segunda-feira, 15 de março de 2010

Um tecto para as despesas na saúde?

“A cura está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias” (Hipócrates, 460 a.C.- 337 a.C)

Em declarada crise económica que assola grande parte do planeta e num pequeno país como Portugal, em que há um evidente desequilibrio entre as despesas públicas e as receitas fiscais, tomam-se medidas de desenrascanço de apertar o cinto que pouco afectam quem usa suspensórios!

Desta forma, em vez de se cortarem em esbanjamento de dinheiros públicos (finalmente e pelos vistos, pelo menos, o TGV e o Aeroporto de Alcochete encontram-se em banho-maria) tenta-se cortar em despesas com pouco significado positivo para os cofres estatais e muita expressão negativa no que diz respeito à justiça social.

Refiro-me ao Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) , no que concerne à criação de um tecto limitativo para deduções de despesas da saúde para efeitos de IRS que levou a que o ministro Teixeira Santos tenha optado por não fazer comentários sobre a sua possibilidade (Correio da Manhã, 25/11/2009). Infelizmente, duvido que este silêncio prenuncie boa notícia e muito menos “a eloquência dos anjos” de que nos fala Camilo.

Aliás esta indefinição sobre o futuro fiscal das famílias portuguesas da classe média dá preocupação acrescida ao cidadão comum a quem a velhice trouxe doenças e desânimos muito bem retratados numa uma personagem de um dos livros de Arnaldo Gama e não em vivência própria do autor pela sua morte prematura aos 41 anos de idade: “Para isto é que eu vivi! Malditos anos! Maldita velhice!”

Como se nós tivéssemos um Serviço Nacional de Saúde de boa saúde (ora, num direito que assiste a qualquer cidadão de procurar o que mais lhe convém na vida, assiste-se à hemorragia de muitos dos melhores médicos dos hospitais públicos para o sector privado), Francisco Louçã, dirigente do Bloco de Esquerda, em debate televisivo com José Sócrates (RTP1, O8/09/2009), defendeu a ideia peregrina de que as despesas com consultas médicas em consultórios privados deviam deixar de contar para efeitos de desconto no IRS.

Sabendo nós que os recibos dos médicos constituem uma parcela importante do total que é taxado a estes profissionais para pagamento de IRS, a não passagem desses recibos constituiria uma perda evidente de rendimentos para a fazenda pública criando uma forma de economia paralela que vigora em muitas profissões que não passam recibo porque o cliente assim não o exige por não ganhar nada com isso e não desejar amontoar papelada para lançar no lixo.

Mas atenhamo-nos apenas ao caso dos medicamentos. Actualmente são deduzidos para efeitos de IRS 30% das despesas feitas nas farmácias com determinados medicamentos. Ou seja, quem tem uma saúde de ferro beneficia do dom precioso em não gastar um cêntimo em medicamentos. Por outro lado, quem tem uma saúde frágil que anda associada, frequentemente, a achaques da velhice, como sejam, por exemplo, graves doenças do foro reumatismal, em que, para apaziguar dores insuportáveis, o paciente é obrigado a encharcar-se em analgésicos, gastando quantias que fazem perigar, ainda mais, o seu periclitante equilíbrio financeiro em busca de uma dignidade humana que não se curve amparada por uma bengala para não abdicar da sua ascendência bípede de milhões de anos.

A ser levada avante esta medida, um doente de magros ou remediados cabedais de vencimento ou esquálida reforma que, porventura, tenha uma gripe ao atingir o referido tecto terá que deitar contas à vida e pedir a Deus para que uma possível pneumonia não lhe bata à porta na pior altura. Ou, nessa infelicidade, empenhar os anéis para ficar com os dedos, ou mesmo sem os anéis e os dedos, como se a própria vida “não fosse o último hábito que se quer perder porque é o primeiro que se toma”, como escreveu Alexandre Dumas Filho.

Tratar atempadamente da nossa saúde não é o mesmo que adquirir um bem que se possa dispensar ou adquirir mais tarde quando a vida corre melhor! Atento à situação de verdadeira crise económica em que a grande maioria dos estratos sociais deste país mergulharam, e que não deve ser paga por aqueles que cumprem com grande sacrifício os seus impostos - como escreveu Peter Vries, “ os ricos não são como nós: pagam menos impostos” –, manifestou-se, dias atrás, publicamente contra esta medida o CDS/PP ao declarar publicamente que rejeita o PEC “se o Governo não recuar no corte das deduções fiscais em Saúde” ("Correio da Manhã", 13/03/2010)

Ir buscar umas migalhas no cotão de certos bolsos que a actual crise virou do avesso e não em ordenados escandalosos, sinecuras principescas e chorudas contas bancárias é o mesmo, como nos ensina a sabedoria popular, que "poupar no farelo para gastar na farinha", promovendo o desaparecimento de uma classe média com reformas que se degradam de ano para ano, necessitadas, como tal, de cuidados fiscais intensivos que lhes transmita e à economia portuguesa um novo e desejável alento para sair do pântano em que se encontram mergulhadas.

Num abreviar de razões, a solução deve ser procurada numa ainda mais apertada malha que taxe o cidadão com sinais exteriores de riqueza de quem “cabritos vende e cabras não tem”, segundo os seus reais rendimentos e haveres e não sobre aquilo que ele dolosamente possa declarar serem os seus hipotéticos rendimentos e haveres. A isto, sim, chama-se, com toda a propriedade, justiça fiscal!

Heraclito

A asssociação A Origem da Comédia realiza a terceira sessão do ciclo de Tertúlias Pré-Socráticas dedicada a Heraclito.

Será no dia 17 de Março, quarta-feira, às 18:00 horas, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, e contará com a presença de Alexandre Sá, da Universidade de Coimbra, e com a leitura, pelo recém-surgido duo Voz Baixa, de um conto de Gonçalo M. Tavares, inspirado pela figura do filósofo de Éfeso.

De Heraclito, dito O Obscuro, chegaram-nos pouco mais que uma centena de fragmentos, mas esses bastaram para que conquistasse a admiração de Hegel, Nietzsche ou Heidegger, entre tantos. Nele encontramos, a título de curiosidade, o primeiro registo da palavra filósofo. A sua doutrina do fluxo eterno — não é possível entrar duas vezes no mesmo rio: quem não ouviu já a frase?— e da unidade dos opostos, bem como o seu estilo muito próprio, quase oracular, a tempos, continuam a fascinar quem se confronta com o que dele nos chegou.

Querendo, poderá o leitor consultar bibliografia sobre Heraclito aqui.

ENTREVISTA NO NOTÍCIAS MAGAZINE

Entrevista que dei a Catarina Pires para a rubrica "Todos os nomes" da revista "Notícias Magazine" e que foi publicada no número 929 de 14 de Março, que saiu ontem a acompanhar o "Diário de Notícias" e o "Jornal de Notícias":

Todos os nomes - Carlos Fiolhais

Não sabe em que caldeirão caiu em pequenino, mas deve ter caído em vários: o dos livros, o da curiosidade, o do bom humor, o do optimismo. Só assim se explica que este físico, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, nos faça perder as noções de tempo e espaço estabelecidas por Einstein, quando nos pomos à conversa com ele.

P- É cientista, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, contador de histórias, um pouco historiador...

R- Historiador e contador de histórias são coisas diferentes. Historiador não me importava de ser. Contador de histórias? Não invento histórias, quanto muito reconto algumas histórias que me contam.

P- Reconta-as bem, daí chamar-lhe contador de histórias.

R- Mas quem conta um conto acrescenta um ponto e eu tenho sempre esta mania de cientista de não acrescentar muitos pontos. Pelo contrário, um cientista, pela sua preocupação com o rigor, às vezes tem de tirar pontos à história.

P- Mas fazendo tantas coisas ao mesmo tempo, em que caldeirão caiu quando era pequenino?

R- Bem, agora é que me está a contar uma história... Tanto quanto me lembro não caí em nenhum. Os meus pais dizem-me que tive uma infância normal, nasci na Maternidade Alfredo da Costa, onde nasce toda a gente, uma verdadeira fábrica de portugueses, e onde não há caldeirões. A minha infância, foi passada em Lisboa, nos anos cinquenta e sessenta, com uma linda vista para o Tejo, talvez tenha sido esse o caldeirão... Aos sete anos mudei-me para Coimbra, que tem uma linda vista para o Mondego.

P- É um optimista?

R- Sou, militante. Há todas as razões para ser pessimista, logo sou optimista...

P- Mas tem sido difícil manter o optimismo, não?

R- Não é difícil. Quanto pior a situação, mais optimista penso que é necessário ser para se sobreviver, é quase uma decisão de vida. A verdade é que não vale de nada sermos pessimistas: se dizemos que algo vai correr mal, isso ajuda a que corra. De modo que tento contrariar o pessimismo instalado. Temos, em Portugal, uma visão muito escura das coisas e eu gosto de luz. Quando a situação está negra, há muitos sítios onde podemos lançar luz...

