domingo, 22 de abril de 2018

A "OCDE como instância de legitimação das políticas" educativas

António Teodoro, professor universitário, num artigo de opinião publicado no dia 5 de Abril no Diário de Notícias online com o título Incoerência nas políticas de ensino superior e ciência, detém-se na influência que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) tem ganho nas políticas educativas do ensino superior, destacando o caso de Portugal.

As considerações que faz aplicam-se a todos os níveis de ensino e o país poderia ser outro. De facto, independentemente do contexto, até partidário, a "narrativa" da OCDE impõe-se pelo mundo fora sem resistências, apenas com cedências, determinando o rumo da escola pública.

Recupero as passagens mais generalistas que traduzem bem esse rumo, e que não é visível para todos, pois a "narrativa" que o apresenta, esconde-o.
(...) não deixa de ser interessante a escolha da OCDE como instância de legitimação das políticas apresentadas, insistentemente presente nas notas introdutórias de quase todos os projetos de diploma apresentados. A OCDE é, reconhecidamente, o principal think tank internacional do projeto neoliberal: na economia, nas relações laborais, mas também na educação. 
A ironia é que o governo da geringonça, que se afirma de esquerda e adversário confesso das políticas neoliberais, tenha recorrido a essa legitimação (que, obviamente, não é "técnica" mas ideologicamente orientada). 
A OCDE não é a única organização internacional presente no espaço da "consultoria" internacional. Porque se omite sempre a UNESCO, com um imenso trabalho na educação (...) desde há décadas? (...) Será porque se teme que as recomendações não correspondam ao que se deseja? (...) 
Os projetos de diploma apresentados acentuam algo muito grave no discurso do atual (...): o conhecimento válido é aquele que tem valor de mercado. 
Todas as prioridades, todas as introduções, todos os discursos, incluindo a nova modalidade de mestrados em empresas, vão neste sentido (...). Mal vai um país que não valoriza o conhecimento crítico, reflexivo, "desinteressado". 
O discurso dominante é, em primeiro lugar, penalizador para as ciências sociais, para as artes, para as humanidades, mas também para áreas como as ciências da vida ou as matemáticas. Mas a prazo afeta todas as áreas do conhecimento e da cultura (...)
A construção de políticas de educação e ciência que juntem conhecimento e verdade (...), a justiça social tem um longo caminho ainda a percorrer. E essa é também a função dos intelectuais e dos cientistas que partilham esses valores. E não será seguramente numa leitura acrítica, tecnocrática, das agendas da OCDE que haverá políticas que privilegiem a justiça social."

sábado, 21 de abril de 2018

"Inteligência competitiva": mais uma "inteligência" entre muitas outras!

Imagem encontrada aqui.

A "inteligência" tem sido um conceito de primeira linha na psicologia, desde que se constituiu como disciplina científica. Mas, à semelhança de outros conceitos que explora - a atenção, a memória ou a motivação -, também este tem conduzido a dificuldades de definição e de operacionalização. Ainda assim, a investigação avançou de modo que temos hoje uma ideia mais concreta das capacidades que a integra e de como se podem desenvolver. 

Sendo psicologia a minha formação de base interessa-me sobretudo esta possibilidade por via da educação formal. De facto, sabemos hoje com grande certeza que a inteligência não é determinada à nascença ou até antes, depende substancialmente da estimulação proporcionada não só durante a infância mas ao longo da vida.

Foi, pois, com admiração e apreensão que vi, há alguns anos, entrarem no campo da educação expressões que dispersavam a inteligência, como entidade coesa, em múltiplas dimensões mais ou menos individualizadas, eram as "inteligências múltiplas" (interpessoal, intrapessoal, social, sinestésica, etc.

A essas "inteligências" juntaram-se outras como a afectiva, a emocional, a intuitiva, a espiritual. E claro, a artificial e a digital. Também há a positiva, a naturalista e a quântica. Mais recentemente, dei conta da empresarial e da financeira. E hoje descobri a 
competitiva.

inteligência competitiva é qualquer coisa! Encontrei uma revista que lhe é dedicada - aqui, livros - um exemplo aqui, pós-graduações - um exemplo aqui, vídeos dois exemplos aqui aqui, consultaria - um exemplo aqui). Com um suporte tão diversificado e um aspecto académico tão robusto quem se atreve a duvidar da sua existência e pertinência. Mais dia menos dia está no currículo escolar.

OS CAFÉS HISTÓRICOS NA EUROPA: O SEU LUGAR NA SOCIEDADE


Minha intervenção de hoje no Encontro Internacional de Cafés Históricos no Café de Santa Cruz em Coimbra:

O ensaísta Georges Steiner escreveu em "A Ideia de Europa" (Gradiva, 2005): "A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo (...) Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'ideia de Europa' "No Ano Europeu do Património Cultural celebramos os cafés históricos como locais patrimoniais da cultura.

Portugal é, sempre foi, parte da Europa e a confirmá-lo está o facto de aqui existirem alguns dos mais belos cafés históricos - de que é exemplo o magnífico Café de Santa Cruz de Coimbra que nos acolhe, hospitaleiro  como sempre.

Steiner enfatizou o papel dos cafés como lugares de cultura: a ideia de Europa é eminentemente uma ideia cultural. Em cafés como o de Santa Cruz, no encontro convivial das mentes  que a cafeína se encarrega de estimular, fez-se, faz-se cultura.

Há não só uma história que liga os europeus mas também, enraizada profundamente nessa história, uma arte (que se espraia em diversas formas que vão da literatura à música, passando pelas artes visuais e artes de palco) e uma ciência europeias, uma arte e uma ciência de que os cafés foram muitas vezes, na vida urbana, cenários propícios. Recordar o papel dos cafés europeus como lugares de cultura é também projectá-los para o futuro, porque a Europa só terá futuro se, com base na sua rica herança, alimentar um projecto cultural comum.

António Sousa Ribeiro, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Daphne Cordeiro, professora na Universidade Fluminense e no ISCTE  e Fernando Franjo, jornalista espanhol e autor do livro "50 Cafés Históricos de España e Portugal" são, como eu, frequentadores de cafés. Eles trazem-nos aqui os seus depoimentos sobre o passado, o presente e o futuro dos cafés, com base nas  suas experiências à mesa dos cafés.

