quarta-feira, 7 de julho de 2010

PROFOUND UNDERSTANDING OF FUNDAMENTAL MATHEMATICS

Informação recebida pelo De Rerum Natura

CONFERÊNCIA

"PROFOUND UNDERSTANDING OF FUNDAMENTAL MATHEMATICS: THE BOOK AND STORIES BEHIND IT"

Proferida pela Professora LIPING MA

No próximo dia 12 de Julho, pelas 14h00, no Auditório da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

A conferência terá tradução para português e é aberta ao público.

Sobre a conferencista: Liping Ma é investigadora da Carnegie Foundation for Advancement of Teaching, nos Estados Unidos da América. Os estudos comparativos que tem realizado neste país e na China têm-lhe permitido verificar que o sucesso na aprendizagem reside, em grande medida, na formação dos professores, que deve conferir a estes profissionais um conhecimento disciplinar profundo, bem como destreza no modo de ensinar.
Autora do livro Saber e Ensinar Matemática Elementar (editado entre nós pela Gradiva em colaboração com a SPM).

CONTINUAÇÃO DO DIÁLOGO SOBRE O EDUQUÊS


Para aumentar a visibilidade da polémica transcrevemos aqui da respectica caixa de comentários a réplica de Carlos Albuquerque à resposta que teve de Guilherme Valente e a nova resposta acabada de receber deste último (o cartoon de cima sobre o facilitismo reinante nas escolas é escolha deste blogue):

Caro Guilherme

Agradeço a sua amabilidade. Vou dividir esta resposta em três partes: esta introdução e duas partes temáticas. Para já propunha-me discutir dois aspectos: a caracterização do eduquês e os termos que apresenta no seu recente artigo do Expresso, reproduzido neste blog. Fica ainda por discutir qual a causa mais séria da falta de qualidade do ensino actual em Portugal.

1) Agradeço a disponibilidade quanto ao livro do Nuno Crato, mas na verdade já o tenho e já o li. Tenho presente o que lá está, mas vejo aquele texto sobretudo como um panfleto: um texto que pretende mover as pessoas para uma causa que se considera justa, mas em que a argumentação e a metodologia não são muito cuidadas. Daí que eu não me sinta mais esclarecido sobre o que é o eduquês depois de ter lido o livro.

2) O Guilherme caracteriza o eduquês de múltiplas maneiras, mas a primeira questão que se me levanta nesta caracterização é saber se, para que um texto seja considerado eduquês, é necessário acumular muitas das características que lhe atribui ou bastam apenas algumas.

Convém não esquecer que a tese fundamental em discussão é que o eduquês é a maior fonte dos males do ensino actual. Assim, classificar um texto de eduquês já comporta uma carga negativa grave e por isso penso que deveremos analisar esta questão com cuidado.

Vou enumerar algumas das características que lhe atribuiu:
- "gosta muito de siglas"
- "reacções irracionalistas à modernidade"
- "espírito de seita"
- "ódio ao mérito e ao «saber letrado», à liberdade, à autonomia individual, à pluralidade, à sociedade aberta, horror à avaliação, desprezo pelo conhecimento que distingue e eleva, menosprezo pelo papel do professor"
- "Rejeição e aniquilamento da escola como «ascensor social»"
- "A ideia de que todos os saberes se equivalem"
- "A ideia sempre insidiosamente glosada de que se pode aprender sem esforço. O cultivo da atrofia da memória, ignorando que só é possível pensar com informação"
- "O encorajamento irresponsável da indisciplina"
- "odeiam a inteligência e o espírito de liberdade".

Perante uma lista destas, parece-me que haverá muito poucas pessoas que se revejam num conjunto alargado de características destas. Se bastarem umas poucas destas características para caracterizar o eduquês então eu diria que quase tudo pode ser eduquês. A começar pelo criacionismo, por exemplo. Ora um termo que quase não se aplica ou que se aplica a tudo dificilmente pode ser útil para compreender o estado do ensino.

Há uma outra caracterização que me parece que inverte o ónus da prova:
- "Poderá identificar o eduquês também pela tragédia das suas consequências."
Se estamos a tentar caracterizar o eduquês para depois podermos discutir se é o responsável por determinadas consequências, não podemos começar por caracterizá-lo precisamente a partir das consequências.

Finalmente, vejamos a sua caracterização do meu comentário como "eduquês suave". Aceito perfeitamente que o faça mas pedia-lhe que o fizesse de modo fundamentado, decompondo as diversas afirmações que fiz.

Neste espírito, permita-me que, pegando na sua frase seguinte:
"quando o colocarem perante uma expressão bem sonante, mas que ao meu Amigo pareça não querer dizer nada, ou querer dizer tudo, ou dizer o que já se sabe há milhares de anos, ou que a Filosofia há muito tenha pensado, então, meu caro Amigo, anda aí o dedo do eduquês"
coloque a seguinte questão: dadas as dificuldades que referi acima, não será o termo "eduquês" um termo de eduquês?

3) Consideremos agora o "aprender a aprender" e as "competências". Trata-se de termos que podem ter múltiplos significados, alguns dos quais muito úteis ou mesmo imprescindíveis. Mesmo que esses significados tenham sido definidos por especialistas em educação e tenham depois sido usados em teorias perfeitamente desadequadas à realidade.

Nos tempos que correm a capacidade de aprender ao longo da vida é fundamental. Quando a Carris muda para autocarros a gás, a biodiesel ou a electricidade o motorista pode ter que aprender coisas novas. Então um tradutor precisa radicalmente de saber aprender. Como poderia de outro modo traduzir livros que reflectem múltiplas realidades novas?

Assim, é pertinente colocar a questão: dos diversos modos de ensinar, haverá uns que deixem as pessoas melhor preparadas para aprendizagens futuras do que outros? Não tenho respostas simples para estas questões mas não podemos simplesmente ignorar a problemática apenas porque associamos imediatamente ao eduquês quem levanta tal questão.

Algo de semelhante se passa quando falamos de competências. O termo pode ser bem definido e levanta problemas muito relevantes em educação, sem que isso nos obrigue a concordar com tudo o que os autores depois dizem sobre o assunto.

Aliás tenho dificuldade em entender esta abordagem pelos termos. Há um risco enorme de se assumir uma atitude totalitária ao não se discutir uma ideia porque se cataloga liminarmente um certo conjunto de palavras e o autor que as utiliza.

Parece-me que seria muito mais útil discutir as definições e ideias de cada autor, examinando-as e discutindo-as pelo seu valor, em vez de se criar esta espécie de cruzada anti-eduquês, que de tanto ser repetida ainda corre o risco de acabar como a inquisição numa caça às bruxas.

Carlos Albuquerque
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Prezado Amigo:

Afinal, o que é que me disse de substantivo? Nada. Mas vou esforçar-me, com respeito pelos leitores do blogue que nos lêem com espírito aberto, por acrescentar (sempre rapidamente, pois tenho de trabalhar) alguma coisa ao que já havia escrito.

Em primeiro lugar duas linhas para lhe pedir desculpa por ter suposto que o meu Amigo era um eduquês suave. É, afinal, um eduquês bem típico. Bem típico até porque, revelando muitos dos traços presentes no eduquês, revela um, que, pela experiência que até agora tenho, posso dizer estar sempre presente na mistura: nunca se assumem.

É que, ao contrário da leitura que fez da caracterização rápida que fiz (não exaustiva, nem hierarquizada), no eduquês, até por ser uma mistura sincrética, podem, nalgumas das suas manifestações, ser mais ou menos visíveis alguns dos traços que referi, ou faltarem mesmo alguns. Óbvio, não é? Não se trata de uma "substância simples" (não sei se é este o termo científico, mas o Carlos Fiolhais corrigirá), nem a vida, nem o eduquês são um produto de laboratório. O que fiz foi dar pistas, como convinha no âmbito e no espírito da resposta (não quis fazer uma comunicação a um congresso de «ciências» da educação…). É tudo óbvio, não acha?

Como saberá, até há dissensões no eduquês, muito significativas note-se, e cada vez mais frequentes, como procurarei explicar em próximo artigo. E o modo como essas dissensões se justificam é bem típico das seitas. O eduquês é, afinal, uma seita. E sabe porquê? Porque quando uma teoria, ou um corpo de teorias, não aceita a prova da realidade - e teve mais de trinta anos para o fazer - salta para um outro registo: o das «ciências» ocultas.

E é por causa dessa prova da realidade, dos resultados, do crime perpetrado todos estes anos, que é imoral, imoral, aproveitar este tema para jogos de palavras e filosofice (o seu jogo de palavras nem a isso chega, perdoe a sinceridade de quem, por formação, tem o dever de o dizer).

Expliquei tudo muito bem, é tudo para mim muito evidente. A sua consciência é a sua consciência; a consciência que eu tenho de enfrentar é a minha. É por isso que o mal acaba por afectar sempre mais quem o pratica do que aquele que o sofre, mais quem o inflige do que aquele a quem é infligido. Sinceramente, acho que está a querer enganar-se a si próprio, mas isso é o meu Amigo que terá de resolver. Leibniz dizia que o melhor de tudo é a inteligência, mas, quando essa, por qualquer motivo, falha ou não quer manifestar-se, que tenhamos ao menos e não resistamos aos bons sentimentos. Não posso acreditar que não sofra com os 40% de abandono escolar. E com tudo o resto que isso determina.