P- Também é um crítico e isso é claro nas suas crónicas, reunidas em livros como Curiosidade Apaixonada e A Coisa Mais Preciosa que Temos.

R- Ser crítico é uma maneira de ser optimista. A única forma de inventar um futuro melhor é dizer que não queremos que seja como no passado. Isso vem de outro caldeirão que frequentei, nos quatro anos que passei na Alemanha. A minha condição de estrangeirado levou-me a ter uma consciência bastante crítica em relação a certos aspectos do nosso país. Sei que se pode fazer melhor porque vi fazer melhor e porque fiz melhor noutro lado. Se noutros lados se faz, porque não se faz aqui? Sou crítico quando vejo razões de crítica. Há coisas que me indignam e nos deviam indignar a todos. Se expresso publicamente a minha crítica é para ver mais gente indignada ao meu lado.

P- Um dos maiores alvos da sua crítica é o sistema de ensino português.

R- Ah sim, é o meu alvo preferido.

P- Porquê?

R- Porque é de algum modo a mãe de todos os problemas. Temos uma formação que deixa muito a desejar e não nos prepara devidamente para a vida. E não tem de ser assim. A boa escola é algo que estamos a dever a nós mesmos. Se queremos futuro, temos que apostar na escola, que é a instituição que a humanidade inventou – e já foi há muitos anos – para nos garantir o futuro. Se não temos um futuro melhor é porque não o estamos a promover na escola.

P- O que é que está mal? Está tudo mal?

R- Não, temos bons professores, que fazem, a maioria deles, por cumprir a sua obrigação profissional num ambiente que não é nada fácil. Se me pergunta o que está mal, dou-lhe um exemplo: o Ministério da Educação é – vou usar uma palavra brutal para fazer jus à minha fama de crítico – um monstro. É um aparelho criado pelo Estado, que está por todo o lado em demasia, retirando liberdade aos bons professores. Há regulamentos para tudo e mais alguma coisa, os programas não são bons, os livros têm que se ater aos programas, os horários são o que se sabe, há disciplinas que não são disciplinas nenhumas. Enfim, não tenho dúvidas de que é possível fazer melhor e que isso passa por uma menor intervenção do Estado. Será precisa toda aquela burocracia? Será preciso aquela linguagem em que se exprime o monstro e que eu e outras pessoas designamos por «eduquês»? Não se pode falar claro? A actual ministra domina bem o português, é uma boa escritora, não poderá pôr aquele Ministério a falar claro?

P- O que é que é preciso, então, para melhorar?

R- É preciso que os professores tenham mais poder na escola. Nos últimos anos, assistimos a lutas entre o Ministério e os professores, em que os destroços da batalha são os alunos. O que a ministra está a fazer – e desejo-lhe sorte – é limpar o campo da batalha, o que demora algum tempo. O tempo que se perdeu e que se perde... Não tenho dúvidas de que a nossa escola pode melhorar e isso faz-se pelo exemplo, por procurar e premiar as melhores práticas, por recompensar mais do que punir. É preciso valorizar a criatividade. O que eu gostava de ver era uma escola mais aberta, fora do espartilho do governo. Neste momento, a escola está refém do Ministério da Educação.

P- A máquina ministerial condiciona a criatividade de alunos e de professores?

R- Condiciona a criatividade dos professores, que são a chave do sucesso da escola. Diminuir o papel dos professores foi o pior que se podia ter feito. Portanto, tudo o que possamos fazer para valorizar este papel, para lhes dar importância e autoridade, é útil. Há uma palavra que não se tem usado muito em Portugal e que se devia usar mais (o Ministério da Educação, então, foge dela como o diabo da cruz) que é ensinar. A escola é um sítio onde se ensina. Claro que também é um sítio onde se aprende, mas para aprender é preciso que se ensine. Quase tudo aquilo que sei foi porque alguém me ensinou. A partir de certa altura já fui capaz de aprender por mim próprio, mas devo muito à escola e aos meus professores. Porque é que os jovens de agora não hão-de poder dizer o mesmo? Estamos a desviar-nos do essencial e o essencial é preparar para a vida. Não estaremos a alienar os nossos jovens da capacidade de saber mais, de decidir, que não devia ser apenas de alguns, mas de todos?

P- Esse sistema, tal como o descreveu, é a razão por que Portugal não tem sido um país de ciência?

R- A nossa educação científica é uma área em que podemos progredir. A ciência devia estar presente mais cedo na escola, e não se trata tanto de falar de ciência, mas mais de ver como ela se faz. A ciência devia estar presente no jardim-escola e no ensino básico. A palavra ciência quase não aparece nos programas, aparece uma coisa chamada “estudo do meio”. O que é isso? Um cientista é um "estudioso do meio"? Percebo a ideia de que o meio não é só o meio material, é também o meio social. Muito bem, é evidente que vivemos num meio social, mas antes disso pisamos um planeta que nos puxa para baixo, respiramos ar, bebemos água, e é bom que no básico façamos experiências que nos permitam compreender o que é o planeta, o que é o ar, e o que é a água. A descoberta do mundo pela criança tem de começar por aí. A junta de freguesia e outras construções sociais, por muito importantes que sejam, vêm depois do ar e da água.

P- Apesar de Portugal não ser um país de ciência, está a preparar uma história da ciência em Portugal. O que tem para contar?

R- Nós ainda não temos suficiente ciência em Portugal porque não tivemos escola em quantidade e qualidade suficiente. Mas isto vem de trás, há um lastro. Portugal tem 800 anos de história e tem também 800 anos de dificuldades. Também a nossa ciência tem uma história de dificuldades que me interessa conhecer. Desde quando há cá ciência? Será que há cá ciência desde que há ciência no mundo? A ciência moderna começa com Galileu, comemoram-se agora os 400 anos da publicação de O Mensageiro das Estrelas, em que ele anuncia a descoberta dos primeiros satélites de Júpiter. Chamou-lhes estrelas de Medici, que era o nome do patrão (é sempre bom dar o nome do patrão!). Na época dos Descobrimentos, que foi um pouco antes, Portugal era um país rico, não só em bens materiais, como em bens imateriais, em conhecimento. A nossa história nesse período devia ser mais conhecida. Portugal foi então um entreposto de ciência. As descobertas marítimas só foram possíveis com a ajuda da ciência e da tecnologia.

P- E depois o que aconteceu?

R- Precisamente. Onde é que a nossa ciência, tendo esse começo tão auspicioso, se perdeu? Por que fomos outrora grandes e deixámos de o ser? É um tema que me interessa e que procurarei expor num livrinho que se intitula Breve História da Ciência em Portugal. Por incrível que pareça não há no nosso país nenhuma obra do género. Sobre a decadência, há aquela frase do poeta Carlos Queiroz: «Só fazemos bem Torres de Belém.» Fernando Pessoa também disse algo parecido: «Pertenço àquele género de portugueses que depois de a Índia descoberta ficaram sem trabalho». Somos, portanto, os desempregados dos Descobrimentos. A ciência de algum modo desapareceu quando regressámos da Índia. A nossa história nesta matéria, como noutras, está cheia de avanços e recuos. Por um lado, sempre tivemos pessoas com valor, por outro lado convivemos mal com o valor dessas pessoas. Hoje, penso que há razões para se ser optimista a respeito do futuro da ciência: um jovem cientista pode fazer ciência em Portugal como em qualquer outro sítio do mundo. Espero, por isso, que a história que se escreva daqui por muitos anos seja bem melhor. A história até agora tem alguns sucessos, mas ficámos a dever muito à ciência e é bom que paguemos essa dívida.

P- A história é uma das suas paixões?

R- De algum modo sim, cada vez mais, porque estou aqui na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que é uma arca de tesouros, um rico legado da história, um sítio onde se preserva a memória. Os livros, os documentos, estão à mão de semear e é uma tentação à qual não consigo resistir a de ver originais com séculos de idade. Não o faço sem uma certa comoção. Por exemplo, falava dos Descobrimentos, temos aqui um dos livros de D. João de Castro e quando o abrimos é como se fizéssemos uma viagem no tempo. Esta Universidade tem tesouros inigualáveis como este.

P- Como foi passar do Centro de Física Computacional, onde trabalhava no maior computador português e com as mais modernas tecnologias, para uma biblioteca quinhentista?

R- O novo e o velho não são incompatíveis. Aliás, as novas tecnologias estão a melhorar as bibliotecas. Tornando-as digitais, abre-as ao mundo, torna-as universalmente acessíveis. Esse tem sido o meu trabalho aqui: casar o novo com o velho. O novo aliás ajuda a preservar o velho: uma vez digitalizados, os documentos escusam de ser tão manipulados. Aqui na Universidade de Coimbra estamos a desenvolver o projecto de uma biblioteca digital e temos já cerca de cinco mil livros e documentos antigos nesse formato. Queremos que a Universidade seja uma antena para o mundo.

