sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU

 Novo poema de Eugénio Lisboa:

 

Amores, amizades, descobertas,

a terra, o mar, o sol, as lindas pretas,

o mundo todo de portas abertas,

a leitura e o sondar doces gretas…

 

A promessa de enormes promessas,

o mar a sugerir mundos remotos,

grandes saberes e aventuras possessas,

os mundos fruídos e os ignotos!

 

Que grande era o mundo que se via

e maior o que ainda não havia!

Viver sabia a novo e era novo,

 

como a carícia e o beijo que rondava.

A todo o momento se acrescentava

ao antigo, um desejado renovo!


Eugénio Lisboa

 

 

Super propriedades das estrelas de neutrões | Ciência às Seis (on-line)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

A História dos Paladares ou Saberes e Sabores

 


Meu artigo mais recente no As Artes entre as Letras:

Saiu no final de 2021, do prelo da Prime Books, o segundo volume da monumental trilogia História dos Paladares de Deana Barroqueira, escritora portuguesa nascida em 1945 na diáspora portuguesa nos Estados Unidos. A autora promete-nos um terceiro volume, que já está entregue na editora e deve sair ainda este ano. O primeira volume tem o título de Sedução, o segundo volume 2 designa-se, adequadamente, por Perdição e o terceiro volume chamar-se-á, felizmente, Redenção.

O primeiro volume, saído também em 2021, teve uma muito boa receção dos leitores e da crítica, que foi coroada pelo Prémio Internacional da Literatura Gastronómica, da Académie Internacional de la Gastronomie, em França. Soube entretanto que os dois volumes foram nomeados para os Gourmand World Cookbook Awards 2022 (os «óscares da Gastronomia»), nas categorias de História da Culinária e de Séries. É natural motivo de contentamento para aautora e para todos os seus ávidos leitores, entre os quais me incluo: as obras, quer ganhem ou não, entraram na lista dos 1% melhores livros do mundo do seu género, em 227 países. A gastronomia portuguesa (já que os livros se centram sobretudo na história da gastronomia portuguesa) está bem e recomenda-se.

Deana Barroqueiro escreve na linha de gastrónomos José Quitério e Alfredo Saramago, que nos regalaram com livros muito enriquecedores sobre o que comemos. Barroqueiro tem uma grande bagagem de cozinha e gastronomia e escreve bem: não só foi durante três décadas e meia professora de Literatura Portuguesa e Francesa como tem a mão treinada por um conjunto de obras que conquistou leitores: começou com livros infantis como Uraçá: O índio branco (Livros Horizonte, 2002), continuou com livros inspirados na Bíblia como Contos Eróticos do Velho Testamento, com prefácio de Maria Teresa Horta (Livros Horizonte, 2003; reedição: Planeta Manuscrito, 2018), traduzido em Espanha, Itália e Brasil; e estendeu-se por volumosos romances históricos que se baseiam na história portuguesa, em particular nos períodos da Expansão Marítima e da União Ibérica: O Navegador da Passagem: A história de um descobridor de mundos que o mundo ignorou (Porto Editora, 2008); O Espião de D. João II: Na demanda dos segredos do Oriente e do misterioso Reino do Preste João (Ésquilo, 2009; reedição: Casa das Letras, 2015); O Corsário dos Sete Mares: Fernão Mendes Pinto (Casa das Letras, 2012); D. Sebastião e o Vidente: Um romance de conspiração, mistério e revelação (Porto Editora, 2006; reedição: Casa das Letras, 2016), que recebeu o Prémio Máxima de Literatura 2007 - Prémio especial do júri, e se tornou um best-seller; e 1640. O poeta, a professa, o prosador, o pregador (Casa das Letras, 2017). A autor ganhou, pelo seu estudo e divulgação da cultura portuguesa no espaço da lusofonia, o Prémio Femina 2021.

Se o primeiro volume da trilogia, que me surpreendeu, tinha 486 páginas, o segundo volume só fica um pouco atrás, com 396 páginas. Tem, tal como o primeiro, muitas receitas antigas: a capa informa que são 211. Como diz a autora numa carta aos leitores: «Ao volume de Perdição, interessa a culinária como conceito estético e, sobretudo, a gastronomia, enquanto ramo do saber relevado á categoria das arte, portanto, produto de civilização. Através de uma profunda pesquisa individual de artigos e livres antigos e contemporâneos, procurei explorar o lado simbólico, ideológico e artístico da alimentação, condimentando-o com o sal e a pimenta das minhas memórias, emoções e paixões.» E, mais adiante: «A História dos Paladares é uma encruzilhada, ou melhor um labirinto de sabores e saberes onde temi perder-me a cada canto, a cada nicho - cozinha regional tradicional, nacional, internacional, oriental, étnica, gastronómica, molecular ou de desconstrução (…) pela densidade da informação recolhida». A autora tece uma malha, ajudada pelo grafismo, onde nos podemos prazerosamente perder, seja com histórias, seja com informações úteis, seja com receitas. Pode-se começar em qualquer lado e andar para a frente ou para trás….

O livro está dividido em sete capítulos, cada um deles definido por três palavras: I- Memoriais. Editados. Impressos. II- Aprimorados. Civilizadores. Progressistas. III- faustosos. Pantagruélicos. Opulentos. IV- Encobertos. Prodigiosos. Virulentos. V- Sacralizados. Sacrílegos. Bentos. VI- Ocultistas. Necromânticos. Antropofágicos. E, finalmente, VII- Freiráticos. Conventuais. Pecaminosos. No capítulo I a autora transporta-nos aos banquetes romanos e traz-nos o primeiro livro de cozinha português, No capítulo II, fala-nos do grande chef francês Auguste Escoffier e a da cozinheira Rosa Maria (um pseudónimo, que talvez seja de um homem), autora no século XX da Cozinheira das Cozinheiras que a mãe da autora levou e trouxe da América (pelo meio, podemos aprender «um remédio pera as mulheres que casarem pareçam donzelas»). No capítulo III ficamos a saber como foi a primeira boda da dinastia de Avis e o que se comia na corte do Preste João das Índias. No capítulo IV, aprendemos os sabores de São Tomé e os sabores de Macau. No capítulo V conhecemos como é que Santo Inácio de Loyola comprou uma viagem com biscoitos e como é a culinária sagrada de comida-de-santo no Brasil. No capítulo VI ficamos arrepiados com cenas de canibalismo e com as greves da fome que Isabel do Carmo fez quando esteve presa em Custóias. No capítulo VII, por último, surgem uma história fantástica do Convento de Odivelas, onde João V costumava ir, e a deliciosa receita dos pastéis do convento de Tentúgal. Estas são apenas algumas pormenores de um quadro muito rico apresentado em Perdição. Com uma lista bibliográfica muito completa e um receituário no final, só faltou um índice, para nos ajudar a encontrar qualquer nome ou iguaria. Mas tanto fez a autora que só lhe podemos estar gratos por este pantagruélico livro.

