segunda-feira, 2 de maio de 2011

Reuniões de bolseiros


Informação recebida da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC)

Durante as próximas duas semanas, a Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) irá realizar nos diversos institutos e cidades do país reuniões de Bolseiros de Investigação.

Estas reuniões servirão para ouvir os problemas dos bolseiros nos seus institutos, recolher contributos para a acção da ABIC a nível institucional e reivindicativo e preparar o fotoprotesto que terá lugar até ao dia 13 de Maio por todo o país.

Estas iniciativas têm ainda como objectivo o recrutamento de sócios para ABIC e a sensibilização dos partidos políticos candidatos às eleições legislativas para os problemas dos bolseiros de investigação.

Reuniões da ABIC a nível nacional já agendadas:

Porto - 5 de Maio na FEUP;
Oeiras - 4 de Maio no ITQB (entre as 13-14.30h)
Coimbra - 5 de Maio no auditório do CES às 18h
ICS e ISCTE - 5 de Maio, 16h, Sala C407 (Edifício II Iscte)
IST - 6 de Maio (sala V1.14, Pavilhão de Civil)

Passa a palavra. Participa nas sessões de esclarecimento e divulga o FotoProtesto 2011.

Votos de bom trabalho,

A Direcção da ABIC

--
Direcção da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC)
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Para se tornar associado

Esperanças bombásticas...

a supernova Tycho Brache aos olhos do telescópio espacial Chandra


A minha crónica semanal no jornal i

11 DE NOVEMBRO DE 1572. Início da noite. O que o notável astrónomo Tycho Brahe viu iria transformar a sua vida, mas também a compreensão sobre o grande mistério dos céus. Com 25 anos na altura, foi um privilegiado espectador de um evento raríssimo: a explosão de uma estrela! Na altura, pensava-se que no Reino dos Ceús tudo é perfeito, mecânico, ordeiro. O espalhafatoso aparecimento de um grande e brilhante ponto no céu desafiava toda a filosofia de Aristóteles. E Brahe desconfiou que alguém ou algo estava errado! A astronomia moderna diz-nos que o que Bache presenciou chama-se "supernova" e que se trata do último suspiro da vida de uma estrela massiva ou, então, quando num sistema binário, uma das estrelas suga matéria da companheira até chegar à autodestruição. E, especulava-se, teria sido este último caso o que aconteceu na supernova de Brahe. Mas, então, o que aconteceu à "estrela sugada"? Sobreviveu à dantesca explosão? Recentemente, o telescópio espacial Chandra descobriu um "pedaço de fumo a sair da pistola"! Escondido nas ondas de choque, detectou-se material da estrela sobrevivente! Pele de um arranhão, digamos. E eis um belo exercício de desconstrução científica: os astrónomos conseguiram descobrir que o período orbital dessas duas estrelas seria de cinco dias e estavam separadas por um valor inferior a um décimo da distância Terra-Sol. Eis uma mensagem de esperança: mesmo a mais bombástica das explosões deixa sobreviventes!

CONTAS DE MERCEEIRO

Começo a preocupar-me deveras com um país em que as finanças parecem administradas numa espécie de contabilidade de merceeiro que se preocupa com o dinheiro entrado nas gavetas do balcão e se despreocupa com o dinheiro que delas sai.

E porque, segundo, Henri Bergson, “não existe cómico fora do que é propriamente humano”, a estas contas de merceeiros prefiro os cálculos feitos por economistas com uma boa mochila de conhecimentos da matéria com que lidam no seu dia-a-dia profissional. Pese embora o conceito irónico, que paira sobre esta profissão de exigentes estudos universitários, quando define o economista como o indivíduo que leva metade do tempo a dizer-nos o que vai acontecer e outra metade a dizer-nos por que é que não aconteceu!

Mas o tempo de crise económica e social que preocupa os cidadãos nacionais não está para cigarras que deixam o trabalho para as formigas como nos conta a fábula de Esopo, recriada por Jean de La Fontaine.No PEC IV, um nado-morto que persiste nas lágrima saudosistas de José Sócrates, constava, ao que se diz, que os subsídios de Natal e de férias era uma benesse para esquecer quando, na maioria das vezes, servem, apenas, para fazer compras úteis que a magra bolsa de ordenados mensais está longe de suportar.

Este facto, motivou da minha parte o parágrafo de prosa que transcrevo do meu post “Será que a política em Portugal não tem emenda?” (18/04/2011):

“Por outro lado, fala-se também em cortes no subsídio de férias e no subsídio de Natal (desconhecendo-se a percentagem desses cortes). Esta última medida, a acontecer, terá como consequência a falência de médios e pequenos estabelecimentos comerciais que sobrevivem à custa de balões de oxigénio das vendas natalícias, passando a recair sobre o já martirizado povo (que não usufrui rendimentos de economias paralelas), sobrecarregado por uma já tão pesada carga fiscal, o ónus de pagar os impostos, que, ipso facto, deixarão de ser cobrados pela fazenda pública. Aumentará, ademais, a taxa de desemprego, com particulares consequências na população jovem, de meia-idade ou, mesmo, mais idosa, aumentando a instabilidade socioprofissional que mina, de há tempos a esta parte, uma juventude de licenciados que é obrigada a ter que lamentar os seus estudos como um sacrifício vão para si e para o agregado familiar que os suportou”.

Nem de propósito, uma dúzia de dias depois, dou comigo a ler, num semanário de referência, um bem documentado artigo de opinião (a página inteira), intitulado “Programa para Portugal é mais vasto do que o da Grécia ou da Irlanda” (Expresso, 30/04/2011). Desse artigo, transcrevo este pequeno parágrafo:

“A subida do IVA é mesmo inevitável mas nada está ainda fechado quanto à eliminação total ou parcial dos subsídio de Natal e férias (ou o seu pagamento em títulos da dívida pública). As negociações ainda decorrem para que se encontrem medidas com efeitos semelhantes. Estas medidas foram aplicadas noutros países por terem efeito imediatos, mas quer o FMI quer a Comissão Europeia estão particularmente atentos aos efeitos colaterais que podem ter na economia".

Julgo que alguns destes efeitos colaterais estão bem expressos na análise por mim feita, três parágrafos acima, aos reflexos que esses cortes de subsídios podem trazer, a saber: 1. falência de pequenos e médios estabelecimentos comerciais; 2. fecho de pequenas e médias fábricas nacionais que os abastecem de mercadoria; 3. aumento acelerado da taxa de desemprego; 4. em consequência, diminuição substancial do caudal de impostos que entram nos cofres do Estado.

