segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Não sacrifica as elites"

Na sequência ao texto Discriminação dos alunos, de Maria Elvira Callapez.

A educação escolar tem sido conduzida, desde sempre, por ideologias e há-de continuar a sê-lo. Afinal que actividade humana não o é?

Se afastar aqueles que não aprendiam (aprendem) ao ritmo estabelecido foi (é) uma ideologia, transformada em prática, com uma longa história; dedicar-lhe a maior parte da (ou toda a) atenção foi (é) outra ideologia, também transformada em prática, mais recente.

Se a primeira foi devastadora para a escolarização de muitas crianças e jovens, a segunda não o tem sido menos. Mas há uma diferença: esta apresenta-se como democrática, anti-elitista. Não será nem uma coisa nem outra, mas o argumento soa bem a muitíssimos ouvidos e haverá pouca gente que, questionando o sentido de tal argumento, não se importará de ser interpretado (ainda que mal) de anti-democrático e de elitista.

Só assim se percebe o acolhimento acrítico em sistemas educativos europeus e americanos de declarações como a que se segue, da autoria de um dos mais seguidos pedagogos da actualidade: Philippe Perrenoud, (2001).
“É certoque uma escola orientada para o desenvolvimento de competências preparará menosbem os futuros matemáticos, químicos, historiadores e filósofos. E depois?...Não sacrifica as elites. Na pior das hipóteses, abranda um pouco a suaprogressão… Se isso permitir que umgrande número de alunos fique melhor preparado apenas para a vida, o preço é razoável.”

"LASERLEAP": O FIM ANUNCIADO DAS SERINGAS?

Entrevista ao fotoquímico Carlos Serpa, publicada primeiramente no Diário de Coimbra:



O investigador Carlos Serpa, e o grupo a que pertence no Departamento de Química da Universidade de Coimbra, acabam de regressar do “Photonics West 2012” com um prémio na bagagem: o projecto designado por “LaserLeap” foi um dos dois vencedores num concurso tecnologicamente muito competitivo. Mas afinal o que é e para que serve o LaserLeap?

António Piedade (AP) - O que é a fotónica e quais as áreas multidisciplinares necessárias para o seu desenvolvimento?
Carlos Serpa (CS) - Fotónica refere-se genericamente à geração, manipulação e utilização de luz, cobrindo todas as aplicações de luz deste o ultra-violeta, passando pelo visível até ao infra-vermelho. Na prática a Fotónica enquanto disciplina científica está muito relacionada com a invenção do laser e o inicio da sua utilização em ciência e tecnologia, nos anos 60. Naturalmente os desenvolvimentos na área são muito devedores à disciplina Física de Óptica, mas actualmente pode-se considerar uma área transversal, com o domínio da Biofotónica (interacção de tecidos biológicos e luz) e as aplicações em tecnologia de informação a serem áreas emergentes.

AP - Como surgiu a ideia de utilizar conhecimentos desta área científica para aplicações na medicina?
CS - O grupo de investigação, do qual sou membro, tem uma experiência de cerca de 20 anos na disciplina de Fotoacústica. O que levou ao desenvolvimento da tecnologia LaserLeap é essencialmente devedor desta ampla experiência. Mas o acontecimento específico surgiu com uma necessidade de fazer passar rapidamente pela pele uma entidade molecular que estava em desenvolvimento no Departamento de Química da Universidade de Coimbra. Surgiu de facto de uma necessidade! Havia alguma evidência na literatura científica que ondas de pressão poderiam ajudar à permeação da pele. Como nós tínhamos experiência acumulada na produção de ondas de pressão resolvemos experimentar, tendo obtido resultados bastante bons inicialmente e que temos vindo a optimizar.


AP - Em que consistiu a Vossa participação na Photonics West 2012?
CS - O “SPIE Photonics West” reuniu em São Francisco com cerca de 20 000 participantes. Trata-se de um conjunto de conferências científicas e também uma feira onde produtores de lasers e óptica mostram os últimos desenvolvimentos (por exemplo, a empresa portuguesa Multiwave tinha um stand na exposição). Nós apresentámos uma comunicação cientifica mas também resolvemos corresponder ao desafia de mostrar (em 3 minutos) uma tecnologia prometedora em termos de utilização prática, no mundo real. Entrámos assim numa competição no campo da Biofotónica em que tínhamos de demonstrar que a tecnologia desenvolvida tinha interesse social e comercial e também já maturidade para se tornar um produto comerciável. Tivemos a felicidade de um júri composto por dois empresários do ramo da fotónica, um professor universitário e um gestor de capital de risco considerar a nossa proposta a melhor.

AP - O que é e quais são as aplicações da tecnologia "LaserLeap"?
CS - O projecto LaserLeap consiste no desenvolvimento de uma técnica activa de permeação de pele que, pela utilização de luz laser de baixa intensidade, provoca a abertura reversível de "poros" na pele, permitindo assim a passagem de um medicamento. Isto é conseguido através da formação muito eficiente de uma onda de pressão num material adequado, concomitante com a absorção da luz laser. Esta onda de pressão é propagada à pele, provocando aí um “tremor de terra”. É esta perturbação que vai permitir a passagem do medicamento ou produto cosmético.
Existem perspectivas de utilização em vários actos médicos que actualmente usam uma seringa. Neste momento os nossos alvos prioritários são as aplicações dermatológicas e cosméticas. Nestes campos existem vários tratamentos em que é necessário assegurar que uma elevada concentração de medicamento atinja a derme em poucos minutos, algo que já provámos ser possível com a nossa metodologia. Depois de ultrapassados alguns desafios técnicos, a utilização em vacinação é nosso objectivo. Esta última situação é particularmente importante, pois a vacinação em crianças é usualmente feita por intermédio de injecções, provocando dor e temor.