Ficamos, cheios de água na boca, a aguardar pelo terceiro volume. Depois da Sedução e Perdição, precisamos ansiosamente de Redenção.

 

 

 

DESAFIOS DA CIÊNCIA EM 2022


MEU MAIS RECENTE ARTIGO NA CIÊNCIA NA IMPRENSA REGIONAL:

Em ciência, para cada questão respondida, abrem-se logo outras que pedem resposta. Entramos no ano de 2022 com várias questões por responder. E temos esperança de que, se não forem respondidas neste ano, sê-lo-ão nos seguintes. O sábio português Garcia da Orta afirmou, no século XVI, que «o que não sabemos hoje, amanhã saberemos».


Algumas descobertas são inesperadas. Mas outras são o resultado de cuidadosos planeamentos e prolongados esforços. Ofereço aqui uma lista de desafios da ciência nos quais, pelo que está planeado, haverá avanços a curto prazo. Privilegiei as descobertas da Física ou relacionadas e dentro destas, por serem mais mediáticas, as que têm a ver com o espaço. Mas a biomedicina é um vasto campo onde vai continuar a haver progressos tremendos.


A NASA vai encher-nos de notícias. O telescópio espacial James Webb, da NASA e da ESA, o maior de sempre, começará a enviar as suas imagens do Universo em Junho próximo. O telescópio, que já abriu completamente, está em rota para a sua posição em órbita solar. Será descoberta a luz das primeiras estrelas e serão descobertos novos exoplanetas, com boa probabilidade alguns deles parecidos com a Terra. Em 24 de Setembro, culminará a missão da NASA Double Asteroide Redirecion Test: uma sonda foi planeada para embater num pequeno asteróide, para nos ensinar sobre a possibilidade de desviar um asteróide da sua trajectória, se acaso viermos a descobrir um a aproximar-se perigosamente da Terra. A NASA vai ainda, em breve, testar um novo foguetão, o Space Launch System, que colocará num voo a nave Oríon, não tripulada, preparando o regresso de astronautas na Lua a partir de 2025. Embora seja mais tecnologia que ciência, os operadores privados americanos continuarão a desenvolver as suas actividades no espaço, como a SpaceX de Elon Musk, que testará o seu novo foguetão Starship.


Em Setembro partirá para Marte a missão europeia ExoMars 2022, da ESA, em colaboração com a Rússia, que colocará um rover a Marte, baptizado de Rosalind Franklin, em honra da pioneira da bioquímica, que vai fazer companhia ao americano Preseverance (com o helicóptero Ingenuity) e ao chinês Zhurong. O objectivo é detectar vida passada em Marte.


Na astrofísica, grande novidade será a entrada em funcionamento, no Chile, do Observatório Vera Rubin, que vai «varrer» o espaço como nunca antes foi feito. Por outro lado, depois de uma pausa para melhorias, a colaboração LIGO - Virgo entre os Estados Unidos e a Europa, para detectar ondas gravitacionais retomou recentemente a actividade: o seu fim é registar novas colisões de buracos negros ou estrelas de neutrões. Para além do James Webb, haverá mais novidades sobre exoplanetas. Acaba de ser anunciado um com a forma de uma bola de râguebi. Há cada vez mais evidências de luas de exoplanetas. E há indícios de planetas fora da nossa galáxia, que aguardam confirmação.


No CERN, na Suíça, o Large Hadron Collider, depois de três anos de paragem técnica e de um atraso causado pela pandemia, voltará, a partir de Maio, a operar, a maior energia. Para além de mais medidas da partícula de Higgs, os físicos de partículas procuram novas partículas. Uma grande descoberta seria a detecção de algo que pudesse explicar a matéria negra, um misterioso constituinte do Universo. Existem várias experiências específicas para procura de matéria negra e, em Maio, haverá no Dubai uma conferência internacional sobre o tema.


Mas há muito mais ciência para além do espaço e das partículas. Dou apenas alguns exemplos:


- Não sabemos bem o futuro da COVID-19, mas sabemos que as vacinas foram um enorme êxito. Alguns especialistas esperam que a pandemia se transforme em endemia, com um número baixo de vítimas. Deve haver melhorias nas vacinas e nos antivirais. É muito provável que as novas vacinas, baseadas na genómica, encontrem outras áreas de aplicação.


- Neste ano sairá o 6.º relatório do IPCC, o Painel Internacional para as Mudanças Climáticas, que são o maior desafio da Humanidade nas próximas décadas. As conclusões da COP26 em Glasgow poderiam ter sido mais assertivas, mas segue-se a COP27, que terá lugar no Egipto em Novembro de 2022. Os avanços em energias alternativas continuam.


- A descoberta do ano de 2021, segundo a revista Science, foi um trabalho sobre os modos de enrolamento de proteínas realizada por um poderoso sistema de inteligência artificial (IA), que abre a porta ao fabrico de novos fármacos. A IA estará cada vez mais não só na ciência como nas nossas vidas e cada vez mais vai será necessária a consideração de aspectos éticos.


- Na área da computação quântica, tem sido reclamada a «supremacia quântica», o ponto em que os computadores quânticos ultrapassam os convencionais. Várias empresas, como a IBM e a Google, estão a competir nesse domínio. Mas há também avanços chineses, um país que já ultrapassou os Estados Unidos em número de artigos científicos. Haverá em Julho próximo uma conferência internacional sobre computação quântica em Lisboa.


Desejo um 2022 cheio de descobertas!

 

 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

SOBRE O ARGUMENTO DE AUTORIDADE – II

 Eugénio Lisboa insiste - e muito bem - sobre a questão do argumento da autoridade:



Aristóteles poderia ter evitado o

erro de pensar que as mulheres

têm menos dentes do que os

homens, pelo simples expediente

de pedir à Sra. Aristóteles que

abrisse a boca.

 

Bertrand Russell

 

Cada frase que eu pronuncio deve

ser interpretada, não como uma

afirmação, mas como uma pergunta.

