sexta-feira, 25 de maio de 2007

MÁQUINA DO TEMPO


Informação recebida de Fernando Correia de Oliveira , o nosso grande especialista de relógios e de tempo. Além de autor de vários livros, sempre muito interessantes (o último é "Relógios de Sol", dos Correios de Portugal), ele tem editado o suplemento "Cronos" do jornal "Público":

A partir de sexta-feira, dia 25 de Maio, o novo suplemento do Semanário Económico, "Casual", incluirá sempre entre duas a quatro páginas dedicadas ao Tempo, aos seus medidores e à evolução das mentalidades a eles ligada. É a Máquina do Tempo que regressa, e em força.

Ecologia no século XVIII

O Paulo terminou o texto que assinala os 300 anos do nascimento de Lineu enfatizando que importa desenvolver acções que limitem a catástrofe ecológica que a acção humana promove. É interessante notar que o alerta do Paulo, que subscrevo na íntegra, acompanha um post em que é mencionado um cientista com preocupações ecológicas que já na época prenunciavam o que a revista Nature dois séculos depois confirmou. Refiro-me a Domenico ou Domingos Vandelli, o primeiro director do Gabinete de História Natural e do Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra. Vandelli, que iniciou a actividade docente em Maio de 1773, dever-se-ia debruçar sobre História Natural e Química. No entanto, foi a História Natural que lhe mereceu atenção e Vandelli relegaria para um plano secundário o ensino e investigação em química (que ficaram entregues a lentes substitutos dos quais se destacam Thomé Rodrigues Sobral e Vicente Coelho de Seabra). Nomeadamente, nunca concluiu o manual de química que, como recordou D. Maria I na Carta Régia de 26 de Setembro de 1786, de acordo com os estatutos todos os docentes deveriam escrever. Vandelli, dispensado esse ano da docência para poder dedicar-se à escrita, escreveu nessa altura os Prolegomena ao sistema de Lineu.

De acordo com o historiador brasileiro José Augusto Pádua, coordenador do projecto «Brasil Sustentável e Democrático», a preocupação expressa em português com o meio ambiente traça as suas raízes ao grupo que orbitava Vandelli na recém-criada (em 1779, por iniciativa de João Carlos de Bragança, segundo duque de Lafões) Academia de Ciências de Lisboa.

Embora a palavra ecologia tenha surgido em meados do século XIX, a perspectiva ecológica já se desenhava na economia da Natureza do século XVIII. Esta era uma visão integradora que considerava que, por serem interdependentes os elementos naturais, ao destruir parte do sistema danifica-se o resto, visão na qual se revia Domingos Vandelli, que abraçou o ecletismo do reformismo iluminista. O pequeno grupo de intelectuais brasileiros e portugueses que se reuniu em torno de Vandelli — composto por cientistas com formação básica em medicina, química e história natural — esboçaram uma 'visão de mundo' que centrava no domínio da natureza a recuperação do atraso nacional em relação à Europa das Luzes, reflectindo igualmente sobre a questão da sustentabilidade ecológica. Deste grupo fez parte José Bonifácio, o Patriarca da Independência do Brasil - cuja filha mais velha Carlota Emilia, se viria a casar com Alexandre Vandelli, filho de Domingos Vandelli - considerado pelo historiador o primeiro e um dos mais importantes ecologistas deste país.

José Bonifácio de Andrada e Silva foi nomeado pela Carta Régia de 15 de Abril de 1801 lente da cadeira de Metalurgia - criada por outra Carta Régia dois meses antes-, que deveria ser ensinada no quarto ano do curso de Filosofia da Universidade de Coimbra. Tendo sido visitante das principais escolas de minas da época, como Freiberg e Paris, José Bonifácio verificou o atraso entre as referidas escolas e a «reformada Universidade de Coimbra», sobretudo no campo das ciências naturais. Deficiências que impediam o desenvolvimento das ciências naturais em Portugal e que apontou num manuscrito denunciando, entre outros factores, a falta de museus, gabinetes de física e laboratórios; a ausência do estudo das ciências naturais no plano de educação dos jovens e o pequeno número de imprensas para difundir o conhecimento científico. Todos esses factores impediriam assim que o país superasse o atraso cultural e científico em relação à Europa das luzes.

José Bonifácio, que ficou mais de 30 anos fora do Brasil, regressou nas vésperas da independência, cujo processo liderou, e disseminou em terras de Vera Cruz as críticas ambientais que bebeu na Academia das Ciências de Lisboa. O filósofo, que se autodefinia «Eu não sou partidário da mitosofia ou da teosofia. Sou filósofo, isto é, constante indagador da verdadeira e útil sabedoria», previa em 1823 que «o Brasil vai-se transformar nos desertos da Líbia em dois séculos».

É curioso verificar que nos seus primórdios a ecologia foi assim influenciada pelo iluminismo e pelo racionalismo e não pelo retorno à «pureza» poética do romantismo brasileiro, com muitos pensam. E mais curioso verificar os seguidores de Vandelli no Brasil propunham «juntar o avanço racional da tecnologia com o cuidado ambiental» e consideravam que «a destruição ambiental é o preço do atraso, uma herança do passado colonial, da tecnologia rudimentar». Isto é, preconizavam que a harmonização ambiental é apenas possível via uma acção política integrada, que simultaneamente actue a nivel profundo na estrutura social de um país. Assim, consideravam que eram as relações sociais e económicas perversas as principais responsáveis pela degradação ambiental. Nomeadamente e segundo José Bonifácio, «Só com a abolição da escravatura vamos mudar as nossas relações com as florestas, a terra, o território» já que considerava que a escravatura gerava preguiça nos donos das terras (e escravos) e falta de inteligência no uso do território. Hoje em dia não há escravos mas continuam actuais as reflexões catalisadas há mais de 200 anos pelo grupo da Academia de Ciências de Lisboa...

O QUE É O AQUECIMENTO GLOBAL?


UMA BREVÍSSIMA HISTÓRIA DO TEMPO


Artigo que saiu na revista "Educação Matemática", da Associação de Professores de Matemática:

O título de cima presta homenagem ao livro popularíssimo de Stephen Hawking [1] do qual há uma recente versão mais curta [2]. Mas, ao contrário dessa obra, não se trata aqui de contar a história do Universo desde o seu início, há cerca de 15 000 milhões de anos, mas antes de contar muito abreviadamente a história da visão do tempo nas ciências físicas, desde que estas se iniciaram há cerca de quatrocentos anos.

E forçoso é começar essa história com o italiano Galileu Galilei [3]. Para Galileu o tempo era, como ainda hoje, uma grandeza que se podia medir com um relógio, tal com o espaço é uma grandeza que se pode medir com uma régua. Medir é, sempre foi, conhecer. Os relógios usados por Galileu eram muito rudimentares. Os primeiros relógios mecânicos, baseados no pêndulo, só puderam ser construídos na sequência dos desenvolvimentos da mecânica. Galileu foi o descobridor da lei do isocronismo das pequenas oscilações de um pêndulo (segundo a qual, o tempo de uma pequena oscilação não depende do ponto exacto de partida), mas só dezenas de anos mais tarde o holandês Christiaan Huyghens usou esse conhecimento para construir um primitivo relógio de pêndulo. Mas Galileu tinha à sua disposição ampulhetas e também um relógio que ainda hoje pode ser usado por qualquer pessoa: o pulso. O sábio italiano não tinha um relógio de pulso, mas tinha um pulso de relógio e é, de facto, fantástico, que tenha descoberto a referida lei e outras, como a da queda dos graves, que relaciona a distância d percorrida por um grave com o tempo t decorrido, d = ½ g t^2, com g uma contante (chamada aceleração da gravidade, g = 9,8 m/s^2) usando o seu próprio ritmo cardíaco (que não se alterou com a iminência do momento de “eureka”, pois isso teria impedido até a própria descoberta...).

Isaac Newton [4], o inglês que nasce no ano em que Galileu morre, segue a tradição inaugurada por Galileu de descrever a Natureza com a ajuda da matemática (Galileu tinha dito que “o Livro da Natureza está escrito em caracteres matemáticos”). A segunda lei de Newton, que relaciona directamente força F com a aceleração a, F = ma, com m a massa, uma grandeza que mede a inércia do corpo ao movimento, é uma maneira geral de expressar leis particulares como a lei do isocronismo das pequenas oscilações ou a lei da queda dos graves. A aceleração traduz a mudança no tempo da velocidade, que por sua vez traduz a mudança no tempo da posição. A mecânica que Galileu e Newton inauguraram (o segundo criando para o efeito a ferramenta matemática necessária – o cálculo infinitesimal) trata afinal de mudanças no tempo. E o que é o tempo? Pois, como Santo Agostinho disse, todos sabemos se não formos obrigados a explicitar o que é, mas já não sabemos se o tivermos de fazer (um humorista, perante essa dificuldade, saiu dela definindo o tempo como “o que impedia que tudo acontecesse em simultâneo”). Newton procurou, nos seus “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, definir o tempo. E deixou claro que existia um tempo absoluto, igual para todos, isto é, que todos os relógios marcavam o tempo da mesma maneira [5]: “O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo e da sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com qualquer coisa externa e é também chamado de duração”.

Por sua vez, o espaço era outro conceito absoluto, isto é todas as réguas mediam as distâncias da mesma maneira. Seja de novo dada a palavra a Newton [5]: “O espaço absoluto, na sua própria natureza, sem uma relação com o que quer que seja exterior, permanece sempre igual e imóvel...”