Os cafés continuam a  ser locais de cultura, numa sociedade com novos meios de comunicação, designadamente à distância? A dinâmica social das cidades ainda passa pelos cafés? Na sociedade de consumo de hoje o que pode levar os consumidores aos cafés?  E o que é que eles podem de lá levar?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

VALHA-NOS S. FRANCISCO



Meu artigo no "Diário de Coimbra" de ontem:

Embora o magazine Ticket que anuncia espectáculos em todo o país seja dominado por eventos em Lisboa e Porto, também se encontram eventos noutras cidades. Mas não se encontra nada que tenha lugar no Convento de S. Francisco em Coimbra, um equipamento que custou 42 milhões de euros e que devia ter projecção nacional. Planeado para ser um Centro de Congressos internacional está a falhar esse objectivo, pois a Câmara Municipal, detentora do equipamento, não conseguiu atrair congressos suficientes para garantir a necessária sustentabilidade (uma andorinha de um congresso de saúde não faz a Primavera!). Planeado também para ser um Centro de Cultura nacional, também tem falhado esse outro objectivo pois não existe uma programação coerente nem uma gestão autónoma que a permita concretizar. Pretendendo rivalizar com a Casa da Música ou com o Centro Cultural de Belém está muito longe dos padrões de excelência desses centros. Nem sequer chega ao Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz. Recebo os programas desses centros culturais mas nunca recebi informação nenhuma de S. Francisco. Consultado o respectivo website, encontro coisas avulsas, sem suficiente qualidade e acima de tudo sem qualquer coerência. A programação é o que calha, quando calha. Há muitos dias, demasiados dias, em que não calha nada. Valha-nos S. Francisco!

Vale mais a pena deslocar-me à Casa da Música ou ao Centro Cultural de Belém, ou, mais perto, ao Centro de Artes e Espectáculos do que ao Convento de S. Francisco pois esses centros têm uma programação regular de qualidade, que é divulgada com antecedência. Não percebo por que é que S. Francisco não tem um prospecto semelhante aos que recebo do Porto ou de Lisboa, ou da Figueira da Foz. O problema pode ser da gestão. Têm sido feitos contratos por ajuste directo e a prazo com pessoas do agrado político, que fazem sugestões. Mas tudo tem de ser aprovado pelo Presidente da Câmara. Os preços dos bilhetes são aprovados em reunião camarária, mesmo a posteriori. A cidade, os seus agentes e meios culturais, vivem desligados de S. Francisco. Perguntei já a várias pessoas da área da cultura de Coimbra e nunca ninguém me disse ter sido ouvido sobre S. Francisco. Perguntei a outras pessoas da mesma área em Lisboa e Porto, mas esses nem sequer sabiam o que era S. Francisco. Está à vista o seu fracasso não só como Centro de Congressos internacional mas também como Centro de Cultura nacional. Se falha nos congressos e na cultura para que serve? Parece que tem lá havido reuniões políticas: não sei se o aluguer foi pago, pois as contas de S. Francisco estão nos segredos dos deuses.

Coimbra tem, de facto um belo equipamento da autoria de um prestigiado arquitecto, mas é como se o não tivesse pois não o valoriza. O objectivo de S. Francisco é indefinido (as frases sobre a missão no website são absolutamente vazias). O modelo de gestão também não foi definido. E o elefante branco vai consumindo elevados recursos da Câmara, quer dizer de nós todos, sem que haja um benefício claro para todos. Coimbra continua uma cidade com história e património, mas sem uma identidade cultural que ligue o antigo e o moderno.

A última noticia sobre S. Francisco é que a Câmara de Coimbra quer lá colocar a colecção de fotografia do Novo Banco. O governo, de posse de um grande espólio fotográfico e sem saber o que fazer com ele, quer emprestá-lo à Câmara e esta, sem pensar, estendeu logo a mão ávida da esmola. Com certeza que a cidade, que tem a rica tradição dos Encontros de Fotografia realizados entre 1980 e 2000, pode exibir esse espólio, atraindo público da cidade e de fora. Mas o Convento de S. Francisco não foi feito para museu de fotografia e não tem as condições técnicas adequadas. A colecção nem sequer lá cabe. Para caber uma parte as mudanças estruturais seriam demasiado caras. De resto, a Câmara faria mal em gastar o seu dinheiro nisso quando não consegue manter a valiosa colecção dos Encontros de Fotografia, que está armazenado num exíguo espaço do Centro de Artes Visuais (CAV) sem ar condicionado e à mercê de infiltrações de água. Parece que o Secretário de Estado da Cultura, quando já sabia que o CAV estava condenado em primeira instância, foi visitá-lo como se nada soubesse. Ainda não se sabe se lhe vai dar os meios necessários para ele que a colecção possa ser não só mantida como mostrada.

Será que a Câmara vai pedir ao CAV para fazer a curadoria da mostra do Novo Banco? Será decerto necessário alguém competente que saiba organizar as fotografias do Novo Banco numa rede de salas que abranja a cidade e a universidade, como fizeram os Encontros de Fotografia e está agora fazer a Estação Imagem, uma iniciativa que desfruta do louvável apoio da Câmara de Coimbra. A Câmara tem feito tanta coisa mal na cultura que temos de lançar um foguete quando faz uma bem. Um foguete? Meio, pois “esqueceu-se” de associar os média locais…
*Professor da Universidade de Coimbra

BIOEMPREENDORISMO

quarta-feira, 18 de abril de 2018

OS NOSSOS "PERFIS SOMBRA"

Não precisamos de ter facebook para que lá constem informações sobre nós e, claro está, para que essas informações sejam recuperadas e agrupadas, constituindo o que se designa por "perfis sombra". Assim, potencialmente toda a gente está nessa rede. Não é legal nem é moral, mas faz-se. Eis o que o criador do facebook diz sobre o assunto:


Alguns artigos interessantes sobre o assunto podem ser encontrados AQUI, AQUIAQUI

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O PAPÃO DA MATEMÁTICA


Matemática é raciocínio puro, aristotélico, límpido, e o cérebro humano do século XXI, com milhões de anos de apuramento, excluídos os casos de deficiências clinicamente reconhecidas, tem plenas capacidades para se envolver com ela, com as suas regras e os seus símbolos.

Isto para dizer, preto no branco, que o insucesso de um aluno em matemática (como em outra qualquer disciplina), partindo do princípio não estar diminuído nas suas faculdades cerebrais ou perturbado por problemas comportamentais, só pode ser da responsabilidade do sistema educativo e/ou de quem lhe ministra o ensino.