AP - Qual ou quais as vantagens desta nova forma de administração de fármacos através da pele.
CS - A utilização de lasers de baixa energia, o facto de o laser não estar nunca em contacto com a pele e de o processo ser indolor e reversível, abre perspectivas de utilização em vários tratamentos. O facto de abrir uma alternativa para a administração de moléculas de baixo e alto peso molecular através da pele, podendo constituir uma alternativa credível à administração oral em casos específicos. Exemplos interessantes são os novos medicamentos biotecnológicos, cuja administração oral é praticamente impossível, dada a sua destruição no e pelo trato intestinal. Na medida em que já provámos que promovemos a permeação de moléculas de elevado peso molecular, como proteínas, este é um campo de aplicação promissor.


AP - Quando é que o cidadão poderá vir a ter acesso a esta tecnologia e em que áreas de aplicação surgirá como opção vantajosa.
CS - As principais aplicações são dermatológicas e cosméticas, mas também outras aplicações terapêuticas específicas são de considerar. O campo do tratamento do cancro de pele ou da dor são exemplos. É difícil apontar uma data exacta para a tecnologia estar disponível. Neste momento temos um protótipo que já utilizamos e vamos começar o processo regulamentar com as agências europeia e americana.
A patente foi licenciada pela Universidade de Coimbra a uma empresa que nós formámos e estamos todos seriamente empenhados para levar esta empresa a bom porto! A certeza é que temos uma equipa motivada para levar esta ideia até ao fim, de forma à tecnologia estar disponível o mais rapidamente possível para melhorar a vida das pessoas.

CRIANÇAS E INTERNET EM PORTUGAL


Informação chegada ao De Rerum Natura.

No âmbito do Dia Europeu da Internet Segura, as Edições MinervaCoimbra e a Equipa portuguesa do Projecto EU Kids Online, lançam hoje, segunda-feira, dia 6 de Fevereiro, pelas 18h30, na FNAC Colombo, o livro Crianças e internet em Portugal: Acessos, usos, riscos, mediações, organizado por Ana Jorge, Cristina Ponte, Daniel S. Cardoso e José Alberto Simões. A apresentação será feita por Isabel Stilwell e Estrela Serrano.                  

Resumo: Em que locais acedem as crianças à internet, dentro e fora de casa? Que usos fazem da rede? Quando incorrem em riscos, como lidam com eles? E que influência têm os seus pais, professores, amigos e outras fontes de informação nos modos como usam a internet? Este livro responde a estas questões, discutindo resultados nacionais do inquérito europeu do Projecto EUKids Online, que escutou cerca de 25 mil crianças (9-16 anos) e um dos seus país, nas suas casas, em 25 países, entre os quais Portugal, em 2010.
Às análises realizadas pela equipa portuguesa, juntam-se os comentários de especialistas e de entidades como a Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, o Instituto de Apoio à Criança, o Ministério da Educação ou a Polícia Judiciária. A segurança das crianças na internet diz respeito às famílias, escolas, entidades governamentais, Polícia, indústrias do digital, monitores de espaços informais e muitas outras entidades - incluindo as próprias crianças e os seus direitos de cidadania. Saber lidar com os riscos da internet evitando que constituam situações danosas é condição necessária para que usufruam plenamente as oportunidades da rede, respeitando-se a si e aos outros. Escrita numa linguagem acessível e tornando claros os conceitos usados no Projecto EU Kids Online, esta obra favorece um conhecimento sustentado sobre a realidade portuguesa de um fenómeno que faz parte dos modos contemporâneos de crescer: aceder aos meios digitais e saber tirar partido das suas potencialidades.                        

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O que é o ser humano?

Em 4 de fevereiro de 1868 (aos 69 anos) inicia o livro A Descendência do Homem!

The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex
é um livro escrito por Charles Darwin onde desenvolve melhor sua teoria da seleção sexual e explica mais detalhadamente a origem do ser humano. Como ele concluiu em a "Descendência do Homem", Darwin achava que apesar de todas as "qualidades nobres" e "capacidades sublimes" da humanidade:

"O homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével de sua origem primitiva."

Studies of brain genetics are starting to reveal what makes humans human! Clicar aqui para ver a matéria!

Discriminação de alunos



Como post convidado, chegou-nos este texto de Maria Elvira Callapez, professora na Universidade Lusófona, saído antes no Jornal do Gil:

Actualmente, as salas de aulas são povoadas por pessoas de diferentes culturas, línguas, conhecimentos e capacidades cognitivas. Perante tal diversidade, o que se pode fazer ou o que têm feito as escolas para implementar um ensino diferenciado de forma a satisfazer as necessidades dos alunos, nomeadamente, daqueles que melhor desempenho intelectual manifestam?

Verifica-se que, na generalidade, para os alunos mais dotados, as aulas regulares não são estimulantes. Por que motivo os alunos, dentro de uma sala de aula, são tratados de igual maneira? o que fazer aos alunos que estão intelectualmente mais avançados do que os seus colegas, do que o curriculum, do que os manuais adoptados e, algumas vezes, do que os professores? serão os piores alunos, a prioridade das escolas? que percentagem de bons alunos merece a atenção dos professores? que aproveitamento se tem feito do potencial destes alunos?

Normalmente os alunos com maiores dificuldades de aprendizagem recebem mais atenção e cuidados. Tal como estes, os alunos com maior capacidade deveriam receber uma atenção equivalente de forma a explorar os seus conhecimentos prévios, interesses e capacidade de utilizar conhecimentos em situações novas, ou seja, de modo a elevar os seus níveis de realização. Que custos e ganhos poderão advir destas estratégias?

O bom senso/profissionalismo recomenda que nas salas de aula se tente responder às diferenças individuais, tais como conhecimento prévio, interesses, estilos de aprendizagem, nível de envolvimento. Mas a prática mostra que tal estratégia está longe de ser justa e real pois dificilmente se realiza um ensino diferenciado na mesma aula. O tratamento dado aos bons é igual ao dado aos menos bons, ou seja não se apoia uns nem outros como seria desejável. A classe heterogénea de alunos não é tratada de forma óptima.