O tempo e o espaço, conceitos dissociados, funcionavam como cenários iguais para todos, onde se passavam todos os acontecimentos. Os movimentos cujas leis Newton descreveu com a ajuda da matemática eram uma alteração das posições de um corpo no espaço ao longo do tempo.

A mecânica newtoniana triunfou. Ela, tem, porém, uma grande dificuldade, ao lidar com o tempo: não consegue distinguir passado de futuro. As leis de Newton não fazem essa importante distinção: são invariantes relativamente a inversões do tempo. No entanto, todos sabemos que o futuro é diferente do passado, que muitos fenómenos indicam claramente uma “seta do tempo”. No século XIX desenvolveu-se um outro ramo da física, a termodinâmica. Ora, a segunda lei da termodinâmica, estabelecida pelo alemão Rudolph Clausius, ao contrário da segunda lei de Newton, fala da diferença entre futuro e passado: define uma grandeza para sistemas macroscópicos, chamada entropia, S, e afirma que a entropia de um sistema isolado tende para um máximo. Nos processos ireversíveis em sistemas isolados, a entropia cresce necessariamente. Essa lei exprime-se por uma inequação [6], Delta S > 0, e não por uma equação.

Um problema que chegou até aos nossos dias é precisamente o de fundamentar a termodinâmica na mecânica newtoniana (ou, mais em geral, na mecânica quântica). A mecânica estatística procura, de facto, ligar o microscópico e o macroscópico, mas tem dificuldades em explicar como é que, no primeiro nível, não há diferença entre passado e futuro, ao passo que no segundo nível já há. Pois não é o macroscópico feito a partir do microscópico?

Uma grande evolução no conceito de tempo dá-se no início do século XX dá-se com o alemão, mais tarde suíço e norte-americano, Albert Einstein [7]. Além de se ocupar da mecânica estatística, Einstein preocupou-se com a ligação entre a mecânica clássica, de Galileu e Newton, e o electromagnetismo, de Faraday e Maxwell, este estabelecido tal como a termodinâmica ao longo do século XIX.

Na mecânica havia um princípio da relatividade, já descoberto por Galileu, segundo o qual todos os observadores de sistemas de inércia viam da mesma maneira um dado fenómeno físico (há invariância ao passar de um referencial de inércia para outro, entendendo-se por referencial de inércia aquele onde são válidas as leis de Newton; encontrado um, qualquer outro com velocidade constante em relação ao primeiro será também de inércia). Mas no electromagnetismo já não era visível esse princípio, parecendo existir um sistema de referência privilegiado, o chamado éter. Einstein defendeu, numa tentativa de unir os dois ramos da física, a existência de um princípio da relatividade tanto para a mecânica como para o electromagnetismo. Mas, para isso, teve de modificar a mecânica, deixando intacto o electromagnetismo. Ou melhor, este não ficou intacto: o conceito de éter “evaporou-se”...

Einstein partiu, para estabelecer uma nova mecânica, a mecânica relativista, que engloba a mecânica de Galileu e Newton no limite das pequenas velocidades (assim como Newton viu mais longe por ter subido aos ombros do gigante Galileu, também Einstein viu mais longe ainda porque conseguiu subir para os ombros de Newton). Partiu do princípio de que existia um princípio da relatividade para todas as leis da física e não apenas para as leis da mecânica. E – outro postulado essencial – partiu também do princípio de que a velocidade da luz é um invariante, isto é, tem o mesmo valor para todos os observadores.

Este último postulado parece, à primeira vista, estranho. É fácil, com efeito, supor que um raio de luz lançado de dentro de um comboio viage não à velocidade da luz c = 300 000 km/s, que aparecia nas equações do electromagnetismo escritas por Maxwell, mas a essa velocidade mais a velocidade do comboio. Mas Newton admitiu que não, que a velocidade do raio de luz lançado de dentro do comboio não depende, visto do cais, da velocidade do comboio!

As consequências são, de facto, extraordinárias. Uma das mais imediatas e também das maiores é que o tempo flui de maneira diferente para quem vai no comboio e para quem está no comboio. Suponhamos uma experiência, que tem de ser mental, de um comboio a viajar com um velocidade comparável à da luz. (No tempo de Einstein já havia comboios, embora muito lentos... ) Uma lâmpada eléctrica acende-se no tecto do comboio, um feixe de luz parte para baixo, é reflectido por um espelho no chão do comboio e regressa à lâmpada. (A lâmpada eléctrica foi inventada por Edison no ano em que Einstein nasceu). Do ponto de vista de um observador dentro do comboio, o movimento da luz dá-se em em linha recta e na vertical. Mas, do ponto de vista de um observador no cais (supomos o comboio transparente para facilitar a observação), o movimento é ainda em linha recta, mas não vertical, mas sim oblíquo. O feixe desce propagando-se para a frente, no sentido do comboio, bate no espelho e sobe, sempre propagando-se para a frente. A distância percorrida é obviamente maior pois a soma dos dois lados iguais de um triângulo isósceles é maior do que a altura do triângulo. Agora, como a velocidade da luz é a mesma para os dois observadores e a distância percorrida é maior para o observador externo, só há uma conclusão a tirar: o tempo marcado no interior do comboio é diferente do que o tempo marcado fora do comboio, ou, mais precisamente, o tempo decorrido dentro do comboio entre a emissão e a recepção da luz pela lâmpada é menor. Ou, dito ainda de outra forma, relógios em movimento atrasam-se! Este é o conhecido fenómeno da dilatação do tempo, que pode ser descrito matematicamente com a ajuda apenas do teorema de Pitágoras [8].

Este fenómeno já foi verificado experimentalmente com relógios atómicos, os relógios mais precisos que hoje existem (e que se baseiam no processo quântico de emissão e absorção de luz por átomos): um relógio ficou fixo em terra e outro deu a volta à Terra, a bordo de um avião. Comparados os dois relógios no fim da viagem, o relógio que tinha viajado marcou um tempo um bocadinho menor. Marcaria bastante menos se houvesse tecnologia para o colocar a grande velocidade, a uma velocidade comparável com a da luz. Quase à velocidade da luz, o tempo praticamente não passa...

Com Einstein cada observador passou, portanto, a medir intervalos de tempo diferentes entre os mesmos acontecimentos, consoante a sua própria velocidade. Caiu o tempo absoluto de Newton, igual para todos, para passar a haver um tempo relativo. Cada um passou a ter o seu próprio tempo!

E o mesmo se passou relativamente ao espaço: para o espaço, em vez do fenómeno da contracção do tempo, previu-se e verificou-se o fenómeno da contracção do espaço: réguas em movimento parecem encolhidas quando vistas de fora. Tal como o tempo, também o espaço, que se julgava absoluto, passou a ser relativo!

Ficou, porém, alguma coisa de absoluto, algo sobre o qual todos podem concordar (além da velocidade da luz). Foi possível construir matematicamente uma nova entidade à custa do espaço e do tempo: o espaço-tempo. Por outras palavras, juntando o espaço (com três dimensões) ao tempo (com uma dimensão) ficou uma entidade (com quatro dimensões) onde se podem definir intervalos invariantes. O espaço e o tempo são relativos mas no espaço-tempo, há absolutos! A geometria do espaço-tempo não é euclidiana, se o espaço e o tempo forem consideradas grandezas reais (no sentido matemático do termo: descritos por números reais). Mas, curiosamente, se o tempo for considerada um imaginário puro, um número real multiplicado pela constante imaginária i, que se define como a raiz quadrada de -1, então o espaço-tempo tem uma geometria euclidiana. Este espaço a quatro dimensões foi chamado espaço de Minkowski do nome do matemático alemão (nascido na Rússia) Hermann Minkowski, que descreveu pela primeira vez o novo espaço. Minkowski tinha sido professor de Einstein na Escola Politécnica Federal de Zurique, mas se conseguiu encontrar uma expressão matemática conveniente para as ideias de Einstein, não conseguiu quando lhe dava aulas descortinar as qualidades intelectuais fora de comum do seu hoje famoso discípulo.

A revisão dos conceitos de espaço e tempo (que só assume verdadeira importância para velocidades próximas das da luz, sendo suficientes as ideias de Galileu e Newton para as velocidades baixas) não se fez sem dificuldades científicas e até filosóficas. Uma das mais famosas encontrou expressão no “paradoxo dos gémeos”, do nome do físico francês Paul Langevin. Segundo Langevin (um físico que visitou Portugal nos anos 30 do século XX, ajudando na difusão entre nós das ideias relativistas), um par de gémeos que fosse colocado numa situação assimétrica de movimento, isto é, um enviado numa viagem de ida e volta a uma velocidade próxima da da luz a uma estrela distante enquanto o outro permanecia no nosso planeta, envelheceria de maneira assimétrica: o gémeo em Terra estaria muito velho, enquanto o gémeo que viajou pareceria ter tomado um elixir da juventude. Esse paradoxo – paradoxo porque do ponto de vista do gémeo em viagem é o seu irmão que viaja e, portanto, deveria ser ele a ficar mais jovem – encontra-se hoje resolvido. Mas ilustra bem as dificuldades que a teoria da relatividade restrita (assim se chama a mecânica de Einstein) representa para o senso comum.

