quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

ANGOLA E PORTUGAL

Uma das recordações mais antigas que tenho de miúdo é o refrão “Angola é nossa” que, nos idos de 60, passava na Emissora Nacional, acompanhado de uns rufos crescentes de tambor. A letra, cantada pelo coro da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, tinha trechos tão ridiculamente épicos como este: “Angola é nossa gritarei / É carne, é sangue da nossa grei / Sem hesitar, p'ra defender / É pelejar até vencer”.

Apesar da insistência da canção, a verdade é que nunca senti que Angola fosse minha. Estava pronto a dar a minha parte, a parte de Angola a que alegadamente teria direito, a quem fosse o seu legítimo proprietário. Devo ao 25 de Abril de 1974 o facto de, na juventude, me ter conseguido manter longe de Angola e, mais em geral, de todas as outras ex-colónias de África. Quando, aos 18 anos, ainda a Revolução estava em fraldas, tive de me apresentar em roupa interior nas inspecções militares, já não eram precisas tropas nem para Angola nem para os outros sítios africanos que antes eram “nossos” não só nas canções como nos compêndios de geografia (foi por estes que soube dos afluentes do rio Cunene e das estações da linha de caminho de ferro de Benguela). Tivesse o 25 de Abril surgido um pouco atrasado e lá teria tido a possibilidade de conhecer as enormes terras que, sobrepostas no mapa da Europa num conhecido cartaz do Estado Novo, faziam Portugal chegar até aos Urais. De nada me teria valido invocar o facto de, daltónico, não conseguir distinguir a cor vermelha do inimigo no meio do verde da paisagem...

Hoje, os tempos são outros. As ex-colónias são, felizmente, países independentes e, embora muito mais no papel do que na realidade, existe uma comunidade de países de língua portuguesa. As trocas comerciais são cada vez maiores. Vários empresários portugueses investem em Angola. E os empresários angolanos investem em Portugal. Leio nos jornais que Angola, principalmente pela pessoa de Isabel dos Santos (na foto), filha do seu Presidente, tem vindo a ganhar um protagonismo cada vez maior na nossa economia. A jovem empresária está na banca, está nas petrolíferas e, desde há pouco tempo, está também na televisão por cabo. Cada dia que passa sai a notícia de que comprou uma outra coisa qualquer. Bem sei que a economia passou a ser global e que, extinto o “socialismo real”, o capitalismo está em big bang em Angola, um dos países com maiores taxas de crescimento em todo o mundo. E sei ainda que o investimento estrangeiro, qualquer que ele seja, é, entre nós, muito cobiçado. Mas não deixarei de estranhar se um dia, a continuar ao mesmo ritmo o investimento entre nós da primogénita do Presidente angolano, se possa vir a dizer que “Portugal é dela”...

O capitalismo lá fará, por si próprio, o seu caminho. Julgo que pouco há a fazer a não ser a tão falada regulação. Mas talvez fosse uma ideia que a cultura também avançasse a par da economia, com a ajuda que fosse possível dar-lhe, uma vez que ela tem mais dificuldade em caminhar sozinha. Isto é, que Portugal e Angola pudessem cada vez mais ser um do outro no domínio da cultura, que tanto pode beneficiar do facto de haver uma língua comum. Apesar de todo a história e de todas as presentes transacções comerciais, os dois países permanecem em grande parte desconhecidos um do outro. Eu, por exemplo, quase só conheço Angola dos meus antigos manuais escolares, pois continuo sem lá ir. E como eu julgo que muitos portugueses. O correspondente se passará com muitos angolanos, que não conhecem Portugal. Não poderiam os grandes investidores, em particular Isabel dos Santos, colocar nas relações culturais e no conhecimento recíproco que elas sempre proporcionam uma fracção, ainda que pequena, do seu investimento? Não poderíamos todos nós investir aí?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

FIM DO ANO


Texto recebido de Fernando Correia de Oliveira a propósito do fim do ano:

Há cerca de 2400 anos, o mestre daoista Zhuangzi (庄子, 370-301 a.C.) contava aos seus discípulos a seguinte parábola:

"Certo homem vivia perturbado ao observar a própria sombra e as pegadas que deixava, que considerava grilhões à sua liberdade. Por isso, decidiu livrar-se delas. Começou a correr, mas sempre que colocava um pé no chão, lá aparecia uma nova pegada, enquanto a sombra o acompanhava sem a menor dificuldade, por maior que fosse a velocidade a que corria. Julgou que não estava a andar depressa o suficiente, pelo que aumentou a velocidade da corrida. Até que caiu por terra, morto.

O erro, concluiu Zhuangzi, foi o facto de ele não ter percebido que, se fosse para um lugar sombrio, a sua própria sombra desapareceria; e se tivesse ficado parado, as suas pegadas deixariam de aparecer.

Na realidade, há tempo para andar, e tempo para parar. Resta saber quando o devemos fazer. O que nem sempre é fácil.

Com votos de um 2010 à medida das suas expectativas, alguns dados que lhe poderão ser úteis:

ERAS CRONOLÓGICAS EM 2010*

Todas as datas são referidas ao calendário gregoriano

O dia 14 de Janeiro corresponde ao dia 1 de Janeiro do calendário juliano.

O ano 2010 da era vulgar, ou de Cristo, é o 10.º do século XXI e corresponde ao ano 6723 do período juliano, contendo os dias 2 455 198 a 2 455 561.

O ano 7519 da era bizantina começa no dia 14 de Setembro.

O ano 5771 da era israelita começa ao pôr-do-sol do dia 8 de Setembro.

O ano 4647 da era chinesa (ano do tigre) começa no dia 14 de Fevereiro.

O ano 2786 das Olimpíadas (ou 2º da 697ª), começa no dia 14 de Setembro, ao uso bizantino.

O ano 2763 da Fundação de Roma «ab urbe condita», segundo Varrão, começa no dia 14 de Janeiro.

O ano 2759 da era Nabonassar começa no dia 21 de Abril.

O ano 2670 da era japonesa, ou 22 do período Heisei (que se seguiu ao período Xô-Uá), começa no dia 1 de Janeiro.

O ano 2322 da era grega (ou dos Seleucidas) começa, segundo os usos actuais dos sírios, no dia 14 de Setembro ou no dia 14 de Outubro, conforme as seitas religiosas.

O ano 2048 da era de César (ou hispânica), usada em Portugal até 1422, começa no dia 14 de Janeiro.

O ano 1932 da era Saka, no calendário indiano reformado, começa no dia 22 de Março.

O ano 1727 da era de Diocleciano começa no dia 11 de Setembro.

O ano 1432 da era islâmica (ou Hégira) começa ao pôr-do-sol do dia 7 de Dezembro.

O ano 166 da era Bahá'í começa no dia 21 de Março.

ESTAÇÕES

A Primavera (Equinócio) começa a 20 de Março, às 17:32. O Verão (Solstício) começa a 21 de Junho, às 11:28. O Outono (Equinócio) começa a 23 de Setembro, às 03:09. O Inverno (Solstício) começa a 21 de Dezembro, às 23:38

ECLIPSES

Em 2010 há um eclipse anular e outro total do Sol, respectivamente a 15 de Janeiro e 11 de Julho, mas ambos os fenómenos não serão avistados de Portugal. Em 2010 haverá um eclipse parcial e outro total da Lua, respectivamente a 26 de Junho e 21 de Dezembro, mas apenas este último será avistado em Portugal.

*Com base nos dados do Observatório Astronómico de Lisboa e do Calendário Celebração do Tempo 2010 (edições Paulinas)".

Fernando Correia de Oliveira

Suponhamos que se trata de "vacalixis"

Na continuação do relato de Richard Feynman que aqui reproduzi sobre uma das suas interessantes experiências de escolha de manuais escolares, deixo um dos exemplos que ele retirou de um deles e que ilustra na perfeição a tentativa de levar os alunos a adquirir e compreender conceitos a partir da sua experiência cognitiva... Isso está certo, mas o modo como se faz nem sempre é o mais conseguido!