Então o livro do Nuno Crato é um panfleto? Com os textosinhos dos eduqueses transcritos entre aspas? Algum deles saiu a explicar que outra interpretação lhes poderia ser dada (quando os encontramos em debates, ficam sempre muito caladinhos)? Julgavam que ninguém com cérebro os leria?

E o «aprender a aprender» o que é? Sinceramente: o «aprender a aprender» é mesmo… uma estupidez. Só se aprende a aprender… aprendendo. E, como eu lhe disse e é óbvio e a ciência verificou (mas nem era preciso), quando se aprende alguma coisa aumenta a capacidade para aprender mais e aprender outras coisas (parece que surgem mesmo mais «circuitos» no cérebro, sabia?). Não há outra maneira. Pergunte ao Prof. Castro Caldas, que recentemente verificou que o cérebro de um analfabeto ou de quem aprendeu tarde a ler é diferente de uma pessoa que aprendeu a ler cedo. Quando o eduquês - sabe bem o que quero dizer com a palavra eduquês, não sabe? - condenou em todos estes anos um número intolerável de crianças ao analfabetismo e ao iletrismo, «ferrou-os» com a pior das deficiências para toda a vida, percebe?

Por isso os seus argumentos sobre os seus carros movidos a não sei quê não fazem nenhum sentido, não enfrentam nada do que avancei, muito pelo contrário até. São mesmo pornográficos. Preciso de lhe explicar mais alguma coisa?

Sinceramente, durma bem e felicidades.

Guilherme Valente

PS) Um último comentário. Se o meu Amigo estiver na situação de organizar um debate público sobre o tema (não sei quem é, qual é a sua formação, nem qual é a sua actividade profissional, se terá oportunidade e meios para o fazer), estou disponível para participar. Mas, no blogue, não vou lê-lo mais.

Aprendi com um grande Homem do meu País, o Professor A Sedas Nunes, que há cartas que não devemos abrir. Isso não significa que estejamos a julgar o seu conteúdo sem o conhecer (isso seria miserável). Significa apenas que não as queremos ler. Do mesmo modo que há sítios que não desejamos nem tencionamos visitar. Embora, se o fizéssemos, quem sabe, pudessem revelar-nos surpresas deslumbrantes.

Ah, esqueci algo, a referência que fez à inquisição. As bruxas, como devia saber, são uma criação do irracionalismo, que as inventa e, depois, as caça. O eduquês é um irracionalismo e, como devia saber, pratica mesmo a caça às «bruxas». Que o diga Nuno Crato, que foi impedido de participar num colóquio em Leiria sobre o ensino da Matemática. Tal qual. E que o digam tantos professores.

E eu irei também, em breve, revelar como, em duas circunstâncias, tentaram atingir a minha actividade profissional. Numa delas, foi-me dito claramente: «só elogias o ministro Mariano Gago…» De facto, se Mariano Gago tivesse assumido a pasta da Educação no primeiro governo de Guterres, a escola em Portugal seria hoje muito diferente. O facto de não ter complexos perante os "especialistas", de ter a inteligência que tem, de ter uma atitude científica na análise das situações, e, já agora, por ter o temperamento que tem (para o bom ou para o menos bom, que ninguém é perfeito), teria levado à erradicação do eduquês. E estaríamos hoje em melhor situação para enfrentar o cataclismo internacional que aí vem.

Outra coisa é termos a convicção (sempre aberta aos argumentos – argumentos a sério…), a consciência, de que as ideias e as soluções do eduquês (a sua generalidade, claro, as que o caracterizam e distinguem; há também no eduquês ideias que não lhe são próprias ou exclusivas, que são óbvias, como já tentei dizer-lhe, e não devia ter sido preciso) têm de ser varridas. E sê-lo-ão.

Guilherme Valente

Breve História da Ciência em Portugal


Já está à venda nas melhores livrarias do país (e também em livrarias virtuais como as da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Gradiva) o livro "Breve História da Ciência em Portugal", de Carlos Fiolhais e Décio Martins, de que já aqui se deu nota.

Sinopse editorial:

É um resumo sobre a ciência que houve em Portugal desde o tempo dos Descobrimentos ate ao fim do Estado Novo. Num livrinho de divulgação como este deixou-se propositadamente de fora a erudição, as notas de pé de página e a bibliografia exaustiva. Mas apresentam-se, pela primeira vez num só volume, a sucessão dos factos e personagens mais assinaláveis que constituíram e protagonizaram o percurso da ciência entre nós. Foi um percurso de avanços e recuos, avanços sempre que houve suficiente abertura ao exterior, e recuos, quando muitas vezes, vezes demais, o país se fechou em si próprio. Se nomes como Pedro Nunes, Garcia da Orta, Avelar Brotero e Egas Moniz são mais ou menos conhecidos, muitos outros que se encontram nestas páginas são mais ou menos desconhecidos, não o merecendo ser. Um sintoma do atraso português é a falta de atenção dada à história da ciência em Portugal: não é que ainda não havia um resumo como este, destinado ao público mais alargado?

O MATEMÁTICO DISFARÇADO


Na semana em que há um Encontro da Sociedade Portuguesa de Matemática em Leiria, com uma sessão no sábado de manhã sobre divulgação da matemática, eis a minha apresentação do livro "O Matemático Disfarçado": aqui.

NOVAS OPORTUNIDADES OU NOVOS OPORTUNISMOS?


Artigo de opinião de Rui Baptista publicado hoje no "Público":

No ano de 2006, foram divulgados os resultados do PISA (Programme for International Student Assessment) que colocaram Portugal em 54.º lugar, apenas à frente da Grécia, da Turquia e do México. Uma vez mais e sem ser por boas razões, o sistema educativo português passou para as páginas da comunicação social dos 57 países da OCDE que participam nestas provas avaliativas do rendimento escolar no âmbito da Matemática, das Ciências e da Leitura.

Era este, portanto, o desolador panorama do nosso país em que "até dá pena ver o esforço das autoridades portuguesas para desvalorizar o PISA e, quando não o desvalorizam, o esforço para desculpabilizar um sistema que assim se vê tão cruamente retratado e, claro, abalado", dizia Carlos Fiolhais.

E se, no sistema educativo regular dos jovens portugueses com a idade de 15 anos, pois é neste escalão etário que incide o PISA, houve maus resultados impossíveis de esconder, no Programa Novas Oportunidades, destinado a indivíduos maiores de 18 anos que deixaram de frequentar a escola por reprovações sucessivas, os resultados transformam-se em êxitos estatísticos oficiais de uma desastrada política educativa.

A réstia de esperança que pudesse haver sobre a bondade de uma segunda oportunidade, para quem desperdiçou uma primeira, foi abalada em seus frágeis alicerces pela leitura de uma extensa reportagem, sobre os Cursos de Educação e Formação, publicada no Expresso (8/12/2007). Por ela se ficou a saber que estes badalados cursos para aumentar as percentagens estatísticas de portugueses que terminam os 6.º, o 9.º e 12.º anos de escolaridade, não espelham uma situação minimamente verdadeira, credível ou séria.

Não querendo generalizar a todos estes cursos efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas de recreio buliçoso para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado. A título de mero exemplo, extraio ainda do Expresso este elucidativo pedaço de prosa da autoria do professor que denunciou ao Presidente da República o verdadeiro escândalo que se acoberta por detrás destas actividades curriculares: "Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os headphones e uma vontade incrível de não aprender e não deixar aprender."

Nas sábias palavras de Stephen Covery, "se continuarmos fazendo o que estamos fazendo, continuaremos conseguindo o que estamos conseguindo". Ou seja, continuando a consentir "que se estejam a fabricar ignorantes às pazadas" (Medina Carreira), a educação portuguesa corre o risco de ruir ao peso das Novas Oportunidades.

Rui Baptista

terça-feira, 6 de julho de 2010

Proust era um neurocientista


Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

A criatividade artística pode antecipar as descobertas da ciência?

A pergunta serve de ponto de partida à obra Proust era um neurocientista, da autoria de Jonah Lehrer, e dá o mote para uma tertúlia no Museu da Ciência da UC, no dia 8 de Julho (quinta-feira), às 18h00.

Miguel Castelo Branco, director do Instituto Biomédico de Investigação da Luz e Imagem, apresenta a edição portuguesa da obra.

A entrada é livre.

Sobre o livro: De que forma Proust revelou mistérios da memória, ao escrever os seus livros? Será que o pintor Cézanne antecipou avanços determinantes na compreensão da visão humana com os seus quadros? E se Walt Whitman tivesse intuído as bases biológicas do pensamento nas suas obras? Afinal, arte e ciência parecem poder co-existir em paz.

