sábado, 29 de fevereiro de 2020

Escolarizando (de um certo modo) o mundo

“(Se) educar é necessário, (toda) a educação é legítima, 
é sempre para o «bem» do educando
[trata-se de] um raciocínio falacioso, 
porque não distingue entre necessidade e legitimidade."

A. Reis Monteiro in Educação e deontologia. Lisboa: Escolar Editora, 2004.



A ideia de que "mais educação escolar é melhor do que menos educação escolar", muito enraizada na sociedade, pode, em certas circunstâncias, ser profundamente errada, na medida em que submete a legitimidade à necessidade de educar. Se é necessário educar o ser humano, não é legítimo que a escola eduque fora dos estritos parâmetros do que é certo.

O documentário Escolarizando o mundo, de Carol Black, coloca essa ideia em debate. A educação forçada pelos governos, submetida a ideologias de Estado ou outras, que persegue objectivos alheios àqueles que são legítimos (a formação de pessoas), não pode ser aceite.

Com dez anos, este filme é de grande actualidade: no século XIX, os EUA obrigaram crianças nativas americanas a entrar em internatos para lhes incutir o "espírito americano" (no que foram acompanhados por uma multiplicidade de países que fizeram, e fazem, algo semelhante com propósitos análogos); hoje o filantropismo constrói, à escala do planeta, escolas em meios onde a escolarização não tinha chegado ou onde identifica problemas. Os "projectos de ajuda", em vez de prestarem atenção à cultura local, no que ela tem de mais valioso, impõem princípios que se afirmam inequivocamente válidos em termos de "desenvolvimento global", com vista à superação da pobreza e a alcançar-se uma "vida melhor".

O filme questiona, precisamente, as noções de riqueza e pobreza, de conhecimento e ignorância a partir da perspectiva de quem tem poder para determinar a economia e, por acréscimo, as políticas educativas. Alerta, de modo muito incisivo, para o caminho da uniformização dessas políticas, que, de resto, se vê reforçada neste início de década.


Outro programa "Original é a Cultura": Na era da Internet

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2020-02-22-Original-e-a-Cultura--Na-Era-da-Internet

Uma efabuladora prodigiosa


O ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa, a nosso pedido, enviou-nos este texto, publicado, dias atrás no “Jornal de Letras”, que se reproduz e agradece, sobre Rosa Lobato Faria: 

Passaram no dia 2 de Fevereiro dez anos sobre o desaparecimento de uma notabilíssima romancista portuguesa: Rosa Lobato de Faria. Falecida aos 77 anos, encetara a sua prolífica actividade de romancista já com 63 anos. Não perderia pela demora: em 14 anos de esforçado investimento na ficção longa, legou-nos 13 romances, dos quais, o último – Vento Suão – ficou póstumo e inacabado, mas muito próximo de concluído.

Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999), As Esquinas do Tempo (2008) e Vento Suão (2011) são títulos impressivos que poderíamos, entre vários outros, citar. Como dissemos, começou tarde a sua actividade criativa, embora tenha declarado, numa entrevista concedida a Maria Teresa Horta: “Gosto loucamente de escrever. Passo a vida a escrever poesia.”

Antes de se dedicar, com admirável intensidade e disciplina, ao romance, Rosa Lobato de Faria dispersara muito do seu talento e facilidade de escrita por uma grande variedade de pelouros: guionista de novelas e séries, actriz de cinema e televisão, letrista de canções, poetisa, contista (de literatura infantil e não só). Foi também, além disto, uma singular e notável cronista. Comparada esta primeira fase da sua vida à sua posterior entrega a uma poderosa série de romances empolgantes, podem parecer anos e exercícios de puro desperdício, por maior que tenha sido o talento investido nesse sector mais ligeiro e… mundano.

Mas foi, talvez, além de um justificado ganha-pão, um modo de afeiçoar a sua mão de escritora. Por outro lado, não devemos esquecer grandes escritores (Proust, Scott Fitzgerald) que desperdiçaram uma parte importante das suas vidas, em actividades mundanas ou orgias, reservando, no entanto, outra parte a um investimento sério e concentrado no seu “canto profundo”. Seja como for, estou certo de que será a romancista Rosa Lobato de Faria, mais do que a poetisa, a actriz, a letrista ou a guionista, que assegurará um lugar assinalável na literatura portuguesa e na memória dos seus mais exigentes admiradores: o de uma romancista notável, forte e empolgante, dotada de uma invulgar capacidade de efabulação.

Foi neste género literário – o romance – que investiu uma vasta, profunda e bem meditada experiência de vida. Como poucos ficcionistas portugueses – alguns injustamente esquecidos, como, por exemplo, Francisco Costa, autor de belíssimos e bem arquitectados romances, tais os que compõem a admirável trilogia de A Garça e a Serpente (!943), Primavera Cinzenta (1944) e Revolta de Sangue (1946) ou ainda Cárcere Invisível (1949), ou o marginalizado, por inaceitáveis razões políticas, Joaquim Paço d’Arcos, com a sua extensa, bem documentada, muito bem arquitectada e profusamente povoada Crónica da Vida Lisboeta, sem falar de notáveis contos e (atrevidas) novelas, a pedirem merecida reedição –, como outros não tão esquecidos mas também não demasiado lembrados grandes contadores de histórias – José Rodrigues Miguéis, José Régio, Manuel da Fonseca, José Marmelo e Silva, Branquinho da Fonseca, Domingos Monteiro, Cardoso Pires ou Maria Judite de Carvalho – como estes, repito, Rosa Lobato de Faria, além de nos ter dado obras de ficção habitadas por fortes personagens mergulhados num universo romanesco altamente enfeitiçante e sonambulizante, revelou-se também uma extraordinária e aliciante congeminadora de histórias e intrigas de alto gabarito. 

A este respeito, gostaríamos de observar que alguns “snobs” da nossa praça literária costumam fazer gala em dizer que não gostam de ficções “com história dentro”, dando a entender que a “história” é uma componente descartável da ficção, boa só para uso de paladares pouco sofisticados. Assim banindo da cidade literária grandes contadores de histórias como Balzac, Stendhal, Dickens, Maupassant, Henry James, Karen Blixen, Camilo, George Eliot, Somerset Maugham, Graham Greene, Simenon, entre muitos autores que nem vale a pena citar.

No entanto, gostaria de aqui lembrar, com algum apetecível acinte, o que, a este respeito, observou o filósofo Ortega y Gasset, no seu livro genial, Ideas sobre la novela. Ortega, no seu inconfundível estilo cheio de luz, que faz dele tão grande escritor como pensador, propõe-nos um curioso paralelo entre um romance e um colar de pérolas. No romance, segundo ele, a “história” desempenharia o papel do fio, no colar de pérolas. O fio não será a parte mais valiosa do colar, visto que o mais precioso são, sem dúvida, as pérolas. Porém, sem o fio, não haveria colar. Também, em muitos romances, o mais valioso talvez não seja a história, mas sim os personagens, a atmosfera, o tom da narrativa.