“... Havia um livro que começava com quatro figuras: primeiro um brinquedo de corda; a seguir um automóvel; depois um rapaz a andar de bicicleta; e depois outra coisa qualquer: E por baixo de cada figura lia-se: «O que o faz mover?». Era o tipo de coisas de que o meu pai me teria falado: «O que o faz mover? Tudo se move por o Sol brilhar.» E depois divertíamo-nos a discutir o assunto:
«Não, o brinquedo move-se porque a mola está enrolada», dizia eu.
«Como é que a mola se enrolou?» perguntava ele.
«Eu enrolei-a.»
«E como é que consegues mover-te?»
«A partir do que como.»
«E a comida só cresce porque o Sol brilha. Por isso é por o Sol brilhar que todas as coisas se movem.»
Isso transmitiria o conceito de que o movimento é simplesmente a transformação da energia do Sol. Voltei a página. A resposta era, para o brinquedo de corda: «É a energia que o faz mover.» Para tudo «É a energia que o faz mover.» Ora isto não quer dizer nada: Suponhamos que se trata de vacalixis. Este é o princípio geral. «É a vacalixis que o faz mover». Não se aprende nada; é apenas uma palavra.

O que deviam ter feito era examinar o brinquedo de corda, ver que tem molas, procurar saber coisas sobre as molas, assim com a respeito das rodas, e não fazer caso da energia. Mais tarde, quando... soubessem alguma coisa sobre o verdadeiro modo de funcionamento do brinquedo, poderiam discutir os princípios, mais gerais, da energia. Além disso, nem sequer é verdade que «a energia é que o faz mover», porque, se pára, podemos igualmente dizer que «a energia é que o faz parar».

Referência: Feynman, R. (1988). Está a brincar, Sr. Feynman!" Retrato de um físico enquanto homem. Lisboa: Gradiva, p. 281.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Como pode ter a certeza disso? - 3

Na semana passada terá a ministra da Educação declarado não ser adepta de mais exames” e não se prever a introdução de novas provas deste tipo no sistema educativo. A justificação que apresentou é que os exames "contribuem para aumentar o abandono escolar."

Como se percebe, estamos perante uma decisão importante que, paradoxalmente, se baseia numa opinião pessoal. Isto significa que não tem qualquer fundamento pedagógico, uma vez que não existem estudos credíveis que demonstrem uma relação linear e inequívoca entre a existência de exames e o abandono escolar.

Daqui não se deve deduzir a defesa de mais ou de menos exames face aos que já existem (essa é uma outra questão!), mas apenas e só que, como afirmei em textos anteriores relativamente a outras opiniões de responsáveis políticos, a opinião em causa não decorre de conhecimento científico.

Sistema de acesso a medicina é estúpido


“A visão convencional serve para nos proteger da dolorosa tarefa de pensar” (John Kenneth Galbraith, 1908-2006).

Anos atrás, no Diário de Coimbra (10/08/2005), Celestino Quaresma, presidente do Conselho Directivo da Delegação Regional de Coimbra da Ordem dos Engenheiros, chamava a atenção para o facto dos candidatos aos cursos de engenharia estarem dispensados da disciplina de Física do ensino secundário.

Julgo poder ser apontada como uma das causas desta insólita situação o facto de esta ser uma das disciplinas que mais reprovações promovem nos exames nacionais do secundário levando os cábulas a fugirem dela como o diabo da cruz. É sabido, por outro lado, que a oferta dos inúmeros cursos superiores de engenharia, quer universitários, quer politécnicos - sempre que há dificuldade em nomear um curso esquisito, na tentativa de lhe dar um ar respeitável, dá-se-lhe o nome de engenharia disto, daquilo e daqueloutro – excede, por vezes, a sua procura. Assim, havia que criar condições para que a clientela não escasseasse ainda mais.

Num sistema educativo, abrindo brechas por todos os lados por falta dos alicerces de uma boa “instrução primária” e sólidas paredes dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, e em que o ensino secundário tem sido o único pilar de sustentação, em certos casos, o acesso ao ensino superior, mormente em estudos humanísticos, tornou-se numa espécie de fantochada em que a dificuldade foi superada pelas «Novas Oportunidades» e «Provas de Acesso ao Ensino Superior para Maiores de 23 Anos».

Antes de todo este processo de facilitismo em atribuir, de mão beijada, diplomas do 9.º e 12.º anos e de licenciaturas (geradas pelo «Processo de Bolonha», que diminuiu a duração das licenciaturas fazendo com que os jovens continuem a estudar para além delas na procura de um lugar ao sol ou para iludir o verdadeiro flagelo social do desemprego), publiquei um longo artigo, intitulado, «Exame de Aptidão à Universidade, por que não?», em que deixei escrito:

“Em idos tempos, houve o exame de aptidão em que, por exemplo, a admissão ou exclusão do aluno que desejasse ir para o curso de medicina ficava a exclusivo encargo das respectivas faculdades e das exigências por si havidas como necessárias. Hoje, um aluno que - em primeira escolha e por declarada vocação, mas sem as elevadíssimas classificações que roubam ao estudante do ensino secundário os prazeres de uma juventude vivida em plenitude - queira ingressar em medicina (por vezes, apenas, por uma décima de valor), encontra como solução de recurso matricular-se em outro curso universitário, ou mesmo de ensino politécnico, no âmbito da saúde. E quando nem isso consegue, acede, numa espécie de roleta de azar, a cursos de segunda, terceira ou mais escolhas em matérias para que não está minimamente vocacionado e muito menos conhecedor da desilusão do exercício profissional que o espera!

Por isso, defendo que deve competir à Universidade estabelecer o perfil do aluno que reúne condições para a sua frequência sem estar dependente, unicamente, da classificação do diploma do ensino secundário e respectivos exames nacionais que, não raras vezes, pouco dizem a verdade ou espelham a realidade. Mesmo correndo o risco de me repetir, quantas vezes um aluno merecedor de maior classificação que um outro, mas porque em situação diversa de avaliação, por diferente ser o critério da escola que frequentou ou as condições de maior ou menor exigência em que é avaliado, não sai prejudicado?

Será o regresso do Exame de Aptidão à Universidade (ainda que adaptado aos tempos que correm) uma solução óptima? Com o aval da sabedoria popular, ‘o óptimo é inimigo do bom’. Contentemo-nos, portanto, com o bom ou até o menos mau. O que já não é nada mau, convenhamos!” (Público
, 05/09/2005).

Precisamente duas semanas depois, foi publicado o testemunho de António Sousa Pereira, presidente do «Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar», da Universidade do Porto, em que é dito, entre outras coisas que “o facto de não haver falta de candidatos para o curso não significa que o método de seriação seja justo.” Confrontado com a qualidade dos alunos que entram no curso, esclarece que “nem todos correspondem ao padrão que esperamos, dadas as provas que prestaram [no ensino secundário] para entrar, e apresentam taxas elevadíssimas de insucesso. E se, alguns encontram o seu caminho, outros não, o que deixa a sensação que outros mais vocacionados terão ficado de fora” (Diário de Notícias, 19/o9/2005).

Por se tratar de um problema equacionado mas não resolvido, saiu a público, há escassos dias, uma entrevista de Manuel Sobrinho Simões, professor catedrático da Faculdade de Medicina do Porto e cientista de renome internacional, com o sugestivo título, de que me apropriei para este post, «Sistema de acesso a medicina é estúpido» (Expresso, 24/12/2009).

Na entrevista o sistema de acesso a medicina português é tido como o pior de todos, porque ao “ter em consideração apenas o secundário é um falso sistema justo”. Como uma das possíveis medidas para alterar esta situação “defende há muito que deviam ser as faculdades a elaborar as provas de admissão, tal como acontece, por exemplo, na Universidade de Jefferson, nos Estados Unidos, onde dá aulas”. E acrescenta: “Ali são as próprias universidades a terem interesse em seleccionar os bons alunos, até porque depois há exames nacionais e isso vai ser importante para o prestígio de cada universidade”.