Proust era um neurocientista reúne oito exemplos de artistas que souberam antecipar-se à ciência, descobrindo fenómenos de neurociências. O pintor Cézanne, o compositor Igor Stravinsky, o cozinheiro Auguste Escoffier e os escritores Walt Whitman, George Eliot, Marcel Proust, Gertrude Stein e Virginia Woolf são as figuras escolhidas para destruir ideias feitas sobre a Arte e a Ciência e mostrar como ambas são essenciais para perceber os mistérios da mente humana que a ciência só agora começa a desvendar.

Em cada capítulo, o autor, formado na Universidade de Columbia, aborda um determinado conceito científico e explica como as neurociências chegaram a explicar o fenómeno, anos depois.

Mais informações aqui.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

DIÁLOGO SOBRE O EDUQUÊS


Guilherme Valente enviou-nos esta resposta, mais longa do que é normal num comentário, a um comentário de Carlos Albuquerque ao seu artigo anterior sobre o eduquês. Porque o De Rerum Natura gosta de polémica civilizada, destacamos aqui a resposta:

Prezado Amigo:

Suponho que terá escrito o comentário a que me refiro antes de ler os dois pequenos textos que coloquei no De Rerum Natura, que me parecem esclarecer as suas questões. Outro comentário entretanto publicado é também esclarecedor. De qualquer modo sinto dever-lhe a cortesia de uma resposta.

Permita-me a imodéstia de supor que, se o meu Amigo, com a inteligência que visivelmente tem, tivesse lido os inúmeros artigos que escrevi (se não, não se preocupe...), saberia identificar o corpo de ideias, a praxis, os objectivos e os efeitos terríveis do que decidimos designar com a expressão eduquês. Podíamos ter escolhido outra expressão, por exemplo: pedofascismo, logofobia, PITC (pedagogia irracionalista totalitária em curso), LPEC (loucura pseudoeducativa em curso). O eduquês gosta muito de siglas, o que é uma maneira possível, embora não rigorosa, de o identificar: veja como as siglas inundam e tornam ainda mais ilegíveis os documentos escritos em eduquês emitidos pelo Ministério da Educação, ME – só com glossário…).

Como sabe o termo eduquês foi criado, num momento de génio, por Marçal Grilo para designar a linguagem incompreensível (geralmente vazia mas pretensiosa, pouco letrada, na realidade frequentemente tonta, digo eu) dos autodenominados especialistas em «ciências» da educação (ponho aspas nas ciências por considerar que o que produzem, em geral, de ciência não tem nada). E nós adoptámos (e fixámos) o termo para designar não apenas a forma, mas também o conteúdo.

Como não é praticável (nem lhe recomendaria que o fizesse…) pô-lo a ler os meus artigos, sugiro-lhe que consulte o livro de Nuno Crato O Eduquês em Discurso Directo. Como o título indica, nele encontrará o eduquês expressivamente explicado pelos próprios representantes. E, como receio que algum dos nossos leitores pense que estou a querer vender-lhe um livro que editei, terei muito gosto em oferecer-lhe um exemplar.

De qualquer modo, sem grandes preocupações de estilo, que não tenho agora tempo, digo-lhe que o eduquês é uma mistura sincrética (perdoe-me o jargão filosófico) de duas componentes: uma ideologia ou mundovisão totalitária e as chamadas novas teorias pedagógicas, que, na verdade, são velhíssimas, geralmente mal compreendidas e veiculadas sobretudo por correntes até há pouco dominantes na sociologia da educação. Com pais fundadores e fontes recentes de inspiração bem referenciados, de Rousseau a Bourdieu. O meu Amigo conhecerá certamente os nomes mais representativos.

Quanto à ideologia, se a quisermos dessincretizar da pedagogia para melhor a podermos identificar, encontramo-la nos vários extremismos igualitários, das utopias milenaristas às seitas apocalípticas, passando, numa versão ainda mais trágica, pelos totalitarismos mais recentes, tudo afinal reacções irracionalistas à modernidade.

Como saberá, o eduquês foi importado - tarde, como acontece sempre em Portugal, quando lá fora já eram conhecidas as suas consequências e começava a ser fortemente contestado. Entre nós soube usar, numa mistura explosiva, o pior da mais velha cultura portuguesa: num país estatizado, centralizado e súbdito como o nosso, com um baixíssimo nível de instrução, sedento de emprego, de estatuto e de poder, conquistado o ME, usando o nepotismo e o medo, infestou tudo, teve o efeito de uma bomba atómica, destruidor da inteligência e da vontade das nossas crianças, condenando uma parte enorme delas à ignorância, ao analfabetismo (ou, se preferir um termo eduquês, à "iliteracia"), ao abandono escolar intolerável, à exclusão e à delinquência, tragédia que hoje só a cegueira fanática, o medo, ou a cega avidez de manter o tacho e o estatuto não deixam ver.

Sempre telegraficamente, sem preocupação de estilo e com o sacrifício de algum rigor (estou a escrever, à pressa, para um blogue) dou-lhe mais as seguintes pistas (a listagem não é exaustiva) para identificar o eduquês, pistas que acrescento às que foram claramente enunciadas por outro comentador:

- Espírito de seita (com as suas dissensões, que com o declínio se multiplicarão), irracionalismo, ódio ao mérito e ao «saber letrado», à liberdade, à autonomia individual, à pluralidade, à sociedade aberta, horror à avaliação, desprezo pelo conhecimento que distingue e eleva, menosprezo pelo papel do professor, rejeição da hierarquia – para o eduquês o aluno é igual ao professor - e da autoridade assente na responsabilidade, no conhecimento e no mérito (excepto a sua própria autoridade, dos que impõem o eduquês, dos intérpretes iluminados na tal «vontade geral» rousseauniana que, finalmente, harmonizaria a sociedade e a humanidade - desculpe o recurso especializado à «vontade geral»; publicámos um bom livro em que a ideia é claramente explicada, Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade).

- Rejeição e aniquilamento da escola como «ascensor social» (dizem, como sabe, que reproduz as desigualdades da sociedade burguesa… na verdade, é a solução mais eficaz e universalmente acessível para as ultrapassar e realizar a mobilidade social); do conhecimento que conta; da educação para a urbanidade, que geraria uma convivência «interclassista», no dizer do eduquês, que este não tolera.

- Subestimação, na verdade rejeição, dos valores e da cultura que diz «burgueses», valores e cultura que permitem o progresso e a distinção pessoais, com que o eduquês não se preocupa (excepto quando está em causa a formação dos próprios filhos, como é fácil provar…).

- A ideia de que todos os saberes se equivalem, humana, social e epistemologicamente, com o mesmo estatuto e natureza, por exemplo a ciência igual à magia.

- A ideia sempre insidiosamente glosada de que se pode aprender sem esforço. O cultivo da atrofia da memória, ignorando que só é possível pensar com informação (como escreveu Carl Sagan: «Saber não equivale a ser-se muito esperto, a inteligência é mais que informação; é, simultaneamente, discernimento e capacidade de utilizar e coordenar a informação. E, todavia, a informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência.» [sublinhado meu]).

- O encorajamento irresponsável da indisciplina, que é vista como manifestação saudável de ressentimentos, ligados à desigualdade social, e de libertação (esquecendo que as crianças não são insectos e que, por isso, sabem distinguir o bem do mal). A ideia, ERRADA, intelectual e culturalmente indigente, de que a escola igualitarista produz a igualdade na sociedade.

Direi ainda, recorrendo de novo a uma distinção tão expressivamente descrita por Sagan, que o eduquês valoriza, em suma, o que é da parte reptiliana do cérebro humano, e estigmatiza o que é do córtice cerebral, que controla a nossa vida consciente, que produziu o nossa civilização. É esta parte distintamente humana do nosso cérebro (sentimentos os animais também têm), em que lidamos com a música e com a matemática, fonte da consciência e da moral, que impele o homem para o conhecimento e para a solidariedade, distinção da nossa humanidade, destino inapelável do homem que nenhum obscurantismo poderá alterar.

A enumeração não pararia. Mas, sobretudo, uma repugnante ultrareaccionária visão do ser humano: vêem-no inapelável e definitivamente determinado pela situação social. Esquecem ou ignoram a inteligência, a liberdade e a vontade humanas, fontes de imprevisível novidade. Em todas as circunstâncias, mesmo nas mais desfavoráveis. Por isso odeiam a inteligência e a liberdade, que nenhum totalitarismo ou fanatismo conseguiu até hoje exterminar, seja com escolas ou campos de morte. Inteligência e liberdade que os impedem de nos meterem a todos, e à realidade toda, na ideologia.

Poderá identificar o eduquês também pela tragédia das suas consequências. A nossa escola e o nosso país são um laboratório perfeito para essa observação. Mas há uma observação mais simples: quando o colocarem perante uma expressão bem sonante, mas que ao meu Amigo pareça não querer dizer nada, ou querer dizer tudo, ou dizer o que já se sabe há milhares de anos, ou que a Filosofia há muito tenha pensado, então anda aí o dedo do eduquês, isto é, do «saber» produzido pela generalidade dos «cientistas» da educação. Especialmente dos que usam totalitariamente as escolas de formação de professores para idiotisar os candidatos à docência e, através da escola, o país. Expressões, afinal, como as que julgo ter desmontado no meu artigo (não fui capaz de ser mais claro).