P- Este futuro dos livros e das bibliotecas numa plataforma digital pode levar a que as bibliotecas passem a ser uma espécie de museu, com o acesso aos seus conteúdos a ser feito de forma virtual?

R- Esse movimento é imparável, os livros tendem a estar todos online, acessíveis por computador, por telemóvel, etc. A nossa biblioteca, por exemplo, fez um acordo com o Google, que põe os livros que aqui editámos à disposição de todos. Isso é bom, facilita a vida aos leitores. Mas a questão que põe é muito interessante: será que as bibliotecas se vão transformar em museus? Bom, a palavra museu tem aqui uma carga pejorativa que não devia ter. Questiona-se também a continuidade do livro como objecto físico...

P- Exacto.

R- O objecto livro parece-me insubstituível. De facto, na biblioteca de Alexandria não havia livros, havia rolos. A Hipátia guardava rolos, mas a certa altura apareceram livros. Este formato tem séculos de provas dadas, é como a roda, ainda não se inventou nada melhor para a substituir. Estou convencido de que os livros são eternos, assim como as bibliotecas. Não sei muito sobre o futuro, mas sei que as bibliotecas vão lá estar. A Biblioteca Joanina, que tem quase 300 anos, possui uma inscrição latina sobre a porta que diz: “Esta é a coroa que orna a testa da cidade”. Vai continuar a ornar.

P- Considera-se um guardião de livros?

R- Sim, faço as vezes de Hipátia, apesar de ela ser bem mais bonita. Há um relógio de luxo cuja publicidade é qualquer coisa como «nunca é verdadeiramente nosso», no sentido em que o possuímos apenas durante o tempo para o transmitir às próximas gerações. Com os livros antigos acontece a mesma coisa. O meu papel aqui é insignificante à escala do tempo, mas acrescenta algo à minha biografia. Quando me perguntarem o que fiz pela minha cidade, pelo meu país, pela minha civilização, poderei dizer: «guardei livros, se os têm é porque os guardei». O amor aos livros é para mim um leitmotiv. Vivo bem rodeado por eles. Devo ter caído num caldeirão de livros quando era pequenino... John Ruskin, autor inglês do século XIX, dizia que, quando queremos falar com alguém poderoso, esbarramos sempre com as maiores dificuldades, temos de esperar e por vezes fazemo-lo em vão. No entanto, os livros, escritos pelos maiores autores, pessoas mais importantes do que reis, estão nas bibliotecas à nossa espera e é imediato sermos recebidos.

P- Voltando à ciência, de onde na verdade nunca saímos, foi divertido escrever a Física Divertida e a Nova Física Divertida?

R- Sim. A Física trata do conhecimento do Universo e conhecer é divertido. O que fiz foi mostrar, contando histórias, como chegámos ao conhecimento do mundo físico. No liceu, tive uma certa reacção à ciência pelo facto de ela me aparecer já feita, pronta a servir, era só comer. Mas depois, através de leituras que fiz, descobri, com prazer, que a ciência era feita por homens e mulheres que tinham histórias, que eram filhos de alguém e tinham eles próprios filhos, e só não viam telenovelas porque na altura não existiam.

P- Está a querer dizer que os cientistas são pessoas normais?

R- [Ri] Só são extraordinárias no facto de acharem divertido saber mais. O prazer de saber foi a mola que me empurrou para a ciência. O que é isso do átomo, o que há no coração das coisas? E o que é o Universo, como foi o seu início, como será no fim? São perguntas que toda a gente pode fazer e às quais alguns procuram as respostas. É isso que fazem os cientistas, sendo sua obrigação transmitir as respostas. A ciência consiste em acrescentar alguma coisa àquilo que já se sabe. Newton disse, numa imagem muito bonita, que se conseguiu ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes. Ou seja, sabemos hoje mais porque alguém antes de nós o soube e no-lo transmitiu. Essa grande aventura do conhecimento continua. E quem não se interessa por ela estão a perder uma importante parte da experiência que é estar no mundo.

P- Aquela ideia de que os cientistas estão sempre à procura do erro para o corrigir é interessante. É isso que define um cientista?

R- Sim, de certo modo. Não há muitas profissões em que uma pessoa ande à procura dos erros, seus ou de outros. Reconhecer que errou e emendar o erro é uma das marcas muito profundas da ciência. O pensamento crítico é inerente à ciência. Um cientista que comete um erro grave e não o reconhece deixa de ser cientista. Não há outra profissão em que o indivíduo que deliberadamente engane seja tão penalizado. Dizem-me por vezes e eu gosto de ouvir: «estás sempre a emendar, vê-se mesmo que és cientista». É sinal que tenho emenda...

P- Em ciência, o crivo do certo e do errado é muito apertado?

R- Alguém disse que é preciso ter a cabeça suficientemente aberta para entrarem coisas novas, mas não tão aberta que caiam os miolos. Há coisas que a dada altura parece absurdo deixar entrar, mas que os génios da Física deixaram entrar e hoje são ideias estabelecidas. O caso de Einstein, por exemplo: dizer que a matéria e a energia estão relacionadas, ou que o espaço e o tempo estão ligados entre si pode parecer absurdo, mas é verdade, tanto quanto sabemos. Já passaram mais de cem anos, e o que Einstein disse não foi desmentido por esse verdadeiro crivo que é a realidade. A Natureza é que diz o que está certo e o que está errado.

P- Em ciência, a verdade é sempre temporária?

R- Sim e não há mal nenhum nisso. A verdade descobre-se por aproximações sucessivas. Mas pode ser perigoso afirmar isso assim sem mais porque há coisas que não serão modificadas. Por exemplo, quando lhe digo que o seu corpo é feito de células ou que vivemos num planeta que é a terceira pedra do sistema solar, pode estar certa de que nenhum cientista demonstrará o contrário.

P- Quem são os seus heróis?

R- Einstein com certeza: é alguém que conseguiu chegar à realidade só com o pensamento, uma coisa mesmo espantosa. Como é que pôde imaginar o vasto mundo dentro do cérebro? Em actos mentais que bem se podem dizer heróicos, concebeu modelos da realidade que a experiência veio confirmar. Entre nós, Rómulo de Carvalho foi alguém que me influenciou muito pelas leituras que fiz em jovem. Era o autor de livros – Ciência para Gente Nova – através dos quais percebíamos que a ciência era para nós. Escrevia de uma maneira tão clara que percebíamos tudo. Além disso, era polifacetado. Foi professor, historiador da ciência e da cultura, divulgador científico e poeta. Penso que tudo o que pudermos fazer em sua memória é pouco. Uma das coisas que fiz aqui em Coimbra foi o Centro de Ciência Viva Rómulo de Carvalho, um lugar moderno onde apetece estar para ler livros de ciência. Há livros de divulgação científica dele e de outros autores, livros para jovens e também para crianças. Sim, temos livros infantis de ciência na universidade, porque é de pequenino que se torce o destino.

Bibliografia escolar


Um professor de uma escola secundária portuguesa fez-me chegar esta verdadeira pérola: a bibliografia de um trabalho de Ciências Físico-Químicas feita por um aluno (mostra domínio das TIC, pois foi feito num computador e tudo!).

domingo, 14 de março de 2010

A questão não é só universitária


Texto de João Boavida sobre o Ensino Superior. Quando passaram dez anos sobre a Declaração de Bolonha, todos os contributos para a reflexão sobre o ensino superior são decerto bem vindos.

Num congresso sobre formação de professores no Ensino Superior, há anos, o reitor da Universidade Nova relatou um anterior e interessante diálogo. Com base num inquérito do Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior (CNAVES) sobre «o perfil sócio-económico dos estudantes», e de outros promovidos pela referida universidade, verificou-se que as Faculdades de Medicina, Direito e Economia recrutavam alunos de um nível sócio-económico, em média, superior ao dos outros. Penso que o panorama não terá mudado muito mas, mesmo que tenha mudado, para o caso não será relevante.

Numa reunião, e face a estes dados, um professor de uma outra Faculdade, afirmou, lamentando-se: «nós não estamos muito bem colocados». Ou seja, os alunos médios da sua Faculdade partiam com algum atraso na corrida, sendo para eles, portanto, difícil recuperar. Mas Sousa Lobo, o reitor, respondeu: «Não, eu acho que é exactamente ao contrário. Se a sociedade portuguesa se está a abrir, no acesso ao ensino superior, as Universidades públicas têm um desafio particular que é ensinar os estudantes e compensá-los nos aspectos em que o ambiente cultural familiar os possa ter preparado menos bem para a cultura universitária».

É claro que a razão cabe a ambos. Ter alunos de nível sociocultural elevado é, em princípio, muito melhor porque prepara o terreno do êxito, sendo superiores as hipóteses de sucesso Mas quantos mais alunos entrarem na Universidade mais diversificado será o seu nível sociocultural.

Esta é a situação que hoje temos e que constitui um dos grandes desafios das instituições universitárias: como conciliar a necessidade de manter o ensino superior em bom nível e a integração de estudantes que não possuem os requisitos culturais necessários?