A finalizar, inevitável, surge a pergunta: “Se há muita gente a contestar o actual sistema de acesso, porque é que a situação não muda?” Como que espelhando o imobilismo nacional que parece “sentir-se bem entre o já pensado”, como diria o filósofo contemporâneo Jean-François Lyotard, a resposta não se fez esperar: “Não muda, entre outras coisas, porque são os próprios pais e os alunos a terem medo da introdução de algo que altere o ‘status’ vigente”.

Julgo que o “status” vigente reside, em parte, na procura de escolas do ensino secundário que inflacionam as notas das disciplinas destinadas à entrada em medicina para mascarar uma possível deficiência de cultura filosófica e de leitura de escritores portugueses de renome que ajudem a não maltratar a língua materna. Isto, sem esquecer as explicações pagas a peso de ouro em que conta mais as carteiras dos pais do que a massa cinzenta dos filhos que “marram” dia e noite o que vem nos compêndios e nas fotocópias ficando, desta forma, sem muito tempo disponível para a cada vez mais necessária aprendizagem do idioma de Shakespeare e nenhum tempo para uma prática desportiva que lhes vivifique o cérebro de oxigénio. Em legado de Abel Salazar, “um médico que só sabe de medicina nem de medicina sabe”.

Na imagem: o médico e artista Abel Salazar.

HUMOR: Carne artificial não convence caçadores

Dúvida é a palavra de ordem nas associações de caçadores, que aguardam para ver o potencial cinegético da carne produzida in vitro, que deverá chegar dentro de cinco anos aos supermercados e coutadas portuguesas: "Se o tal tecido muscular estruturado com irrigação vascular bravo tiver melhor sabor do que o tecido muscular estruturado com irrigação vascular de criação pode ser que sim. Agora, quanto a caçar com tecido muscular estruturado farejante em vez de perdigueiros, tenho muitas dúvidas".

David Marçal, no Inimigo Público

A ALICE DE TIM BURTON



Estreia em Março de 2010 uma adaptação cinematográfica de Tim Burton de "Alice no País das Maravilhas", com Johnny Depp, Helena Bonham Carter e outros.

ALICE E A MATEMÁTICA

Na "New Scientist" de 16 de Dezembro, Melanie Bayley escreve sobre "Alice no País das Maravilhas" do clérigo e matemático Lewis Carrol, argumentando que é preciso saber a história da matemática no século XIX para compreender a ficção. Um excerto:
"Take the chapter "Advice from a caterpillar", for example. By this point, Alice has fallen down a rabbit hole and eaten a cake that has shrunk her to a height of just 3 inches. Enter the Caterpillar, smoking a hookah pipe, who shows Alice a mushroom that can restore her to her proper size. The snag, of course, is that one side of the mushroom stretches her neck, while another shrinks her torso. She must eat exactly the right balance to regain her proper size and proportions.

While some have argued that this scene, with its hookah and "magic mushroom", is about drugs, I believe it's actually about what Dodgson saw as the absurdity of symbolic algebra, which severed the link between algebra, arithmetic and his beloved geometry. "

Ler tudo aqui.

PARQUE BIOLÓGICO DA SERRA DA LOUSÃ



Em Miranda do Corvo, perto de Coimbra, nas faldas da Serra da Lousã, impulsionado pelo médico Jaime Ramos, há um novo Parque Biológico que merece uma visita, designadamente para famílias com crianças.

"O VERBO FOR", DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

Um dos nossos leitores enviou-nos esta saborosa crónica de João Ubaldo Ribeiro (na foto), sobre o ensino da língua portuguesa, Prémio Camões de 2008. Foi no Brasil, mas podia ter sido em Portugal. A crónica foi publicada no jornal "O Globo" (e noutros jornais) na edição de 13 de setembro de 1998 (domingo) e integra o livro "O Conselheiro Come", Edição Nova Fronteira, 2000, p. 20.

"Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho inadmissível e mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa não ser reacionário. Somos uma força histórica de grande valor. Se não agíssemos com o vigor necessário — evidentemente o condizente com a nossa condição provecta —, tudo sairia fora de controle, mais do que já está. O vestibular, é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-lo às minhas coevas (ao dicionário outra vez; domingo, dia de exercício).

O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia, sendo que esta não constava dos currículos do curso secundário e a gente tinha que se virar por fora. Nada de cruzinhas, múltipla escolha ou matérias que não interessassem diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto possível, com citações decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram As Catilinárias ou a Eneida, dos quais até hoje sei o comecinho.

Havia provas escritas e orais. A escrita já dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e partia-se para o martírio, insuperável por qualquer esporte radical desta juventude de hoje. A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma multidão, para assistir à performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicionário, dicionário), o mestre não perdoava.

— Traduza aí quousque tandem, Catilina, patientia nostra — dizia ele ao entanguido vestibulando.

— "Catilina, quanta paciência tens?" — retrucava o infeliz.

Era o bastante para o mestre se levantar, pôr as mãos sobre o estômago, olhar para a platéia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em direção à porta da sala.

— Ai, minha barriga! — exclamava ele. — Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de alimária. Senhor meu Pai!

Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a enfiar, sem sentir, as unhas nas palmas das mãos, quando o mestre sentiu duas dores de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco.

O maior público das provas orais era o que já tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha vê-lo "dar um show". Eu dei show de português e inglês. O de português até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas:

— Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual é o sujeito da primeira oração do Hino Nacional!

— As margens plácidas — respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a xícara.

— Por que não é indeterminado, "ouviram, etc."?

— Porque o "as" de "as margens plácidas" não é craseado. Quem ouviu foram as margens plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que existem no hino. "Nem teme quem te adora a própria morte": sujeito: "quem te adora." Se pusermos na ordem direta...

— Chega! — berrou ele. — Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia!

Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje considero injustíssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e moças pálidos e trêmulos diante de mim. Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era bestíssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas não perdia a pose. Não acertou a responder nada. Então, eu, carrasco fictício, peguei no texto uma frase em que a palavra "for" tanto podia ser do verbo "ser" quanto do verbo "ir". Pronto, pensei. Se ele distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser.

— Esse "for" aí, que verbo é esse?

Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente.

— Verbo for.

— Verbo o quê?

— Verbo for.

— Conjugue aí o presente do indicativo desse verbo.

— Eu fonho, tu fões, ele fõe - recitou ele, impávido. — Nós fomos, vós fondes, eles fõem.

Não, dessa vez ele não passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e hoje há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe econômica, ou ainda aposentado como marajá, ou as três coisas. Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza, não. Eu tampouco fonho. Mas ele fõe."

João Ubaldo Ribeiro

domingo, 27 de dezembro de 2009

PLANCK, EINSTEIN E "LES DEMOISELLES"


Extracto, onde se evoca a primeira década do século XX, de um artigo publicado hoje na revista "Pública" do jornal "Público" da autoria de Clara Barata e Miguel Gaspar, para o qual dei um depoimento (foram emendados alguns erros do artigo):
"Quando começa um século - ou uma década -, tem-se esperança de que tudo vá mudar. Mas o difícil é perceber o que é de facto uma mudança com capacidade para durar, para transformar e o que não passa de espuma dos dias. Quando o século XX estava a romper, o mundo era ao mesmo tempo impossivelmente diferente e já com as sementes do nosso. Na ciência, surgiam a física quântica e a relatividade, por exemplo. E na pintura, Picasso rasgava novos horizontes com Les Demoisellles de Avignon, inventando o cubismo e a arte abstracta.

"O novo, o problema da descontinuidade, a mudança de paradigma, que Thomas Kuhn explorou muito, para mim, está exageradíssimo", responde o físico Carlos Fiolhais, professor na Universidade de Coimbra. Mas foi em 1900 que Max Planck se viu obrigado a reconhecer que a física anterior não conseguia descrever o que via. "Isso foi o mérito de Planck. Descreveu a realidade com uma fórmula matemática nova, reconhecendo que a antiga teoria já não conseguia descrever as observações. A energia é emitida e absorvida aos saltos, aos pulos, é isso os quanta. É como se a cerveja não pudesse fluir de um barril, só pudesse sair em saltos, em quantidades definidas".