Einstein conseguiria ainda uma generalização da sua teoria da relatividade restrita, que ficou conhecida como teoria da relatividade geral [9]. O grande físico considerou então sistemas não inerciais, isto é, acelerados. Partiu de uma ideia de Galileu: que um corpo grande e um corpo pequeno, na ausência de resistência do ar, caem ao mesmo tempo. O facto de o tempo de queda ser independente da massa do objecto atraído, mas tão só das propriedades do objecto atractor, explica-se porque a massa que descreve a resistência ao movimento – a massa inercial – é exactamente igual à massa que descreve a intensidade da atracção – a massa gravitacional. Na segunda lei de Newton, a força gravitacional, ou peso – a massa gravitacional m_gr multiplicada pela aceleração da gravidade g - tem se ser igual à massa inercial m_in (que antes designámos apenas por m) multiplicada pela aceleração, m_gr g = m_in a.

Como as duas massas nos dois lados da equação são iguais, segue-se que a aceleração é uma constante, a = g, o que traduz o facto de todos os corpos caírem da mesma maneira. Se todos os corpos caem da mesma maneira num certo sítio, é intuitivo pensar que a queda de um grave num sítio tem a ver com as propriedades do espaço nesse sítio. Mas que propriedades?

Einstein descobriu que a força gravitacional, responsável pela queda dos graves, tem uma origem geométrica, como vamos ver. A segunda lei de Newton diz que a força gravitacional é equivalente a uma aceleração, o que todos nós sabemos porque, quando um carro acelera, sentimos uma força a puxar-nos para trás (e, quando o carro trava, sentimos uma força apuxar-nos para trás). A atracção sentida numa nave fechada e parada devida à proximidade de um planeta é, portanto, equivalente a uma aceleração, devida eventualmente a um foguete em funcionamento, sem que exista um planeta próximo. Mas, numa nave acelerada, tudo deve ficar para trás, incluindo um feixe de luz. E, se a nave acelerada é como uma nave puxada por um planeta, a luz deve “sentir” a força da gravidade. Einstein pensou que a luz devia ir pelo caminho mais curto e, se a luz se encurva perto de um corpo com grande massa, concluiu que o espaço (também o tempo, já que o espaço e o tempo estão inextrincavelmente ligados) tem uma geometria curva, perto desse corpo. Concluiu que o espaço-tempo tem uma geometria curva perto de um corpo com uma grande massa. E que a força gravitacional resulta afinal dessa curvatura.

Concluiu bem, porque no ano de 1919 num eclipse do Sol medido na ilha do Príncipe, que então era território português, e na ilha de Sobral, já então como hoje território brasileiro, que os raios luminosos provenientes de estrelas por detrás do Sol eram encurvados ao passar perto do Sol. “A luz pesa” foi o título de uma pequena notícia no jornal “O Século” quando, passados uns meses, a descoberta foi anunciada na Royal Society de Londres [10].

Tal significa que um relógio e uma régua marcam, respectivamente, tempos e distâncias diferentes perto e longe de um astro com uma grande massa. O efeito é mais visível para os objectos astronómicos com maior massa, como os buracos negros, esses sítios do cosmos onde o tempo e o espaço acabam, pois os tempos e as distâncias são radicalmente alterados. Este fenómeno está hoje confirmadíssimo, sendo de resto utilizado como tecnologia, pois os relógios atómicos situados a bordo dos satélites que asseguram o sistema de posicionamento global (GPS) marcam, a carca de 20 000 km de distância da superfície da Terra, um tempo diferente dos relógios à superfície do nosso planeta.

As consequências da teoria da relatividade geral foram, porém, bastante mais além do que dá a entender a referência anterior às implicações tecnológicas. A matemática é um pouco mais complicada que a da relatividade rsetrita. Na equação central da teoria da relatividade geral de um lado está o tensor (uma entidade matemática com 4 x 4 = 16 números) que descreve a métrica do espaço-tempo e do outro o tensor que descreve a matéria e a energia (de acordo com a famosa fórmula E = m c^2, energia e massa são grandezas equivalentes). A geometria do espaço-tempo depende da presença da matéria-energia. Numa imagem útil, ainda que seja necessariamente grosseira, o espaço-tempo assemelha-se um lençol estendido onde se coloca um objecto de grande massa: o lençol fica mais esticado perto desse objecto. A força gravitacional é afinal essa deformação geométrica do espaço-tempo.

A questão que se pode colocar à escala cosmológica é a seguinte: que tipo de geometria tem o Universo todo? Segue-se das equações de Einstein que o Universo pode estar em expansão, mas o sábio não foi na altura suficientemente sábio... Decidiu acrescentar, à mão, um termo, chamado constante cosmológica, que permitia tornar o Universo estático. Depois das observações do astrónomo norte-americano Edward Hubble nos anos 30 do século passado sabe-se que o nosso Universo está em expansão, tornando dispensável a constante cosmológica de Einstein. De acordo com observações dos últimos anos, parece até que está em expansão acelerada [11], pelo que a questão da constante cosmológica permanece ainda em aberto. Einstein chamou a essa sua ideia o “maior disparate” da sua vida e a sequência veio mostrar que há, por vezes, disparates geniais...

Qualquer que seja o valor e a origem da constante cosmológica, o facto conhecido hoje é que o Universo teve um início há quase quinze mil milhões de anos. Nessa altura (o Big Bang, um “buraco branco”, uma espécie de buraco negro ao contrário) surgiu o espaço-tempo, isto é, surgiu o espaço e o tempo ligado a ele. Há só tempo depois do Big Bang. Quer dizer, não há um tempo anterior a esse evento (já Santo Agostinho sabia isso pois recusava a ideia de um tempo eterno antes da criação do mundo por Deus). De então para cá ocorreu toda uma sucessão de processos astrofísicos de auto-organização, para não falar já (o espaço e o tempo não o permitem...) dos processo físico-químicos, que estão na base da vida que apareceu pelo menos num planeta, o nosso...

Esta auto-organização (aumento da ordem) parece estar em contradição com a segunda lei da termodinâmica (aumento da desordem). É uma contradição apenas aparente, pois a termodinâmica se aplica a sistemas delimitados e é perigoso considerar todo o Universo como um desses sistemas (a pergunta é metafísica: delimitado de quê?). A origem da seta do tempo, descrita pela segunda lei da termodinâmica, permanece hoje ainda por explicar... Einstein explicitou de forma clara esse problema quando, poucos meses antes de ele próprio morrer, tomou conhecimento da morte do seu amigo Michele Besso. Escreveu então à viúva uma frase que ficou famosa [12]: "...para nós, que acreditamos na física, a separação entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, ainda que persistente."

É essa ilusão que os físicos, e não só,persistem em conhecer melhor.

BIBLIOGRAFIA

[1] S. Hawking, “Breve história do temp. Do Big Bang aos Buracos Negros”, Gradiva, Lisboa, 1ª edição, 1988.
[2] S. Hawking e L. Mlodinow, “Brevíssima história do tempo”, Gradiva, Lisboa, 2007.
[3] S. Drake, “Galileo”, Dom Quixote, Lisboa, 2ª edição, 1081.
[4] J.-P. Maury, “Newton e a mecânica celeste”, Civilização e Círculo de Leitores, Lisboa, 1992.
[5] S. Hawking (coord.), “On the shoulders of giants. The great works of Physics and Astronomy”, Runnig Press, Philadelphia e Londres, 2002. Está a ser preparada uma tradução portuguesa, a publicar pela Dom Quixote.
[6] J. Güemez, C. Fiolhais e M. Fiolhais, “Fundamentos de termodinâmica do equilíbrio”. Fundação Gulbenkian, Lisboa, 1988.
[7] A. Pais, “Subtil é o Senhor. Vida e Pensamento de Albert Einstein”, Gradiva, Lisboa, 2ª edição, 2004.
[8] C. Fiolhais et al. , “F12”, Texto Editores, Lisboa, 2005.
[9] M. Kaku, “O Cosmos de Einstein”, Gradiva, Lisboa, 2005
[10] C. Fiolhais (coord.), “Einstein entre nós”, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2005.
[11] O. Bertolami, “O livro das escolhas cósmicas”, Gradiva, Lisboa, 2006.
[12] A. Calaprice (coord.), “The new quotable Einstein”, Princeton, University Press, Princeton, 2005.

O ELOGIO DA CRISE (1807-2007)


Informação recebida da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) e da Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII (SPESXVIII) sobre o Congresso O ELOGIO DA CRISE, que decorre entre 22 de Maio de 2007 e Maio de 2008, celebrando os 200 anos da viagem da família real portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro. As sessões são abertas a todos os interessados.



Se a História tem algum sentido de “arqueologia”, nem por isso ela deixa de ser “prospectiva” do nosso próprio tempo, pressentindo-lhe as crises e estabelecendo relações de soluções e comportamentos humanos entre épocas, acrescida de um sentido filosófico e sociológico. A História é de todos, como a ciência que a todos responde e é construída por todos, tanto num regresso ao passado, como na equação do presente em função de futuros previsíveis. Todos sabemos que a História não se repete, mas oferece mecanismos de pensamento e pode estabelecer métodos de análise e rigor científico que estão a transformá-la naquela ciência indispensável aos Homens que a deverão escutar em função das tarefas que desempenham no mundo das políticas e das grandes decisões neste momento de transformações e de globalização.
Então, qualquer efeméride deverá ser entendida como uma reflexão aprofundada, interdisciplinar e participada por entidades e instituições culturais e científicas diversificadas. Por isso, cabe-nos revisitar 200 anos de História que lembrem um tempo de impérios e um tempo de mudanças. Propomos, então, o elogio da crise.