Niels Bohr

 

Volto ao tema da pouca validade do argumento de autoridade, porque penso que a atracção irresistível que ele tem para muitos, de várias áreas da vida intelectual, deve ser insistentemente combatida e desacreditada. A obtusidade e o amor às crenças duradouras têm a carapaça dura e resistem ao embate do argumento mais vigoroso. Mais: alguns até pensam que o recurso a este frágil argumento – a autoridade - não se verifica em todos os países do planeta, havendo algum território abençoadamente imune a este atropelo da lógica… Roubando ao romance negro americano uma fórmula feliz, eu responderia a esta última convicção: you believe that, you believe anything.


Volto também a isto, não tanto pelo amor à argumentação, mas antes pelo gosto de uma conversa civilizada e, sendo possível, esclarecedora e estimulante. A este propósito, lembraria que o acerado e genial prosador, Jonathan Swift, o criador de As Viagens de Gulliver, disse algures que argumentar é a pior forma de conversar, e eu estou muito de acordo com ele. Vamos então conversar, procurando eu contar-vos umas histórias elucidativas e deixando, no possível, algumas pistas saudáveis e desopilantes.


É muito curioso serem os que mais reagem a quem tenta demolir a falácia da “autoridade”, a ela se dizendo imunes, os que mais sistematicamente a ela recorrem, para “provarem” o seu ponto de vista. Ora, insisto, invocar a autoridade intelectual de alguém, como sustentação válida de um ponto de vista qualquer, é uma das mais preguiçosas e nefastas cobardias intelectuais que conheço. É recusar o único caminho decente para chegar a uma verdade boa mas, mesmo assim, provisória: pensar, investigar, escrutinar, iluminar, com luz nova, convicções muitas vezes sem outro fundamento que não seja a sua antiguidade, em suma, olhar com intrepidez e frescura o que se tem na frente, sem cuidar do que disse Aristóteles ou Ptolomeu ou Newton ou Einstein, porque até estes se enganaram e segui-los cegamente é o mais seguro caminho para o erro. 


Ser céptico, ser humilde, gostar mais de fazer perguntas do que de dar respostas, não temer – e até gostar – de abandonar uma hipótese de trabalho, que já serviu, por outra que agora parece servir melhor, não se agarrar, em suma, nem à autoridade dos outros nem à sua própria – é assim que se faz avançar o conhecimento. As duas capitosas epígrafes que estão à cabeça deste texto dizem isso mesmo: a primeira, do lógico matemático, Bertrand Russell, diz-nos, em resumo: deixa lá o Aristóteles e conta mas é os dentes da tua mulher ou da tua irmã; a outra, vinda de um dos maiores cientistas do século XX, o dinamarquês Niels Bohr, dá-nos este legado de humildade criadora: não afirmo, pergunto, não se agarrem pois ao que digo, investiguem pelos vossos próprios meios, talvez eu não esteja certo ou completamente certo e, se eu próprio duvido de mim, por que haviam Vocês de tomar-me como autoridade?  As humildes e sábias propostas de Russell e Bohr são talvez a forma mais curta e eficaz de nos ensinar a não respeitarmos, cegamente, argumentos de “autoridade” intelectual.


 Depois, basta olhar em volta e escrutinar o decurso dos séculos, para fazermos um opulento inventário das “bêtises” proferidas por homens eminentes. Os disparates que proferiram não os tornam menos eminentes, mas recomendam-nos cautela, quando se trate de querermos segui-los obedientemente. Quem imaginaria, por exemplo, que o grande Flaubert, em carta à sua amiga e admirada George Sand, poderia escrever esta enormidade: “Quanto ao bom povo, a instrução pública e obrigatória daria cabo dele”? E quem poderia supor que Ernest Renan, talvez o homem mais sábio do século XIX, seria capaz de proferir este pantagruélico disparate: “Quem sabe se o infinito real é tão vasto como se supõe?” Cuidado: o erro e, mesmo, o mais inconcebível disparate pode ser – e tem sido – proferido pelas criaturas mais eminentes, debaixo do sol. Eu atrever-me-ia, até, a corrigir Descartes, quando este diz que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: proponho, antes, que o erro é que é a mercadoria mais bem distribuída do mundo. O grande poeta Victor Hugo – que Gide, relutantemente, considerava o maior poeta que a França jamais teve – dizia, de Racine, grande dramaturgo e sublime poeta, esta coisa espantosa: “É um homem de segunda ordem.” Recebeu, em contrapartida, este mimo, de Proudhon, sobre as suas Les Orientales: “É preciso mais génio para ser remador no Ródano do que para fazer as Orientales”. Ou este outro mimo, da autoria do considerável escritor Barbey D’Aurévilly, ainda hoje adaptado ao cinema em França: “Em Victor Hugo, o talento é sobretudo o estilo… por aí, ele escapa ao triste destino de não ser mais do que um imitador de Eugène Sue.” 


Na literatura, na ciência, na filosofia, os desconchavos circulam, são aceites, são acarinhados, são promovidos e até duram, intactos, durante séculos. De aí, que se deva ter extrema cautela, quando se trate de mostrar respeito à “autoridade”. Todos os grandes acrescentadores de conhecimento foram grandes desrespeitadores da autoridade, mesmo da autoridade de verdadeiros gigantes. O cientista inglês, Thomas Henry Huxley, iniciador de uma família de homens invulgares, na ciência, na literatura e no pensamento, avisava-nos, nesta fórmula vigorosa: “A ciência comete um suicídio, quando adopta um credo” (veja-se, entre muitos outros, o caso do charlatão Lysenko, na União Soviética: as suas trapalhices foram erigidas em dogma pelo ignorante Estaline). E o grande cientista Konrad Lorenz resumia, numa fórmula feliz, o que também foi o miolo das cogitações de Karl Popper, no seu seminal A Lógica do Pensamento Científico: “A verdade, em ciência, pode ser definida como a hipótese de trabalho melhor equipada para abrir caminho à hipótese seguinte e melhor.” Só os timoratos e débeis pensadores é que se agarram à sua “verdade”, que defendem com unhas e dentes, sempre com medo de uma nova hipótese de trabalho (não uma “verdade”), que venha destituir a sua. Os verdadeiros cientistas anseiam por essa nova hipótese, os falsos cientistas temem-na. O verdadeiro cientista quer andar para a frente, o falso quer ficar onde está.