Para além de poder estar a pregar no deserto, corro, ainda, o risco de ser havido como sapateiro que foi além da chinela pintada por Apeles. Seja como for, encontro confortável arrimo nos versos de Irene Lisboa: “Mas assim me apetece, / que o entendam ou não, / que o admitam ou não, / escrever…”

Na imagem: livro de contas de merceeiro.

domingo, 1 de maio de 2011

Entrevista a um investigador da educação finlandês

Catarina Gomes, jornalista do Público, entrevistou Jouni Välijärvi (na fotografia ao lado, da autoria de Ricardo Silva), investigador em Educação na Finlândia.

Pelo interesse de que esta entrevista, publicada na edição de hoje do jornal, se reveste, transcrevemo-la integramente. Não para seguirmos o "modelo finlandês", como este investigador refere no final, mas para pensarmos no nosso.



Defende que um dos segredos do sucesso finlandês é a qualidade do ensino primário. Por que é que os professores da primária têm tanta popularidade? Tem muito a ver com a nossa história. A Finlândia só é independente há 100 anos e os professores primários eram colocados por todo o país para espalhar a identidade nacional. É umas razões que explicam uma popularidade tão alta. Ser professor primário é tão prestigiado como ser médico ou advogado: os pais querem que os filhos sejam professores primários e, quando perguntam aos miúdos que acabaram o secundário que carreira querem seguir, a profissão surge nos dois primeiros lugares. E muitos dos que têm essa ambição não a conseguem alcançar, porque é muito difícil entrar para o curso.

A popularidade estende-se aos professores do secundário? Depende das áreas. No secundário, muitas vezes ir para professor não é uma primeira escolha, é um recurso, e isso tem reflexos na motivação dos professores e na aprendizagem.

Por que é que ser professor primário é tão apelativo? Uma das coisas mais importantes é a autonomia, em que cada professor organiza o trabalho como entende, por isso a questão da avaliação é muito sensível. As aulas estão muito fechadas sobre si mesmas, o que é uma força do sistema mas também uma fraqueza. Mas o facto é que os pais confiam nos professores e nas escolas.

Na Finlândia, o ensino primário prolonga-se por seis anos, as crianças ficam durante este período com o mesmo professor. Isso é importante? Sim, é a base de tudo. Costuma ser um professor que trabalha com eles ao longo dos seis anos, mas há escolas que dividem os anos por dois professores e pode haver outros professores que ajudam nalgumas matérias, por exemplo, em Matemática ou Desporto. Fica ao critério da escola.

Os poucos chumbos que existem são na primária... Analisando os alunos do 9.º ano, constata-se que só 2,6 por cento chumbaram e a grande maioria foi na primária. É mais eficaz reter um aluno um ano no início do que este ter que repetir um ano mais tarde, porque é uma altura em que estão a ser dadas as bases. Os professores finlandeses têm expectativas muito altas em termos académicos, incluindo os primários, mais até do que noutros países nórdicos. Por exemplo, na Dinamarca o ensino está mais centrado no bem-estar e felicidade das crianças do que nos resultados académicos. O modelo finlandês mistura os dois factores, preocupa-se com a felicidade e com a parte cognitiva, o que se traduz na aquisição de certos níveis na Escrita, Leitura e Matemática, algo que também já é importante na pré-primária.

O que faz com que um professor seja bom?
Perguntámos isso a alunos e concluímos que é quando sentem que percebe do tema que ensina e também, e este aspecto é interessante, quando sentem que se interessa por eles e está disposto a ter conversas que lhes dizem algo e que não têm necessariamente a ver com a cadeira que lecciona.

Questões como a sexualidade?
Sim, mas também quando o professor os ajuda a escolher o caminho que vão seguir, que está disposto a discutir com eles o porquê das suas escolhas.

As escolas finlandesas têm turmas pequenas. Este poderá ser outro factor de sucesso? São pequenas e os professores defendem que devem ser ainda mais pequenas. Eu sou céptico em relação à utilidade de reduzir as turmas. Actualmente, na primária, em média, temos 21 alunos por turma, no secundário 19. Eu acho que não é possível chegar a um número óptimo, que a dimensão das turmas deve depender dos alunos, do que se ensina. Até porque ter turmas mais pequenas significa ter mais professores e isso implica aumentar gastos. Penso que o dinheiro pode ser usado para criar mais apoios de acordo com o contexto de cada escola: há escolas em que 15 por cento são imigrantes.

Uma das conclusões da OCDE é a de que pagar bem a professores resulta em melhores resultados, porque aumenta a sua motivação.
Até certo nível. O importante são as condições de trabalho como um todo, o salário é um sinal. O mais importante é os professores sentirem que, quando têm dificuldades, não estão sozinhos, o que não é o caso em muitos países.

A Finlândia é um dos países onde se passa menos tempo na escola
.Quando se está na escola está-se concentrado na escola, quando se sai vai-se fazer outras coisas, são tempos perfeitamente separados. Na Coreia [outro país bem classificado no PISA], os alunos levantam-se às 6h00 e voltam a casa às 21h00, e ainda têm que fazer trabalhos de casa. Para estes jovens, a escola e a educação são tudo na vida. Os finlandeses, entre tempo na escola e trabalhos de casa, passam um total de 30 horas por semana, face a 50 horas da Coreia.

Moral da história?
A forma como os países conseguem bons resultados é completamente diferente. Esse é o reverso da medalha destes estudos internacionais que incentivam a imitação. Os países podem aprender uns com os outros, mas tem que se ter muito cuidado em transplantar modelos.

As crianças não têm noção do que se está a passar aqui hoje

Contaram-me e depois li nos jornais: a Comissão Central da Queima das Fitas 2011 fez um apelo para que “os mais novos vestissem o traje académico de Coimbra”. Os mais novos eram crianças entre os três e os cinco anos que frequentam jardins-de-infância da região.

Trinta escolas responderam ao apelo e muitos encarregados de educação consentiram, talvez até com entusiasmo. Pelas contas a que tive acesso 1.043 crianças “transformaram-se em «doutores da cidade»” e integraram um longo do Primeiro Cortejo dos Pequenitos que, no dia 29 de Abril, desfilou durante horas pelas ruas, onde os outros «doutores», os verdadeiros, desfilarão daqui a poucos dias.

Muita gente se envolveu e foi ver: pais e mães, avós e avôs, educadores, estudantes da universidade, jornalistas e todos os que não faltam a uma animação deste género. A chuva desviou-se para outras bandas e só apareceu no fim do evento.