Mas é a história que permite ao romance que este se mova, que progrida e que, por meio dela, os personagens se revelem e os conflitos se resolvam. Em alguns casos, a história pode ser relativamente ténue, mas é necessária. Ortega chamava aos romances sem o fio da história “romances paralíticos”, porque eles não se moviam e nada avançava. Acontece que, nos romances de Rosa Lobato de Faria, a “história” nunca é descartável, pelo contrário, é forte, segura e empolgante. O fio dos seus romances é quase tão importante como as “pérolas” que dele fazem parte. Mais: as suas histórias não temem, por vezes, roçar quase indiscretamente, as seduções do “roman noir” ou do policial.

E por que haviam de temer? O Rei Édipo é um soberbo exercício de “suspense” e Malraux afirmava com razão que certos romances de Faulkner eram um misto de tragédia grega e de romance policial. E a magnífica saga realista, Les Thibault, de Roger Martin du Gard, tem um inesquecível começo que deve não pouco ao romance policial, com todos os ingredientes do género. Rosa Lobato de Faria faz nem mais nem menos do que seguir as recomendações de Henry James, o qual aconselhava o romancista a ter, com o leitor, esta essencial obrigação: ser sempre interessante.

Como boa “entertainer” que fora, antes de se ter tornado romancista, RLF trouxe para o romance, com grande “expertise”, muitos dos venenos com que se compõe a receita usada para se iscar o interesse do leitor. Os grandes romances policiais de Raymond Chandler ou de Simenon são simplesmente notabilíssimos romances "tout-court". Nada disto impediu nunca RLF de analisar com singular penetração os recantos mais profundos das personagens que povoam e animam o seu universo romanesco.

O grande romancista e dramaturgo americano, Thornton Wilder, pouco antes de morrer entregou a um amigo um papel, como espécie de testamento (cito este episódio de memória). Nesse papel dizia, em suma, que se um romancista se visse, em vida, biografado, ao ler essa biografia, diria, dando um suspiro de alívio: “Posso morrer descansado. Levo comigo o meu segredo”. Assim sugerindo que o biógrafo não conseguira descortinar o mais profundo da sua personalidade. Mas se uma das personagens do romance Guerra e Paz, por exemplo, a inesquecível Natasha, saltasse do livro para a vida e lesse o romance de Tolstoi, diria de si para si, surpreendida: “Como é que ele sabia?” ou seja: Como é que ele me conhecia tão bem?

O romancista conseguia fazer o que ao biógrafo estava vedado, por mais documentação que reunisse. Quero com isto sugerir que, se as criaturas que RLF congeminou para as suas ficções saíssem dos livros para a realidade cá de fora e fossem ler os livros de que são personagens, teriam de certeza perguntado: “Como é que ela sabia?” Eis o maior cumprimento que se pode fazer a esta inconfundível ficcionista.

"ENVELHECER": programa cultural em que participo que passou hoje de madrugada na SIC

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2020-02-29-Original-e-a-Cultura---Envelhecer

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CORRIGIR O GENOMA HUMANO COM EDIÇÃO GENÉTICA




Na próxima 3ª feira, dia 3 de Março de 2020, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra "The Modern Prometheus": corrigir o genoma humano com edição genética, por Pedro Antas,  investigador pós-doutorado no Centro de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, no laboratório Mecanismos Moleculares de Doença, onde actualmente coordena um projecto financiado pela Fundação Americana Choroideremia Foundation.

Esta palestra integra-se no já popular ciclo "Ciência às Seis – 4ª temporada", coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Comunicador de Ciência.

Sinopse da palestra:
“Hoje, inúmeras doenças genéticas poderiam ser tratadas num abrir e fechar de olhos. Podemos corrigir mutações de um gene com uma facilidade impensável há 10 anos atrás. Aliás, já nasceram os primeiros bebés geneticamente modificados. 

Mas afinal o que é uma doença genética? Como é que a podemos curar? E se o desenvolvimento dessa cura abrir portas para criarmos descendentes por medida? Até onde estamos dispostos a ir? O que está a sociedade disposta a aceitar?

Nesta palestra propomos-nos abordar algumas destas questões e falaremos, em particular, da doença Coroideremia, doença genética que provoca perda de visão a partir dos 20 anos de idade.”


Nota sobre Pedro Antas:
Pedro Antas é investigador pós-doutorado no Centro de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, no laboratório Mecanismos Moleculares de Doença, onde actualmente coordena um projecto financiado pela Fundação Americana Choroideremia Foundation. Licenciou-se em Biologia Celular e Biotecnologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e fez o seu mestrado em Biologia Humana na mesma faculdade. Obteve o seu grau de doutoramento na University College of London num trabalho desenvolvido no The Francis Crick Institute em Londres, em Biologia das Células Estaminais e Cancro. No seu período em Londres presidiu à PARSUK- Associação de Investigadores e Estudantes Portuguese no Reino Unido, e integrou também o Centro de Science Policy da Royal Society que providencia aconselhamento cientifico ao governo britânico.   



ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em geral e interessado
Link para o evento no facebook

Antena 2 Ciência

Antena 2 Ciência: Uma síntese do que conhecemos sobre os vírus. Com Miguel Castanho, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e investigador do IMM.

Os professores como pilares do pensamento


Baseadas na mesma "narrativa" - a "narrativa da educação do futuro" -, múltiplos países levam a cabo mudanças profundas nos seus sistemas de ensino, que apresentam como inequivocamente boas e certas. Assim, as questões que tais mudanças, necessariamente, levantam, tendem a ser desvalorizadas ou imputadas à má-vontade. Por isso, é importante quebrar a (quase) imposição de silêncio. Lídia Jorge, ex-professora e escritora faz isso numa recente entrevista ao jornal Público. Tomamos a liberdade de recuperar as passagens que se nos afiguram mais relevantes.

