra decidiu, acertadamente, traçar metas educativas - objectivos curriculares simples, observáveis e mensuráveis -, algo que estava em gestação intermitente no ministério desde 2003. Mas isso não pode ser feito com quem defendeu "competências" vagas e sempre se opôs à clareza nos objectivos e nos conteúdos".

Nuno Crato
Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática

"Caos nas salas de aulas": Primeira escola

Caos nas salas de aulas é a tradução portuguesa do documentário Classroom Chaos, produzido pela BBC e da autoria é Angela Mason, uma ex-professora do ensino secundário, que depois de um inderregno de cerca de três décadas, voltou ao ensino.

Tendo, nesse intervalo de tempo, trabalhado na área do audio-visual, nunca deixou de se interessar por aquilo que se passa na escola. Como tantas outras pessoas, preocupada com o comportamento indisciplinado dos alunos, resolveu dar a conhecer as suas características e dimensões em escolas londrinas.

Actualizou as suas credenciais como docente de substituição, tendo, assim, acesso a várias turmas de diversos anos de escolaridade. Filmou algumas delas com recurso a câmaras ocultas, tendo sempre com o cuidado de não identificar contextos nem sujeitos.
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O documentário resultante dessa abordagem foi dado a ver em Inglaterra, em 2005, provocando acesas polémicas, nas quais se envolveram várias entidades educativas, deseencadeando, inclusivamente, contenciosos institucionais.

Os motivos que levaram à sua realização, o impacto que teve na sociedade, os argumentos que apoiam o seu interesse ou a sua inadequação, as questões que levanta sobre as opções educativas contemporâneas, a análise que faz da organização dos sistemas de ensino, a dúvida que levanta sobre a validade da avaliação das escolas, a interrogação que coloca em torno da (im)possibilidade de investigar objectivamente o ensino e a aprendizagem em sala de aula, justificam que partilhemos o essencial com os leitores do De Rerum Natura, uma vez que tudo o que nele se evidencia nos parece próximo da nossa realidade educativa.

Primeira escola documentada

Professora: “Não te importas de largar a bola? Não te importas de te sentar no teu lugar?”

Tive de me beliscar para acreditar que era mesmo assim, que as salas de aula britânicas, em 2004, eram mesmo assim….
Chamo-me Angie Mason. Já dei aulas em escolas secundárias públicas, nos anos 70. Bons tempos, esses! Mais tarde, deixei de dar aulas e tornei-me uma produtora de rádio e televisão especializada na área educativa. No início do ano passado, estava envolvida num projecto interescola de caridade e decidi que podia fazer muito mais com a minha experiência nas salas de aula. Frequentei um curso de “reciclagem” para professores e inscrevi-me como professora substituta em várias empresas de recrutamento. De forma aleatória, estas agências mandavam-me para várias escolas como professora substituta, e não quis acreditar no que vi. Não consigo descrever o que vi. Como professora substituta, passei a fazer parte de um “exército” de 15 mil docentes, que vão preenchendo as faltas de professores que adoecem ou se ausentam para formação.
As pessoas que, como eu se inscrevem nessas agências podem ser enviadas para qualquer estabelecimento da rede escolar. Como professora substituta não tenho como influenciar as escolas para onde sou destacada.
Para voltar a dar aulas, precisava de uma cópia da declaração da tutela atestando que ainda estou inscrita como professora no Estado. Felizmente para as crianças, só isso não bastava. Precisava de dois comprovativos de residência, do meu currículo, um certificado de habilitações com formação nessa área e, mais importante, precisava do registo criminal, atestando que não era uma criminosa. Nos meses que se seguiram, exerci em várias escolas e fiquei cada vez mais decepcionada à medida que assistia ao nível de perturbação nas salas de aula, que tornavam totalmente impossível ensinar alguma coisa. Decidi então regressar à sala de aula com duas câmaras ocultas para mostrar a realidade às pessoas. Toda
a gente fala em indisciplina nas salas de aula, mas a maioria das pessoas nunca a testemunhou. Pode ser que este documentário ajude a “chamar a atenção”.
Estou bastante nervosa em relação a tudo isto. Já é bastante mau entrar numa sala de aula com alunos que não conhecemos, ensinar matérias que eventualmente nunca demos. Porém, estou muito nervosa por causa das câmaras e não sei se vou ser apanhada, se elas vão funcionar bem. É bastante assustador.