PROGRAMA
1ª Sessão – 22 de Maio de 2007

18.00 Horas – Na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa, em Lisboa
Inauguração do Colóquio pelo Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, Prof. Doutor Luís António Aires-Barros.
Conferência: Portugal entre Pombal e D. Maria I (1750-1816) – a questão da viradeira, pela Presidente da SPESXVIII, Prof. Doutora Maria Helena Carvalho dos Santos.
18.45 Horas – Debate.

2ª Sessão – 14 de Junho de 2007

21.00 Horas – Na sede da SPESXVIII – Av. de Ceuta, Quinta do Cabrinha, nº1 r/c, Lisboa. [Junto à PSP de Alcântara]. Homenagem ao Prof. Doutor Luís António Aires-Barros, Presidente da Sociedade de Geografia - na SPESXVIII

21.15 Horas - Mesa Redonda. Tema: As (IN) tolerâncias entre os Séculos.
Coordenação do Prof. Doutor Fausto Amaro. Estão abertas as inscrições para apresentação de comunicação.

3ªSessão – 8 de Novembro de 2007
10.00 Horas – Na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa
Mesa Redonda. Tema: Estados Unidos da América: o anúncio do fim dos Impérios? Coordenação do Embaixador Francisco Knopfli. Estão abertas as inscrições para apresentação de comunicação.

Almoço livre (pode ser no Convívio da SGL)

14.30 Horas – Na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa
Mesa Redonda. Tema: Jornais e Opinião Pública no Séc. XIX e a Independência do Brasil. Coordenação da Prof. Doutora Maria Helena Carvalho dos Santos. Estão abertas as inscrições para apresentação de comunicação.

4ª Sessão – 22 de Novembro de 2007 – Encerramento da parte portuguesa
17.00 Horas – Na sede da SPESXVIII – Av. de Ceuta, Quinta do Cabrinha, nº1 r/c, Lisboa. Mesa Redonda. Tema: Historiografia, Literatura e Romance Histórico. Coordenação do Prof. Doutor Mário Avelar. Estão abertas as inscrições para apresentação de comunicação.

5ª Sessão – Maio de 2008 – no Brasil. A Família Real Chega ao Brasil
Organização da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA - Fortaleza, Brasil. Estão abertas as inscrições para apresentação de comunicação.

Expectativas para o ensino da ciência na Europa

Sem graduados de primeira classe em ciências, como poderemos compreender e lidar com as crises provocadas pelo aquecimento global, pergunta Harry Kroto num artigo publicado há dois dias no The Guardian, intitulado “o naufrágio da ciência britânica”.

Harold Kroto é um distinto químico britânico, galardoado com o Prémio Nobel da Química, em 1996, juntamente com Robert Curl e Richard Smalley, pela descoberta da extraordinária molécula designada C60 Buckminsterfulereno. Trata-se de uma complexa molécula constituída exclusivamente por átomos de Carbono, num total de 60 átomos. A molécula tem a forma de uma bola de futebol com 60 vértices.

A sua descoberta originou uma nova área de investigação em química designada ciência dos Fulerenos. Tratando-se de moléculas muito estáveis e com propriedades físicas invulgares desenvolveram-se ou estão em desenvolvimento inúmeras aplicações para elas: supercondutores, lubrificantes, armazenamento de Hidrogénio, dispositivos ópticos, sensores químicos, cosmética, etc.

Filho de emigrantes alemães, que fugiram da fúria assassina de Hitler, Harry Kroto sempre demonstrou ao longo da sua vida uma intensa curiosidade e um vincado racionalismo.

Kroto, que entretanto abandonou a Universidade de Sussex, onde esteve 37 anos, trocando-a pela mais interessada Universidade da Florida, critica de forma dura e acutilante a política educativa do governo trabalhista, que, ao não incentivar a curiosidade dos jovens e o interesse pelo conhecimento, conduziu a um afastamento massivo dos jovens dos cursos científicos. Como afirma, há mais jovens a frequentar cursos de comunicação que de física. Essa política repercutiu-se inclusivamente nas Universidades, chamadas a terem cursos com mais ‘rendimento’. A abordagem MacDonald’s aos cursos – baratos, na moda, e fáceis de mastigar – destinados a um consumo em massa, resultou numa avalanche de diplomados para trabalhos inexistentes.

A ler aqui.

A escola que é um manifesto contra o eduquês


Com a devida vénia ao autor, não resisto a transcrever na íntegra o Editorial de José Manuel Fernandes no Público de 23 de Maio de 2007.
Aqui vai.







A escola que é um manifesto contra o "eduquês"

23.05.2007

É privada, escolhe os professores, recebe todos os alunos do concelho, dos pobres aos ricos, ensina a tabuada, tem quadro de honra, não vai em modas. Fica em Arruda dos Vinhos e perceber como lá se ensina desfaz muitos mitos sobre como deve ser o sistema de ensino

Fica em Arruda dos Vinhos, concelho rural dos arredores de Lisboa. É a única escola desse concelho que tem terceiro ciclo do ensino básico e, por esse concelho ter sido o único onde a média a Matemática nos exames nacionais do 9º ano foi positiva, o PÚBLICO visitou a João Alberto Faria. A reportagem foi publicada segunda-feira, mas vale a pena voltar ao tema.

Porque essa escola é um manifesto vivo contra o tipo de políticas que têm degradado a qualidade do ensino em Portugal.

Primeiro: naquela escola entende-se, e citamos, que "a massificação do ensino levou a um menor grau de exigência, mas a Matemática não se tornou mais fácil e mantém as dificuldades próprias da disciplina"- o que requer "esforço e trabalho".

Segundo: naquela escola não se embarca em modas, prefere-se cultivar a exigência. Por isso "o grupo de Matemática é pouco atreito a algumas inovações pedagógicas", por isso defende-se que "saber a tabuada é mais importante do que saber utilizar a calculadora", por isso interditaram mesmo a sua utilização no 2º ciclo.

Terceiro: como sem bons professores não há boas escolas, na Alberto Faria todos os professores são entrevistados antes de serem contratados, explicando-se-lhes qual a filosofia da escola e avaliando se os candidatos estão à altura do que se lhes vai pedir.

Quarto: não há nenhuma relação inelutável entre os bons resultados de uma escola e o nível sócio-económico da região onde se insere. Arruda dos Vinhos está longe de ser um dos concelhos com mais poder de compra e na João Alberto Faria não se seleccionam os alunos, recebem-se todos, mais ricos ou mais pobres.

Mais: recebem-se também alunos de concelhos vizinhos, porque, como explicou um aluno do 10º ano que quer ir para Medicina, nela "o nível de exigência dos professores pode ser compensado pelos resultados nos exames, que normalmente tendem a ser melhores". Quem responde bem à exigência possui também o estímulo de figurar no Quadro de Honra da escola.

Quinto: uma direcção escolar focada em disciplinas como Matemática ou Português levou a que o tempo lectivo destinado ao Estudo Acompanhado fosse dedicado só a essas disciplinas.

E quando acabam as aulas do 9.º ano os docentes estão disponíveis para dar aulas extra de preparação para os exames de Português e Matemática e ainda todas as que sentirem necessárias para o esclarecimento de dúvidas dos seus alunos.

Tudo o que atrás fica escrito permite que os bons resultados daquela escola se prolonguem no ensino secundário, tendo o ano passado ficado em 32º lugar nos rankings feitos a partir dos resultados a Matemática dos seus alunos no 12º ano. Uma boa posição, se nos lembrarmos que falamos de uma escola que não foi feita para alunos de elite.

Contudo, para o quadro ser completo, é necessário sublinhar outra: esta é uma escola privada. O seu nome completo é Externato João Alberto Faria. Mas os seus alunos não pagam para a frequentarem, pois, como é a única do concelho, tem um contrato de associação com o ministério.

Estes contratos de associação são relativamente raros no país, havendo mesmo assim quem defenda que o Estado devia construir escolas públicas ao lado de estabelecimentos privados como este. Mesmo que tal saísse muito mais caro. E resultasse numa menor qualidade de ensino. Só que a Alberto Faria mostra como fazer o contrário pode resultar muito melhor.

Conclusões? Que se as escolas escolhessem os professores, se os alunos escolhessem as escolas, se o Estado se limitasse a dar orientações gerais, em vez de dirigir, e desse um cheque-ensino aos alunos menos abonados que quisessem ir para uma escola mais exigente, ou melhor, privada e paga, ganharia a qualidade de ensino e o ministro das Finanças agradeceria. Só os interesses instalados se revoltariam.

José Manuel Fernandes

quinta-feira, 24 de maio de 2007

EM BUSCA DA BELEZA

Com a exaltação da beleza patente na escultura da deusa Atena Nike (Atena que traz a vitória) aqui reproduzida, terminou José Ribeiro Ferreira, na passada terça-feira, um ciclo de palestras abertas ao público dedicadas à Arte Grega, mais precisamente à beleza da e na Arte Grega.

Tratou-se de um ciclo dos vários que a livraria e editora Minerva, de Coimbra, tem vindo a concretizar ao longo dos anos e nos quais a Universidade desta cidade tem colaborado com regularidade, através de muitos daqueles que estimam o conhecimento e gostam de o comunicar.

Desta vez - ou melhor, mais uma vez -, foi o Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras que se dispôs a co-organizar, quatro palestras com carácter sequencial, que decorreram entre 17 de Abril e 22 de Maio e se subordinaram aos títulos: Tipologia dos monumentos e arquitectura; A escultura grega: preliminares e época arcaica; Tipo de escultura grega: época clássica e período helenístico; e A pintura grega.