Maria Helena Damião e Isaltina Martins
"É aquilo que todos sabemos: apostar na cultura, no ensino, na crítica, no jornalismo. Devíamos criar um estado de alarme com base em actores que têm um papel especial na sociedade: os académicos, os jornalistas, os professores. Considero que são os pilares de pensamento e de denúncia. São eles os pilares, aqueles de quem se espera que pensem e denunciem, mas estão muito adormecidos e têm de tomar um outro alento.
(...) enquanto a política for comandada por esta economia, que de forma mais ou menos disfarçada continua a ser a ideia da Escola de Chicago [corrente de política económica liberal] de que a empresa é um templo. Isto é tão grave que mesmo as instituições que não têm nada que ver com uma empresa assumem essa imagem (...) foi o que aconteceu com a escola (...) que foi tomada de assalto pelo modelo empresarial. 
(...) Perdeu-se a cultura da solidariedade Cada professor começou a ser o espião do seu colega e foi envolvido numa burocracia absolutamente intolerável. Os professores estão em estado de anomia e de anemia (...) o sindicato, em vez de fazer todo um combate apenas na base do ordenado e da reposição de direitos, deveria falar noutra coisa essencial, que é a formação dos professores. 
Há algo a acontecer na escola, que não está a formar com esperança os jovens de hoje (...). É-lhes retirada toda a parte cultural, criativa. Tudo isso desaparece com a ideia de que a prioridade é ter uma profissão para poder ganhar dinheiro. É preciso adoptar outra mentalidade, criar pessoas fora do fetichismo tecnológico, dotá-las de uma subjectividade rica. Isso é de uma importância extraordinária. 
(...) É absolutamente necessário que se perceba que as Humanidades têm de funcionar como travão para essa utopia tecnológica de que apenas a ciência e a tecnologia interessam neste mundo (...). A tecnologia tem de ficar em face da filosofia e de todas as artes (...). É fundamental que haja uma ética, que se perceba que há travões, neste momento em que a inteligência artificial já prevê que se venham a ler os pensamentos das pessoas. Tem de se guardar da pessoa aquilo que ela é (...) a humanidade perderá todas as características que conhecemos quando não houver segredo. O segredo é uma capacidade fundamental do ser humano. Pode-se dizer: eu estou escondido, eu sou humano (...). Tenho uma parte de mim que quero construir só comigo, que não posso partilhar. Quando isto não acontecer, estaremos perante uma coisa completamente diferente e não sabemos o que é. 
(...) É preciso dizer aos alunos, aos jovens, que têm de encontrar propriedade nas palavras. Têm de estudar. E os professores de Português, mas não só, precisariam de ter uma formação na língua. Teriam de voltar a estudar etimologia, semântica, todas as partes da gramática, a poética. Têm de estudar, têm de fazer de cada professor das Humanidades um leitor. Não tem havido nenhum ministério que tenha posto isso como prioridade (...) quando se fala da Literatura como uma disciplina básica, não é só a sensibilidade que está em causa, é a parte racional, é a capacidade de raciocínio crítico, e isso é absolutamente fundamental. 
(...) Ensinar os jovens a ver cinema é crucial para eles entenderem que a elipse, aquilo que não é mostrado, tem de ser preenchido com o nosso pensamento. Isso é dar-lhes uma gramática, uma chave para entender a arte, para entender a subtileza. 
(...) Há uma geração que deu um salto extraordinário, mas rapidamente se volta para trás. E o que está acontecendo é que a sociedade onde a cultura é menos letrada, menos cultivada, é aquela que aceita melhor o ditame do fetichismo tecnológico. E as duas coisas são de facto explosivas. …. voltar a essas grandes narrativas é fundamental. 
(...) Gosto muito daquela expressão do Steiner, que dizia que quando se lê poesia suspende-se a morte de Deus de Nietzsche. É verdade (...). Não sabemos dizer o que somos, e é talvez por isso mesmo que somos outra coisa. É preciso dizê-lo aos jovens, e é isto que a Literatura, as artes, o cinema, podem mostrar (...) dizer que cada um tem a sua noção de transcendência, os que irão até à crença absoluta num deus tradicional, outros que ficarão no agnosticismo.  
(...) Quais são, na sociedade, os elementos que falam em nome das palavras? São os professores, os intelectuais, os críticos, os artistas, os historiadores, os jornalistas. Estas pessoas têm de falar mais e de dar mais voz uns aos outros (...). Acredito na transmissão de conhecimento, na pedagogia e no exemplo das pessoas. Nunca a visão freudiana de que vivemos para o prazer esteve tão implantada a todos os níveis, mas acredito que vivemos para um sentido. E os que também acreditam nisso têm de se unir e de resistir, e que não se lhes canse a voz ou a mão. Sei que pareço utópica, mas se muitos acreditarem, é possível mudar. É preciso criar um estado de alarme."

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Poesia

Alguns poemas, de minha autoria, sobre a bairrada e a pedra calcária de Cantanhede. Enfim, sobre mim.

1.
Aqui a pedra é suor e um ressono tão pesado de pedra a cair no ferro mais duro que for forjado. aqui a pedra é um muro que se ergue contra o vento e o mar. é um morro que nunca morre, morrendo só o que de pedra não for ou quem em chão alto quis sonhar. aqui a pedra é flor, se a flor se chamar lírio. é um inverno que começa a partir, a estiolar num sol de início. aqui a pedra é cruz, quando a luz do caminho cai, abrupta, e o rumo para outro é inspiração e até para a própria culpa. aqui também é céu a pedra, quando nem há sequer sopro para o sono. céu que de Deus é chão e do homem saudade, um sonho que eternamente se espera.  

2.
Todos estes morros são frios em dezembro e o vento não os arrasta como folhas soltas. a flor da nespereira resiste ao inóspito tempo e num fino raio de luz agitam-se as vespas às voltas. à noite, um fogo-nêspera, como ao vento um lençol branco, se agita diante da face, das rugas e do sopro. e no quarto uma vespa inútil, como um fruto pútrido num ramo, e o poeta sobre os morros chamando às folhas breves o Corpo.

3.
Na margem de um caminho de lama de outubro, a folhagem de uma vinha-virgem erguida por gavinhas numa parede de pedra. agora o que é pulcro assoma do barro, da terra. como uma uva na rama, o vermelho do sol-pôr embrenhara-se nos pinhais da gândara ou no mar longínquo, e não voltará tão depressa. agora o poente ora é branco como escuma ora é escuro como pedra. o teu sorriso, no entanto, encerra todo o tempo. é poente em chama e vinha-virgem…e eu encontro-me, nevoento e brando, na monotonia da minha terra. 

4.
Traz até mim o brilho de água dos plátanos, quando à chuva outonal se segue a luz. era assim que o teu olhar procurava o azul que queria seguir te todos os passos. o azul que vinha da curva, do fim e da mágoa. e que te via, à luz do sol, a sair nua da água.  

5.
Um rio que corra sobre o meu coração
E que seja a espuma rubra do teu chão.
Um frio que em mim seja lágrima e gume
E em tua fronte seja brisa e seja perfume.
Um sol que nunca mais em minha boca arda
E seja sempre flor em tua exaustão e água.

6.
Soube, na tábua do meu leito, a frincha clara do dia entre cortinas vermelhas ao vento. soube abrir o vento, rumo ao dia de um livro que me levava o peito. soube inventar uma árvore altíssima, à beira-rio, e o voo de uma garça argêntea. soube a urgência de amar o remoto silêncio da montanha, quando a lágrima espalhava pelo chão a minha poeira. soube ao borralho, tremente, traçar na cinza a tenaz, o gesto sobre o clarão da áscua, e a mão firme e inteira. soube traduzir o riso da escuma, que uma onda a mim erguera. soube deitar o sonho na terra-frágua, iniciar a cristalina sementeira.  

7.
Duro é recordar as uvas douradas que me vinham à mão. a vindima no fim de um verão pleno de luz e de alegria como um recreio de crianças a repercutir no céu azul. os uivos lancinantes, na expiração das trevas nos currais. um  estrídulo de cigarras, manhã cedo, ao redor do cruzeiro. os vãos infindos de folhas, as mãos de mel e os punhos abertos. e o tumulto das dornas nas crateras dos caminhos rurais.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

MANEIRAS DE FALAR E DE ESCREVER

Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras":

“A maneira de falar e de escrever que nunca passa de moda é a de falar e escrever sinceramente” (Ralph Emerson).

De entre as pessoas que me causam frisson situam-se pseudo-letrados que dizem ou escrevem pão, mas que acossados por críticas à respecriva forma de se expressarem  dão a volta ao texto dizendo que queriam dizer ou escrever queijo, ou vice-versa! Aliás, em política é (ab)uso ser dado uma no cravo e outra na ferradura, passe o plebeísmo, forma de timoratos "fugirem com o rabo à seringa".