A certa altura do seu comentário o meu amigo escreve: «Um aluno pode fazer facilmente uma licenciatura em Matemática sem nunca fazer um trabalho de grupo nem uma apresentação oral». E daí? Pode mas não deveria. E acha que para perceber isso é necessário uma especialização em «ciências» da educação? Todos os professores que tive desde a escola primária sabiam isso e praticaram-no. Nem sei o que responder, francamente. Aonde quer o meu Amigo chegar com essa observação? Perdoe-me, mas parece mesmo uma das grandes «descobertas» do eduquês. Descoberta da pólvora... Então é essa a novidade? É mesmo anterior a Sócrates, e sabe-se como os sofistas prometiam mesmo ensinar a ganhar qualquer discussão fosse qual fosse a matéria ou o tema em causa.

Claro que se pode e deve aprender tudo o que se queira. Mas na escola, sobretudo na pública, tem de se ensinar e aprender o que – em cada tempo e circunstância - é considerado essencial e estruturante para a sociedade. Pode encontrar isto bem explicado nos grandes autores clássicos. Desde logo os instrumentos para tudo aprender: ler, escrever e contar. Instrumentos de que o eduquês tem vindo assustadoramente a privar crescentemente as nossas crianças.

O problema não está na preocupação dos responsáveis do ME com as estatísticas. Nem é o facilitismo. Isso é do domínio do político, sendo facilmente resolúvel. São epifenómenos. O problema é a ideologia e a pedagogia ao seu serviço. Enfrentada e vencida a besta, tudo o resto se resolverá por acréscimo.

Para terminar, depois de tudo o que, ao sabor da tecla, sugeri, deixo a pergunta que é fundamental fazer, como escrevi num artigo recente do Público: em que sociedade quer o eduquês obrigar os Portugueses a viver?

Enfim, se eu quisesse terminar com uma picardia inocente - mas não quero, porque o meu Amigo, não deixando de ter sido o que é e de ter pretendido o que pretendeu, foi amável comigo, impecável no trato, e eu sou muito sensível a isso, porque nunca confundo as ideias com o carácter de quem as defende - poderia dizer-lhe: se quiser identificar um texto dum eduquês suave, leia o próprio comentário que me dirigiu. Mas espero muito da inteligência e do desejo de liberdade.

Por favor, note bem: esta é uma resposta para um blogue, sem preocupação formal, sem tempo para elaborar, sintetizar. Por isso, termino como o Padre António Vieira disse numa entrevista com o rei: "Peço desculpa por não ter tido tempo… para ser breve."

Com amizade, e ao dispor,

Guilherme Valente

O PRÉMIO CONFISCADO


Muito gosta o estado português de tirar com uma mão o que dá com a outra. Por vezes não se coíbe de tirar com a mesma mão que deu. Exemplo recente é o Prémio que o Ministério da Cultura, com a Associação Internacional de Críticos de Arte, decidiu atribuir ao fotógrafo português Paulo Nozolino. Teria de desembolsar logo de imediato dez por cento do Prémio para efeitos de IRS e assinar uma nota de honorários (honorários?!). Com a manipulação dos escalões recentemente efectuada, poderia até o artista subir de escalão com o dinheiro do prémio, e ter de pagar mais ao Estado do que pagaria se não fosse a recompensa, isto é, o Prémio ser, de facto, um prejuízo. Afirmou o artista em comunicado que encontrei no blogue Arte Photographica:
“Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas. A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!"
Não é só a injustiça de pagar imposto por conta do prémio (não seria mais simples o Estado dar um prémio menor, mas dá-lo livre de impostos?). É também a completa arbitrariedade fiscal que consiste em taxar uns prémios e outros não. Há premiados e premiados. Como eu compreendo Nozolino... Muitos parabéns por ter recusado o prémio!

Dores na Coluna? E os genes não ajudam?

Aqui no De Rerum Natura gostamos muito das crónicas do bioquímico António Piedade. E sabemos que muitos dos nossos leitores também. Com os agradecimentos ao autor, aqui está mais uma.

Ouvi o Doutor Arsélio Pato de Carvalho, dizer, em tom mesclado com alguma provocação, que as dores não têm realidade física, não existem per si. Ou seja, não são um objecto ou corpo que se possa apalpar, remover com uma pinça. A dor é antes uma experiência sensorial, um outro sentido dedicado ao alarme de algo que está a interferir com o nosso estado de saúde. É algo que “arde e não se sente”, como qualificou Camões a uma dor em particular.

Se cada dor tem uma causa, ela é mais um aviso, uma mensagem mais ou menos declarada, por vezes insuportável como se mil vozes gritassem em babel dentro da nossa cabeça: Mas, enquanto entidade física a dor não é tangível e muito subjectivamente mensurável.

Todos sabemos que a capacidade em suportar a dor varia, e muito, de pessoa para pessoa. De certa forma, depende da história de cada um e, com certeza, da sua estrutura nervosa. Uma rede fina de terminações nervosas é dedicada a detectar inúmeras sensações ligadas ao que chamamos dor (mas não só). E essa rede é parte integrante, não só da pele que nos recobre, mas também de películas que envolvem órgãos e tecidos nosso corpo adentro. Reagem a diferenças de temperatura, pressão mecânica, concentrações de sais, ácidos e bases, luz, etc., e enviam essa informação para o cérebro, a maior parte via medula espinal, esse grande aqueduto de informação nervosa que flui por ela vinda de todas as partes do nosso corpo a uma velocidade de cerca de dez metros por segundo! O cérebro processa e integra a informação recebida, identifica a zona emissora da mensagem e procede de acordo com o plano, finamente ajustado pela selecção natural ao longo de milhões de anos: gritamos de dor, avisamos os outros de que estamos em perigo, chamamos ajuda, sofremos estóica, racional e emotivamente e contornamos o sinal de aviso que é a dor, ou desmaiamos por não conseguirmos suportar a intensidade da informação que diz que estamos gravemente feridos ou mesmo em perigo de vida.

Muito do processamento dessas informações é efectuado só, e localmente, ao nível da medula espinal, poupando ou permitindo que o encéfalo se ocupe com outros afazeres, diríamos que mais cognitivos. Alguém pode estar a pisar-nos e nós nem darmos por isso, porque o nosso cérebro está absorto numa paisagem bela, ou num qualquer outro estímulo captador de atenção privilegiada à dor. Daí a importância em ter uma estrutura de processamento neuronal próxima da maior parte do corpo, com inúmeras saídas e entradas para uma maior eficácia e rapidez no processamento do sinal de dor periférica. Só chega ao cérebro se for mesmo necessária uma resposta à altura das circunstâncias.

Como nos movemos com grande amplitude e variedade de movimentos, a medula espinal, longitudinal a todo o corpo, tem de estar protegida por uma estrutura óssea ela própria ajustada a essa mobilidade. As vértebras, os discos intervertebrais e as apófises articulares cumprem essas funções. Protegem delicadamente a auto-estrada de informação nervosa de agressões e criam uma estrutura, flexível quanto baste, para os movimentos necessários à locomoção, mas também ao suporte do crânio. Não menos importante, permitem uma postura vertical como é o caso conseguido na nossa espécie.

Os detalhes estruturais e funcionais da coluna vertebral são de uma beleza arquitectónica espantosa. Os tubos flexíveis das nossas canalizações e outras engenharias similares são “primitivas” quando comparadas com a funcionalidade eficaz da coluna vertebral.
E a natureza utilizou e adaptou o "conceito" inúmeras vezes. Os investigadores da taxonomia bem sabem disso e desde cedo muitos seres vivos animais foram agrupados na mesma “gaveta” filogenética do filo Chordata, sub-filo Vertebrata (Cuvier, 1812). Ou seja, animais que apresentam um tubo nervoso dorsal (cordata), fendas branquiais e uma cauda pós-anal, em pelo menos uma etapa do seu desenvolvimento, e que possuem uma coluna vertebral e um crânio (vertebrata) que lhes protege o encéfalo. Dito de outra forma, possuem uma parte do seu esqueleto especializada na protecção do precioso sistema nervoso central e periférico.
E quando esta protecção operacionalmente flexível falha? Neste caso, ela própria desencadeia e dispara o alarme DOR. Partes por isso responsáveis do cérebro recebem a “notícia” de que a medula espinal está eventualmente a sofrer uma afecção. Dada a importância desta parte do sistema nervoso central, o alarme é intenso e as dores no registo do insuportável.

Como se disse atrás, a percepção da dor é muito subjectiva, pois depende muito da individualidade genética e das especiarias com que cada indivíduo foi moldando o seu desenvolvimento e envelhecimento. E há nisto muita filogenia genética e molecular.

Descobertas recentes na embriologia têm demonstrado a importância decisiva da activação de determinados genes em etapas bem determinadas do desenvolvimento do embrião e, também muito importante, o momento em que a sua activação se efectua em zonas específicas. A sinfonia da diferenciação celular que nos desabrocha em seres complexos, tem uma orquestração muito bem definida. Os vários instrumentos de cada naipe só tocam a sua parte no preciso momento e em conformidade com as instruções do seu genoma concomitantemente modelado pelas condições ambientais (no caso do embrião é o ambiente intra-uterino que importa).