Em 1905, aconteceu o chamado "ano miraculoso" de Einstein, em que ele, aos 26 anos, publicou uma série de artigos em que assenta a sua obra revolucionária - tudo isso na primeira década do século XX. Quem viveu esse período tinha consciência de que estava a entrar no futuro? "Ninguém percebeu na altura a importância que teriam essas ideias, nem mesmo Planck e Einstein podiam ter percebido. Planck, que morreu após a Segunda Guerra, disse que as novas teorias triunfam porque os adversários acabam por morrer. Einstein nunca aceitou muito bem a física quântica, dizia 'Deus não joga aos dados' ", diz Fiolhais.

Nas artes, houve uma grande revolução. "O grande cavalo de batalha é a pintura, estava próxima a invenção da fotografia e ainda mais próximo a do cinema", diz Delfim Sardo, professor de História da Arte Moderna e Contemporânea na Universidade de Coimbra. A obra-símbolo dessa revolução é Les Demoiselles d'Avignon, de 1907, uma composição com os retratos de prostitutas de um bordel frequentado por Picasso em Barcelona em que as figuras são desconstruídas para além do reconhecimento individual, para além de qualquer reconhecimento da cena real.

"É uma obra mitificada, com a qual Picasso teve uma relação difícil. Há uma enorme quantidade de cadernos cheios de esboços, é talvez a obra com maior trabalho preparatório", diz Delfim Sardo. Não surge do nada, claro: "Obviamente, não é uma experiência isolada no tempo, vem na continuidade de Cézanne e Matisse, mas quando Picasso constrói Les Demoiselles, a unidade compositiva da imagem deixa de existir. Com este quadro, Picasso estica o processo da suspensão da incredubilidade até um ponto que ele próprio terá duvidado se esta obra era um sucesso ou um fracasso."

Pastas e pacotes - 3

Texto que surge na sequência de outros publicados no De Rerum Natura.

Lembro-me que o meu interesse pelos manuais escolares surgiu quando, há duas décadas, li um livro de divulgação científica escrito por um físico. O livro tem por título Está a brincar Sr. Feynman e o físico é Richard Feynman.

Apesar de haver um oceano e mais de duas décadas a separar a nossa realidade de ensino e aquela a que Feynman se refere, algumas das suas considerações continuam a fazer sentido no sistema educativo português e seria vantajoso que lhe déssemos a atenção que merecem.

Uma dessas considerações remete para os problemas que se levantam quando se faz a escolha dos manuais: Em que critérios assenta essa escolha? Os critérios adoptados são os mais correctos? Quem produz os manuais e quem os deveria produzir? Quem os escolhe e quem os deveria escolher? Em que altura do ano lectivo são escolhidos? Será tal altura a melhor?...

Na verdade, ouço muitas queixas acerca de muitos manuais, sendo que parte dessas queixas vêm dos professores que os usam e que, eventualmente, os escolheram... Podemos perguntar: se os consideram menos bons ou, mesmo, maus porque é que os escolheram?

A resposta não é simples, como acontece com praticamente tudo no nosso sistema educativo. Vejamos... Na verdade, a escolha de manuais com que se irá trabalhar numa determinada escola está a cargo de professores, mas:

1. Essa escolha é feita (ou deverá ser feita) a partir de critérios apresentados pelo Ministério da Educação, não podendo, por princípio, derivar das opções particulares dos professores.
2. Nem todos os professores que usam os manuais participam na sua escolha, em geral, um grupo de docentes encarrega-se desta tarefa.
3. A altura do ano em que a escolha tem de ser feita não é, de todo, a melhor para se fazerem escolhas cuidadas, devido, por um lado, à sobrecarga de tarefas de responsabilidade (nomeadamente de avaliação) que competem com mais esta e, por outro lado, ao tempo limitado que é dado aos professores para apreciar os inúmeros manuais (com os seus inúmeros documentos) disponibilizados pelas editoras.

Deixo o leitor com as palavras de Richard Feynman, que traduzem o seu assombro quando se viu envolvido na complicada tarefa que é a escolha de manuais escolares.

“Nessa altura eu estava a dar uma série de aulas de Iniciação de Física e, depois de uma delas, Tom Harvey, que me ajudava a preparar as demonstrações, disse: «Devia ver o que se passa com a Matemática nos livros escolares! A minha filha chega a casa com uma data de disparates!».

Não prestei muita atenção ao que ele disse. Mas no dia seguinte recebi um telefonema de um advogado bastante famoso de Pasadena, o Sr. Norris, que nessa altura pertencia à Junta Estadual de Educação. Pediu-me que fizesse parte da Comissão Curricular Estadual, que devia escolher os novos manuais para o estado da Califórnia. Sabem, o estado tem uma lei segundo a qual todos os manuais usados por todos os miúdos em todas as escolas oficiais têm de ser escolhidos pela Junta Estadual de Educação, pelo que formam uma comissão para ver os livros e aconselhar que livros eles devem escolher (…). Por esta altura, eu devia ter um sentimento de culpa por não cooperar com o Governo, dado que aceitei fazer parte da Comissão.

Comecei imediatamente a receber cartas e telefonemas dos editores. Diziam coisas como: «Ficámos muito satisfeitos ao saber que o senhor pertence à comissão porque queríamos realmente um homem de ciência...» e «É maravilhoso ter um cientista na comissão, porque os nossos livros têm uma orientação científica...». Mas também diziam coisas como: «Gostaríamos de lhe explicar a intenção do nosso livro...» e «Teremos muito gosto em o ajudar no que pudermos a avaliar os nossos livros...». Aquilo afigurava-se-me um disparate. Sou um cientista objectivo e parecia-me que, como a única coisa que os miúdos iam receber na escola eram os livros (e os professores recebiam o manual do professor, que eu também receberia), qualquer explicação extra seria uma distorção. Por isso não quis falar com nenhum dos editores e respondi sempre: «Não precisam de explicar; estou certo de que os livros falarão por si».

[...] A Sr.ª Whitehouse começou por me falar nas coisas que iam debater na próxima reunião (já tinham tido uma reunião; eu fora nomeado mais tarde). «Vão falar sobre os números de contar». Eu não sabia o que aquilo era, mas afinal era o que eu costumo chamar números inteiros. Tinham nomes diferentes para tudo, pelo que tive imensos problemas logo de início.


Ela contou-me como os membros da Comissão avaliavam os novos livros escolares. Arranjavam um número relativamente grande de exemplares de cada livro e davam-nos a vários professores e administradores do seu distrito. Depois recebiam relatórios do que essas pessoas pensavam sobre os livros. Como não conheço uma data de professores ou administradores, e como achava que, lendo os livros sozinho, podia formar uma opinião sobre o que me pareciam, resolvi ler os livros todos sozinho.

[...] Então fui à primeira reunião. Os outros membros tinham atribuído uma espécie de pontuação a alguns livros e perguntaram-me quais eram as minhas pontuações. Muitas vezes a minha pontuação era diferente da deles e eles perguntavam: «Por que deu uma pontuação tão baixa a esse livro?» Eu dizia que o problema daquele livro era isto e aquilo na página tal — tinha os meus apontamentos.

Descobriram que eu era uma espécie de mina de ouro: dizia-lhes, em detalhe, o que havia de bom e de mau em todos os livros; tinha uma razão para cada pontuação. Perguntava-lhes por que tinham dado uma pontuação tão alta a determinado livro e eles diziam: «Diga-nos o que pensou do livro tal». Eu nunca descobria porque é que eles tinham pontuado uma coisa de determinada maneira. Em vez disso, estavam sempre a perguntar-me o que eu pensava.

Chegámos a um certo livro que fazia parte de um conjunto de três livros suplementares publicados pela mesma editora e perguntaram-me o que pensava dele. Eu disse: «O depósito de livros não me mandou esse livro, mas os outros dois eram bons». Alguém tentou repetir a pergunta: «O que pensa do livro?». «Já disse que não me mandaram esse, pelo que não tenho opinião sobre ele». O homem do depósito de livros estava lá e disse: «Desculpem; posso explicar isso. Não lho mandei porque esse livro ainda não estava completo. Há uma regra segundo a qual as entradas têm de ser todas até uma certa altura e o editor atrasou-se uns dias. Por isso nos foi enviado apenas com as capas e o interior em branco. Da companhia mandaram-me uma nota pedindo desculpa e dizendo esperar que pudessem considerar o conjunto dos três livros, apesar de o terceiro vir atrasado».