Tenhamos, pois, em mente, que, mesmo os grandes se enganam: são mesmo esses que mais se enganam, porque mais se arriscam. O grande Alexandre Dumas disse, aludindo ao grande químico francês, Lavoisier, que tinha sido mandado por Marat para a guilhotina, que “a República não precisa de químicos”. E o grande Reformador da Igreja, Martinho Lutero, disse, dos judeus, isto que Hitler subscreveria, palavra por palavra: “Dever-se-ia ter arrasado as suas sinagogas, destruído as suas casas, confiscado os livros de orações, o Talmud e até os livros do Antigo Testamento, proibido que os Rabis ensinassem, obrigando-os a ganhar a vida por meio de trabalhos manuais penosos.” Antoine de Rivarol, o escrutinador e promotor da “universalidade da língua francesa” e o cunhador da inesquecível medalha: “A minha pátria é a língua francesa”, disse este mimo, falando da literatura inglesa: “A literatura inglesa não merece que lhe demos sequer uma olhadela”. O grande Bossuet, o maior orador da língua francesa, disse de sua justiça, sobre as mulheres: “Prova-se, pelas Escrituras, que as mulheres, que só têm como partilha o silêncio, não devem meter-se a ensinar.” E termino, por agora, este inventário de desconchavos, com este do grande Dostoiewsky: “Em país russo, não há imbecis; é o que nos distingue dos outros países.”


Em suma, caros leitores, o melhor é estarmos sempre preparados para só aceitarmos o que nos parecer que é aceitável e mandarmos para a sucata os ocasionais deslizes dos grandes, que admiramos e não deixaremos de admirar, só porque, de vez em quando, fizeram como Homero e dormitaram.

 

Eugénio Lisboa

 

CIÊNCIA, PSEUDOCIÊNCIA E DESINFORMAÇÃO

 Vai ter lugar no dia 17 de Janeiro pelas 18h a conferência Ciência, Pseudociência e Desinformação com David Marçal, comunicador e gestor de ciência e professor convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, e Carlos Fiolhais, Professor Catedrático aposentado de Física da Universidade de Coimbra, ambos nomes incontornáveis da comunicação e divulgação de ciência em Portugal.


Esta é a segunda conferência do Ciclo Como Dialogar com quem não quer ouvir: para lá da polarização e da desinformação. O ciclo promove uma reflexão sobre temas como a confiança na ciência, a polarização política e a desinformação.

Com uma periodicidade mensal, as conferências têm lugar à segunda-feira ao final da tarde e são de acesso livre e gratuito, tendo lugar via Zoom e sendo transmitidas em direto no canal YouTube do Seminário de Jovens Cientistas em https://tinyurl.com/SJC-ACL

Para participar na sessão Zoom desta conferência é necessário registo prévio em https://forms.gle/nJ5ZPQQkocYjDWkCA 

O ciclo é uma iniciativa do Seminário de Jovens Cientistas (SJC) da Academia das Ciências de Lisboa em colaboração com o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier, Universidade Nova de Lisboa (ITQB NOVA) e o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Universidade de Coimbra (CECH-UC)

Esta iniciativa terá como objetivo apresentar um conjunto de visões para analisar a forma como estes problemas estão interligados e promover estratégias para fomentar um diálogo construtivo.

Organização:
Seminário de Jovens Cientistas,
Academia das Ciências de Lisboa

Coordenação
Gonçalo Marcelo (SJC-ACL e CECH-UC)
Pedro Matos Pereira (SJC-ACL e ITQB NOVA)
Ana Sanchez (ITQB NOVA)

sábado, 15 de janeiro de 2022

EDUCAÇÃO: A LIBERDADE DE ESCOLHA OU INOVAR COM A SUCATA


Novo texto de Eugénio Lisboa: 

O Partido INICIATIVA LIBERAL tem vindo a propor, com linguagem bem penteada e louvável civilidade de maneiras, ideias mais do que um bocadinho perigosas e, por acaso, já bastante obsoletas. Uma dessas ideias é a estafada “liberdade de escolha” para os alunos que pretendam frequentar uma escola. A ideia já foi suficiente demolida, com argumentos decentes, pelos partidos que a não perfilham, em debates recentes. Pôr o Estado, em vez de investir na escola pública, como é sua obrigação, a financiar a escola privada, é, no mínimo, escandaloso. Por isso, venho aqui apenas contar uma história de proveito e exemplo.


Quando o Partido Conservador Britânico ganhou, em 1979,  as eleições legislativas, e Margaret Thatcher ascendeu ao lugar de Primeiro Ministro, com o seu projecto ultra-liberal, deu ao seu mentor político, Sir Keith Joseph, a pasta da Educação. Este, ideólogo extremista, apressou-se a propor a “liberdade de escolha”, com “vouchers” do Estado a pagarem o ensino privado – a ideia agora repescada pela IL. A reacção provocada no Partido Conservador, para não falar na do Partido Trabalhista, foi de tal ordem, que Margaret Thatcher não teve força para levar por diante o projecto acarinhado pelo seu ideólogo e que era também o seu. O projecto foi atirado para a sucata, da qual nunca ressuscitou, nos onze agitados anos do reinado de Thatcher.

 

Aparece agora, triunfalmente repescado pela IL, com ares de inovação prenhe de futuro, e apaparicado por comentadores aguerridos, em postura de estarem “para além da Thatcher”

 

É muito nosso hábito lusitano irmos buscar, tarde e a más horas, ao monte da sucata que outros produziram, as ideias saloias e perniciosas que eles acharam tóxicas, há bem quarenta anos atrás. 

 

A “liberdade de escolha” não passa de um truque mal disfarçado, para pôr o Estado a sustentar o ensino privado. Ora se este é assim tão bom e tão eficaz e competitivo, que aprenda a viver por si, sem recurso à inevitável teta que tanto acusa de ser incompetente e nefasta: isso mesmo, a teta do Estado.

 

A IL quer, em tempo incerto, de agonia, de susto e de crise profunda, acudir aos portugueses com uma selvagem anarquia de mercado que, mesmo assim, vampirize o pouco que o Estado tenha para dar. Esta destemida proposta deve ser devolvida ao local de onde nunca deveria ter saído: a cova da sucata do Partido Conservador Britânico.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

SOBRE O ARGUMENTO DE AUTORIDADE

 

Novo texto de Eugénio Lisboa

 

A verdade é filha do tempo,

não da autoridade.

Galileu Galilei

 

Quem discute, alegando autoridade,

não usa a inteligência mas sim a memória.