Vejam, estamos num bairro da classe média, não é um bairro social, não são casas degradadas. É uma zona residencial de qualidade. Algumas celebridades moram neta zona, pessoas com dinheiro a viver aqui. Vou passar uma semana nesta escola da zona. Não pretendo culpar exclusivamente as escolas que aparecem neste documentário. A meu ver, estas escolas poderiam estar em qualquer lugar do país, tendo em conta a amplitude do problema de indisciplina. A primeira escola que vou filmar é uma escola de grandes dimensões na zona de Londres. Na minha primeira aula, vou ensinar Inglês a alunos com 13 anos.

Fiquei verdadeiramente chocada logo no primeiro dia, do meu regresso às aulas. Pensava que seria como nos bons velhos tempos, em que dizia: “Bom dia. Pode, tratar-me por Sra. Mason. Estou aqui para dar aulas de Inglês, Francês, o que for”… Só que não foi nada assim.
Entrei numa sala de aula, em que faltava muita gente. Os atrasados continuaram a chegar, ao fim de 10-15 minutos. Tentei chamar a atenção batendo palmas. Simplesmente ignoraram-me. Ignoraram-me. Não paravam quietos, gritavam, recusavam-se a fazer trabalhos… Não prestavam atenção a nada. No que dependesse deles, estar ali ou não era igual.
O simples facto de pedir para abrirem os livros era uma tarefa árdua.
Lembro-me de tentar perceber o que estava a acontecer ali, por que é que não me prestavam atenção. Estou ali para os ajudar, para lhes ensinar.
Foram precisos quinze minutos para me darem atenção. Quando cheguei a casa nesse dia, estava rouca. Tive de levantar a voz e tentar repor a ordem inúmeras vezes. Acabei em lágrimas. Soluçava do fundo do coração só de pensar no rumo que a Educação tinha tomado.
A minha história tinha começado numa grande escola, na zona de Londres, a dar aulas de Inglês a rapazes de 13 anos.


Professora: “Pronto. Está bem. Acalmem-se. Abram os vossos livros de Inglês. Os amarelos… sim?”
Aluno: “Não tenho esse livro, stôra.”
Professora: “Podes partilhar com ele? Por que é que não te calas?”
Aluno: “Calem-se, pá!”
Professora: “Não se importam de abrir os livros amarelos na página… Desculpem, mas vão ter de me ouvir. Não se importam de virar? Há quem queira estudar.”

Perde-se tanto tempo! Quando parece que conseguimos finalmente acalmá-los, basta um pequeno incidente para os “atiçar” de novo.

Professora: “Podes parar de lhe bater?”
Aluno 1: “Ele estava a socar-me.”
Aluno 2: “Foi ele que começou.”
Aluno 1: “Foste tu!”
(...)
Professora: “Vamos retomar o trabalho e acabar esta história… A viúva de Paolo Severini cuidou sozinha do filho… Desculpa, mas não quero ouvir palavrões na sala de aula… Eu ouvi. Não volto a avisar. Não te importas de sentar ali? Podes começar a ler. Quem é que tem o livro? Então!?”
Aluno: “Não sei ler, stôra!”
Professora: “Se não sabes ler, não devias estar aqui.”

Algumas crianças fazem um grande esforço para aprender e alguns ajudam mesmo a manter a ordem
…mas não têm sorte.