“- A matemática é como uma escada que se sobe, degrau a degrau, desde o primeiro até ao mais alto que se puder”. - Disse-me o meu professor, do segundo 7.º ano do Liceu (o actual 11.º), que tive de repetir, após reprovação no exame final do ano lectivo anterior.

A geologia, ramo do conhecimento no qual desenvolvi toda a minha actividade docente e de investigação, percorre muitos dos seus caminhos de mãos dadas com diversos domínios da matemática (trigonometria, cálculo diferencial, integral, vectorial e tensorial, mecânica, probabilidades, erros e estatística, entre os mais utilizados). Áreas de investigação como cristalografia, tectónica, geofísica, petrologia, geoquímica e sedimentologia não prescindem de uma ou outra destas ferramentas. Estou, pois à vontade para afirmar que, entre nós, povo, na grande maioria, inculto nesta e em muitas outras coisas do saber científico, generalizou-se uma injustificável vénia pela matemática, vénia que atesta este mesmo lamentável padrão nacional.

Nem sempre gostei de matemática. Aprendi a tabuada com a minha mãe que, enquanto costurava, me mandava recitá-la desde o dois vezes dois, quatro, ao nove vezes nove, oitenta e um, numa cantilena de que a minha geração se lembra com saudade. Na escola primária, vá que não vá, a aritmética e a geometria prenderam a minha atenção e até gostei de fazer aqueles problemas complicados, na 4.ª classe (4.º ano), de um tanque com 6,50 m de comprimento por 3, 20 m de largura e 1,75 m de fundo, recebe água de uma torneira, à razão de 7,5 litros por minuto. Quanto tempo demora este tanque a encher, até transbordar?

Mas no Liceu as coisas não correram tão bem, certamente por culpa minha, mas também, seguramente, por deficiência do professor que me coube em sorte, que me não soube abrir o caminho e estimular o suficiente e o necessário. Neste contexto, fui um aluno sofrível até ao 7.º ano (o actual 11.º), transitando de ano para sempre coxo, sem alegria e a muito custo como dizia o meu pai. E, como era previsível, nesse último ano, tive boas notas em todas as disciplinas, mas chumbei em matemática. E foi o melhor que me podia ter acontecido. Fiquei um ano a repetir esta matéria, mas desta vez, com um professor a sério, digno desse nome. Este, sim, um verdadeiro mestre a ensinar e a cativar os alunos. Era algarvio e, logo nas primeiras aulas, o Dr. Seruca procurou avaliar a bagagem dos seus novos alunos e eu era um deles.

- Se não souberes bem e se não te familiarizares com as bases da matemática, que são as coisas mais simples deste mundo, nunca gostarás desta disciplina. Pelo contrário, se aprenderes a lidar tu cá, tu lá com elas, irás ver que a matemática é como o ar que se respira. – E continuou. – A matemática é como uma escada que se sobe, degrau a degrau, desde o primeiro até ao mais alto que se puder.

Na sequência desta conversa que, só por si, me predispôs a encetar uma nova maneira de ser aluno, passei a sentir prazer nas aulas deste professor. Voltei, por assim dizer, ao rés-do-chão da matemática e, encorajado e acompanhado por ele, fui subindo essa escada, ao longo desse ano, até ao patamar que, em cumprimento do programa, me era exigido. E passei no exame com uma boa nota que, associada ás obtidas nas outras disciplinas, me dispensaram do exame de admissão à Faculdade.

A. Galopim de Carvalho

PRÉMIOS UNICÓRNIO VOADOR: RTP1, MANUEL PINTO COELHO E FACULDADE DE FARMÁCIA DE COIMBRA

Já foram atribuídos pela Comcept os Prémios Unicórnio Voador, que distinguem o "melhor do pior": ver aqui.

domingo, 15 de abril de 2018

Bárbara Pinho venceu FameLab Portugal 2018


Bárbara Pinho, da Universidade de Aveiro, venceu a edição do famelab de 2018, onde fui membro do júri. A final deste concurso esta ano com a maior participação de sempre realizou-se no Coliseu dos Recreios no quadro da National Geographic Summit, uma vez que a National Geographic juntou-se ao British Council e ao Ciência Viva como coorganizor,. A Bárbara vai agora representar Portugal na final internacional em Cheltenham, no Reino Unido.

"Transmitir o melhor da Humanidade para que a Humanidade seja melhor"

Minha decelarações à Agência Ecclesia, realizadas no domingo passado no Meeting Lisboa, realizado no CCB em Belém: aqui.

sábado, 14 de abril de 2018

Tecnologia versus Humanidade

Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

22 e 23 abril | Coimbra
Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

Na sequência da expansão do Plano Nacional de Leitura (PNL2027), compete à área da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior o desenvolvimento de uma política integrada de promoção da leitura e da escrita e das múltiplas literacias, nomeadamente, a científica e a digital (PNL-CTES).

Pelo alargamento dos agentes envolvidos, do público-alvo, das áreas cobertas, das metodologias adotadas e dos meios e suportes requeridos, o PNL2027 assume uma nova ambição configurada num vasto quadro de ações e projetos de grande impacto para a literacia nacional, na convicção de que uma boa capacidade de usar a escrita e a leitura é determinante de uma mais profunda aquisição de conhecimento e de uma melhor e mais ativa intervenção na sociedade.

O Plano PNL-CTES “Ler+ Ciência, Ler+ no Superior” reflete o compromisso assumido pela área governativa da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, através de um conjunto de iniciativas que abrangem diversos públicos. O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor é assinalado através deste programa.

PROGRAMA
Dia 22
10:00 | Explorastórias : “Uma última carta”
Exploratório - Centro Ciência Viva de Coimbra
Um programa pensado para os mais pequenos, onde as histórias são o ponto de partida para explorar a ciência escondida entre páginas. Neste livro de Antonis Papatheodoulou e Iris Samartzi, recuamos no tempo, para uma época em que as notícias viajavam a pé e as mensagens podiam ser secretas.

Dia 23
14:00 | Eça de Queirós e a ciência: um olhar sobre Darwin
Rómulo - Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Carlos Fiolhais, físico e comunicador de ciência, conduz uma discussão sobre a ciência na obra de Eça de Queirós, com referência à teoria da evolução de Charles Darwin, autor do livro “A Origem das Espécies”, que levantou desde logo a polémica: seria o homem descendente do macaco?