Verificou-se que o livro em branco tinha pontuação de alguns dos outros membros! Não acreditavam que estivesse em branco porque tinham uma pontuação. Na realidade, a pontuação para o livro que faltava era um pouco mais alta do que para os outros dois. O facto de não haver nada no livro não tinha nada a ver com a pontuação.


Creio que a razão de tudo isto é o sistema funcionar deste modo: quando enchemos as pessoas de livros, elas ficam ocupadas, ficam descuidadas e pensam: «Bem, há muita gente a ler estes livros, pelo que não faz diferença». E põem um número qualquer — algumas, pelo menos; não todas, mas algumas.

[...] Esta questão de tentar descobrir se um livro é bom ou mau lendo-o cuidadosamente ou recebendo os relatórios de uma quantidade de pessoas que o lêem descuidadamente é como este famoso problema antigo: ninguém podia ver o imperador da China e a pergunta era: qual o comprimento do nariz do imperador da China? Para o descobrir, percorremos todo o país, perguntando às pessoas que comprimento julgam ter o nariz do imperador da China e calculamos a média. E o cálculo seria muito «preciso» porque considerámos muitas pessoas. Mas esta não é a maneira de descobrir seja o que for."

Referência: Feynman, R. (1988). Está a brincar, Sr. Feynman! Retrato de um físico enquanto homem. Tradução de Isabel Neves. Lisboa: Gradiva. Ps. 274-279.

O QUE MUDAVA NA CIDADE DE COIMBRA?


Meu depoimento publicado no jornal "Público" de hoje:

A Biblioteca Joanina da Universidade, uma das jóias da cidade de Coimbra, foi construída no século XVIII sobre uma prisão medieval, que mais tarde foi prisão académica. Quando, a páginas tantas, os livros deixaram de caber na Joanina, o Estado Novo construiu o actual edifício da Biblioteca Geral. A Biblioteca nova, tal como a velha, não foi construída sobre o vazio, mas sim sobre a antiga Faculdade de Letras, que por sua vez foi feita sobre o antigo Teatro Académico. Uma cidade faz-se à medida das suas necessidades e ambições.

A Biblioteca Geral, com mais de um milhão de obras e documentos, está hoje a rebentar pelas costuras: não cabe lá mais nada. Está, portanto, na hora de mudar. O espaço da Penitenciária de Coimbra, mesmo às portas da Universidade e entre dois notáveis jardins, oferece-se como a solução, pois deixou há muito de servir como prisão. Aí deve erguer-se a "Casa do Conhecimento" de que a Cidade do Conhecimento precisa. Numa estreita colaboração da Universidade com a Câmara, Coimbra poderá ter a maior biblioteca-arquivo do país, com base nos valiosos fundos das Bibliotecas Geral e Municipal, assim como nos ricos espólios dos Arquivos da Universidade e Municipal, e com a ajuda das tecnologias que fazem as mais modernas bibliotecas e arquivos. Poderá ser um grande centro de desenvolvimento cultural, que saiba ao mesmo tempo preservar a memória e desbravar o futuro.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Pode a Educação Especial deixar de ser especial?

É comum supor-se que as pessoas da pedagogia (e das ciências da educação em geral) comunicam nessa “linguagem perigosa” a que o Prof. Marçal Grilo chamou «eduquês» e que muito bem definiu como uma “trepadeira de palavras um pouco sem sentido”. É comum pensar-se também que, em termos epistemológicos, tais pessoas se acomodam na linha dura do pós-modernismo, sendo, nessa medida, avessas a qualquer raciocínio científico (o raciocínio que se baseia na lógica e na evidência empírica para se chegar à verdade objectiva), escudando-se numa estranha ideologia, onde se misturam opiniões mal urdidas do senso-comum, tendências políticas e reivindicações sociais.

Entendo que este retrato está longe de abarcar a totalidade do real. E explico porquê: ainda que se aplique a algumas pessoas que trabalham e opinam na área da educação, não se aplica a outras que adoptam as regras de pensamento que a ciência tem por necessárias.

Chega-me às mãos um livro coordenado por duas destas pessoas: uma portuguesa - João A. Lopes, da Universidade do Minho - e outra americana - James Kauffman, da Universidade da Virgínia -, onde o «politicamente correcto» e as «ideias correntes» só são contempladas para serem devidamente desmistificadas.

De facto, neste livro, que tem por título Pode a Educação Especial deixar de ser especial? e está escrito de forma admiravelmente compreensível, os autores, além de tratarem científicamente e no quadro dos saberes actuais a questão da educação especial, explicam em pormenor os gravíssimos erros em que os sistemas de ensino têm incorrido ao adoptar para esta área tão crítica um enquadramento pós-moderno, de teor marcadamente acientífico.

São as palavras do prefácio, de João Lopes, que melhor explicam o espírito da obra, pouco comum no nosso panorama educativo:

"Este livro tem como objectivo apresentar uma perspectiva da educação especial que, no entender dos seus autores, veicula a melhor evidência científica disponível relativamente aos assuntos que nele são abordados. É importante salientar este aspecto, porque (…) o denominado relativismo pós-moderno tem impregnado a educação especial com ideias e concepções que não só não têm em consideração a investigação desenvolvida nesta área, como a reduzem à condição de «opiniões entre opiniões». Neste contexto, aquilo que é característico da ciência (como por exemplo o valor da prova ou evidência) é frequentemente apresentado como inútil, quando não nefasto.

Os movimentos científico não conhecem fronteiras e, por isso (…) é possível constatar que as questões fundamentais com que se debate a educação especial em Portugal e nos Estados Unidos são perfeitamente miméticas. Digamos que o sistema português constitui uma cópia tardia do sistema americano, não tendo infelizmente aprendido com os erros deste último (…)
A educação especial é possivelmente um dos sectores em que é mais fácil vender ilusões, avançar com soluções milagrosas e invocar falsos sucessos (…).

O ponto é que, na educação especial estratégias sem suporte científico, como a inclusão de alunos deficientes em salas de aula regulares ou conceitos sem validade diagnóstica ou categorial como as denominadas «necessidades educativas especiais». são tomadas como verdades inequívocas ou dogmas, pelo que se dispensa qualquer investigação ou sequer discussão a seu respeito.

Este livro pretende marcar uma posição de defesa dos métodos da ciência, na educação em geral e na educação especial em particular, discutindo o que tem que ser discutido e rejeitando liminarmente postulados de fé ou de autoridade. O conhecimento progride no contraditório e dá-se sempre mal com os absolutos. Seja em biologia ou em educação".
Em suma, diz-se na apresentação que consulto na Internet, o livro "questiona frontalmente alguns conceitos e práticas apresentados como indiscutíveis nesta área, nomeadamente o inoperacional conceito de necessidades educativas especiais ou a denominada inclusão educativa, que em múltiplas situações nada mais significa do que atirar alunos com deficiências para salas de aulas regulares, onde consabidamente não há condições para lhes fornecer apoio ou ensino."

Referência: Kauffman, J. & Lopes, J. A. (2007). Pode a Educação Especial deixar de ser especial? Braga: Psiquilíbrios.

A propósito de ano novo...

No Réveillon, termo francês que evidencia o despertar para uma nova etapa, celebra-se no Ocidente a entrada no Ano-Novo, de acordo com um calendário anual.

Em Roma, no período da república, os anos não eram contados, mas nomeados em homenagem aos cônsules. Contudo, é romano o calendário ocidental que fixa o dia 1 de Janeiro como o primeiro dia do ano, segundo um decreto do governador Júlio César, presumivelmente em 46 a.C.

Janeiro é o mês dedicado a Jano, divindade representada com duas cabeças, uma virada para a frente e outra para trás, que nunca se cruzavam, mas que indiciavam a importância do Passado e Futuro no caminho humano.