Parece ser difícil focar a nossa atenção, de igual forma, sobre todos os alunos, sem ter em consideração os seus níveis de desempenho. Há que reconhecer que os bons alunos evidenciam uma boa base de conhecimentos e que as matérias apreendidas trivialmente não são estimulantes. Precisam de uma motivação intelectual que contribua para o aprofundamento do seu conhecimento, permitindo-lhes fazer uso dos seus talentos e aptidões. Para estes alunos, os professores têm obrigação, por exemplo, de desenvolver conteúdos/actividades orientadas para a “exploração” do seu pensamento crítico, tentando libertar-se das limitações ou tirania do programa que têm de cumprir. Esta filosofia de actuação, bem mais exigente para os professores, ajudará a levantar o tecto educacional dos alunos que, ao enriquecer o seu ambiente de aprendizagem, promove o seu desenvolvimento intelectual e crescimento académico. Os melhores alunos interiorizam mais profundamente os seus conhecimentos pelo que estão preparados para pensar, usando a lógica e o raciocínio de forma a perceber e gerar novos pontos de vista.

Diferenciar as competências de pensamento crítico é uma das mais importantes “avenidas” para os professores envolverem e desafiarem os alunos mais brilhantes. O pensamento crítico é uma competência essencial da nossa vida e um elemento chave num curriculum rigoroso, pois este não se centra apenas em factos e tarefas.

Se os ganhos alcançados pelos “maus” alunos forem os únicos indicadores de sucesso, então teremos que enfrentar grandes desafios e preocupações nos próximos anos. Para evitar tamanhas inquietações, os educadores deveriam entender as necessidades dos alunos melhores, mais dotados, evitar a inibição da sua aprendizagem e providenciar um curriculum com a complexidade adequada ao nível das suas competências. A título de exemplo, os manuais adoptados deveriam conter, além de um programa mínimo, matérias e actividades facultativas, orientadas para alunos mais dotados. A avaliação seria, para todos, sobre o programa mínimo. Daqui poderia nascer um ambiente propício ao desenvolvimento de alunos dotados de pensamento crítico, argumentativo e profundo.

Diferenciar objectivos para alunos, de acordo com as suas aptidões, produziria, seguramente, resultados positivos nesse grupo. É claro que não é confortável lidar com a ideia de ter de escolher um grupo de alunos e dar-lhe tratamento especial, mas há que assumir e reflectir que diferenciar curricula e ver os “bons” alunos com novas lentes pode ser um bom trampolim para uma discriminação positiva!

Maria Elvira Callapez
Dezembro 2011

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A medição da simpatia

Como acontece a quase toda a gente, nesta época que vai ser, de certeza, lembrada pelas nossas preocupações pressurosamente avaliativas, fui solicitada para me pronunciar sobre o modo de atendimento neste, naquele e no outro serviço duma certa instituição.

Para isso, apresentaram-me, em sequência, vários questionários online, daqueles que não nos deixam saltar nenhum item – qualquer esquecimento ou recusa em responder impede-nos de passar para a “página” seguinte – e que, para não desanimarmos com a extensão, vão-nos dando informação, em percentagem, do que ainda falta preencher.

Nesses questionários, perguntava-se como é que eu classificava a “simpatia” dos funcionários. Não me lembro das outras características de personalidade em apreciação, que eram várias, mas lembro-me da “simpatia”, porque me questionou sobre o modo como temos de nos apresentar a outrem, sobretudo aos clientes, para sermos bem avaliados e, em última instância, mantermos o trabalho.

Ora, a “simpatia” não me parece propriamente uma característica profissional.

Porque é uma coisa muito própria da pessoa, do seu modo de ser (longe de mim afirmar que o modo de ser de cada um não se altera). Manifesta-se nas escolhas relacionais que vai fazendo e que dão corpo ao mundo privado que constrói e reconstrói. Traduz-se, digo eu, na disponibilidade de aproximação ao outro, num envolvimento e confiança e em expressões que não têm qualquer outra intenção a não ser ir vivendo.

Isto pode acontecer no mundo do trabalho? Admito que sim, mas nem sempre acontece e nem sequer é necessário (e, mesmo, desejável) que aconteça. Falo em geral, mas neste mundo público, o que importa é que as atitudes dos profissionais sejam compatíveis com as funções que desempenham e só isso. Algumas funções exigirão um sorriso que pode ser de simpatia ou   metamorfoseado de simpatia, outras funções nem sequer exigem qualquer tipo de sorriso.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sessenta obras

Informação chegada ao De Rerum Natura.

O Conselho Editorial dos Classica Digitalia tem o gosto de anunciar a sua mais recente publicação, com a qual se eleva para 60 o número de obras disponibilizadas.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital.
O eBook correspondente (cujo endereço direto é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

NOVIDADE EDITORIAL

Série “Humanitas Supplementum” (Estudos), de Frederico Lourenço, The Lyric Metres of Euripidean Drama (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011). 451 p.
PVP: 40 € / Estudantes: 32 € [capa dura]

Não somos trouxas não. Faça prevalecer seus direitos de consumidor.

ALÉM DOS RANKINGS

"As principais universidades brasileiras vêm se pautando nos últimos anos pelas posições obtidas nos principais rankings mundiais de ensino superior. Se, por um lado, tabelas de desempenho podem auxiliar na escolha de cursos ou parceiros de pesquisa; por outro, há os críticos que qualificam parâmetros quantitativos e objetivos de avaliação como injustos.

O fato é que uma universidade pública e de qualidade como a Unesp tem grande preocupação em dar contrapartida à altura do financiamento que a sociedade lhe proporciona. Ao interagir com a comunidade ao seu redor, portanto, a instituição alimenta um profícuo processo de retroalimentação dinâmica, com benefício para todas as partes, que está além dos rankings.

