sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"Porque não nos interrogamos sobre estas coisas?"

Jerome Bruner, que fará em Outubro próximo cem anos, é um dos mais importantes cientistas daquilo que ficou conhecido como a "Revolução cognitivista", iniciada pelos anos de 1960.

Nos seus trabalhos deu, desde cedo, especial atenção à educação escolar. Ainda que nem todos os conceitos pedagógicos que apresentou estejam isentos de crítica, a sua fundamentação e implicações para o ensino e a aprendizagem constituem um referente de pensamento.

Como muitos outros autores com obra científica sólida tem sido pouco e mal lido e ainda pior compreendido, ainda que muitíssimo citado. Por isso mesmo, vale a pena voltar aos seus (já clássicos) escritos.

Poder-se-á começar por este livro - Cultura da Educação - de 1996, que é essencialmente um retomar de questões ou inquietações educativas que mais o ocuparam, postas em palavras simples, para o leitor comum.

Encontramos um exemplo, sem resposta da sua parte e, provavelmente, da nossa, nas páginas 122-123 da edição portuguesa (Edições 70):
"... passo a descrever uma visita que me fizeram dois altos oficiais do departamento educativo da Rússia. Pensava eu que me esperava mais uma discussão do costume: a teoria inicial do Bruner sobre o ensino da estrutura de uma disciplina (normalmente a matemática) ou sobre a concepção de um currículo em espiral. Mas não era nada disso. 
«Que havemos de fazer agora», perguntavam eles, «quanto ao ensino da história da Rússia do último século, incluindo os setenta e cinco anos do regime comunista? Ensiná-la como um grande erro? A Rússia de olhos vendados pelos oportunistas do Partido do Kremlin? Ou será que o passado pode ser reinterpretado de modo a fazer-se sentido não só do passado e das suas tragédias, mas da forma como o futuro poderia ser configurado? 
«Você», dizia um deles, «tem escrito sobre história e a cultura enquanto narrativa, sobre a necessidade da actualização e da reinterpretação permanente das narrativas passadas. Portanto como levaremos a nova geração a reflectir sobre a sua história e a reconstituí-la Como haveremos nós de nos salvar de um novo engano?» 
A discussão continuou para lá da meia-noite (...) Na manhã seguinte, pensava eu: porque não nos interrogamos sobre estas coisas?"

2 comentários:

  1. Bruner foi um dos principais divulgadores da obra de Vygotsky no ocidente. Ao defender que “qualquer assunto pode ser efectivamente ensinado de alguma forma intelectualmente honesta a qualquer criança em qualquer fase de desenvolvimento”, reconhecia que “a aprendizagem precede o desenvolvimento” (Vygotsky), refutando o formalismo dos estádios de desenvolvimento de Piaget e o seu corolário - “o desenvolvimento precede a aprendizagem”.
    Ao afirmar, em A Cultura da Educação, que “Connosco carregamos hábitos de pensamento e de discernimento fomentados por certo professor de uma aula quase esquecida”, Bruner mostra ainda que o papel e a importância do professor vai muito além do “mero facilitador das aprendizagens” (frase absurda que ouvi papaguear milhentas vezes, enquanto professor), e que a interacção social e a cultura jogam um papel fundamental no desenvolvimento da cognição (Vygotsky).

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  2. Agradeço ao leitor Fernando Caldeira o seu comentário esclarecedor. Efectivamente, Bruner e Piaget distanciam-se em diversos aspectos, mas o que aponta é, no meu entender, essencial. Trata-se de uma conceptualização basilar da educação escolar, dela decorrendo necessariamente a abordagem pedagógica e didáctica.
    Para se ensinar, não é, pois, indiferente, seguir-se a perspectiva de Bruner ou a perspectiva de Piaget. Extraordinário é que tão poucas pessoas vejam isso. Tanto em textos académicos como curriculares, estes dois autores são (frequentemente mal) citados numa linha de coerência, como se fizessem parte da uma mesma teorização difusa, algo em que se colam desajeitadamente elementos cognitivistas e construtivistas.
    Quanto à expressão “mero facilitador das aprendizagens” (que até Piaget acharia um exagero, certamente tirar-lhe-ia o "mero") garanto-lhe que ela continua a ser escrita e dita com enorme frescura. E alguns dos muitos que continuam a fazer finca-pé nela são professores. Parece-me que isto diz muito acerca da infiltração de estranhas ideias pedagógicas no nosso modo de pensar.
    Cordialmente,
    MHD

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