16:00 | LER+ CIÊNCIA
Museu Machado de Castro
Apresentação do projeto Ler+ Ciência, a assinalar o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor
INTERVENÇÕES
• Ana Alcoforado | Museu Machado de Castro
• Teresa Calçada | Comissária do PNL 2027
• Cristina Robalo Cordeiro | Representante do MCTES no PNL 2027
• Fernanda Rollo | Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

LEITURAS CRUZADAS
Natália Luíza, do Teatro Meridional, animará uma sessão com uma vertente essencialmente lúdica, envolvendo o público na comunicação de diferentes textos, poéticos ou de prosa, e que articulem conteúdos no âmbito da educação, ciência e tecnologia.

21:00 | OCUPAÇ ÃO LITERÁRIA FEMINISTA
Salão Brazil
As Ocupações Literárias da Secção de Escrita e Leitura da Associação Académica de Coimbra (SESLA) são intervenções artístico-literárias em diálogo com a cidade por meio dos seus espaços e das suas memórias, estimulando a sensibilidade dos ouvintes a partir de peças sonoras, projeções visuais e performances corporais que acompanham a leitura de textos.

Com o apoio do Museu Machado de Castro

"CIÊNCIA E SEUS INIMIGOS" EM AVEIRO


CLASSICA DIGITALIA - 10 Anos e Nova Biblioteca Digital

Mensagem recebida de Delfim Leão, director da Imprensa da Universidae de Coimbra:



Numa altura em que os Classica Digitalia celebram 10 anos de existência, temos o gosto de dar a conhecer o novo sítio da biblioteca digital, que agrega 256 livros, distribuídos por 12 subséries e 3 publicações periódicas, em acesso aberto:


Agradecemos aos cerca de 1.000 Investigadores (autores e revisores das mais diversas geografias) que contribuíram de forma determinante para dar vida a este projeto comum.

Obrigado também pela atenção com que nos acompanharam. A biblioteca é agora inteiramente vossa: consultem, desfrutem, partilhem.

Votos de boas leituras,
Delfim Leão

Poções e Paixões – Química e Ópera



O autor João Paulo André, professor de Química na Universidade do Minho, apresenta o seu mais recente livro "Poções e Paixões" (Gradiva, colecção Ciência Aberta) com extractos e links par algumas óperas (em cima a Madama Butterfly):

“Como pode uma história ficcional, consubstanciada pelas acções que decorrem em cena, encantar e emocionar intensamente uma audiência? A verdade é que, ao sermos conduzidos pelos actores ao âmago de um enredo, entramos numa permuta emocional activa em que partilhamos os problemas dos personagens, sentindo e vivendo as metamorfoses das suas emoções e os seus conflitos. Em suma, estabelecemos empatia com os personagens da narrativa.


Madama Butterfly de Puccini

O que acabou de ser exposto poderá ser ilustrado com a ópera Madama Butterfly (1904) de Puccini. Ao apercebermo‑nos da tristeza e das saudades que Cio‑Cio‑San sente por Pinkerton, o marido que há muito a abandonou, estabelecemos com ela uma relação de empatia e, por isso, sofremos também (mesmo que a soprano que interpreta o papel tenha quarenta e cinco anos, ou seja, o triplo da idade do personagem que encarna - o que, de resto, é bastante comum).


Cartaz de Leopoldo Metlicovitz para a estreia de Madama Butterfly

A empatia tem na verdade uma base neuropsicológica, a qual reside nos sistemas de neurónios-espelho. Eles constituem a parte do nosso sistema nervoso que nos permite reconhecer e simular mentalmente uma acção que observamos, contribuindo, assim, para que se atenuem certas fronteiras entre nós e os outros. Em nós, humanos, esses sistemas neuronais encontram‑se localizados sobretudo nas áreas cerebrais envolvidas no processamento da linguagem e na interpretação de expressões faciais - aspectos que são essenciais na arte dramática.”

(Excerto do preâmbulo)

Carmen de Bizet


“No I acto de Carmen (1875) de Bizet, as cigarreras saem da fábrica de tabaco com o charuto nos dentes e, rebolando as ancas, elogiam a natureza sedutora do fumo. Por sua vez, os voyeurs e pretendentes que as aguardam também fumam para matar o tempo («On fume, on jase...»). A quem não passou despercebido o conteúdo deste coro, conhecido como «La fumée», e muito em particular os versos «Sobe suavemente à cabeça, e, lentamente, / Deixa a alma em festa!», foi a uma agência governamental australiana, de seu nome Healthway (!), que imediatamente suspendeu o financiamento de uma produção da ópera que a West Australian Opera iria levar à cena em 2014. O argumento apresentado foi o de a obra de Bizet fomentar de forma explícita o tabagismo”.

(Excerto do capítulo 5)



            
Planta do tabaco e estrutura molecular da nicotina



Francesca da Rimini de Zandonai 

“Para além das hormonas sexuais existem também as «substâncias do amor romântico», que desempenham um papel determinante no processo de uma pessoa se apaixonar por outra. Trata‑se de monoaminas biogénicas que funcionam como neurotransmissores cerebrais. Uma delas, a β‑feniletilamina, é um autêntico «Eros químico» que acelera o fluxo de informação entre os neurónios, levando a um aumento dos níveis de dopamina. Julga‑se que a β‑feniletilamina será a substância envolvida na reacção do «amor à primeira vista», estando também associada à fase da paixão e do enamoramento.

Entre muitos exemplos clássicos de «amores à primeira vista», poderá citar‑se o caso de Paolo e Francesca, personagens históricos da Itália medieval cuja paixão arrebatadora é relatada na Divina Comédia de Dante Alighieri (canto v de O Inferno - o par amoroso, condenado pelo pecado da luxúria, encontra‑se no segundo círculo do Inferno, chicoteado incessantemente por um redemoinho de vento).

Sob o título de Francesca da Rimini, os amores de Paolo e Francesca foram colocados em ópera por Sergei Rachmaninov (1906) e Riccardo Zandonai (1914).