Após 35 anos de história, celebrados em 2011, a Unesp conta com um ensino de graduação que obteve o melhor índice geral entre as instituições nacionais a partir de 100 cursos avaliados ao longo da história do Enade - Exame Nacional de Desempenho de Estudantes; e uma pós-graduação considerada a segunda melhor do País.

Além disso, a Unesp foi a instituição do ensino superior mais premiada na sétima edição do Prêmio Santander Universidades, sendo laureada nas categorias Empreendedorismo e Universidade Solitária.

Esses dados, porém, dependendo dos critérios de cada ranking, não são contabilizados. É algo para pensar quando se avalia uma instituição fundamentada nos princípios da autonomia do saber, da liberdade de expressão e da reflexão desinteressada, que se coloca diante do mundo como sujeito, simultaneamente, ativo e reativo.

Deve, nesse sentido, absorver demandas e expectativas sociais variadas, às quais precisa responder, mas, ao mesmo tempo, agir para propor pautas e agendas, contribuir para a construção da autoconsciência social, alargar fronteiras culturais e submeter à crítica e realidade, as estruturas sociais e as relações de poder. A Unesp, dessa maneira, segue as demandas e expectativas da sociedade, não se submetendo passivamente a elas e se colocando, muitas vezes, além de mecanismos quantitativos de avaliação.

Os rankings, assim, embora sirvam incontestavelmente de parâmetro de comparação, podem deixar alguns dados sem a devida avaliação, principalmente no que diz respeito à inserção social nas comunidades onde a universidade atua, algo de fundamental relevância numa universidade que, em sua jovem história, se orgulha de ser pública, gratuita, de excelente qualidade e presente em todo o Estado de São Paulo."

Ponto de Vista de Júlio Cezar Durigan, vice-reitor no exercício da reitoria da Unesp, engenheiro agrônomo, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias.

SIMPATIA AO DESBARATO (Os nossos queridos inimigos)


Nova crónica da escritora Cristina Carvalho:

A verdade é que todos temos os nossos queridos inimigos. Desde a cabeleireira brasileira que se instalou e tirou a clientela à cabeleireira portuguesa, porque é mais simpática, mais despachada e mais barateira ao nosso vizinho que diz mal de uns e bem de outros, vá lá uma pessoa perceber porquê. E sobretudo os nossos simpatizantes, a quem topamos as manhas à distância e que nos detestam mesmo quando exibem um sorriso luzidio.

E todos têm razão! A escorraçada cabeleireira, o dito simpatizante, etc, etc. Agora, uma coisa é certa! Pessoalmente, aprecio muito os meus inimigos e quero-os bem por perto! Quero estar sempre pronta a aprender com quem sabe menos ainda do que eu e assim evitar os meus próprios danos e erros. Gosto de os observar, de os evidenciar, de trocar impressões com quem analisa e quem percebe de psicologias. Devíamos todos gostar de saber que os nossos inimigos nos espiam e nos atacam na primeira oportunidade. Que existem para isso. Que vivem nos subúrbios da própria memória e que só se lembram de coisas más, atitudes suburbanas de enorme mesquinhez fazendo tentativas desesperadas de evidência mesmo que isso seja à vossa, à minha custa. Vivem num sobressalto permanente se agradam, se não agradam a um longo e inequívoco cortejo de indigente saber. Entram por ínvios e enviesados atalhos de conhecimentos variados para alcançar a vingança. E a vingança – como todos sabemos – é “o prazer da pança” sendo pança algo que mais tarde ou mais cedo, terão. Virão, sim, a inchar e a rebentar de angústia, angústia essa que se virá a localizar-se sempre ao nível do estômago e dos intestinos e que causa uma espécie de flatulência intelectual digna de registo e que deverá ser rapidamente eliminada sob pena de envenenar todos ali à volta e de o/a próprio/a vir a sofrer na sua mesma explosão.

E é assim que as grandes, emergentes e inesperadas simpatias, os grandes gestos simbólicos de altruísmo, de bem-fazer, de atenções variadas com que algumas pessoas nos brindam – todos já fomos alvos das maiores e repentinas simpatias – se traduzem apenas e pontualmente num significado horroroso: o do próprio e exclusivo interesse. De variados interesses: conhecimentos que pensam que podem vir a ter através de uma putativa amizade; fura aqui e fura ali sempre com um sorriso nos lábios como se eu, tu, nós, vós, eles não compreendêssemos o que está por detrás dessas intenções; amabilidades secas e a cheirar a mofo à distância. E como nada obtêm, lá vem a revolta mais o desânimo mais a incompreensão, o diz que diz, o diz que nunca disse, a incompreensão mais a maledicência ao dobrar de todas as esquinas.

Os nossos queridos inimigos vivem a esvoaçar à nossa volta como as abelhas esvoaçam à volta das colmeias, cheios de graça e intenções. Os nossos queridos inimigos, na primeira maré, afogam-nos se entenderem que é preciso. Rejubilam se nos sentirem prejudicados, rejubilam se nos sentirem na mó de baixo. Rejubilam sempre. Deles podemos sempre esperar o pior.

Ora, alguém menos avisado ainda pode embarcar em simpatias destas, simpatias ao desbarato. Passado algum tempo, não muito, as evidências surgem como estampilhas antigas, daquelas que se molhavam na superfície de um copito de água e se viravam para o papel. Baças de um lado, coloridas e brilhantes do outro. E a luz faz-se num instante. Onde antes eram mimos, atenções, beijinhos e afagos, hoje são frases escondidas, ditas de esguelha, cheias de alusões a tudo e a nada. Ou então são silêncios incompreensíveis, silêncios de medo.

Aprendi que, nas primeiras impressões e porque “já cá ando há muito tempo”, nada é o que parece. Pessoas, surgidas dum nada, querem à viva força ser nossos “amigos” como se a amizade fosse assim – zás! Amigos para sempre! –

É a total falta de discernimento e de razoabilidade.