"Em Busca da Beleza" foi, em boa hora, a designação atribuída ao dito ciclo e, por isso mesmo, só no final a refiro, com o propósito de acentuar o seguinte:

1. Todos os saberes de que dispomos foram, obviamente, construídos por pessoas. São também as pessoas que, no presente ou no futuro, os podem valorizar e, se for o caso, reconstruir. Mas, para isso, e antes de mais, têm de ter acesso a eles;

2. Em certas áreas, como é o caso da Cultura Clássica, esse acesso não é fácil, pois o sistema educativo que deveria assumir, em primeira instância, tal compromisso, uma vez que todos passam por lá, tem-lhe atribuído uma importância reduzida, parecendo, neste momento, ser seu propósito encaminhá-lo para a extinção;

3. Assim se justifica e compreende que, fora desse sistema, tanto os que sabem como os que querem saber, se unam cada vez mais em “busca” da beleza que é inerente a todos os saberes. É essa, e só essa, disponibilidade para ensinar e para aprender que poderá manter os saberes vivos, ainda que estes se situem em tempos distantes;

4. Toda a gente tem responsabilidade nessa tarefa sempre inacabada de manter os saberes vivos. Penso que é por perceberem isso que algumas pessoas se encontram em certas tardes e serões na Livraria Minerva.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Biodiversidade: 300 anos de Lineu

No dia 23 de Maio de 1707 nascia, numa província do sul da Suécia, Carl Linnaeus, um dos mais importantes naturalistas do Séc. XVIII. É hoje recordado por ter inventado e implementado o sistema binomial de designação das espécies, ou nome científico, na sua obra de referência Systema Naturae (1758). Nós somos Homo sapiens, o pardal Passer domesticus, a margarida Bellis sylvestris. Designações latinizadas e escritas em itálico que permitiram a utilização internacional de um código de designação da variedade do mundo vivo. Os biólogos tendem a ser muito aborrecidos e ciosos sobre os detalhes dos nomes, dizendo que o nome genérico se escreve com maiúscula e o designativo específico em minúsculas, ou referindo um erro qualquer numa letra a mais ou a menos – e alguns nomes são complicados, como Luscinia megarhynchos, o rouxinol – porque a identificação inequívoca de uma espécie é fundamental. A latinização dos nomes era óbvia: tratava-se de superar as barreiras linguísticas de cada nação de naturalistas.

A proposta de Lineu teve o grande mérito de garantir a sistematização da informação recolhida por muitos naturalistas, que, até então, não utilizavam critérios uniformes, o que dificultava enormemente a troca de informação entre eles. Assim, a acumulação de informação que se realizou nos séculos seguintes deve muito ao trabalho de sistematização desenvolvido por Lineu. E não deixa de ser significativo que o sistema binomial de nomes científicos se tenha mantido inalterado até hoje, mais de 250 anos depois.

Mas, Lineu fez muito mais do que limitar-se a propor um sistema de classificação. Foi um esforçado naturalista, que designou e descreveu cerca de 4400 espécies animais e 7700 espécies vegetais. Realizou inúmeras expedições científicas, nomeadamente a sua famosa viagem à Lapónia e incentivou e estimulou muitos outros naturalistas e curiosos a realizarem expedições com vista a um melhor conhecimento da natureza, mantendo com eles uma correspondência regular e sistematizando toda a informação que lhe era enviada. Manteve um grupo extenso de colaboradores que realizaram recolhas para essa monumental e enciclopédica tarefa. Algumas das suas obras mais importantes foram: Systema Naturae (10ª ed, 1758), Genera Plantarum (1737), Species Plantarum (1753), Hortus Cliffortianus (1737), Flora Laponica (1737), Fauna Svecica (1746), Systema Vegetabilium (1774).

Um dos seus correspondentes foi Domingos Vandelli, primeiro director do Gabinete de História Natural e do Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra que adoptou o sistema de classificação de Lineu para sistematizar o seu gabinete de história natural. Podemos observar hoje no edifício do Laboratorio, onde se encontra o Museu da Ciência, um conjunto de sete potes com as designações sistemáticas de classes de plantas propostas por Lineu, mandados construiu por Vandelli. A classificação proposta por Lineu incluía 24 classes, com designações como Monândria, ou Tetradynamia, ou Diadelphia, que se baseava na configuração das partes reprodutoras das plantas, particularmente da posição e número dos estames - a parte masculina. Deste modo, Tetradynamia significava 4 estames longos e dois curtos.

Na realidade o sistema de classificação das plantas acabou por ser abandonado. Mas, teve o mérito de apontar para uma parte relevante da sua classificação que tem a ver com a configuração dos órgãos reprodutores. O ‘sistema sexual’ proposto por Lineu usava extensivamente a metáfora. Ele concebeu o Reino vegetal como o templo da deusa Flora, sendo a flor um casamento de maridos e mulheres em grande liberdade. Deste modo Monandria corresponde a ‘um marido num casamento’, enquanto que Polyandria ‘a vinte maridos ou mais na mesma cama com a mulher’. As exposições de Lineu divertiram uns e escandalizaram outros dos seus contemporâneos.

Lineu, que tinha uma verdadeira obsessão pela ordem, propôs níveis taxonómicos superiores para agrupar os organismos. Além da Espécie e do Género, propôs a Ordem, a Classe e o Reino, níveis taxonómicos que ainda hoje se utilizam, complementados por outros entretanto propostos como o Filo ou a família.

O fantástico trabalho de sistematização de Lineu tinha por base uma lógica de organizar e sistematizar o mundo vivo. Mas, as classificações eram assumidamente arbitrárias. Hoje a nossa interpretação da classificação taxonómica é diferente. O maior parentesco entre as espécies reflecte a sua história evolutiva passada e a partilha de antepassados num dado momento da história da vida no planeta. Por isso, desde 1859, é muito mais fácil decidir da classificação dos organismos, por o critério ser o da sua evolução e não um critério mais ou menos arbitrário. Com o advento da biologia molecular passámos a poder ler directamente o código de instruções de produção de um organismo. E, naturalmente, organismos mais próximos evolutivamente partilham mais instruções. Por exemplo, nós partilhamos cerca de 98% desse código com os chimpanzés, os nossos parentes vivos mais próximos. A análise de sequências do DNA permite actualmente abrir uma janela sobre o passado evolutivo das espécies que os taxonomistas não imaginavam possível há 50 anos atrás.

E as descobertas neste domínio vão continuar.

Por outro lado, o trabalho de classificação e identificação das espécies é fundamental para avaliarmos o que está a acontecer à biodiversidade no planeta. Devido à fragmentação de habitats e à sua destruição estamos a assistir à maior extinção em massa dos últimos milhões de anos. Um estudo publicado na Nature em 2004 estima que, sob efeito do aquecimento global do planeta, entre 15 e 37% de todas as espécies existentes actualmente estarão extintas por volta de 2050, dependendo da sua capacidade de se deslocarem!

Aproveitando os 300 anos do nascimento de Lineu, importa que desenvolvamos acções para limitar a catástrofe.

Vale a pena ler

Título: Como Havemos de Viver?
Autor: Peter Singer
Tradução: Fátima St. Aubyn
Editor: Dinalivro, 2006, 424 pp.

Qual é o sentido da vida? Numa prosa clara e elegante, o filósofo australiano Peter Singer (Universidade de Princeton), responsável pela revitalização da ética aplicada, discute nesta obra a ausência de sentido que a vida moderna por vezes parece encerrar, e propõe uma alternativa ética para uma vida plena de sentido. Discutindo o mito de Sísifo, a estratégia de pagar na mesma moeda de Axelrod, o mundo moderno da alta finança e muitos outros temas, é um livro fundamental para quem quiser conhecer melhor o alcance prático da melhor filosofia contemporânea.

COIMBRA E A GÉNESE DA CIÊNCIA MODERNA 3


Texto, em colaboração com Décio Ruivo Martins, na sequência dos anteriores. Chegámos agora à época do Marquês de Pombal...

A época pombalina

O Laboratório Químico, o Gabinete de Física Experimental, o Museu de História Natural, o Jardim Botânico e o Observatório Astronómico foram, todos eles, criados no âmbito da reforma dos estudos de ciências realizada em 1772 por ordem do Marquês de Pombal. Esse governante, que tinha apreendido a cultura europeia quando foi diplomata em Londres e Viena, tornou-se em 1750 o poderoso primeiro-ministro do rei D. José I, tendo dirigido a reconstrução de Lisboa após o grande terramoto de Lisboa de 1755 (que tanto impressionou os maiores espíritos europeus, como Voltaire, Kant e Rousseau).

A reforma pombalina das ciências procurou fazer chegar a ciência moderna à Universidade, onde ela tinha tido alguma dificuldade em chegar e em permanecer. As ideias de Galileu e Newton, alicerçadas no método experimental, vieram a influenciar todo o século XVIII, o século das luzes. Um aspecto renovador, iniciado em Inglaterra no princípio do século XVIII, foi o ensino da Física Experimental. Instalaram-se gabinetes de Física Experimental nas mais prestigiadas universidades europeias, o que exigiu novos instrumentos. Por isso, logo nas primeiras décadas do século surgiram na Europa oficinas que produziram os instrumentos didácticos necessários para a Física Experimental. Quanto à Química, herdeira da antiga alquimia (hoje sabe-se que Newton foi um alquimista secreto) só no final do século XVIII havia de conhecer o lugar adequado para a investigação e ensino – o laboratório, um espaço equipado com meios de aquecimento e com utensílios de vidro e de cerâmica.

