segunda-feira, 7 de março de 2011

Especulações extraterrestres (mais uma)


É mais uma aparente notícia fabulosa da astrobiologia: Richard B. Hoover, cientista da NASA, afirma ter encontrado evidências de vida extraterrestre num meteorito. A Fox News teve o exclusivo da divulgação (o que não augura nada de bom ao nível de notícias de ciência!) e os meios de comunicação social portugueses foram atrás da festa num estilo ligeiramente pior, vinculando a própria NASA à descoberta, algo que não aconteceu (vejam-se os artigos nos jornais i e JN assim como na TSF).

Diga-se antecipadamente que esta notícia tem de ser tratada pela esfera da ciência, tem o seu "tempo de maturação e análise" e, portanto, qualquer tipo de comentário ou conclusão deverá ser, para já, precipitada. Porém, há dois pormenores que devem ser salientados:

1. Os resultados desta investigação foram publicados no Journal of Cosmology, uma publicação com claros problemas de credibilidade científica, algo que o Carlos Oliveira já tinha reparado há meses. Aliás, um dos mais interessantes (do ponto de vista do seu trabalho na área da divulgação científica) astrónomos americanos, Phil Plait, também acentua no seu blogue:

In my opinion, The Journal of Cosmology has published articles in the past that can charitably be called "shaky" (like this anti-Big Bang paper). One of their editors, Chandra Wickramasinghe, has made some pretty outrageous claims about NASA and life in space (links to some of his other odd claims can be found at that page as well). However, this does not necessarily mean that Hoover’s work is any more suspect than any other scientific claim! But it does mean I will cast an especially-skeptical eye on claims made in papers published by them.

Aliás, não sabemos sequer se o Journal of Cosmology estará a operar na clandestinidade (ironia, claro), pois foi o próprio que anunciou a sua morte (a 14 de Fevereiro deste ano), atribuindo culpas irracionais e conspirativas à NASA. Será o último e estrondoso fôlego antes do fim anunciado? A própria linha editorial do seu "editor-chefe" é também posta em causa por David Dobbs aqui.

Coloca-se, portanto, a seguinte questão: este artigo teria sido aprovado pelas revistas científicas "tradicionais"? Passaria a análise céptica e crítica (sim, com as suas falhas, é certo...) dos seus editores?

2. Há dois comentários que gostaria de colocar aqui sobre a questão científica em si; eis o conhecido biólogo P.Z. Myers:

Reading the text, my impression is one of excessive padding. It's a dump of miscellaneous facts about carbonaceous chondrites, not well-honed arguments edited to promote concision or cogency. The figures are annoying; when you skim through them, several will jump out at you as very provocative and looking an awful lot like real bacteria, but then without exception they all turn out to be photos of terrestrial organisms thrown in for reference. The extraterrestrial 'bacteria' all look like random mineral squiggles and bumps on a field full of random squiggles and bumps, and apparently, the authors thought some particular squiggle looked sort of like some photo of a bug. This isn't science, it's pareidolia. They might as well be analyzing Martian satellite photos for pictures that sorta kinda look like artifacts.

Nada meigo, Myers ironiza:

I'm looking forward to the publication next year of the discovery of an extraterrestrial rabbit in a meteor. While they're at it, they might as well throw in a bigfoot print on the surface and chupacabra coprolite from space. All will be about as convincing as this story.
While they're at it, maybe they should try publishing it in a journal with some reputation for rigorous peer review and expectation that the data will meet certain minimal standards of evidence and professionalism.
Otherwise, this work is garbage. I'm surprised anyone is granting it any credibility at all.

Por seu lado, Rosie Redfield, uma das biólogas que mais contestou a famosa notícia da bactéria de arsénico, também já se pronunciou sobre este estudo:

He spends a lot of text discussing the morpohlogical similarities of these filaments to cyanobacteria, but I don't regard these similarities as worth anything. Filamentous bacteria are very morphologically diverse, and additional variations in appearance are likely to result from inconsistent preparation for electron microscopy. It's probably pretty easy to find a bacterial image that resembles any fibrous structure. In the absence of any statistical evidence to the contrary, it's prudent to assume that such similarities are purely coincidental.

The author tacks on quite a bit of other less-than-compelling information intended to support his claim that life from space is plausible. For example, he shows photos of colonies of coloured microorganisms to support his argument that the colours seen on the surfaces of Europa and Enceladus are biological in origin.

E acrescentou esta pequena nota sobre o editor do Journal of Cosmology:

Chandra Wickramasinghe is the journal's Executive Editor for Astrobiology, and presumably is the Editor responsible for this article. I heard him give a talk pushing panspermia about 10 years ago (the audience was an undergraduate science society at Oxford). The talk was very slick but dreadfully bad as science. The evidence he cited to support his arguments wasn't actually untrue, but he twisted everything to make his arguments seem stronger than they were. He argued like a lawyer - his only goal seemed to be convincing the audience that his conclusion was correct, regardless of the contrary evidence that an unbiased consideration of the evidence would provide. Thus I wouldn't trust his scientific judgment about anything concerning astrobiology.

Estamos, portanto, perante mais um eventual mau serviço à ciência (leia-se, oportunamente, o ponto de vista colocado pelo AstroPT); sublinho a palavra "eventual" pois o Journal of Cosmology prometeu publicar todos os comentários que receber sobre este estudo, permitindo, assim, que haja alguma seriedade no meio da confusão. E, caso se venha a concluir que se trata apenas de um mau trabalho feito em nome da ciência, esperemos que os nossos meios de comunicação social possam entender este episódio de uma maneira didáctica...

SÓ É PARVA QUEM QUER


Texto de opinião recebido de Elsa Ligeiro, que dirige a editora Alma Azul:

O novo Reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, afirmou na sua tomada de posse, e em tom claro, o seguinte: A Universidade é o lugar certo para pensar e mudar o mundo. Sabe bem escutar da voz de quem chega para liderar a mais antiga Universidade do País um discurso tão positivo quanto ao futuro. Apesar de o Ensino Superior viver dias difíceis, de falta de dinheiro, mas não só.

A qualificação e a excelência em Portugal continuam a ser uma excepção e não a norma. E estas de pouco valem sem maturidade. Não se pode abordar o ensino universitário sem passar por um ensino secundário tão pouco dado à qualificação e à excelência. Como olhar o ensino e o seu 12.º ano sem o constrangimento de ver alunos com nota alta que garante a entrada no Ensino Superior sem saberem ler, ou escrever, com o mínimo de destreza? E a Matemática, grande formadora da razão, completamente marginalizada pelos alunos de humanidades?

E que dizer do Pensamento? Do saber pensar de que fala o novo Reitor, que não é tarefa só para universitários, mas deve ser uma componente nuclear desde o ensino primário (1.º ciclo), sobretudo quando em Portugal até se glorifica a ironia de alguém se chamar a si própria de parva.

E que pensar dos que opinam sobre a sociedade portuguesa que, a julgar pelos jornais e redes sociais, é uma terra de ninguém. Sem responsáveis. Com gente que não escolhe, não vota. Com a imagem do senhor Sócrates a servir de bombo a todas as pancadas sonoras que livram (ou libertam) professores, pais, e os próprios jovens de 30 anos à procura do seu primeiro emprego, que julgam um direito adquirido ao nascer. Igual ao de serem homens e mulheres livres, com a responsabilidade cívica que tal direito os obriga. Sobretudo para com o país que os qualificou.

Um Ensino que não clarifica o pensamento; que não se preocupa com o pensar. Que não ajuda as crianças e os jovens a sentir a diferença entre trabalho e emprego; que não os ensina a lidar com os valores da liberdade e da solidariedade (só com a enigmática Bolsa de Valores que até há pouco todos glorificavam e que agora ninguém se responsabiliza por ela); que não lhes exige o esforço da escolha e da responsabilidade desde cedo: na família, no infantário, na Escola, na comunidade. Um Ensino que desde o primário ao secundário se transformou numa produção de funcionários para empregos (se possível) no Estado, dificilmente chega ao nível Superior fornecendo capacidade e vontade para pensar e mudar o mundo, como deve e pode ser também em Portugal.

Elsa Ligeiro

História das ciências em destaque num congresso em Coimbra


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra:

Encontro internacional sobre história da ciência é integrado no programa de comemorações do Centenário da República na Universidade de Coimbra (UC)

“Não se pode falar de ciência em Portugal sem falar de ciência na Universidade de Coimbra”. É com esta convicção que Carlos Fiolhais justifica a organização em Coimbra de um Congresso Luso-Brasileiro da História das Ciências. A iniciativa, que decorre no mês de Outubro, é também uma forma de assinalar os cem anos da Faculdade de Ciências da UC (desde 1970 também de Tecnologia).