A questão não é só universitária, é de todos nós, até porque muita coisa se mistura. Tendo partido com grande atraso na ampliação do ensino superior, estamos a fazer, em pouco tempo, o que outros fizeram mais lentamente. E isso paga-se.
João Boavida

Um lugar impossível

Tem sido notícia o suicídio de um aluno de doze anos e de um professor de cinquenta e um. É o tipo de notícia que esperaríamos que viesse de fora e não de dentro deste país, que temos por pacato.

A razão apontada é a violência a que tanto um como outro estariam sujeitos nas suas escolas.

Não posso, obviamente, afirmar que essa tenha sido a razão determinante, mas também não ficarei admirada se se vier a concluir nesse sentido.

Digo que não ficarei admirada porque, desde há muito tempo, admitia que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de tragédias começassem a acontecer. Na verdade, estando frequentemente em contacto com escolas, não posso deixar de perceber os sinais evidentes do problema global, enorme, assustador que envolve toda a educação formal, desde o ensino básico até ao superior.

Eu diria que o primeiro aspecto desse problema, que dita todos os outros, é de cariz filosófico, e tem a ver com os fins da educação, aqueles que uma sociedade elege como os melhores para preparar as novas gerações, e que se traduz numa pergunta tão simples como esta: para que vão as crianças e jovens à escola?

Os discursos, sabe-se, dão respostas variáveis, mas, no seu conjunto, fazem passar a ideia de que as crianças e jovens vão à escola, não para adquirirem conhecimentos nem para desenvolverem a inteligência, mas sim para, autonomamente, aperfeiçoarem competências (das quais, numa certa gíria pseudo-pedagógica, não se esclarece o significado nem o sentido). E é para as competências sociais que se tende, com o argumento de que isso lhes proporcionará a integração em contextos vários.

Trata-se de um aspecto que não podemos desligar das contingências políticas e sociais, pois são as primeiras que o acolhem e legitimam, e as segundas que lhe dão força. Por exemplo, a pressão para se produzirem rapida e eficazmente diplomas, independentemente do valor que tenham, não sendo aplaudida por todos, é tolerada por muitos.

Deste aspecto não podemos excluir também o pensamento epistemológico dominante, no qual todo e qualquer saber disciplinar e axiológico se relativiza, se subjectiviza e, portanto, se faz equivaler, não havendo outra possibilidade a não ser tomar cada sujeito como o referencial das e para as suas próprias aprendizagens, que se afirma terem de decorrer dos seus interesses e necessidades e de serem significativas, em função da sua individualidade.

Este quadro traça as opções curriculares que se tomam ao nível do ministério e de cada escola: os conteúdos (que tendem a chamar-se temáticas) são aligeirados, tornados práticos, com ligação à realidade concreta dos alunos; os objectivos (que tendem a chamar-se competências) são vagos, circulares, devendo ser sempre negociados ao nível de turma, de escola, de comunidade; os métodos (que tendem a chamar-se experiências de aprendizagem) são os da resolução de problemas com recurso à pesquisa que permita a descoberta e a construção do conhecimento pelo próprio aprendiz; a avaliação, que deverá ser holística, compreensiva, dará conta do evoluir do aluno, nunca assentado no teste de factos e procedidementos armazenados na memória.

De tudo isto deriva o papel activo, sempre activo (em que sentido!?), do aluno, pois trata-se de alguém emancipado, que sabe o que quer aprender e determinar os caminhos para o conseguir, chegando, nessa medida, a opções e opiniões que têm de ser respeitadas. Correlativamente, o papel do professor, é o de (mero) animador, acompanhante... e sempre com dinamismo, jovialidade e cara alegre...

São estes os ingredientes (todos patentes em inúmeros documentos que por aí circulam, sem grandes sobressaltos) que tornaram a escola num lugar impossível, tanto para alunos como para professores.

sábado, 13 de março de 2010

POPPER SOBRE O ERRO


Excerto do livro "Em busca de um mundo melhor" de Karl Popper (Fragmentos,1989):

"(...) Proponho, pois, uma nova ética profissional, sobretudo, mas não só, para os cientistas da natureza. proponho que ela assente nos doze princípios a seguir enunciados (...)

1. O nosso saber conjectural objectivo vai sempre mais além daquilo que um indivíduo consegue dominar. não existem pois autoridades. Isto é igualmente válido no que se refere a especializações.

2. É impossível evitar todos os erros ou sequer todos os erros em si mesmo evitáveis. são constantemente cometidos erros por todos os cientistas. a antiga noção de que é possível evitar o erro, e que portanto é obrigatório evitá-lo, deve ser revista: ela própria está errada.

3. Naturalmente que continua a ser nossa tarefa evitar, sempre que possível, os erros, mas precisamente para os evitar, temos de compreender antes de mais, muito claramente, como é difícil evitá-los e que ninguém o consegue, inteiramente, não o conseguem também os cientistas criativos, que se deixam guiar pela sua intuição: a
intuição também nos pode induzir em erro.

4. Mesmo as teorias mais bem confirmadas podem ocultar erros; cabe especialmente ao cientista procurar esses erros. a constatação de que uma teoria bem comprovada ou de que um processo de ampla aplicação prática enfermam de erro pode constituir uma descoberta importante.

5. Há, pois, que modificar a nossa atitude face aos nossos erros. É aqui que deve começar a nossa reforma ético-prática. Pois que a antiga atitude ético-profissional leva a que se dissimulem, a que se encubram os erros e a esquecê-los tão rapidamente quanto possível.

6. O novo princípio básico é o de que para aprendermos a evitar tanto quanto possível os erros, temos que aprender precisamente com eles. Encobrir os erros constitui, pois, o mais grave pecado intelectual.

7. Devemos, por conseguinte, procurar constantemente os nossos erros. Quando os detectarmos, há que gravá-los na memória, analisá-los sob todos os ângulos, para irmos até ao fundo.

8. A atitude autocrítica e a sinceridade são, por consequência, um dever.

9. Já que devemos aprender através dos erros que cometemos, devemos igualmente aprender a aceitar, ou melhor, a agradecer que os outros nos alertem para esses erros. se chamamos a atenção dos outros para os erros que cometem, teremos que ter sempre presente o facto de nós próprios cometermos os mesmos erros. E convém não esquecer que os maiores cientistas os cometeram. não pretendo certamente dizer com isto que os nossos erros são, em regra, desculpáveis. o que não podemos é negligenciar a nossa vigilância. Não obstante, é humanamente inevitável continuar a cometer erros.

10. Temos que compreender claramente que precisamos dos outros (e os outros de nós) para descobrirmos e corrigirmos os erros, e, em particular, precisamos daqueles que tenham crescido não só com ideias diferentes mas em ambientes distintos. O que também implica tolerância.

11. Convém que saibamos que a autocrítica é a melhor crítica, mas que a crítica através dos outros é uma necessidade. É praticamente tão útil quanto a autocrítica.

12. A crítica racional deve ser sempre específica - deve indicar as razões específicas por que determinadas afirmações, ou determinadas hipóteses parecem ser falsas e determinados argumentos não parecem ser válidos. a crítica racional deve ser norteada pela ideia de uma aproximação à verdade objectiva. neste sentido, deve ser impessoal.

Peço-lhes que considerem as formulações que acabo de apresentar como simples propostas. elas pretendem mostrar que, mesmo no domínio da ética, se podem fazer propostas discutíveis e susceptíveis de aperfeiçoamento."

Karl Popper

SEMANA DO CÉREBRO


Assinalando a Semana do Cérebro e com organização da Sociedade Portuguesa de Neurociências, amanhã domingo, pelas 12 horas, inaugura no Centro Comercial Dolce Vita em Coimbra a exposição "Do Espaço e do Tempo" de Mário Cabrita Reis, que esteve antes na Universidade Nova de Lisboa e que depois seguirá para o Porto.

CARNICEIROS E SANTOS


Destacamos de entre as recensões de livros do "New York Times" desta semana "Butchers and Saints" de Eric Ormsby do recente livro:

HOLY WARRIORS A Modern History of the Crusades
By Jonathan Phillips
Illustrated. 434 pp. Random House. $30

Um excerto da crítica:
The villains of history seem relatively easy to understand; however awful their deeds, their motives remain recognizable. But the good guys, those their contemporaries saw as heroes or saints, often puzzle and appall. They did the cruelest things for the loftiest of motives; they sang hymns as they waded through blood. Nowhere, perhaps, is this contradiction more apparent than in the history of the Crusades. When the victorious knights of the First Crusade finally stood in Jerusalem, on July 15, 1099, they were, in the words of the chronicler William of Tyre, “dripping with blood from head to foot.” They had massacred the populace. But in the same breath, William praised the “pious devotion . . . with which the pilgrims drew near to the holy places, the exultation of heart and happiness of spirit with which they kissed the memorials of the Lord’s sojourn on earth.”
Para mais ler aqui.

