terça-feira, 8 de maio de 2018

CARTA ABERTA PARA SAIR DA CRISE NO SECTOR DO LIVRO E DA LEITURA



A crise do livro é real. Por isso são oportunas tomadas de posição como esta que recebemos deos subscritores:


1. Diagnóstico da crise que afecta o sector do livro e da leitura

É hoje notório que a Cultura foi desvalorizada pelos últimos governos de Portugal. Investe-se pouco na área cultural e noutras afins, como a Ciência, para as quais o orçamento de Estado é sempre diminuto, não passando do zero vírgula qualquer coisa.
Tratada como um parente pobre, a Cultura tem vindo a ser subestimada como se nenhum valor pudesse trazer ao país, o que é falso. A Cultura tem um papel crucial no desenvolvimento e progresso de qualquer país, merecendo por isso maior investimento da parte do Estado e da sociedade civil, como em tempos já aconteceu e tem lugar na maioria dos nossos parceiros na União Europeia.
Não se trata de defender a tutela paternalista da Cultura pelo Estado. Trata-se, isso sim, de defender que ao Estado cabe um papel relevante na salvaguarda de condições mínimas para a actividade das pequenas e médias empresas independentes do ramo editorial (editoras, livrarias e distribuidoras) que, por serem tratadas do mesmo modo do que as grandes (ou seja, com a mesma carga de fiscalidade, impostos e imposições burocráticas, e rendas elevadas), vêm o seu impacto e o seu futuro sob ameaça permanente, perdendo espaço para os grandes grupos e os grandes centros comerciais onde a relação de proximidade leitor/livreiro se tornou inexistente e a principal preocupação é o lucro.
Temos consciência de que o diagnóstico que se segue é preocupante mas também temos vontade de contribuir para mudar este estado de coisas. Por isso, na segunda parte propomos 15 medidas que consideramos essenciais para ajudar a sair da presente crise, e iremos colocar este documento enquanto petição pública para poder ser subscrito por todos os interessados.

1.1. Razões da crise que afecta as editoras e livrarias independentes

                Nos últimos anos tem vindo a crescer a percepção de uma crise no sector do livro e da leitura em Portugal. Importa reflectir sobre o que se está a passar, para se poder apresentar soluções exequíveis o mais rapidamente possível. É que está em causa o futuro de muitas famílias, a riqueza das nossas cidades, o património cultural do nosso país.
Apresenta-se de seguida um diagnóstico sucinto do sector, começando pelas principais razões que provocaram a presente situação de crise:
– concentração excessiva e concorrência desleal por parte dos dois grandes grupos editoriais e livreiros, Porto Editora e Leya, nos principais segmentos do mercado (livro escolar e livro generalista), que vem a tornar-se notória e incomportável nas seguintes situações:
a) imposição unilateral de condições altamente desfavoráveis às pequenas e médias e editoras, mediante a exigência de descontos leoninos que vão já até quase 50% sobre o preço do livro (desconto pouco abaixo do que é concedido às distribuidoras) e um regime de fornecimento (vulgo conta-consignação) em que não arriscam um cêntimo e lhes dá a possibilidade de prestarem contas quando querem (a perto de um ano como é o caso das Livrarias Bertrand do grupo Porto Editora) para protelarem o pagamento das vendas;
b) condições diferentes e discriminatórias no caso inverso em que os descontos em muitos casos não vão além do desconto normal, 30%, e a modalidade mais praticada é o regime de fornecimento em conta-firme com exigência de pagamento a 30/60 dias da emissão da factura;
c) frequentes infracções à Lei do preço fixo do livro, algumas vezes penalizadas com multas que ficam muito aquém dos lucros obtidos;
d) condições desfavoráveis impostas pelos hipermercados que, no que toca ao livro, só são suportáveis pelos dois grandes grupos editoriais, graças à concentração de autores de maior venda que o seu poder financeiro lhes proporciona.
Outras situações que afectam as editoras e livrarias independentes são:
a) o recurso à figura do PRE (Plano de Revitalização Económica) por parte de certos grupos livreiros, que obriga os pequenos credores editores e livreiros a abdicarem automaticamente de 50% da dívida, e, por vezes, o recurso subsequente à insolvência, deixando de pagar dívidas elevadas que dificultam a subsistência das editoras fornecedoras (foi o caso recente do grupo das livrarias Bulhosa que tem ainda a particularidade da empresa que o comprou, como editora sua fornecedora, aparecer em primeiro lugar na lista dos credores); esta situação é tanto mais imoral porquanto o fisco arrecada logo o IVA no acto da facturação, e, a ressarcir o seu valor às editoras fornecedoras que ficaram depauperadas por essas insolvências, só o faz muito depois e mediante um complexo processo burocrático;
b) falta de estímulos na promoção do livro e da leitura, sobretudo de autores portugueses (clássicos e não só), que poderiam ter lugar mediante uma melhor utilização da televisão pública que é paga por todos nós, da qual está ausente um programa diário de cultura que englobe os países lusófonos e contenha uma vertente informativa extensa e sem discriminação das editoras independentes;
c) o Estado português não presta qualquer apoio às livrarias e editoras independentes de mérito comprovado que lutam com dificuldades financeiras, seja quanto à minimização de impostos e carga fiscal burocrática, seja na melhoria de condições de crédito e de arrendamento, seja no custeamento de estágios neste sector para gente jovem desempregada;
d) os livros escolares, outrora publicados por editoras grandes, médias e pequenas, estão hoje maioritariamente nas mãos dos dois grandes grupos acima referidos que procuram controlar o mercado com políticas que vão do aliciamento a escolas e professores a maiores descontos às grandes superfícies que têm conduzido ao fecho de muitas das livrarias e papelarias que os trabalhavam sazonalmente.