Tudo numa grande animação: “cartolas de todas as cores, bengalas, capas e batinas, foram os elementos que deram cor às crianças” – leio num jornal. Noutro leio “Os «finalistas» rodavam a bengala na cartola, os mais pequeninos abanavam a pasta com as fitas e todos juntos mostraram aos crescidos que também sabem cantar o F-R-A.”

No final foi “servido um lanche e apresentado um programa de animação, com palhaços, magia, música e teatro”. Por quem terá sido patrocinado? Não consegui apurar…

Detenho-me em depoimentos de "estudantes a sério" que se voluntariaram para apoiar o desfile (ao que parece, foram 150):
Um deles: “Estas iniciativas criam uma maior relação entre a própria cidade e os estudantes (...) A Queima-das-Fitas não é só ir ao parque ouvir as bandas”.
Outro: “As crianças são a vida da cidade. É importante mostrar um pouco a criatividade das crianças ao serem estudantes em miniatura”.
E outro: “As crianças não têm noção do que se está a passar aqui hoje, mas um dia vão adorar recordar este momento”.
E, ainda, outro: “Além de ter animado as crianças, «dinamizou a Baixa» da cidade”.

Detenho-me, a seguir, na intenção de um certo jardim-de-infância mostrar que os pequeninos podem dar o exemplo, uma “lição”, aos mais crescidos, “que tantas vezes cometem excessos”. Para tanto, criou uma quadra: «sem álcool sim/ com água e sumo/ não fazemos chinfrim/ e a vida tem outro rumo».

Cândido, tudo isto parece absolutamente cândido. E justificável, tantas são as boas intenções subjacentes... E consensual, pois nem uma ténue interrogação pude perceber nos jornais. Porque será, então, que me sinto estarrecida?

Continua aqui.

Notas:
- Propositadamente, não ilustro este texto com fotografias. Mais uma vez imagens de crianças são divulgadas, entendo eu, de modo abusivo.
- Para perceber melhor a dimensão de uma "tradição académica" que se iniciou neste ano e que veio para ficar, poderá o leitor clicar aqui, aqui, aqui ou aqui.

Ensaio sobre a cicuta

No âmbito do 13.º Festival de Tema Clássico, estreia, na próxima segunda-feira, dia 2 de Maio, às 21h30, no Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a peça Ensaio Sobre a Cicuta, a nova produção do grupo Origem da Comédia em parceria com o grupo de teatro clássico Thíasos.

Haverá outras representações desta peça: 18 de Maio, no Machado de Castro, em Coimbra; 25 de Maio, em Conímbriga; 9 de Julho, em Braga;15 de Julho em Coimbra, de novo.

No dia 18 de Maio, à tarde, haverá ainda um conjunto de conferências sobre as relações entre Platão e o teatro, seguido de uma conversa com os encenadores e outra com os actores.

Uma das mais importantes descobertas do Século XX !


Se alguém lhe pedir para citar as dez ou mesmo as cem descobertas científicas mais importantes do século 20, você provavelmente não se lembrará do processo de síntese da amônia. Essa descoberta, contudo, é de enorme importância e foi determinante para configurar a situação econômica e ambiental existente atualmente em nosso planeta.









PENSAR COMO UM MACACO


Embora não me esteja, nem pouco nem muito, no jeito, a transcrição de notícias de jornais sem as comentar, abro uma excepção para esta que diz tudo por si só e que em tudo estou de acordo. Intitula-se ela “Em defesa da Gramática: Vargas Llosa contra linguagem da Net” (Expresso, 30/04/2011).

É este o teor da referida notícia:

“Os jovens que abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS ‘pensam como macacos’, considera o escritor peruano Mário Vargas Llosa. O Nobel da Literatura de 2010 considera, numa entrevista à revista uruguaia ´Búsqueda’, que a Net ‘liquidou a gramática´, gerando uma espécie de barbárie sintática’. E justifica: ‘Se escreves assim, é porque falas assim; se falas assim, é porque pensas assim, e se pensas assim pensas como um macaco. Isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes do que os seres humanos. Não sei.”

O corte das pensões de reforma acima dos 1.500 euros mensais

“A respeito da Política – chamo a tua atenção para a nova palavra ‘verborreia’ com que no artigo classifico a nossa eloquência S. Bental” (Eça de Queiroz, 1485-1500).


Hoje em dia com a televisão a entrar-nos pela casa dentro, a qualquer hora do dia ou da noite, essa verborreia, através do canal “Parlamento”, poupa-nos o incómodo de nos sentarmos nas bancadas “S. Bentais” destinadas ao público anónimo que aí se desloca. Por outro lado somos bombardeados, numa tentativa de lavagem ao cérebro, com intermináveis e constantes debates televisivos em que uns senhores, engravatados e de casaco ou de casaco sem gravata, debitam o seu caudal de opiniões. Umas para levar a sério, outras para entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, ou mesmo pelo mesmo, sem accionarem as interconexões neuronais da caixa craniana, com visões apocalípticas ou com soluções de santo milagreiro para a crise que açoita Portugal de lés-a-lés. Um país em que, segundoo economista Eduardo Catroga, “o Governo de José Sócrates devia ir a tribunal; o fartar vilanagem foi uma tragédia nacional” (“Expresso”, 30/04/2011).


Entretanto, na noite do passado dia 29 de Abril, na “RTPN”, o eurodeputado Paulo Rangel, que me habituei a ouvir com atenção quando deputado aquém-fronteiras, pelo seu discurso equilibrado e raciocínio lógico, defendeu a diminuição das pensões de reforma acima de 1.500 euros mensais, a exemplo dos vencimentos dos funcionários públicos no activo. Num Portugal em que, segundo Eça, “tudo tende à ruína… num país de ruínas”, como que é pretendido, agora, escorar essas ruínas à custa do corte de pensões moderadas dos reformados. Esqueceu-se o autor da proposta, porventura, que as reformas se têm degradado pelo facto de não estarem indexadas ao salário dos funcionários no activo, como sucede, por exemplo, com os magistrados numa forma de justiça que não ouso sequer pôr em questão. Ou seja, defendo, apenas, uma igual justiça a ser estendida aos outros funcionários públicos fazendo com que a democracia portuguesa não aceite que os homens, como escreveu Orwell, sejam todos iguais embora haja uns mais iguais do que outros.