Professora: “Quero silêncio para conseguir ouvir o vosso colega… Senta-te! Obrigado. Podes continuar.”

Nessa turma havia rapazes que não queriam ou não sabiam ler. Antigamente, as crianças com necessidades especiais ou com problemas de indisciplina frequentavam escolas diferentes. Actualmente, dá-se primazia à integração, mas devo dizer por experiencia própria, que essa opção não é benéfica nem para as crianças com necessidades especiais, nem para os outros.

Professora: “Estás deliberadamente a perturbar. Sai e vai para a sala de onde não devias ter saído.”
Aluno 1: “Quero lá saber.”
Prof.: “Queres lá saber?... Está bem. Tu é que sabes. Levem-no. Não te quero na minha aula. Não te quero cá enquanto estiveres a fim de perturbar.”
Aluno 2: “Se não saíres, vou pessoalmente buscar-te a casa e expulso-te!”
Prof.: “Vamos… Faltam cinco minutos para o intervalo. Ou seja os “desgraçados” que estiveram à espera de ler vão ficar para trás, à semelhança dos restantes.”

Tem piada ver que os inspectores estão em actividade. Estão em todo o lado. E os professores estão num frenesim para saber se têm a papelada em ordem, os objectivos, os programas, os planos e toda a parafernália que estão agora no centro do sistema educativo. Pergunto-me se chegam a ouvir a algazarra da escola ou sequer se isso vai aparecer nas avaliações, que vão ser publicadas daqui por algumas semanas.

Professora: “Acabámos de perder mais cinco minutos. Vamos ler esta história, quer queiram quer não, porque não conseguimos prosseguir com o resto do trabalho enquanto não lermos tudo.” (...)

Depois de ter tido bastante dificuldade para os pôr a fazer alguma coisa, começou uma briga na sala. Alguns destes rapazes são fortes, mais altos e mais fortes do que eu. Ainda tenho bastante presente as directivas da tutela para contendas físicas que dizem que os professores não devem intervir, sempre que houver um grupo de alunos “à bulha”. Felizmente, alguns dos colegas dos dois alunos conseguiram separá-los, pondo fim “à bulha”.

Professora: “O que é que vem a ser isto? O que é que se passa?”

Mas, quando a primeira contenda foi dada como sanada, eclodiu uma segunda briga. Felizmente, apareceu um auxiliar que retirou o pau de plástico ou de borracha de um dos rapazes.

Auxiliar: “Pára! Pára! Dá-me isso! Dá-me!”

Há 30 anos, não havia cá isso dos auxiliares. Conseguia manter a minha turma sob controlo. E mais, se algum aluno fosse expulso da sala, já não voltava. Não consigo recordar casos de vandalismo como estes contra o material escolar ou de alunos com mau génio, e nem sequer cheguei a precisar da ajuda do responsável. Julgo que é desolador sentir que, na maior parte do tempo que passei como professora substituta, naquelas turmas, era para “controlar multidões”.

Professora: “Nunca pensei. Não faças isso! Não se faz!”

Pouco depois, foram publicadas as avaliações... A nível disciplinar, a avaliação desta escola é satisfatória (Outubro de 2004).

Sinto que a escola não ganhou nada com a minha passagem lá. Se virmos o dia de hoje, dei seis aulas. Parece-me que a aula mais produtiva foi com a turma dos mais novos, com os alunos do 7.º ano, porque são mais “suportáveis” e não apresentam os vícios de indisciplina dos mais velhos. Os alunos do 8.º ano não estiveram mal.

Professora: “Não quer dizer que um seja bom e o outro mau.”

Este foi o grupo que mais trabalho me deu durante a semana. Parece-me que começam agora a acalmar e, para além de uma briga, o trabalho realizado foi produtivo. Em relação ao resto, mais vale esquecer. Hoje dei seis aulas, quatro das quais são “para esquecer”.