TELEMÓVEIS E IGNORÂNCIA


Como é habitual aos fins de semana, destacamos um dos posts do físico Bob Park, que mantém há muitos anos a coluna electrónica "What's New" onde combate a pseudo-ciência, a fraude e a ignorância.

CELL PHONES: THE MAINE PROBLEM IS SCIENTIFIC IGNORANCE.

The use of cell phones has become ubiquitous in modern society. There is also a lot of brain cancer. This has led to a lot of people to suggest that the two are connected, and the state of Maine is considering legislation that would require cell phone manufacturers to print a warning on the product. But has the incidence of brain cancer increased at anything like the numbers of cell phones. It is a troubling issue for most physicists who recognize that cell phones almost certainly can’t cause cancer. All known cancer agents act by breaking chemical bonds in DNA, creating mutant strands that may multiply to become cancers. Microwave photons are orders of magnitude short of being able to break chemical bonds. The Federal Communications Commission, the Food and Drug Administration and the American Cancer Society recognize this, but for most Americans the words “quantum mechanics” are simply an announcement that you won't understand what follows. Even a very bright high school student probably won't have any idea what you're talking about.

Robert Park

HUMOR: Iogurtes com probióticos reduzem encarceramento em acidentes de viação


Os iogurtes com probióticos são a nova esperança na emergência médica e cuidados intensivos. Os Lactobacillus e Bifidobacterium têm uma acção preventiva, reduzindo a taxa de encarceramento em acidentes de viação, isto porque os ocupantes das viaturas estão sentados na sanita de uma estação de serviço a contraírem uma micose em vez de estarem na estrada a ter acidentes. Também têm uma acção benéfica ao nível do politraumatismo, desde que os ocupantes viajem envoltos numa barreira de iogurtes, que absorvem parte do impacto do choque. Aumentam ainda a taxa de sobrevivência nos cuidados intensivos, uma vez que depois do paciente falecer os Lactobacillus e Bifidobacterium ainda continuarão vivos nos seus intestinos por mais algum tempo.

David Marçal, no Inimigo Público

sexta-feira, 12 de março de 2010

HUMOR: Asteróide de grandes dimensões provoca a extinção da classe média


Investigadores do Banco de Portugal, OCDE, agências de rating e FMI anunciaram que um asteróide com cerca de 10 quilómetros de diâmetro vai atingir a classe média a uma velocidade de 20 quilómetros por segundo. O PEC é igualzinho ao asteróide que provocou a extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos. O impacto irá originar uma cratera de grandes dimensões no poder de compra, sendo lançadas para atmosfera toneladas de impostos e taxas que vão escurecer o céu e sufocar a economia. Uma série de terramotos em cadeia irão fazer ruir milhares de pequenas e médias empresas, acumulando-se uma grande quantidade de destroços nos centros de emprego. Mas segundo o paleontólogo amador Teixeira dos Santos há esperança: "tal como a extinção dos dinossauros abriu a oportunidade para a expansão dos mamíferos, o fim da classe média irá possibilitar a proliferação de novas espécies, como os pobres e desempregados".
David Marçal, no Inimigo Público

TRÊS ANOS E QUATRO MIL POSTS

Passaram há pouco (a 7 de Março) três anos sobre o aparecimento do De Rerum Natura. O primeiro post, para quem já não se lembra, foi este. Queremos hoje reafirmar os nossos propósitos iniciais, agradecendo a todos os nossos leitores que, com mais ou menos frequência, nos têm acompanhado. Bem hajam!

Feliz coincidência: este é o post numero 4000, o que significa uma média de cerca de quatro posts por dia.

NÃO ERRAR É HUMANO


Minha crónica no "Público" de hoje:

Um condutor morreu porque ia a passar no sítio errado (ao quilómetro 59,4 da auto-estrada A4, perto de Amarante) à hora errada (às 20h 25m do dia 10 de Março). Oito operários sobreviveram, apesar de feridos, ao desabamento do viaduto que estavam a construir. A probabilidade de um acidente desses acontecer era baixíssima. Devia até ser zero, pois nas obras de engenharia como esta os erros são simplesmente intoleráveis.

Podia ser qualquer um de nós que ia a passar. E somos nós que, de uma maneira ou de outra, vamos pagar o que se passou. De modo que é legítimo interrogarmo-nos: Porque é que, entre nós, há mais erros do que devia haver? A resposta é simples: por não termos suficientemente interiorizada a cultura do erro, isto é, por, nas nossas profissões, nas nossas vidas, não fazermos do erro um inimigo a quem recusamos tréguas. Não prevenimos os erros. Não castigamos quem erra. E, pior, não aprendemos com o que se passou de errado.

O processo de averiguar quem vai casar com a culpa, no caso de Amarante, já começou, mas infelizmente estamos habituados a que ela morra solteira. Um caso semelhante de queda de um viaduto da A15, nas Caldas da Rainha, ocorrido em 2001, no qual morreram quatro trabalhadores, demorou oito anos até ser julgado em tribunal. Em 2003, um viaduto para passagem pedonal desabou sobre o IC19, em Queluz, escassas horas após terem sido concluídas obras de reparação, fazendo, como que por milagre, apenas quatro feridos. Todos nos lembramos do alarido causado por esses graves acidentes. Mas alguém sabe qual foi a causa dos erros e quem errou? Não podemos remediar o passado, mas devíamos ter aprendido com o que se passou.

O austríaco, naturalizado britânico, Karl Popper analisou, do ponto de vista filosófico, a questão do erro. E ensinou-nos que, para evitar o erro, é preciso a auto-crítica, é preciso a crítica dos outros e é preciso aceitação (mais até: agradecimento) da crítica dos outros. Quando isso não se faz, acontece o encobrimento, individual ou colectivo, do erro. E esse encobrimento, como está à vista, é a via aberta para a próxima catástrofe.

O que é o erro? Como identificá-lo para melhor o prevenir? No presente contexto, trata-se de um desvio em relação a uma norma estabelecida, que se destina a alcançar um certo objectivo, tendo por base os factos conhecidos. A força da gravidade puxa para baixo a massa de ferro e betão dos viadutos em construção, mas existem planos e procedimentos bem estudados pela ciência e pela engenharia e repetidamente comprovados de modo a evitar que tal aconteça. Deve aprender-se com o que se fez e também com o que não se fez. Se existisse cultura do erro, os casos que, em Portugal, correram mal deveriam ter servido de lição às empresas de obras públicas e às instituições que gerem essas obras de modo a torná-los irrepetíveis.

O recente desastre da Madeira é a este respeito muito ilustrativo. Ocorreram, evidentemente, condições meteorológicas extremas. As antigas apólices de seguro falavam dos “actos de Deus” para não cobrirem essas situações. Contudo, houve decerto maus planeamentos e más construções, antigas e recentes, que, combinadas com as más condições, originaram o desastre. Este tinha aliás sido anunciado por alguém que tinha a cultura do erro. É, por isso, patético ouvir o Presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, dizer que só caíram as obras dos outros e não as suas, ao mesmo tempo que insultava os seus críticos lançando-lhes os epítetos de “canalhas” e “intelectuais”. Tão habituados estamos às patetices, há tantos anos vindas do Funchal, que já ninguém é capaz de reagir.

Voltando a Popper, que Jardim não leu: “Devemos lutar permanentemente contra o erro(…) mas não podemos nunca ter a certeza de que, mesmo assim, não cometemos erros.” Pode ser que o erro seja inevitável, mas, por isso, devia também ser igualmente obrigatória a humana tentativa de o evitar. Já sabemos que errar é humano. Mas o provérbio podia bem ser outro: Não errar é humano.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Semana Polar Internacional

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

16 a 19 de Março
Entrada gratuita

A Semana Polar Internacional, coordenada pela International Programme Office do Ano Polar Internacional, é uma oportunidade de promover e apresentar os primeiros resultados obtidos durante o Ano Polar Internacional 2007-2009. Esta iniciativa internacional, que reúne investigadores, educadores, jovens cientistas e alunos, decorrerá entre 15 e 19 Março 2010 e conta com a participação do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

Promover a investigação científica desenvolvida por investigadores polares junto das gerações mais novas, evidenciar o papel dos jovens cientistas polares portugueses na ciência polar, dar a conhecer o seu trabalho científico realizado durante o Ano Polar Internacional e mostrar a importância das regiões polares para compreender os efeitos das alterações climáticas e sobre a biodiversidade são os principais objectivos desta iniciativa.

16 A 19 DE MARÇO
10h00-18h00: Projecção de filmes sobre ciência polar
Mais a Sul (2007)
Terra Australis (2007)
Diário de Bordo (2007/2008)
Permafrost, Ciência Polar a 62ºS (2009)

19 DE MARÇO
12h00-13h00: Jovens investigadores polares portugueses conversam com alunos do ensino básico e secundário.

As escolas devem efectuar marcação prévia.