Giovanni Martinelli (Paolo) e Frances Alda (Francesca) em Francesca da Rimini de Zandonai, 1916 (The Metropolitan Opera Archives)

No I acto da versão do compositor italiano, do alto da sua loggia em Ravena, Francesca da Polenta vê chegar o garboso Paolo Malatesta, conhecido como Paolo, il Bello, acreditando ser este o noivo que a família lhe destinara (num arranjo político que uniria as duas famílias). Apaixonam‑se de imediato um pelo outro («Portami nella stanza») mas o que Francesca não sabe é que Paolo se faz passar pelo seu irmão Gianciotto, senhor de Rimini mas com uma deformidade física. A relação proibida de Francesca e Paolo durou uma década, sendo lendário o seu trágico final.

A ópera de Zandonai estará entre as mais belas do século xx, com harmonias raramente encontradas até então num compositor italiano (Puccini à parte), próprias de alguém que não só assimilara a escrita de Wagner como também estava a par das tendências mais recentes, nomeadamente da música de Claude Debussy e de R. Strauss.”
(Excerto do capítulo 9)



Louise de Charpentier 

“O rádio (Ra), elemento químico de número atómico* Z = 88, fora descoberto em 1898, em Paris, por Marie e Pierre Curie, que uns meses antes já tinham encontrado outro novo elemento, o polónio (Po), de número atómico Z = 84. Indirectamente, esta súbita revelação de dois elementos químicos radioactivos era o corolário da descoberta dos raios X pelo alemão Wilhelm Conrad Röntgen, ocorrida apenas três anos antes.

Embora a natureza dos raios X (X de incógnita) e dos raios gama, estes últimos emitidos por espécies radioactivas, não fosse à época conhecida, não tardaria a ser demonstrado que em ambos os casos se trata de radiação electromagnética, exactamente como as luzes da cidade de Paris celebradas na ópera Louise (1900) de Gustave Charpentier (figura 10.2), contemporânea destas geniais descobertas científicas. (No III acto, do alto da colina de Montmartre, os amantes Louise e Julien contemplam apaixonados o clarão grandioso da Cidade‑Luz, que exaltam no dueto «Paris! Cité de force et de lumière! - «Paris! Cidade de força e de luz!»)





Cartaz de Georges Antoine Rochegrosse para a estreia de Louise e espectro electromagnético

Os únicos aspectos que distinguem estas duas formas de radiação relativamente à luz que nos ilumina é não serem perceptíveis aos nossos olhos e terem uma frequência muito superior, sendo consequentemente muito mais energéticas. Só os raios cósmicos as suplantam em energia.
Em Paris tudo começara quando Marie Skłodowska Curie escolheu para tema da tese de doutoramento o estudo das radiações emitidas por compostos de urânio, descobertas dois anos antes por Henri Becquerel.”
(Excerto do capítulo 10)


O mecanismo de trocas altruístas num mundo competitivo

Consulta pública do novo diploma regulador do ensino básico e secundário

Na sequência das alterações curriculares em curso para o ensino básico e secundário, designadas, em termos mais gerais por "Autonomia e flexibilidade curricular", o Conselho de Ministros aprovou na generalidade, no passado dia 5 de Abril, o Decreto-Lei que estabelece os princípios organizadores do currículo dos ensinos básico e secundário (acesso).

Ontem esse diploma foi disponibilizado para consulta pública (que se estende até ao final do mês): acesso.

A fundamentação da revisão do Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho foi também disponibilizada: acesso

Assim, o Ministério da Educação solicita a "todas as escolas e seus professores, as famílias, alunos e demais interessados", a fazer uma análise dos documentos, a qual deve ser expressa em formulário (acesso). 

O texto que acompanha esta solicitação é a seguinte (acesso):
Sabendo-se que há escolas que têm conseguido contrariar os principais preditores de insucesso, adotando soluções adequadas aos contextos e necessidades específicas dos alunos, é fundamental que todas tenham liberdade para poderem desenvolver o currículo localmente, com autonomia plena para a organização de tempos, de espaços e de formas de ensinar mais eficazes, potenciando melhores aprendizagens para todos. A autonomia e a flexibilidade permitirão soluções de inovação pedagógica, necessárias enquanto instrumentos para o desenvolvimento de aprendizagens de qualidade e que sejam respostas efetivas às necessidades de todos os alunos. 
Na assunção de que uma reflexão participada é fundamental para garantir a qualidade que a natureza da matéria exige e que o envolvimento efetivo de todos os parceiros constitui exercício de participação democrática indispensável à construção de compromissos, o Ministério da Educação dá início a um período de consulta pública. 

A "narrativa" - 1. "Não é preciso uma escola ou um professor para adquirir conhecimento"

Em texto anterior, reproduzi parte de uma entrevista a Alberto Rojo, um professor de música espanhol que tem analisado de uma maneira muito inteligente e profunda a orientação das políticas de ensino. Nessa análise denuncia o que designa por "gurus da educação", pessoas que, em geral, não têm formação em pedagogia, ensino, aprendizagem ou cuja formação nessas áreas é muito superficial mas que, não obstante, pronunciam-se muito afirmativamente sobre elas. 

É frequente esses "gurus" serem académicos ou práticos bem sucedidos e terem ligações a órgãos internacionais com uma forte palavra na orientação do currículo escolar e, em simultâneo, a fundações e a empresas da mesma abrangência. Passeiam-se pelo mundo, têm voz nos meios de comunicação social. O seu discurso é muitíssimo atraente e concertado: todos dizem praticamente o mesmo e do mesmo modo. Mobilizam, de facto, a opinião das pessoas desavisadas.

São infindáveis os exemplos. Encontrei hoje mais um traduzido numa entrevista a alguém que está ligado a uma empresa, sendo a iniciativa é de outra empresa. É a escola, os professores e os alunos ao serviço das empresas. 

Transcrevo o que se refere aos professores e também ao conhecimento, os destaques são meus.
O papel do professor tem de mudar, já não se trata do que ensinamos e como ensinamos é que somos na sala de aula. 
Até agora os professores trabalhavam num contexto de escassez de conhecimento. Mas hoje já não é assim. O conhecimento é um produto, é gratuito está em qualquer dispositivo com acesso à internet
Não é preciso uma escola ou um professor para adquirir conhecimento. 
O que é, então, um professor do século XXI? Eu defendo que um bom professor é um instrutor de resultados: instrui os alunos a alcançar os seus melhores resultados. Um bom professor entende o mundo de onde vêm os estudantes e o mundo para o qual os deve preparar. Instrui constantemente os alunos a alcançarem padrões mais elevados.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

O QUE É A SOCIOLOGIA?