Jano era, deste modo, o deus tutelar de todos os começos e patrono de todos os finais.

Consta que o seu templo se abria enquanto durassem os conflitos bélicos, para ser encerrado apenas em tempos de paz, numa tradição que perdurou até ao século IV d.C. Este templo, erguido em Roma na região do Fórum, teria permanecido encerrado por longos anos durante o pacífico reinado de Numa Pompílio; uma vez reaberto, só voltou a ser fechado após a segunda guerra púnica, e mais tarde já no reinado de Augusto.

Supostamente o costume das populares Janeiras conterá memórias da saudação que os romanos davam a Jano ao entoarem cânticos, como um modo de propiciar a boa fortuna e ao trocarem também um bolo de frutos secos a que acrescentavam pequenas lembranças simbólicas.

ORDEM E CAOS NA MATEMÁTICA

Do meu livro Curiosidade Apaixonada (Gradiva, 2005) uma recensão do livro de Gregory Chaitin "Conversas com um Matemático" (Gradiva, 2003):

"Dieu a choisi celuy qui est... le plus simple en hypotheses et le plus riche en phenomenes."

[Deus escolheu o mundo que é o mais simples em hipóteses e o mais rico em fenómenos.]

Gottfried Leibniz, Discours de métaphysique, VI, 1686 (edição portuguesa: “Discursos de Metafísica”, Colibri, 1995).

Esta asserção do filósofo alemão Leibniz, escrita originalmente em francês, aparece no frontispício da página Web do matemático norte-americano Gregory Chaitin, investigador no Thomas J. Watson Center da IBM, em Nova Iorque. Chaitin é o autor da obra “Conversas com um Matemático”, subintitulada “Matemática, Arte, Ciência e os Limites da Razão”, que saiu em português do prelo da Gradiva. A fim de efectuar o lançamento desse livro, Chaitin esteve uma semana entre nós, numa iniciativa da Gradiva apoiada pela IBM, proferindo um seminário não técnico no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra que sugestivamente se intitulou “É o Universo inteligível?”.

Por que é que Chaitin gosta de citar Leibniz? Simplesmente porque considera Leibniz o percursor da “teoria algorítmica da complexidade” de que Chaitin é não só autor como também incansável arauto.

Para Leibniz vivemos no melhor dos mundos possíveis (uma ideia satirizada pelo seu rival francês Voltaire, no romance “Candide”) e o “melhor” significa aqui a ligação entre o “mínimo de hipóteses” e a “máxima riqueza de fenómenos”. Para ele, na linha do racionalismo da Grécia Antiga, o mundo era inteligível: podia compreender-se com base num certo conjunto de leis simples – a palavra simples é aqui essencial porque leis demasiado complicadas conduzem, como é óbvio, à ininteligibilidade. Mas, por outro lado, o mundo era dificilmente inteligível, dada a imensa variedade de fenómenos que a Natureza nos oferece. As leis simples estão tão bem escondidas pela complexidade das manifestações naturais que é quase um milagre a descoberta humana das leis da Natureza. Foi Einstein quem comentou que o “mais ininteligível do Universo era o facto de ele ser inteligível”.

Leibniz, com formação em direito, foi não só um filósofo extraordinário como um matemático (autor do cálculo diferencial e integral e da linguagem binária usada hoje pelos computadores), um físico (estudou mecânica e óptica) e um engenheiro (construiu uma das primeiras máquinas de calcular). Foi talvez por temer ser ensombrado pelo génio de Leibniz que Newton e seus mais fiéis amigos polemizaram longa e asperamente com ele. Hoje em dia, Chaitin encontra em Leibniz a premonição das ideias que reclama sobre complexidade. Segundo o matemático norte-americano, a complexidade é medida pelo tamanho do programa computacional que a produz. Um programa curto pode originar resultados complexos. Mas um programa longo produzirá uma complexidade maior. Escreveu Leibniz, há mais de três séculos, no seu «Tratado de Metafísica» (transcreve-se o original francês não por presunçosa erudição, mas simplesmente porque tem outro “som”):

"Mais quand une regle est fort composée, ce qui luy est conforme passe pour irrégulier". [Quando uma regra é muito complicada, o seu resultado parece caótico].

Os físicos do século XIX criaram um conceito novo para descrever o caos. É a entropia: um valor elevado de entropia deve ser associado a sistemas onde reina o caos, a sistemas de elevada complexidade. E o norte-americano Claude Shannon, a trabalhar para a Bell Telephones nos anos 40 do século XX, associou entropia com falta de informação.

Agora, Chaitin vai mais longe ao dizer que a entropia se pode obter do tamanho de um programa. Se, com Shannon, a teoria da informação se liga à ciência termodinâmica, com Chaitin são as ciências da computação que se vêem ligadas à mesma ciência, abrindo uma fecunda visão interdisciplinar. Mais ainda: como as ciências da computação estão intimamente ligadas a problemas fundamentais de matemática (basta lembrar que os problemas do funcionamento de autómatos investigados pelo inglês Alan Turing têm relação directa com o teorema da incompletude do austríaco Kurt Goedel), Chaitin vai procurar iluminar as bases da matemática com noções termodinâmicas, como a de aleatoriedade, que pareciam completamente estranhas a essa disciplina.

Os matemáticos estranharam, antes de entranhar. Numa das interessantes entrevistas incluídas no seu livro mais recente, Chaitin exprime assim a reacção dos seus colegas matemáticos perante as novas propostas:

“...Os matemáticos acham que não pode haver qualquer aleatoriedade! Uma afirmação matemática ou é verdadeira ou é falsa, não pode ter 50% de probabilidade de ser verdadeira. Os matemáticos acham que têm de acreditar na verdade absoluta. Os físicos, por outro lado, acreditam na aleatoriedade. A aleatoriedade é um dos temas básicos da física do século XX [a mecânica quântica, rejeitada por Einstein quando disse que Deus não jogava aos dados com o Universo]. Por isso, os físicos deliciam-se com o meu trabalho. (...) Os físicos sentem-se muito mais à vontade com as minha ideias do que os matemáticos, porque peguei numa ideia da física, que é a aleatoriedade, e descobri-a na lógica matemática. Mas as pessoas que trabalham em lógica matemática não gostam disso, não compreendem a aleatoriedade”.

Ora aqui está um bom exemplo do modo como a moderna ciência se faz nos intervalos interdisciplinares. Uma ideia do mundo da física foi inseminada com sucesso no mundo da matemática. Alguma matemática passou a ser feita à moda da física. Para ver que a filosofia não pode passar incólume, basta ler Leibniz:

“Sans les mathématiques on ne pénètre point au fond de la philosophie. Sans la philosophie on ne pénètre point au fond des mathématiques. Sans les deux on ne pénètre au fond de rien”
[“Sem a matemática não podemos penetrar no fundo da filosofia. Sem a filosofia não podemos penetrar no fundo da matemática. E sem as duas não penetramos no fundo de nada”].

Surgem, portanto e imediatamente, consequências filosóficas. De resto, novas ideias epistemológicas surgem sempre que duas ou mais disciplinas se aproximam e se intersectam.

Amante do saber, o matemático Chaitin vai ao encontro da filosofia: ele é uma espécie de Leibniz dos tempos modernos!

ARTE E MATEMÁTICA

Informação recebida do Robotarium:

Leonel Moura, Pinturas Voronoi
Em exposição no espaço Robotarium na LxFactory, Lisboa, até 31 de Janeiro de 2010, todos os dias das 10 às 18:30 horas
T: 213625286

Realizada em 2002 a série de pinturas Voronoi baseia-se nos diagramas do mesmo nome criados pelo matemático russo Georgy Voronoy (1868-1908). Trata-se de uma geometria celular, dinâmica, que encontra múltiplas aplicações na ciência, desde a biologia à meteorologia e inúmeros modelos de crescimento de cristais, manchas de poluição, desenvolvimento urbano, contaminação social e cultural.

Algumas destas pinturas fazem recordar o “ambiente” Mondrian, mas agora numa versão caótica mais apropriada ao nosso tempo.