Leonardo da Vinci

 

É muito frequente, ao discutir-se um problema qualquer, um dos participantes, provavelmente com a melhor boa fé do mundo, tentar demolir o argumento do seu interlocutor, atirando para cima do debate com a opinião de uma “autorizada” e prestigiada figura que, nessa mesma área do conhecimento, parece abonar a sua própria opinião. É sempre uma tentação perseguir esse método aparentemente imbatível e demolidor. Será uma ardilosa artimanha, mas há muito que a lógica e o método científico moderno enviaram para a sucata este tipo de argumentação. Por muito tempo, ao longo de séculos, em vez de se observar e voltar a observar e se tentar verificar, contraditoriamente, um fenómeno qualquer, preferia-se consultar o parecer de uma antiga e muito venerada autoridade, como, por exemplo, Aristóteles, para este “certificar” uma falsa verdade. Foi preciso Galileu demonstrar, pelo método experimental, que corpos, de pesos diferentes, caem exactamente com a mesma aceleração, para se verificar que a asserção de Aristóteles, segundo a qual, eles cairiam com acelerações diferentes, estava errada e errada viveu inúmeros séculos. O argumento da autoridade ruiu estrondosamente e ainda hoje se ouve o barulho que isso fez. 


De resto, basta pensar um bocadinho. Se, sobre um mesmo assunto, duas autoridades igualmente prestigiadas tiverem opiniões opostas (acontece todos os dias), como escolher o parecer “autorizado”? Poderia dar inúmeros exemplos históricos, mas vou dar este. Em tempos, a muito prestigiada Universidade de Harvard, depois de um estudo prolongado e feito por grandes especialistas, concluiu que a pena de morte provocava uma diminuição da espécie de crime que essa pena contemplava. Mas acontece que um estudo semelhante da prestigiadíssima Universidade de Stanford chegou à conclusão diametralmente oposta. Os crentes no argumento de autoridade qual das duas conclusões aceitariam como boa? 


No campo da investigação científica, os exemplos abundam. Dois grande inventores e responsáveis por inúmeras patentes no campo da electricidade, Edison e Tesla, tinham certezas diametralmente opostas em algumas coisas. Por exemplo, Tesla, um engenheiro electrotécnico, deu enorme contribuição no campo do transporte de energia eléctrica por corrente alterna, entre outras muitas coisas que fez. Já Edison, o grande inventor com mais do que mil patentes registadas, tinha a “autorizada” opinião de que a corrente alterna não tinha qualquer futuro. Para desacreditar Tesla e, abusando da sua enorme influência junto dos políticos, convenceu que se executasse um preso condenado à morte, usando-se a corrente alterna. Os carrascos, pouco calhados no uso daquela corrente, permitiram que a tensão eléctrica caísse drasticamente, de tal modo que o condenado, em vez de uma morte rápida, foi sendo “fritado” lentamente, com enorme sofrimento e emitindo um pavoroso cheiro a carne grelhada, além dos gritos pavorosos que foi emitindo… Edison ficou contentíssimo com a repercussão que esta ignomínia teve na imprensa. Aqui está um clamoroso desmentido do valor argumento de autoridade. 


De resto, uma consulta minuciosa mostrar-nos-á as enormidades que os cientistas, ao longo dos tempos, têm dito uns dos outros. O Professor de Física J. Le Roux, da Universidade de Rennes, dizia, em 1923, este mimo sobre a Teoria da Relatividade de Einstein: “Não é uma doutrina científica, é, antes, uma espécie de misticismo bizarro, quase uma religião nova de que Einstein é o profeta (…)”. Lá se vai o argumento de autoridade… E não só na ciência. O maior crítico francês do século XIX, Sainte-Beuve, disse as maiores barbaridades sobre gigantes como Balzac, Stendhal e outros. Ferdinand Brunetière, egrégio Professor de Literatura da eminentíssima École Normale Supérieure, editor principal da Revue des Deux Mondes, membro da Academia Francesa, galardoado com a Legião de Honra e eminência da crítica e do ensaísmo francês, disse barbaridades sobre Baudelaire, o mesmo tendo feito o não menos eminente Émile Faguet. O físico e astrónomo francês, François Arago, que chegou a ser primeiro ministro, desaconselhava o uso dos caminhos de ferro, como meio de transporte, porque as pessoas se arriscavam a contrair “fluxões” e pleurisias… O grande Lumière, pioneiro do cinema mudo, em que foi singular criador, não antevia qualquer futuro para o cinema falado.


Para os teimosos utentes do argumento de autoridade, deixo-lhes aqui esta pérola do autor da Teoria da Relatividade: “Para me punir pelo meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim mesmo uma autoridade.”


Um esclarecimento final: o signatário deste artigo é muitas vezes acusado de recorrer muitas vezes a citações de outros autores. Ora faço-o, não como uma invocação de autoridade, mas como formulações mais perfeitas dos meus próprios pensamentos e sempre convencido de que tanto eu como eles podemos estar errados.


Eugénio Lisboa

 

 

PERFIL DE CARLOS FIOLHAIS POR ALEXANDRE PEREIRA

Porque  sempre gostei de ajudar os estudantes dei no ano passado uma entrevista ao Alexandre Pereira que pretendia realizar um trabalho académico, para o Mestrado Comunicação de Ciência da NOVA FC da disciplina “Jornalismo de Ciência". O tema dele era o meu «perfil». Ouviu outras pessoas para o seu trabalho. Recebi agora o seu trabalho, que já teve avaliação académica. Na minha avaliação, estando bem pesquisado e escrito, achei que havia alguns exageros, mas percebo que venham das fontes que ele ouviu. Ninguém é isento a seu respeito, pelo que não comento o conteúdo e limito-me a agradecer a alguns amigos e conhecidos as palavras amáveis que transmitiram ao Alexandre Pereira.

 Pedi autorização ao autor para publicar aqui no blogue e ele amavelmente anuiu, uma vez que o trabalho não era para publicar em lado nenhum, tendo apenas um propósito formativo.  Agradeço-lhe o interesse pela minha pessoa. Há decerto pessoas mais interessantes para «perfilar», mas ele decidiu «perfilar-me» e eu  só tenho que ficar «perfilado»: 


PERFIL: O verdadeiro sábio de muitos saberes 


Professor, autor, bibliotecário, comunicador, empreendedor. Há várias formas de olhar para Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra jubilado em 2021. Mas uma palavra também pode chegar: cientista. 