O astrónomo e matemático Pedro Nunes. O jesuíta alemão Christophorus Clavius. O luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Os matemáticos José Monteiro da Rocha e Anastácio da Cunha. Ou ainda o botânico Avelar Brotero. Exemplos de personalidades de Coimbra que marcaram a história da ciência não faltam. “Não se pode falar de ciência em Portugal sem falar de ciência na Universidade de Coimbra”, conclui Carlos Fiolhais. Membro da comissão organizadora do Congresso Luso-Brasileiro da História das Ciências, Fiolhais afirma que o encontro visa a melhor compreensão do nosso passado científico. “Só conhecendo melhor quem somos, poderemos saber quem somos e, acima de tudo, quem queremos ser”, acredita o especialista.

Para Carlos Fiolhais, existe também uma clara ligação entre a história da ciência em Portugal e a República. “O ideal republicano, que tem uma ligação forte às ciências do século XIX, mostrou, com a criação de três Faculdade de Ciências (no Porto, em Coimbra e em Lisboa), a sua esperança nas ciências para formar um país novo. Essa foi uma das maiores contribuições da República para a nossa modernidade, apesar de todas as vicissitudes e contradições, da 1ª República”, defende o físico.

O Congresso Luso-Brasileiro da História das Ciências terá lugar em Coimbra de 26 a 29 de Outubro de 2011, numa organização conjunta de especialistas portugueses e brasileiros. O encontro assinala os 100 anos da criação da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, que resultou da fusão, pouco depois da implantação da República, das Faculdades de Filosofia e Matemática criadas pela Reforma Pombalina.

A ciência e a técnica no tempo dos descobrimentos, o conhecimento científico nos séculos XVI e XVII, o ensino das ciências pelos Jesuítas, as ciências no iluminismo e o desenvolvimento científico no século XIX são alguns dos temas que serão discutidos durante o encontro. Será ainda privilegiada, informa a organização do congresso, a História da Ciência relacionada com a Universidade de Coimbra, bem como as relações científicas luso-brasileiras.

Para o Congresso já estão confirmadas as presenças de algumas personalidades de relevo da história da ciência como Henrique Leitão (Universidade de Lisboa), Fernando Catroga (Universidade de Coimbra), João Lobo Antunes (Universidade de Lisboa), Jaime Benchimol (Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ), António Augusto Passos Videira (Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ), Ugo Baldini (Università degli Studi di Padova), Marina Massimi (Universidade de São Paulo), Robert Halleux (Université de Liège), Roberto de Andrade Martins (Universidade Estadual de Campinas) e Bernadette Bensaude-Vincent (Université Paris I).

“O desenvolvimento de todas as Faculdades da UC na área das ciências ao longo dos séculos permitiu reunir um valioso património científico que tem sido objecto de interesse por vários investigadores da história das ciências. É este património que está na origem da criação do Museu de Ciência, distinguido em 2008 com o prémio Michelletti para o melhor museu europeu de ciência e tecnologia de 2008”, revela o Museu da Ciência da UC, entidade que vai acolher o Congresso e cujas instalações foram cenário de avanços na ciência portuguesa.

O Congresso Luso-Brasileiro da História das Ciências é um congresso aberto à participação de quem trabalha nas áreas discutidas. A submissão de trabalhos decorre até 31 de Março e poderá ser feita através do site http://www.uc.pt/congressos/clbhc/. A iniciativa decorre no âmbito do programa de comemorações do Centenário da República organizado pela Universidade de Coimbra em 2010 e 2011.

Ainda outro poema de Manuel da Fonseca


O "Quarto" Poema da Infância de Manuel da Fonseca (na fotografia; nascido em Santiago do Cacém a 15 de Outubro de 1911 e falecido em Lisboa a 11 de Março de 1993) fica muito bem depois do "Segundo" (o "Terceiro" que me perdoe por ter sido saltado):

Depois

vinha o luar pela rua fora;
e nem o jogo das cinco pedrinhas nos interessava.
Seria de cansados de correr
ou cansados do luar?
Ficávamos sentados no chão.
Imóveis.
Só as famílias puxavam cadeiras para as portas.
E conversavam coisas antigas e misteriosas.
E nós sentados no chão.
Cansados.
Dizia o avô: - quando eu era novo...
E o avô era novo
e tinha um cavalo que corria, corria...
Quem levantou a cortina da janela
quando o avô passava em frente de certa casa?
E o luar na rua
e no teu rosto de menina deslumbrada.
Quem pôs o luar no fundo dos teus olhos?
Imóveis no chão, e com uma vontade nem sei de quê.
Decerto
foi numa noite dessas
que eu pus os dedos sobre o teu peito
e senti os teus seios nascerem debaixo das minhas mãos!

Nunca mais jogámos o jogo das cinco pedrinhas!...

Manuel da Fonseca

Outro poema de Manuel da Fonseca

Segundo poema de Manuel da Fonseca, que também li na mesma ocasião:

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebecem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

Manuel da Fonseca


Poema de Manuel da Fonseca

Este ano comemora-se o centenário do nascimento escritor neo-realista Manuel da Fonseca. Do seu livro "Rosa dos Ventos" (de 1940), escolhi, para ler em sessão recente sobre o neo-realismo, o "Primeiro" dos "Poemas da Infância":

Uma tarde,
o Tóino
chegou ao largo
com um vidro extraordinário.
Segurava-se
entre o polegar e o indicador,
virado para o sol,
e do outro lado
chispavam as sete cores do arco-íris!
E nós,
em volta,
esquecidos do jogo do pião!...

Manuel da Fonseca

Desobediência: questão de vida




A minha crónica semanal no jornal i, desta vez relembrando Stanley Miller e uma das mais elegantes experiências científicas do século passado que, no meu tempo de secundário, ainda era referenciada e discutida ...

Quando Stanley Miller nasceu, há precisamente 81 anos, ninguém sonharia que um dia viria a trabalhar com um químico laureado com um Nobel, nem tão-pouco que realizaria uma das mais fascinantes experiências do seu tempo. Em 1953, sob a supervisão do seu orientador nobelizado, Harold Urey, Miller juntou água, hidrogénio, amoníaco, metano, algumas descargas eléctricas e o resultado foi... Bem, regressemos primeiro a 1929, altura em que o grande bioquímico britânico Haldane e o soviético Oparin anunciaram que os ingredientes da vida tinham existido na Terra primordial e que, combinados com a radiação solar e outros mecanismos, desencadeariam a explosão dos seres vivos. Urey sempre gostou da ideia, mas era preciso testá-la. Urey, inicialmente, desencorajou Miller: "Serão precisos anos até termos resultados", disse-lhe. Miller desobedeceu, simulou o ambiente da Terra-bebé e,nesse mesmo dia, encontrou uma camada de hidrocarbonetos na água; uma semana depois pasmou com uma lama castanha: moléculas orgânicas, aminoácidos, o infinitesimal da vida! Miller enviou os resultados para a revista "Science", creditando Urey como co-autor. Urey riscou o seu nome, argumentando apenas: "Eu já tenho um Nobel!" Carl Sagan, o mais famoso cientista-divulgador do nosso tempo, descreve a experiência como "o passo mais convincente de que a vida pode existir em abundância no cosmos". Parabéns, Stanley Miller, pelo aniversário e pela desobediência!

domingo, 6 de março de 2011

O organismo Terra


Destacamos do último "Destak" o artigo de opinião de J.L. Pio Abreu:

Desde há quatro mil milhões de anos, a vida na Terra desenvolveu-se em diversos nichos ecológicos que tinham vida e alguma autonomia.

O bicho humano ligou todos os nichos mas ficou acantonado no interior das suas culturas e dos Estados Nação, que se mantinham independentes. Com a globalização das trocas comerciais, da sua regulação pelos mercados e da troca de informações, a Terra é hoje inteiramente interdependente, como se fosse um só organismo vivo.

Com os audiovisuais e a Internet, o sistema nervoso da Terra está inteiramente desenvolvido. Os seis biliões de células – as pessoas que nela habitam – podem agora ligar-se sem fronteiras e aceder a toda a informação. A tendência é para a imitação, pois os mecanismos de organização e diferenciação de funções, que antes pertenciam aos Estados-Nação, estão em dissolução.

Para se tornar um organismo viável, a Terra precisava ainda de um sistema controlado de produção, transformação e distribuição de matéria-energia. Os Mercados poderiam ser o embrião desse sistema, mas dedicam-se apenas a uma distribuição assimétrica, qual coração com artérias entupidas. Por outro lado, em vez de produzir energia, a Terra recorreu às suas reservas que, de tão escassas e valiosas, ficaram sob uma guarda pretoriana que se está a desvanecer.

Este novo organismo global tem problemas de energia. Tem células interligadas e prontas a produzir, mas o coração não as alimenta por igual nem se submete à sua rede. Será viável?

MASS EXTINCTIONS: FIVE OVER THE COURSE OF 540 MILLION YEARS.