Haja em vista uma peça de prosa oral da ministra da Agricultura, Maria do Céu  Albuquerque que, para elucidar cabeças pouco capacitadas para decifrar subterfúgios da sua linguagem esotérica, esclarece posteriormente a opinião pública, como quem se dirige a uma plateia cursada em estudos das "Novas Oportunidades" ou diploma de "cursos superiores” feitos em fins-de-semana e avaliados ao Domingos, sobre a interpretação a dar a palavras por si proferidas na visita à "Fruit Logística" no âmbito das exportações dos produtos agro-alimentares nacionais. 

E porque lhe deve estar na memória antigos mestres-escolas que se serviam do ponteiro para fazer entrar no crânio de cabeçudos a matéria explicada, perorou ela, como quem ilumina com rasgos luminosos a escuridão da ignorância: “Acho que [o coronovírus] até pode ter consequências bastante positivas. Ainda assim, não tenho dados que me permitam fazer uma avaliação. Atendendo a que é um mercado emergente, em crescimento explosivo, temos que nos preparar para corresponder  à nossa ambição que é reforçar as nossas vendas e equilibrarmos a nossa balança comercial”.

.Aliás, “nohil novi sub sole” neste argumentário de que a ministra Maria do Céu Albuquerque se fez prosélita, a exemplo de camaradas seus de governação. Bem eu sei, não se poder exigir-se-lhe os dotes oratórios do nosso padre António Vieira ou o poder tribunício de Demóstenes, grande orador da Antiguidade Grega, que, para melhorar a sua gaguez, ensaiava  as suas peças oratórias  pondo seixos na boca para evitar tropeçar nas  palavras por si proferidas. Neste exemplo ministerial  não se tratar de tartarmudez mas da tentativa de se desenvencilhar da argolada por si cometida, quem sabe porque, como sentenciou Herman José, “a língua portuguesa é muito traiçoeira”!

Colhendo outros exemplos, haja em vista as intervenções parlamentares da segunda figura de Estado, Ferro Rodrigues, quando apresenta desculpas esfarrapadas sobre a impossibilidade da descida do IVA da energia eléctrica e alega, outrossim, a inconstitucionalidade da medida, ainda que mesmo “in extremis”, sobre a  esterilização dos criminosos que abusam sexualmente das crianças -, algumas delas seus próprios filhos - em consideração pessoana, "crianças a melhor coisa do mundo!"

Bom aviso podem colher os nossos políticos da sabedoria popular: “A palavra é de prata e o silêncio de ouro”. Mas para o cumprimento deste desiderato, há duas condições essenciais a satisfazer. dignidade e honradez. Isto é, não ser pago a peso de ouro  para proferir baboseiras no hemiciclo abdicando de arregimentar votos em vésperas eleitorais com promessas sabidas, de antemão, não poderem ser cumpridas.Disse isto, aliás, de forma magistral Nikita Kreuschev: “Os políticos em qualquer parte são os mesmos. Eles prometem construir pontes, mesmo quando não há rios”!

Antonio Lafuente - Los amateurs en las ciencias

domingo, 23 de fevereiro de 2020



RACISMO

“Liberdade não é poder escolher entre preto  e branco, mas sim abominar este tipo de propostas de escolha” (Theodor Adorno).

Ontem, em simples acaso, vi uma foto de uma escola feminina de Moçambique em que o número de alunas  brancas era diminuto relativamente ao número de alunas de cor.

Refiro este facto,  desafiando os que acusam os portuguese de horrendo racismo de publicarem uma foto do género em tempos do apartheid sul-africano em que havia bancos nos jardins em que só era permitido sentarem-se brancos. E ai dos negros que infligissem esta regra: era prisão certa precedida de sevícias! 

Aliás Moçambique, ressalve-se excepções de gente ignorante e boçal, era um exemplo de tolerância  que me orgulha de ter sido professor da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque (Lourenço Marques)  em que o Desporto promovia o respeito e principalmente, a amizade, entre uma verdadeira babilónia de  alunos de várias cores de epiderme, de estratos sociais,  culturais e religiosos. Hoje, o ataque verrinoso ao racismo lusitano é centelha para promover incêndios irreparáveis que mais não pretendem do que acicatá-lo acordando a besta que existe na condição dita humana.

Conto a propósito de um caso passado com meu irmão nascido em Angola e que tinha sido antes da independência colega liceal de Diógenes Boavida, que jogou futebol em Portugal na Académica e no Belenenses. Depois de 25 de Abril, tendo ele permanecido meses em Luanda, estando numa cerimónia oficial diz-lhe Diógenes, ministro do MPLA: "Vê lá tu que me roubaram o automóvel !"Respondeu-lhe, meu irmão na brincadeira: "Não foi um branco de certeza, somos tão poucos que era logo apanhado"! Riram-se ambos com amizade.

Em Luanda (década de 40, do século passado), era enfermeiro o pai de Diógenes, de epiderme negra,  que quando ia a minha casa para dar uma injecção era tratado por Senhor Boavida. Com isto, não estou a tentar branquear com "OMO" o racismo branco, ele existe como existe o racismo negro. Mas o pior que se pode fazer é ateá-lo ao ponto a que chegou em Moçambique quando uma horda ululante de negros avançou  sobre Lourenço Marques e que pelo caminho degolava galinhas só porque as sua penas eram brancas. 

Bem eu se, que Nelson Mandela há só um, essa a tragédia de uma humanidade que parece estar a regredir à Idade Média"!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

RACISMO BRANCO E RACISMO NEGRO



“O desporto tem o poder de superar velhas divisões, criar o laço de aspirações comuns” ( Nelson Mandela).

Nos dias de hoje, em Portugal, quando se fala em racismo,  muita gente atribui, prioritariamente ou mesmo em exclusividade,  responsabilidades ao racismo branco, denegrindo-o, e  branqueando o racismo negro.Haja em vista, a manifestação nas escadarias da Assembleia da República, de apoio a Joacine Katar Moreira,  com insultos à nobre bandeira de um pequeno país do extremo ocidental europeu que, na era de quinhentos, deu "novos mundos ao Mundo" só comparável às  conquistas rumo às estrelas da nossa era,  a cargo de grandes e poderosas potências mundiais. Na altura,   não vi uma onda de justíssimo protesto por parte do governo ou de entidades oficiais.

Sem sombra de duvida,  que o racismo, qualquer  seja, encontra terreno favorável no futebol de alta competição em que os ódios vêm à flor da pele acicatados por cores clubísticas em que o desporto deixa de ser uma fonte de virtudes para se tornar numa escola de defeitos com tentáculos de ódio de multidões ululantes nas bancadas do chamado  desporto-rei, a exemplo do antigo circo romano dos tempos de Nero. Daqui emerge a pergunta: Qual têm sido o papel da "Autoridade Nacional Contra a Violência e o Racismo no Desporto" e, principalmente, quais os seus resultados?

Temo que a resposta possa ter sido dada pelo "Caso Marega" em que a intervenção do 1.º ministro, António Costa,  pecou por  tardia, embora o povo na sua sabedoria nos diga que “mais vale tarde do que nunca”. O futuro o determinará! No tempo do Estado Novo, o então chamado  reviralho dizia que o futebol era o ópio do povo. E hoje não será  anestesia que adormece em sono profundo o humanismo?

