"Todos querem alguma coisa da educação:
os governos querem alguma coisa da educação,
a economia, a indústria, os políticos”, por isso
“é preciso resistir às investidas de dissolução da escola,
dos fins que deve perseguir, conhecimento que veicula,
do trabalho do professor e da possibilidade de aprendizagem”.
Gert Biesta, 2024, p. 4
Saiu hoje no jornal Público uma reportagem sobre a entrada de "influenciadores" nas escolas portuguesas. É uma longa reportagem, assente num trabalho demorado e aprofundado que um grupo de jornalistas, em boa hora, decidiu fazer.
Digo em boa hora porque, sendo parte de uma situação anómala, impensável de acontecer, foi-se normalizando e ampliando, ficando à vista de todos - directamente e nas "redes sociais" -, sem parecer incomodar, ao ponto de o sistema de ensino, de dentro de si mesmo, a ter identificado e parado.
Empresas e fundações empresariais, ONG que o não são, igrejas, partidos políticos e, agora, influenciadores, entram pela escola pública dentro, doutrinando no sentido que lhes traz proveito, vendendo o que lhes der lucro. Isto contra os mais basilares princípios de ética e de deontologia que devem regular as profissões de educação e, mesmo, contra a lei, onde se inclui a Constituição da República Portuguesa e a Lei de Bases do Sistema Educativo, mas também o Código da Publicidade, a Lei de Protecção de Dados Pessoais e, claro, toda a legislação que se aplica aos menores.
A retórica cega de que a escola deve estar aberta à sociedade deve responder às suas necessidades, deve dar voz aos interesses dos alunos, deve permitir que os mais diversos stakeholders participem em actividades, conduziu à situação relatada na reportagem. Uma situação que é contrária ao sentido da educação que a escola tem obrigação de proporcionar, ficando ao nível da barbárie. Um situação que é, claramente, deseducação.
É, sobretudo, triste, muito triste, ler os depoimentos de alguns (não de todos) adultos citados (responsáveis por direcções escolares, professores, assistentes operacionais), nos quais transparece a demissão, ou talvez, nem isso: o alheamento. Das suas palavras está ausente a consciência do especial dever de cuidado que não podem deixar de ter para com os menores e, evidentemente, a responsabilidade que tal acarreta.
Lamentável é ter sido preciso fazer-se esta reportagem, mas talvez ela obrigue a pensar, no espaço público, a efectiva intromissão de entidades e pessoas individuais cujo único fim é servirem-se dos alunos e da escola para daí retirarem vantagens para si mesmos. E, correlativamente, obrigue a pensar nas decisões que cabem aos profissionais que a constituem.
Pessoalmente, gostaria que o resultado do trabalho jornalístico em causa tivesse esse efeito construtivo. Pode ser que tenha.
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Biesta, G. (2024). Desinstrumentalizando la educación.
Teoría de la Educación. Revista Interuniversitaria, 36(1), 1-12. https://doi.org/10.14201/teri.31487
7 comentários:
Verdade. Fiquei particularmente mal impressionada com as declarações de alguns dos adultos. Achei revoltante!
Prezado Leitor Anónimo, vamos supor (quero supor) que seja trata de declarações não informadas (a ética, por regra, não faz parte do currículo de formação inicial de professores, nem é apanágio da sua formação contínua), espontâneas (sem a devida ponderação, seguidistas, do tipo: se isto está anda pelas escolas...). E vamos supor que o grande mérito desta reportagem é alertar para o cuidado a ter para com aqueles que, pela sua idade e condição, são mais vulneráveis, e que, estando na escola, devem ser educados, naquilo que é a função desta instituição. Custa-me pensar que estamos perante uma regra (e não perante excepções), custa-me pensar que a realidade denunciada vai continuar inalterada , custa-me pensar nos seus efeitos nos mais jovens e, por acréscimo, na sociedade. Cordialmente, MHDamião
“E, correlativamente, obrigue a pensar nas decisões que cabem aos profissionais que a constituem”.
“Eu dei liberdade às listas. Não me quis intrometer”, justifica José Gonçalves, director da escola de Cascais que recebeu o influenciador Zézinho. Na escola básica e secundária de Ferreira do Zêzere, a directora adjunta Elizabete Costa admite que autorizou a entrada de Gonçalo Maia, porque receava “perder os miúdos”. “Nós não podemos ir completamente contra. E isto também lhes faz bem: eles verem o que é bom e o que é mau.”
https://www.publico.pt/2026/03/01/sociedade/investigacao/escolas-recebem-influenciadores-fazem-sexualizacao-criancas-negocio-2165122
Ora, nós, adultos, não podemos proibir, ou, melhor ainda, apresentamos o bom e o mal porque faz bem aos alunos verem um e outro. A escola precisa de sensatez por parte dos adultos que a habitam, desde logo dos professores. Estou em crer que este diretor e esta adjunta encontram-se muito bem vistos no seio das suas comunidades escolares.
Até porque [na escola] “… o conformismo tem uma génese mais profunda”. Ler aqui: https://correntesprudencio.blogspot.com/2026/03/ja-so-ha-espaco-para-o-conformismo.html
Prezado Rui Ferreira, o conformismo é um mecanismo poderoso, bem o sabemos. E se integra a normalização da barbárie, é devastador. Quando os directores e os professores passaram a ser vistos e a verem-se como funcionários submissos passaram também a ser obrigados e a sentirem-se obrigados a agradar a instâncias superiores, a autarquias, à comunidade, aos clientes (alunos e suas famílias). Isto é o fim da educação. É difícil vemos uma saída, mas ela há-de existir. Cordialmente, MHDamião
Realmente, sórdido. Quando me convidou, cara Helena Damião, para reflectirmos sobre a educação e a arte e conversámos na perspectiva de avançar com a organização de um colóquio, lembro-me bem que a sua insistência sempre foi no incremento da educação. E viu em mim uma mais-valia, o que recordo com gratidão. Depois não foi possível realizar, embora não me lembre do motivo. Que horror!
Bom dia cara Helena Damião. Ontem, no meu comentário que vem como Anonymous, faltou acrescentar o meu nome: CLÁUDIA FERREIRA, que fez o doutoramento no CEIS20.
Caríssima Cláudia, as minhas desculpas pela demora da resposta. Saiba que ainda não conseguimos fazer esse colóquio, em rigor, a sua segunda edição. Continuamos o trabalho de integração da arte na educação escolar, mas alguma coisa tem faltado... Um abraço, MHDamião
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