Com a devida e merecida vénia, transcrevo a seguir um texto do sociólogo Vitor Sérgio Ferreira, que foi primeiramente publicado em vários jornais regionais através do projecto "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".



"É inescapável: todos e todas estamos inserido em redes de relações sociais que nos influenciam - e que nós também influenciamos - no que pensamos, no que dizemos e no que fazemos no dia-a-dia. Desde que nascemos, na família. Na escola, entre colegas e professores. Entre os nossos amigos e os nossos vizinhos. Associamo-nos a coletivos de pessoas, uns mais formais (associações, partidos políticos, movimentos sociais, clubes ou igrejas, por exemplo), outros mais informais (o grupo de amigos do futebol ou com quem se praticam outras atividades, a banda musical que se forma, as pessoas do facebook ou de outras redes sociais com quem se interage, ou os amigos que se encontram regulamente). Integramo-nos em empresas ou em outro tipo organizações de maior ou menor porte para trabalhar, lidando diretamente com hierarquias e relações profissionais. Experimentamos vidas em comum, com amigos, conhecidos, namorados, companheiros. Construímos novas famílias, e várias, ao longo da vida.  

Enfim, a vida faz-se sempre uns com os outros, em grupos e instituições que moldam as pessoas de formas diferenciada e desigual: em função das condições económicas, sociais e culturais das famílias em que nasceram e em que vivem; das qualificações que conquistaram e as competências que desenvolvem; de ser homem, mulher ou transgénero; da idade que se tem e dos papeis que são chamados a desempenhar ao longo da vida (criança, jovem, adulto ou idoso; estudante, trabalhador ou reformado, ou filhos, pais ou avós, por exemplo); das condições laborais e profissões que se tem, as quais conferem às pessoas estatutos sociais mais ou menos valorizados e favorecidos do ponto de vista social. Herdamos redes de relações sociais e construímos outras, constantemente, numa sociedade cada vez mais complexa, fluída, globalizada e imprevisível.

É neste âmbito que, em termos gerais, encontramos a especificidade da Sociologia enquanto área do saber: a sua vocação é estudar as relações sociais que se estabelecem entre as pessoas e que constroem a vida social, ao nível mais quotidiano dos encontros sociais, ao nível mais institucional da vida das organizações, ou ao nível mais estrutural das relações transnacionais e dos problemas globais, para dar alguns exemplos. Interessa à Sociologia, portanto, descobrir como essas redes de relações sociais mais localizadas ou mais amplas são construídas, explicar como são organizadas, compreender que influências têm na vida de cada um, e que impactes têm na vida de todos, nomeadamente em termos de manutenção ou de transformação social.

Mas nada disto acontece de forma determinista e pré-determinada. A vida social tem as suas regras e regularidades, mas não tem leis universais, como tendem a procurar outras ciências. As relações sociais são sempre contextualizadas nos tempos da História coletiva e das histórias de vida, bem como nos espaços geográficos e culturais, de fronteiras cada vez mais fluídas. Dentro dessas matrizes de tempos e espaços, as pessoas vão construindo umas com as outras (em colaboração), ou umas contras as outras (em conflito), campos de possibilidades para projetar e desenvolver as suas vidas pessoais e coletivas.

Acontece que esses campos de possibilidades não são igualitários na sua «estrutura», ou seja, nas oportunidades que dão e nos constrangimentos que colocam às pessoas. As relações sociais tendem a ser caracterizadas não apenas por diferenças marcantes, mas também por desigualdades profundas. Há quem nasça em condições sociais e económicas mais favorecidas ou mais vulneráveis. Há quem adquira estatutos sociais conferidores de mais poder para si próprio e sobre os outros. Estas condições constrangem, desde logo, o espaço de possibilidades e escolhas de cada indivíduo ou grupo. Daí a sociologia, ao saber que isso acontece, ao estudar como e por que acontece, também participar frequentemente com o conhecimento que produz na fundamentação de políticas que favoreçam a igualdade de oportunidades entre as pessoas.

Considerando a relação de intimidade de toda a gente com o objeto próprio da Sociologia, a vida social, essa relação tem tanto de fascinante quando de perigosa no exercício das várias práticas profissionais dos sociólogos, seja na universidade, seja em muitos outros campos onde estes praticam o(s) saber(s) sociológico(s). Enquanto seres sociais, todos construímos juízos de valor e categorias de interpretação da vida em sociedade, as suas instituições e dinâmicas sociais. No entanto, nem todos estamos habilitados a fazer sociologia.

O que difere a Sociologia da mera opinião - mesmo que informada e sofisticada - e lhe confere o estatuto de Ciência, é o facto do conhecimento que produz ser sempre resultado de um processo de investigação empiricamente fundamentado. Esse processo, por sua, vez, implica a aplicação sistemática e controlada de um conjunto de protocolos metodológicos, técnicos e deontológicos, que orientam a produção, o tratamento e a análise de dados empíricos de natureza diversa, quantitativa ou qualitativa. É neste sentido que, muitos de vocês, caros e caras leitores e leitoras, já terão sido interpelados por sociólogos ou aprendizes de sociologia para preencher um inquérito por questionário, para responder a uma entrevista ou participar de um grupo de discussão, ou para serem observados na vossa vida quotidiana, ou acompanhados em alguma atividade específica.
Os dados que vocês, gentilmente, cedem aos sociólogos quando colaboram nas nossas pesquisas, é para nós um bem extremamente valioso, na medida em que só através deles são validadas as hipóteses de explicação e compreensão da vida social construídas com base no património conceptual historicamente acumulado no campo da Sociologia. É esta articulação cuidadosa e eticamente conduzida entre os dados que as pessoas nos facilitam, as teorias que temos e os métodos que aplicamos, que protege a Sociologia e os profissionais que a fazem das contaminações ideológicas e posições dogmáticas tão facilmente (re)produzidos na vida social. Ao invés, toma-as para si própria como objeto de estudo, desconstruindo e explicando ideias feitas, generalizações abusivas, universalismos reducionistas ou individualismos culpabilizantes, e dando a conhecer o mundo social na sua pluralidade, organicidade e complexidade.