 Por Alexandre Pereira 

 É porventura o melhor – seguramente o mais popular – comunicador de ciência português. É também, salta rapidamente à vista, bem humorado: “Não tenho um comunicómetro, mas obrigado por achar isso”, solta no início de uma conversa informal, sentado num cadeirão do Centro Rómulo de Ciência Viva da Universidade de Coimbra, que fundou em 2008 e ainda dirige, apesar de em maio passado se ter despedido das aulas que deu na instituição à qual está ligado desde 1973 – primeiro aluno, depois professor. 

 Antes desta conversa passou uma hora a apresentar o Rómulo, explicando como foi acumulando livros relacionados com ciência, como estão organizadas as coleções da biblioteca, mostrando mais tarde as reservas nas quais se orgulha de juntar obras antigas e raras. Para a tarde Carlos Fiolhais tem agendada a gravação de um podcast na rádio Observador. Será sobre vulcões, por causa da erupção nas Canárias, e falta-lhe reunir alguma informação. Sabe, porém, onde encontrar no Centro alguns livros sobre o assunto e em pouco tempo resolve o problema. “Quando vou falar a algum lado levo um powerpoint, que é uma boa bengala. Quando não levo as coisas acabam por sair melhor, mais espontâneas, uma pessoa faz mais gestos, tenta ter mais impacto. Mas o que eu gosto mesmo, sempre, é de ter um ou outro livro. Uma pessoa abre-o e faz logo ali uma performance, qualquer que seja a página. Ou então utilizo uns truques, levo já uma dobra nas páginas que interessam e faço um grande número.” 

 Carlos Fiolhais, 65 anos, deixa esta pequena confissão e solta uma gargalhada que lhe é muito frequente. O sentido de humor é qualidade que se lhe reconhece facilmente. José Urbano, professor, orientador de dissertação de licenciatura e mais tarde colega de Fiolhais no Departamento de Física da Universidade de Coimbra (UC), não resiste a contar um episódio antigo: “Passou-se durante uma longa viagem de automóvel entre Coimbra e Jülich, onde eu estava instalado e a minha mulher e os meus três filhos iam ter comigo. No automóvel seguia o professor Carlos Fiolhais, que tendo também de se dirigir à Alemanha aceitou a boleia que lhe foi oferecida. A certa altura, a minha mulher sentiu sono. Perante o perigo, o professor Carlos Fiolhais começou a cantar ópera, para a manter acordada. O que conseguiu, tal era a desafinação que imprimia ao seu canto!” 

 “Se estiver perante uma plateia cheia galvaniza-se. Diz piadas de 15 em 15 segundos, embora algumas só se percebam 45 segundos depois. É muito inteligente”, declara Manuel Coelho e Silva, professor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (UC), que em tempos partilhou assento com Fiolhais no Conselho Científico do Instituto de Investigação Interdisciplinar da UC. 

 O comunicador 

 Nasceu em Lisboa. O pai era de Sedielos, Peso da Régua, e a mãe de Selhariz, Vidago. “O meu pai estava a comprar no mercado da Ribeira, a minha mãe estava a vender e eu sou a mais valia da transação. Eu e os meus irmãos, claro.” 

 Carlos Fiolhais tem dois irmãos mais novos – Manuel, também professor de Física em Coimbra, e Rui, que lidera atualmente o Instituto de Segurança Social. O humor sempre presente: “É natural que ouça falar em Rui Fiolhais, ele é mais famoso que eu. Ou pelo menos tem muito mais dinheiro para gerir”, atira. Casado em segundas núpcias, tem um filho a tirar doutoramento em engenharia eletrotécnica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Passada a primeira infância, Carlos Fiolhais saiu de Lisboa para Coimbra antes de entrar para a então segunda classe do ensino primário. A mudança foi forçada pela carreira do pai, militar da Guarda Nacional Republicana. 

 A entrada no mundo da comunicação fez-se pela leitura ávida de jornais, primeiro, e pela participação em projetos jornalísticos desde tenra idade. No liceu Dom João III, hoje José Falcão, perto do qual morava, foi chefe de redação do jornal O Estudante. Aos 15 anos, um professor de Moral, padre, reconheceu-lhe qualidades e ofereceu-lhe duas páginas nas edições do Correio de Coimbra, o jornal da diocese. “O padre não nos censurava nada, era até progressista, mas a Censura oficial existia e aconteceu cortarem-nos coisas. Depois tinha de se andar ali a jogar com o grafismo”, recorda. Foi também ilustrador, porque “tinha jeito para desenhar, era artista” e chegou a ganhar prémios escolares de artes plásticas. 

 Na faculdade escreveu no jornal O Mocho e mais tarde dirigiu a Gazeta de Física, da Sociedade Portuguesa de Física. Depois de voltar de Frankfurt, na Alemanha, onde fez doutoramento após a licenciatura e um ano como professor assistente em Coimbra, começou a colaborar “em jornais nacionais”. Fê-lo a partir da relação que entretanto iniciou com a editora Gradiva, onde hoje dirige a coleção Ciência Aberta, em cujo catálogo constam vários dos seus 70 livros (cerca de metade são manuais escolares de Física e Química). Carlos Fiolhais fala numa carta escrita a Guilherme Valente, o editor da Gradiva. Guilherme Valente recorda um telefonema que ocorreu depois. A verdade é que o então recém-doutorado físico detetou erros em alguns livros da editora e queria chamar a atenção do editor para eles. “Uma pessoa tem 20 e tal anos e arma-se aos cucos, acha que sabe mais que os outros”, condescende Fiolhais. Seja como for, Guilherme Valente recorda um almoço e o início de uma forte amizade: “Combinámos um encontro em Leiria, onde moro. Ele acabou por almoçar lá em casa, com a minha família, e foi uma empatia imediata, nasceu uma amizade para sempre.”

O professor passou então a traduzir livros para a Gradiva e a publicar recensões na revista do Expresso. Quando ajudaram a fundar o Público, os jornalistas Vicente Jorge Silva e José Vítor Malheiros levaram-no para o novo diário: “Levaram quase a equipa inteira, colaboradores e tudo. Eu escrevia sobre livros, sobre ciência, escrevia que nunca mais acabava e eles pagavam, havia dinheiro, o Belmiro [de Azevedo, presidente da Sonae, entretanto falecido] pagava.”

 O primeiro livro de autor, Física Divertida, publicou-o em 1991 na Gradiva e foi o culminar de várias palestras realizadas em escolas ao longo dos anos. 

 O alvo de elogios 

Quando lançou o primeiro título em parceria com Carlos Fiolhais – Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência, em 2011 – o bioquímico David Marçal, também ex-jornalista e humorista (escreveu no Inimigo Público), detetou desde logo no físico “a grande capacidade de concretizar”, outra característica fácil de escutar quando se fala com pessoas que o conhecem e se cruzaram com ele. 