Destaque para a coluna semanal WHAT’S NEW do físico Robert L. Park:

1. The extinction of species is to be expected in a violent universe; that's why we have paleontologists. They have identified five mass extinctions over the past 540 million years in which the number of species declined by over 75% in a geologically brief interval. These mass extinctions mark the end of the Ordovician, Devonian, Permian, Triassic and Cretaceous Periods. Recovery from each of these episodes took millions of years. There is a growing conviction among paleobiologists that Earth is on the brink of mass extinction-six. The only exception is Homo sapiens. By any measure, Homo sapiens is thriving at the expense of wild species. Now numbering almost seven billion, the population has doubled since Paul Ehrlich published the Population Bomb (Oxford, 1968) which warned of mass starvation by the turn-of-the-century. Ironically, the developed nations are today confronted with an obesity epidemic.

2. A review article in yesterday's Nature by Barnosky et al. at UC Berkeley asks, "Has the Earth's sixth mass extinction already arrived?” The article answers in the affirmative. The current extinction crisis, number six, unlike previous episodes, results from the actions of a single species, Homo sapiens. The evidence is everywhere, global warming, enormous ocean garbage patches, destruction of the great ocean fisheries, deforestation, etc. Of the 5,487 known species in the class Mammalia, for example, 1,141 are considered by the International Union for Conservation of Nature (IUCN) to be "threatened with extinction." The ancient concept of a "Balance of Nature," described by Herodotus in 425BC, is still frequently invoked to explain apparent homeostasis between species. But there is no homeostasis; it was simply an illusion created by the short lifespan of humans. That's why we have paleontologists. The balance-of-nature gave way to Darwin's "origin of species by natural selection" in 1858. There are still frequent references to the Balance of Nature by those who don't understand evolution. More recently, the Gaia hypothesis has developed a following. It’s a more spiritual version of homeostasis in which Earth is viewed as a single organism. That seems to imply a plan, which would put Gaia in the category of superstition.

Robert Park

BIG BANG (as)Sexual



1º Texto, de uma série, publicado primeiramente no astroPT.

A vida eclodiu replicante no planeta, sem tons de azul, há cerca de quatro mil milhões de anos.

Biomoléculas contendo simultaneamente informação e “habilidade” autocatalítica de se replicarem, no interior de bolhas primevas delimitadas por películas lipídicas, deram a toada constante para o mote replicativo assexuado na biosfera.

Desses tempos apreciamos a fidelidade na cópia eficiente e exacta da informação mais ajustada ao envolvente, capaz de garantir uma explosão exponencial de clones colonizadores da imensa solução aquosa que envolvia e arrefecia suavemente os resquícios da acreção planetária.

Ainda não encontramos fósseis terrestres desses primeiros tempos. Por isso são úteis quaisquer fósseis extraterrestres que corroborem esta hipótese e emprestem substância científica à ficção.

A replicação assexuada populou o planeta de seres unicelulares em suspensão aquosa. Cada novo átomo incorporado acrescentava excitação à duplicação até ao ajuste da estabilidade conforme à fidelidade original.

Chuvas de elementos “supernovos”, jorrados por explosões, canto do cisne de supernovas distantes, causariam convulsões assexuadas muito excitantes para as bolhas replicantes.

Sob agitação constante em banho-maria a vida terá evoluído de excitação em excitação, molecular e elementar, sempre com rima presa na assexualidade de uma exuberante mitose.

Pelo menos e tanto quanto sabemos durante uns dois mil milhões de anos, a vida pendulou assim até à incorporação, não de moléculas e elementos, mas de outras “bolhas replicantes”, num exercício deambulante de predação indiferenciada.

E, numa relação atrevida, uma bolha incorpora outra bolha até um resultado estável. A tendência entrópica controla-se num erotismo que dissolve o paradigma procariótico de um único ambiente interino.


Num espasmo vesicular, a vida abraça-se em novos compartimentos intracelulares num prenúncio de vésperas eucarióticas.

António Piedade

(continua)

sábado, 5 de março de 2011

Precisamos de merda senhor Soisa



Como é Carnaval ninguém leva a mal. Partilhamos picaresco poema recebido do Prof. Galopim de Carvalho:

A história é verdadeira. Estes versos foram ditos pelo próprio, segundo creio, num jantar de Carnaval, em 1934. O Ministro visado detinha a paste da Agricultura do governo de Salazar e chamava-se Leovigildo Queimado Franco de Sousa. O autor dos versos era alentejano, de Évora (?), chamava-se João Vasconcelos e Sá e era avô do fadista Pinto Basto.

E X P O S I Ç Ã O

Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor: Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca!
- A matéria, em questão, chama-se caca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijem-nos, também, por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo com sossego,
ajeite o cú bem apontado ao rego,
e... como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhe os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
n'um traque do Ministro das Finanças?...
E quem vier aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.

Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos n'elas.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de potassa?... Cal?... Azote?...
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas;
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda...

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

sexta-feira, 4 de março de 2011

"Olá ! Eu sou Luís de Camões"

Na sequência de texto anterior, relativo à sensibilização para o ambiente com recurso aos Clássicos, não pude deixar de me lembrar de um certo diálogo (pedagógico-didáctico?) destinado a alunos do nosso sistema de ensino e criado, para o mesmo fim, certamente, com as melhores intenções.

Trata-se de um diálogo entre (nada mais nada menos do que) Luís de Camões e António Gedeão, que, por magia, se terão encontrado já neste século. Inúmeras são as considerações que se lhe poderiam tecer, limito-me a destacar a tentativa pseudo-pedagógica que, nele se percebe, de contextualizar as aprendizagens no tempo presente e no espaço de vivência dos alunos, de os tentar interessar por aquilo que se supõe que lhes interessa, de lhes apresentar situações que poderão, a olhos desprevenidos, parecer divertidas, de apelar, a cada passo, ao lúdico, de usar predominante ou exclusivamente a linguagem corrente em sala de aula...

"Luís de Camões - Olá ! Eu sou Luís de Camões e ouvi dizer por aí que andaste a imitar um poema meu que falava sobre a minha bela Leanor. E como se não bastasse transformaste-a numa figura horrorosa, que mais parecia ter saído de um bordel. Nunca ouviste falar nos Direitos de Autor?
António Gedeão - Acalme-se homem. Em primeiro lugar eu não imitei o seu poema. Eu só me baseei nele para escrever um poema mais moderno, que as pessoas desta época possam perceber. Além disso a minha Leonor é muito digna. Vesti-a com a roupa que se utiliza hoje em dia, porque se a descrevesse como o senhor o fez não entenderiam a sua beleza e ainda podiam pensar que ela tinha saído de um convento.
Luís de Camões - Quer então dizer que eu não sou bom escritor e que não descrevi Leanor correctamente? Era o que faltava. Eu nem tinha ouvido falar nas peças de vestuário mencionadas no seu texto.
António Gedeão - Pelo contrário. Considero-o um excelente escritor e para mim é uma honra poder falar consigo. Acho que descreveu muito bem a sua Leanor e todas as situações do poema. Mas tem de compreender que o tempo passou e com ele mudaram os costumes, a fala, o vestuário e muitas outras coisas.
Luís de Camões - Talvez tenha razão. Até acho o seu poema bom, embora não o compreenda bem.
António Gedeão - Como já referi, agora, o uso da linguagem é outro. A maior parte das pessoas não compreendem o meu poema quanto mais o seu que já foi escrito há alguns séculos.
Luís de Camões - Pois é. Já no meu tempo era assim. As pessoas começam a ler, não percebem a primeira estrofe põem o poema de lado e não se dão ao trabalho de o tentar compreender. Há uma coisa que não percebo. Porque é que a sua Leonor anda de motoreta? (não faço ideia do que isso é). Agora já não é costume as pessoas andarem a pé?
António Gedeão - Claro que andamos a pé. Só que já não é hábito irmos buscar água à fonte, porque temos água canalizada. Por isso decidi descreve-la a ir de motoreta para a praia.
Luís de Camões - Se formos a ver o tema do seu poema afasta-se um pouco do meu. O meu poema fala de uma Leonor humilde, que me atrai devido à sua beleza simples e que aos meus olhos é a mulher mais bonita na face da terra.
António Gedeão - Quanto a mim, no meu poema descrevo-a como uma mulher sedutora e provocadora que deixa toda a gente a olhar para a ela por onde quer que passe. Mas devo confessar-lhe que a sua Leanor me agrada mais.
Luís de Camões - Afinal ainda existem bons poetas. Tenho de ir embora. Ando a ver se consigo escrever mais algum poema, mas a idade não perdoa. Espero que tenha uma obra muito vasta. Gostei de o conhecer."

Identificação do documento: Texto incluído num “Guião de educação do consumidor” (página 93), disponibilizado no sítio da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação, no local da “Educação para a cidadania”.

Ambiente, Porquê Ler os Clássicos?