Professora: “Quero deixar bem claro aos rapazes que, caso não se portem bem…A qualquer sinal de perturbação vou falar com a Direcção, visto que não vou aceitar mais barulho e falta de respeito.”

Queriam que ficasse mais uma semana, mas recusei. Já não tenho força nem capacidade – a sério – para aturar aquilo tudo outra vez.

(CONTINUA)

Compilação do texto: Ana Cunha.
Imagem: http://www.thisislondon.co.uk/news/article-23403380-suspended-teacher-insists-filming-classroom-behaviour-was-right.do

GRANDES ERROS: MORALES E OS FRANGOS


O Dia da Terra foi, na Bolívia, o dia do disparate. O presidente Evo Morales, num encntro intitulado "Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra" (sic) afirmou que não se devia comer frango porque, devido a hormonas injectadas pelos produtores, "os homens que consomem frango têm problemas em ser homens". Quanto às mulheres, afirmou que a ingestão de frango fazia crescer os seios mais cedo. E mais disse, apontando para a sua farta cabeleira, que a calvície era uma doença na Europa, também devido ao frango: "Lá quase toda a gente é careca. E isso é por causa daquilo que comem".

Lembra-se que a maioria dos países ocidentais interditou injecções de hormonas nos frangos, que teriam sido usadas em tempos de forma localizada para crescimento acelerado de aves. O que está a crescer aceleradamente na Colômbia, com a referência presidencial à relação entre as hormonas dos frangos e a homosexualidade, é, evidentemente, o disparate!

O RADIÓMETRO DE CROOKES



Na série dos "brinquedos científicos" eis o radiómetro de Crookes, um pequyeno moinho com paletas brancas e pretas que é movido a luz.

A vida imortal de Henrietta Lacks

A revista de livros do "The New York Times" de hoje tem na lista dos livros de não-ficção mais vendidos o livro

THE IMMORTAL LIFE OF HENRIETTA LACKS
By Rebecca Skloot
Illustrated. 369 pp. Crown Publishers. $26

Conta a história de uma senhora com cancro a quem em 1951 tiraram células numa biópsia, que depois cultivaram sem autorização, tornando uma partte dela praticamente imortal. A recensão "Eternal Life" de LISA MARGONELLI publicada em 5 de Fevereiro começa assim:

"From the very beginning there was something uncanny about the cancer cells on Henrietta Lacks’s cervix. Even before killing Lacks herself in 1951, they took on a life of their own. Removed during a biopsy and cultured without her permission, the HeLa cells (named from the first two letters of her first and last names) reproduced boisterously in a lab at Johns Hopkins — the first human cells ever to do so. HeLa became an instant biological celebrity, traveling to research labs all over the world. Meanwhile Lacks, a vivacious 31-year-old African-American who had once been a tobacco farmer, tended her five children and endured scarring radiation treatments in the hospital’s “colored” ward."

O resto pode ser lido aqui.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

HUMOR: LIVROS 3

HUMOR: LIVROS 2

HUMOR: LIVROS 1

DIA MUNDIAL DO LIVRO



O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor é hoje; no dia de aniversário da morte de William Shakespeare e de Miguel Cervantes (23 de Abril de 1616). Mas os dois escritores morrerram, de facto, com intervalo de 10 dias: acontece que os calendários que vigoravam na altura em Inglaterra e Espanha eram diferentes, o juliano e o gregoriano (ver aqui)

A Morte e o Bibliotecário


Hoje, Dia Mundial do Livro, as Bibliotecas da Catalunha, para assinalar também o dia de S. Jorge, anunciam um livro electrónico "A morte e o bibliotecário", de Jaume Pòrtulas, professor de filologia grega na Universidade de Barcelona, prémio nacional de Literatura 2009 que se pode ler(ou ouvir) em catalão, espanhol e inglês directamente no computador. É só clicar aqui. O livro conta a história do construtor grego da biblioteca de Alexandria.