Não me corre nas veias o sangue da premonição, quiçá porque, segundo Mark Twain, " a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro"! Todavia, não posso deixar de me reportar a uma minha entrevista, com o título em grande parangonas e ocupando duas páginas inteiras (“Diário de Lourenço Marques”, 19/07/1961). Nele escrevi: “Para um merecimento  perfeito do fenómeno desportivo há que, primeiro, acreditar no valor moral dos desportistas, dos técnicos, da imprensa e dos dirigentes – enfim de todos aqueles que o servem para se evitar o risco em se atingir a decadência desportiva romana sem se ter conhecido o apogeu de uma educação integral helénica”.

Que lição de crença nos valores morais e éticos do  desporto na sua pureza agonística dado por Nelson Mandela, em epígrafe, ao transportar a “tocha olímpica” na  cidade sul-africana do Cabo (2004), em frente da qual se situa  a ilha Robben,  em cuja prisão de alta segurança esteve esta personagem presa 18 anos durante o regime de ”apartheid” de triste memória!

COMUNICAÇÃO E CIÊNCIA


Meu artigo no último número da revista BICA:
O ser humano só o é verdadeiramente quando comunica, isto é, não existe individualmente, mas sim em sociedade. Comunicar consiste em transmitir significados de uma pessoa ou grupo de pessoas a outras pessoas ou grupos usando um conjunto de símbolos e regras cuja compreensão é partilhada. Os conteúdos da comunicação são, em geral, chamadas mensagens e a sua codificação simbólica pode ser feita das mais variadas maneiras: podem ser textos, imagens, discursos, gestos, etc. Vivemos na era da comunicação digital: no mundo contemporâneo, a informação contida nessas formas é representada por bits, o que facilita não só a sua transmissão, mas também o seu armazenamento no sistema global a que chamamos Internet. A transmissão por imagens, que consome mais bits, designadamente imagens em movimento, está a crescer enormemente. Na teoria da comunicação, definem-se emissor, receptor e canal de comunicação entre neles, sendo a comunicação tanto melhor quanto mais fácil for a interacção entre emissor e receptor (quando o chamado “ruído”, ou perturbação da informação, inexistir ou for limitado), e quanto mais emissor e receptor trocarem os seus papéis, assegurando bidireccionalidade da comunicação. A comunicação digital moderna operou uma revolução completa, da qual ainda não estamos a ver todas as consequências, ao permitir que cada receptor possa ao mesmo tempo ser um emissor com potencial de recepção global. Na actual torre de Babel, todos os habitantes do planeta – e são mais de sete mil milhões – podem, pelo menos em princípio, comunicar, praticamente sem intermediários, para todos.
O desenvolvimento da civilização sempre se baseou, essencialmente, no alargamento dos processos de comunicação. Se a evolução biológica proporcionou a visão e a fala, o aparecimento da escrita no Médio Oriente há cerca de 3300 anos a.C. constitui um grande marco histórico: é até o começo convencional da história. A seguinte grande transformação civilizacional ocorrida com o alargamento das comunicações foi a introdução da imprensa escrita primeiro no século VII na China e, sem qualquer ligação conhecida, depois na Europa, a meio do século XV (o papel inventado na China chegou à Europa através dos árabes, mas não a imprensa), com o trabalho pioneiro do alemão Johannes Gutenberg. No século XIX, a Revolução Industrial proporcionou uma rede de telecomunicações, que construída a partir da Europa ganhou escala intercontinental, primeiro através do telégrafo eléctrico e depois através da TSF: deixou de ser necessária a deslocação de seres humanos ou o envio por qualquer meio de material impresso para haver transmissão de informação à distância. Finalmente, no século XX, uma nova e poderosa vaga da Revolução Industrial, determinada pela invenção dos transístores (1947), dos cabos ópticos (1965), da Internet (1969), dos computadores pessoais (1977), dos telemóveis (1983) e da World Wide Web, WWW (1989), levou à proliferação e aceleração dos processos comunicacionais de uma forma nunca vista, agora com suporte digital, que se estenderam rapidamente a todo o mundo – falamos de “globalização”, um conjunto enorme e complexo de interacções entre pessoas e grupos que são asseguradas por ligações ubíquas. A globalização mudou – está a mudar – de forma drástica a economia, a sociedade, a política e a cultura. Não é por acaso que entre as dez companhias mais valiosas do mundo se encontrem a Microsoft, a Apple, a Amazon, a Alphabet (que inclui a Google), o Facebook e o Alibaba.
Ciência na base da comunicação
Se o aparecimento da escrita e da imprensa escrita foram inovações técnicas anteriores ao aparecimento da ciência moderna, já as inovações dos séculos XIX e XX foram resultado dessa ciência. Na base da “aldeia global” em que se transformou o planeta está a observação cuidadosa (muitas vezes ajudada por instrumentos), a experimentação (que mais não é do que observação em condições controladas) e o exercício da razão (que recorre em geral à matemática). De facto, antes da Revolução Industrial (cujo início se faz remontar ao final do século XVIII, com a invenção da máquina a vapor), foi a Revolução
Científica, saída das mentes de génios como Copérnico, Galileu e Newton nos séculos XVI e XVII que mudou o mundo de uma maneira irreversível: passou a haver uma metodologia que se podia aplicar sistematicamente para alargar o nosso horizonte de conhecimentos. O jurista e filósofo inglês Francis Bacon, contemporâneo de Galileu, anteviu a sociedade actual, assente na ciência e na tecnologia, no que pode ser considerado o primeiro conto de ficção científica: A Nova Atlântida (1626).
Uma componente essencial do método científico complementa as três componentes atrás referidas: a crítica feita por “pares” permite o estabelecimento de consensos científicos. Uma afirmação a respeito do mundo só fica provada se não for encontrado nenhum erro no processo da sua criação e os erros são mais rapidamente eliminados se houver partilha de informação. A Revolução Científica só foi possível porque a imprensa, que lhe é anterior, permitiu a difusão de conhecimento. A obra maior de Copérnico é a Revolução dos Orbes Celestes (1543) que sai no ano da morte do autor e que tanta celeuma haveria de provocar no mundo cristão. Galileu escreve as sua sobras mais significativas em italiano, e não em latim, para chegar a mais gente. Newton, com o patronato da Royal Society de Londres. A sociedade científica a que ele pertencia (presidiu a ela durante longos anos) escreveu, em latim, Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (publicada em 1687, com primeira tradução inglesa vinda a lume em 1726). Quer dizer, não há ciência sem uma comunidade científica, que mantém vigilância atenta sobre a correcta aplicação do método científico. Os conhecimentos são acumuláveis, tendo os novos de “encaixar” nos velhos.
Se é verdade que a moderna comunicação é um resultado directo da ciência, não é menos verdade que, no âmago da ciência, estão processos comunicacionais. Assim, não admira que o desenvolvimento das tecnologias da comunicação tenha servido para alimentar a própria ciência. No século XIX o telégrafo e a TSF serviram para a comunicação de novidades científicas. Nas décadas mais recentes, a WWW transformou a sociedade e a própria ciência. É curioso assinalar que a WWW foi um spin off da física fundamental: os físicos de altas energias, congregados no Centro Europeu para a Investigação Nuclear – CERN na Suíça na busca de partículas e forças fundamentais, apenas queriam partilhar os seus dados, não podendo imaginar o impacto que os protocolos desenvolvidos para a comunicação científica viriam a ter no mundo em geral. Uma vez que a criação de ciência é uma actividade comunitária, não admira que o email e as conferências Skype, ou análogas, tenham passado a ser meios indispensáveis da produção científica. A maior parte das revistas científicas passaram a ser electrónicas e criaram-se arquivos digitais. Em 1991 foi criado o ArXiV, um arquivo de preprints electrónicos de artigos científicos nas áreas da matemática, da física e da biologia fundamental, que contém mais de um milhão de artigos (são depositados mais de 10.000 por mês) Criou-se há alguns anos um movimento, chamado de Open Access, que se destina a pôr os resultados da investigação científica acessíveis, através da Internet, de forma livre e gratuita, não só a toda a comunidade científica, mas urbi et orbi a quem possa estar interessado. Existem hoje mais de 12.500 jornais científicos só de acesso aberto, embora muitos outros tenham um sistema misto. Os chamados repositórios institucionais oferecem a produção científica feita no seu interior: por exemplo, no “Estudo Geral”, repositório da Universidade de Coimbra, encontram-se, a esta data, 441 trabalhos meus (https://estudogeral.sib.uc.pt/ cris/rp/rp04989?startall=400). Em Portugal existe um metarepositório, que reúne os vários repositórios institucionais, os Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal, RCAAP: www.rcaap.pt
Desinformação e cultura científica
Mas o feitiço virou-se de alguma forma contra o feiticeiro, vendo-se a ciência vítima do seu próprio sucesso. Com a WWW qualquer um pode ser tanto emissor como receptor de informação, não havendo uma possibilidade fácil de filtros que separem a informação da desinformação, isto é, informação inválida, sem suporte factual. As redes sociais, como Facebook, fomentaram esse fenómeno. Assim a Internet, sendo indubitavelmente um repositório valioso de conhecimento, contém, como numa mina de ouro, minério rodeado e por vezes enleado numa ganga de desinformação. Em vez da “verdade”, passaram a proliferar “verdades alternativas” (alguns falam de “pós-verdade”). Em vez de notícias, passaram a existir “notícias falsas” (fake news). Em detrimento das ciências, ganharam volume as pseudociências. Não deixa de ser paradoxal: Usando os meios proporcionados pela ciência, a pseudociência, que sempre existiu, ganhou uma escala nunca vista. Numa premonição notável, o astro-físico e divulgador científico norte-americano Carl Sagan, em 1990, num artigo publicado na revista Skeptical Inquirer, tinha dito: “Vivemos numa sociedade extremamente dependente da ciência e tecnologia, na qual muito poucas pessoas sabem alguma coisa sobre ciência e tecnologia. Isto é uma clara receita para o desastre.” A mistura entre poder e ignorância, bem patente na Casa Branca em Washington DC e no Palácio do Planalto em Brasília, está-nos hoje a explodir na cara.