Informação recebida do Programa Gulbenkian Ambiente


Ambiente, Porquê Ler os Clássicos? é o novo projecto do Programa Gulbenkian Ambiente, em parceria com a Embaixada dos EUA, que propõe a reflexão e participação em diversas actividades (Programa de Actividades), cujo ponto de partida são livros que, desde o séc. XIX, contribuem para um movimento ambiental. O Programa Gulbenkian Ambiente seleccionou seis destes livros, por considerar que representam um amplo espectro de ideias e conceitos que têm perdurado e se têm mantido actuais desde que foram escritos. Escritos ao longo dos últimos século e meio, as mensagens destes seis livros foram, mas acima de tudo continuam a ser inovadoras, alternativas, revolucionárias. São CLÁSSICOS.

Uma das iniciativas inscritas neste projecto é o Clube de Leitores “Walden”

‘Walden ou a vida nos bosques’, escrito por Henry David Thoureau em 1875, relata a insatisfação com o modo de vida numa sociedade cada vez mais materialista e procura regressar a um contacto harmonioso com a natureza.

Se está interessado/a em participar, conheça o regulamento.
As inscrições estão abertas até ao final do dia 9 de Março de 2011.

O AÇÚCAR DA PRIMEIRA FLOR



Crónica publicada no "O Despertar".

Os cristais de açúcar espalhados sobre a mesa, ali lançados por um distraído gesto adocicante, são iluminados pela luz da tarde. A refracção e reflexão dos raios solares que os atravessam emprestam mais cor à visão da natureza em vésperas primaveris. Um insecto, voo inebriado de néctar colhido numa das primeiras flores, poisa no pires e não resiste em completar a sua recolha com umas moles de açúcar.

Com o aumento da luminosidade diária, as plantas recuperam outros ritmos metabólicos. Suavizados os rigores invernais, o fluxo de nutrientes aumenta entre as raízes e os ramos nus. Aqui e acolá, brotam folhas incipientes em resposta ao aumento da exposição solar, futuras e eficientes centrais de síntese orgânica que, a partir da energia da radiação electromagnética na gama da luz visível, reorganizam as ligações entre átomos de carbono (C), oxigénio (O) e hidrogénio (H) provenientes do dióxido de carbono (CO2) e da água (H2O), no processo conhecido por fotossíntese.

Os produtos, hidratos de carbono com a formula química empírica (CH2O)n – n maior do que três –, são das biomoléculas mais abundantes na natureza. Possuem diversas funções nos seres vivos sendo a função energética através da oxidação da glicose talvez a mais conhecida.

Alguns açúcares armazenados nas raízes das plantas impedem que estas gelem no solo sob o rigor invernal. São anticongelantes naturais. Garantem deste modo que a planta, árvore, sobreviva para além do frio.

Os carbohidratos, outra designação pela qual são conhecidos, são peças de construção de várias estruturas como seja a parede celular de bactérias, fungos e células vegetais. A celulose, uma matrix dos tecidos vegetais, é um polímero natural de glicose.

Carbohidratos como a desoxirribose e a ribose são blocos estruturantes da helicoidade dos ácidos genéticos (ADN, ARN).

Associados a proteínas (glicoproteínas) os hidratos de carbono funcionalizam diversas tarefas de sinalização intra e extracelular. Muitas hormonas animais (e.g., TSH) são por elas formadas.

Diversas glicoproteinas determinam, na superfície dos glóbulos vermelhos, os diferentes grupos sanguíneos. Aliás, é o elevado número de combinações diferentes que proporcionam, que marca, com identificação própria, as incontáveis células que nos constituem, assim como especificam a nossa identidade única. De facto, a nossa identidade e compatibilidade imunitária inter-indivíduo é muito determinada pela variabilidade glicoproteica.

Sendo parte constituinte da “cola celular” extracelular que mantém as células na apropriada arquitectura tecidular, outras costuras entre carbohidratos e proteínas participam na lubrificação das articulações esqueléticas, permitindo assim a mobilidade articulada que nos alavanca o caminhar de flor em flor, para nos inspirarmos com os seus perfumes e aromas. Estes, constituídos por diversos compostos aromáticos e voláteis, são detectados olfativamente por “antenas moleculares” que contem açúcares na sua composição!

E o pólen, publicitado pelas flores das plantas angiospérmicas, mas anterior a estas, com pelo menos 300 milhões de anos de evolução e adaptação aos desafios da comunicação intra e inter-espécies, transportador de informação ecológica para além da informação genética reprodutiva (masculina!), é constituído maioritariamente por hidratos de carbono com múltiplas funções.

São astronómicas moles de açúcares nos estames da primeira flor.

António Piedade

VEM AÍ A BANCARROTA?


Minha crónica no "Público" de hoje:

A palavra bancarrota vem do italiano “banca rotta”: no Renascimento partiam-se mesmo as bancas, colocadas na rua, dos banqueiros que não conseguiam honrar os seus compromissos. Mais tarde, já não eram apenas os banqueiros, mas também os países que declaravam bancarrota: foi, por exemplo, o caso de Espanha e Portugal com Filipe II (para nós Filipe I) em 1596. Recentemente, estiveram à beira da bancarrota dois países da zona do euro, a Grécia e a Irlanda, que foram salvos através de uma grande ajuda externa acompanhada de medidas internas draconianas. Desde há pouco tempo esse mesmo perigo existe para Portugal. E o receio europeu é que o perigo se espalhe para Espanha, pondo em risco a moeda única.

Em 1983 (ainda não havia o Público, que amanhã – muitos parabéns! - faz 21 anos) passámos por situação semelhante. Fomos salvos, num governo do Bloco Central, pelo Fundo Monetário Internacional, pagando o preço de uma desvalorização drástica da moeda, de uma subida brutal da inflação e de um aumento enorme da carga fiscal. É voz corrente que vem aí de novo esse Fundo, numa operação combinada com a União Europeia, tal como aconteceu com a Grécia e a Irlanda. E, desta vez, não há escudo que nos salve.

Um indicador muito claro da nossa dificuldade crescente em obter financiamento externo é a subida ao longo do último ano dos juros da dívida pública a dez anos, que está nuns insustentáveis 7,5 por cento e com uma assustadora tendência para crescer. Apesar de estar em curso um esforço de aumento das receitas e de diminuição das despesas do Estado (a maior parte dos portugueses sente-o bem nos seus bolsos), os indicadores negativos chegam todos os dias. Foi anunciado que a taxa de desemprego em Portugal atingiu um máximo histórico de 11,2 por cento, com incidência especial na população jovem. E o governador do Banco de Portugal admitiu que estávamos numa situação de recessão, isto é, queda continuada do Produto Interno Bruto.

O que diz a tudo isto o governo da nação? Nada que seja muito credível. Por exemplo, o aumento do desemprego é assim comentado pelo governante que detém a respectiva tutela: “Durante 2010 o crescimento do desemprego desacelerou bastante em relação a 2009. Nesse sentido, falei em estabilização e mantenho essa perspectiva, estamos numa estabilização com valores muito elevados que temos de conseguir baixar". Pior do que a nossa dificuldade de crédito financeiro é, portanto, a nossa falta de crédito nas palavras que nos chegam dos responsáveis políticos. Ao mais alto nível, o primeiro-ministro exibe, nos discursos, uma auto-confiança que tem tanto de exacerbada como de insustentada. Não nos transmite confiança. Desconhecedor da velha máxima de que o mal se faz de uma vez e o bem aos poucos, faz precisamente ao contrário. Não acabou ainda o mal porque, esta semana, afirmou que “fará tudo o que for preciso para atingir os objectivos orçamentais de 2011”. Se passamos por maus dias, piores dias nos esperam. A obsessão dele é a de evitar um pacote de ajuda internacional mais pelos custos políticos que adviriam para o partido do governo do que por quaisquer argumentos de racionalidade económico-financeira. Um resgate próximo pode, de facto, significar eleições antecipadas, varrendo o governo tal como aconteceu na Irlanda. Foi, talvez, por recear isso que José Sócrates, após audiência anteontem em Berlim com a chanceler alemã, se imaginou num comício: "O meu país tem oito séculos de história, o meu país não é subserviente com ninguém, só é subserviente com o seu povo e com aquilo que o povo tem a dizer".

Sócrates está equivocado quando diz que, para evitar a bancarrota, “nos basta a confiança em nós próprios”. Não a temos na mesma medida que ele aparentemente a tem, mas, mesmo que a tivéssemos, ela não bastaria. Quase duzentos professores alemães de economia pediram há dias à sua chefe do governo que não flexibilize a ajuda europeia aos países necessitados, deixando-os antes entrar em bancarrota. Resta-nos confiar em que ela não os ouça.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A Biblioteca e a Cidade


Informação sobre a exposição "A Biblioteca e a Cidade", comissariada pelo arquitecto Rui Lobo, que está patente este mês na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

“A Biblioteca e a Cidade” é uma exposição que se organiza por ocasião da XIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra, que tem por tema “Reinventar a Cidade”. Pretende-se mostrar, através da fotografia, um conjunto de bibliotecas de construção e/ou projecto recente (entre 1991 e 2011), no estrangeiro e em Portugal, que para além de darem resposta a aspectos concretos relacionados com as exigências funcionais da biblioteca contemporânea, procuram estabelecer uma relação dialogante com a cidade envolvente.

