terça-feira, 20 de junho de 2017

A dor em directo

Não há palavras capazes de expressar certa dor. Inventámos tantas palavras mas, por alguma razão, não fomos capazes de inventar nenhuma que faça sentido em circunstâncias de dor extrema.
O silêncio pode, então, ser o único modo de estar com quem precisa de ter alguém por perto.

Por isso, é muito difícil perceber que um jornalista - cuja profissão é regulada por princípios éticos - pergunte a pessoas que acabaram de perder, numa tragédia que não podemos sequer imaginar, filhos, pais, vizinhos, amigos, o que aconteceu, o que sentem, o que pensam fazer no futuro...

António Guerreiro, num artigo de opinião intitulado As vítimas dos incêndios e da televisão, saído ontem no Público online, faz uma análise profunda daquilo que está em causa sobretudo na televisão.

Destaco, desse artigo, as seguintes passagens, ainda que eles percam algum sentido separados do todo.
Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão. 
Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. 
Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites. Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance, “wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra.

"Piroverões anuais"

Em, sequência (aqui), reproduzo o início e o fim de um novo artigo do biólogo Jorge Paiva saído hoje no Público. 

Trata-se de uma contribuição preciosa pelo facto de ser dada por alguém que sabe profundamente do que fala e que ama profundamente o nosso planeta.
Não me vou alongar demasiado com a história do desastre da cobertura florestal deste desgraçado país, pois está explicitada no artigo "Os incêndios e a desertificação de Portugal florestal", publicado no PÚBLICO, há cerca de dez anos. 
Apesar de andar a alertar para as causas dos piroverões anuais que acontecem há cerca de quatro dezenas de anos e como se pode resolver o problema, os governos sucessivos que temos tido, não só nada fizeram, como também têm sido colaboracionistas na florestação mono-específica, contínua e contígua, sem o mínimo de ordenamento e regras.
(...) 
É melhor ficarmos por aqui, pois eu, como português que me honro de ser, tenho VERGONHA de viver num país que importa madeira de carvalho para mobiliário, por não replantar a floresta nativa.

No Porto - "Não se deixe enganar"

O primeiro livro de divulgação científica da COMCEPT, "Não se deixe enganar", será apresentado amanhã, às 18h30, na livraria Bertrand do Shopping Cidade do Porto. A apresentação estará a cargo de Orfeu Bertolami, professor de Física da Universidade do Porto.

Este livro foi escrito por quatro membros da COMCEPT - Diana Barbosa, João L. Monteiro, Leonor Abrantes e Marco Filipe - e prefaciado pelo físico Carlos Fiolhais e pelo bioquímico David Marçal, ambos também autores de livros de divulgação científica. A edição é da Contraponto, uma chancela da Bertrand.

Marquem na agenda: a apresentação terá lugar em Coimbra, em dia a anunciar, e estará a cargo do professor Carlos Fiolhais.

Livro do dia na TSF: Poderão ouvir aqui um brevíssimo resumo de alguns dos temas abordados no livro.


SOBRE OS INCÊNDIOS: FALA QUEM SABE


Jorge Paiva, um dos botânicos mais conhecedores do país, fala sem papas na língua sobre os fogos florestais. No meio de tanta informação e desinformação, é bom ouvi-lo:

http://www.publico.pt/espaco-publico/jornal//os-incendios-e-a-desertificacao-do-portugal-florestal-59818


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sobre o valor inspiracional e dilemas éticos na exploração espacial [vídeo em inglês]



A plataforma Mashable publicou esta semana um vídeo onde o reconhecido astrofísico Neil deGrasse Tyson comenta dilemas morais da exploração espacial.