E para não sofrermos muito, todos nós criamos de algum modo as nossas subtis defesas. É melhor assim.

Por isso, as marés vão e voltam e nós cá vamos chapinhando na babugem e, de vez em quando, se a onda se faz a jeito, até mergulhamos de cabeça. E sabe tão bem! É nessa rebentação com alguns suspiros marulhados que vamos saboreando a frescura das amizades verdadeiras que encontramos no imenso mar da nossa vida.

CRISTINA CARVALHO

03/02/1851: Foucault demonstra a rotação da Terra








Veja matéria abaixo:

HÁ CEM ANOS: CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM 1912 (I)

Crónica publicada no Diário de Coimbra e noutros periódicos regionais.


Ao longo deste ano de 2012 celebram-se vários centenários de ideias, teorias, descobertas e outros acontecimentos que marcaram a ciência a tecnologia e que contribuíram para o actual conhecimento da natureza do Universo em que vivemos.

Conhecer o passado permite-nos contextualizar e compreender melhor o presente, percepcionar o caminho percorrido, por exemplo, entre os primeiros estudos em 1912 com estrelas na pequena Nuvem de Magalhães que permitiram a H. S. Leavitt (1868-1921) calcular a distância entre galáxias, e a noção que hoje temos de que as galáxias continuam a afastar-se umas das outras e de que as estrelas que as compõem são, por regra, orbitadas por planetas.

Relembrar o passado também nos permite retomar uma atitude humilde, reflectindo sobre a infalibilidade da ciência e técnica humanas, ou, por outras palavras, que “errar é humano”. Em 1912, exactamente a 15 de Abril, o maior e tecnicamente mais sofisticado navio transatlântico alguma vez construído na aventura marítima humana, supostamente inaufragável, afundou-se na sua viagem inaugural. Salvaguardando o meu respeito pela memória das vítimas inocentes, ouso escrever que foi um autêntico banho de água fria na arrogância da infalibilidade da certeza humana.


O paleontologista Pierre M. Boule (1861 – 1942) apresentou em 1912 a sua reconstrução do esqueleto de um “Homo neanderthalensis, então denominado “Homem Velho”, encontrado em 1908 em La Chapelle-aux-Saints. A sua interpretação de um conjunto de características presentes no esqueleto que hoje sabemos terem sido causadas por doença ou adaptação ao clima frio (sinais de artrite deformante), resultou numa apresentação imagética simiesca primitiva, grotesca, bruta e rude do Neandertal que se manterá estereotipada até 1950, aquando da sua reanálise e detecção do erro de Boule.




Na procura de uma origem europeia (inglesa…) para o primeiro homem ancestral, 1912 é palco de uma das maiores fraudes na história da paleontologia humana com a apresentação do homem de Piltdown, a partir da descoberta de uma mandíbula de um símio em Sussex pelo arqueologista Charles Dawson. Boule participou também na divulgação e perpetuação do engodo: o pseudo fóssil foi mantido resguardado de olhares alheios, impedida que foi a sua verificação e análise por outros investigadores até ao ano de 1953.
Há cem anos V. M. Slipher (1875 - 1969) publicava no “Lowell Observatory Bulletin o primeiro espectro de uma nebulosa em espiral, o da galáxia Andrómeda. Estas e outras observações permitiram-lhe, e aos seus colaboradores, observar um desvio para o vermelho nos espectros registados, indicação de que as galáxias se afastavam do nosso ponto de observação, a Terra. Curiosamente, a primeira constatação deste fenómeno (desvio para o vermelho nos espectros das estrelas e galáxias) é normalmente atribuído (erroneamente) ao mais conhecido astrónomo Edwin Hubble.

Victor Hess (1883-1964) descobriu há cem anos que a ionização das moléculas que compõem a atmosfera aumentava com a altitude. A sua interpretação deste facto levou-o a propor como causa a existência de perturbações radiantes provenientes do exterior da Terra, mais precisamente prever a existência do que hoje designamos por raios cósmicos. Esta sua descoberta conferiu-lhe a atribuição do Prémio Nobel da Física em 1936.

O ano de 1912 assistiu, ainda no campo da astronomia, à descoberta do primeiro “jacto cósmico” detectado como tal pelo famoso astrónomo norte-americano H.D. Curtis (1872-1942) na galáxia elíptica e gigante M87. Famoso, não por essa primeira observação, mas por ter sido responsável com H. Shapley (1885-1972) pelo “Grande Debate” sobre a natureza das nebulosas e das galáxias e sobre o tamanho do Universo, iniciado na década de 20 do século XX, e que bem lá no fundo remexia mais sobre a importância e dimensão da existência humana no Universo.

(Continua)

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional

CIENTISTAS DE PÉ NO TEATRO VILLARET

SALVAR O MUNDO OU RIR A TENTAR

Sete cientistas das mais diversas áreas falam sobre o assunto de que menos percebem: ambiente. Um biólogo marinho queixa-se da quantidade de protector solar que gasta durante os picos de trabalho, a marquise como solução para o meio planeta que nos falta, a eficácia do speed dating com arroz hermafrodita, como a capacidade de planeamento pode prejudicar o desenrascanço e um tocante peditório para financiar o programa de reprodução de ideias ameaçadas em cativeiro. E fica a pergunta: será que estamos a deixar lixo suficiente para que os arqueólogos do futuro saibam como nós vivemos ou seremos sempre um mistério?