A descoberta agora publicada pelas investigadoras portuguesas Tânia Resende, Isabel Palmeirim e colegas (aqui) vem mostrar o papel determinante de um gene, o Shh (Sonic hedgehog), muito activo durante as primeiras semanas da gestação embrionária e determinante da futura saúde e robustez funcional da coluna vertebral do futuro adulto. É uma espécie de relojoeiro da formação das vértebras ao longo do tubo neural, futura medula espinal, albergue de longas e presentes dores…

(continua).

domingo, 4 de julho de 2010

Seleccionador nacional de futebol e jogadores: culpados ou vítimas?

“Atingir o ideal é compreender o real” (Jean Jaurès, 1859-1914).

O meu último post (02/07/2010), intitulado, “Cristiano Ronaldo Superstar”, mereceu um comentário de Sérgio O. Marques que transcrevo:

“Um treinador que consegue colocar uma vara de marretas nos oitavos de final é merecedor de consideração e estima. No entanto, não resisti em deixar aqui a marca da minha sincera e enorme satisfação com a excreção dessa quadrilha (a que chamam selecção das quinas) do mundial. Espero que fiquem de fora logo de início no próximo mundial, não importa qual seja o treinador ou seleccionador ou lá que outro nome lhe queiram dar”.

Descontando a amargura que transparece do referido comentário, numa altura propícia a críticas feitas a quente, julgo ser ele um belíssimo ponto de partida para não deixar cair no esquecimento os reais males que afectaram a participação da Selecção Nacional no Campeonato do Mundo de Futebol a decorrer na África do Sul.

Por esse motivo, eu torno a abordar uma temática que tanta tinta tem feito correr, tantas horas televisivas tem ocupado, tantas conversas de café tem merecido entre treinadores de bancada, embora não me pretenda assumir-me como árbitro de opiniões, minhas ou de outros, que possam ser tidas como fora-de-jogo.

Mas seja como for, entendo que os campeonatos mundiais de futebol se tornaram numa feira de vaidades em que são sentados no banco dos réus apenas os seleccionadores nacionais. Haja em vista todos aqueles que foram despedidos, ou se despediram de motu proprio, depois das derrotas das respectivas equipas na África do Sul.

Mas serão eles os único e verdadeiros culpados? Porventura, estarão isentos de culpa os jogadores, estrelas de um firmamento futebolístico que nem sempre cintila, que fazem deste tipo de campeonato uma feira de venda de si próprios atingindo os seus passes cifras astronómicas e, ipso facto, mandando às urtigas o jogo de equipa? Salvaguardando-se as honrosas excepções, por exemplo, de Fábio Coentrão, quem sabe se por ainda não ser uma superstar, ou o caso de Ricardo Carvalho, feito de uma argamassa ética diferente.

Com tenho escrito outras vezes, o desporto profissional corre o risco de se tornar num verdadeiro circo romano sem ter conhecido sequer o apogeu de uma educação integral helénica. A assistir, nas bancadas VIP, verdadeiros Neros que se escondem à sombra das suas responsabilidades, enquanto na arena seleccionadores e jogadores se tornam pasto de verdadeiras feras que enchem as bancadas e tudo exigem deles, passando das palmas aos assobios, num abrir e fechar de olhos, já que não podem exigir o sacrifício das suas vidas, em desforço de uma nação humilhada.

E, desta forma, são esquecidos os aumentos de impostos, um serviço nacional de saúde deficiente e deficitário, um ensino que não ensina, uma economia que decresce e, principalmente, o aumento de desemprego - o maior flagelo de qualquer sociedade. Ironicamente, são, por vezes, estas as bandeiras de solidariedade e êxito governativo agitadas em mãos de uma sociedade em que os pobres deste mundo de Cristo estão cada vez mais pobres, a classe média passou a pobre e os ricos estão cada vez mais ricos por aqueles que mandam apertar o cinto por usarem suspensórios. Poderia a nossa selecção de futebol fazer melhor?

Escreveu José Esteves, em “O desporto e as estruturas sociais” (Prelo Editora, Lisboa, 1967, p. 15): “Só há uma forma de entender o fenómeno desportivo: na perspectiva das estruturas sociais. O que há de característico e fundamental no desporto é, justamente, o que define e caracteriza a sociedade em que ele se realiza”. Assim, renovo a pergunta: “Poderia a nossa selecção fazer melhor?” Só por milagre. E os milagres não acontecem todos os dias. Por isso, mesmo, é que são milagres.

O seu comentário, meu caro Sérgio O. Marques, suscitou, em boa hora, uma discussão, que seria conveniente ser alargada o mais possível, em que a substituição de um jogador feita por Carlos Queiroz no jogo entre Portugal e Espanha se assemelha a uma discussão do tipo de mezinha de curandeiros para uma simples borbulha numa carne apodrecida pela gangrena dos reais problemas que afectaram a nossa participação no Campeonato Mundial de Futebol da África do Sul. Ou seja, processos kafkianos para entregar numa bandeja de prata a cabeça de Carlos Queiroz e, assim, calar os descontentes, os treinadores de bancada e os próprios ingénuos.

A preparação do próximo Campeonato Europeu de Futebol bate-nos à porta. As agruras da vida serão esquecidas, por discussões sobre a escolha dos seleccionados, e tudo voltará à paz podre do dia-a-dia até que as bancadas dos estádios do mundo, ou apenas da Europa, se encham de novo, ainda que mesmo no esquecimento das sábias palavras de Stephen Covery: “Se continuarmos fazendo o que estamos fazendo, continuaremos conseguindo o que estamos conseguindo”.

Labirinto jurídico - 2

Na sequência de um autêntico "labirinto jurídico" patente num Decreto-lei de alteração do Código de Processo Civil, recentemente publicado, outro leitor, José Batista da Ascenção, enviou-nos outro "labirinto jurídico", que reúne o que legalmente tem que ser tido em conta pelas escolas na distribuição de serviço.

O Ensino da Fraude

Em comentário, o leitor Gil Fonseca enviou-nos o link de um artigo de que é co-autor. Nesse artigo, com quase uma década, está patente a visão de muitos professores, independentemente do nível de ensino em que se situem. Dele deixamos algumas passagens:

"O presente artigo foi escrito em 2000/2001 por dois professores, ligados ao ensino secundário e superior (...). Destina-se a alertar a sociedade Portuguesa relativamente ao estado catastrófico em que o sistema de ensino se tem vindo a encontrar, e das razões que justificam essa situação. Se na leitura do mesmo ocorrer uma sensação de ter estado a dormir durante as últimas décadas, será então a altura de acordar. Este assunto diz-nos respeito a todos, e as consequências desta fraude politicamente correcta a que continuamos a chamar ensino serão irremediáveis."

"Muito se tem discutido, nos últimos anos, acerca da qualidade do ensino em Portugal. Não é segredo para ninguém que, após o 25 de Abril, o sistema de ensino sofreu profundas remodelações e que a própria filosofia do sistema de ensino se tenha modificado de uma maneira irreversível (...). Essencialmente, a política demagógica dos últimos governos está a transformar o ensino numa espécie de fábrica de diplomas, onde são observadas como determinantes as estatísticas de progressão e de aprovação dos alunos, sem que haja a preocupação com a qualidade do ensino, onde a autonomia e o poder dos professores é reduzida ao mínimo, de modo a que possa haver o máximo controle destes por parte do estado; onde são aprovadas leis que dão ao ensino uma imagem de pseudo-democracia e pseudo-humanismo, à custa da transferência das responsabilidade de pais e de alunos para professores e de poderes de professores para pais e para alunos, mas onde em vez de se promover a autonomia, a criatividade e a qualidade dos alunos, se procura neles integrar, de uma maneira medíocre, uma filosofia de aceitação, de seguidismo, de estupidez intelectual, sem que haja a mínima preocupação com a qualidade dos conhecimentos que adquiriram ou desenvolveram.

Sem que haja, de nossa parte, um particular esforço em inventar expressões politicamente-correctas para descrever o estado de profunda catástrofe em que este e anteriores governos mergulharam o ensino, a expressão «fábrica de diplomas» adequa-se de uma forma perfeita aquilo que é hoje o ensino em Portugal; essencialmente, uma ferramenta política, manipulada pela mesquinhez de políticos desonestos de modo a satisfazer as primeiras necessidades dos eleitores, e onde os professores são cada vez mais transformados, de facto, em impressores de diplomas (...).

Urge então perguntar porquê o sucesso da manipulação estúpida de argumentos estatísticos? Uma escola é considerada bem sucedida quando a percentagem de aprovações é elevada, mesmo que à custa do facilitismo descarado que o sistema impõe aos professores e que professores mais acomodados incutem nos mais novos. A resposta é que é fácil. De facto, é mais simples implementar uma política vergonhosa de facilitismo e aumentar artificialmente a quantidade de alunos com o diploma do 9.º ano do que melhorar a qualidade do ensino. É mais fácil aumentar o número de vagas no ensino superior do que criar condições justas para que as pessoas possam aprender ou exercer uma profissão após finalizarem os estudos. É mais fácil, também, diminuir o grau de dificuldade dos exames do 12.º ano, de modo a que as estatísticas «demonstrem» que os alunos são bem preparados...