Entende, assim, Paulo Rangel que uma reforma deste “exorbitante” montante deve ser cortada sem dar ocasião a que os reformados tomem para si a queixa de uma das personagens de Arnaldo Gama: “Para isto é que eu vivi! Malditos anos! Maldita velhice!”. Ideia bem diferente expressou recentemente o fiscalista Diogo Leite Campos ao dizer que 10.000 euros mensais, emagrecidos para pouco mais do que metade pelos impostos, são pouco “para casa, roupa lavada, comida, instrução dos filhos, doença e tudo o mais”. E acrescentou, ainda, em defesa da sua tese (ou melhor, opinião pessoal), que em qualquer país europeu é este o vencimento auferido pela “classe média baixa”. Esta mesma situação transposta para os reformados de uma “classe média baixíssima” é agravada pelo facto de longe ir o tempo em que a “velhada” não suportava o encargo dos filhos no desemprego ou o auxílio prestado à educação dos netos. E pior do que isso, em que devido aos achaques próprios da idade, para salvar os dedos passou a deixar os anéis no pagamento mensal de dispendiosas contas de farmácia.


Mas porque é de reformas que estamos a falar, torne-se esta temática bem mais abrangente encarando a injustiça criada para quem mais tempo trabalhou, mais investiu na sua preparação académica e quem mais descontou para o efeito. Tomemos o exemplo de dois professores do ensino não superior. Um, de posse de uma licenciatura, reforma-se ao 7O anos de idade. Outro, ao abrigo do estatuto de uma aberrante carreira docente (apadrinhado por Roberto Carneiro na pia baptismal de um sindicalismo herdado de tempos revolucionários), de posse de um curso médio, um ano antes de se reformar, aos 52 anos de idade, compra, em meia dúzia de meses, uma "licenciatura" numa escola “superior” privada. Por mais incrível que pareça, se ambos aposentados no mesmo ano terão "direito", exactamente, ao mesmo valor de reforma mensal.


Encare-se a analogia com dois indivíduos que tenham feito os seus depósitos bancários com diferentes quantias mensais: o primeiro com mensalidades menores e a duração de 32 anos; o segundo durante quarenta e tal anos com mensalidades maiores. Seria justo que no final destes depósitos a quantia levantada por ambos da instituição bancária pudesse ser exactamente a mesma? Por esta e por outras, assistimos ao facto da Caixa Geral de Aposentações se encontrar em situação difícil ao presentear, os que menos tempo trabalharam, menos investiram na sua formação académica e menos descontaram para a sua aposentação, com a mesma reforma dos que mais tempo trabalharam, mais investiram na sua formação académica e mais descontaram para a sua aposentação. A acrescentar a este facto, dever-se-á ter em conta de que a esperança de vida do primeiro depositante, depois de reformado, é bem maior do que a do segundo depositante. Poder-se-ia ter esta aberrante situação como sendo da mais elementar justiça?


Mesmo aqueles que, deserdados da fortuna deste favorecimento, como diria Garrett, com “pesares que os ralam na aridez e secura da sua desconsolada velhice”, resolvessem sair à rua para reivindicar os seus direitos, mancando de uma perna ou de outra, anquilosados com doenças reumáticas, arquejantes com o “os bofes a saltar-lhes da boca para fora”, nem sequer conseguiriam merecer a compaixão do seu semelhante preocupado com os seus próprios e difíceis problemas.

Para além disso, o desastroso destino económico do país - com as suas implicações na bolsa do Zé-povinho, enquanto Francisco Louçã, fundador e dirigente do Bloco de Esquerda, passou as férias em Cabo Verde como que imune à crise da terra que o viu nascer porque, como nos diz o povo, “longe da vista, longe do coração” - está traçado pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Ou seja, a opinião ou simples alvitre do eurodeputado Paulo Rangel em cortar nas reformas acima dos 1.500 euros faz dele mais papista do que os papas que nos emprestarão dinheiro sob condições por eles previamente ditadas. Ora, em mau augúrio, Portugal parte para estas negociações na posição desvantajosa de ter os credores a baterem-lhe insistentemente à porta dos cofres vazios da Fazenda Nacional.


Todo o resto é simples retórica de quem possa pretender mudar as linhas do destino traçado na palma da mão de um país do extremo ocidental europeu que vai passar, em pouco mais de três décadas e meia, de colonizador a colonizado!

O grande político

As «soluções à portuguesa» propostas ao País por Paulo Futre são excelentes, adequadas e vão ao fundo do sentir português. Não trazem, é certo, nada de novo, ou que não se conheça já, mas são convictas (repare-se na pose), estimulantes, (vibra como um grito, aquele amarelo), e assentam numa tradição (garantia Licor Beirão). E quanto a agilidade, quem as poderia produzir melhor que ele? Ou seja, são propostas com uma sedução que hoje nenhum político dispensa, mas com uma força que nenhum dos atuais tem.

As mensagens são claras. Para o problema do desemprego, propõe «cunhas para todos». O que vai ao nosso jeito, mas é sobretudo justo. Por que razão é que só os próximos do poder, ou dos influentes, têm direito a cunha? Havendo democracia, deve haver cunhas para todos. E a partir do momento em que todos tenham direito à cunha, acabam-se as injustiças. O facto, porém, de haver cunhas fortes e fracas, e isso poder produzir novas injustiças, terá que ser ponderado. Mas mais tarde, nem tudo se pode resolver à primeira. Agora fica assim, depois se avaliarão as consequências.

Outra proposta muito interessante para acabar de vez com a nossa incapacidade de competir (em produtividade, porque na improdutividade não tem havido problemas) é «um diploma de engenheiro para todos os portugueses». Não esquecer que, por motivos sociopolíticos hoje um pouco tolos, se acabou em tempos com o ensino técnico. E que os atuais cursos, ditos técnicos, segundo consta sofrem de falta dela. Ora, para grandes males, grandes remédios: dá-se um diploma de engenheiro a todos e pronto. Haverá assim oportunidade para todos e qualquer dia estamos a produzir como ninguém.

Aliás, a experiência já teve sucesso com muitos, mas terá que se alargar a todos, pois estamos num regime democrático. Desde universidades que ensinam engenharia sem precisar da matemática, a diplomas de feriado e dia santo, de cursos de formação caça-ao-subsídio, a novas oportunidades, para oportunistas profissionais, já quase tudo se experimentou com sucesso. Mas os bons resultados devem chegar a todos para acabar com injustiças. Não esquecer, repito, estamos em democracia. E será também uma maneira de acabar com a má-língua. Todos falam destes diplomas de domingo por causa do Primeiro-Ministro, mas esquecem-se que deve haver milhares de diplomados como ele, e andam todos muito satisfeitos por aí, e se calhar com bons lugares, e ninguém os ataca nos jornais. Não se pode ser político. Os cursos seriam fracos, mas o Governo legalizou, está legalizado, diria Futre.