Nos últimos anos, tem-se posto em causa o papel do livro na sociedade contemporânea com a proliferação de meios informáticos e de sistemas virtuais. Paralelamente, a própria funcionalidade das bibliotecas tem sido relativizada a partir da consideração destas possibilidades alternativas de transmissão do conhecimento. Porém, e como nos recorda Alfonso Muñoz, se por um lado a transmissão de dados por sistemas electrónicos põe em causa o livro e a biblioteca, por outro, nunca na história se publicou tanto nem se construíram tantas bibliotecas.

A biblioteca contemporânea parece viver, assim, da sua capacidade de se constituir como lugar de encontro, de conexão e de intercâmbio, para além de dar resposta às suas funções tradicionais de depósito de livros e de informação e de oferta de espaço para a leitura. Neste sentido, a biblioteca continuará a ter, necessariamente, um lugar privilegiado na cidade dos próximos anos.

A exposição organiza-se por quatro módulos, correspondentes a quatro temas distintos, que enquadram os vários exemplos seleccionados.

No primeiro observam-se três bibliotecas levantadas com o intuito claro de se afirmarem como novos marcos urbanos, verdadeiros símbolos das cidades que as promoveram e levaram avante a sua edificação.

Num segundo painel temático aborda-se o tema da reabilitação arquitectónica e urbana, um tema cada vez mais pertinente nas cidades actuais, mostrando-se bibliotecas que foram exemplarmente instaladas em edifícios com valor histórico e patrimonial, ou cujo novo edifício contribuiu significativamente para determinada operação de requalificação urbana.

Um terceiro módulo comporta um conjunto de três bibliotecas universitárias, sendo naturalmente o contexto universitário, desde há muito, um meio privilegiado para o surgimento deste tipo de edifícios.

Finalmente, mostra-se um conjunto de três bibliotecas pensadas para o território nacional, fazendo-se um resumo possível do projecto contemporâneo da biblioteca no nosso país.

Rui Lobo

“Lab La Bla” à conquista de novos públicos em novo espaço.


Informação recebida da companhia de teatro marionet:

Depois do sucesso da temporada de estreia na Casa das Artes da Fundação Bissaya Barreto o espectáculo Lab La Bla volta à cena, desta vez inserido na XIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra. O espetáculo estará num dos novos espaços do Museu da Ciência, a Galeria de Mineralogia, do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), sexta-feira, dia 4 de Março, pelas 19 horas.

Sobre o espectáculo:

Como a poesia e a ciência usam a palavra para comunicar, as mesmas, quase sempre, mas os diferentes objectivos que as orientam estabelecem diferenças profundas de significado para uma mesma palavra. Lab La Bla explora a poesia influenciada pelo avanço da ciência e da tecnologia incluindo a introdução de novas palavras, temas e conceitos científicos. No fundo uma proposta de leitura e reescrita do conhecimento que a ciência constrói. Para isso utilizamos textos de Miroslav Holub (1923-1998), poeta e imunologista checo, traduzidos pelo Manuel Portela, Professor da Faculdade de Letras da UC.

"O facto de não conseguir imaginar o momento presente sempre me preocupou. Por momento presente quero dizer um estado ou processo individual consciente, uma experiência; o presente em larga escala é bastante mais fácil de apreender. O que é um momento, o que é este momento no qual eu evidentemente existo, ao contrário da natureza, a qual de acordo com a famosa citação de Whitehead não existe num momento? (...)"

Na segunda quinzena deste mês, de 16 a 20 de Março, teremos um novo momento marcante para a marionet. A estreia absoluta de “BCC no Teatro da Cerca de São Bernardo. Um trabalho sobre alterações climáticas e biodiversidade que como noutras peças anteriores da companhia, conjuga a perspectiva científica dá-nos uma dimensão racional e objectiva da questão com a perspectiva artística uma dimensão subjectiva e emocional. Em breve daremos a conhecer melhor esta obra desenvolvida em colaboração com o Instituto do Mar - Centro Interdisciplinar de Coimbra (IMAR-CIC).

Março contará ainda com os últimos dias da instalação que a artista Laetitia Morais concebeu para o 10º aniversário da marionet que até dia 6 de Março pode ser visitada na sala 2 da Casa das Artes da Fundação Bissaya Barreto, em Coimbra, de 3ª a Domingo entre as 14h e as 19h. “Cenografia Para Dois Leitores” explora a distorção da paisagem com cenários digitais manipulados em tempo real e reactivos às informações geradas por outros agentes.

Para mais informações sobre estes eventos, ou sobre a marionet, incluindo fotografias para publicação e marcação de entrevistas, estaremos disponíveis através do e-mail: marionet@marionteatro.com e no telefone 931671163.

Mais informações sobre a marionet aqui.

Trailer do espectáculo Lab La Bla aqui.

Uma ideia para LER

A revista LER, que completa este mês cem edições, pediu-me a partilha de uma «ideia concreta» para o futuro: Literatura, política, e ciência. Eis a minha resposta:

Todos os livros portugueses sem direitos de autor acessíveis na Net. As obras estão nas bibliotecas, a tecnologia é fácil, falta só a vontade política para congregar esforços. Seria a maneira de juntar literatura, ciência e política, que por vezes tão separadas andam ou, quando se juntam, é só aos pares. Seria um triângulo perfeito.

Calmamente dizendo parvoíces

Não é que este vídeo revele algo surpreendente, mas confesso que sempre que vejo este tipo de demonstrações há algo em mim que vibra intensamente (provavelmente devido à Teoria das Cordas)... Confesso-vos que a minha racionalidade quase se anula (assim como a massa na equação de Einstein)! Confusos? Eis a Dr.ª Charlene Werner, homeopata, a deliciar-nos com os seus entendimentos de cosmologia, física quântica e relatividade!

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Instituto de Investigação Cientifica Bento da Rocha Cabral – Uma Jóia da Ciência Portuguesa


Novo post de António Mota de Aguiar (na imagem Bento de Rocha Cabral):

Poucos devem ser os portugueses que ouviram falar deste instituto. No entanto, o Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral (IRC) tem uma história rica de investigação científica: por aqui passaram no século XX notáveis homens de ciência, entre os quais um Prémio Nobel.

O começo do IRC teve o seu encanto, devido sobretudo à grandiosidade de espírito do seu criador. Tudo começou quando Bento da Rocha Cabral, um transmontano emigrante no Brasil voltou à sua terra com uma enorme fortuna e resolveu deixar a maior parte da sua riqueza para uma obra de investigação científica. Normalmente, quando na época aconteciam casos destes, as doações eram feitas a instituições sociais ou de caridade: hospitais, asilos ou misericórdias. Mas Rocha Cabral, nascido em 1847, um espírito republicano, autodidacta e empreendedor, como prova a riqueza que fez no Brasil, viajou pela Europa e pela América, até um dia regressar ao país com ideias bem precisas.

Bento da Rocha Cabral, no testamento que deixou em 1921, contemplou a sua freguesia natal, empregados e familiares, deu conselhos à sua mulher e declarou que “não desejo que se façam convites para o meu enterro, nem o acompanhamento de padres, nem missas”.

Por esses anos, Ferreira de Mira, director do Instituto de Química Fisiológica da Faculdade de Medicina de Lisboa, escrevia artigos de divulgação da ciência no jornal A Luta de Brito Camacho. Chegou mesmo a escrever sobre as Fundações Rockefeller, Carnegie, e outras, cujos filantropos, deixaram para proveito da ciência e da arte, os milhões que possuíam em vida. Foi ao ler estes artigos que Rocha Cabral decidiu deixar em testamento grande parte da sua fortuna para a criação de um instituto de investigação científica, dirigido por Ferreira de Mira, com quem nunca se tinha encontrado apesar de conhecer a sua obra. Alguém que trabalha uma vida inteira e que no fim deixa a sua fortuna a uma pessoa que nunca viu só pode ter uma grande confiança na capacidade intelectual e conduta moral do contemplado.

Rocha Cabral vivia num palacete da Calçada da Fábrica da Louça, ao Rato, em Lisboa. O testamento foi aberto no ano da sua morte e, em Novembro de 1925, começavam os trabalhos do Instituto de Investigação Científica que tem o seu nome no palacete onde morava. Também a rua mudou de nome para passar a ter o seu.

O IRC começou com quatro investigadores: além do próprio Ferreira de Mira, Ferreira de Mira (filho), Simões Raposo e Lopo de Carvalho. Pouco a pouco, outros investigadores se juntaram ao primeiro grupo, como o parasitologista Carlos França e o zoólogo Silva Tavares.