KOESTLER, UMA VIDA DO SÉCULO XX


"Arthur Koestler, Man of Darkness", é o título de um artigo acabado de sair no suplemento de livros do "The New York Times". Sendo seu autor é Christopher Caldwell, trata-se de uma recensão do livro "The Literary and Political Odyssey of a Twentieth-Century Skeptic." de Michael Scammell, (Random House), uma nova biografia do escritor húngaro Arthur Koestler, autor de The Sleepwalkers ("Os Sonâmbulos"), uma notável história da astronomia. Contar a vida dele, com o fim trágico que é conhecido, é contar a história do século passado.

Inicia-se assim:
No other writer of the 20th century had Arthur Koestler’s knack for doing odd things, crossing paths with important people and being present when disaster struck. As a 27-year-old Communist he spent the famine winter of 1932-33 in Khar­kov, amid millions of starving Ukrainians. Rushing southward through France ahead of the invading Nazi armies in 1940, he ran into the philosopher Walter Benjamin, who shared with him half the morphine tablets Benjamin would use, weeks later, to commit suicide. The Harvard drug guru Timothy Leary gave Koestler psilocybin in the mid-1960s, and Margaret Thatcher solicited his advice in her 1979 election campaign. Simone de Beauvoir slept with him but came to hate him, and in a fictional portrait described a blazing intelligence and a personality capable of sweeping people off their feet.
E o resto pode ser lido no link indicado no cimo.

Na imagem: Koestler em 1931 numa viagem ao pólo Norte a bordo de um Zeppelin.

WARNING! CELL PHONES ARE FOUND TO EMIT BULLSHIT

Ainda os supostos perigos dos telemóveis no habitual destaque semanal que damos à coluna do físico Robert Park, que semanalmente vai denunciando tretas:

"From San Francisco to Maine there is a campaign to require cancer warning labels on cell phones. Fact: cell phone radiation doesn’t cause cancer. Cancer agents break chemical bonds, creating mutant strands of DNA. Microwave photons cannot break chemical bonds. This is not debatable. In 1989, Paul Brodeur, a staff writer for the New Yorker, claimed in a series of sensational articles that electromagnetic fields from power lines cause childhood leukemia. Brodeur, however, understood none of this and when virtually every scientist agreed that it was impossible, Brodeur took their unanimity as proof of a massive cover-up. Other anti-science know-nothings followed Brodeur’s lead, shifting their attack to cell phone radiation. Cell phones have since spread to almost the entire population, but with no corresponding increase in brain cancer. Case closed."

Robert Park

HUMOR: DESIGN INTELIGENTE


Como está a acabar o Ano Darwin, fica mais um "cartoon" sobre evolução.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

"O conto de Natal em Portugal"

A literatura ocidental tem-se deixado influenciar pela pluralidade de significados que o Natal adquiriu ao longo do tempo: o teatro, o conto e a poesia dão-lhe destaque.

Vasco Graça Moura, numa incursão pela literatura portuguesa, revela-nos textos e autores que, desde o século XV até ao presente, têm captado e explorado esses significados.
Vale a pena ler a Antologia em que apresenta essa incursão e da qual reproduzo, de seguida, as duas primeiras páginas.

“Como é natural, as referências ao Natal na nossa literatura começam por registos de uma intensa devoção e só muito mais tarde se preocupam com a transposição de celebração religiosa e do seu sentido transcendente para o plano civil de uma comunhão festiva, familiar e universal, necessariamente ligada à ideia de paz na terra e reconciliação entre os homens.

É na poesia e no teatro que desponta literariamente aquela exaltação religiosa, com mestre André Dias (1348-1437), e depois nalguns auto vicentinos de devoção, para não parar mais, até ao nosso tempo: do Maneirismo, no Barroco, no Romantismo e daí em diante, até hoje. Basta recordar, mais ou menos ao acaso, poetas como António Ferreira, Frei Agostinho da Cruz, Diogo Bernardes, Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, Correia Garção, Reis Quinta, Cruz e Silva, Bocage, Almeida Garrett, Castilho, António Nobre, Gomes Leal, Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Álvaro Feijó, António Gedeão, David Mourão-Ferreira e tantos outros…, para se ver que o «cancioneiro de Natal» lusitano é muito abundante e variadíssimo.

Por sinal que é provavelmente com um célebre soneto de D. Francisco Manuel de Melo, «De consoada a uma sua prima», que o lado da celebração familiar e afectiva da quadra natalícia, acompanhada da troca de presentes, surge na nossa literatura, com a particularidade de ser escrito na prisão e, portanto, de contrapor um estado de afastamento, de solidão e de tristeza (…) a uma época do ano que era tradicionalmente de jubilosa reunião da família.

Mas ainda no século anterior, a pós-vicentina Prática dos Compadres de António Ribeiro Chiado, já descreve, de modo muito colorido, no pitoresco diálogo entre o Cavaleiro e o Compadre, os usos e folguedos entre familiares e vizinhos, a propósito da ceia de Natal e da missa do galo.

Isto tinha razões muito antigas. O Padre Mário Martins explica a dramatização popular na liturgia do Natal a partir de uma ideia de presépio que «vinha de longe, muito antes de São Francisco de Assis» e observa que na «Idade Média (…) nem tudo era edificante, pela festa do nascimento de Jesus". Em 1473, um concílio de Aranda (…) fala-nos de representações, mascaradas, figuras monstruosas e versos indecentes (…) que vinham a público, nas igrejas, por ocasião do Natal, da festa dos Santos Inocentes, São João Baptista, etc. (…).

Com pouco desfasamento em relação à poesia e ao teatro (e também às artes plásticas, do Vasco Fernandes da Adoração dos Pastores até ao Machado de Castro dos presépios), na nossa tradição cultural as referências importantes ao Natal, em prosa literariamente consistente, podem ser detectadas já em finais do século XV, n’O livro de Vita Christi em lingoagem português, tradução da obra de Ludolfo de Saxónia mandada fazer por D. João II e por sua mulher, a rainha D. Leonor (…).”

Referência completa: Graça Moura, Vasco (2003). Gloria in Excelsis: Histórias Portuguesas de Natal (Antologia: apresentação e selecção). Porto: Colecção Mil Folhas (Jornal Público), páginas 5 e 6.

Imagem. Natividade, Painel de azulejos portugueses (1746, 1754) - Igreja Basílica do Senhor do Bonfim, São Salvador, Bahia. Encontrado em: http://peregrinacultural.wordpress.com/2008/12/18/canto-de-natal-poesia-de-manuel-bandeira/

E O MENINO JESUS SABE FÍSICA?


A resposta também já foi dada neste blogue: aqui.

Na imagem: Max Ernst - Virgem sovando o menino Jesus perante três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o pintor

O PAI NATAL EXISTE?


A resposta já foi dada num post publicado há algum tempo neste blogue. Recordamo-la aqui.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O MEU NATAL DE ANTIGAMENTE

Um poema "temperado com música" enviado por quem tem a mestria de combinar as duas artes. Obrigada Paulo Rato.

O poema: O meu Natal de Antigamente, de Teresa Rita Lopes

O MEU NATAL DE ANTIGAMENTE

Quando era menina
não havia Pai Natal nem Árvore de Natal.
Armava-se o presépio com chão de musgo
rochas de cortiça virgem ervas a valer
pedrinhas de verdade
e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias
no dia 8 de Dezembro
e eram o pequeno milagre o primeiro
a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.
As criaturas do presépio eram de compra
mas também moldei algumas em barro fresco.
Uma vez uma das minhas tias fez casas e igrejinhas de papel
e acendemos velas lá dentro.
Foi um deslumbramento a luz a sair pelas janelinhas!
Mas ardeu tudo de repente.
Desde então só a lamparina de azeite continuou a alumiar
esse parco mundo pobre.