E está cheio de razão. E quanto a tachos, temos também que acabar com eles, claro; até porque, sendo só para alguns, não é democrático. Acabem pois os tachos. Mas temos que resolver o problema a todos, claro; dê-se, portanto, um woc a cada português. Com nomes novos para as coisas velhas temos as reformas estruturais necessárias. Todos falam mas ninguém se atreve a fazer. Com Futre é diferente: é fácil e de um dia para o outro.

Eis pois o grande político de que precisamos, com estratégias de desenvolvimento que vão certeiras ao coração dos portugueses. Daí o sucesso que prevejo para estas propostas. São soluções despachadas, fáceis de entender, e mais fáceis de aplicar, tal é a prática que temos. Haja coragem, que o sucesso está garantido.

João Boavida

O GENE ANTI-ANTIBIÓTICO




Post na continuação de outros dois (aqui e aqui) sobre a nova resistência bacteriana associada à sigla NDM-1.

O que significa NDM-1?

NDM-1 é a sigla inglesa para “New Delhi metallo-beta-lactamase-1”, uma enzima (proteína com actividade catalítica) que inactiva a acção de uma classe ampla de antibióticos designados por beta-lactâmicos. A sua designação advém de ter sido identificada primeiramente em num doente, turista sueco acidental, em Nova Deli, Índia (há alguma polémica sobre se não teria sido identificada antes).

Os antibióticos beta-lactâmicos são bactericidas, ou seja, causam a morte de bactérias. Alguns exemplos são as penicilinas, a amoxicilina, as cefalasporinas, os carbapenémicos (e.g., Meropeném) e o ácido clavulânico. Na prática, eles impedem que um amplo grupo de bactérias classificadas por bacilos gram-negativos, que nos causam doenças, consiga sintetizar a sua parede externa. A integridade desta parede, qual muralha inexpugnável de uma fortaleza, é feita de uma substância designada por peptidoglicano, e é essencial para a bactéria. Sem ela, a bactéria não consegue sobreviver.





Qual o perigo?

A enzima NDM-1, ao inactivar por hidrólise os antibióticos beta-lactâmicos, confere às bactérias que a possuem resistência a estes. Por outras palavras, os antibióticos de última geração, e até de algum uso restrito hospitalar, tornam-se “subitamente” ineficazes no tratamento de doenças causadas por bactérias que adquiriram o gene que codifica a NDM-1.
Acrescente-se que o gene da NDM-1 não está sozinho. Isto é, esta adaptação bacteriana a uma adversidade ambiental resultou numa solução tipo pacote de genes. O da NDM-1 faz parte de um determinado elemento distinto do cromossoma circular bacteriano, e que contém outros genes que amplificam e facilitam o “trabalho” da NDM-1. Há nele genes que facilitam a rápida disseminação desta resistência para outras bactérias, genes que codificam proteínas que funcionam como autênticas bombas que expulsam os antibióticos para fora das bactérias a eles antes susceptíveis, genes que estimulam as defesas anti-oxidantes das bactérias.
Em resumo: o mecanismo, ainda desconhecido, que levou ao desenvolvimento deste complexo genético, dotou o mundo bacteriano de uma nova arma antibacteriana multifacetada.

Que proteína é a NDM-1?

A NDM-1 é uma metalo-proteína que possui na sua constituição 158 aminoácidos e um átomo de zinco (Zn). A sua estrutura tridimensional foi resolvida recentemente.
Aliás, para se perceber o mecanismo de acção desta enzima e como ela altera a estrutura dos antibióticos com grupos beta-lactâmicos, é essencial conhecer a sua estrutura tridimensional. Por isso esforço científico multidisciplinar foi efectuado no sentido de conseguir o mais rápido possível esse conhecimento. A caracterização da sua estrutura molecular pode ser consultada aqui.
No banco público de estruturas proteicas, vulgo PDB (protein data bank), a sua estrutura está codificada por 1ko3.


A novela da multi-resistência.

O uso excessivo e muitas vezes desnecessário de antibióticos, a resistência bacteriana a eles, é um assunto sempre em cima da mesa da Organização Mundial de Saúde. O problema não é de hoje. Aliás, o desenvolvimento de antibióticos semi-sintéticos beta-lactâmicos de última geração já resultou de um esforço para ultrapassar problemas de resistência bacteriana adquirida contra os primeiros antibióticos, muitos deles já totalmente inócuos.

O caso da descoberta e confirmação da dispersão da NDM-1 entre várias espécies de bactérias que nos causam doenças mortais (entéricas, pneumónicas, etc.) é, contudo, alarmante uma vez que representa um novo mecanismo muito eficaz de resistência bacteriana e que pode colocar-nos numa situação muito semelhante à que existia antes da descoberta e desenvolvimento dos antibióticos (Fleming, penicilina, 1928). A diferença, saliente-se, reside nas incomparáveis condições de higiene, alimentação e saúde pública que hoje caracteriza os países ditos desenvolvidos.

Mas, se nada mudarmos, a nossa capacidade em matar bactérias patogénicas pode reduzir-se alarmantemente.

E outros casos continuam a permanecer explosivos.

O caso da tuberculose extremamente resistente às drogas que possuímos contra ela é um exemplo muito preocupante, relativamente pouco mediatizado, que causou a morte de 150 mil pessoas no ano passado.

É preocupante o número crescente de bactérias que causam infecções hospitalares, como é o caso da Staphylococcus aureus, causadora de pneumonia, endocardite, síndrome do choque tóxico entre outras doenças, e que apresentam multi-resistência à panóplia de antibióticos e drogas de que dispomos.


Também está a evoluir rapidamente a ineficácia dos antibióticos para tratar a gonorreia, doença grave e sexualmente transmissível, causada por Neisseria gonorrhoeae, bactéria que tem adquirido multi-resistência aos antibióticos a ela dirigidos.




Os mecanismos através dos quais as bactérias adquirem resistência aos antibióticos são ainda muito pouco conhecidos e mal compreendidos. É ainda espantosa a rapidez com que novas resistências se espalham e se “instalam” em outras bactérias que não as que a adquiriram primeiramente. É que as bactérias são há muitos milhões de anos assinantes de meios de comunicação muito eficazes na eficiência com que comunicam informação.

E muitos sintomas indicam que o problema se vai agravar e espalhar... entre nós, noutras doenças.


O que fazer?

É necessário implementar todas as medidas de saúde pública que combatam o uso inadequado de antibióticos. A educação e o aumento de cultura científica na população são das melhores defesas que temos contra o desconhecido e contra as doenças.