1.2. O desinvestimento na leitura pública como ameaça ao desenvolvimento cultural

Uma política do livro democrática e sustentável tem necessariamente que se articular com uma política da leitura. A sustentabilidade impõe que se promova diariamente a diversidade cultural, para atenuar efeitos nefastos advindos da concentração e homogeneização. A diversidade cultural tornou-se uma prioridade consagrada em inúmeros documentos internacionais desde os anos 1970, da UNESCO [1] ao Conselho da Europa e à comunidade ibero-americana.
Nas últimas décadas, tem-se verificado a nível planetário que a redução da diversidade no sector do livro corrói o pluralismo de pontos de vista, experiências e criações, enfraquece o debate público e a experiência humana, debilita a capacidade emancipatória dos cidadãos e das suas comunidades. Como antídoto impôs-se a ideia da bibliodiversidade, que surgiu nos anos 1990, e a qual necessita da articulação entre políticas do livro e da leitura, e entre Estados e sociedades civis organizadas.
Mas não basta abraçar ideias, impõe-se dar-lhes conteúdo prático, na aplicação das políticas públicas nos vários níveis do Estado, envolvendo e responsabilizando os cidadãos e suas organizações.
Em Portugal, um dos pilares duma política integrada do livro e da leitura têm sido as bibliotecas públicas municipais. Ora, estas atravessam uma crise grave que urge solucionar. A crise liga-se a severas restrições orçamentais mas é, acima de tudo, um problema programático. Que fins se pretendem atingir? Que resultados se têm atingido? Que meios se devem mobilizar?
Desde logo, em muitas bibliotecas não têm sido devidamente acautelados os seus fundos bibliográficos. As novidades tardam, e parte do atraso deve-se a ainda não ser sistemática a “catalogação na fonte” dos livros, o que evitaria a duplicação de trabalho e impõe um urgente reforço de meios específicos. Diversas juntas de freguesia e municípios deixaram de investir na actualização consistente da oferta de livros nas suas bibliotecas. O investimento parece ter sido desviado para o livro escolar, o que esvazia as bibliotecas locais. Além disso, há bibliotecas municipais que têm fundos preciosos de livros de autores portugueses dos séculos XIX e XX que estão em depósitos distantes, sob o pretexto de que estas bibliotecas só devem disponibilizar livros novos, quando o que devem é assegurar uma oferta o mais generalista possível, incluindo quanto a autores e edições mais recuadas. As reedições que se vão fazendo não cobrem tudo, há que atender públicos diversificados (incluindo os que necessitam de pesquisar, cada vez mais um requisito do próprio ensino, básico e superior), e nem todas as obras relevantes podem ser contempladas no orçamento bibliotecário.
Outro problema grave prende-se com o incumprimento da missão integral por estas bibliotecas, a que estão obrigadas dado o lugar central que detém nas respectivas comunidades, enquanto pólos culturais e educativos.
Como sustenta o Conselho da Europa desde 1970, a cultura não é somente bens de consumo, mas sobretudo um espaço no qual os cidadãos podem formar a sua própria cultura, posição que foi reiterada por resolução da 1.ª Conferência de Ministros Europeus responsáveis pelos Assuntos Culturais, em 1976.
Por isso, torna-se imperioso inverter o profundo desinvestimento em actividades culturais promotoras do livro e da leitura, da hora do conto à declamação de poesia e às oficinas artísticas. São estas e outras iniciativas afins que colocam em interacção os cidadãos com actores sociais e culturais diversos, permitindo e suportando a criação, a difusão e o pluralismo culturais, mas também a integração e coesão socioculturais. Para tal efeito, é crucial dotar estas iniciativas de recursos próprios, para acabar de vez com o mau hábito de se considerar que o trabalhador intelectual e artístico deve intervir nestes espaços a título gracioso. Só assim será possível respeitar a sua dignidade profissional e reforçar as vias de produção, participação e circulação culturais e de integração sociocomunitária. E só assim também se porá cobro ao financiamento de actividades culturais pelos próprios funcionários das bibliotecas (em dinheiro para materiais, em combustível para deslocações, em horas extraordinárias não pagas, etc.), um abuso do seu espírito de missão que tem ocorrido em várias bibliotecas municipais. O bom investimento em equipamentos promotores da literacia digital não deve comprometer o resto.
Por fim, estes espaços podem e devem dar um maior contributo para a coesão territorial, o que só se consegue com a sua mais eficiente distribuição territorial. Em primeiro lugar, o projecto de uma rede de bibliotecas públicas cobrindo todo o território está por concluir e marca passo, volvidos 31 anos (209 bibliotecas activas, para 308 municípios, ou c. 2/3), com o Estado central alheado do seu programa de cofinanciamento de bibliotecas municipais. Por outro lado, em muitos concelhos uma só biblioteca fixa não chega a todas as populações, pelo que se impõe que o pivot central estimule (e seja parceiro) do lançamento de bibliotecas itinerantes junto dos municípios interessados, o que tem descurado. Para ambos os programas deve procurar-se financiamento junto da União Europeia e doutro tipo de organizações com empenho neste sector.

2. Revitalizar o livro e a leitura - propostas e parcerias para vencer a crise

A situação do sector do livro e da leitura é preocupante há já muito tempo, com as consequências que todos conhecemos no encerramento de livrarias e editores independentes, bem como de distribuidoras. Se nada fizermos tudo irá piorar.
As causas são variadas, mas há umas mais determinantes do que outras, como se pode ler no diagnóstico acima exposto. Não têm um responsável único. Há longos anos que editores e livreiros estão desunidos e de costas voltadas, preocupando-se apenas com o seu “quintal”. Também o apoio estatal ao sector da Cultura tem sido insuficiente, emergindo o livro e a leitura como o elo mais pobre e sem voz. A concentração de editoras e livrarias em dois grandes Grupos (Porto Editora e Leya) é um motivo adicional para que os editores e livreiros independentes se unam na defesa dos interesses comuns, quer para contrabalançar o domínio destes Grupos quer para tomarem medidas que favoreçam a distribuição e as vendas de uns e outros, enriquecendo assim o sector do livro em termos de diversidade e pluralismo. Nesse sentido, põe-se à consideração das instituições do sector, das entidades públicas e da opinião pública as seguintes 15 propostas.
1.       Organização de um calendário de eventos culturais nas livrarias tendo o livro e a leitura como pretexto. Haveria uma melhoria na difusão do livro e dele todos beneficiariam, incluindo os autores que contariam com muito mais divulgação. Seria importante poder contar com o apoio de escolas (públicas, cooperativas e particulares), no sentido de facilitar a deslocação de crianças para assistirem e participarem em algumas destas iniciativas (por ex., hora do conto, declamação de poesia, audição de criadores e de pessoas mais idosas e de distintas pertenças étnicas e religiosas para despertar o conhecimento sobre arte e história e a convivência inter-geracional, comunitária, cultural e religiosa), integrando-as numa relação escola-comunidade que urge aprofundar e tornar parte quotidiana da cidade, um elo cívico.
2.       Criação de uma base de dados (informatizada e integrada em intranet ou na internet) abarcando todos os livros disponíveis tanto de livrarias como de editores aderentes, trabalho a ser realizado enquanto estágio formativo por desempregados ou por estudantes (enquanto componente prática de cursos técnicos BAD ou universitários ligados às ciências da informação) destinado a futuros documentalistas, bibliotecários, livreiros, vendedores, etc., e devendo concitar-se (dado o seu interesse para a sociedade e a economia) o apoio oficial sob o modo de comparticipação financeira desses estágios (através do Ministério da Cultura e/ou do Ministério do Trabalho) e realizar-se parcerias com outras instituições, como as universidades com estes cursos e a Associação Portuguesa de Bibliotecários, Documentalistas e Arquivistas (BAD).
3.       Criação de cursos de formação para livreiros e outros agentes do sector (como os vendedores, mediadores entre editores e livreiros e cuja profissão está hoje em risco), paralelamente aos estágios acima referidos, apoiados oficialmente e pela BAD.
4.       Realização de consultas junto dos parceiros aderentes para satisfazer pedidos de obras inexistentes no stock da livraria ou da editora, melhorando assim a capacidade de resposta, em vez do useiro “está esgotado” ou “não temos de momento”. Também a consulta do editor é necessária, em vez do tal “está esgotado”.
5.       Participação activa de uns e outros na divulgação do livro e na animação da leitura quer nos media do Estado quer através de um programa de comunicação eficaz junto dos órgãos de comunicação social (em especial dos públicos), das bibliotecas públicas (municipais e escolares) e outras instituições.
6.       Recuperação da profissão de livreiro para efeitos fiscais, um direito elementar atendível face ao facto de existirem outras profissões do sector do livro reconhecidas pelas entidades competentes (como as de editor, tradutor, etc.).
7.       Exigência do cumprimento escrupuloso da Lei do preço fixo do livro, pilar de salvaguarda da bibliodiversidade, impondo-se a fiscalização permanente da sua aplicação por parte da Inspeção Geral das Actividades Culturais (reforçando-se a respectiva equipa caso seja necessário) e a punição célere e agravada das violações deste diploma, atendendo a que estas têm vindo a acumular-se e os prevaricadores são, regra geral, reincidentes.
8.       Aplicação de procedimentos legais de combate à concorrência desleal decorrente do abuso de posição dominante por parte dalgumas entidades, nomeadamente proibindo e punindo a imposição de condições leoninas altamente desfavoráveis às editoras independentes, como a exigência de grandes descontos no preço do livro e o protelamento do pagamento das vendas, entre outras.
9.       Aplicação de procedimentos legais que evitem a penalização das pequenas e médias editoras no quadro do Plano de Revitalização Económico, tanto enquanto credores que são obrigados por este diploma a abdicarem automaticamente de 50% do crédito como pela ausência de garantias legais no cenário de incumprimento do plano acordado e do recurso à declaração de insolvência, como ocorreu já em vários casos (veja-se o exemplo recente das livrarias Bulhosa).
10.   Atribuição de certos apoios às editoras independentes em dificuldades – à imagem do que é feito em França, Canadá e outros países –, como a redução de impostos, da carga fiscal burocrática e a concessão de crédito com melhores condições.
11.   Criação de um pacote para dinamização da presença dos editores e livreiros nos espaços lusófono e ibero-americano, incluindo o reforço dos estímulos à divulgação, ao intercâmbio e à exportação do livro (sendo central a redução dos custos de transporte) e o apoio à participação em feiras do livro.
12.   Estudo de medidas para enfrentar os efeitos negativos decorrentes da existência dum duopólio do livro escolar por parte dos grandes grupos editoriais.
13.   Apelo às juntas de freguesia e municípios para reforçarem o orçamento destinado à actualização do recheio bibliográfico das suas bibliotecas, tendo em atenção a necessidade de salvaguardar uma proporção significativa de aquisições às editoras independentes, bem como a necessidade de se estudar esta situação a nível nacional.
14.   Apelo às juntas de freguesia, municípios e Estado central para reforçarem o orçamento destinado às actividades culturais promotoras do livro e da leitura (p. ex., hora do conto, declamação de poesia, oficinas artísticas), sendo crucial dotar estas iniciativas de recursos próprios, incluindo a justa remuneração do trabalho intelectual e artístico envolvido nessa programação.
15.   Relançamento do programa de cofinanciamento de bibliotecas municipais de modo a que o país fique totalmente coberto por uma rede de bibliotecas públicas, incluindo nesta as unidades itinerantes nos territórios mais carenciados, com maior área e/ou mais densamente povoados, em diálogo com os municípios e as comunidades.