Gil Fonseca. Professor contratado no Ensino Secundário entre 1997 e 2000.

"A minha experiência no ensino está essencialmente ligada às engenharias e às ciências. No entanto, penso que a minha descrição também é válida nas áreas das artes, letras, gestões, medicinas e outras. Isto porque todas as áreas do ensino pressupõem o mesmo desejo de aprender, melhorar, escapar à mediocridade e atingir a excelência. Ora é precisamente neste aspecto que reside o engano. Actualmente, ter um curso superior já não traduz uma competência superior. Diria até que ter um curso superior é mau sinal. Na grande maioria dos casos (actuais) significa apenas que não se arranjou nada melhor para fazer. É provável que ache incrível uma afirmação destas. Nunca encontrei ninguém que não ficasse espantado ao ouvi-la. Perguntam-me:

-
Uma pessoa que queira aprender, para onde vai, então?

- Se aprender é realmente aquilo que quer fazer então, está bem, deve ir para a universidade mas, cuidado, você vai sentir-se muito sózinho. Actualmente, um diploma de curso superior não significa sucesso na aprendizagem mas sim sucesso na ultrapassagem dos exames, em que
"ultrapassagem" contém todos os respectivos sentidos perjorativos incluindo o de ser dolosamente permitida. Claro que há excepções mas enquanto que há uns anos atrás era difícil encontrar um curso que não valesse a pena, hoje é difícil encontrar um que valha. A grande maioria dos estudantes não tem acesso aos poucos cursos superiores que ainda valem a pena. Apenas os privilegiados que estudaram em colégios particulares é que lá chegam. Por isso, se quiser preparar-se para a vida profissional
então o melhor é empregar-se. Ao fim de cinco anos terá muito mais competência que um recém-licenciado. Se, por outro lado, o seu objectivo é obter um "canudo" ou fazer a vontade aos seus pais então a universidade é mesmo o melhor caminho. Neste caso prefira uma universidade pública pois nessas sai muito mais barato.

- O que me diz!!? Conheço vários licenciados que estão em empregos muito bons!


-Acredito que sim mas em quantos desses é que confia?
Em quantos médicos é que confia? Por quantos é que passou antes de encontrar esses? Faço a mesma pergunta para engenheiros, arquitectos, advogados, gestores, tradutores, etc. Algum é licenciado há menos de cinco anos?

- Olhe, lá na firma está agora um rapaz muito novo que instalou os computadores em rede e os ligou aos telemóveis. Não demorou muito tempo e não tem havido grandes problemas. Nele confio.

-Tem a certeza de que ele é licenciado? Não, desculpe, tem a certeza de que ele é português?

Estes pequenos diálogos têm acabado em silêncio, sinal de dúvida ou de medo. Caro leitor, espero que quando acabar de ler este texto tenha passado do medo ao terror. É que estes pequenos diálogos não descrevem as causas profundas do problema nem transmitem a natureza catastrófica dos seus efeitos (...).

Caro leitor, já que chegou até aqui, permita-me ainda que foque um aspecto importante: a Educação tem um impacto determinante na cultura e, por consequência, na economia duma nação a longo prazo. Por esta razão é muito grande a responsabilidade dos professores. Essa responsabilidade não pode ser escamoteada por causa de políticas de curto prazo. Note, caro leitor, não pretendo regressar ao passado, apenas lembro que, mais tarde ou mais cedo, seremos todos obrigados a tomar decisões difíceis e que nessa altura convirá estarmos devidamente preparados. Confesso que me sinto envergonhado por só agora divulgar o engano que ajudei a perpetuar.

Luís Gonçalves, Docente do Departamento de Física da FCT/UNL desde 1994.

sábado, 3 de julho de 2010

DOIS LOGROS DO EDUQUÊS: O «APRENDER A APRENDER» E AS «COMPETÊNCIAS»

Texto de Guilherme Valente saído no "Expresso" de hoje:

1. Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender». Mas não se ensinam os conhecimentos que os alunos precisam de aprender. Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender» matemática. Mas o que é preciso mesmo é aprender matemática.

O «aprender a aprender» tornou-se moda por soar bem e prometer o «milagre» de se poder aprender tudo sem ter de se aprender nada.

O eduquês substitui o que importa ensinar pelas técnicas e métodos que supostamente permitiriam aprender tudo sem esforço.

Dois exemplos reveladores do logro:

Se eu pretender recrutar um tradutor de inglês, não indagarei se os candidatos sabem «aprender a aprender», mas se sabem, pelo menos, inglês e português.

Se a Carris precisar de um motorista, não perguntará aos candidatos se sabem «aprender a aprender», mas se têm carta de condução e experiência de conduzir.

2. As «competências» são outro logro, que engana o incauto porque a expressão tem um significado próprio que o senso comum instantaneamente apreende e valoriza. Mas o que é um indivíduo competente? Alguém que adquiriu e domina conhecimentos e técnicas e é capaz de os aplicar no exercício eficaz de uma função. Haverá alguém competente, seja no que for, sem conhecimentos?

O que será uma competência em Filosofia Medieval? Só pode ser o conhecimento do pensamento dos filósofos da época e do contexto em que foi elaborado. O que exige tê-los estudado, dominar o latim, grego, história, etc. E ser competente em física quântica? E a cozinhar uma boa caldeirada?

Também o candidato a um curso universitário de Física deverá ter adquirido os conhecimentos que permitem responder à exigência de aprofundamento e especialização que pressupõe. Não chegará que saiba «aprender a aprender», pede-se-lhe que já tenha aprendido muito.

3. Importante não é o modo como se ensina e aprende, mas o que efectivamente se ensina, aprende e exercita. E é só o aprender muito que potencia a capacidade para aprender mais e diferente.

O método é um «caminho». As técnicas e meios de ensino devem ser adoptados e mesmo construídos em função das matérias e dos alunos. A pedagogia é uma disciplina respeitável, mas auxiliar, não é o objectivo do ensino.

4. Ora, como a pedagogia parece ser o único conhecimento que os «especialistas» da educação supostamente dominam, valorizam-no até ao rídiculo, garantindo, assim, o poder e o emprego.

É esse o programa dominante na maioria dos cursos de formação de professores, que lançam no ensino vagas de docentes, grande parte sem poderem ensinar nada, por saberem muito pouco do que deveriam ensinar.

Mas como o Ministério da Educação é controlado pelos mesmos que os «formaram», fica tudo em casa, isto é, a escola e a «avaliação» não podem deixar de ser o que, com raras excepções, são.

Se o leitor quiser saber até que ponto o rei vai nú, peça a um desses novos docentes, ou a um dos pobres bons professores a quem é imposta a cartilha, um exemplo de uma «competência». Aposto que será: a «leitura de um horário de comboio»…

Refeito do choque, pergunte, a seguir, como se avalia a competência em História, Física, Electricidade…

4. O «aprender a aprender» e as «competências» são um pico da pedagogice, logros que servem ao eduquês e aos «especialistas» para que não se ensine, não se aprenda, nada possa ser avaliado.

São, afinal, manifestação da desvalorização relativista do conhecimento e do professor, da aversão rousseauniana aos «saberes letrados», supostamente origem da desigualdade e da desarmonia social. Tornar todos iguais, é o projecto inconfessável do eduquês. Mesmo que para isso seja preciso condenar todos à ignorância, à boçalidade e à miséria.

Todos?

Guilherme Valente

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Três novos livros da "Classica Digitalia"

Informação recebida da Classica Digitalia pelo De Rerum Natura;

O Conselho Editorial da editora Classica Digitalia tem o gosto de anunciar 3 novos livros, cuja publicação decorre da mesma política global de criar sinergias dentro do espaço lusófono, de estimular a internacionalização e de promover o trabalho de jovens investigadores.

Conforme é prática da Classica Digitalia, todos os volumes são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital de acesso livre.

Colecção Autores Gregos e Latinos – Série Textos Gregos
- Carmen Soares e Roosevelt Rocha: Plutarco. Obra Morais. Sobre o afecto aos filhos / Sobre a música. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2010). 243 p. PVP: 14 €

Colecção Autores Gregos e Latinos – Série Ensaios
- Maria de Fátima Silva e Susana Hora Marques (eds.): Tragic Heroines on Ancient and Modern Stage (Coimbra, CECH, 2010). 129 p. PVP: 11 €
- Ália Rodrigues, Carlos M. Jesus e Rodolfo Lopes: Intervenientes, discussão e entretenimento “No Banquete” de Plutarco (Coimbra, CECH, 2010). 139 p. PVP: 10 €

Sobre o erro

Sabendo uma leitora que o De Rerum Natura se tem interessado pelo erro humano, enviou-nos uma lista de citações de pessoas com pensamento sobre este fenómeno:

"Quem confessa os seus erros é mais sábio hoje que ontem."
Alexander Pope

“Os homens erram, os grandes homens confessam que erraram.”
Voltaire

"Confessar um erro é demonstrar, com modéstia, que se fez progresso na arte de raciocinar."
Jonathan Swift

"Ninguém é maior do que aquele que está disposto a que lhe assinalem os seus erros."
Dave Barry

"A ciência compõe-se de erros que, por sua vez, são os passos até a verdade."
Júlio Verne

"Se fechares a porta a todos os erros, a verdade ficará na rua."
Rabindranath Tagore

"Eu não me envergonho de corrigir meus erros e mudar as opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender."
Alexandre Herculano

"Se não receio o erro, é só porque estou sempre pronto a corrigi-lo."
Bento Jesus Caraça

“Quem nunca errou nunca experimentou nada novo.”
“O único homem que está isento de erros é aquele que não arrisca acertar.”