O Instituto cultivou vários ramos das ciências biológicas. Para isso apetrechou-se com vários laboratórios especializados, dispostos por quatro secções: fisiologia, histologia, química biologia e bacteriologia. À frente de química biológica ficou Kurt Jacobsohn, cientista recrutado no Kaiser Wilhelm-Institut für Biochemie, em Berlim, pelo próprio Ferreira de Mira. Enquanto a secção de bacteriologia ficava a cargo de Alberto de Carvalho, assistente da Faculdade de Medicina de Lisboa, Celestino da Costa, catedrático de histologia, e Marck Athias, catedrático de fisiologia, ambos da Faculdade Medicina de Lisboa, apoiavam os alunos que precisavam de ajuda nas áreas científicas das suas especialidades.

O fito do IRC, como escreveu Ferreira de Mira, era criar “ciência pura”:

“O Instituto é essencialmente uma oficina de ciência pura, isto é, onde se estudam problemas sem olhar às utilidades imediatas que possam decorrer das soluções encontradas. (…) O bom investigador de ciência pura é impulsionado pela sua curiosidade científica e apenas cuida de satisfazê-la; mas logo em seguida, por assim dizer no seu rasto, aparecem os homens práticos que tiram proveito das descobertas do primeiro. A humanidade, que nem sempre é justa, torna às vezes célebres os nomes destes e esquece os investigadores de ciência pura, sem atender a que a obra daqueles não seria possível, se a não tivessem preparado estes últimos”.

Referindo-se aos estudos levados a cabo no IRC, Ferreira de Mira frisava:

“… a longa série de estudos do Prof. Joaquim Fontes e colaboradores sobre as determinantes do trabalho de parto, os trabalhos do Prof. Celestino da Costa e colaboradores sobre culturas de tecidos, a do Prof. Athias sobre caracteres sexuais secundários, do Dr. Gonçalves da Cunha sobre histologia vegetal, do Dr. Alberto de Carvalho e colaboradores sobre bacteriologia da tuberculose, assim como os estudos que o próprio realizou em colaboração com o Prof. Joaquim Fontes sobre a fisiologia das cápsulas supra-renais, ou ainda sobre as relações entre as supra-renais e a fadiga”.

Foi aqui também que Egas Moniz desenvolveu parte dos seus trabalhos experimentais, nomeadamente estudos com cães, que conduziram à descoberta da técnica da angiografia cerebral em 1927, assim como as experiências de desenvolvimento da angiopneumografia, que contaram com a colaboração de Almeida Lima e Lopo de Carvalho.

Desde o seu início, em 1925, até cerca de 1938, o IRC foi considerado, quer no âmbito nacional como internacional, uma referência na investigação científica, que, estando a par do que se fazia lá fora, honrava e dignificava a ciência portuguesa.

Porém, por não pertencer ao Estado, o IRC defrontou-se sempre com problemas do financiamento. Em 1938, teve a primeira grande crise deste tipo, ao ver o fluxo financeiro proveniente dos juros dos fundos brasileiros reduzidos, por convulsões políticas ocorridas neste país. Todos os que trabalhavam no IRC tiveram os seus vencimentos cerceados. Durante a 2.ª Grande Guerra Mundial, o IRC passou igualmente por grandes dificuldades, devido sobretudo ao isolamento científico. Houve uma outra crise financeira no fim dos anos 50 devido ao acréscimo de alunos estagiários da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tendo sido necessário aumentar o investimento.

Após o período revolucionário em Portugal do 25 de Abril, com a desvalorização do escudo e o congelamento das rendas em baixos valores, mais uma vez o IRC foi afectado.

Nos dias de hoje, o IRC presta apoio a investigadores, com bolsas e projectos, e funciona como sede da Sociedade Portuguesa de Biologia. Recentemente foi criada uma quinta secção, a juntar às quatro já referidas, dedicada à História e Filosofia das Ciências.

Embora sem o dinamismo que tivera outrora nos primeiros treze anos de existência, o IRC, sob a direcção actual de Manuel Bicho, Professor de Genética da Faculdade de Medicina de Lisboa, procura um segundo fôlego para uma nova arrancada na investigação científica. O desafio é grande e oxalá consiga!

António Mota de Aguiar

Afinal o exercício físico é bom ou não?


“Sem exercício físico quotidiano apropriado é difícil mantermo-nos de boa saúde" (Arthur Schopenhauer, 1778-1860).

O post da nutricionista Ana Carvalhas, publicado neste blogue,“Apanhado na rede: comer bem em tempo de crise” (01/03/2011), e os diversos textos em que ela se tem debruçado no seu blogue “Comer bem até aos 100 anos…” tecem considerações sobre os benefícios da alimentação e do exercício físico em tempo de declarada crise económica, uma crise tão penosa para a bolsa dos portugueses. Entre outros, os gastos com a saúde têm vindo a ocupar uma fatia cada vez maior dos gastos pessoais, com tudo aquilo que não é coberto por inteiro pela protecção social.

O tema da saúde pública não tem tido entre nós a atenção que merece. Por exemplo, não está devidamente salvaguardada em algumas direcções técnicas dos pomposamente propagandeados Health Centers a responsabilidade por parte de licenciados universitários em Educação Física e Desporto, como acontece no caso das farmácias, que estão sob a direcção técnica de farmacêuticos.

Mereceu o assunto vários posts meus neste blogue. Trago, agora e aqui, à colação um deles, Gerontomotricidade, saúde e boa forma física (20/08/2007), que foi seguido de um outro, em 2/10/2008, intitulado A actividade física e o sistema cardiovascular. Naquele post entendi conveniente advertir: “O exercício físico de que aqui me ocupo, nada tem a ver com um desumanizante desporto que transforma o atleta numa máquina de alto rendimento para alcançar o pódio, tendo atrás de si um perigoso arsenal químico em que os esteróides se tornam vedeta em nome de uma pátria, de uma ideologia ou apenas de um clube.”

Nele relatei a saborosa história de Bernard Shaw, em boa forma física aos 90 anos de idade, que, ao ser-lhe perguntado, por um jornalista, quais eram os exercícios físicos que praticava, respondeu: “Pegar nas bordas dos caixões dos meus amigos que praticaram muito exercício físico”. Foi-me colocada a seguinte questão num comentário (08/11/20O7) que serve de título a este meu novo post: “Afinal o exercício físico é bom ou não?” Rezava assim esse comentário: “Tardiamente venho aqui perguntar ao Professor Rui Baptista se afinal o exercício físico é ou não bom? Gostei muito do artigo. Parabéns. JCM”.

Em 3 de Janeiro do ano seguinte mereceu-me este comentário a seguinte resposta:

“Meu Caro JCM: Veja lá como são as coisas. Só hoje, passados quase dois meses, tomei conhecimento do seu comentário. A minha resposta é esta. Claro que o exercício físico é bom se for feito com conta peso e medida. Por exemplo, se um indivíduo em jovem tiver feito muito exercício físico, e depois parar, deverá ter muito cuidado na sua (re)adaptação ao exercício físico. Suponhamos que, quando for cinquentão, resolve, de supetão, praticar uma carga de esforço físico não adaptado à sua idade e à sua má forma. É mais que certo que pode ter como destino um enfarte ou um AVC ou até uma morte súbita. Claro que este comentário é feito um tanto 'à vol d'oiseau', por não ter em conta muitos outros factores. O caso de Bernard Shaw é uma simples graça. Se morreu velho e viu morrer muitos dos seus amigos que faziam muito exercício físico isso se ficou a dever a questões genéticas: os indivíduos cujos progenitores morrem velhos têm muitas probabilidades de chegarem a uma idade provecta. É quase um lugar-comum dizer-se que é mais importante acrescentar vida aos anos que anos à vida. Ou seja, chegar-se a velho cheio de achaques, por vezes amarrado a uma cama, não é, de certeza, um futuro risonho para ninguém. Espero que leia este meu comentário para que cheguem a si os meus votos de um novo ano com muita saúde e exercício físico adaptado à sua idade e à sua forma física actual”.

Se fosse hoje teria citado, depois de ter voltado a folhear a noite passada o livro de Christiaan Barnard, célebre médico sul-africano, pioneiro na técnica dos transplantes cardíacos, Como defender o coração - tudo o que precisa saber sobre o ataque cardíaco (Livros do Brasil, Lisboa, 1971), este saboroso naco de prosa, ínsito nas respectivas, pp. 88-89:

“Muitas vezes me tem sido feita esta pergunta de ordem geral: ‘Doutor, se um homem saudável de 45 anos o procurasse e lhe perguntasse o que deveria fazer para evitar a doença coronária, o que é que lhe diria?’ Invariavelmente, quem faz a pergunta espera uma espécie de resposta do tipo frase-feita, como por exemplo: ‘Dir-lhe-ia que aprendesse estes simples versos:

'Deitar cedo e cedo erguer;
Não fazer exercício de competição:
Evitar todo o stress:
Ter cuidado em não comer
Manteiga ou ovos ou creme ou carne.
E porque é mau ser varão,
Como está claramente provado,
Faça extirpar os seus testículos!’ ”

Os versos que atribuem o malefício para a saúde coronária à condição de varão fundamentam-se em estudos epidemiológicos que atribuem esta morbilidade em percentagem estatística bem maior aos homens. Mas isso era em tempos em que o cigarro não era um vício feminino herdado de um certo diletantismo propagandeado por Hollywood.