É do entendimento dos subscritores desta carta aberta que a crise que o sector do livro e da leitura atravessa só poderá ser superada se as entidades competentes ponderarem urgentemente soluções construtivas como as que são avançadas aqui. Além disso, estas medidas terão tanto mais eficiência quanto mais parcerias se conseguirem criar. Daí o apelo ao envolvimento de todas as entidades interessadas na promoção de uma cultura sustentável e cidadã, onde a bibliodiversidade, o pluralismo e a capacitação de todos sejam pilares duma sociedade democrática, progressista e em constante renovação.

Lisboa, 17 de Abril de 2018

Os primeiros subscritores,

José Antunes Ribeiro (editor-livreiro na Espaço Ulmeiro Associação Cultural, ex-fundador da Assírio & Alvim e da Ulmeiro)
Assírio Bacelar (editor na Nova Vega, ex-fundador da Assírio & Alvim)
Daniel Melo (historiador, investigador em política cultural e história do livro e da leitura)


[1] Veja-se, a título de exemplo, a Convención sobre la protección y la promoción de la diversidad de las expresiones culturales, de 2005 (<http://es.unesco.org/creativity/convencion/que-es/texto>).

AS OBRAS PIONEIRAS APRESENTADAS NO LICEU PEDRO NUNES


(clicar para ler)

No próximo dia 10 de maio, pelas 10h30, o Liceu Pedro Nunes, em parceria com o Ministério da Educação, o Círculo de Leitores e a Cátedra Infante Dom Henrique, irá promover uma sessão de apresentação da coleção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa.

Esta sessão será presidida pelo Senhor Secretário de Estado da Educação, o Professor Doutor João Costa, e pretende dar a conhecer ao grande público, bem como ao universo escolar, os 30 volumes desta coleção em publicação. Em particular, nesta ocasião, serão apresentados também os dois mais recentes volumes editados: Primeiros Relatos de Viagens e Descobrimento e Primeiras Narrativas de Naufrágios.
​Abaixo e em anexo fazemos seguir a nota de imprensa e o convite oficial.

Convidamos vivamente à presença e agradecemos ampla divulgação.


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Sobre as Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa (OPCP), convidamos ainda a acompanhar a série especial do Programa A Ronda da Noite (Antena 2), através da qual Luís Caetano conduz o diálogo com diversos coordenadores deste empreendimento editorial, que visa trazer à luz do conhecimento o ADN da Cultura Portuguesa.

Luís Caetano convida José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais (Diretores OPCP)
​Luís Caetano convida José António Souto Cabo (coordenação Primeiros Textos em Português):

Luís Caetano convida Aida Lemos (coordenação linguística OPCP):

segunda-feira, 7 de maio de 2018

"A LÍNGUA DOS DEUSES"


Introdução de "A Língua dos Deuses: 9 razões para amar o grego" de Andrea Marcolongo (na foto) que acaba de sair na Gradiva, um livro que louva e divulga a língua grega:

"O mar queima as máscaras
Incendeia‑lhes o fogo do sal
Homens cobertos de máscaras
Acendem‑se no litoral.
Só tu poderás resistir
Na pira do Carnaval.
Só tu, a que sem máscaras
Esconde a arte de existir.

Giorgio Caproni, in Cronistoria

É «estranho» — muito estranho — «o facto de querermos saber grego, de nos esforçarmos por saber grego, de nos sentirmos atraídos pelo grego e insistirmos em fazer uma ideia do significado do grego, com base em sabe‑se lá que pormenores incongruentes e sabe‑se lá em que vaga semelhança com o significado real do grego», escreve Virginia Woolf. Porque «na nossa ignorância seremos sempre e apesar de tudo os últimos da classe, uma vez que não sabemos que som tinham as palavras gregas nem em que ocasiões precisas será apropriado rirmo‑nos».

Também eu sou estranha — muito estranha.

E estou grata a esta minha estranheza, que me conduziu sem combinação prévia, como todas as coisas belas que acontecem na vida, a escrever este livro dedicado ao grego antigo. E fui obstinada ao ponto, não só de querer saber grego, mas ainda de o divulgar.

A vós, leitores. Sempre a última da classe, naturalmente, mas talvez agora sabendo pelo menos dizer‑vos onde exactamente deveremos rir‑nos.

Língua morta e língua viva.
Tortura do liceu e aventuras de Ulisses.
Tradução ou hieróglifos.
Tragédia ou comédia.
Compreensão ou mal‑entendido.
Sobretudo, amor ou desamor.
Revolta, portanto.
Compreender o grego não é questão de talento, mas de militância — como a vida.

Se escrevi estas páginas foi porque me apaixonei pelo grego antigo quando era criança: feitas as contas, o amor mais longo da minha vida.

Agora, adulta, gostava de tentar oferecer (ou restituir) um pouco de amor àqueles que se desapaixonaram: quase todos os que se debateram — em criança — com esta língua de adultos nos anos do liceu. E gostava até de fazer apaixonar aqueles que não conhecem nada dela.

Sim, este livro fala, antes de mais, de amor: para com uma língua, mas sobretudo, para com os seres humanos que a falam — ou, se já ninguém a fala, para com aqueles que a estudam porque são a isso obrigados ou irremediavelmente atraídos.

Não importa portanto se o leitor sabe grego antigo ou não. Não estão previstos exames de aferição nem testes de surpresa — surpresas, pelo contrário, sim. E muitas.

Não importa sequer que tenham estudado línguas clássicas no liceu. Se não estudaram, melhor. Se conseguir estar à altura de vos guiar no labirinto do grego com a minha fantasia, irão chegar ao fim do caminho com novos modos de pensar o mundo e a vossa vida, seja em que língua for que a expressam em palavras.

Se estudaram, melhor ainda. Se conseguir responder a perguntas que nunca se vos colocaram ou que nunca tiveram resposta, talvez no final desta leitura tenham recuperado partes vossas perdidas numa juventude passada a estudar grego sem perceber bem o porquê e que talvez se vos possam tornar úteis, tão úteis, agora.

Em ambos os casos, estas páginas constituirão um modo de nos divertirmos, eu e vós, a pensar em grego antigo.

Cada um de vós já deve ter‑se confrontado, no decurso da vida, com o grego e com os Gregos. Uns com as pernas apertadas sob os bancos do liceu, outros no teatro, frente a uma comédia ou tragédia, outros ainda nos corredores sombrios de tantos museus arqueológicos que inundam a Itália — em todos estes casos, o sentido do ser grego nunca parece mais apaixonante e vivo que uma estátua de mármore.

A todos — mas a todos mesmo — deve ter sido dito mais cedo ou mais tarde, ou nem sequer terá sido dito, porque há mais de dois milénios que a voz que circula é sempre a mesma, de tal forma que está já sob a pele e dentro da cabeça de cada europeu: «Tudo aquilo que de belo e insuperável já foi dito ou feito no mundo foi dito ou feito pela primeira vez pelos antigos Gregos.» E, portanto, em grego antigo.

