quarta-feira, 27 de julho de 2016

DISCIPLINA NA APLICAÇÃO DOS CONHECIMENTOS


Novo texto de Nuno Pereira:

    O êxito académico, nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, assenta predominantemente na capacidade lógico-matemática e na linguística. Daí que muitas vezes sejam desvalorizados alunos com menor domínio do raciocínio lógico e da linguagem, mas dotados doutras competências, como a espacial, a musical, a cinestésica ou a emocional, importantes para o êxito em determinadas profissões ligadas, por exemplo, às artes visuais, à música, ao desporto ou à liderança, respetivamente. Mesmo num ensino centrado no aluno com respeito pela pluralidade do intelecto, todos têm de saber responder a questões, resolver problemas, produzir textos, compreender e expressar-se a nível oral e escrito. Há porém frequentemente descontinuidade entre o conhecimento da matéria e a sua utilização proficiente. Muitos jovens, quando postos perante uma prova, bloqueiam ou saltam precipitadamente para conclusões erradas por processamento defeituoso da informação fornecida, devido a ansiedade excessiva e/ou falta de disciplina intelectual. Pensar de modo racional exige esforço e controlo da atenção. O que é natural para uns não é para outros. Ora cumprir uma série ordenada de etapas permite manter concentrada a atenção e corrigir inconsequências.

    Evidentemente, os alunos com dificuldades beneficiam mais em utilizar estratégias simples de carácter geral, passíveis de aplicar a muitas situações. Nas questões, por exemplo, de indicação, justificação, relacionação ou determinação, adquirir o hábito de, primeiro, salientar o pedido e os dados (se houver) e, depois, ligá-los à solução, num encadeamento completo e com sentido. Também na produção de textos de tipologia variada, nomeadamente descritivos, narrativos, argumentativos ou científicos, manter presente a linha comum dos três passos clássicos – introdução, desenvolvimento e conclusão. No caso particular duma língua estrangeira, desenvolver a compreensão e a expressão orais e escritas, através dum programa acelerador da aprendizagem e complementar das aulas, que sistematize todo o edifício da língua e crie, por meio áudio, condições próximas da primeira socialização dos nativos, baseada na imitação. Para tal, organizar um conjunto de lições compactadas, com apresentação progressiva de uma parte estrutural (padrões lexicais) e outra dinâmica (conversação), o que, mediante a leitura, a escrita, a audição e a reprodução imediata ao ritmo de cada um, permita não só adquirir a pronúncia correta, como interiorizar as regras gramaticais, sem recurso às reiteradas explicações e aos penosos exercícios.

    Aprender a refletir de modo disciplinado torna a acumulação de conhecimentos num saber ativo. Porém, a simplicidade deve constituir a pedra angular de todo o processo para haver melhoria do desempenho com menor esforço.
                                           
                                                                       Nuno Pereira (psiquiatra)
 

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