Albert Einstein

“Críticos são sujeitos que passam anos procurando um erro dos escritores - e acabam por encontrar.”
Peter Ustinov

“Contrariamente ao que crêem os chorões, todo o erro é uma propriedade que acresce o nosso haver. Em vez de chorar sobre ele, convém apressar-se em aproveitá-lo.”
José Ortega y Gasset

“O erro não se torna verdade por se multiplicar na crença de muitos, nem a verdade se torna erro por ninguém a ver...”
Mahatma Gandhi

“Por que será que há, de um modo geral, uma predominância entre a humanidade de opiniões e condutas racionais? (…) [Tal] fica a dever-se a uma característica da mente humana, a fonte de tudo o que é respeitável no ser humano, quer como ser intelectual, quer moral – o facto de que os seus erros são corrigíveis. Ele é capaz de rectificar os seus erros através da discussão e da experiência. Não simplesmente pela experiência; tem de haver discussão, que mostre como há-de a experiência ser interpretada.”
John Stuart Mill (2006). Sobre a Liberdade. Lisboa: Edições 70, pp. 55-56.

“Concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.”
Fernando Pessoa

A ECONOMIA DAS VUVUZELAS

O fim dos hipers


Como é habitual destacamos do "Destak" de hoje a crónica de J.L. Pio Abreu:

Num dos seus últimos livros, Gilles Lipovetski caracterizava a nossa época como um tempo de hipercapitalismo, hiperconsumismo e hiperindividualismo. Se isto foi verdade, também é preciso perceber como tudo já está a mudar. O hipercapitalismo, ou o capitalismo financeiro levado às últimas consequências, rebentou. É difícil vislumbrar o que virá a seguir, mas o tempo da abundância, que os ortodoxos liberais prometeram, está a acabar.

O hiperconsumismo acabará a seguir, com agrado das nossas casas e arrecadações povoadas de inutilidades. Aliás, parece que andávamos todos a consumir aquilo que os chineses e alemães produziam.

Mas a proverbial inteligência da direita alemã levou-a a optar – e obrigar os outros a optar – pelas restrições económicas. Se deixarem cair o euro, não mais terão a quem vender as suas máquinas dispendiosas. E se os chineses deixarem encarecer o yuan, lá vão acabar as chinesices baratas.

Fica-nos o hiperindividualismo. “Eu, eu e só eu”, sem referência aos outros e às comunidades a que pertencemos, agora e no passado. Para compensar, nunca houve tantos grupos na internet, tantas causas virtuais nem tanto consumo da ficção que descreve “as nossas” seitas secretas.

Mas tudo isso é efémera ilusão. Se deixamos de partilhar na vida real, perderemos a identidade, as palavras e tudo o que nos torna humanos. Nem seremos macacos, que têm as suas pertenças. Seremos talvez robôs. Mas alguns, algum dia, terão de partilhar conversas para saber o que fazer dos tempos que aí vêm.

O MERCADO FICCIONAL


Minha crónica no "Público" de hoje:

No Mundial de Futebol a Espanha ganhou a Portugal porque jogou melhor e porque meteu um golo contra nenhum. Como a FIFA não permite o uso de golden shares nas selecções de futebol, o governo português não pôde, no final do jogo, anulá-lo com o pretexto de que não gostou do resultado. Não pôde, por exemplo, afirmar que era “absolutamente estratégico” para a equipa das quinas não perder.

No jogo económico entre a Telefónica e a Portugal Telecom (PT) que, por coincidência, se realizou no dia seguinte, a primeira meteu um “golo” ao oferecer 7150 milhões de euros pela participação da segunda na Vivo, empresa brasileira de comunicações móveis, um preço bem acima do actual valor daquela participação e que quase chega ao actual valor de toda a PT. Os accionistas da PT, por uma expressiva maioria (74 por cento), não tiveram dúvidas em aceitar a oferta. As leis do mercado funcionaram, tal como funcionam todos os dias, por todo o lado do mundo.

O governo português fez, porém, questão de mostrar ao mundo que essas leis não funcionam aqui. No final do jogo, com uma flash interview, o primeiro-ministro José Sócrates anulou o resultado. A “FIFA da política europeia” não gostou. A vice-presidente da União Europeia, a holandesa Neelie Kroes, avisou Portugal que não podia usar "medidas proteccionistas e nacionalistas num mercado único". A golden share que foi usada para efeitos de veto é, pelo menos desde 2008, disputada no Tribunal das Comunidades Europeias, aguardando-se sentença no dia 8 de Julho. A União Europeia não tem dúvidas: “os direitos especiais que o estado português ostenta na PT desincentivam os investimentos por parte de outros Estados membros, violando as regras do Tratado da União Europeia”. E os juízes europeus irão, em breve, confirmar isso mesmo.

A explicação de Sócrates parece pífia. Começou por dizer que a golden-share (uma palavra de inglês técnico) “é para isso que serve, para ser utilizada quando necessário”. Pode-se, convenhamos, dizer isso de qualquer coisa, pois qualquer coisa servirá se for usada e não servirá se não for usada. Só uma coisa ilegal é que não serve para nada pois não pode ser usada. O primeiro-ministro acrescentou que “é uma questão absolutamente estratégica para o desenvolvimento da PT”. Pode-se, contudo, argumentar que o seu veto não foi a favor da PT, pois ninguém melhor do que os accionistas da PT saberá o que favorece aquela empresa. Eu não sou accionista nem sequer cliente da PT, que durante anos e anos me cobrou taxas telefónicas abusando da sua posição dominante (estou muito grato por o mercado me oferecer alternativas mais baratas e melhores!), mas, se fosse, acharia, no mínimo, paternalista a posição do governo. Significaria que o governo saberia melhor do que eu o que fazer com os meus bens. Em matéria de PT, ele não tem, aliás as “mãos limpas”, pois além da golden share também lá tem, não o esqueçamos, Rui Pedro Soares.

Além do mais, Sócrates deixou em maus lençóis os responsáveis da PT, que andaram primeiro a dizer aos accionistas que a golden share não se aplicava a este caso e depois que a vontade deles devia ser respeitada. Talvez agora não tenham outra saída a não ser demitir-se.

O órgão maior da imprensa económica (continuando a metáfora, o equivalente ao maior jornal desportivo), o Financial Times, chamou “estupidez colonial” ao gesto do governo luso, considerando que não se trata de defender o interesse nacional, mas sim, quando muito, o interesse de uma empresa privada com sede em Lisboa e um ramo num país estrangeiro que há muito deixou de ser colónia. Um governo de direita não faria diferente do que fez Sócrates. E, como os extremos se tocam, foi curioso ver o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda a aplaudi-lo, precisamente numa altura em que ele lançou um ataque fiscal sem precedentes aos contribuintes. O controlo estatal da economia tem defensores nos dois lados do espectro político e, pelos vistos, também no meio. Em Portugal, o mercado, de que tanto se fala, não passa afinal de uma ficção.

Conferência Solvay de Física de 1927



Vídeo com alguns grandes nomes da Física numa altura em que nascia a Mecânica Quântica.

CRISTIANO RONALDO SUPERSTAR

“Porque é que qualquer português tem sempre uma opinião sobre tudo, seja política futebol ou a legislação laboral da profissão de calista?” (Miguel Esteves Cardoso, Expresso, 31/10/87).

Num mar alteroso que tentou fazer naufragar na opinião pública portuguesa os “navegadores” da equipa nacional de futebol, depois das ondas de euforia dos 7-0 à Coreia do Norte, surge, agora, uma espécie de tribunal ad hoc que quer sentar no banco dos réus Carlos Queiroz sem tomar em linha de conta que os êxitos ou fracassos de uma equipa desportiva não devem ser assacados, exclusivamente, ao respectivo treinador/seleccionador.

Ressalvando a seriedade de uns tantos cronistas desportivos, surge a inimizade de outros sem a isenção necessária para se subtrairem à antipatia que lhes merece Carlos Queiroz e nostálgicos da simpatia de um Scollari capaz de mobilizar todo um país para o sonho “patriótico” de fazer Portugal campeão mundial do desporto-rei.