Tal só se consegue fazer com uma sólida formação de base, em termos teóricos, metodológicos e éticos, a qual deveria começar tão cedo quanto possível. Apesar de recente, a Sociologia é, hoje em dia, um campo disciplinar consolidado em Portugal, com uma oferta formativa de qualidade internacionalmente reconhecida no ensino superior. Tem sido, no entanto, uma disciplina menosprezada na oferta formativa ao nível do ensino secundário. Resume-se hoje a uma disciplina de opção no 12º ano de escolaridade, onde os sociólogos, anacronicamente, continuam a não ser reconhecidos pelas instâncias oficiais como detentores da habilitação própria para fornecê-la aos estudantes, facilmente ultrapassados nos concursos de colocação de professores por colegas de outas áreas.

Ora, numa era em que tende a impor-se o «paradigma da pós-verdade», a revalorização escolar da Sociologia numa etapa precoce da trajetória escolar contribuiria, com certeza, para uma formação mais crítica, reflexiva, inclusiva e cidadã dos jovens estudantes, quando ancorada em conhecimento cientificamente fundamentado sobre os desafios que lhes vão ser colocados com maior intensidade pelas sociedades contemporâneas nos seus percursos de vida."


Vitor Sérgio Ferreira (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

NOVO NÚMERO DA REVISTA "EUREKA"

Revista Eureka sobre Enseñanza y Divulgación de las Ciencias acaba de
publicar su último número en https://revistas.uca.es/index.php/eureka. A
continuación le mostramos la tabla de contenidos, después puede visitar
nuestro sitio web para consultar los artículos que sean de su interés.

A partir de ahora, los nuevos artículos aceptados se publicarán en el Vol
15, nº 3, apareciendo de aquí a entonces en fase de preimpresión. 

Gracias por mantener el interés en nuestro trabajo,

Dr. Jose M. Oliva Martinez
Dpto. de Didáctica. Facultad de CC. de la Educación. Univ. de Cádiz
josemaria.oliva@uca.es

Revista Eureka sobre Enseñanza y Divulgación de las Ciencias
15(2), Abril de 2018
Tabla de contenidos
https://revistas.uca.es/index.php/eureka/issue/view/293

Fundamentos y líneas de trabajo
--------
La interpretación de datos y pruebas científicas vistas desde los ítems
liberados de PISA (2101)
 Javier Ignacio Muñoz Martínez, Elena Charro
Enseñanza de la evolución: fundamentos para el diseño de una propuesta
didáctica basada en la modelización y la metacognición sobre los
obstáculos epistemológicos (2102)
 Gastón Pérez, Adrianna Gómez-Galindo, Leonardo Gónzalez-Galli
Proyecto CRASH: enseñando cinemática y dinámica en el contexto del
análisis pericial de accidentes (2103)
 Jordi Domènech-Casal, Jesús Gasco, Pere Royo, Santi Vilches
Percepción de profesores y estudiantes de 3º ESO sobre el uso de
analogías en el estudio de los estados de agregación de la materia (2104)
 Josefa Rubio Cascales, Gaspar Sánchez Blanco, Maria Victoria Valcárcel
Pérez
La competencia informacional-digital en la enseñanza y aprendizaje de las
ciencias en la educación secundaria obligatoria actual: una revisión
teórica (2105)
 Daniel Valverde-Crespo, Antonio José Pro-Bueno, Joaquín
González-Sánchez
Modelos mentales de estudiantes de educación secundaria sobre la
transformación de la leche en yogur (2106)
 Verónica Muñoz-Campos, Antonio Joaquín Franco-Mariscal, Ángel
Blanco-López
Estudio de una salida urbana para el aprendizaje de la geología de
bachillerato (2107)
 Nahia Seijas-Garzón, Maite Morentin-Pascual

Experiencias, recursos y otros trabajos
--------
Enseñanza y divulgación de la ciencia en la integración
universidad-escuela: una experiencia en Brasil (2201)
 Cássio C. Laranjeiras, Sebastião I.C. Portela, Luiz A. Ribeiro

La educación científica hoy
--------
Estrategia tecno-didáctica para la solución de problemas de genética en
estudiantes de educación a distancia (2301)
 Fedra Lorena Ortiz Benavides, Carmen Eugenia Piña Lopez

Ciencia recreativa
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Revelando el signo de las cargas eléctricas usando un detector de polaridad
entretenido (2401)
 Francisco Vera Mathias, Jaime Villanueva, Manuel Ortiz

Educación científica y sostenibilidad
--------
Construyendo la ciudad sostenible en el Grado de Educación Primaria (2501)
 Jerónimo Torres-Porras, José Carlos Arrebola

Formación del profesorado de ciencias
--------
Operaciones y destrezas implicadas en la toma de decisiones sobre una
problemática energética, identificadas por maestros en formación inicial
(2601)
 Naira Díaz Moreno, Beatriz Crujeiras Pérez, Carolina Martín
Gamez, Alicia Fernández Oliveras
El cambio en las emociones de maestros en formación inicial hacia el clima
de aula en una intervención basada en investigación escolar (2602)
 Diego Armando Retana Alvarado, María Ángeles De las
Heras-Pérez, Bartolomé Vázquez Bernal, Roque Jiménez-Pérez

revista.eureka@uca.es

LIVROS INFANTIS: A LITERATURA, O INDISPENSÁVEL SUPÉRFLUO

"Uh... não!" ou a noção (pessoal) de privacidade de Zuckerberg

Em virtude do caso "Cambridge Analytica" o criador do "Facebook", Mark Zuckerberg, foi ouvido no Senado Americano. Nessa auscultação há um momento particularmente interessante quando interrogado pelo Senador Dick Durbin:  
Senador: "Seria confortável para si partilhar connosco o nome do hotel em que ficou na noite passada?”
Zuckerberg: "Uh... não!"
Senador: "Caso tenha enviado mensagens a alguém durante esta semana, não se importaria de partilhar connosco os nomes dessas pessoas?"
Zuckerberg: “Senador, não. O mais certo é que escolheria não o fazer publicamente aqui.”.
Senador : “Entendo que tudo tem a ver com isto, o direito à privacidade, os limites do seu direito à privacidade e do que está disposto a abdicar dessa privacidade na América moderna.”