Não podemos adivinhar as consequências da mistura entre poder, baseado na ciência e tecnologia, e ignorância, desconhecimento da ciência e tecnologia e não só. Um poder ignorante pode travar o esforço científico, colocando em causa não só o desenvolvimento civilizacional futuro como as nossas actuais condições de vida. Se a ciência deixa de dispor de meios adequados, não poderemos enfrentar grandes problemas que nos assolam, onde avulta a magna questão das alterações climáticas, a alteração que o homem publicou no seu planeta. Se no passado se poderia invocar o desconhecimento dos efeitos da acção humana, esse já não é o caso nos dias de hoje. Por outro lado, há desafios e ameaças relacionadas com a ciência, como os que derivam da edição genética ou da inteligência artificial. Para podermos dispor de meios que nos permitam a continuação da vida na Terra, em condições não inferiores às que desfrutamos hoje (tem havido um desenvolvimento do nível de vida no globo, embora continuando desigualdades gritantes), há um aspecto crucial da comunicação sobre o qual convém reflectir. É que a ciência não apenas precisa de comunicação externa como precisa – tanto quanto da primeira – de comunicação com a sociedade, com o público que é o primeiro motor da ciência. De facto, a ciência não é dos cientistas, mas de todos. São os cientistas que respondem a questões, mas estas são da humanidade inteira, pelo que convém que as respostas, ainda que permanentemente parciais, sejam entregues aos interessados que somos nós todos. Para isso, terão de se usadas todas as possibilidades de comunicação existentes, na medida da sua eficácia conhecida, para que a ciência – não apenas o corpo de conhecimentos, em continua mutação, mas o método que gera primeiro conhecimentos e mais tarde aplicações – esteja mais perto do grande público. Não se trata apenas de ver a ciência como uma fonte de benefícios materiais, mas sim e acima de tudo de ver a ciência como a fonte desse benefício imaterial, o primeiro e o mais fundamental dos benefícios, que é o conhecimento humano. O matemático francês Henri Poincaré escreveu em O Valor da Ciência (1905): “Não digo que a ciência é útil porque nos ensina a construir máquinas; digo que as máquinas são úteis porque, ao trabalhar para nós, um dia nos deixarão mais tempo livre para fazer para ciência.” Claro que se pode acrescentar – e Poincaré pensava isso – para desfrutar as artes, porque para ele tanto as ciências como as artes estavam na base da civilização.
Logo no século XIX houve cientistas que tiveram a visão da necessidade de levar a ciência ao público. Vale a pena olhar para o caso do Reino Unido, o país de Francis Bacon e de Newton onde começou a Revolução Industrial: O físico inglês Michael Faraday fazia, na Londres vitoriana, shows de demonstrações científicos e escreveu livros acessíveis de popularização de ciência. Outro inglês, Charles Darwin, escreveu uma das teoria científicas mais notáveis num livro A Origem das Espécies (1859) escrito directamente para o público – um livro que ainda hoje está no mercado e que pode ser lido por um leigo interessado (do atraso científico em Portugal fala eloquentemente o facto de a tradução portuguesa ter demorado 43 anos; nas artes não foi melhor: a 9.a Sinfonia de Beethoven demorou 101 anos a estrear entre nós). No século XX, a progressiva especialização do saber levou a uma cada vez maior separação da cultura científica e tecnológica, por um lado, e da cultura artística e literária, por outro. Em 1959 o inglês Charles P. Snow, também conhecido por Lord Snow, que era ao mesmo tempo um físico-químico e um escritor literário, intitulou uma conferência que deu em Cambridge As Duas Culturas, chamando a atenção para o fosso que existia entre as ciências e as letras. A identificação do problema não significou a sua resolução: ainda hoje é reconhecido um certo isolamento da ciência no seio da cultura. Continua a haver duas culturas que não comunicam facilmente, em vez de se reconhecer a ciência como uma parte da vasta cultura humana. No Reino Unido, surgiu em 1985 um relatório da Royal Society (conhecido por Relatório Bodmer, do nome do geneticista britânico Walter Bodmer) que expressava a preocupação com a “compreensão da ciência pelo público”. Essa tentativa tem conhecido novas formas, incluindo o aparecimento de cátedras em várias universidades dedicadas à compreensão pública da ciência. Um dos actuais movimentos mais inovadores neste contexto é o da “ciência cidadã” (citizen science), que consiste na possibilidade de o público ajudar nalgumas actividades de ciência: os amadores podem, de facto, contribuir para progresso da ciência. Um exemplo interessante é a possibilidade de dar parte de tempo de cálculo dos computadores domésticos para participar em projectos globais de computação (como por exemplo saber o clima futuro do planeta), mas outras formas de participação envolvem o fornecimento de dados sobre o ambiente, a biodiversidade, o espaço, e até o funcionamento do corpo humano, etc.
O caso português
Se o caso britânico é paradigmático, o caso português não deixa de ser interessante. Portugal é um país onde a ciência – e, portanto, a comunicação de ciência – tardaram a disseminar-se. Nos séculos XIX e XX, quando o mundo as grandes transformações mencionadas, Portugal beneficiava das novas possibilidades tecnológicas apenas na medida em que as podia comprar e não tinha em geral capital para o fazer. O telégrafo eléctrico foi comprado, no Porto para tratar dos negócios e em Lisboa para facilitar a governação já ele estava estabelecido há anos noutros sítios. Se um professor ou investigador português vislumbrava a possibilidade de concretizar uma nova tecnologia (com aconteceu com o conceito de televisão, que ocorreu a Adriano Paiva, no Porto, em 1878), não dispunha dos meios suficientes nem do ambiente necessário para que sua ideia pudesse ser levada à prática. Havia interesse das camadas mais cultas da sociedade pelas novidades da ciência e tecnologia, um interesse que alimentado por uma variedade de livros e periódicos, mas essas camadas formavam um grupo muito restrito da população, já que a maior parte desta permaneceu ao longo do século XIX e em boa parte do século XX analfabeta, por deficiência de escolarização. O século XX, apesar das esperanças alimentadas pela implantação da República, não trouxe melhorias substanciais. As tecnologias de comunicação, baseados nos transístores e nos cabos ópticos, vinham de fora como dantes tinha vindo o telégrafo e a TSF. Com a Revolução de 25 de Abril de 1974 e com a entrada na Comunidade Económica Europeia em 1986 houve uma cada vez maior escolarização no ensino superior e um investimento maior na ciência e na tecnologia. Esse investimento foi acompanhado por um investimento na disseminação da cultura científica, tendo aí sido proeminente o papel de José Mariano Gago, o físico que primeiro ocupou a pasta da Ciência e Tecnologia. Os cientistas portugueses, em número cada vez maior, foram reconhecendo progressivamente a necessidade de dialogar com o público. A imprensa escrita de referência passou a ter secções de ciência, embora a rádio e a televisão permanecessem neste aspecto deficitárias. Foram publicados livros de ciência – a colecção mais emblemática que já dura há mais de três décadas e inclui até à data 234 títulos é a “Ciência Aberta” da Gradiva, onde há cada vez mais autores portugueses (já se chamava “Ciência Aberta”, nome adoptado antes de ter começado o moderno movimento da Open Science, de que o Open Access é a face mais visível). Surgiram centros e museus de ciência, alvo do interesse dos mais jovens. Em Coimbra, fundei em 2008 o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (www. uc.pt/iii/romuloccv) , cujo nome presta homenagem ao professor de Física e Química e escritor Rómulo de Carvalho, que usava o pseudónimo literário de António Gedeão, e que é para além de uma biblioteca e de um repositório de cultura científica (https:// am.uc.pt/romulo/items) também um espaço de encontro interdisciplinar e de partilha de saberes. Pode-se dizer hoje que há um interesse em Portugal pela ciência – não há em Portugal a mesma vaga de desconfiança que ameaça alguns países mais desenvolvidos e que é potenciada pelas redes sociais – mas o certo é que isso acontece ao mesmo tempo que há alguma indiferença. Sim, pensarão os portugueses, a ciência é em princípio uma coisa boa, mas não é para mim.
Estou em crer que os portugueses, tal como os outros cidadãos deste mundo global, estão interessados em saber mais e melhor, até porque esta é a única possibilidade de poder desfrutar de uma vida mais longa e saudável. É preciso para isso que as entidades públicas e privadas confluam em alimentar a cultura científica em Portugal. E, neste mundo em que todos nós podemos ser emissores, é preciso que nos empenhemos, com os meios e as capacidades de que dispomos, em espalhar cultura científica. Os modernos meios de comunicação estão à nossa disposição e o mais provável é que surjam outros, ainda mais poderosos. Francis Bacon disse que “saber é poder”: não podemos deixar que a ignorância seja poder. O empenho da cultura científica tem de ser comum. Tudo deve começar na escola, que não perdeu o seu papel essencial na aprendizagem da informação e comunicação, mas a vida hu- mana só é possível através da comunicação permanente.