“Are you only interested in scientific discovery? Send a robot. It’s cheaper. You don’t have to bring them home. You don’t have to feed them, at least not food. (…) If you only care about science, then there’s no rational reason to send humans. Really. For the cost of sending a human, you can send 100 robots. And robots are getting better, smaller, cheaper, faster, smarter, all of the above. But here’s the catch:

I’ve never seen a ticker tape parade for a robot. I’ve never seen a high school named after a robot. I never saw a kid read a book about a robot and say, “Gee, I want to be that robot one day.” There’s value of human inspiration. It’s less tangible than the scientific results of an experiment. It’s more emotional, it’s more philosophical, it’s more human. If we send one of ourselves, on the frontier, where it’s dangerous but interesting, and they can make discoveries and they come back, I’m gonna go listen to that person, I want to read the book that that person wrote, I want to interview that person on the news. That person will be a hero to our civilization and that has value. (…)” 

sábado, 17 de junho de 2017

A tendência de doutrinamento político-partidário a partir do currículo escolar

Imagem retirada daqui
Em Abril passado, o sindicato AMES (Acció per a la Millora de l`Ensenyament Secundari) de professores da Catalunha, publicou um estudo de grande interesse com o título Adoctrinamiento ideológico partidista en los libros de texto de Cataluña, de la materia “Conocimiento del medio” (Geografía e Historia, Ciencias Sociales) de 5.º y 6.º de Primaria, del curso 2016/2017. 

Como é sabido, em Espanha, à luz da política de descentralização, a par do Ministério da Educação, cabe às comunidades autónomas tomar decisões em matéria de currículo escolar.

Estas decisões não podem, porém, contrariar a Constituição do país, a Lei de Bases da Educação - a LOMCE - e o currículo nacional. Nos dois primeiros documentos consta explicitamente a obrigação de se respeitar, na escola pública, a neutralidade político-partidária.

Mas, é isto que acontece?

A pergunta tem todo o sentido dada a tendência do poder político - central e regional -, qualquer que seja a sua orientação, para controlar o currículo. Há muito que isto se encontra documentado e bem documentado, sabendo-se que as disciplinas mais visadas são a História, a Geografia e a Língua Materna. Através delas é possível reconstruir a ideia de um país ou de uma região e fixá-la nas novas gerações, mas também nos professores e nos pais. Na maior parte da população, portanto. A razão que leva tal poder a dar tanta atenção ao currículo é essa mesmo.

Voltando ao referido estudo, trata-se de uma análise de manuais escolares de Ciências Sociais dos 5.º e 6.º anos, destinados a alunos entre os 10 e os 12 anos de idade, publicados por sete grandes editoras, com o fim de se detectarem eventuais tendências "ideológicas e partidárias".

O foco foi a comunidade autónoma da Catalunha, mas, complementarmente, foi feita uma comparação com outras comunidades.

Imagem retirada daqui.
Os resultados obtidos confirmam essas tendências, não apenas no que é explícito no texto mas também naquilo que lá não consta. 

Por exemplo,
- em diversos manuais os conteúdos de Geografia e de História de Espanha têm uma expressão mínima, dando-se a entender que a comunidade em causa é um país da União Europeia;
- num manual pergunta-se qual é a língua oficial da comunidade, omitindo-se que a autonomia implica línguas cooficiais,
- noutro manual diz-se que a lei principal da comunidade é o "Estatuto", sem qualquer referência à Constituição.

Questionada sobre o assunto, a "Asociación Nacional de Editores de Libros de Texto" denunciou «pressões políticas de todo tipo» em várias comunidades.

Em síntese, notam os autores do relatório, é inadmissível intervir no processo educativo com base em critérios políticos o partidários, pois, entre outras razões, isso mina a exigência de rigor científico que deve estar presente no currículo escolar.

NOTA: Sobre este assunto, é de grande interesse o artigo de Olga Sanmartín intitulado Así se adoctrina a los niños en los libros de texto d Cataluña, publicado no jornal El Mundo.

O que significa educar e ensinar sem pais e sem professores?

Massimo Recalcati, psicanalista, professor e também ensaísta italiano, tem interrogado as bases da denominada “hipermodernidade” e os caminhos (ou becos) aonde ela nos conduz.

Em finais de 2016, deu a conhecer, em livro, a análise que, com base nesse conceito, faz da educação, em geral, e da educação escolar, em particular. Publicado agora em Espanha, com o título La hora de clase. Por una erótica de la enseñanza, esse livro tem sido pretexto para entrevistas.