Praticamente ninguém tem dele um conhecimento directo — a única certeza é que um grego antigo que fale grego antigo é coisa que já não existe. É coisa de que apenas «ouviram falar», ou nem sequer ouviram, como disse acima: é assim e pronto, há séculos. A nossa suposta herança cultural grega foi‑nos pois generosamente confiada por um povo antigo que não entendemos, numa língua antiga que não entendemos.

Formidável.

É terrível a condição daquele que não entende mas a quem foi dito que deve amar: começa de imediato a odiar.

Aparentemente, frente aos mármores do Pártenon ou ao teatro de Siracusa ficamos orgulhosos dos Gregos e do grego antigo, como se eles fossem obra dos nossos antepassados, de uns nossos trisavós afastados. Gostamos de os imaginar ao sol de uma qualquer ilhota, ocupados a inventar a filosofia ou a historiografia, ou então sentados num teatro implantado no declive de uma qualquer colina enquanto assistem a uma tragédia ou a uma comédia; ou ainda, de noite, a observarem um céu repleto de estrelas enquanto descobrem a ciência e a astronomia.

Mas, cá bem no fundo, sentimo‑nos sempre inseguros de nós mesmos, postos face a uma interrogação sobre uma história que não é nossa, como se tivéssemos esquecido qualquer coisa da antiga Grécia. E a língua grega é precisamente essa qualquer coisa que não entendemos.

«O grego: aquele absurdo, trágico, instante do humano», para citar Nikos Dimou e toda a sua infelicidade.

Portanto, não se trata apenas de estarmos à beira do estatuto de deserdados e desadaptados desta herança cultural do grego antigo. Se ainda tentamos recuperar uma migalha daquilo que a grecidade nos deixou em herança, somos vítimas de um dos sistemas escolares mais retrógados e obtusos do mundo (na minha opinião, naturalmente, sempre a última da classe e talvez, depois deste livro, chumbada e expulsa).

O liceu clássico, tal como está estruturado, parece não ter outro objectivo que não seja o de manter os Gregos e o seu grego o mais inacessíveis possível, mudos e gloriosos lá em cima no Olimpo, envoltos num temor reverencial que se transforma com frequência num terror divino e num desespero muito terreno.

Os métodos de aprendizagem utilizados, excepção feita a poucos e iluminados professores, são uma garantia perfeita de ódio, em vez de amor, para quem ousa aproximar‑se da língua grega. A consequência é a rendição incondicional face a esta herança que já não queremos porque, mal a afloramos, não a entendemos e fugimos aterrorizados. A maioria, mal se liberta da obrigação escolar, queima atrás de si as barcas do grego.

Outros tantos serão os leitores que reconhecerão neste livro a memória pegajosa dos seus medos, dos seus esforços, da sua raiva, da sua frustração com o grego antigo, reconhecendo‑se nos meus. E no entanto estas páginas nascem da convicção de que não tem sentido saber uma coisa que não se recorda, sobretudo se a estudámos com esforço durante cinco anos ou mais.

Este livro não é por isso uma gramática convencional do grego antigo, nem descritiva nem normativa. Não tem nenhuma presunção académica (essas existem em demasia desde há milénios). Tem, é certo, uma forte pretensão de paixão e desafio. É uma narrativa literária (e não literal) de algumas particularidades de uma língua magnífica e elegante como o grego antigo — aquele seu modo de exprimir de forma fulminante, sintética, irónica, aberta da qual — somos sinceros — sentimos uma nostalgia involuntária.


Seja o que for que vos disseram (e sobretudo não vos disseram), o grego antigo é, antes de mais, uma língua.

Cada língua, com cada uma das suas palavras, serve para representar um mundo. E este mundo é o vosso. É graças à língua que podem formular uma ideia, dar voz a uma emoção, comunicar um estado, exprimir um desejo, ouvir uma canção, escrever poesia.

Nestes nossos tempos, em que todos estamos ligados a alguma coisa e quase nunca ligados a alguém, onde as palavras caíram em desuso, substituídas por emojis e outros pictogramas modernos; neste mundo cada vez mais veloz e nesta realidade tão virtual que agora vivemos em diferido de nós mesmos, já não nos entendemos, de facto, por palavras.

A língua, ou o que dela resta, está a tornar‑se cada vez mais banal: quantos de vocês já telefonaram hoje (quero dizer: digitaram efectivamente um número para escutar uma voz humana) por amor? E quando foi a última vez que escreveram uma carta (quero dizer: com uma esferográfica numa folha de papel) e lamberam um envelope e um selo?

O fosso entre o significado de uma palavra e a sua interpretação aumenta hora a hora, tal como os mal entendidos e os não ditos, de forma directamente proporcional aos remorsos e aos fracassos. Está a perder‑se pouco a pouco a capacidade de falar uma língua, seja ela qual for. De nos entendermos e nos fazermos entender. De dizermos coisas complexas com palavras simples, verdadeiras, honestas: eis a potência do grego antigo.

Vai parecer‑vos estranho (eu declarei desde o início que sou estranha), mas a leitura deste livro dedicado ao grego poderá vir em vosso auxílio todos os dias (e não para entregar um trabalho escolar atrasado: para isso já basta a vida).

Sim, mesmo aquele grego antigo. Abordado sem medo (e com uma boa dose de loucura), o grego deixa‑se olhar de frente e ainda vos fala. Com uma voz vibrante, pura. Para poder pensar e, portanto, dizer um desejo, um som, o amor, a solidão, o tempo: para se reapossarem finalmente do vosso mundo, agora, e dizê‑lo à vossa maneira. Porque, ainda para citar Virginia Woolf, «é ao grego que regressamos quando estamos cansados da vagueza, da confusão e da nossa época».

Escrever este livro dedicado ao grego antigo foi para mim uma experiência humana extraordinária. Foi como recuperar o sentido das palavras gregas escritas num quadro negro há mil anos e logo apagadas no fim da aula — esquecidas.

Parti da recordação de mim própria, pouco mais que criança, a trabalhar afanosamente com um alfabeto que não era o meu até olhar agora para a língua, portanto para a natureza humana, de uma maneira completamente nova.

Recuperei, de dentro de caixotes sobreviventes de mais de dez mudanças, livros de quando tinha catorze anos, onde anotava ao lado das declinações o nome do companheiro de carteira, até aos manuais universitários que me seguem mais de vida em vida, de cidade em cidade, do que as chaves de todas as casas que tive e abandonei.

Experimentei parar de ter pensamentos que me atormentaram durante mais de uma década, descobrindo que bastava partilhá‑los com as pessoas que me rodeavam: também elas estavam a pensar as mesmas coisas, a maior parte das vezes sem o saberem. Nunca as tínhamos dito uns aos outros.

Ajudei em 2016 jovens a debaterem‑se com o liceu clássico: as perguntas que eles me fizeram foram as mesmas que eu me colocava quando também era inexperiente no grego, e sobretudo na vida. E, uma vez perguntado, é impossível fazer retroceder a curiosidade, ela obstina‑se; exactamente como eu fiz, ainda que tenha demorado tanto tempo a encontrar ou imaginar a resposta.

Ri‑me com imensos amigos, agora adultos, que passaram pelas mesmas desventuras com o grego antigo, descobrindo que qualquer pessoa que se aproxime desta língua tem uma série de tristes figuras escondidas na gaveta — eis, precisamente, o sítio onde nos devemos rir.

Tentei, sobretudo, contar as estranhezas do grego antigo a quem nunca o estudou. É incrível: entenderam‑me, entendemo‑nos. E bem. Talvez melhor.

Eu, que sou tão estranha, aprendi a olhar para o tempo de outra maneira, graças ao aspecto da língua grega, e a dizê‑lo.

Soprei tantos dentes‑de‑leão exprimindo desejos no optativo e fazendo contas com a minha vontade de os realizar que restam hoje muito poucos nos campos de fim da Primavera em Sarajevo.