Direcção de texto: David Marçal | Direcção de actores: Romeu Costa | Interpretação: Bruno Pinto (biólogo), João Cruz (biólogo marinho), Joaquim Paulo Nogueira (cientista da comunicação), Leonor Medeiros (arqueóloga), Sónia Negrão (Agrónoma), Ricardo Sequeira

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Levi e Regge em diálogo


Um pequeno extracto do rico diálogo entre o escritor Levi e o físico Regge que acaba de sair em livro na Gradiva, uma obra que vivamente recomendo:

"LEVI: O facto é que, nesta altura, me parece completamente sem sentido que alguém que não um físico escreva um romance de ficção científica. Actualmente, a literatura de ficção científica é uma reserva de caça privada, algo escrito por físicos e para físicos. A parte que entra no mercado comercial é lixo marginal. A verdadeira ficção científica é a que circula na república dos físicos. Foi fundada por gente que sabia alguma física e biologia, que era capaz de comunicar, e de facto teve enorme sucesso.

REGGE: Mas ficou desactualizada muito rapidamente. Se reler os textos da Urania [Revista italiana de contos de ficção científica publicada desde 1952 (edições A. Mondadori). (N. do T.], parece-lhe impossível que, passados vinte anos, a ficção científica tenha sido tão ultrapassada pelos factos. Todas as viagens à Lua se tornaram ridículas, parecem cenários feitos com papel de embrulho.

LEVI: Excepto o livro de Wells, que julgo intitular-se Os Primeiros Homens na Lua e tem uma ideia muito bela: há o cientista habitual, ligeiramente doido, que inventa uma substância plástica que intercepta a força da gravidade. Se te puseres sobre uma placa do «cavorite» dele deixarás de ter peso. O cientista decide construir um veículo muito simples para ir à Lua, um poliedro com cinco ou seis metros de diâmetro, feito de pequenas persianas de «cavorite» que abrigam o inventor e o seu companheiro. O veículo, evidentemente, não tem peso, e para se deslocar é aberta uma janela voltada para a Lua, isto é, ele só «pesa» na direcção da Lua.

REGGE: A astúcia de Wells estava em ele não tentar explicar as máquinas que imaginava. Elas estavam muito além das capacidades tecnológicas do seu tempo e, portanto, não podiam envelhecer.

LEVI: Nem sempre: em Guerra no Ar, Wells previu realmente a Segunda Guerra Mundial, a aliança entre o Japão e a Alemanha, a importância da guerra aérea. Por comparação, Verne parece um pouco patético, um pouco didáctico. Mas um romance de Verne que não é ficção científica, Miguel Strogoff, e que recentemente reli, parece-me muito belo. E o mesmo se pode dizer de Volta ao Mundo em Oitenta Dias, em que o esquecimento dos fusos horários é muito sagaz. Contudo, mantém-se o facto de um género popular como a ficção científica estar em implosão e a tornar-se uma espécie de reserva de caça, um monopólio dos físicos.

REGGE: Asimov deixou de escrever, mas mesmo a sua famosa trilogia tem uma ficção que não se aceita: uma viagem a uma velocidade superior à da luz, e, como sou relativista, tais coisas dão-me traumas psíquicos.

LEVI: As exigências da história forçaram-no a fazer aquilo. Ou se deixa de escrever ou se tenta sub-repticiamente introduzir elementos que vão contra as leis conhecidas.

REGGE: A luz é desesperadoramente lenta para os autores de ficção científica; tentam rodear este facto sem nunca serem capazes de encontrar uma solução. E eu sofro.

LEVI: Arthur C. Clarke tentou elaborar uma lista de coisas que são imagináveis e outras que não são: a inteligência dos mamíferos, estradas de tapetes-rolantes, veículos com colchão de de ar, todos funcionam. Outros não, como a máquina do tempo.

REGGE: Posso compreender uma viagem até à estrela mais próxima, não a curto prazo, digamos dentro de trezentos anos, desde que a humanidade entre num período extraordinário de crescimento económico, seja capaz de colonizar a faixa de asteróides e desenvolva satisfatoriamente a fusão nuclear. O método poderia ser o projecto Oríon imaginado por Dyson: um veículo espacial que tem um espelho semi-esférico de cobre na parte posterior, enorme, qualquer coisa como dez quilómetros, e que a intervalos regulares lance unidades propulsoras, isto é, bombas de hidrogénio que atinjam o centro da esfera, expludam, e empurrem a nave através da onda de impacto. Duzentas mil bombas de hidrogénio seriam suficientes para se alcançar um centésimo da velocidade da luz. Desta maneira, ao fim de quatrocentos anos, chegaríamos à estrela mais próxima. O problema é que uma colónia de pessoas a bordo desta nave degeneraria rapidamente, regressaria a uma cultura provinciana, enfrentaria, depois, sérios problemas genéticos, golpes palacianos, e por aí adiante. O nosso conhecimento sobre o funcionamento de uma sociedade humana é muito mais imperfeito do que o nosso conhecimento sobre máquinas. Já sem mencionar o facto de ser impossível garantir que a maquinaria da nave necessária para a sobrevivência seja capaz de funcionar durante milhares de anos. Hoje em dia, nem mesmo um elevador tem garantia de dois meses..."

UM ANO DE C


A revista C de notícias do Centro fez um ano. Eis a minha crónica publicada no número de hoje:

Aprendi a ler a soletrar os títulos dos jornais e revistas: lembro-me, em petiz, em Lisboa de O Século e de O Século Ilustrado. Ganhei o vício da leitura diária da imprensa. Mudado de Lisboa para Coimbra comecei a ler além da imprensa nacional a imprensa local, que na altura pouco mais era do que o Diário de Coimbra. Pese embora a forte tradição daquele diário foi favoravelmente que recebi o aparecimento do jornal As Beiras, da propriedade de António Abrantes, e dele me fiz assinante. De vez em quando espreitava outros jornais regionais como O Campeão das Províncias (um título singular!) e O Despertar. No primeiro cheguei a colaborar ocasionalmente e talvez por isso ficou uma simpatia que me leva ainda hoje a segui-lo regularmente.