Por outro lado, o arsenal de conhecimento científico e biotecnológico que hoje possuímos, as robustas metodologias de biologia molecular, bioinformáticas emergentes que permitem um rápido escrutínio de candidatos a novas drogas, a rapidez com que identificamos as biomoléculas alvo para o desenvolvimento de novos medicamentos e a resolução com que identificamos genes e determinamos a sua estrutura tridimensional das proteínas funcionais, cartilha da sua função bioquímica, catapultam a nossa confiança no esforço multidisciplinar científico da humanidade para encontrar novas soluções para novos problemas de saúde.

António Piedade

sábado, 30 de abril de 2011

Uma das grandes conquistas da Revolução foi a “liberdade de expressão”

Em finais de Abril, mês da Revolução dos Cravos, termino a reprodução de passagens do ponto 106 do livro de Memórias de Rómulo de Carvalho sobre os acontecimentos que se seguiram ao dia 25 de Abril. As anteriores passagens podem ler-se aqui e aqui.

Não deixe, no entanto, o leitor de se deter nas páginas em papel, onde a reflexão do professor-poeta se alarga. Tanto do que ali é dito se manteve imperturbável em quase quatro décadas... Será a nossa característica ou a nossa tragédia?

“Uma das grandes conquistas da Revolução foi a “liberdade de expressão”. Foi proclamada para ficar e está hoje inscrita na Constituição da República Portuguesa, no seu artigo 37. Lá diz textualmente: “Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de se informar, sem impedimentos nem discriminações”. Este é o n.º 1 do artigo. O n.º 2 esclarece: “O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.” E disse.

Do uso destes direitos poderia eu dar-vos diversos exemplos, mas dou-vos apenas um ocorrido há poucos dias, com o juramento prévio de que não minto, pois até parece mentira. Eu fui comprar o Diário de Notícias a um pequeno estabelecimento da Rua Ferreira Durão, aqui no meu bairro, mesmo defronte do Mercado. Ao balcão estava um jovem a encarar um cliente que a descompunha, não sei porquê. “Vocês são todas umas cabras!” – dizia o cliente. E acrescentava (ouvi eu): “Eu estou no meu direito de dizer o que penso. Estamos em democracia.”

Imaginem, meus queridos tetranetos, o que seria a liberdade aplicada à comunicação social, para a qual a tem um artigo próprio, o 38. Vieram a público, nessa época, inúmeros periódicos novos, muitos deles criados apenas para desabafar, para darem oportunidade aos seus promotores para insultarem, para ofenderem, para atacarem, para se divertirem (…). Certa tarde, encontrava-me no Rossio, e oiço os vendedores de jornais, vindos do Terreiro do Paço, pela Rua Augusta, abraçando os molhos do periódico que tinha acabado de sair apregoando: “A Merda! Cá está a Merda! Saiu a Merda! Saiu agora a Merda!” Comprei um exemplar e arrumei-o na minha colecção de jornais da Revolução. Está aqui. Ainda um dia o podereis ler. Depois lavai as mãos.

A liberdade de expressão também se manifestou, e exuberantemente, de um modo, que foi o de escrever nas paredes dos prédios, nas pedras dos passeios e até nos monumentos, e não só escrever como fazer pinturas com variadas cores. Naqueles dias andei pelas ruas a fotografar as pinturas das paredes. Conservo-as como recordação mas são de fraca qualidade (…)

Os escritos nas paredes (…) quanto ao que diziam era o que se poderia esperar da categoria dos seus autores, jovens, descontraídos, senhores da situação. Mas também havia escritos que merecem memória, como este: “Abaixo os órgãos de cúpula.” E estoutro, de autoria de algum inimigo do Partido Comunista então dirigido por Álvaro Cunhal: “Vamo-nos treinar no tiro ao álvaro” (…)

A liberdade oferecida de surpresa a um povo civicamente atrasado, de elevada percentagem de analfabetismo e acentuado nível de miséria, analfabetismo e miséria que o salazarismo se esforçava por manter como sinais de virtude, o que muitas vezes foi exaltado pelos Deputados do Parlamento da época, iria, essa liberdade, originar situações de grande desequilíbrio social, como de facto se verificou. Recordo uma tarde em que me encontrei, no meu bairro, junto do restaurante Canas, com um colega de profissão, homem culto e democrata consciente, o Joel Serrão elevados, pouco depois do 25 de Abril. Estávamos no passeio, parados, conversando. O sítio tem muito movimento o que provoca algum aperto aos transeuntes, mais as cadeiras e mesas que o restaurante tem cá fora, para o café. Como estávamos, porém, em liberdade, andavam dois matulões a jogar à bola no dito passeio com evidente incómodo para quem passava. Chama a atenção do meu interlocutor para o caso, e ele, acentuando vagarosamente as palavras, amansou a minha censura dizendo: É certo, mas a liberdade aprende-se!

Onde, e como, se o aprendiz dessa mesma liberdade, em nome dela mesma, tem a liberdade de não a aprender?

Certo dia tomei um eléctrico. Sentei-me e vi noutro banco um sujeito, um democrata, que puxou de um cigarro, o acendeu e se pôs a saboreá-lo expelindo fumaças. Já nesse tempo era proibido fumar nos transportes públicos, desde há muito. O revisor aproximou-se do homem e chamou-lhe a atenção para o caso: olhe aqui não se pode fumar. O passageiro teve um sobressalto, fixou o revisor com o sobrolho carregado, e disparou. O quê?!... O fascismo ainda não acabou?!

(…)

Esta euforia da Liberdade, de cada um poder fazer o que lhe apetecer sem ter que dará satisfações a ninguém, ajustou-se tão bem ao espírito dos portugueses como antes se ajustara, nos tempos da ditadura, o peso da servidão."

Rómulo de Carvalho,
in Memórias (2010), Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 300-309.

Darwin está errado. Só pode.


A teoria evolucionista de Darwin está errada. A prova é a direita norte-americana. Se a teoria estivesse certa, gente tão estúpida não teria evoluído e teria sido aniquilada pela selecção natural. Depois desta estória do super-homem, parece que o tea-party negociou com o Tio Patinhas para que este os financiasse. O Tio Patinhas recusou, felizmente. A sua caixa forte fica em Patopolis e de forma alguma gastará as suas moedinhas com gente tão estúpida.
Uffff! Obrigado Tio Patinhas.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O que é a Teoria da Relatividade?


Um Click Perigoso

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Foi hoje lançado um livro cujo título é Um Click Perigoso - As Aventuras de Pedro e Lili na Internet, da autoria de Diana Vaz Ribeiro e Filipa Falcão Reis e publicado pela editora Zéfiro.