Disse amo‑te no dual, um número da língua grega que significa nós ambos — só nós.

Reconheci a crueldade do silêncio imposto, mas também que certa música não a ouvimos apenas, também a vemos.

Fiz até as pazes com o meu nome masculino, Andrea, uma causa que pensava estivesse perdida para sempre.

Ao escrever este livro, a «estranheza que tenho na cabeça» tornou‑se paradoxalmente menos estranha. Em resumo, graças ao grego antigo — entendendo‑o ou pelo menos intuindo‑o — consegui dizer muito mais coisas, e não menos, a mim própria e aos outros.

Espero que o mesmo vos aconteça ao lerem estas páginas. E que possam chegar ao fim sabendo rir e apreciar o grego antigo, pelo menos uma vez na vida.

"A força das coisas": Luís Caetano fala na Antena dois com João Paulo André, autor de "Poções e Paixões.Química e Ópera"

https://www.rtp.pt/play/p321/e344733/a-forca-das-coisas

"Uma viagem aos Algarves e outros contos do Sul" de António Manuel Venda

sexta-feira, 4 de maio de 2018

"CÁLCULO E ZOMBIES" OU COMO A MATEMÁTICA PERMITE SALVAR o MUNDO

"TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR AO SOL"



Na próxima 4ª feira, dia 9 de Maio, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra 
"Todos os caminhos vão dar ao Sol", por João FernandesProfessor do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, Director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra.


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.

Resumo da palestra:
"Trabalho num Observatório há mais de 20 anos que observa o Sol, diariamente, há mais de 90. Assim, nas últimas duas décadas o Astro-Rei passou a fazer parte do meu dia-a-dia científico e académico no Observatório da Universidade de Coimbra (e fora dele também!). O Sol faz parte do dia-a-dia de todos nós e não imaginamos a nossa vida e nem a Vida sem ele, seja em que perspectiva se olhe, seja científica, tecnológica, sociológica, cultural, etc. Nesta palestra vamos dar enfoque a várias "faces" solares que as ciências e as tecnologias nos mostram. Algumas delas podem ser surpreendentes. Para mim foram-no."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Amanhã: "Sagração da Primavera" no TAGV em Coimbra, com entrada livre


Ver anúncio aqui.

Minhas respostas a Marina Ferreira, do jornal académico A CABRA, sobre a conferência - concerto de amanhã em Coimbra sobre a "Sagração da Primavera" de Stravinsky:

- Em que consistirá a sua intervenção:

Antes de a Orquestra Metropolitana de Lisboa (grupo de percussão) tocar, a 3 de Maio, 15 horas, no TAGV a "Sagração da Primavera" do compositor de origem russa Igor Stravinsky darei uma breve palestra, em que, para além de apresentar o autor e a obra, colocando-a no quadro da época em que foi escrita (início do século XX), falarei das relações entre música e ciência.

Chamarei a atenção para o facto de a obra, considerada a música mais revolucionária do século, ter sido estreada em Paris no ano de 1913, precisamente no mesmo ano em que foi publicado o modelo atómico de Niels Bohr, um dos desenvolvimentos mais revolucionários da física do século passado. No ballet "Sagração da Primavera" interpretado pelos famosos "Ballets Russos" havia uma música e uma coreografia modernas, que muitos acharam estranhas, tão estranhas que houve quase um motim de um certo sector do público  na estreia. Na teoria atómica de Bohr, que era um avanço da teoria quântica, também havia motivos para estranheza: os electrões do  átomo só podiam ocupar certas órbitas e as emissões ou absorções de luz só aconteciam quando havia saltos entre as órbitas. Mas, "primeiro estranha, depois entranha-se" (a expressão noutro contexto é de Fernando Pessoa). A música de Stravinsky acabou por triunfar assim como o modelo de Bohr, que com algumas modificações ainda hoje persiste.

- De que modo a ciência e a música se unem neste concerto-conferência?


Tanto na música como na ciência aconteceram mudanças profundas no início do século XX. E de resto nas artes não foi só na música: foi também o aparecimento de novas correntes artísticas nas artes visuais, como o cubismo, o futurismo e o surrealismo. Do mesmo modo, as mudanças na ciência não foram só a teoria quântica: foi também quase na mesma altura que Einstein criou a sua famosa teoria da relatividade, que veio substituir a mecânica clássica. Tal como noutras ocasiões da história, houve em vários domínios uma explosão de criatividade, um salto grande na imaginação. Sim, tanto na artes como na ciência é preciso imaginação. Mas há diferenças entre arte  e ciência. A primazia do ritmo relativamente à melodia e as surpreendentes mudanças rítmicas na obra de Stravinky resultam da sua imaginação. Já na ciência os "ritmos" atómicos são naturais: não são uma criação  da mente de Bohr. Mas Bohr precisou, sem dúvida, de imaginação para lá chegar.

- Qual é o público-alvo do concerto-conferência?


O concerto é aberto e gratuito. Mas espera-se que ao TAGV venham sobretudo jovens, quer da Universidade quer do Politécnico, que queiram conhecer melhor tanto a arte como a ciência. Que queiram ouvir a peça musical mais famosa do reportório erudito no século passado. A própria Orquestra é formada, em boa parte, por jovens, de modo que é um concerto de jovens para jovens. Venham ver a capacidade artística dos jovens da Orquestra, que misturados com profissionais, conseguem dar uma nova expressão  a uma música composta originalmente para orquestra, mas que aqui vai ser tocada apenas com instrumentos de percussão. Os sons vão ser todos resultados de batidas, o que reforça a estrutura rítmica da obra..

-  Quais são as suas expectativas relativamente adesão do evento?


Este concerto faz parte de um tour da Orquestra Metropolitana de Lisboa por várias instituições do país. Encheu na Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, no Politécnico de Viseu e no Politécnico de Viana do Castelo. O ciclo intitula-se o "O Tempo e os Tempos da Sagração." Agora a Primavera vai passar por Coimbra: espera-se que a sala encha porque o público jovem de Coimbra gosta de música e este concerto é especial para eles.

Um plágio é um plágio

A escritora Deana Barroqueiro, escritora por quem tenho grande admiração,  tem razão na sua polémica com João Botelho. Tinha também admiração pela obra de João Botelho mas, como não vale tudo, fico agora com opinião negativa sobre os seus métodos de trabalho. Uma obra de arte pode remeter para outras, Mas tem de haver respeito pelo trabalho criativo dos outros. Botelho enredou-se em contradições e o estilo que adoptou só lhe fica mal. Leia-se a resposta da escritora:

https://www.publico.pt/2018/05/01/culturaipsilon/opiniao/o-vampiro-as-hienas-e-a-zombie-1815820

O FORTE ENCORAJAMENTO DAS POLÍTICA EDUCATIVAS PORTUGUESAS PELA OCDE

Na continuação de textos recentes: aqui e aqui.