Retiro extractos de uma delas, feita por Olga Sanmartín e saída, há quase duas semanas, no jornal El mundo. 
Recalcati parte de algo que não é novo: a crise na educação, mas detém-se no discurso que confere identidade a esta crise. Isso, como “sinal do tempo”, é que é novo.
Nesse discurso consta, por exemplo, a ideia de que os mais jovens são, à partida, livres e autónomos, o que significa, muito simplesmente, negar a função educativa de pais e professores. Também consta a ideia de que aprender não requer esforço, acontece que estudar não é a mesma coisa que estar no twitter, exige muito tempo a pensar, constância, dedicação, empenho. Só assim se consegue chegar a perceber a beleza do conhecimento, a abertura de novos mundos e é aí que está a emoção. 
Não, pois, é o filho, o aluno que tem de aprender a relacionar-se com a realidade; é a realidade que tem de se submeter aos seus caprichos, vontades e exigências; afinal, ele o rei da família e da escola. Trata-se de uma “metamorfose antropológica” sem paralelo, nem mesmo com a de Maio de 68. Nessa, os jovens rebelaram-se contra pais e professores, agora não têm contra quem se rebelar. 
Tudo isto encaixa na propaganda de que a verdade não importa por aí além. Começando a revelar-se em tudo, faz decair, perversamente, o poder, pois deixa de haver razões e valores. Quando as referências colapsam e o híper-hedonismo triunfa, a autoridade dos pais e dos professores tende a diluir-se. 
Tal como Arendt havia predito pelos anos de 1950, “foi quebrado um pacto geracional”: pais e professores não unem esforços para educar os mais jovens. Essa falta de união traduz-se muitas vezes no facto de os pais se aliarem frequentemente aos filhos contra os professores; “transformaram-se em sindicalistas dos seus filhos”. 
É precisamente contra isso que os professores têm de lutar. 
Mas, de que modo se estão cada vez mais sós e humilhados? Relembrando o álbum The Wall dos Pink Floyd, Recalcati diz: “já não são os alunos que esperam em fila para serem triturados pelo sistema, agora são os professores que são consumidos por ele”. 
De que modo, se o currículo muda constantemente, suprimindo-se as disciplinas estruturantes em favor da tríade “informática, inglês e empresa”, guiada pela “filosofia das competências e do fácil acesso à informação”? Se as humanidades desaparecem e com elas o sentido da própria linguagem, da palavra? Se o mito da produção e do rendimento projecta constantemente a sua sombra? 
“A única forma de resistir é não perder o desejo de se ensinar o que se ensina. E relacionar-se com colegas para se sentirem menos sós”. 
E, sobretudo, não deixar desqualificar a escola, não deixar abalar as suas bases como instituição social. Um espaço que permita tempo improdutivo mas fecundo, onde se possa, por exemplo, dedicar toda uma tarde a ler juntos uma poesia. 
O professor tem de voltar a ver-se como aquele que desperta a paixão pelo conhecimento, pela cultura, porque essa é a única vacina que pode salvar a vida dos nossos jovens. A dependência de drogas, do álcool, da internet, o isolamento, a anorexia... são manifestações de um vazio. A função preventiva da escola face a riscos, como o da dissipação e da violência, deve ser encarada seriamente pelos professores. 
Pois, quem mais o pode fazer?