Trata-se de uma obra que resulta do projecto Tu e a Internet, desenvolvido com o apoio da Universidade do Porto. Incidindo nos perigos online para os mais novos, pretende promover uma consciencialização do direito à privacidade.

As investigadoras recorrem a uma abordagem informática, da psicologia e da educação, que se justifica pelo seguinte: "As crianças estão a aprender a conhecer-se. Desinibidas e numa fase em que é importante estabelecer relações sociais, as vêem a Internet como um mundo novo, pronto a ser explorado! Curiosas, jogam e conversam online sobre os mais variados assuntos".

Numa altura em que, como já tive oportunidade de fazer notar por diversas vezes neste blogue, certas escolas disponibilizam online dados pessoais dos alunos (do foro privado e, até, íntimo), seria de todo o interesse que o público alvo do presente livro se alargasse aos profissionais de educação: professores, psicólogos escolares, pedagogos, entre outros.

O ESPANTOSO CASO DO GATO PRETO


“Senti logo não sei que torpe eternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem” (Eça de Queiroz, 1845-1900).


De um amigo de longa data e grata amizade recebi este mail em resposta a um outro que lhe enviei e que será transcrito mais abaixo. Embora não me tivesse sido pedido anonimato para a sua divulgação pública, entendo que os mail's são privados devendo, como tal, ser mantida a confidencialidade do seu subscritor. Com a data de hoje, reza esse mail:


"Meu caro Rui, tens carradas de razão. Eu também tenho uma experiência. Há cerca de dois anos, na Loja do Gato Preto, em Lisboa, no Chiado, numa confusão de gente, roubaram-me uma carteirinha onde tinha todos os meus cartões, incluindo os de crédito. Um quarto de hora depois, já estava numa delegação do BES, a cancelar os cartões - tarde demais: já me tinham fanado 900 euros. Fui participar à polícia do Rossio. A chefe disse-me que até tinha as fotografias dos elementos da gang romena que andava a fazer esses roubos. Mas que já nem valia a pena prendê-los, porque, poucos minutos depois, aparecia um advogado bem falante que os fazia soltar... Eu disse à chefe que a Loja do Gato Preto tinha videovigilância e que talvez fosse útil a polícia ir ver o filme (eu dera a hora exacta do roubo). Resposta: se eu quisesse que a polícia utilizasse a videovigilância teria que pagar 180 euros! Quer dizer, a polícia tem ao seu alcance uma possibilidade de prova, mas só faz uso dela se a vítima pagar. Isto não é surrealista? Meu caro Rui, isto é como a América: legisla-se para proteger o bandido. Os malandros têm muito mais garantias do que os cidadãos honestos. Não é por acaso que o pacote "anti-corrupção" do João Cravinho não passou no Parlamento. O lider parlamentar do PS que fez obstrução chama-se Alberto Martins e é Ministro da Justiça...
Um abraço”.


Reporto-me, agora, ao mail que enviei ao meu amigo com o seguinte teor:


“Meu Caro: O meu último post, publicado ontem, dia 28, no DRN, intitulado “A lei protectora de malfeitores em nome da sua privacidade”, relata a impunidade em nome do direito à privacidade. O que me sucedeu agora, poderá vir a suceder a qualquer outro. Provavelmente, já tem acontecido. Limito-me, portanto, a deixar um alarme a todo aquele que possa pensar que as câmaras de vigilância nos põem a coberto de casos como este. Um grande abraço. Rui”.


Uma análise, ainda que ligeira, destas duas ocorrências leva-nos à conclusão que casos semelhantes tiveram interpretações diferentes por parte das autoridades policiais no que se refere ao visionamento das câmaras de televisão. Por último, como uma espécie de aviso à navegação, e como é meu hábito, cito a vox populi: “Nas costas dos outros lemos as nossas”!

P.S.: Penso que o título deste post se prestava a titular um romance policial. A vida, ela própria, não é, por vezes, um romance de que nos fazemos, ou nos fazem, personagens?

UM GOVERNO QUE NÃO GOVERNA

Uma das principais razões porque os cidadãos são hoje assaltados não apenas na rua, mas também aos balcões de empresas, é, decerto, a falta de protecção por parte do governo. Um governo que não defende os direitos dos contribuintes, que permita que haja pseudo-concorrências ou mesmo concorrências nenhumas (não é só a má qualidade da reduzida oferta de TV por cabo, são também, por exemplo, os preços uniformes dos combustíveis nas placas da auto-estrada), está objectivamente a proteger empresas sem escrúpulos ao mesmo tempo que ignora que um governo democrático emana do voto dos cidadãos. Fui daqueles que acreditou que o ainda primeiro-ministro, quando começou o seu primeiro mandato, tinha alguma veleidade de proteger os cidadãos-consumidores. Não tem, está à vista que não tem! Este é um dos piores governos que Portugal tem tido e não é só por nos ter conduzido à ruína financeira e económica. É ainda por nos ter conduzido à ruína ética e moral, com base numa prodigiosa deficiência na educação.

História Química de uma Vela de Michael Faraday



Excertos de A História Química de uma Vela de Michael Faraday, tradução de M. Isabel Prata e Sérgio Rodrigues, edição da Imprensa da Universidade de Coimbra e Sociedade Portuguesa de Química

Os dois primeiros parágrafos do capítulo inicial:

Proponho que, em troca da honra que me dão em virem até aqui para nos conhecerem, trazer-vos, no decurso destas lições, a História Química de uma Vela. Eu já abordei este tema numa ocasião anterior; mas, se dependesse apenas da minha vontade, trataria o mesmo tema uma e outra vez – tão elevada é a sua riqueza intrínseca, tão maravilhosas as contribuições que pode oferecer a todos os ramos da Filosofia. Não existe lei nenhuma no universo que não esteja de alguma forma relacionada com este fenómeno. Nenhum caminho é mais aberto, nem nos conduz melhor ao estudo da Filosofia Natural, que o estudo dos fenómenos físicos de uma vela. Assim, espero não vos desapontar tratando de novo este tema, ao invés de introduzir um novo tópico, que, acredito, não poderia ter tanto interesse como este.

Antes de continuar, deixem-me ainda dizer que, apesar de considerar este assunto tão elevado e ser minha intenção tratá-lo de uma forma honesta, séria e filosófica, mesmo assim, não me vou preocupar em falar para os mais velhos que estão entre nós. Concedo-me o privilégio de falar para jovens, como se eu próprio fosse um jovem. Assim o fiz noutras ocasiões e, se me permitem, assim o farei novamente. E, apesar de me encontrar aqui conhecendo as palavras que devo proferir ao mundo, isso não me impedirá de utilizar palavras familiares para vós que muito estimo estarem
aqui comigo hoje.