A imprensa regional tem um papel insubstituível pela sua proximidade às populações. Sempre assim foi e sempre assim será, apesar das transformações em curso nos jornais e revistas. O que se passa perto de nos interessa-nos mais do que se passa longe: por exemplo, um desastre de trânsito com um morto numa rua em que passamos todos os dias diz-nos muito mais do que uma catástrofe com dezenas de mortos em Pequim. A imprensa regional ajuda-nos, sobretudo, a construir uma identidade. Ajuda-nos a construir uma cidade e uma região.

Coimbra, pese embora o seu fundo enraizamento na história, tem ainda problemas de relação consigo própria e com o país. É de certo modo a capital do Centro, uma região antes e ainda hoje chamada de Beiras, mas assistiu ao desenvolvimento de cidades como Aveiro, Leiria e Viseu, que competem com Coimbra em várias áreas. E tem uma relação difícil com Lisboa. Mas o que une essas cidades será decerto maior do que as separam, estando todas elas próximas entre si e afastadas da capital de um país macrocêntrico.

Foi, por isso, com gosto que vi nascer, pelas mãos de António Abrantes e de uma equipa provinda em parte de As Beiras, um novo magazine devotado a todo a região Centro. Pese embora a ambiguidade do seu título, C (ver aqui o sítio), julgo que esta letra remeterá mais para o Centro do que para a sua capital tradicional, Coimbra. Não só o conceito como o formato eram novos. Passou um ano. Muitos parabéns e os votos de que faca muitos mais!

Diálogo sobre a Ciência e os Homens

Texto recebido de Guilherme Valente, editor da Gradiva:

A propósito do livro de Primo Levi e Tullio Regge que acabo de editar, DIÁLOGO SOBRE A CIÊNCIA E OS HOMENS.

A minha leitura deste livro transportou-me aos dias pioneiros do lançamento da colecção «Ciência Aberta», do seu efeito nas novas gerações e na escola. Um tempo em que pude descobrir a natureza e o carácter formativo da ciência, em que o espírito científico e a cultura científica se me revelaram como cultura da liberdade e do desenvolvimento, como antídoto para os traços mais deploráveis da velha cultura portuguesa.

Anos de confiança e esperança em que nas listas de best-sellers os três primeiros lugares chegaram a ser ocupados por livros de divulgação científica (nos tops de hoje, nem vestígios de um livro de ciência).

Depois foi o eduquês, uma ideia de escola anticiência, muito pior do que nos anos 60, e a concomitante ignorância progressiva e o desinteresse crescente pela cultura científica nas secções de livros e cultura dos órgãos de comunicação social (com excepções resistentes, claro). Dias de agora, que parecem dias do fim, mas a que é preciso continuar a resistir, neste e noutros domínios.

GUILHERME VALENTE

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

As ideias que mudaram o mundo


Minha apresentação em vídeo do livro "As ideias que mudaram o mundo" de Steven Johnson (Clube do Autor): aqui.

ANTÓNIO PINHO VARGAS, PRÉMIO UNIVERSIDADE DE COIMBRA 2012

Prefácio ao Diálogo entre Primo Levi e Tullio Regge


Acaba de sair na colecção "Ciência Aberta" da editora Gradiva um muito interessante Diálogo sobre a Ciência e os Homens entre o escritor Primo Levi e o físico Tullio Regge, em tradução do professor de Física da Universidade do Porto Eduardo Lage e prefácio de outro professor de Física da mesma Universidade José Moreira Araújo. Por amabilidade da editora transcrevemos o prefácio:

De um diálogo entre o consagrado escritor italiano Primo Levi (1918-1987) e um físico teórico, também italiano do Piemonte, Tullio Regge — famoso por razões bem diversas —, muitos poderiam recear um verdadeiro «diálogo de surdos». Sê-lo-ia, provavelmente, para duas personalidades escolhidas ao acaso de entre os cultores daquelas áreas. Mas Primo Levi e Tullio Regge, pela sua inteligência e bom senso, espírito criativo e abrangente curiosidade, podem ser considerados, qualquer deles, como dignos representantes das «duas culturas».

Nos nossos dias, dispomos de acesso quase instantâneo a bases de dados que relatam, melhor ou pior, a biografia de um escritor como Primo Levi: a sua juventude em Turim, os seus estudos superiores, as medidas antijudaicas, a resistência à ocupação alemã, a prisão e o envio para Auschwitz, a improvável sobrevivência, a libertação pelo Exército Vermelho, a saga do regresso à cidade natal e à profissão de químico industrial. E, depois, a aparentemente irresistível necessidade de escrever, de depor, sobre horrores vividos.

A sua obra literária, hoje traduzida em muitas línguas, cresceu e diversificou-se ao longo de quatro décadas,num estilo marcado pela sua formação e curiosidade científica. No entanto, muitos de nós, pouco confiantes no seu domínio da língua italiana, tiveram de esperar anos, por vezes muitos, por uma tradução em língua mais divulgada, por exemplo inglês. Com a excepção, que creio única, de Se questo e un uomo, tais traduções só surgem a partir dos anos 80. Foi o que me aconteceu: por exemplo, só em 1984 li The Periodic Table, quando a edição original, Il Sistema Periodico, é de 1975; a partir daí fui ampliando, atentamente, a minha pequena colecção que, hoje em dia, até inclui alguns originais italianos, como o Dialogo de Primo Levi e Tullio Regge.