No documento "Currículo dos ensinos básico e secundário: Documento síntese", que esteve em discussão pública até ao passado dia 30 de Abril, disponibilizou-se a ligação para a avaliação externa que a OCDE fez desse Projecto ao longo do corrente ano lectivo (cf. final da página 5). No relatório dessa entidade, intitulado"A Brief Summary of Preliminary Findings: Review of the Project for Autonomy and Flexibility” pode ler-se o que se segue:
Portugal é encorajado a continuar os seus esforços para preparar escolas, professores e estudantes virados para o futuro. 
Andreas Schleicher, Diretor da Direcção de Educação e Competências, OCDE, apresentou, em 9 de fevereiro de 2018, as conclusões preliminares da revisão que a OCDE fez da iniciativa do actual Ministério designada por “Projeto de Autonomia e Flexibilidade”. A equipa de revisão da OCDE realizou um estudo de campo entre 15 e 19 de Janeiro de 2018 e retirou conclusões preliminares sobre as pontos fortes, desafios e considerações para os próximos passos (...) 
Andreas Schleicher saúda a iniciativa como uma forma de permitir e incentivar escolas e professores a encontrarem soluções e inovações locais. 
A iniciativa está alinhada pela recomendação da OCDE - OECD's Skills Strategy Diagnosis for Portugal - de "ajustar o poder de decisão para satisfazer as necessidades locais". A economia portuguesa está em recuperação, mas aumentar os níveis de competência das crianças de hoje é essencial para um melhor futuro para Portugal. Não podemos prever o future, mas temos de estar abertos e preparados para o que vier. As crianças portuguesas de hoje criarão o futuro da economia e da sociedade (…). Precisam de aproveitar as oportunidades e encontrar soluções para desafios ainda desconhecidos. Que tipo de competências os estudantes de hoje precisam para criar um novo futuro de Portugal? 
Os conceitos subjacentes do perfil dos estudantes portugueses estão em consonância com o programa de aprendizagem da OCDE Quadro de Aprendizagem 2030. 
Os alunos mais bem preparados para o futuro são agentes de mudança, podem ter um impacto positivo no seu meio, influenciar o futuro, compreender as intenções, acções e sentimentos dos outros, e antecipar as consequências, a curto e longo prazo, do que fazem. O Quadro de Aprendizagem 2030 da OCDE reconhece que o conceito de "competência" implica mais do que apenas a aquisição de conhecimentos e habilidades; envolve a mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para dar resposta a desafios complexos.

Outras iniciativas lançadas pelo Ministério também estão de acordo com os esforços que outros países estão a fazer para melhorar a excelência e equidade em seus sistemas de ensino. Tais iniciativas incluem: 
• Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar 
• Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania 
• Núcleo curricular essencial 
• Orientações curriculares para a educação pré-escolar 
• Formação em serviço 
• Nova lei para a inclusão 
• Mudanças na avaliação (promoção de avaliação formativa e diversidade de instrumentos) 
• InCode 2030 [ver aqui] 
• Plano Nacional de Leitura e Rede de Bibliotecas Escolares 
Os especialistas da OCDE analisaram os pontos fortes e os desafios da experiência piloto e tecem considerações (…) em três áreas: 1) estratégia geral, 2) design curricular e 3) implementação do currículo. 
1. A estratégia global é importante para uma mudança sustentável. 
A equipa de revisão da OCDE destaca particularmente a importância do alinhamento entre o Perfil do aluno, o currículo, as pedagogias, as avaliações, a formação de professores e o seu desenvolvimento profissional, e a preparação de líderes escolares. 
O Projecto está em consonância com a revisão da OCDE sobre a Estratégia Nacional de Competências, destinada a melhorar a qualidade e equidade da educação, definindo condições que o permitam, tais como ajustar as decisões às necessidades locais no sentido de construir capacitação e estabelecer parcerias segundo uma política de competências baseada em evidências. Além disso, a equipa de revisão identificou o seguinte:  
Pontos fortes 
• Pensamento estratégico: existe uma clara Teoria da Acção para uma mudança. 
• “Perfil do aluno” com resultados alargados, bem como um forte senso de propriedade 
• Abordagem estratégica para divulgação, por ex. "Dia do perfil do aluno" em 15 de janeiro de 2018 
• A "abertura para reflexões" do Ministério em relação ao piloto. 
Desafios 
• Conflito com as avaliações associadas /articulação entre diferentes tipos de avaliação (interna/externa) 
• Incompreensão que uma “maior flexibilidade curricular” e “aprendizagens essenciais conduz a um "abaixamento dos padrões de aprendizagem" 
• Conflito com o modelo dominante de alta centralização: conflitos entre o modelo de aprendizagem patente no projecto-piloto e o sistema existente, altamente prescritivo e centralizado 
• Choque cultural: a experiência dos alunos de abordagens participativas, relevantes, baseadas em competências, no currículo flexível, em comparação com a profunda insatisfação com a oferta “tradicional” nas escolas 
• Envolvimento adicional de escolas não-piloto em iniciativas nacionais, por ex, Perfil do aluno. 
Considerações para os próximos passos 
• Intensificar a recolha de evidências de impacto do projecto-piloto: evidência de melhoria do envolvimento e resultados do aluno; evidência de melhoria do bem-estar dos professores; provas de boas práticas a todos os níveis. 
• Investimento prioritário na capacitação de professores e no desenvolvimento de habilidades liderança. 
• Lançar um debate sobre o ingresso na universi-dade a fim de o alinhar com o Perfil do aluno 
• Cumprir a promessa de estender o projecto a todas as escolas em 2018/19, deixando clara a sua natureza voluntária. 
• Enfrentar consequências esperadas/inesperadas. 
• Assegurar a continuidade da mudança durante longo período de tempo para garantir efeitos reais 
2) O design curricular pode ser uma tarefa de todos, não se limitando à autoridade nacional. 
A equipa de revisão da OCDE assistiu à participação dos alunos e dos professores na elaboração do currículo, evitando a sua "sobrecarga" e a "desactualização". Quando as escolas e os professores planeiam o currículo, isso não só ajuda os alunos a obter melhores resultados como os faz gostar do processo de aprendizagem. Além disso, apoia o desenvolvimento profissional dos professores e dá-lhes uma sensação de importância. 
O Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular abre grandes oportunidades para lidar com problemas cruciais no design curricular que são comuns aos países da OCDE. Um deles é a "sobrecarga do currículo” [decorrente] de solicitações dos pais, das universidades e dos empregadores. Como consequência, é frequente os alunos não dis-porem de tempo suficiente para consolidar conceitos-chave das disciplinas ou desenvolver os interesses típicos de uma vida equilibrada: cultivar amizades, dormir e fazer exercício. É tempo de mudar de "mais horas para aprender" para "tempo de aprendizagem de qualidade". Outro é "reduzir desfasamentos", as reformas curriculares sofrem, em geral, de desfasamentos entre o reconhecimento, a tomada de decisão, a implementação e a verificação do impacto. A diferença temporal entre as intenções que guiam o currículo e o resultado da aprendizagem são geralmente demasiado amplos. 
A flexibilidade e a autonomia tendem a apoiar escolas e professores [nestes dois desafios]. A equipa de revisão encontrou o seguinte nas escolas-piloto: 
Pontos fortes 
• O processo envolveu audição de directores, associações de professores, sindicatos, Conselho Nacional de Educação, investigadores, parceiros sociais, representantes dos pais, estudantes. Assim, as partes interessadas entenderam de modo mais amplo os propósitos da educação, conforme o projecto-piloto e o Perfil do Aluno.   
• O projecto-piloto […] permite, a nível legal, a todas as escolas para aderirem espontânea e progressivamente às possibilidades dadas pelo design curricular, especialmente escolas com justificação exemplar para o uso de pedagogias experimentais, por ex. aprendizagem baseada em projectos e avaliação formativa. 
• O projecto-piloto permitiu que os professores projectassem e experimentassem um desenvolvimento profissional significativo na escola. 
• O projecto-piloto permitiu que os professores experimentassem e valorizassem a diversidade curricular com vista à inclusão e equidade. 
• O projecto-piloto permitiu que os alunos experimentassem e valorizassem [o] princípio curricular da “autenticidade”: - oportunidade de aprender a trabalhar e aprender com colegas (por vezes de anos diferentes); - oportunidade de construir relacionamentos positivos com os professores; - oportunidade de fazer escolhas que reflictam os seus interesses; - oportunidade de apresentar o seu trabalho não só ao professor, mas também na comunidade, para outros fins que não os académicos, como a apresentação em feiras de ciências e usando conhecimentos e habilidades relevantes para resolver problemas escolares e comunitários; - relevância para o futuro (trabalho universitário, trabalho profissional, tornar-se cidadão), - oportunidade de estabelecer a ligação entre as escolas e profissionais da comunidade; - diversidade de métodos de aprendizagem (por exemplo, aprendizagem activa). 
Desafios 
• Dilema entre […] ensinar para o exame nacional vs. aprendizagem activa, avaliação formativa, etc. 
• Complexidades técnicas, por ex. estruturar o tempo escolar, organizar a aprendizagem interdisciplinar […].
• Escalonamento e sustentabilidade: por ex. - Priorizar a aprendizagem e o envolvimento do aluno - Uma cultura de aprendizagem, confiança, criatividade, assumir riscos de forma ponderada, - Colaboração regular entre professores; colaboração de estudantes, reflexão e acção para melhorar a prática; envolver e construir parcerias com a comunidade e outras entidades. 
• Gerir diferenças entre práticas escolares. 
Considerações para os próximos passos 
• Continuar a recolher informações dos professores sobre as experiências piloto, investigar diferentes modelos curriculares e partilhá-los com todas as escolas para garantir a equidade.
• Identificar “escolas farol” que outras escolas possam visitar e ver o sucesso do projecto, do Perfil do aluno e da política curricular em acção ainda que evitando a tendência de “padronizar”. 
• Garantir que o projeto-piloto seja difundido pelas escolas para garantir igualdade e igualdade de acesso a todos os alunos.
• Construir clareza sobre a competência a ser alcançada pelos alunos com TIC para apoiar melhor projecto de currículo flexível.
3) Continuidade, escalonamento e capacitação são chaves para a implementação eficaz do currículo. 
A equipa de revisão da OCDE concluiu que a natureza voluntária do projecto deu margem legal aos professores que queriam experimentar as suas inovações educacionais e aos professores que precisavam de mais tempo para tranquilamente fazer mudanças ao seu próprio ritmo.    
Pontos fortes 
• A natureza voluntária da flexibilidade garante mudanças incrementais para os líderes escolares e para os professores. 
• O projecto-piloto ajudou a identificar líderes es-colares e professores entusiasmados, como fonte de boas práticas, por ex. professores trabalhando juntos.
• O projecto-piloto capacitou professores exemplares ao legitimar e transmitir boas práticas.
• O projecto-piloto reuniu evidências emergentes de inovação, liderança e criatividade, e relativas ao bem-estar do professor. 
Desafios 
• A mudança cultural para líderes escolares e professores: da preparação para o exame nacional para mais forma colaborativa de trabalho, diferente papel dos professores, valorizando a agência estudantil e co-agência. 
• Networking e intercâmbio profissional: é organizado de forma ad hoc ou informal. O grau e relevância cabe aos líderes da escola. 
• Ensinar estrutura e status da força de trabalho: mais antigo que a média da OCDE, status de ensino profissão. 
• Diferentes graus de inovação curricular dentro e entre as escolas. 
Considerações para os próximos passos 
• Garantir a continuidade do passado, presente e futuro.
• Dar prioridade ao treino de líderes escolares.
• Usar o projecto-piloto como uma oportunidade para cultivar/mudar uma cultura de feedback do professor.
• Criar um novo caminho para a profissão docente (como parte da preparação da reforma de uma grande parte do corpo docente), por ex. qualificações de suporte pedagógico, TIC, gestão de projectos. 
• Coleccionar bons exemplos, por ex. características específicas das boas práticas, modelos emergentes de “colaboração interdisciplinar”, diferentes práticas de avaliação.
• Capitalizar nos meios existentes, por ex. agrupamentos escolares, rede de bibliotecas, associação de assuntos profissionais para promover boas práticas.