“Nestas circunstâncias que são simultaneamente humilhantes de suportar, humilhantes de considerar e humilhantes de descrever” (Charles Dickens), é fácil e cativante transformar Carlos Queiroz em “cepo das marradas” da frustração desportiva de quem não gosta de perder nem a feijões e, muito menos, com a Espanha (em arreigada antipatia colhida em compêndios escolares de história), havida actualmente como detentora de uma das melhores equipas mundiais do desporto-rei. Como li em título de A Bola: “Custar, custa, mas a Espanha é melhor” (Vitor Serpa, 30/01/2010).

Destaco, igualmente, ao arrepio deste acervo de escritos jornalísticos anti-Queiroz, o parágrafo inicial da crónica de Daniel Oliveira, nesse mesmo dia e jornal desportivo:

“Portugal foi eliminado. Não é o fim do Mundo. Portámo-nos com dignidade. Tenho de confessar que a Selecção acabou por estar acima das minhas expectativas, Com Bosingwa e Nani teríamos, provavelmente, ido um pouco mais longe. Devo, como muita gente, algumas desculpas a Carlos Queiroz. Construiu, ao contrário das aparências, uma equipa. Está de parabéns”.

Assim, Carlos Queiroz não deve ser a árvore que esconde a floresta da ambição de Cristiano Ronaldo em fazer deste Mundial o palco de eleição para defender, ou mesmo ampliar, os seus pergaminhos de melhor jogador do mundo, num confronto com outros protagonistas como, por exemplo, Kaká, da equipa do Brasil e seu companheiro no Real Madrid, e Messi da selecção dos Pampas.

A ambição de Ronaldo não é reprovável. Reprovável, isso sim, foram os meios por si utilizados para alcançar esse fim no jogo com a Espanha. Enquanto Kaká e Messi, também eles de posse do ceptro da FIFA de melhores jogadores do mundo, embora, obviamente, em anos diferentes, se preocuparam em jogar para as respectivas equipas, Ronaldo parecia ter em mente jogar para prestígio de si próprio.

Certa imprensa desportiva portuguesa, sem atender a que “a verdade é a essência da moralidade”, como nos ensinou T. H. Huxley, tem-se servido da sua força de quarto poder, pela sua reconhecida capacidade em influenciar, ou mesmo condicionar, a opinião pública contra as opções tácticas e as substituições de Carlos Queiroz.

A própria imprensa espanhola, tantas vezes acusada de xenofobia, foi bem mais comedida nas críticas à derrota da equipa portuguesa:

“Um golo de Villa colocou a Espanha pela quarta vez nos quartos-de-final do Mundial e pôs ponto final num encontro que Portugal tornou muito duro. Por momentos, o conjunto de Del Bosque recuperou a identidade que a tornou uma grande selecção, campeã da Europa, ainda que tenha faltado um pouco de profundidade perante o férreo planeamento luso, equipa que ainda não tinha recebido um golo ao longo do torneio” (El País, 30/06/2010).

Nesse mesmo dia, colhi estas transcrições em fontes jornalísticas de dois outros países estrangeiros:

Do jornal “L´Equipe” (ou seja de um país a braços com o escândalo de proporções políticas pela prematura eliminação da sua selecção): “A paciência espanhola superou a força portuguesa. Tal como havia acontecido nos dois últimos jogos do seu grupo, o sucesso espanhol teve o selo de de David Villa. No entanto, o seu golo deveria ter sido anulado, pois estava em posição de fora-de.jogo. Do ponto de vista de matriz do jogo. A qualificação espanhola teve uma certa lógica. Do ponto de vista das ocasiões de golo, já tem menos…”

Do jornal “O Globo”: "Com um golo de Villa, a Espanha vence Portugal por 1-0, na cidade do Cabo e vai enfrentar o Paraguai nos quartos-de-final da Copa. Já os portugueses que contavam com a estrelac do craque Cristiano Ronaldo que nada fez no Mundial, volta paa casa. O golo espanhol gerou polémica, já que Villa estaria em fora de jogo, e o 'telão' do estádio não mostrou o 'replay' do lance, conforme a determinação da FIFA”.

Como se diz na gíria do teatro, aproveito a deixa de “O Globo” para voltar ao ”caso Ronaldo” que mereceu a atenção muito crítica da cadeia televisiva espanhola “Cuatro” ao dar-nos conta da falta de fair-play do capitão da equipa das quinas e das suas implicações para com o rendimento da Selecção Nacional que aconselharia a sua substituição, não se desse o caso da repercussão que essa medida assumiria nas bancadas pejadas de portugueses, residentes ou não na África do Sul, que se recusariam a assistir, sem manifestarem o seu violento desagrado, à queda do seu ídolo, um ídolo a valer o peso do corpo em ouro, ainda que, como tantos outros, com pés de barro.

E se, para Homero, “a marca da sabedoria é ler correctamente o presente e marchar de acordo com a ocasião”, razão mais do que suficiente para não atirar para cima das costas do seleccionador nacional toda a responsabilidade de uma situação em que uns tantos estarão isentos e outros não de culpa, sendo até merecedores de amplo louvor numa partida em que sobressaiu a humildade, o empenhamento, e o denodo de jogadores como, por exemplo, Eduardo, guarda-redes de um clube nacional, não tido entre os três grandes.

Exposição de cartoons sobre Aviação no Porto


Texto recebido do nosso leitor Augusto Kuettner Magalhães:

MUSEU DA IMPRENSA DO PORTO - exposição de cartoons sobre Aviação em homenagem a Bartolomeu de Gusmão

Apesar das tremendas dificuldades que, com a crise sem fim à visita, nos assolam, ainda vamos tendo locais, a muito baixo custo ou até a custo zero, de Cultura!

Entre eles destaco o Museu da Imprensa do Porto, que tem um espólio em exposição permanente de máquinas e mais utensílios que foram o que fez sair tantos jornais, não assim há tanto tempo. Hoje são relíquias, mas deixaram passar muita informação, até em tempo de censura, quando não havia liberdade de expressão.

Tem agora esse mesmo Museu da Imprensa do Porto, ali junto ao Palácio do Freixo, uma exposição temporária de cartoons, cheios de humor, alusivos a aviação e feitos por vários autores de diferentes países, inclundo até o Irão.

Vale a pena ser visitado. O visitante aproveita para ver as máquinas e para ver os cartoons, que para além do piada que possam ter, transmitem algumas mensagens.

É mais um espaço de cultura/lazer aqui no Norte, que deve ser bem mais aproveitado, por todos e por cada um de nós.

Augusto Küttner de Magalhães

Labirinto jurídico


Um dos nossos leitores mandou-nos este pedaço de uma lei de alteração do Código de Processo Civil:

"O art. 1º do Dec.-Lei 35/2010 de 15 de Abril começa da seguinte forma
:

Os artigos 143.º e 144.º do Código do Processo Civil aprovado pelo Decreto -Lei n.º 44 129, de 28 de Dezembro de 1961, alterado pelo Decreto -Lei n.º 47 690, de 11 de Maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de Março de 1969, pelo Decreto -Lei n.º 323/70, de 11 de Julho, pela Portaria n.º 439/74, de 10 de Julho, pelos Decretos -Leis n.os 261/75, de 27 de Maio, 165/76, de 1 de Março, 201/76, de 19 de Março, 366/76, de 15 de Maio, 605/76, de 24 de Julho, 738/76, de 16 de Outubro, 368/77, de 3 de Setembro, e 533/77, de 30 de Dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de Maio, pelos Decretos -Leis n.os 513 -X/79, de 27 de Dezembro, 207/80, de 1 de Julho, 457/80, de 10 de Outubro, 224/82, de 8 de Junho, e 400/82, de 23 de Setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 128/83, de 12 de Março, 242/85, de 9 de Julho, 381 -A/85, de 28 de Setembro e 177/86, de 2 de Julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de Agosto, pelos Decretos -Leis n.os 92/88, de 17 de Março, 321 -B/90, de 15 de Outubro, 211/91, de 14 de Junho, 132/93, de 23 de Abril, 227/94, de 8 de Setembro, 39/95, de 15 de Fevereiro, 329 -A/95, de 12 de Dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 180/96, de 25 de Setembro, 125/98, de 12 de Maio, 269/98, de 1 de Setembro, e 315/98, de 20 de Outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, pelos Decretos -Leis n.os 375 -A/99, de 20 de Setembro, e 183/2000, de 10 de Agosto, pela Lei n.º 30 -D/2000, de 20 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 272/2001, de 13 de Outubro, e 323/2001, de 17 de Dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro, e pelos Decretos-Leis n.os 38/2003, de 8 de Março, 199/2003, de 10 de Setembro, 324/2003, de 27 de Dezembro, e 53/2004, de 18 de Março, pela Leis n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 76 -A/2006, de 29 de Março, pelas Leis n.º 14/2006, de 26 de Abril e 53 -A/2006, de 29 de Dezembro, pelos Decretos-Leis n.os 8/2007, de 17 de Janeiro, 303/2007, de 24 de Agosto, 34/2008, de 26 de Fevereiro, 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis n.os 52/2008, de 28 de Agosto, e 61/2008, de 31 de Outubro, pelo Decreto -Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, e pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, passam a ter a seguinte redacção: (...)"........................

Se duvida pode confirmar no sítio do Diário da República.

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...