Cérebro e Arte

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

Semana Internacional do Cérebro

16 a 19 de Março 2010

Actividades hands-on
Gratuito Marcação prévia

Durante a Semana do Cérebro, o Centro de Neurociências e Biologia Celular, em colaboração com o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, apresenta um conjunto de actividades dirigidas aos alunos do pré-escolar e do 1º ciclo. As escolas que passarem pelo museu têm oportunidade de melhor compreender o cérebro através de jogos e algumas experiências realizadas por uma equipa de neurocientistas do CNC que revelará aspectos muito curiosos sobre o nosso cérebro!

O teu cérebro é fantástico! As diversas regiões do cérebro são responsáveis pelo controle da visão, da audição, do olfacto, do paladar, dos movimentos automáticos e das emoções, entre outras. Com ele, podes controlar os teus movimentos, saber se tens sono, fome ou sede.

Através dos cinco sentidos, serás capaz de identificar diferentes objectos e sensações?

Porque a Terra Treme (1)


Nova crónica de António Piedade saída no Despertar:

Terramotos ou maremotos nunca vêm a propósito. Mas, perante a impotência humana para fazer face às mais recentes e violentas movimentações das camadas superficiais da crosta do nosso planeta, reacende-se o apelo mais genuíno à habilidade humana em compreender a natureza deste fenómenos devastadores. Apesar da aparente fragilidade dos actuais modelos geológicos em prever, com uma antecedência humanamente útil, as movimentações da crosta terrestre, a acumulação de informação que resulta da observação e registo dessas mesmas movimentações validam o conhecimento e permitem corrigir e ajustar os modelos.

Por exemplo, a observação e análise do grande terramoto que em 1906 flagelou São Francisco (Estados Unidos da América) permitiu ao geofísico norte-americano Harry Fielding Reid propor, faz agora 100 anos, uma teoria para explicar a causa dos terramotos. Segundo o modelo nela incluso, os terramotos resultariam do movimento relativo de uma falha ou fractura na crosta do planeta, contra ou sobre um outra falha. As teorias anteriores invertiam a relação causa – efeito e postulavam, de acordo com o senso comum, que seriam os terramotos que originavam as falhas.

Também nesse mesmo ano de 1910, Frank B. Taylor propôs, por intuição, a movimentação dos continentes na litosfera terrestre (a camada exterior do planeta composta por rochas no estado sólido) e que uma região menos profunda no atlântico (hoje identificada como a dorsal meso-atlântica) seria o resquício da separação dos continentes africano e sul-americano. Esta proposta seria mais tarde incorporada na teoria mais ampla da deriva continental. Esta, proposta pelo meteorologista alemão Alfred Lothar Wegener em 1912, sugeria a partir de dados provenientes de várias disciplinas científicas, que os continentes actuais teriam divergido, quais jangadas, a partir de um continente único e primevo, designado por Pangea (do grego: todas as terras).

A confirmação destas teorias ocorreria décadas depois e, principalmente, devido à instrumentação de observação, detecção e análise derivadas de tecnologia militar desenvolvida para as grandes guerras, de que o sonar é um bom exemplo. Isto permitiu um acumular de conhecimento geológico sem precedentes. Foi assim confirmada não só a deriva continental, assim como identificada a expansão dos fundos oceânicos (por Hess, em 1962). Assim, inúmeras observações da dinâmica da litosfera levaram à incorporação das interpretações sísmicas anteriores na teoria designada por tectónica de placas. A formulação desta teoria, através dos contributos complementares e multidisciplinares de Wilson, (1966), McKenzie e Parker (1967), Morgan (1968) e Le Pichon (1968) durante a década de 60 do século XX, proporcionou uma abordagem interdisciplinar no estudo da Terra, confluindo o conhecimento fornecido por diversas ciências como a sismologia, a paleontologia, a petrografia, a física dos materiais, entre outras.

(Continua)

António Piedade

Legenda da figura:
Actividade sísmica registada durante o sismo de 27/02/2010 no Chile.

quarta-feira, 10 de março de 2010

As artes maquiavélicas

Texto de João Boavida, na sequência de um outro, intitulado As fracturas morais.

Sobre as “fracturas morais” é bom não concluir logo que elas resultam das perfídias modernas, embora também seja. Nós até podemos dizer que a antiga moralidade assentava em bases claras, e que a nova é mais confusa. É assim, mas só em parte. O mesmo se pode dizer de outras “variáveis” do nosso tempo. A verdade, por exemplo. Poderemos pensar que ela era um conceito simples e claro e que facilmente sabíamos quem falava verdade ou quem mentia, quem merecia confiança e quem não era de fiar. Era deste modo, pelo menos, na infância, quando se tratava de saber quem ratara no pudim; o mundo parecia então dividir-se ao meio, quando apanhados nalguma, caindo-nos a culpa em cima com todo o peso. Depois, com o crescer da idade e do conhecimento as coisas complicaram-se.
Nesta questão começa-se sempre pelos sofistas, ou a arte de argumentar a favor ou contra uma tese, hoje, e contra ou a favor do oposto amanhã. E da verdade ser conforme o ponto de vista, o dia e a hora. E, claro, de acordo com quem lhes pagava. Mas veio Sócrates, no século V antes de Cristo, e pôs as coisas no seu lugar com uma descoberta determinante para o futuro da filosofia e da cultura ocidentais. E o que é que descobriu Sócrates? Percebeu o que era uma ideia e como funcionava, compreendeu que a sua natureza era abstracta e a verdade dela universal. Só assim era possível o entendimento entre as pessoas, porque não dependia das impressões de cada um. Há coisas que todos sabemos o que são e outras que dependem dos pontos de vista e dos sentimentos. Uma coisa é a opinião, cada um tem a sua, outra os conhecimentos seguros que valem para todos.

O nosso grande problema é que quase tudo hoje funciona com base na opinião, que confundimos com a certeza, e a nossa verdade com a verdade mesma e toda, nua e crua. E, pior ainda, misturamos "direito à opinião" com opinião sem direito, isto é, ignorante, criamos uma prodigiosa nuvem de perdigotos morais, meias verdades, meias mentiras, meias tintas, invencionices, malandrices, tolices, que se cruzam, chocam, sobrepõem e substituem constantemente tornando quase impossível encontrar a verdade.

Entretanto, para complicar, desde 1532 que Nicolau Maquiavel ensina os políticos a serem modernos. Não veio ensinar o padre-nosso aos curas, porque estes já o sabiam, mas veio dar-lhes uma legitimidade que passa por cima da moral, criando, digamos, uma nova dimensão para a verdade. E é assim que temos outra vez Sócrates em cena. E uma multidão com ele, de cá e de lá, por todos os lados, porque a verdade tem uma razão política à parte. Ou a política tem uma razão moral que a moral não entende, mas que é muito forte, e sempre foi. O pior, porém, é que, com a liberdade e a massificação, aquilo que na Renascença era arte para príncipes passou a ser usado por muitos outros poderes, pequenos e grandes. Por alguma razão se diz que o poder corrompe. Talvez, mas é verdade para a política em sentido restrito e em sentido lato. Mais uma vez Portugal é um bom teatro com profissionais e amadores de todas as escolas e companhias; em suma, demasiados actores a fazer o papel do político e a usar, sem limites, as artes maquiavélicas.

O SEGREDO DO CILINDRO


Como várias pessoas me têm perguntado porque é que o cilindro quem mostrei não cai no plano inclinado, venho dizer algo que seria desnecessário dizer: não há qualquer violação das leis da física!

O cilindro do Museu de Ciência de Lisboa tem, de facto, um "truque": por fora é de madeira, mas não é uniforme no seu interior, tendo lá dentro chumbo numa posição que faz com que o seu centro de gravidade não coincida com o centro do cilindro. Na posição de equilíbrio, há compensação entre o momento da força da gravidade e o momento da força de contacto com o plano. Pode até acontecer, nesta paradoxal máquina, dependendo da situação inicial, que o cilindro suba o plano!

Veja-se aqui um modelo antigo semelhante conservado no famoso Museu de Ciência de Florença. Também no Museu de Ciência de Coimbra há dois cilindros antigos, um uniforme (de madeira) e outro não uniforme (de madeira e chumbo) e ainda um anel de madeira para ver o efeito da diferente localização do centro de massa e para ver também o diferente comportamento no plano inclinado.

ÚLTIMO PLANO INCLINADO


Já está disponível o vídeo do último programa "Plano Inclinado" da SIC Notícias no qual participei.

A formação da linguagem artística e a filosofia

Hoje, dia 10 de Março, às 16 horas, no Auditório 1 - Torre B da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, José Gil, professor catedrático do Departamento de Filosofia desse Faculdade dará a sua última aula, intitulada Formação da Linguagem Artística e a Filosofia.

Em entrevista, na rádio, ao princípio da manhã, disse que a docência lhe proporcionou múltiplas oportunidades de "pensar com...". São essas oportunidades, essência do ensino e da aprendizagem, que é preciso perguntar se estamos, de facto, a preservar. Sobre o assunto deixamos o extracto de um texto deste filósofo.