UM SILÊNCIO ESTRONDOSO


Minha crónica no Público de hoje (na foto Pinho e Sócrates):

A notícia sobre os recebimentos não declarados de Manuel Pinho quando era ministro da Economia no governo de José Sócrates entre 2005 e 2009 está a transformar-se num tsunami que pode causar dano à democracia portuguesa. Segundo revelou o Observador, Pinho recebeu nessa altura, através de um esquema de offshores, a quantia de 14.963,94 euros por mês, num total de cerca de meio milhão de euros, sendo esta apenas uma parte dos 2.110.672,80  euros recebidos entre 2002 e 2014. A proveniência é o chamado “saco azul” do BES, banco para o qual Pinho trabalhou antes e depois de ser ministro e que era accionista da EDP, empresa que terá beneficiado. O recebimento por um ministro de uma quantia destas viola a mais elementar ética política. O caso é decerto judicial, mas é primeiro que tudo político. Se um membro do governo tinha uma remuneração extra num valor que excedia largamente o seu salário, isso significa que o servidor do Estado servia a mais alguém, que parece estar acima do Estado. É a credibilidade do sistema político que está em causa.

Pinho, se estivesse a ser injustiçado, só tinha uma atitude: desmentia, imediata e categoricamente, a notícia. Não o fez: o seu silêncio é estrondoso, faz muito mais barulho do que se falasse. Algumas vozes do PS, partido em cujas listas ele foi eleito deputado em 2005, foram dizendo o óbvio. Primeiro a deputada europeia Ana Gomes disse que o PS devia reflectir sobre como “se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos” e depois o presidente e líder parlamentar Carlos César disse que a situação é “incompreensível e lamentável.” O PSD apareceu a seguir, pedindo a comparência de Pinho no Parlamento. Na sequência, o BE, logo apoiado pelo PS e PCP, propôs uma Comissão de Inquérito que escrutinasse as medidas do Ministério da Economia, designadamente na sua relação com a EDP pois tudo indica que o Estado tem estado a pagar rendas excessivas de energia. O advogado de Pinho informou que o seu constituinte aceita prestar declarações ao Parlamento (onde se distinguiu a fazer corninhos!), mas só depois de ser ouvido pelo Ministério Público, o que vai acontecer sabe-se lá quando. Invocou razões ponderosas, que não podia divulgar, para o ex-ministro se quedar mudo e calado. Pinho não percebe que a questão é política para além de judicial, sendo diferentes os meios e os prazos da política e da justiça. E não percebe que o seu silêncio prejudica o PS e, claro, o regime.

José Sócrates, acusado de também ter recebido dinheiros do referido “saco azul”, nada disse até à data sobre os recebimentos indevidos do seu ministro. Os dois partilham segredos de uma governação “incompreensível e lamentável” para não dizer “corrupta e criminosa,” para citar as poucas vozes que procuram salvar a honra do convento. Os dois fazem parte da mesma rede. Para ver como funcionam as redes de influências vale a pena escutar este diálogo telefónico entre Sócrates e Pinho, em que o segundo tenta obter o apoio do primeiro para montar um duvidoso “intercâmbio académico” em Nova Iorque. Na conversa, de Abril de 2014, Sócrates refere Lula (Observador, 21/3/2018):

“MP: É o seguinte: fazer aqui um… programa que envolva países de língua de expressão portuguesa, não é? Ou seja… (…) Oh pá, são 10 dias… eh pá, de… lavagem ao cérebro, pá, convivem com a malta, pá…

JS: Sim, mas quem financia isso?

MP: O que é que eu preciso? Eu preciso de um financiador brasileiro (…)

JS: Mas portanto isso, você precisa do Instituto Lula… Lula da Silva e de uma grande empresa brasileira, que financie isso, não é?

MP: (…) Quantos tipos do PS têm uma experiência destas, de uma semana ou duas nos Estados Unidos onde vão à Bolsa, vão aos museus, vão às galerias, têm umas aulas porreiras, isto e aquilo?”

O que diz António Costa, actual líder do PS e primeiro-ministro? Tanto quanto Pinho, isto é, nada. O seu silêncio também é estrondoso. Tem valido – não sei bem como – a ideia de que o PS nada tem a ver com o caso Sócrates. Mas agora acresce o caso Pinho. Ou o PS se afasta de Sócrates e Pinho, ou fica com a honra manchada. Um fantasma ainda pode caber num armário. Dois já

"Ondas Gravitacionais : uma descoberta que abalou o mundo".

"Governo está a colaborar numa fraude"

MInhas declarações na Ordem dos Médicos sobre autorizações de medicinas alternativas.

https://en.calameo.com/read/000163849714b1d52d75a

LIVROS QUE QUEREMOS LER

http://www.cienciaviva.pt/livrosquequeremosler/index.asp?accao=showbooks&pesqfilter=jovenseadultos

Escolhi "Breve história do tempo" de Stephen Hawking e "A NOoa Aliança" de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers.

terça-feira, 1 de maio de 2018

"Para quê refletir, se temos à mão as receitas e a cartilha da OCDE?"