Sobre o stress, apontado como um dos factores da diminuição da esperança de vida humana, conta Christiaan Barnard ter-lhe sido dito por um condutor de táxi em Nova Iorque: “Sossegue. Só há duas coisas que tem de fazer. Tem de pagar os impostos e tem, um dia, de morrer”. Isto em resposta ao apelo feito por este cirurgião à entrada deste meio de transporte: “Vamos embora. Tenho de estar lá às oito e um quarto!”

A última linha destes versos propõe uma medida draconiana - não fundamentada em dados estatísticos sobre a longevidade dos eunucos - que poderá evitar a doença coronária, tal como faz, reconhecidamente, a actividade física, retardando assim o "dia da prestação de contas a Deus". Mas valerá a pena aos quarentões terem um coração saudável, com as coronárias “desentupidas” de ateromas, isto é, placas de degeneração adiposa localizadas na túnica íntima das artérias, mas serem incapazes de amar? Sempre é melhor a prática do exercício físico devidamente orientada por quem para isso se encontra habilitado porque, como escreveu Leonardo da Vinci, “os que se encantam com a prática sem a ciência são como os timoneiros que entram no navio, sem timão nem bússola, nunca tendo a certeza do seu destino”.

Na imagem: Christiaan Barnard na capa da revista Time.

100 ANOS DE ENSINO PRÉ-ESCOLAR

Publicado na edição de 1 de Março de 2011 do "Diário de Coimbra".

Daqui a cerca de um mês, mais precisamente a 2 de Abril, comemora-se o centésimo aniversário do 1º Jardim-Escola João de Deus de Coimbra, primeiro estabelecimento de ensino em Portugal dedicado ao ensino pré-primário e primário. A esta distância, parece-me oportuno publicar uma segunda parte inédita da entrevista que fiz ao Doutor Décio Ruivo Martins (Professor do Departamento de Física da FCTUC e Membro da Comissão Científica do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra), por alturas da comemoração do centenário da 1ª República.

António Piedade – Qual é a “radiografia” do ensino pré-escolar e primário em Portugal por alturas da implantação da 1ª República em 1910?

Décio Ruivo Martins – Em 1900 a situação do país era caracterizada por uma elevada taxa de analfabetismo. Numa população de 5.423.132 portugueses, 4.261.336 não sabiam ler. Esta era uma situação intolerável. A necessidade de uma mudança deste panorama ficou bem expressa na palavras de João de Deus que afirmava ser necessário derramar a plenos jorros a luz do alfabeto, pois o homem que não sabe ler é um bárbaro. Em 1901, foram introduzidas reformas no ensino primário que introduziam importantes alterações estruturais no sistema educativo. Pretendia-se que o ensino primário passasse a ser obrigatório para as crianças dos dois sexos, de idades compreendidas entre os seis e os doze anos.

.AP - Qual era o grau de inovação dessa reforma?

DRM - A grande inovação desta reforma previa a criação do ensino infantil, a ser frequentado por crianças entre os quatro e os seis anos. Constituiu-se assim, o primeiro modelo de ensino pré-escolar em Portugal. Refira-se no entanto, que na reforma de João Franco, de 1894, já se tivesse determinado que poderiam ser estabelecidas classes infantis em Lisboa, Porto e outras povoações importantes. Infelizmente, ainda hoje a cobertura plena do ensino infantil é uma grave lacuna do nosso sistema educativo. Um século depois, continuamos por cumprir este ideário republicano.

AP – Mas a 1.ª República deu um novo impulso na concretização dessas reformas?

DRM - Com a implantação da República, os intelectuais portugueses estavam de acordo que o primeiro dever do novo regime político era o de instruir o povo. O próprio Afonso Costa, em entrevista ao jornal O Porto anunciava que a instrução irá ser a cruzada imediata do novo governo. A paixão pela educação já tem pelo menos cem anos de existência. A evolução observada depois do 25 de Abril deve ser considerada muito positiva. Mas, muito ainda há por fazer para que Portugal atinja os índices educativos dos países mais desenvolvidos da Europa.

(continua)

António Piedade

terça-feira, 1 de março de 2011

Dez Paixões em Forma de Romance - Esteiros

Por iniciativa da Imprensa da Universidade de Coimbra, amanhã, dia 2 de Março (4.ª feira), pelas 18h00, no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, realiza-se uma a tertúlia sobre a obra Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, o livo dedicado aos filhos dos homens que nunca foram meninos.

Esta sessão, incluída no ciclo de tertúlias (com organização de Ana Paula Arnaut) sobre as obras eleitas no âmbito do projecto “Dez Paixões em Forma de Romance” (uma parceria IUC-CLP-BGUC), contará com a presença de António Apolinário Lourenço e de Carlos Fiolhais.

APANHADO NA REDE: COMER BEM EM TEMPO DE CRISE


Vale a pena ler os conselhos para uma alimentação em tempo de crise que são dados pela nutricionista Ana Carvalhas no seu blogue: aqui.

COIMBRA FLORESCE


A minha crónica semanal no "Diário de Coimbra".

Na sua translação ao redor do Sol, o nosso planeta Terra aproxima-se do momento, na sua orbita, em que ocorre o equinócio da Primavera, o que no nosso calendário ocorrerá no próximo dia 20 de Março, pelas 23h21. Nessa data, a duração do dia será igual à da noite.

Desde o inicio da estação invernal que no hemisfério terrestre norte e às nossas latitudes, o período de iluminação diário tem aumentado. O dia espreguiça-se e a natureza sacode-se dos refulgentes cristais de gelo da sua hibernação. De entre animais e plantas, o florescimento vegetal sobressai e estimula os nossos sentidos.

Em resposta a um maior tempo de exposição solar várias árvores angiospérmicas, como as dos géneros Magnolia e Prunus (cerejeiras, ameixoeiras, amendoeiras), florescem encantando inúmeras ruas e espaços jardinados de Coimbra e arredores... Nestas árvores, o primeiro verso do prefácio primaveril vem na forma de flor, que nestes casos preenche de cor a copa arbórea despida de folhas verdes.

As folhas virão depois com a progressiva mobilização radicular de recursos minerais, como o ferro (Fe), o magnésio (mg), o manganês (Mn), entre tantos outros elementos. O primeiro (Fe) é essencial para a síntese de clorofilas (ver, por exemplo, aqui e aqui) e citocromos. O segundo (Mg) é constituinte das clorofilas. O terceiro (Mn) é fundamental para a organização da estrutura lamelar dos tilacóides dos cloroplastos, organelos onde ocorre a fotossíntese.

A magnificência da flor grande e perfumada das magnólias, das primeiras a florescer, nas suas variantes corolas coloridas desde o branco ao rosado mais ou menos intenso, tecem o olhar com a mensagem segura, que a experiência de 100 milhões de anos de evolução e adaptação a mudanças inspira, de que melhores tempos estão mesmo a chegar, que uma nova estação traz consigo os aromas de uma exuberante e diversa fertilidade.

O perfume floral anuncia pólen, rico alimento de inúmeros insectos e pássaros que exprimem na atmosférica partitura primaveril as sonatas da sua fértil evocação. Em troca, os animais vectorizam células reprodutivas masculinas, de flor em flor, fertilizando eficazmente plantas distantes da mesma espécie. Esta polinização cruzada minimiza “a consanguinidade” (a da mesma planta fecundar-se a si própria) e promove a biodiversidade vegetal. É desta cooperação sinérgica entre diferentes espécies, géneros e reinos que floresce a força motriz capaz de gerar uma capacidade ajustada à resolução de adversidades, utilizando os recursos existentes, num belíssimo exemplo do uso harmonioso da bioeconomia característica e intrínseca à vida.

E hoje, dia 1 de Março, dia da Universidade que floresceu na cidade de Coimbra há 721 anos, o Doutor João Gabriel Silva é investido nas magnificentes funções reitorais para que foi eleito pelo Conselho Geral. E a Universidade recebe a visita de uma das mais florescentes cientistas portuguesas, Maria de Sousa, de cujo trabalho resultaram muitos frutos para o conhecimento do funcionamento do sistema imunitário e da homeostase do ferro no nosso organismo.