 Vítor Torres, um dos quatro colegas do curso de Física de Carlos Fiolhais, também fala em “capacidade de trabalho” e junta-se ao coro de elogios “à inteligência, à criatividade e à honestidade”. Guilherme Valente destaca “a qualidade de se emocionar” e o professor José Urbano lembra-se de um aluno “curioso, com extraordinária facilidade de comunicar e de levar a ciência às pessoas”. 

 David Marçal já colaborou com Carlos Fiolhais em mais três livros da coleção Ciência Aberta e numa série de podcast de divulgação de ciência. Chama-se Assim Fala a Ciência e foi uma produção para a plataforma de podcast do Público financiada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde Fiolhais foi coordenador da área do conhecimento. O bioquímico classifica “o amigo mais velho” de forma similar à generalidade das pessoas e acrescenta, com ênfase: “É extremamente culto, conhecedor das várias áreas humanas, da Bíblia ao futebol.” 

 De futebol, curiosamente, ouve-se Carlos Fiolhais falar pouco. É adepto da Académica, mas muito distante, afirmando mesmo que só foi uma vez ver um jogo ao antigo estádio do Calhabé para que o filho, então pequeno, “se inteirasse de toda a linguagem que os adultos usam”. Conta a história entre gargalhadas, confessando ainda: “A minha mulher diz que eu gosto de ver os jogos do Benfica. Temos Sport TV por causa dos filhos dela. Eu não posso ser do Sporting porque o meu pai era e tem de haver conflito geracional. Não posso ser do Porto porque o meu filho é e, além disso, não gosto do Pinto da Costa. Se calhar entre os grandes prefiro o Benfica, mas se fosse mesmo adepto assumia. Só que apenas assumo a Académica.” 

 Quem diz futebol diz política. Carlos Fiolhais classifica-se como apartidário e “muito feliz” por nunca o terem “puxado para a política”. Até hoje apenas apoiou publicamente Jorge Sampaio e Sampaio da Nóvoa em candidaturas à Presidência da República e, na cidade que é a dele desde menino, integrou o movimento cívico Somos Coimbra. “Esteve com José Manuel Silva até ele ser candidato pelo PSD. Aí sentiu que não era aquele o caminho e saiu”, conta Manuel Coelho e Silva, o professor da Faculdade de Desporto. Carlos Fiolhais confirma: “Nós, da Comissão Política, fomos quase os últimos a saber e não concordámos. Não queríamos ser comidos por um partido e saímos.”

 O bibliotecário e historiador de ciência 

 O papel de diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que assumiu entre 2004 e 2011, marcou-o. Chegou a intitular-se, numa entrevista de vida, “guardião de um tesouro”. O convite do reitor da Universidade de Coimbra entusiasmou-o e de certa forma afastou-o da Física, ao mesmo tempo que o aproximava da História da Ciência: “Entrei num mundo que não era o meu e achei piada. Aquilo tinha 80 funcionários, era a segunda biblioteca do País, com fundos intermináveis, coisas mesmo a sério, desde Bíblias do século XV, uma delas judaica, a originais do Almeida Garrett, como o Frei Luís de Sousa. Tem a primeira Bíblia de Gutenberg com marca do impressor. Não exatamente a primeira, porque essa não tinha marca, mas uma se calhar até mais valiosa. A maioria das obras são ligadas à Igreja. Comecei a interessar-me pela História e a relacioná-la com a Ciência.” 

 O atual diretor da Biblioteca Geral, que enquanto diretor de imprensa da UC promoveu “várias realizações conjuntas de promoção do livro e da leitura” com Carlos Fiolhais, destaca “a grande bonomia” do professor e a já conhecida “gargalhada deliciosa”. João Gouveia Monteiro sucedeu ao sucessor de Fiolhais (José Bernardes, diretor entre 2011 e 2019) mas consegue facilmente enumerar o legado do físico à Biblioteca: “Reorganização interna de serviços, designadamente com a criação do SIBUC - Sistema Integrado das Bibliotecas da Universidade de Coimbra; maior abertura ao exterior; empréstimo domiciliário de livros a não docentes; valorização do piso térreo da Biblioteca Joanina; enriquecimento do património da biblioteca com incorporações relevantes.” 

 O professor 

 Enquanto diretor da Biblioteca Geral, Carlos Fiolhais continuou sempre a dar aulas. E foi nesse período que fundou o Rómulo. “Isto foi crescendo do zero, acho muita piada ao facto de os livros se multiplicarem a olhos vistos. Uns livros chamam os outros”, diz. 

 A última aula do professor de Física ocorreu a 28 de maio, na cadeira de Mecânica Quântica II. A 12 de julho teve uma “segunda última aula”, o verdadeiro jubileu, e aí casou amores, promovendo uma palestra sobre “História da Ciência na Universidade de Coimbra”. 

 Entre tantos papéis desempenhados na vida, há um que destaca, ainda que a custo: “Fui professor toda a vida, gostei de dar aulas e as pessoas dizem-me que algumas aulas saíam bem. Algumas pessoas lembram-se de mim é isso é gratificante. Somos herdeiros dos nossos professores e há gente que se diz minha herdeira, portanto ter sido professor marca-me muito.” 

 Ser bibliotecário também o marcou, ser autor e comunicador marca-o. E Carlos Fiolhais consegue uma vez mais juntar paixões: “Um bibliotecário é um ajudante de professores, que são os autores dos livros. O ser-se autor e comunicador é uma extensão de se ser professor, passa-se a ter alunos mais longe.” 

 Aos 65 anos, Carlos Fiolhais é o que já se viu: diretor do Rómulo Ciência Viva, diretor da coleção Ciência Aberta, colaborador da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Faz programas na rádio Observador e ainda recentemente, em novembro, anunciou workshops online sobre História da Ciência. 

 Não se queixa da vida. “Ao contrário do Fernando Pessoa, que dizia que a vida lhe tinha batido muito, eu acho que ela a mim não bateu. Vale sempre a pena viver mais e por isso costumo dizer: ‘Se me encontrarem morto investiguem bem que não fui eu!’. Uma pessoa acaba sempre por ter surpresas. Acho que amanhã ou depois vai haver outra. Na verdade não sei se haverá, de modo que é melhor ir até lá para ver se há ou não.” 