E o parágrafo final do último capítulo:

Na verdade há ainda mais uma coisa que eu queria aqui deixar antes de encerrarmos estas lições (porque nalgum momento vamos ter que chegar ao fim): queria expressar o meu desejo de que vocês, na vossa geração, possam ser comparáveis a uma vela; que possam como ela brilhar e iluminar aqueles que se encontram à vossa volta; e que todas as vossas acções possuam a beleza do pavio, tornando as vossas realizações honrosas e eficazes no cumprimento do dever para com os nossos companheiros.

A química é parte da solução: de automóvel pela estrada

Na época da Páscoa mais pessoas do que o normal se deslocam de carro, o que aumenta o número de acidentes. Infelizmente, a parte mais perigosa dos automóveis é o ser que se encontra atrás do volante, o qual, muitas vezes, distraído a abusar dos prodígios que a ciência e a tecnologia lhe fornecem, se esquece que não pode escapar às leis da física, da química e da fisiologia. E, no entanto, com a ajuda da química os carros são cada vez mais seguros. Os metais exteriores deformáveis, assim como os plásticos interiores moles, os airbags e os cintos de segurança minimizam os efeitos dos embates moderados. Em particular, no airbag, a azida de sódio, activada por um sensor de choque, reage rapidamente, produzindo uma grande quantidade de azoto, seguido da neutralização dos produtos reactivos e perigosos também formados.

Quem circula nas estradas pode ver, por vezes, camiões com placas cor de laranja com números que são os códigos internacionais UN de transporte de produtos potencialmente perigosos. Os números por cima indicam o tipo de perigo (3 para inflamável é o mais comum) e o número abaixo indica o produto químico. Num país com uma indústria química incipiente como o nosso (o que é uma pena) raramente podemos ver camiões com materiais incomuns. Numa viagem longa poderemos passar por camiões com ácido sulfúrico (1830) ou azoto liquefeito (1977), mas quase de certeza que vamos encontrar gasóleo (1202), gasolina (1203) ou gases de petróleo liquefeitos (1965). E, de facto, quando se fala de automóveis não é possível esquecer os combustíveis.

Os motores de combustão nem sempre foram tão eficiente e seguros como são hoje. Por isso, há alguns anos foi utilizado, por invenção de Thomas Midgley Jr, um composto de chumbo, o tetraetilchumbo, que melhorava o poder detonante das gasolinas, o qual causou um grave problema ecológico e de saúde pública: a gasolina com chumbo. Com a melhoria dos motores este tipo de aditivos passou a ser dispensável, além de que a sua utilização é incompatível com os catalisadores (o chumbo inutiliza-os). Os combustíveis usados hoje em dia são obtidos em grande parte por cracking, ou seja quebra de hidrocarbonetos de cadeia mais longa, sendo possível controlar as suas características e retirar, pelo menos em parte, alguns materiais contaminantes como sejam os compostos de enxofre. No entanto, o processo faz com que os combustíveis tenham uma quantidade maior de hidrocarbonetos aromáticos, o que embora melhore o seu desempenho, é um problema para a saúde.

A contínua melhoria do controlo dos processo químicos nos automóveis fez com que a nossa atenção se virasse para o único produto da combustão que não podemos eliminar: o dióxido de carbono. Para o evitar temos de passar aos automóveis eléctricos ou a hidrogénio. Nestes últimos o único produto da combustão é a água, mas precisamos de processos eficientes e não poluentes de produção de armazenamento e distribuição deste gás. No caso dos carros eléctricos, o desafio é o desenvolvimento de baterias mais eficientes e leves além de formas não poluentes de produção de energia eléctrica. E, em todos estes aspectos, a química é parte da solução.

Claro que há muito mais química nos carros: os tratamentos anti-corrosão, os pneus, os lubrificantes, os anticongelantes, os líquidos e as pastilhas dos travões, as tintas, os vidros laminados e fumados, por exemplo. Seguindo uma ideia da Palmira Silva, na apresentação do livro A História Química de uma Vela, talvez Faraday hoje baseasse as suas conferências num outro objecto de uso comum. O automóvel talvez fosse um bom candidato.

Imagem Obvious: um olhar mais demorado

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A LEI PROTECTORA DE MALFEITORES EM NOME DA SUA PRIVACIDADE



“Há lágrimas espremidas pelas mãos da prepotência e a lei acobarda-se de levar aos olhos do fraco o lenço que vela os olhos da Justiça” (Camilo Castelo Branco, 1825-1890).

A história conta-se em poucas palavras:

Desloquei-me hoje ao Coimbra Shopping, a fim de fazer as minhas compras habituais no Continente. Estacionei o meu carro no “sector C”. Saí da viatura cerca do meio-dia tendo regressado, efectuadas as compras, pouco depois das 13 horas.

Para grande espanto meu tinha a parte traseira do lado esquerdo do carro com uma grande mossa. Dirigi-me a um dos vigilantes que tomou conta da ocorrência e me aconselhou a dirigir-me à Polícia de Segurança Pública, a fim de apresentar queixa.


Foi o que fiz, cerca das 17 horas, preenchendo um formulário posto à minha disposição. Tendo apelado ao visionamento das câmaras de vigilância do parque de estacionamento, que pessoa amiga me dissera aí haver, fui informado, pelo agente que me recebeu, que esse visionamento teria que ser solicitado, através de um advogado, como forma de protecção à “privacidade do cidadão” que me amachucou o carro pondo-se a milhas. Este recurso aos serviços de um advogado faria recair sobre a minha bolsa o ónus de uma despesa quiçá superior ao preço do conserto do carro. Ou seja, o crime está protegido pela privacidade de quem o comete...e pela disponibilidade financeira de quem dele é vítima!

Não me admira, portanto, que com esta protecção que é dada a quem pratica actos criminosos contra a propriedade alheia passe a ser uma prática comum em nome da privacidade de quem não é apanhado em flagrante. Por último: o violento embate no meu carro terá deixado marcas no automóvel do autor da "façanha". Ingenuamente, o vigilante do referido parque de estacionamento solicitou-me o número do meu telefone admitindo a hipótese de o respectivo causador vir a assumir a sua culpa, comunicando a ocorrência e a respectiva responsabilidade na recepção do Continente...

Dado, como sou, em acreditar nos provérbios populares, neste caso, “quem espera sempre alcança”, desta feita estou em crer que bem posso esperar… sentado, como soe dizer-se. Assunto arrumado, portanto, em nome da privacidade de quem bateu na minha viatura e se pôs em fuga!

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...