"Como usar o sistema imunitário para tratar o cancro"

"Os novos gurus da educação não são professores"

Reproduzo, de seguida, extractos de uma entrevista recente a Alberto Rojo, de quem já falámos no De Rerum Natura, aqui). A entrevista intitulada Los nuevos gurús educativos no son profesores foi realizada por Ana del Barrio e publicada há dois dias no jornal online El Mundo (aqui).
O domínio e o amor pelo conhecimento. Também o compromisso de estar firmemente convencido de que aquilo que faz é valioso. E o entusiasmo, porque não basta dar a matéria, tem de contagiar os seus alunos com esse gosto(...) 
A educação passou a ser um assunto mediático em relação ao qual praticamente todas as pessoas têm opinião, excepto os professores. Está-se a combate um modelo que já não existe(...)
[o populismo pedagógico é a corrente segundo a qual dizemos o que é mais aceitável em vez do que é mais sensato e mais eficaz. Resulta muito bem dizer que na escola as crianças e os jovens têm de ser felizes, mas qual é a tarefa do professor: proporcionar felicidade ou conhecimentos? O objectivo não pode ser proporcionar o bem-estar dos alunos sem os levara a adquirir conhecimentos (...)  
[Os novos gurus educativos] normalmente não são professores. A maioria deles conhece o ensino de «ouvir dizer». São esses que nos explicam, a nós que estamos todos os dias na sala de aula, como temos de trabalhar. São pessoas que, na realidade não têm experiência mas que, paradoxalmente, são considerados especialistas.  
[Nem todos os especialistas são assim], há pessoas bem preparadas que faz estudos interessantes. Mas a verdade é que a figura do especialista em educação muitas vezes está muito afastado das salas de aula. 
[O dogma pedagógico pós-moderno mais nefasto] é a confrontação entre esforço e felicidade. Essa idea, que é muito perigosa, de que esforçar-se supõe um sacrifício inaceitável. Quando, como professores, dizemos ao aluno que, para aprender, é preciso esforçar-se, não queremos que ele sofra. Ao contrário, consideramos que é algo gratificante. Enfrentar um desafio e superá-lo proporciona um desenvolvimento pessoal importante. (...) 
O que o governo está a tentar fazer é algo tão absurdo como solucionar o excesso de pegadogismo, que nos conduziu aqui com mais pedagogismo. Em vez de reconhecer que o fundamental é que o professor tenha um amplo domínio da matéria que ensina (...) o governo considera que o principal problema da educação é a formação de professores mas eu não concordo. De facto, somos nós que estamos a impedir que o barco se afunde (...) 
Pedem-nos que sejamos grandes comunicadores, esquecendo que se comunica tanto melhor quanto mais se sabe. Uma pessoa com poucos conhecimentos não é um bom comunicador é um charlatão um pregador, mas não é um bom professor (...)  
[Os planos de formação de professores das comunidades autónomas incluem 'atenção plena', oficina de cinesiologia,tertúlias dialógicas...] Se a Administração pretende formar o professor com cursos de risoterapia, temos um verdadeiro problema. O que um professor de Música como eu tem de fazer é saber cada vez mais música. Um aluno tem precisa de ter uma certa admiração pelo seu professor.  
[Em relação ao 'design thinking', às 'flipped classrooms', às 'learning analytics'...] inovar não é, em si mesmo, nem bom nem mau, depende. Inovar é fazer algo diferente e isso pode ser positivo ou negativo. De todas maneiras, o professor está sempre a inovar. Eu jamais repito uma aula e mudo continuamente de estratégias. O fundamental é que não confundamos inovar con ser bom professor. Esse é o problema. Um professor pode ser um bom profissional, independentemente de a sua metodologia ser mais tradicional ou mais moderna.  
[No entanto neste debate nos meios de comunicação social sobre inovação o que se destaca é que o ensino se traduz num monólogo do professor que está junto ao quadro e a criança sentada e aborrecida]. É muito raro hoje que um professor faça isso sem que os alunos sequer possam fazer perguntas. Há muitas possibilidades que se podem utilizar na aula e que se inscrevem na instrução directa, que é uma metodologia (...) Muitas das metodologias que se apresentam como novidade são apenas diferentes maneira de ensinar (...)  
[Em relação à substituição dos livros por tablets] não só não temos evidencias de que o seu uso melhore o rendimento académico, como cada vez temos mais evidencias científicas de que prejudicam os alunos. Devemos ser cautelosos antes de implantar uma metodologia(...)  
[Sobre as inteligências múltiplas], o próprio Gardner reconheceu que não falou de inteligências mas sim de habilidades, mas isto teria vendido menos livros. Há questões que a ciência já desmentiu (...). Temos uma só inteligência, outra coisa é que termos mais capacidade para umas actividades do que para outras (...) 
Quando se baixa o nível, pensando que assim mais alunos vão a alcançar os objectivos, estamos a enganá-los. Os que poderiam chegar mais longe desincentivam-se, [aos que manifestam dificuldades] deve ser prestado todo o apoio de que precisam. Para mim a base da escola pública é que cada aluno desenvolva ao máximo as suas capacidades (...)
[Os alunos que não se esforçam nem  querem estudar] são um dos grandes problemas que estão por resolver. O que não podemos fazer é transformar a escola de instituição académica em centro assistencial. É preciso encontrar uma solução para os alunos desligados dos estudos. Uma possibilidade seria estabelecer, o mais cedo possível, itinerários interessantes(...) 
[Considero o Global Teacher Prize, que elege o melhor professor do mundo], bastante frívolo, dar prémios aos professores. O prémio não é para o melhor mas para o mais inovador. Voltemos ao que disse antes. O trabalho do professor é diário discreto e silencioso, não necessita aplausos nem grandes galardões, apenas despertar, dia a dia, curiosidade nos alunos (...) Estamos a confundir ensinar com entreter. E não é o mesmo. O melhor é um grande professor, o que não aceito é que seja um modelo a seguir. Defendo a liberdade metodológica e de cátedra (...) 
Digo aos meus alunos adolescentes que o maior acto de rebeldia que podem ter é aprender. Porque tornando-se pessoas cultas e formadas vai ser muito mais difícil manipulá-las. Não há nada estimulante para um aluno o ver que aprende e que progride.

Muitas pessoas estão mesmo dispostas a trocar a privacidade pela conveniência

Texto que o Professor Mário Frota nos enviou. Assina-o Ricardo Pintão, advogado de Tecnologia, Media & Comunicações e foi publicado hoje...