ORDENS PROFISSIONAIS E SINDICATOS DE PROFESSORES


Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras" ( e distribuído com o semanário "Expresso):
“Considero professores e professoras como a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantos trabalham para satisfazer as exigências de um Estado Democrático”.
Fernando Savater (Professor catedrático de Ética do País Basco).
O artigo de opinião (publicado neste Jornal, no passado dia 8 deste mês) do médico Hernâni Caniço, intitulado “Ordens profissionais, elitismo ou proximidade”, fez-me recuar ao tempo em que o prestígio profissional dos professores do então chamado ensino liceal se identificava com o dos  médicos, quiçá, com leve vantagem de prestígio social destes por lidarem com a doença e serem a esperança na sua cura.
Anos atrás, esse prestígio foi posto em causa ao ser tida por Manuela Teixeira, ao tempo presidente da Federação Nacional de Educação, a criação de uma Ordem dos Professores como o “elitismo  de criar um grupo à parte” (“Jornal de Notícias”, 13/08/1998). Por seu turno, a Fenprof, pela voz de Paulo Sucena, numa perspectiva maniqueísta, repetida mais tarde por Mário Nogueira, considerou que os problemas de natureza ética e deontológica “para serem assumidos pela classe docente não necessitam de vigilância ou da orientação de uma ordem profissional (“Jornal de Notícias”, 13/08/1998). Ou seja, de um lado os maus e desonestos profissionais possuidores de ordens profissionais a justificarem a tutela de seus pares; do outro lado, os bons e honestos e professores à rédea solta.
Correndo o risco de poder ser tido como deselegante encontro respaldo em Einstein: “Se vais à frente para descrever a verdade, deixa a elegância para o alfaiate”. Assim, numa altura que já existem mais de uma dezena e meia de ordens profissionais em Portugal, e outras se perfilam no horizonte, a posição assumida por determinados sindicatos de professores que têm a criação de uma Ordem dos Professores como desnecessária  dá azo a perguntar, desculpando-se-me o plebeísmo: “Será que para quem é bacalhau basta?”
Não posso deixar de me sentir desiludido com o passado e com pouca esperança no futuro próximo da criação de uma Ordem dos Professores pela qual me bati como presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) de que me demiti, por discordância para com a sua adesão à então chamada “Plataforma de Sindicatos”, de que foi porta-voz Mário Nogueira da Fenprof.
Em defesa da  criação de uma Ordem dos Professores escrevi várias dezenas de artigos de opinião em diversos jornais (nomeadamente , “Público” e “Correio da Manhã” ), fui autor do livro “Do Caos à Ordem dos Professores” e do opúsculo, ambos em edição do SNPL, “Proposta  de Estatutos de uma Ordem dos Professores” (de parceria com Carlos Sarmento e Maria José Iria) entregue pelo SNPL ao Presidente da Assembleia da República, em 20 de Junho de 1996, e difundida pelas Associações Científicas de Professores, por instituições de Ensino Superior ligadas à formação de professores, etc.
Em consequência, discordo visceralmente que para o associativismo dos professores seja bastante debater com o ministério da tutela questões de natureza laboral como vencimentos auferidos e horários de trabalho. E muito menos que determinados sindicatos de professores persistam em se transvestir de ordens profissionais porque, colhendo exemplo em Pessoa, “hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância”!
(Na imagem: recepção do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa no Conselho Nacional das Ordens Profissionais)

Ainda assim, é preciso continuar

O semanário Expresso publicou recentemente uma extensa entrevista da jornalista Luciana Leiderfarb a George Steiner (aqui). 

Numa altura em que se clama pelas designadas humanidades e por uma educação escolar que volte a dar-lhes destaque, com base no argumento de que nelas reside a possibilidade (talvez a única possibilidade) de enfrentar os graves problemas da Europa e um pouco mais além, o velho literato reitera as apreensões que tem demonstrado ao longo da sua vida em relação à própria condição humana.

Não, não temos qualquer garantia de que as humanidades humanizem e que a educação melhore a humanidade. Ainda assim, é preciso continuar; desistir não é uma opção.
Sublinhou o seu paradoxo quando disse que “a Europa é o lugar onde o jardim de Goethe faz fronteira com Buchenwald”.  
Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça de que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. 
Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. 
Deixe-me colocar a questão desta forma: passo o dia todo com os meus alunos a ler o “King Lear” e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção — e ‘ficção’ é a palavra-chave — pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que lêem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção. 
Que resposta encontrou? 
Quem me dera tê-la encontrado, mas não aconteceu. E acho que ninguém a tem realmente. Os verdadeiros educadores como Tolstoi não têm sido de grande ajuda para as pessoas comuns. A cultura é, provavelmente, um talento muito ambíguo. 
Uma vez afirmou mesmo que as humanidades “humanizaram a mentira”. As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas ‘ciências sociais’ fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada. 
O que nos leva a um problema que tem estudado profundamente: o da relação tensa entre a linguagem e a inumanidade política. 
Sim, a retórica política é capaz de matar. A política pode assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica, na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. O totalitarismo funciona através da linguagem. 
E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diários de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o terceiro ato do “Tristão”. Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A INCOERÊNCIA DE ALGUNS DEPUTADOS


António Costa podia tê-lo dito, mas não disse. Mas o certo é que a candidatura de Lisboa à Agência Europeia do Medicamento foi apoiada há cerca de um mês por unanimidade na Assembleia da República.