O mesmo elemento (Fe) necessário para sintetizar as clorofilas que permitem às plantas fixar dióxido de carbono e eliminar oxigénio, o oxigénio que, conjugado com o ferro presente na hemoglobina dos nossos glóbulos vermelhos é transportado até todas as células do nosso organismo para permitir a respiração celular.

Maria de Sousa vem receber o Prémio Universidade de Coimbra de 2011 com que foi recentemente distinguida e, com certeza, um ramo de flores. Adiciono ao ramo uma magnólia.

António Piedade

O erro bom

Tomo a liberdade de reproduzir abaixo um texto da autoria de Henrique Madeira, vice-reitor da Universidade de Coimbra, publicado na Newsletter desta universidade, relativa ao mês de Fevereiro, por incidir num tema que me é particularmente caro: o erro no desempenho humano.

"Nunca se falou tanto em inovar, arriscar, empreender. Mesmo verbos mais timoratos como reestruturar ou reformar são conjugados sem descanso por políticos, empresários, gestores, autarcas, comentadores encartados, cientistas, fazedores de opinião... Sempre com conotação positiva, sempre exigindo mais; mais inovação, mais reformas, mais empreendedorismo. Até mesmo o ingrato verbo arriscar surge na exaltação eufónica da inovação como um acto de arrojo, um rasgo de quem arrisca e... petisca.

Mas nunca se arriscou tão pouco... A mesma sociedade que glorifica o acto de inovar tolera mal os riscos da inovação. Fazer o que nunca ninguém fez, criar novos processos, melhorar técnicas existentes, procurar formas de valorizar o conhecimento criado, empreender, nunca é isento de erros. O erro é um elemento indissociável do processo criativo. Inovar é sempre um processo de observação e de correcção de erros. “A verdade é um erro à espera de vez”.

Paradoxalmente, vivemos numa sociedade que tolera amiúde o erro quando este representa incumprimento de tarefas rotineiras, atrasos, incúria, desleixo, negligência, incompetência, má qualidade e até mesmo dolo. Mas somos severos com os erros de quem tenta inovar. As falhas de um novo sistema, os erros de um novo processo são criticados encarniçadamente e raramente são vistos como passos no caminho do progresso. Mata-se a inovação à nascença. Por vezes com deleite, sentados na confortável poltrona de quem não arrisca fazer nada de novo.

Dar licença para errar é condição essencial para a inovação e para o progresso. O erro bom, o erro que encerra toda uma lição, o erro que induz progresso, não pode ser confundido com o erro negligente. Uma Universidade tem de ser um espaço acolhedor para este erro bom. Os investigadores conhecem bem este erro e sabem do seu papel essencial na criação de conhecimento. Mas é importante que a licença para errar, para o exercício deste erro bom que sustenta a inovação, alastre a toda a Universidade e impregne toda a nossa oferta formativa. Só assim poderemos formar profissionais competentes e, simultaneamente, pessoas inovadoras e empreendedoras."

Pedro Paixão lê Pedro Paixão

Hoje, dia 1 de Março, às 18h30, na Livraria Minerva, em Coimbra, realiza-se mais uma sessão do ciclo Literatura de Hoje e de Sempre.

A organização é da Livraria/ Editora em colaboração com Regina Rocha, o convidado é o escritor Pedro Paixão que falará da sua obra.

São as Terça-Feira de Minerva que continuam a dar a conhecer livros, ideias, pessoas, pintura...

A entrada é livre e o local é a Livraria Minerva, na Rua de Macau, 52 (Bairro Norton de Matos), em Coimbra.

O legado de Tucídides na cultura ocidental


Informação recebida do Instrituto de Estudos Clássicos de Coimbra:

O Conselho Editorial dos Classica Digitalia – braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos - tem o gosto de anunciar um novo livro, publicado desta vez em parceria com o “Grupo de Investigación - Arenga" da Universidad de Extremadura, reforçando assim a prática de internacionalização da actividade editorial.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço directo vem dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

NOVIDADE EDITORIAL: Colecção “Humanitas Supplementum” (Estudos)

- Juan Carlos Iglesias-Zoido: El legado de Tucídides en la cultura occidental. Discursos e historia (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, ARENGA, 2011). 301 p.
PVP: 30 € / Estudantes: 24 € [capa dura]

PÓLIS /COSMÓPOLIS

Informação recebida do Instituto de Estudos Clássicos de Coimbra:

CONGRESSO INTERNACIONAL PÓLIS /COSMÓPOLIS
IDENTIDADES LOCAIS/DENTIDADES GLOBAIS

Programa :3-4 de Março de 2011- Salão Nobre do Instituto Justiça e Paz
3 de Março

10h - Presidência: Maria do Céu Fialho
José Pedro Serra, Univ. Lisboa, Pólis e tragédia.
Maria de Fátima Silva, Univ.Coimbra, Comédia e caricatura política.
Evelio Moreno Chumillas, Univ. Barcelona, Ciudades ideales y otros agravios de la razón práctica.

11h 45m - Presidência: João Nuno Corrêa Cardoso
José Ribeiro Ferreira, Univ.Coimbra, Pólis e Colonização.
Carmen Leal Soares, Univ.Coimbra, Regimes Políticos nas Historiae de Heródoto.
Adriana Nogueira, Univ. Algarve, Confronto de potências: a Guerra do Peloponeso.

14h 30m
Apresentação da tradução da Historia Augusta, trad. C. Teixeira, J.L.Brandão, N. Simões Rodrigues, Coimbra, UI&D-CECH, Classica Digitalia, 2011, por Cristina Pimentel, Univ. Lisboa.

15h – Presidência: Frederico Lourenço
António Pedro Mesquita, Univ. Minho, A polis aristotélica.
Delfim Ferreira Leão, Univ.Coimbra, Polites, Cosmopolites e Idiotes: a Atenas de Fócion.

16h – Presidência: Francisco Oliveira
Francisco Beltrán LLoris, Univ. Saragoça, Romanização da Ibéria.
Vasco Mantas, Univ.Coimbra, Iter populo debetur. A rede viária e legislação no Império Romano.
Florica Bechet, Univ Bucareste, Le caractère cosmopolite et multiculturel des colonies grecques ouest-pontiques.

17h 45m – Presidência: Arnaldo Espírito Santo
Francisco Oliveira, Univ.Coimbra, Cartas de Plínio a Trajano.
José Luís Brandão, Univ.Coimbra, Um olhar sobre o poder imperial em Suetónio.
Maria Alegria Marques, Univ.Coimbra, A presença dos mosteiros portugueses no capítulo geral de Cister.

O local e o geral.

4 de Março
9h 30m – Paulo Sérgio Ferreira
Marc Mayer, Univ. Barcelona,El culto imperial como punto de encuentro entre culturas.
Giulia Baratta, Univ. Macerata, I mercati: merci e culture.
Ioanna Costa, Univ Bucareste, Vrbes and oppida in Dimitrie Cantemir¹s Descriptio Moldauiae.

11h 15m – Presidência: António Manuel Rebelo
Nuno Simões Rodrigues, Univ. Lisboa, O que tem Esparta que ver com Jerusalém? A construção de um mito helenístico.
Marleine Paula de Toledo, Univ. S. Paulo, A Cidade de Deus e a cidade dos homens.
Paula Barata Dias, Univ.Coimbra, Constantino e os alvores da Europa da Cristandade.

14h
Painéis
1- Presidência: Susana Marques
Maria Teresa Schiappa de Azevedo, Univ. de Coimbra, Homero, poeta estrangeiro?
Marta Isabel Várzeas, Univ. do Porto, Calímaco e a linguagem universal do mito.
Carla Gonçalves Univ. Coimbra,,Invitamenta pacis.
2- Presidência:Luisa de Nazaré Ferreira
Carlos de Jesus, Univ. Coimbra, Tróia Egineta.
Elisabete Cação, Univ. de Coimbra, A construção da paz de Filócrates.
Delio De Martino, Univ. de Foggia, Città pubblicitarie..

15h 45–Presidência: Marta Teixeira Anacleto
Tomaz González Rolán, Univ. Complutense, Alfonso de Cartagena, Poggio Bracciolini y los universitários portugueses en Bolonia.
Nair Castro Soares, Univ.Coimbra, Os Humanistas e o poder no contexto do Renascimento.
Maria Isabel Rebelo Gonçalves, Univ. Lisboa, As falas em castelhano no Auto dos Enfatriões.

17h 30m – Presidência: José Augusto Cardoso Bernardes
Carlota Miranda Urbano, Univ.Coimbra, A mobilidade dos Jesuítas e a sua missão cultural
Belmiro Pereira, Univ. Porto,Da pólis à cosmópolis.: a Retórica e o alargamento do mundo.
Maria da Graça Moraes Augusto, UFRJ, A tradição retórica clássica no Brasil.

19h – Presidência: Rita Marnoto
Encerramento: Francesco De Martino, Univ. Foggia, Città visibili.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...