"Qualquer coisa vem imperceptivelmente acontecendo ao ensino da Filosofia no Secundário que é talvez mais preocupante do que se pode crer (...). Assim se apaga lentamente, sem barulho, uma disciplina (...).

Porquê este menosprezo pela Filosofia? Uma certa corrente de opinião considera-a inútil, improdutiva, um luxo dispensável. Numa sociedade pragmática (no mau sentido) em que o valor e a pertinência de uma actividade se medem cada vez mais pelo critério exclusivo da produtividade económica, a Filosofia aparece como a disciplina menos necessária, mais vã e mesmo, para alguns, nefasta, porque perturbadora do funcionamento controlado da "sociedade do conhecimento". Pois não é certo que nem conhecimento produz? Não são os filósofos os primeiros a afirmar que a filosofia não tem nem objecto nem finalidade precisas? Abaixo, pois, a Filosofia — a religião substitui-a plenamente e com proveito para a boa ordem social (...).

Sobre aqueles que desprezam o ensino da Filosofia por ser inútil, direi que mesmo do seu ponto de vista se enganam redondamente: por exemplo, sabe-se que o ensino da Filosofia para crianças abre extraordinariamente as competências dos alunos na aprendizagem das outras disciplinas. E, porque é inútil, a Filosofia alarga o conhecimento, estabelece pontes novas entre domínios científicos diferentes, proporcionando a criação de novos objectos e novas disciplinas. O trabalho do conceito é um trabalho de criação, e a Filosofia é, antes de mais, criação de pensamento. Daí as suas repercussões, da política ao design — atravessando toda a cultura, a arte e o conhecimento; assim como na ética e prática da democracia. Daí a sua importância (reconhecida em vários dossiês da UNESCO) para a educação da cidadania (...).

"Sem a música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Extrapolando: "Sem a Filosofia, a vida seria um erro."

O texto integral pode se lido
aqui.

EINSTEIN E O CINEMA 3



Na comédia romântica "I.Q." ("O Génio de Amor", em português europeu, no Brasil "A Teoria do Amor") de 1999 o norte-americano Shepisi, Albert Einstein (representado pelo actor Walter Mathau) faz de génio casamenteiro, que tenta com que sua sobrinha Catherine Boyd (Meg Ryan) , uma talentosa matemática, se apaixone pelo simpático mecânico Ed Walters (Tim Robbins). Em cima um pouquinho, via YouTube, da versão brasileira....

EINSTEIN E O CINEMA 2



No filme australiano de 1988, "Young Einstein", de Yahoo Serious, com um enredo absolutamente delirante (por exemplo, Einstein namora com Madame Curie), respigo o bocadinho em que o jovem consegue a cisão de um "átomo de cerveja" graças à famosa fórmula... O próprio realizador, que também escreveu o argumento, faz de principal actor.

terça-feira, 9 de março de 2010

EINSTEIN E O CINEMA 1


Vários filmes têm tomado a figura de Einstein como personagem ou, pelo menos, como inspiração para personagem.

Ainda em vida de Einstein, no tempo da guerra fria, um dos filmes com um personagem parecido com Einstein é "O Dia em que a Terra parou", filme de 1951 de Robert Wise: trata-se do professor Jacob Barnhardt, físico a trabalhar em Washington D.C., com quem um extraterrestre se encontra para expressar a sua viva preocupação com a corrida aos armamentos nucleares e a ameaça que ela representava para os extraterrestres. Quem faz de professor é o actor Bill Gray, já falecido (ver imagem).

No remake recente desse filme, filme de 2008 de Scott Derrickson, quem faz de professor é John Cleese, dos Monty Python (o vídeo está no mercado). Agora já não se trata da corrida aos armamentos, mas o extraterrestre pretende salvar a humanidade de si própria, atendendo às ameaças ambientais que pairam sobre o planeta.

ANUNCIANDO A CORRIDA AO ESPAÇO


No "New York Times" de hoje (secção de ciência) Dennis Overbye publicita um livro a sair em Maio com cartazes e anúncios espaciais do tempo da guerra fria. Uma amostra está em cima. Ler mais aqui.

“Another Science Fiction: Advertising the Space Race 1957-1962.” It is being published on May 25 by Blast Books.

O link no título do livro é para um artigo sobre a corrida ao espaço de John Noble Wilford, um jornalista que cobriu o programa Apollo.

BULLYING, Guerra na Escola

Informação recebida da Gradiva:

BULLYING, Guerra na Escola, de Nora Ethel Rodríguez

Uma onda de violência parece sacudir todos os dias, de maneira invisível e silenciosa, os colégios e escolas secundárias de grande parte da Europa e dos Estados Unidos, e Portugal não é excepção.

Que podemos fazer para melhor entendermos o que se passa?

O Bullying é um processo de abuso e intimidação sistemática de uma criança sobre outra (apoiada por um grupo), geralmente nas escolas, e cujas consequências podem ser devastadoras, se não forem travadas a tempo.

ESTE LIVRO É FUNDAMENTAL PARA PAIS E EDUCADORES PODEREM EVITAR SEQUELAS IRREVERSÍVEIS.

Com exemplos da vida real, a autora propõe diversas chaves da solução para o problema.

Uma edição Sinais de Fogo que pode ser adquirida aqui com 25% de desconto.

NOVO LIVRO DE MCEWAN

Informação recebida da Gradiva sobre o último livro do escritor inglês Ian McEwan (o enredo anda à volta de um Prémio Nobel da Física em células fotovoltaicas, sendo abordadas algumas das controversas questões das alterações climáticas):

Ian McEwan
Solar

EDIÇÃO SIMULTÂNEA NO REINO UNIDO E EM PORTUGAL

"O novo romance de um dos autores maiores da literatura contemporânea. Mais uma vez, a capacidade de Ian McEwan para surpreender o leitor. A mesma liberdade e originalidade no que se refere ao estilo, às soluções narrativas e ao enredo. O tema das alterações climáticas – também ele inesperado numa obra de ficção de grande qualidade literária – serve de pretexto para a exposição das fragilidades humanas, individuais e colectivas. Permeada de humor e diálogos magistrais, a narrativa prende de imediato o leitor, permitindo-lhe uma auto-aprendizagem da qual retirará grande prazer."

«Obras de Ian McEwan», nº 15, 340 pp., € 16,00

segunda-feira, 8 de março de 2010

"Não é que goste de traduzir"

Maria Helena da Rocha Pereira, um nome maior na área dos Estudos Clássicos, a primeira mulher a apresentar provas públicas de doutoramento e também a primeira catedrática da Universidade de Coimbra, recebeu mais um prémio que reconhece a sua obra. Trata-se do Prémio Vida Literária, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores.

A este propósito, reproduzimos excertos da interessantíssima entrevista que, há um ano, deu ao jornalista António Guerreiro e que foi publicada no jornal Expresso (Actual) (Fotografia de José Ventura).

A professora é em Portugal a representante mais ilustre de uma disciplina, os estudos clássicos, que era até ao final do século XIX, a disciplina mestra das Humanidades, mas é hoje um resíduo na formação universitária...
Na verdade, é uma disciplina que tem perdido muitos alunos (...) Quando na reforma de 1957 se introduziu a disciplina de História da Cultura Clássica, comum a todos os cursos de Letras, esta foi muito apreciada tanto na Universidade de Coimbra como na de Lisboa. Nessa época, os alunos tinham tido alguns anos de Latim, alguns tinham mesmo tido Grego. Eu, por exemplo, não tive Grego, só o aprendi na Faculdade. Os alunos dessa disciplina comum encontravam-se numa situação variada quanto ao conhecimento dos textos e à competência para os ler no original. Razão pela qual comecei logo a traduzir os textos fundamentais e a distribuí-los em folhas. Era o que se podia fazer na altura.

Não havia traduções portuguesas dos clássicos?
Havia muitas traduções, mas não eram traduções directas, eram pseudo-traduções, feitas de outras línguas. Hoje estamos mais bem servidos, nesse aspeto. Mas havia uma série de textos que os alunos tinham de conhecer para perceber as minhas aulas. Em 1959, publiquei a primeira edição da antologia "Hélade", tornando acessíveis os textos fundamentais da cultura grega. Depois, traduzi obras inteiras de vários autores, por exemplo A República, de Platão. Mas não é que goste de traduzir. Tenho passado a vida traduzir por necessidade. Aquilo de que gosto é do sabor do original, sinto sempre que estou a atraiçoar. O Teatro Universitário de Coimbra, no tempo de Paulo Quintela, pediu-me que eu traduzisse A Medeia, de Eurípedes. E também traduzi para eles a Antígona. Paulo Quintela fazia umas encenações maravilhosas, tinha resolvido muitobem a maneira de o coro se exprimir, algo muito difícil porque não podia ser através do canto, uma vez que não podemos reconstituir a música da Antiguidade. Era uma coisa maravilhosa ouvir os coros das tragédias gregas encenadas por ele.