A nuvem


Como vem sendo habitual, destacamos do "Destak" de hoje a crónica semanal de José Luís Pio de Abreu:

Paira sobre a Europa uma nuvem que ninguém quer ver. Não é a primeira vez. Quando Hitler subiu ao poder, até tinha apoio popular. As elites germânicas – e também as europeias – estavam mais preocupadas com brigas paroquiais, enquanto as pessoas desesperavam com a instabilidade política e a crise económica.

Não viram a nuvem. A anexação da Áustria foi pacífica, e pouca gente se importou com isso. Até os judeus ricos pensavam que o mal só acontecia aos pobres. Quando Hitler invadiu a Polónia, já era tarde. Depois, foi o que se viu.

A nuvem do século XXI já invadiu a Grécia, um pequeno mas simbólico país que, pelos vistos, interessa a pouca gente. A Europa, liderada pelo governo de direita alemão, parece insensível. Talvez o mal só atinja os pobres gregos, definitivamente entregues nas mãos dos especuladores financeiros. Até podem sair do Euro. Se o fizerem, porém, arrastarão, um a um, os outros países.

Os europeus vivem hoje apinhados em meios urbanos e dependem da organização pública para a satisfação das mais básicas necessidades. O fim do Euro traria uma instabilidade de consequências imprevisíveis mas seguramente calamitosas. Com a calamidade à porta, ninguém se importa, por enquanto, preferindo discutir as mais variadas irrelevâncias.

Mas esta história também não é nova. Quando os Otomanos já entravam em Constantinopla, os parlamentares bizantinos, reunidos em concílio, discutiam o sexo dos anjos.

José Luís Pio de Abreu

PEGADAS DE DINOSSÁURIOS DE PORTUGAL


Saiu em 2008 em edição do Museu Nacional de História Natural, encontra-se à venda nesse local, mas é difícil de encontrar noutros sítios. E é pena porque se trata de uma bela edição! Partindo da sua tese de doutoramento a paleontóloga Vanda Santos, nascida em Moçambique e que hoje trabalha naquele Museu, apresenta-nos, com o auxílio de sugestivas ilustrações a cores o essencial do que se sabe sobre as marcas que aqueles monstros deixaram em solo português. Eu, por exemplo, que sabia dos fabulosos rastos na Pedreira do Galinha, em Ourém, e também no Cabo Mondego, na Figueira da Foz, fiquei a saber dos trilhos de um grupo de sete dinossauros, uns maiores e outros menores, no Cabo Espichel. Boa parte de Portugal já foi, portanto, um Parque Jurássico!

Deixo aqui a sinopse:
"Em Portugal existem pegadas e pistas de dinossáurios em zonas litorais e em antigas pedreiras. O estudo destes icnofósseis permite conhecer a anatomia dos pés e das mãos dos dinossáurios que os produziram, o seu modo de locomoção, o seu comportamento individual e social, os ambientes que frequentaram, entre outros aspectos. As jazidas com pegadas de dinossáurios são, assim, uma importante fonte de informação sobre este grupo de animais já extintos há 65 milhões de anos e constituem, igualmente, locais privilegiados para o ensino de temas relacionados com a Geologia e a Paleontologia. O presente trabalho pretende divulgar o conhecimento científico adquirido com o estudo destas jazidas, realçando o seuvalor científico, cultural, pedagógico e patrimonial, e contribuir para a sua preservação."
E deixo uma das ilustrações, mostrando o modo como as pegadas se originaram:

A FÁBRICA DO CORPO HUMANO


Minha crónica no "Sol" de hoje:

Está patente na Biblioteca Nacional a exposição Arte Médica e Imagem do Corpo: de Hipócrates ao final do século XVIII, que mostra um rico acervo de obras de medicina. Entre elas pontifica uma das edições de um dos mais notáveis atlas de anatomia: De humani corporis fabrica (Fábrica do Corpo Humano), da autoria do belga Andreas Vesalius, saída da oficina de Johannes Oporinus, em Basileia, no ano de 1543.