A conversa foi sempre fluindo, sem grandes formalismos retóricos. Carlos Fiolhais é um homem de comunicação prática. Termina o almoço meio à pressa, preocupado com o podcast combinado para daí a pouco. Consegue entretanto adiá-lo ligeiramente após um telefonema para o profissional da Rádio Observador. “Isto na Alemanha era adiado já para a semana ou para a outra, mas cá há alguma flexibilidade”, sublinha. Com o tempo ganho, ainda faz questão de passar pela livraria do Museu Nacional Machado de Castro. À saída, depara-se com uma exposição temporária de litografias de Paula Rego a partir de um conto de João de Melo intitulado “O Vinho”. Não sabia da existência da exposição ali tão perto do Rómulo e não resiste a entrar. Porque, como resume o editor Guilherme Valente, “nada do que é humano lhe é estranho”. 

 Alexandre Pereira 

Mestrado Comunicação de Ciência NOVA FCSH “Jornalismo de Ciência”
 Lisboa, dezembro de 2021

Luiz Teixeira - História do Parto no Brasil

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO: Carlos Fiolhais fala sobre «O Físico e o Filósofo: Debate entre Einstein e Bergson»


Realiza-se na terça-feira, dia
11 de Janeiro de 2022, pelas 18 horas, a palestra «O Físico e o Filósofo: O Debate entre Einstein e Bergson»  inserida no ciclo em cursoCiência às Seis! (temporada 6)”. Será palestrante o físico Carlos Fiolhais que trocará impressões com o público sobre o tema. 

Resumo: Em 1922, o físico alemão Albert Einstein e o filósofo francês Henry Bergson travaram uma disputa sobre a teoria da relatividade do primeiro, centrada no conceito de tempo. A questão  está hoje resolvida: é geralmente reconhecido que Bergson não entendeu a teoria da relatividade. Ele não considerava que a medição feita por um relógio fosse uma definição satisfatória de tempo. Por outro lado, Einstein não fez qualquer esforço para olhar para as dimensões psicológica e  filosófica do tempo. Ele disse na altura: "O tempo dos filósofos não existe." Bergson discutiu os aspectos psicológicos e ntuitivos do tempo, enquanto Einstein se restringiu aos aspectos matemáticos e racionais. O resultado foi um total mal-entendido. Este confronto foi considerado um exemplo moderno da separação entre física e a filosofia. Se a vitória científica de Einstein não pode ser refutada, é verdade que Bergson levantou pontos que valem a pena pensar hoje.


Essa disputa tem um predecessor na polémica sobre luz e cor que começou em 1810, quando o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe negou a óptica do físico inglês Isaac Newton. Como no confronto Einstein- Bergson, podemos dizer que o físico venceu claramente, se adoptarmos as regras científicas. No entanto, os argumentos de Goethe deram e dão o que pensar. Entre outros, os físicos alemães Hermann von Helmholtz, em 1853 e 1892, e Werner Heisenberg, em 1941, escreveram sobre a "Farbenlehre" de Goethe. O mesmo o fizeram os filósofos Arthur Schopenhauer e Ludwig Wittgenstein, respectivamente alemão e austríaco. Discutirei analogias e contrastes entre as duas disputas, separadas por mais de um século, tentando destilar as mensagens relevantes para o debate cultural contemporâneo.


Biografia: Carlos Fiolhais nascido em Lisboa em 1956, é professor aposentado de Física da Universidade de Coimbra, com interesse em História das Ciências em Portugal. É autor de mais de 60 livros, mais de 160 artigos científicos (um deles com mais de 20.000 citações) e  mais de 500 artigos de divulgação. Entre os seus livros estão "Biblioteca Joanina" (Imprensa Universidade de Coimbra, com Paulo Mendes), "História da Ciência em Portugal" (Arranha-Céus) e "Jesuítas, Construtores da Globalização" (CTT, com José Eduardo Franco). Foi Director do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, onde procedeu à instalação do maior computador português para cálculo científico, e da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, onde concretizou vários projectos relativos ao livro e à cultura. Fundou o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Foi o responsável pela área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Recebeu vários prémios e distinções nacionais e internacionais. Tem defendido a ciência e a cultura científica no espaço  público em Portugal.

 

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Romuloccvuc

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

"O que muda a vida de um estudante é um bom professor"

Porque há ideias que devem ser repetidas, conceitos que devem ser proclamados a altas vozes, deixo aqui alguns extractos de (mais) uma entrevista ao professor e pedagogo italiano Nuccio Ordine, concedida ao jornal "Diario de Sevilla", que pode ser lida na íntegra aqui:

"Hay muchos autores clásicos que explican que los libros son fundamentales para enseñarnos cosas y cambiar nuestras vidas para siempre. Suelo repetir a mis alumnos que no se estudia para buscar un título, al igual que los clásicos no se leen para aprobar un examen, sino porque te estimulan para comprender no sólo la vida en el pasado sino tu vida en el presente. "

"Un ordenador es bueno si es rápido pero para cultivar conocimiento y relaciones humanas tienes que poner tiempo de tu tiempo, lo que no significa perderlo, sino ganarlo para ti y los demás."

Actualmente la Universidad se empeña en vender títulos a los estudiantes y el título es importante pero no puede ser el final, la meta, porque si el estudiante cree que tiene que estudiar para ganar dinero entonces estamos corrompiéndolo. El estudiante tiene que estudiar para ser mejor. "  

"Porque la tecnología es ahora un sistema que no sólo ofrece cosas útiles sino que también está afirmando una manera de pensar la vida con los otros que es muy peligrosa. ¿Cuál es la filosofía de la tecnología? Crear consumidores pasivos. Lo vemos en la obsolescencia programada. Todo el dinero que la Universidad y la escuela invierten en tecnología, seis meses después no vale de nada, está obsoleta, y eso es un pozo sin fin. Esa lógica perversa de la obsolescencia programada me parece preocupante porque la Universidad en lo que tiene que invertir es en la formación de buenos profesores. Lo que cambia la vida de un estudiante no es un ordenador ni una plataforma sino un profesor ."  

"La Universidad y la escuela han convertido a los profesores en burócratas que pasan mucho tiempo en reuniones, inmersos en un sistema empresarial que no tiene nada que ver con la verdadera función de la educación. En el mundo ahora quienes dictan la programación, la agenda y la dirección de la educación son el Banco Mundial y la Organización Mundial del Comercio, agencias que persiguen crear consumidores pasivos sin pensamiento crítico."  

"La escuela y la Universidad hacen creer que Ítaca es el título pero ese pedazo de papel no sirve para nada si no tienes conciencia de todo lo demás."

 

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...