Neste Ano Internacional da Química (2011), não será despropositado recordar que, em 2006, a prestigiada e centenária Royal Institution britânica decidiu identificar o melhor livro sobre ciência jamais escrito («the best science book ever written»). Convidadas instituições e individualidades a propor obras dessa índole, não faltaram sugestões de escritos assinados por
notáveis, do século XIX aos contemporâneos: Charles Darwin, Bertold Brecht, Konrad Lorenz, Peter Medawar, James Watson, Richard Feynman, Roger Penrose, Oliver Sacks, Richard Dawkins, etc., etc. E o difícil problema de escolha terminou com a proclamação da obra vencedora: precisamente O Sistema Periódico, de Primo Levi. Se o autor ainda vivesse teria, provavelmente, acolhido a notícia com não mais que um modesto sorriso…

Conheci Tullio Regge muito antes de me tornar leitor ávido de Primo Levi. Aconteceu no Verão de 1953, na École d’Été de Physique Théorique, que se realizava, pela terceira vez, em Les Houches, pequena povoação nos Alpes franceses, a uns oito quilómetros da estância de Chamonix. Havia então um numerus clausus de 30 alunos, igualmente repartido entre franceses e estrangeiros, e um corpo docente internacional, escolhido entre físicos de renome, que aceitavam colaborar na «recuperação pós-guerra» da Física francesa. Naquele ano, apenas um convidado tinha já a aura do Nobel: o inconfundível Wolfgang Pauli (1945). A este, em breve se juntariam três outros professores daquele ano, William Shockley (1956), J. Hans D. Jensen (1963), Alfred Kastler (1966), existindo pelo menos outros tantos (Rudolf Peierls, C. Møller, C. J. Gorter) não menos notáveis. Os alunos estrangeiros tinham as mais variadas proveniências e havia, naturalmente, alguns italianos, nomeadamente Vladimir Glebovich Wataghin e Tullio Regge.

O primeiro era o filho mais novo de Gleb Wataghin (1899-1986), russo naturalizado italiano, cuja atribulada história é brevemente evocada por Tullio Regge no Diálogo. Algo decepcionado com as engenharias, levado por um amigo a visitar Gleb Wataghin no seu escritório, Regge encontra o seu caminho: «Entrei engenheiro e saí físico, sonhando de olhos abertos.»

Gleb Wataghin tinha estado na origem da actualização do ensino superior da Física em Turim. Em 1934, aceitara um convite para a Universidade de São Paulo que, para seu bem e dos físicos brasileiros, só terminou no pós-guerra, quando regressou a Turim. Vladimir também falava português e gostava de o praticar, em longas conversas que tínhamos.

O que assim fiquei a saber, através daqueles colegas italianos, levou-me a incluir numa carta de Agosto de 1953, dirigida ao director do Laboratório de Física da Universidade do Porto, a seguinte passagem: «Não seria também aconselhável convidar um ou mais físicos de primeira classe para ir até Portugal? Afinal, há coisa de 20 anos não havia, praticamente, físicos no Brasil. Convidam Wataghin que, sem ser um génio era um bom físico e um bom professor, e, 10 anos depois, além de Lattes, Leite Lopes, Tiomno e alguns outros, tinham atraído Feynman, Rossi, Occhialini, Bohm, para só citar nomes mais conhecidos — ainda que alguns sejam apenas ‘professores visitantes’ passando no Brasil um ou dois trimestres por ano.» O destinatário da carta— recuperada, por mero acaso, 50 anos depois — sublinhou a passagem, mas não sei se a terá transmitido «superiormente». Aparentemente, Gleb Wataghin tinha, também, o precioso dom de bem avaliar as pessoas: Tullio Regge era, sem dúvida — juntamente com o francês Pierre-Gilles DeGennes — uma das maiores promessas do curso de 1953 de Les Houches. A sua lista das distinções, acumuladas ao longo dos anos, fala por si: Prémio Dannie Heinman de Física Matemática (1964), Prémio Albert Einstein (1979) (atribuída a Stephen Hawking no ano anterior), Medalha Cecil Powell (1987), Medalha Dirac (Centro Internacional de Física Teórica, 1996), Prémio Marcel Grossman (1997), Prémio Pomeranchuk (2001).

Ao longo do tempo não mantive contactos regulares com Regge; apenas recordo correspondência ou mensagens associadas a possíveis estadias em Turim de físicos ou astrofísicos portugueses, que me abordavam. Mas encontrar-nos-íamos mais uma vez, quando fui membro de uma Comissão Científica e Técnica, em Bruxelas.

Um belo dia somos informados de que um deputado do Parlamento Europeu desejava avistar-se com a Comissão, e sou surpreendido ao reconhecer Regge, numa cadeira de rodas, conduzida por uma jovem. Como ficaria a saber, Regge foi deputado (independente) do Parlamento Europeu no quinquénio 1989-1994.

Mais surpreendido fiquei quando aquela jovem atravessa a sala para me vir dizer que o pai pedia que, terminada a reunião, não saísse sem ir falar com ele. Assim fiz, notando que várias cabeças se voltavam para mim; e logo acorreram comissários e altos funcionários, aparentemente interessados em serem vistos junto ao parlamentar. Enfim, a nossa conversa não chegou a ser o que, provavelmente, ambos gostaríamos que tivesse sido. Mas foi um prazer reencontrar Regge, passados quase quarenta anos.

J. MOREIRA ARAÚJO
Professor Catedrático de Física da Faculdade de Ciências, jubilado em 1998, e actualmente Professor Emérito da Universidade do Porto.
Maio de 2011

Partos em casa


Uma notícia triste, acerca de uma australiana de 36 anos, defensora dos partos em casa, que morreu a dar à luz a sua segunda filha.

Em 1960 morriam em Portugal 29 em cada mil recém nascidos e 18% dos partos eram realizados no hospital/maternidade. Em 2010 morreram menos de dois em cada mil recém nascidos e 99% dos partos ocorreram em ambiente hospitalar. O mesmo se aplica a mortes fetais e da mãe durante o parto (Dados PORDATA).

Quem quer ter partos em casa deve conhecer estes números e assumir as responsabilidades. Não se pode ter o melhor de dois mundos: o ambiente zen e a segurança acrescida que os meios de um hospital permitem. E o Estado não tem que pagar ambulâncias "plenamente equipadas" à porta de casa, com equipas médicas de prevenção, como alguns defendem.

"UM INDIVÍDUO VULGAR"

“De repente as portas abrem-se e vemos um homem patético, simples, pequeno, igual a qualquer um, não tinha chifres, nada. E este homem tinha...