Eis os nomes dos deputados eleitos pelo círculo de Coimbra:

 - Margarida Mano PSD
- Fátima Ramos PSD
 - Maurício Teixeira Marques PSD
- Ana Oliveira PSD

- João Galamba PS
- Elza Pais PS
 - Pedro Coimbra PS
- João Gouveia PS

- José Manuel Pureza BE

 Todos eles querem que a Agência Europeia do Medicamento em Lisboa e não em Coimbra, Porto ou Braga. Alguns deles vieram depois dizer uma coisa depois de terem dito outra: Margarida Mano, Fátima Ramos, Maurício Marques e Ana Oliveira, todos do PSD. São políticos do partido português mais votado,  também o mais votado em Coimbra, que não teve maioria para governar (felizmente, digo eu). Mas, como muitos políticos portugueses, dizem primeiro uma coisa e a seguir dizem outra completamente oposta.

 Que legitimidade tem agora o candidato do PSD, Jaime Ramos, em reclamar para Coimbra a referida Agência Internacional? O seu partido votou, afinal, em bloco contra essa sua pretensão.

Estou em crer que os outros deputados (PS e BE, da geringonça) são pelo menos coerentes: queriam a Agência em Lisboa, em obediência ao  governo, e continuam a querer.

Fico a pensar: Não teria sido melhor  alguns eleitos de Coimbra tivessem concorrido por Lisboa? Ou não teria sido melhor que os eleitores de Coimbra tivessem escolhido pessoas, dos partidos ou independentes, que defendessem os interesses do seu círculo em vez de defenderem os interesses do seu partido?

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A "DESCENTRALIZAÇÃO" DE ANTÓNIO COSTA


O sítio para a  candidatura portuguesa à sede da Agência Europeia do Medicamento ilustra mais uma vez o conceito de "descentralização" de António Costa. Ele bem enche a boca com a "descentralização", mas o que ele faz é centralizar cada vez mais. Os argumentos que ele usou para colocar em Lisboa a dita Agência, onde já se situam outras duas agências europeias, são completamente ridículos. Em primeiro lugar, diz que o Infarmed é lá. Pois, mas o Infarmed e a Agência Europeia já hoje comunicam  e não estão ao lado um do outro (que sentido faz estarem ao lado um do outro nesta era da comunicação global?). Por esse argumento tudo teria de ser em Lisboa pois quase tudo já é lá. Mas, se o problema é esse, então mude-se o Infarmed para Porto, Braga ou Coimbra. Em segundo lugar, diz que é preciso uma escola internacional nova (uma outra escola nova!), como se não se existissem já várias escolas internacionais, que estão longe de se confinarem a Lisboa. E as outras agências que já lá estão precisaram de uma escola internacional nova?

O discurso de António Costa não é a favor de Lisboa e contra o Porto, Braga e Coimbra. É simplesmente contra o país. É inclusivamente contra Lisboa que, quanto mais se enche, mais inabitável fica (eu sou de Lisboa, gosto de lá ir, mas vejo a capital cada vez mais engarrafada). O governo tem uma maioria legítima e pode usá-la como lhe aprouver. Mas não pode falar de descentralização soando a falsidade. Ao fim e ao cabo, apesar da maior habilidade que se lhe reconhece, Costa é um político como os outros. Dizem uma coisa e fazem outra.

Exposição Fotosíntese em Coimbra


Inauguração da Exposição FOTOSSÍNTESE

21 de Junho, 17 horas


 
 



FOTOSSÍNTESE


A partir de 21 de Junho, no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra

 
O Jardim Botânico é o cenário de muitas memórias fotográficas. Esta exposição ao ar livre pretende mostrar as imagens obtidas pelos visitantes no Jardim desde o início da história da fotografia.

Com o projeto “Fotossíntese” quisemos capturar o Jardim visto de fora e constituir um arquivo das imagens obtidas pelos visitantes, neste espaço que é uma ligação privilegiada entre a Universidade e a Cidade.