Apesar de todas as resistências internas, durante o século XVIII foi possível acompanhar-se entre nós o que se passava nos mais importantes centros da cultura europeia. Tal deveu-se, em grande parte, a acção de portugueses – os chamados “estrangeirados” – que, lá fora, contactavam e absorviam as novas correntes do pensamento e as novas práticas.

Newton, que morreu em 1727, foi pessoalmente conhecido por vários portugueses que passaram por Londres no final do século XVII e início do século XVIII. Numa sessão da Royal Society em 1724, presidida por Newton, foram lidas as primeiras comunicações de observações astronómicas realizadas em Lisboa no Paço Real pelos jesuítas italianos Giovanni Carbone e Domenico Capassi.

A difusão da filosofia newtoniana em Portugal deveu-se, em boa parte, ao exílio do judeu Jacob de Castro Sarmento para Inglaterra. Para fugir à Inquisição, em 1721, Sarmento, que tinha estudado Medicina na Universidade de Coimbra, fixou se em Londres, mantendo, no entanto, uma importante influência em Portugal. Ele foi um dos “estrangeirados”, portugueses notáveis que emigraram por razões de perseguição religiosa, política ou intelectual e lá fora assimilaram a cultura europeia. Sarmento, doutor pela Universidade de Aberdeen, na Escócia, entrou na Royal Society em 1730. A primeira tradução portuguesa de Newton foi feita por Sarmento: Teoria verdadeira das marés, conforme à Filosofia do incomparável cavalheiro Isaac Newton, publicada em Londres em 1737.

Outro “estrangeirado” que exerceu uma notável influência no desenvolvimento português no século XVIII foi João Jacinto de Magalhães (o nome denota a sua descendência do navegador Fernão de Magalhães), que estudou no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Depois de ter deixado Portugal em 1756, viveu em França antes de se fixar definitivamente em Londres em 1764. Magalhães foi muito claro ao declarar que não queria mais viver sob um governo que não assegurasse a liberdade pessoal. Em Inglaterra colaborou e manteve correspondência com os cientistas europeus mais notáveis da sua época. Além disso, promoveu em todo o continente europeu instrumentos científicos feitos em Inglaterra. O prestígio científico de Magalhães estendeu se a toda a Europa, desde Lisboa a São Petersburgo, tendo mesmo chegado aos Estados Unidos. Magalhães foi membro ou sócio correspondente de várias sociedades científicas, entre as quais a Academia das Ciências de Lisboa, a Academia Real das Ciências – em Bruxelas, a Academia das Ciências – em Paris, a Academia Imperial de Ciências de São Petersburgo, a Academia das Ciências – em Berlim, a Sociedade Filosófica Americana – em Filadélfia, e a já referida Sociedade Real (Royal Society) – em Londres. Colaborou com a coroa portuguesa, enviando colecções de instrumentos de astronomia, física, náutica, etc., cuja construção ele próprio supervisionava. Para Coimbra, Magalhães enviou um conjunto de instrumentos de Física e de Astronomia, alguns com melhoramentos técnicos da sua autoria.

Os Jesuítas e os Oratorianos


Três escolas dos Jesuítas – o Colégio de Santo Antão, em Lisboa, o Colégio das Artes, em Coimbra e a Universidade de Évora – foram no século XVIII referências maiores no ensino das ciências exactas e naturais entre nós. Contudo, os documentos relativos à Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra de 1772 expressaram opiniões muito críticas em relação à qualidade do ensino dessas ciências em Portugal antes dessa data. A actividade pedagógica e científica que antecedeu a reforma foi violentamente criticada, tendo os Jesuítas sido acusados de ignorância das correntes de pensamento científico que então dominavam a cultura europeia. Foram acima de tudo responsabilizados por promoverem uma pedagogia escolástica centrada em Aristóteles (Coimbra foi uma das sedes de um movimento filosófico ibérico, baseado nas ideias da Contra Reforma, e que ficou conhecido por “Conimbricenses”). Com efeito, os Estatutos Universitários pelos quais se regia o Colégio das Artes de Coimbra impunham a meio do século XVIII que se seguisse Aristóteles. Os Estatutos Pombalinos chegaram mesmo a considerar miserável o ensino das ciências nesse Colégio. Criticaram sobretudo o facto de a aquisição de conhecimentos ser literária e não experimental.

Um argumento utilizado para afirmar que, em Portugal, antes da Reforma Pombalina, se vivia um ambiente de estagnação científica foi o facto de as obras de Galileu, Descartes, Newton e outros se encontrarem oficialmente e a meio do século XVIII interditas ao ensino no Colégio das Artes de Coimbra. Com efeito, um edital do Reitor do Colégio das Artes de 1746, decretava esta proibição, que indicava um atraso significativo relativamente ao desenvolvimento científico na Europa.

Uma excepção a esta regra foi decerto a acção em Coimbra do jesuíta Inácio Monteiro. Mas Monteiro foi preso às ordens de Pombal em 1759 e desterrado para Ferrara, Itália, em cuja universidade desenvolveu actividade científica e pedagógica de mérito. Tornou-se, como outros, um ”estrangeirado”.

Mas, apesar das críticas feitas no tempo da Reforma ao estado do ensino das ciências, a primeira metade do século XVIII ficou assinalada em Portugal por um grande impulso nos estudos astronómicos. Foi durante o reinado de D. João V – que começou em 1706 – que foram construídas a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, uma jóia qrquitectónica que contém várias obras de ciências, e a Torre da Universidade, cujo terraço serviu para observar os astros, e que se importaram instrumentos para observações astronómicas. Este rei ganhou o gosto pelas ciências exactas, cujo desenvolvimento fomentou. O apoio dado à criação do Gabinete de Física Experimental da Casa das Necessidades em Lisboa é apenas um exemplo, entre vários, do interesse da coroa pelas ciências físico-matemáticas.


A Casa das Necessidades foi ocupada pela Congregação do Oratório. Esta Congregação, que desde o seu início se interessou pela instrução religiosa e literária da juventude, tinha sido fundada em Roma, por S. Filipe Neri, em 1565. Em Portugal começou por se instalar em Lisboa no Chiado em 1667. Em 1745 o edifício do então chamado Hospício da Nossa Senhora das Necessidades (onde é hoje o Ministério dos Negócios Estrangeiros) foi doado à Congregação do Oratório. Na Casa das Necessidades houve uma actividade pedagógica regular entre 1750 e 1768. Contudo, o Marquês de Pombal, depois de começar por aceitar a actividade da Congregação do Oratório, em substituição da dos jesuítas expulsos em 1759, procurou extingui-los, com o pretexto de que ensinavam doutrinas perniciosas à mocidade. Assim, a Casa das Necessidades foi encerrada, só reabrindo em 1777, quando D. José I morreu e o Marquês de Pombal se viu obrigado a fugir da capital.

A actividade de alguns membros da Congregação do Oratório foi essencial para renovar a mentalidade pedagógica portuguesa, ainda na primeira metade do século XVIII. Sobressaem dois dos seus padres: Teodoro de Almeida e João Chevalier.

Teodoro de Almeida deu um contributo notável para a renovação da cultura científica não só em Portugal como em Espanha. A sua atitude reformista viria, no entanto, a ser fortemente combatida pelos meios mais conservadores da cultura portuguesa, particularmente por alguns membros da Companhia de Jesus, tendo mesmo sido acusado de heresia. O seu livro Recreação Filosófica ou Diálogo sobre a Filosofia Natural, cujo primeiro tomo foi publicado em 1751, revela a existência em Portugal na época de um ensino actualizado. E revela também a preocupação com a divulgação da ciência. A actividade pedagógica e científica de Almeida entre 1745 e 1760 antecipou em cerca de um quarto de século a renovação do ensino verificada em Coimbra com a Reforma Pombalina em 1772. Muitos aspectos que viriam a ser contemplados com a criação do Gabinete de Física Experimental em Coimbra eram já preocupação de Teodoro de Almeida no início da década de 1750.

No Colégio dos Oratorianos a prática das metodologias experimentais atingiu padrões de qualidade internacional. Alguns autores da época referiram se de uma forma muito elogiosa à qualidade e da quantidade dos instrumentos com que estava equipado o Gabinete de Física da Casa das Necessidades, que serviu para instrução e recreação do Rei. Mas não se sabe hoje o que aconteceu a esse espólio...

Alvo das perseguições pombalinas, Almeida foi obrigado a exilar-se. Em 1760 desterrou-se para o Porto, vendo se de novo obrigado a fugir, passados oito anos, desta vez para Espanha e daí para França, só regressando a Portugal em 1778. Em França correspondeu-se com um outro “estrangeirado”, António Ribeiro Sanches, de origem judaica que foi médico de Catarina II na corte russa assim como um dos inspiradores da reforma pombalina das ciências. Continuou no exílio a desenvolver uma grande influência na cultura portuguesa. Publicou em 1784 uma obra em três tomos intitulada Cartas Físico matemáticas de Teodósio a Eugénio e em 1785 as Institutiones Physicae ad usum Scholarum. Teodoro de Almeida foi sócio fundador da Real Academia das Ciências de Lisboa, em 1779, que surgiu na sequência da criação de instituições análogas nas principais capitais europeias. Aí protagonizou uma actividade considerável até falecer em 1804.