AÇORES, LUGAR DE CIÊNCIA


Meu texto no último As Artes entre as Letras (na figura erupção do Vulcão dos Capelinhos em 1957):

Não se sabe ao certo quando as ilhas do arquipélago dos Açores foram encontrados, mas há uma referência incontestável num mapa que indica para a chegada dos primeiros portugueses o ano de 1427, cerca de oito anos depois do arquipélago da Madeira. Desde então os Açores têm sido um lugar de ciência.

No século XVI distinguiu-se o padre Gaspar Frutuoso (c.1522 - 1591), um historiador e humanista micaelense. Bacharel em Artes e Teologia pela Universidade de Salamanca, e mais tarde doutor em Teologia, destacou-se pela obra Saudades da Terra (em seis volumes, escrita entre  1586 e 1590; o manuscrito apenas foi descoberto no século XIX),  uma pormenorizada descrição histórico-geográfica dos arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde - a chamada Macarronésia - e outras regiões atlânticas. O escrito inclui apontamentos sobre a geologia e biologia dessas ilhas vulcânicas, havendo quem o considere o primeiro vulcanologista.

As ilhas são laboratórios de História Natural. Na história da ciência biológica, os Açores ficaram marcados por terem sido ponto de paragem  de Charles Darwin no Beagle, em 1896 quase no fim da sua viagem de circumnavegação. Existem referências aos Açores assim como à Madeira na Origem das Espécies (1859), apesar de, no Diário da Viagem Darwin ter dito que não encontrou nada de especial na Terceira. A teoria da evolução entrou em Portugal pela pena do lente coimbrão de Botânica Júlio Henriques, que propôs em 1865, na sua tese de conclusão de curso, que ela tinha aplicação na espécie humana: “Parece pois que na espécie humana tem completa aplicação a teoria de Darwin. A muitos desagradará a ideia de que o homem é um macaco aperfeiçoado. Mas se Deus nos deu a razão, se hoje o progresso e o desenvolvimento intelectual nos coloca tão longe do restante do mundo animal, que importa a origem?”

Um outro receptor pioneiro do darwinismo e até correspondente de Darwin foi um ilustre naturalista da ilha de S. Miguel Francisco de Arruda Furtado (1854-1887), que realizou uma obra extraordinária apesar da sua curta vida. Em 1881 entrou numa polémica com um padre açoriano que tinha contestado a aplicação da teoria da evolução ao homem. Pregou o padre:  “E ainda há sábios que acreditam que o homem descende do macaco!... Nós somos todos filhos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...” E respondeu, num prospecto, Arruda Furtado: “Não há sábios que acreditam que o homem descende do macaco (...) mas que ambos deveriam ter sido produzidos pela transformação de um animal perdido e mais caracterizado como macaco do que como homem. Eis o que se disse e o que se diz e, se isto não se prova, o contrário também não”. Arruda tinha razão!