Recebemos dezenas de fotos que, para além de registarem a história pessoal dos nossos visitantes, dão-nos perspetivas da história do Jardim Botânico e da sua evolução, desde o fim do século XIX até aos anos 80 do século XX.

Esta exposição é a partilha de alguns desses momentos e das histórias de quem por cá passou. A inauguração será dia 21 de Junho, pelas 17 horas.

A exposição insere-se também na programação do Sons da Cidade, o evento cultural que celebra a inscrição da “Universidade de Coimbra, Alta e Sofia” na Lista do Património Mundial da UNESCO.
 
 


 Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.

Calçada Martim de Freitas 3000-456 Coimbra
Telefone: +351 239 855 215
uc.pt/jardimbotanico
Email:jardim.botanico@uc.pt

DOMINGO, ÙLTIMO DIA DA FEIRA DO LIVRO DE LISBOA

A ODISSEIA

O filme sobre Jean Jacques Cousteau:

terça-feira, 13 de junho de 2017

Youth Science Meeting

A Associação Juvenil de Ciência (AJC) é um grupo de jovens portugueses empenhados na promoção da Ciência no seio da juventude. Foi criada nos anos 80 e, desde então, foi sendo formada e dirigida exclusivamente por jovens, sendo a única associação deste género. Os fundadores da AJC são alguns dos melhores cientistas portugueses e, atualmente, a associação conta com mais de 1900 sócios.

A maior atividade organizada pela Associação Juvenil de Ciência é o Youth Science Meeting (YSM), um encontro internacional anual organizado pelas diferentes cidades do país que, desde 1982, conta já com 34 edições. Criado a fim de cultivar o interesse de estudantes pela investigação científica, pretende também promover o intercâmbio de experiências entre participantes de diversas áreas académicas, geralmente entre os 16 e os 25 anos. O encontro inclui inúmeras palestras e workshops de diversas áreas científicas, bem como um extenso programa cultural, no qual se pretende fomentar o interesse individual do participante e a dinâmica social do grupo. Além disso, a vertente competitiva do encontro pretende selecionar os melhores projetos nacionais para a sua divulgação em feiras internacionais, nomeadamente na MILSET Expo-Sciences International 2017.


Após o sucesso do 34º Youth Science Meeting de Lisboa, 
convidamos todos os interessados a participar e a divulgar este email por quem de interesse no 35º Youth Science Meeting, a organizar no Porto nos dias 21 a 30 de Julho de 2017. Para mais informações acerca do evento - datas, prémios e condições de inscrição - poderão visitar o site www.ajc.pt ou através do email ysm2017@ajc.pt não deixes também de gostar da nossa página de facebook: https://www.facebook.com/Associacaojuvenildeciencia/



sábado, 10 de junho de 2017

LIVROS NA FEIRA - 10 OBRAS DE NÃO FICÇÃO


Aí está a Feira do Livro de Lisboa (e em Coimbra a chamada Feira Cultural, que substituiu uma verdadeira Feira do Livro, revelando a enorme fragilidade do sector da cultura da Câmara de Coimbra. Escolhi uma lista de 10 livros de não ficção que podem ser encontrados na Feira (na de Lisboa de certeza, na de Coimbra é preciso ter sorte). A ordem é alfabética do apelido do autor:


- Almeida, Onésimo, Teotónio,  A Obsessão da Portugalidade, Identidade, Língua, Saudade e Valores, Quetzal, 2017.

Onésimo Almeida, professor de Filosofia da Universidade Brown, vê muito bem Portugal ao longe. esta é um repositório de textos seus sobre a portugalidade. O que é ser português? DE onde vimos? para onde vamos?  O autor tenta introduzir alguma racionalidade num campo minado pela confusão. É conhecida a polémica entre Teixeira de Pascoaes e António Sérgio sobre a "arte de ser português". Almeida está do lado de Sérgio contra alguns delírios da imaginação.

- Galfard, Christophe, O Universo ao alcance da mão. Uma viagem pelo espaço, tempo e mais além, Relógio d'Água, 2017.