Por qual dos três géneros canónicos, o épico, o lírico e o dramático, se sentiu mais atraída?
É difícil dizer. Há quem diga que eu gosto sobretudo da tragédia. Talvez seja verdade. Porque foi o fascínio pela Oresteia, de Ésquilo, um dos fatores que fizeram com que escolhesse o curso de Clássicas. Eu andava no Liceu, tinha 13 anos, e li uma excelente tradução francesa da Oresteia e fiquei maravilhada.

Entrou para a Faculdade sem saber Grego. Ao fim de quanto tempo estava em condições de ler e apreciar os textos?
No fim do curso conseguia ler os mais simples. Depois fui estudar para Oxford e um dos professores, ao saber que eu tinha apenas quatro anos de Grego, disse-me: "A Senhora é capaz de ler no original, à primeira vista, um texto seguido, mesmo de Píndaro e Ésquilo?". Eu respondi: "Desses autores, não".

Sentiu uma grande diferença (nos métodos, nos objetos de estudo) entre aquilo que tinham sido os seus estudos e aquilo que Oxford lhe proporcionou?
Lá, fui confrontada com uma diversidade de assuntos que estavam completamente ausentes dos estudos, em Portugal. Eu tinha o estatuto de "estudante reconhecida", não pertencente a nenhum College, mas já licenciada por aqui e tendo direito a um Diretor de Estudos, que foi o professor Dodds, autor de um famoso livro, Os Gregos e o Irracional. Lá aprendi Crítica Textual, Paleografia Grega, Epigrafia, enfim, tudo isso que me faltava. E estudei os vasos gregos, com o maior especialista da época, John Beazley.

Por cá, imperava a ideia de que o Latim e o Grego, enquanto "línguas mortas", deviam ser objeto de uma aprendizagem muito voltada para a gramática e para o exercício mecânico da tradução.
Sim, os textos eram meramente campos de exercício. Imperava aquele ditado: "Conjuga e declina, saberás a língua latina". Foi com essa visão asfixiante que eu quis acabar. É certo que essa aprendizagem implica um exercício de atenção e de destreza mental que têm de existir. Mas é muito pouco, em relação a toda a riqueza cultural e literária dos textos da Antiguidade. Por exemplo, assistir ao nascimento da ciência, nos Gregos, é uma coisa maravilhosa. Pouca gente sabe que o movimento da Terra à volta do Sol foi descoberto por um Grego, Aristarco de Samos. Mas isso causou a indignação de outros sábios. E depois Ptolomeu, que teve uma grande influência, negou esse movimento. E essa descoberta ficou congelada até ao Renascimento, até Copérnico.

A massa dos textos da Antiguidade que nos chegaram é apenas uma ínfima parte do que foi escrito. Como se sente o estudioso perante esta falta?
De um modo geral, chegaram-nos fragmentos ou citações feitas por outros. Mas vão ainda aparecer muitas coisas. Sabe-se que a erupção do Vesúvio, que destruiu Pompeia e Herculano, reduziu a cinzas a biblioteca de um filósofo. Tudo leva a crer que nessa biblioteca de papiros havia muitas obras dos filósofos gregos. Por enquanto não há meio de desenrolar esses papiros sem que eles não se desfaçam por completo. Pelo que os especialistas resolveram aguardar até que haja condições técnicas para os ler. E estão sempre a aparecer papiros. Muitos, no norte de África, porque o clima e o solo arenoso favorece a conservação. Outros, noutros lados.

A massa documental tem vindo a ser aumentada?
Pois tem, com descobertas constantes. Há autores cuja obra foi bastante ampliada.

Também trabalhou na edição de textos?
Sim. Do Latim, tenho a edição - a primeira que fiz - de textos de Pedro Hispano, para efeitos da história da Medicina. Durante muitos anos andei pelas bibliotecas da Europa atrás dos escritos de Pedro Hispano. Tanto quanto se sabe, não há nenhum desses escritos em Portugal. Foram livros
utilizadíssimos para o ensino, quer na Medicina quer na Filosofia.

Onde é que os encontrou?
A maior parte na Inglaterra, mas também em França e na Itália. E, surpreendentemente, uma vez fui à Polónia, com um grupo de historiadores de Medicina de vários países, e o diretor de uma biblioteca mostrou-nos algumaspreciosidades. Uma delas era a matrícula de Copérnico, que estudou em Cracóvia, e a outra era um manuscrito de Pedro Hispano que eu não conhecia. Mas voltando a meu trabalho filológico, a coisa mais importante que fiz foi a edição crítica de Pausânias, para a Biblioteca Teubneriana (uma coleção de edições críticas de textos gregos e latinos) para o qual fui convidada pela Academia das Ciências de Berlim.

As reformas do ensino secundário não têm sido muito favoráveis ao estudo do Latim e do Grego.
Pois não, e sempre que se tem proporcionado, tenho escrito sobre isso. Mas essas reformas também não têm sido muito saudáveis para o Português e para a Matemática. Há matérias que são fundamentais e têm que se aprender pelos caminhos próprios.

Neste momento há uma série de constrangimentos que tornam praticamente impossível estudar Latim e Grego no secundário.
Pois, e isso sem dúvida que atrofia os estudos clássicos na universidade. Pelo menos o latim devia ter outra presença no ensino secundário. É aceitável que um aluno vá para Direito sem saber Latim, se o Direito romano está na base do Direito europeu?

A
cultura grega e latina servem-lhe de mediação para observar o mundo contemporâneo?
Vejo sempre tudo através dessa mediação e vejo que há fenómenos que se repetem, características positivas e negativas dos tempos atuais que também existiram na Antiguidade. Uma coisa por exemplo é a República romana, a chamada Pax Romana, outra coisa é a decadência romana... e verificamos que algo se está a repetir, ao contrário da ideia dos historiadores de que a História não se repete: por exemplo, a perda dos padrões éticos, como no final do Império romano."


A entrevista completa pode ser lida aqui.

Nova História da Filosofia Ocidental

Informação recebida da Editora Gradiva.

NOVA HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL de Sir Anthony Kenny

Lançamentos em Abril, Junho, Setembro e Novembro (4 volumes) - Traduzida por especialistas da área sob a direcção do professor Aires Almeida.

«A primeira razão pela qual esta impressionante obra é um acontecimento editorial é que os leitores têm agora acesso a uma história da filosofia que apresenta os problemas, teorias e argumentos da área com aquela intensidade própria de quem os conhece por dentro, ao invés de os olhar de longe como artificialismos académicos ou escolares, descritos muitas vezes em linguagem pomposa e vazia. A segunda razão é que o conhecimento que temos hoje da história da filosofia é muito mais rigoroso e vasto do que o que tínhamos há trinta ou quarenta anos, e Sir Anthony está a par desses desenvolvimentos – tendo até sido protagonista de alguns deles. Não se trata por isso de mais uma história da filosofia que repete os lugares-comuns infelizmente endémicos nas zonas mais fracas da cultura escolar e académica.

Por estas razões, entre outras – incluindo a iconografia inovadora – esta brilhante história da filosofia é leitura obrigatória e entusiasmante para estudantes e professores de filosofia, assim como para qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais esta imensa tradição intelectual com dois mil e quinhentos anos de existência, e que novos desenvolvimentos continua a trazer-nos hoje. A Gradiva e a «Filosofia Aberta» continuam assim a prestar ao país um serviço cultural e educativo mais importante do que quaisquer míticas avaliações de professores.»

Desidério Murcho
, Universidade Federal de Ouro Preto

«Esta é uma obra que pouquíssimos se atreveriam a escrever. Sir Anthony Kenny, um dos mais reputados filósofos actuais, dedicou alguns anos a ler directamente os grandes filósofos e a acompanhar os debates por eles suscitados, daí resultando uma história da filosofia verdadeiramente filosófica, informativa e refrescante, onde não se encontram os lugares-comuns e as ideias feitas do costume.

Aliando o melhor rigor académico à clareza de exposição e à capacidade para envolver o leitor nas discussões filosóficas, esta obra revela-nos uma história de cerca de dois mil e quinhentos anos que, ao contrário do que tantas vezes parece, está longe de ser uma mera colecção de ideias de museu.

O autor não se limita a apresentar e explicar as ideias e teorias dos filósofos, inserindo-as de forma esclarecedora no seu contexto histórico e cultural. Isto constitui uma das duas partes em que cada um dos quatro volumes está dividido. A segunda parte é dedicada à elucidação, discussão e avaliação dos argumentos que sustentam essas ideias e teorias, adoptando-se aí um tratamento temático e estritamente filosófico. Assim, esta história da filosofia consegue ser útil tanto para quem está interessado numa abordagem mais histórica das ideias filosóficas como para quem está interessado numa discussão filosófica mais aprofundada.

Por isso se trata de uma obra única e imprescindível que, muito justamente, se está a tornar uma verdadeira referência na área.»

Aires Almeida
, Professor de Filosofia

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...