David Justino, sociólogo, ex-Ministro da Educação e ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação, escreveu um artigo para o jornal Público que saiu hoje, dia 1 de Maio, no qual, tal como António Teodoro (ver aqui) demonstra a forte ingerência da Organização para o Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) nas políticas e medidas que cabe aos Estados determinar.

Abdicando dessa determinação abdicam da uma parte substancial da sua soberania. Um país democrático tem de cumprir o seu projecto educativo, e, portanto, em circunstância alguma pode submeter-se a programas pré-estabelecidos por entidades externas, no caso, globais, que nem sequer são vocacionadas para a educação. 


Pode atender a orientações de entidades dessa natureza e abrangência que trabalhem em prol da educação (a UNESCO, por exemplo) ponderando em liberdade e no exercício da sua autonomia, o que de facto, convém às das novas gerações, que herança lhes quer deixar.

Lamentavelmente, Portugal, à semelhança de países com um pensamento educativo débil, tem-se deixado enredar nas malhas da OCDE. No momento esta entidade dita, implementa e avalia as grandes áreas do nosso sistema de ensino. O Ministério da Educação acolhe, diligencia e legitima.

Voltando ao artigo de David Justino, intitulado "Neobenaventismo com selo OCDE", em relação a esta matéria específica, a determinado passo diz o seguinte:
"(...) orientação da ação pedagógica para a valorização das competências. Uma vez mais, adotou-se de forma acrítica a cartilha da OCDE atestada pela frequência inusitada com que o sr. Andreas Schleicher e os seus peritos passaram a visitar Portugal. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória — aprovado por um mero despacho do secretário de Estado — e as novas orientações curriculares para os ensinos básico e secundário repunham, no fundamental, os princípios do Currículo Nacional do Ensino Básico: Competências Essenciais, lançados por Ana Benavente (2001), agora alargados ao ensino secundário. 
Toda a agenda da OCDE foi incorporada nesta mistura entre as visões românticas da educação e as teorias do capital humano orientadas para as respostas educativas às supostas necessidades do mercado. 
A letra e o espírito da Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) que era a última réstia de uma visão humanista e personalista da educação foram também pervertidas, não obstante as declarações de fidelidade e intransigência para a sua revisão (...) 
Para quê refletir, se temos à mão as receitas e a cartilha da OCDE? Mesmo de órgãos que deveriam ser independentes e críticos das políticas educativas se ouve o apelo do mercado, quando se defende que a escola não está a ensinar o que a economia precisa, confinando a instituição escolar à produção de mão-de-obra para o mercado de trabalho e rompendo com o desejável equilíbrio entre desenvolvimento pessoal, formação cívica e profissional. 
Surpreendentemente, todas estas alterações foram desencadeadas no final de um ano letivo para se aplicarem de imediato no seguinte. Durante o período de exames e férias lançaram-se os instrumentos fundamentais e lançou-se o desafio às escolas para concretizarem o projeto de gestão flexível do curriculum. 
Como princípio, a devolução do poder às escolas para uma melhor gestão do curriculum, nada tenho a opor. O problema reside na forma como, sem informação nem formação, se lançam professores e escolas numa reforma curricular que deveria ser concebida, planeada e lançada com pelo menos um ano de antecedência. 
Sem qualquer avaliação do que se fez e do que se faz, anuncia-se agora uma nova vaga de normativos, programas e orientações curriculares para serem lançados nos próximos três meses e aplicados no próximo ano letivo, de forma generalizada, a todas as escolas do ensino básico e secundário de todo o país. 
Que avaliação foi feita da experiência em curso? Que ações foram desenvolvidas para conferir à reforma a indispensável sustentabilidade que vá além dos ciclos político-eleitorais? Houve algum esforço de consensualização com as restantes forças partidárias, de forma a garantir a continuidade das alterações? 
As respostas a estas questões são invariavelmente negativas. Tudo é feito de supetão, sem diagnóstico, nem avaliação rigorosa e honesta dos problemas, sem espírito de compromisso, nem planeamento atempado das mudanças que se pretendem introduzir, como atrás afirmámos, sem informação, nem formação. 
Não estranhem que no futuro qualquer outro governo de cor diferente e à semelhança de governos anteriores proceda da mesma forma e retome a sanha reversiva. Tal como agora, os efeitos recairão em cima dos professores e dos alunos, das escolas e dos seus diretores, só porque não conseguiram cumprir a visão iluminada de quem nos desgoverna. 
O que se está a fazer no atual Ministério da Educação não se limita a reverter as políticas do anterior Governo, o seu alcance vai muito para além dele. É um regresso aos últimos anos do século passado e primeiros do atual (...) o indiferentismo perante a submissão à cartilha da OCDE e à evidente instabilidade que se lança sobre as escolas e os contextos de aprendizagem."

Dia do trabalhador ou dia do "precariado"?

Donskis"Há aqui um vácuo moral criado por uma 
tecnologia que se sobrepôs à política (...) 
BaumanTanto quanto sei, foi o professor e economista 
Guy Standing que (acertando em cheio) cunhou o termo 
"precariado" para substituir, ao mesmo tempo, os conceito 
de "proletariado" e "classe média", porque ambos ultrapassaram 
em muito o seu prazo de validade, tornando-se verdadeira e 
plenamente «termos zombies». como os classificaria Ulrich Beck"

Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis, 2016, pp. 15 e 84


No passado dia 22 de Abril, o jornalista Pedro Curvelo, dava conta no jornal online Negócios de um relatório do Banco Mundial (ver aqui) recentemente disponibilizado e ainda em forma de documento de trabalho. O seu título é "The changing nature of work" ("A mudança da natureza do trabalho") e reporta-se ao próximo ano de 2019.

O título do artigo de Pedro Curvelo é suficientemente chamativo para despertar curiosidade: "Banco Mundial propõe baixar salários mínimos para enfrentar robôs". Escreveu ele:
O Banco Mundial propõe a redução dos salários mínimos e mais facilidades na contratação e despedimentos como forma de minimizar a ameaça que a automatização da economia constitui para o mercado de trabalho. 
Tendo em conta que substituir trabalhadores por máquinas reduz custos (...) uma boa forma de combater o "avanço dos robôs" seria reduzir os salários mínimos e flexibilizar as leis laborais, facilitando os despedimentos (...) o Banco Mundial sublinha que a ameaça das tecnologias para o emprego é "largamente exagerada" (...). O documento admite que a automatização irá provocar perda de postos de trabalho nalguns sectores, mas sublinha que irá criar outros empregos, destacando a necessidade de requalificação dos trabalhadores afectados. Uma das soluções para minimizar o impacto da automatização e uso de robôs no mercado laboral passa por limitar os aumentos, ou mesmo reduzir ou extinguir, os salários mínimos (...). Os pressupostos para a existência de um salário mínimo – garantir um rendimento para um nível de vida com um mínimo de dignidade – podem ser assegurados através de mais apoios dos Estados aos mais carenciados, argumentam. O documento frisa que elevados salários mínimos geram mais custos e reduzem os níveis de emprego (...) os empregadores deverão ter maior liberdade para a contratação e despedimento de trabalhadores, com leis laborais mais flexíveis, e a redução das indemnizações por despedimento.
Consultei o relatório e, sim, isto está lá e está muito mais. Está, por exemplo, amplamente desenvolvido o conceito de "capital humano" e como pode ser criado e optimizado. A linguagem é arrebatadora, qualquer trabalhador, muito qualificado ou sem qualificação especial, se deixa enredar nas palavras, por isso num futuro não muito distante talvez o Primeiro de Maio passe a ser o "dia do precariado" em vez do "dia do trabalhador".

Bauman, Z. & Donskis, L. (2016). Cegueira moral. Lisboa: Relógio D`Água.

"A RIQUEZA DOS HUMANOS"

ESCREVER MAL PARA SE MOSTRAR HUMANO?

Deixei de ler praticamente tudo aquilo que tem a ver com a designada inteligência artificial generativa (erradamente assim designada, pelo m...