O mentor de Arruda Furtado foi Carlos Machado (1828-1901), que foi  um micaelense médiconaturalista, professor liceal, reitor do Liceu Nacional de Ponta Delgada e governador civil do distrito de Ponta Delgada. Foi o fundador do Museu Açoreano (1880), que é o mais antigo dos museus açorianos e um dos mais antigos museus nacionais. A instituição chama-se, justamente, desde 1914, Museu Carlos Machado. Vale a pena vê-lo, nos seus três pólos, em Ponta Delgada. Algumas peças da colecção podem ter vindo de Arruda Furtado, que trabalhou em Lisboa no museu que hoje se chama Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

A recepção de Darwin deu-se também entre os literatos. O micaelense Antero de Quental (1842-1891) tem um soneto intitulado “Evolução”, onde deixou os versos: “Hoje sou homem, e na sombra enorme / Vejo, a meus pés, a escada multiforme, / Que desce, em espirais, da imensidade... “ Curioso como fala em espiral muito antes de se saber da dupla hélice do ADN…

Os Açores sempre foram um sítio privilegiado para estudar os sismos e os vulcões, dois fenómenos associados. Alguns sismos nos Açores causaram numerosas vítimas, a começar pelo grande terramoto de São Jorge de 1757, conhecido por “Mandado de Deus”, que causou mais de mil mortos. Dois anos antes já o Grande Terramoto de Lisboa tinha sido a causa de um tsunami que varreu as ilhas açorianas. Em 1808 deu-se a erupção do Vulcão da UrzelinaSão Jorge, que foi tema de uma carta de John Dabney ao presidente americano Thomas Jefferson. Em 1811, ocorreu uma erupção vulcânica submarina ao largo da Ferraria, São Miguel, que criou a ilha Sabrina, objecto de uma narrativa do capitão inglês James Tillard. A ilha desapareceu sem deixar rasto e com ela a bandeira inglesa que lá tinha sido espetada. Em 1867 houve uma outra erupção submarina, desta vez ao largo da SerretaTerceira, que foi visitada pelos franceses Charles Deville e Pierre Janssen. Porém, a mais espectacular erupção submarina foi a de 1957-58, o vulcão dos Capelinhos, Faial. Foram testemunhas do evento, que pela primeira vez acontecia numa ilha habitada com boas comunicações, entre outros sábios, o francês Haroun Tazieff, vulcanólogo, e os portugueses Orlando Ribeiro (1911-1997), geógrafo,  e Frederico Machado (1918-2000),  engenheiro civil e vulcanologista. Vale a pena ver o sítio, uma paisagem lunar, e o centro interpretativo subterrãneo. Nos tempos mais recentes, houve em 1980  um terramoto na TerceiraSão Jorge e Graciosa, que causou 71 mortos.

Mas os Açores também tem grande interesse para a oceanografia e para a meteorologia. Na oceanografia destacou-se a visita feita por Alberto I do Mónaco (1889-1922), que descobriu o grande banco a sul da ilha do Pico, a que chamou Banco Princesse Alice. Foi amigo do rei D. Carlos I, também ele oceanógrafo, que visitou os Açores em 1901. Na meteorologia distinguiu-se Francisco Afonso Chaves (1857-1926), naturalista e geofísico, que criou em 1901 o Serviço Meteorológico dos  Açores e cujo nome está associado à Sociedade Afonso Chaves, que edita a revoista Açoreana. Em 1927, o norueguês Jacob Bjerknes, uma das maiores sumidades da meteorologia, visitou Portugal. O dirigente dos Serviços Meteorológicos da Marinha António de Carvalho Brandão tinha anunciado a intenção portuguesa de criar uma nova estação nos Açores. Bjerknes afirmou então que essa estação resolveria "um problema que diz respeito às instituições científicas europeias encarregadas do estudo e previsão do tempo“ devido à falta de dados sobre o Atlântico Norte, que são assaz relevantes por causa do anticiclone dos Açores. Em 1929 ficou operacional  Estação Meteorológica Internacional do Faial, que passou a integrar uma rede que cobria o Atlântico. Pela sua especial posição geográfica os Açores contribuíam, mais uma vez, para a ciência mundial.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

X JORNADAS DE DIREITO DO CONSUMO

X JORNADAS DE DIREITO DO CONSUMO & I CONGRESSO INTERNACIONAL sob a consigna "CONSUMO SUSTENTÁVEL", com que se celebrará o DIA MUNDIAL DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR, no Auditório – Edifício B – da ESTG, em Leiria, a 12 e 13 de Março próximo.

O tema é, ademais, pertinente: Nações Unidas e União Europeia elegem-no como um dos objectivos marcantes por que há que pugnar incessantemente.

Leiria, Fevereiro de 2020

Mário Frota, presidente apDC
Carlos Capela, director ESTG /Politécnico de Leiria

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

200 MILHÕES DE CÓPIAS: HOJE NO RÓMULO EM COIMBRA APRESENTAÇÃO DO LIVRO SOBRE O LIVRO MAIS VENDIDO DE SEMPRE EM PORTUGAL:



HOJE, dia 19 de Fevereiro, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, será apresentado o livro “A Bíblia em Portugal – Vol. 4”, pelo autor Frei Herculano Alves, com a moderação de Carlos Fiolhais, Director do Centro.

A Bíblia de João Ferreira Annes d'Almeida, obra de Frei Herculano Alves, OFMCap.

O Vol 4 é totalmente dedicado à Bíblia de João Ferreira e Almeida (1.ª edição 1681 em Amsterdão) redigida em Jacarta, na Indonédia, por aquele pastor protestante, natural de Mangualde. As traduções de Almeida, em geral revistas, alcançaram até hoje tiragens que totalizam mais de 200 milhões de exemplares, um verdadeiro recorde da edição em porrtuguês. É um livro global, distribuído em todo o mundo,. mas que teve dificuldade em entrar em Portugal.

 Biografia de Frei Herculano Alves
Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Coimbra; Doutorado em Ciências Bíblicas pela Universidade de Salamanca e autor várias dezenas de artigos científicos e de vários livros. Este IV volume insere-se numa obra de grande fôlego em 6 volumes sobre A BÍBLIA EM PORTUGAL.
Elogio do historiador João Paulo Oliveira Costa:
“A obra que o leitor tem em mãos, e que agora conhece nova edição, é o resultado de uma investigação extensa e sistemática levada a cabo pelo reverendo padre Herculano Alves e que foi apresentada em forma de dissertação de doutoramento à Universidade de Salamanca, em 2005. Trata-se de um estudo sistemático, assaz elucidativo da relevância e do impacto da obra de João Ferreira de Almeida e que nos transporta para o espírito ecuménico que tem aproximado muitos cristãos nas últimas décadas (…). Concluo este breve comentário salientando que este estudo enquadra magistralmente a figura de João Ferreira de Almeida na história da cultura portuguesa pelo que é de louvar esta iniciativa que enriquece de sobremaneira a nossa cultura.” 
João Paulo Oliveira e Costa
A entrada é livre.