Por seu lado, João Chevalier, astrónomo e matemático que era sobrinho de um dos grandes pedagogos do Iluminismo português – o “estrangeirado” em Roma, Luís António Verney, autor de uma obra de referência na história do ensino em Portugal, intitulada Verdadeiro Método de Estudar (1746) – viu o seu trabalho em Portugal severamente restringido, tendo sido mais uma vítima do regime de Pombal nos primeiros anos da década de sessenta.

Chevalier foi um dos mais notáveis astrónomos dos Oratorianos, destacando-se as observações que realizou na Casa das Necessidades entre 1753 e 1757. A meio do século XVIII a actividade na área da astronomia de Chevalier prevaleceu sobre a de todos os portugueses seus contemporâneos. Tornou se correspondente do astrónomo francês Joseph-Nicholas De l’Isle, enviando para Paris as observações feitas em Portugal. Realizou observações de eclipses da Lua, do Sol, dos satélites de Júpiter e da passagem de Mercúrio sobre o disco solar. Em 1759 Chevalier comunicou a observação de um cometa de cauda pouco comprida mas larga. Esta observação foi enviada a De l’Isle e a outros astrónomos de Paris, tendo sido apresentada na Academia das Ciências de Paris. Tratava se do cometa Halley, cujo regresso tinha sido previsto pelo astrónomo inglês Edmond Halley, contemporâneo de Newton, em 1705, para 53 anos mais tarde. Halley tinha estudado as aparições de cometas em várias épocas e, baseado na teoria newtoniana, previu que um cometa avistado em 1682 deveria voltar a aparecer em 1758. Efectivamente o cometa só apareceu pouco tempo depois das previsões de Halley, pois este não tinha considerado a influência de Júpiter e Saturno no seu movimento. O cometa acabou por ser observado pelo astrónomo amador alemão Johann Georg Palitzsch na noite de 26 para 27 de Dezembro de 1758. O francês Charles Messier, que se tornou famoso pela descoberta de 20 cometas, só o observou em Janeiro de 1759. Os trabalhos de Chevalier mereceram-lhe a nomeação em 1753 como sócio correspondente da Academia de Ciências de Paris, tendo para o efeito valido o apoio de Ribeiro Sanches e do francês Georges Buffon.

Em consequência da perseguição pombalina, Chevalier teve que se refugiar no Norte de Portugal, em 1760. Passado um ano abandonou o país, fixando se em Bruxelas, onde viria a ser bibliotecário da Biblioteca Real. Numa reunião em 1769 da sociedade literária que haveria de originar em 1772 a Academia Imperial e Real das Ciências e Letras de Bruxelas, Chevalier foi admitido como membro. Foi nomeado director da Academia em 1791, tendo sido três anos depois reeleito. Chevalier faleceu em Viena, depois de uma invasão francesa o ter obrigado a abandonar a Bélgica.

INTEGRIDADE NA INVESTIGAÇÃO


Informação recebida do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

ESF World Conferences
ESF-ORI First World Conference on

RESEARCH INTEGRITY: FOSTERING RESPONSIBLE RESEARCH


A Portuguese European Union Presidency and European Commission Event Initiated and Organized by the European Science Foundation & the US Office of Research Integrity Conference Information

The European Science Foundation (ESF) and the US Department of Health and Human Services Office of Research Integrity (ORI) are organising a World Conference on Research Integrity in Lisbon, Portugal to take place on 16 to 19 September 2007 at the premises of the Calouste Gulbenkian Foundation.

The Research Integrity World Conference is supported by the European Commission and hosted by the Portuguese Ministry for Science, Technology and Higher Education (MCTES), through the Portuguese Foundation for Science (FCT) and the Gabinete de Relações Internacionais da Ciência e do Ensino Superior (GRICES) in collaboration with the Calouste Gulbenkian Foundation (FCG), as part of the forthcoming EU Portuguese Presidency.

The ESF and ORI are working together as co-organisers for this event, in partnership with the International Council of Science (ICSU) and NATO and with additional financial support from the European Molecular Biology Organization (EMBO), the UK Research Integrity Office and the Committee on Publication Ethics (COPE). The support from ICSU and NATO will be in the form of travel grants for some attendees from non-OECD countries and observer countries and from the NATO Partner Countries and Mediterranean Dialogue Countries respectively. There will also be some limited support available for younger researchers to attend.

There is a close link between the Conference and its Planning Committee with the parallel and linked activity of the OECD Global Science Forum on Research Misconduct. It is anticipated that many of the Global Science Forum participants will also take an active part in the Lisbon event and the draft report from this activity will be one of the inputs to the meeting.

Research Integrity has emerged in recent years as a critical topic in policy research and has gained significant political and public attention worldwide. To further world dialogue on this topic, the World Conference will focus attention on systemic and institutional issues, including organizational, governance and legal issues. A parallel activity by the OECD Global Science Forum (GSF) is studying governmental responses to the issue of research misconduct.

Research regulations and commonly accepted research practices vary significantly from country to country and among professional organisations. There is no common definition world-wide for research misconduct, conflict of interest or plagiarism. Even where there is general agreement on key elements of research behaviour, such as the need to restrict authorship to individuals who make substantive contributions to the research or to provide protection for research subjects, the policies that implement this agreement can vary widely from country to country and organization to organization. The research community worldwide has to address these problems in order to retain public confidence and to establish a clear best practice frameworks at an international level. It must do so at a time when there are increased pressures on governments, research institutions and research groups to deliver results against increasingly short timeframes, to which funding is coupled. The September 2007 Conference represents an initial effort to begin discussing and to establish a framework for continued discussion of research integrity on a global level.

The World Conference on Research Integrity is the first global forum convened to provide researchers, research administrators, research sponsors, journal editors, representatives from professional societies, policymakers, and others an opportunity to discuss strategies for harmonizing research misconduct policies and fostering responsible conduct in research.

The conference will take place in the presence of Professor José-Mariano Gago, Minister of Science, Technology and Higher Education, Portugal, and Janez Potočnik, European Commissioner for Research.

MATÉRIAS DE CIÊNCIA


Informação recebida do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

The First International Conference on

SCIENCE MATTERS: A Unified Perspective

Ericeira, Portugal, 28-30 May 2007

Aims of Conference

All earnest and honest human quests for knowledge are efforts to understand nature, which includes all human and nonhuman systems, the objects of study in science. Thus, broadly speaking, these quests (as well as the systems being studied) are science matters. The methods and tools used may be different; for example, the literary people use mainly their bodily sensors and their brain as the information processor, while natural scientists may use, in addition, measuring instruments and computers. Yet, all these activities could be viewed in a unified perspective­they are scientific developments at varying stages of maturity and have a lot to learn from each other. In this conference, we invite experts from different disciplines worldwide to share their experience and outlooks, and hopefully plan the future together.

Many of the topics included in this conference are under the name of science and culture, science and art, science and society, etc. We do not think these descriptions are useful. For example, by saying “science and culture,” it implies that science and culture are two different things, which could be opposing each other. Instead, we view them as different aspects of the same thing the effort to understand nature, and a new word “science matters” is called for.


Invited Speakers:

Leonor Béltran (Portugal), The Nature of Dance

Paulo Borges (Portugal), Meditation & Science of Mind

Maria Burguete (Portugal), History & Philosophy of Contemporary
Chemistry

Paul Caro (France),Culture Through Science: A New World
of Images and Stories

Clara Pinto Correia (Portugal), Biology: Manipulation of Scientific
Information

Alfredo Dinis (Portugal), Have the neurosciences any theological consequences?

Isabel Empis (Portugal), Psychology & Life Quality

Gilbert Fayl (Belgium), Policy Fallacy: Stop Talking,Do It

Bernardo Herold (Portugal), Science & society

Brigitte Hoppe (Germany), Judging by the appearance of the
essential properties of natural body – the role of physiognomy in science and art

Lui Lam (USA), Histophysics: Merging history with physics

Daguang Li (China), Science Communication in China

Bing Liu (China), Philosophy of Science and Chinese Sciences: The Multicultural View of Science and Its Unified Ontological Model)

Dun Liu (China), The History of Science in Globalizing Time

Edgar Morin (France), Did a scientific revolution begin?

João Arriscado Nunes (Portugal), Unified science or ecologies of practices?

Maurizio Salvi (Italy), Science & ethics

Nigel Sanitt (UK), The Tripod of Science: Communication, Philosophy and Education

Michael Shermer (USA), The Science of Good and Evil


Cochairs:

Maria Burguete (Portugal), Email: mariaburguete@gmail.com

Lui Lam (USA)


Further Information: http://www.ces.uc.pt/science_matters_meeting/index.html

COSMOLOGIA NEWTONIANA


Informação recebida do Observatório Astronómico de Lisboa e Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa


PALESTRA PÚBLICA - 25 DE MAIO

Cosmologia Newtoniana

O OAL retomou as suas Palestras públicas mensais, que como habitualmente têm lugar no Edifício Central, pelas 21h30 da última sexta-feira de cada mês.

A próxima sessão decorrerá no dia 25 de Maio e terá como tema:

Cosmologia Newtoniana

Prof. José Félix Costa

IST / CMAF / CFCUL

Com o progresso rápido dos instrumentos da análise matemática, tornou-se possível, no tempo de Euler, construir uma mecânica newtoniana do meio contínuo, a tal formalização que faltara [a Descartes e] a Leibniz para descrever o seu fluido-universo.

Adicionando um meta-axioma à Teoria de Newton, Milne e McCrea, entre outros, em meados do século XX, restauraram o sonho de Leibniz ao construir uma cosmologia newtoniana, recorrendo aos mesmos princípios e simetrias que estão na base da cosmologia relativista.