No meu Natal de antigamente havia menos presentes.
Os meninos não exigiam esses brinquedos extrabíblicos:
computadores, jogos de computadores, cêdêroms, sei lá.
Nem o Menino Jesus podia com tanto peso!
Sim, porque no meu Natal de antigamente era o Menino Jesus
quem dava as prendas.
Púnhamos, na véspera, o sapatinho na chaminé
mas tínhamos que ir para a cama esperar pela manhã
porque Ele só descia pela calada da noite
se ninguém estivesse à espreita
(hoje o Pai Natal não tem esses pudores).
Eu imaginava-O a saltar das palhinhas
nuzinho em pêlo
e a Nossa Senhora a agasalhá-Lo logo com a sua capa.
E lá ia Ele
Como um menino pobre enrolado no casaco do pai
a contentar todas as crianças do mundo.
O Pai Natal, esse, foi encarregado (não sei por quem)
de dar presentes a pequenos e grandes.
Com o Menino Jesus tudo ficava entre meninos.
e se a prenda não agradava
a gente fazia-lhe uma careta
e até, à socapa, chamava-lhe um nome feio.

O Pai Natal é um palhaço cheio de postiços:
barba bigode cabeleira
até a barriga é uma almofadinha.
E vai à televisão convencer-nos a comprar coisas.
Agora o Natal antecipa o Carnaval.
O Menino Jesus, esse não! nunca ia à televisão
(que para dizer a verdade não existia ainda.)

Mas que menino de hoje trocaria o seu Pai Natal
(gerente de um supermercado de prendas)
pelo meu Menino Jesus
a tiritar nas palhas?

Teresa Rita Lopes


A música: Um pastor vindo de longe, de Fernando Valente, sobre uma melodia tradicional portuguesa, numa interpretação de: Sílvia Correia Mateus, soprano; Coro da Sé Catedral do Porto; Octeto de Flautas de Bisel; Orquestra Sinfónica da Póvoa De Varzim; direcção de Osvaldo Ferreira.

Sobre o consumismo desenfreado



Postal electrónico de Natal realizado no âmbito da cadeira de Projecto II, do curso Design da Universidade de Aveiro. Este postal visa os problemas do excesso de consumo que se vão apoderando desenfreadamente da nossa sociedade, tendo por base o conceito de "prosumer".

Sobre o ritmo do tempo


Partilhamos uma das mais interessantes mensagens de fim de ano que recebemos. Veio do jornalista estudioso do tempo Fernando Correia de Oliveira:

"A vida tem na aldeia um ritmo que a cidade nunca poderá entender. Cada compasso, aqui, dura um ano certo. Porque se mata o porco só pelo Natal, se os salpicões ficam salgados passam-se trezentos e sessenta e cinco dias a repetir:
- Os salpicões ficaram salgados.
A correcção apenas se poderá fazer no ano seguinte. Cada semente que a mão lança à terra, cada árvore enxertada, cada lagar de vinho, prendem o homem a um pelourinho de expiação, de doze meses. Desde que haja engano numa realização, só na próxima sementeira, época ou colheita se poderá retomar a liberdade, para de novo semear, enxertar e pisar -- e apagar da própria lembrança e da dos vizinhos o erro vital cometido."
Miguel Torga - Diário IV

Nesta época de tradicional regresso às origens, às raízes, votos de Boas Festas. Siga o seu ritmo, seja ele qual for.

Fernando Correia de Oliveira

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Portugal prolonga ano internacional da astronomia


Informação recebida da caixa de correio do De Rerum Natura (na imagem Júpiter e as luas galilaicas):

"Portugal vai prolongar as comemorações do Ano Internacional da Astronomia (AIA) até Março. Com 1700 actividades em agenda e a colaboração de 370 instituições, o país tem sido um dos mais activos do mundo.

Embora o ano dedicado aos grandes temas do Universo termine por todo o globo no início de Janeiro, em Portugal continuarão a multiplicar-se as actividades de divulgação, com o objectivo de dar a conhecer a Astronomia ao grande público.

Actividades a reter:

No nascer de 2010, os céus do Funchal vão homenagear o Universo. O tradicional fogo de artifício da passagem de ano terá este ano como tema a Astronomia.

Até ao dia 22 de Janeiro, estará em exibição na Torre do Tombo, em Lisboa, uma exposição de manuscritos astronómicos - Registos do Céu - Astronomia em Manuscritos da Torre do Tombo - que testemunham como Portugal, no tempo de Galileu, se mantinha na linha da frente na investigação do Universo.

Para descobrir mais sobre os astrónomos portugueses do passado, o público pode ainda visitar, até ao dia 30 de Abril, a exposição Medir os Céus para Dominar a Terra - A Astronomia na Escola Politécnica de Lisboa, 1837-1911, patente no Museu da Ciência da Universidade de Lisboa.

Entretanto, continua a decorrer, o concurso nacional Astronomia Artística, que desafia todos os alunos do Ensino Básico e Secundário a criarem obras de arte a partir de temas ligados ao Universo, seja por intermédio das artes plásticas, multimédia, conto, poesia ou até da música. O objectivo é promover o diálogo entre a Arte e a Ciência. Os trabalhos terão de ser entregues até ao dia 31 de Janeiro de 2010. Mais informações estão disponíveis aqui.

O AIA foi decretado pela Organização das Nações Unidas, precisamente no ano em que se comemora os 400 anos das descobertas astronómicas de Galileu Galilei. Em Portugal é promovido a nível nacional pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), da Fundação Calouste Gulbenkian, do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, da Agência Nacional Ciência Viva e da European Astronomical Society (EAS).

Uma investigadora mexicana em Portugal

Ivette Pacheco no programa Nós:


E para algo completamente diferente: a Ivette também é uma das Cientistas de Pé.

Feliz Natal e Bom Ano de 2010

Habituei-me a considerar as festas natalícias como uma altura em que todos renovamos a esperança no nosso futuro colectivo. É muito mais do que uma data religiosa, que só tem significado para os crentes como eu. É um momento de paragem e reflexão sobre a caminhada que fizemos desde o ínicio dos tempos. É sempre nessa perspectiva que envio os meus desejos de boas festas e feliz ano novo.

A verdade é que, quando formos capazes de perceber que não existe castigo, nem prémio, que não valeram a pena os caminhos curtos e obscuros, quando percebermos que estamos num processo e que a nossa missão é deixar melhor do que encontrámos, sendo felizes, veremos quão importante é esse valor a que chamamos integridade.

Muitas coisas valem a pena, porque nos fazem sorrir. Outras não, porque nos distraem do essencial.

Estas são algumas das coisas que me fizeram sorrir em 2009.


Discurso de abertura do ano lectivo nos EUA (Barack Obama):


Missão STS-129 do Space Shuttle (NASA):


Uma música (Caetano Veloso):

(só ouvi esta interpretação em 2009)

Uma foto "Saturno" (Cassini, 2009):

(Retirado daqui)

Dois livros "O Relatório de Brodeck" (Philippe Claudel, ASA) e "Mentira" (Enrique de Hériz, Dom Quixote):


Um filme, aliás dois, "Avatar" (James Cameron) e "Los Abrazos Rotos" (Pedro Almodóvar):




Uma peça de teatro "Este Oeste Éden" (Abel Neves):


Link: http://weblog.aescoladanoite.pt/?cat=1

Um evento internacional de 2009 "Prémio Nobel da Paz" (Barack Obama):

Evento nacional de 2009 (A Universidade de Coimbra é, mais uma vez, a melhor universidade do país como revela o ranking do jornal "The Times"). Como é viver em Coimbra (Expresso.TV):


Todos os 3 vídeos aqui.

Um evento pessoal de 2009 (Abertura da 1ª fase do iParque com Cavaco Silva):

Uma palestra no Museu da Ciência de Coimbra, que fui repetindo por escolas e que deu origem a um livro:


Um momento desportivo "Desmarets ACREDITOU" (no jogo Guimarães-Braga):


Uma tarde de verão com atletismo (com a Martha, a Rita e a Beatriz, entre muitos outros como o Artur Carvalho, a Gisela Cruz e a Paula Simões):


Feliz Natal. Bom Ano Novo.
:-)

Ps:
Outros Cartões de Natal ainda muito actuais:
http://robotics.dem.uc.pt/natal2006/
e
http://robotics.dem.uc.pt/natal2008/
/Ds

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...