Quem visitar essa bela cidade nas margens do Reno, onde nessa época também foram impressas obras do nosso Pedro Nunes, não pode deixar de ver o Museu de Anatomia, no quarteirão da velha universidade, onde se encontra o esqueleto de Jacob von Gebweiler, mais conhecido por “esqueleto de Basileia”. Von Gebweiler foi um criminoso executado no referido ano nessa cidade, por tentativa de assassínio da sua mulher. Vesalius, que estava aí para supervisionar a publicação do seu livro, dissecou o cadáver, numa demonstração pública, e ofereceu o resultado à Universidade local, que hoje se pode por isso orgulhar de possuir o mais antigo preparado anatómico do mundo. Também em Pádua, onde Vesalius ensinava, alguns juízes permitiam, em forte contraste com proibições antigas, a dissecação de cadáveres de condenados. Graças às experiências que realizou com as suas próprias mãos, Vesalius é autor de grandes avanços na medicina, contrariando as teses do grego Galeno, que, conforme ficou então claro, se tinha limitado a observar vísceras de animais. Vesalius gostava mesmo de dissecar simultaneamente humanos e macacos para que as diferenças ficassem claras.

Pouco depois da obra maior, saía um resumo para uso estudantil, contendo as principais estampas, desenhadas por um discípulo de Ticiano que, dado o pormenor e a exactidão, estava, com certeza, presente nos teatros anatómicos: a Epitome. Esta versão foi dedicada ao filho do imperador Carlos V, que viria a ser Filipe II de Espanha (I de Portugal), a quem Vesalius haveria de servir como médico. Segundo uma história, hoje considerada apócrifa, Filipe II teria comutado uma sentença de morte determinada pela Inquisição ao seu médico por grave erro profissional mandando-o em peregrinação à Terra Santa. Certo é que Vesalius morreu, aos 50 anos, num naufrágio nessa viagem, apesar de ter conseguido alcançar uma ilha grega.

Na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra existe um exemplar da primeira edição – sim, impressa em Basileia em 1543 - da Fábrica. No quadro da campanha SOS Livro Antigo, essa obra está a ser restaurada por especialistas da Biblioteca Nacional graças à generosidade da Sociedade Portuguesa de Neurociências, que decidiu recuperar e digitalizar o livro. Pela salvação desse tesouro todos lhe devemos estar gratos.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

GALILEU E AS ARTES

Ainda a propósito das letras e das ciências: No seu artigo "Fronteiras entre a Terra e a Lua. Ariosto e Galileu", publicado na "Biblos" (2003), ps. 61-85, Rita Marnoto, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, depois de notar que Galileu tinha uma "devoção literária" pelo "Orlando Furioso", acrescenta:
"Galileu era dotado de uma brilhante cultura artística, e não só no domínio da música, da pintura, da escultura e da arquitectura, como também na da literatura. A osmose entre arte e ciência que permeia os seus escritos converte-o em directo herdeiro daquele ideal renascentista do homem completo. Ao observar o Universo, Galileu compara-o a um grande livro, '[...] scritto in lingua matematica, e i caratteri sono triangoli, cerchi, ed altre figure geometrische, senza i quali mezi è impossibile a interderne umanamente parola; senza questi è un aggisarsi vanamente per un oscuro lebirinto.' Da mesma feita, ao dar voz às suas severas apreciações críticas acerca da 'Gerusalemme liberata', intituladas 'Considerazioni al Tasso', recorre largamente a paralelos com a pintura, ou com a arquitectura e a escultura, cruzando-os, não raro, com noções colhidas no campo das ciências naturais".
Era assim a "guerra das culturas" quando a ciência começou...

HUMOR: MISS CAROLINA DO SUL E A LEITURA DE MAPAS

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...