Construídas em bases epistemológicas distintas, as cosmologias newtoniana e relativista conduzem a resultados idênticos para a estrutura em larga escala do universo.

Uma enorme vantagem da cosmologia newtoniana é permitir a discussão de uma cosmologia moderna numa base matemática acessível! Pretende-se mostrar este facto.

Nesta palestra, referiremos (a) a lei de Hubble como consequência lógica da cosmologia newtoniana, (b) como as soluções de Friedmann são exactamente as soluções da dinâmica do universo newtoniano, (c) que existe um valor crítico de densidade de matéria que permite decidir entre os tipos de universo. Por fim, discutiremos por que razão os dois formalismos (tão díspares como os de um universo parmenidiano e de um universo newtoniano) - Einstein versus Newton - podem conduzir a resultados observacionais semelhantes do Universo.

A palestra terá videodifusão ao vivo na internet no endereço
http://live.fccn.pt/oal/

A entrada na Tapada da Ajuda faz-se pelo portão da Calçada da Tapada, em frente ao Instituto Superior de Agronomia.

No final de cada palestra, e caso o estado do tempo o permita, fazem-se observações dos corpos celestes com telescópio. Nesta noite os corpos celestes alvo serão o planeta Saturno e a Lua.
Convida-se o público a trazer os seus binóculos ou mesmo pequenos telescópios caso queiram realizar as suas próprias observações ou ser ajudados com o seu funcionamento.

Para mais informações use o telefone 213616730.

Homens da ressurreição

Desde que escrevi o post «Dawkins e as más companhias» que procuro um termo menos problemático para substituir o acrónimo com que referi desde sempre os proponentes do anacrónico Desenho Inteligente. Partilhei o meu dilema linguístico com a bióloga da família que me sugeriu para inspiração o último livro de Philip Kitcher, um filósofo cujo trabalho em filosofia da ciência lhe mereceu o primeiro prémio Prometheus da American Philosophical Association

Rendi-me ao livro às primeiras páginas. «Living with Darwin», que trata igualmente das relações entre fé e ciência, é leitura indispensável para os que queiram desmontar os maus argumentos de todos os homens da ressurreição (um trocadilho com homens da renascença a que não resisti). No último capítulo Kitcher aborda o tema religião de uma forma mais suave que, por exemplo, Sam Harris, Richard Dawkins ou mesmo Daniel Dennett, mas quiçá igualmente inflamatória.

Deixo aos nossos leitores as apreciações do livro de um cientista ateu e de um teólogo liberal.

«Kitcher apresenta a combinação certa de talento filosófico e conhecimento biológico e uma escrita fabulosamente lúcida para abordar o problema espinhoso que o criacionismo constitui. No Living With Darwin, ele mostra claramente que a batalha persistente entre evolução e criacionismo na América faz parte de uma guerra mais vasta - uma guerra entre superstição e racionalidade. A sua análise do conflito e as sugestões para a sua resolução, devem ser lidas por todos os que se preocupam com a relação entre ciência e fé». Jerry Coyne, Universidade de Chicago.

«Uma análise forte e provocatória do conflito histórico entre Darwin e o cristianismo ocidental. O livro de Kitcher levanta questões com as quais os cristãos se devem debater: pode existir um cristianismo sem sobrenaturalismo? Deus sem teísmo? Um Cristo que não é a encarnação de uma divindade sobrenatural e teísta? Eu penso que pode e por isso dou as boas vindas com entusiasmo a este livro» John Shelby Spong, autor do livro «A New Christianity for a New World».

HERBÁRIO VIRTUAL

Inaugura versão virtual do maior herbário português
"Campeão das Províncias", Geraldo Barros, 21-Mai-2007


O Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra acaba de lançar na Internet a versão virtual do seu herbário. Aqui ( http://herbario-digital.bot.uc.pt ) é possível aceder à colecção do Herbário de Coimbra, a maior do país e a segunda da Península Ibérica, composta por um acervo que ultrapassa os 700 mil exemplares.

Com esta iniciativa a FCTUC associa-se às comemorações do Dia Mundial da Biodiversidade e do legado de Lineu (1707-1778), cujo nascimento se assinala no dia 23 de Maio.

Financiado pelo Programa Sociedade do Conhecimento, o herbário digital é um projecto que visa, de acordo com a professora Fátima Sales, “não só a disponibilização gratuita a nível mundial de informação contida nesta colecção biológica, mas ainda intervir com qualidade e em português, com a diferença que o estatuto de investigação universitária a ele associado lhe permite, na educação científica na área da Botânica associada à diversidade”.

OS CEM ANOS DE HERGÉ


Hoje, dia 22 de Maio de 2007, comemora-se o centenário do nascimento de Hergé, o autor de Tintim. No álbum "A Estrela Misteriosa", que apareceu pela primeira vez em 1942, há uma expedição de cientistas europeus, onde participa o físico da Universidade de Coimbra João Pedro dos Santos...

terça-feira, 22 de maio de 2007

A importância de ser vitriólico

O ácido sulfúrico é uma substância de elevada viscosidade cujo aspecto oleoso lhe mereceu o nome Zayt al-Zaj, óleo de vitríolo, por parte do seu mais provável descobridor, Jābir ibn Hayyān ou Geber.

Alguns autores atribuem a descoberta do ácido sulfúrico a Abu Bakr Muhammad ibn Zakaryya al-Razi (866-925), Rahzes em latim, nascido na cidade de Ray ou Rhagae. al-Razi escreveu 21 livros de alquimia, dos quais o mais conhecido é o Kitab Sirr al-Asrar (Livro do Segredo dos Segredos) onde o filósofo ou Hakim - que escrevia abertamente sobre os truques dos profetas, a sua descrença em milagres e que pregava contra os malefícios das religiões - discorre sobre os equipamentos e as substâncias utilizadas na alquimia. Outro dos seus tratados de alquimia, traduzido para latim como Liber Experimentorum, marcava claramente o aspecto experimental da alquimia, despindo-a da componente mística característica da escola de Alexandria.

Rhazes é mais conhecido pelas suas contribuições médicas já que se debruçou sobre quase todos os aspectos da medicina. Entre os numerosos tratados médicos que escreveu, que incluem a primeira descrição da varíola, De Variolis et Morbillis, o mais importante foi al-Hawi, traduzido para latim como Liber continens, «O Livro Compreensivo», uma enciclopédia médica de 20 volumes, dos quais 10 sobreviveram. Os seus escritos são fulcrais para o desenvolvimento da ciência em geral, e da medicina em particular, área em que a sua contribuição só empalidece para Abu Ali al-Husayn ibn Abd Allah Ibn Sina ou Avicena (980-1037).

O ácido inorgânico descoberto por um alquimista no século VIII é actualmente o produto químico mais produzido no mundo (em termos de massa, em número de moléculas perde para a amónia). Praticamente todos os produtos manufacturados entraram em contacto com H2SO4 em algum estágio da sua produção a tal ponto que até há bem pouco tempo o grau de industrialização de um país era medido pela produção anual de ácido sulfúrico. Hoje em dia é a produção de fertilizantes a principal utilização de ácido sulfúrico, progressivamente substituido na produção de aço por outro ácido mineral descoberto por Geber, o ácido clorídrico, pelo que a sua produção passou a ser uma medida da actividade agrícola de um país.

Até ao século XVII, quando Johann Glauber preparou ácido sulfúrico queimando enxofre com salitre (nitrato de potássio, KNO3) na presença de vapor de água, a produção de ácido sulfúrico permaneceu a preconizada pelos alquimistas árabes: a «destilação» seca de sulfatos sortidos, nomeadamente vitríolo verde ou sulfato ferroso (FeSO4.7H2O) e vitríolo azul, sulfato de cobre (CuSO4.5H2O).

A síntese de Glauber, aperfeiçoada por vários químicos, entre eles Gay-Lussac, foi utilizada até ao século XIX. Em 1831 um comerciante britânico de vinagre, Peregrine Phillips, patenteou um processo novo de produção de ácido sulfúrico que, embora só tenha sido extensivamente utilizado a partir de finais do século XIX, dominou a produção deste composto a partir de meados do século XX. Actualmente o ácido sulfúrico é essencialmente produzido de forma «verde», isto é, recuperando sub-produtos e resíduos de indústrias outrora muito poluentes.

Como nota de curiosidade, algumas lesmas do mar produzem ácido sulfúrico para afastar possíveis predadores. De facto, os nudibrânquios - literalmente, guelras ou brânquias nuas -, presentes em todos os oceanos e em praticamente todos os habitats marinhos, são especialistas em guerra química, recorrendo a um vasto arsenal de compostos como defesa contra predadores esfomeados. Enquanto algumas espécies produzem ácidos, outras segregam toxinas poderosas e outras ainda, os eolídeos, utilizam as armas químicas das espécies que lhes servem de alimento, os celenterados de outrora agora divididos em dois filos - Cnidaria e Ctenophora -, especialmente hidróides e anémonas-do-mar. Os cnidários produzem nematocistos, túbulos urticantes que injectam uma toxina pouco simpática, como o sabe quem já tenha tido o azar de entrar em contacto com alforrecas. Os eolídios neutralizam os nematocistos «maduros» das suas presas e utilizam os restantes como armas, concentrando-os nos ceratos. Em outra espécie, a Dollabela aulicolaria, foram descobertas as dolastatinas, das quais a dolastatina 10 se revelou um eficaz anti-cancerígeno. Para saber mais sobre estes gastrópodes coloridos pode visitar esta página.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...