Estudante de Stephen Hawking na Universidade de Cambridge, Galfard leva-nos numa viagem actualizada pelos mistérios do espaço e do tempo, uma narrativa que nos é servida pela muito boa tradução de Miguel Serras Pereira. O estilo é despretensioso, conduzindo o leitor ao conhecimento científico mais recente sobre o cosmos que habitamos.  É o número 39 da colecção de Ciência da Relógio d´Água.


- Harari, Yuval Noah, Homo Deus. História Breve doa Amanhã, Elsinore, 2017.

Este é um dos livros do ano em Portugal. Depois do grande êxito  de sapiens: História Breve da Humanidade, o historiador israelita Harari, traça-nos a história do nosso eventual futuro ("furtando" o subtítulo de "História do Futuro" ao Padre António Vieira). As perspectivas não são brilhantes: podemos estar condenados a dar o lugar a robôs. para ler e reflectir.


- Kaku, Michio, Hiperespaço, Bizâncio, 2016.

O subtítulo deste livro de um físico e divulgador americano de origem japonesa é "Uma odisseia científica através de universos paralelos, de dobras temporais e da 10.ª dimensão". Soma-se a outros títulos deste autor que fornecem uma excelente introdução a algumas das teorias mais exóticas da física contemporãnea.

- Krauss, Lawrence M., Um Universo vindo do Nada, Porque há algo em vez do nada? Gradiva, 2017

Outro candidato a livro do ano de não-ficção em Portugal, esta obra de um conhecido astrofísico e divulgador científico americano propõe a tese de que o Universo se criou a si próprio a partir do nada por uma flutuação quântica do vácuo que é natural e espontânea. A tese tem, segundo alguns, implicações teológicas. É o caso do ateu confesso Richard Dawkins, que fez um posfácio. É o n.º 218 da colecção Ciência Aberta, que tenho a honra de dirigir.

- Naves, Filomena e Firmino, Teresa, Por que é que as bailarinas não ficam coma  cabeça a andar à rida? ... E outras 59 perguntas sobre o cérebro e o seu funcionamento, A Esfera dos Livros, 2016

Este é é o segundo livro deste par de autoras, que já tinham escrito no mesmo formato "Por que choramos quando cortamos uma cebola?" Trata-se de um conjunto de perguntas e respostas sobre temas de neurociências  da pena de duas das melhores jornalistas de ciência em Portugal, uma do DN e outra do Público. pela minha parte, gosto destes livros de perguntas e respostas, escritos para o público em geral, mas que ajudam aqueles que como eu só sabem responder a certas questões e não a outras.

- Ordine, Nuccio, A utilidade do inútil, manifesto,  Ágora K, 2016,.

Um professor universitário italiano defende a utilidade das Humanidades, nesta tradução que surge num ramo da editora  Kalandraka, especialista em livros infantis. Lê-se muito bem e, no final, não podemos de deixar de concordar com o autor. Neste tempo em que a tecnologia impera é bom atentar na perenidade do saber "inútil"b que nos foi legado por filósofos e literatos.


- Real,  Miguel, Traços fundamentais da cultura portuguesa, Planeta, 2017.

O professor de Filosofia, escritor e crítico literário Miguel Real é quem , entre nós, mais escreveu sobre a cultura portuguesa. Mas o que é essa cultura?  Com prefácio de José Eduardo Franco, outro grande estudioso da cultura portuguesa, esta é uma reflexão que vale a pena ler, juntando-se a outras do autor.

- Suits, Bernard, A Cigarra Filosófica. A vida é um jogo?, Gradiva,  2017.

Ete o número 29 da colecção "Filosofia Aberta". da autoria de um filósofo canadiano, trata do jogo, uma grande metáfora da vida, já tratada por Huizinga mas  um tema inesgotável. este é um livro sobre a natureza dos jogos e, portanto, sobre o sentido da vida.

-  Tetlock, Philip e Gardner, Dan, Superprevisopres, A arte e a ciência da previsão, Gradiva, 2016.

O primeiro autor, professor norte-americano de Psicologia Social, esteve em Portugal em Novembro passado a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Ele concebeu uma maneira muito interessante de saber o futuro: treinar pessoas comuns com os dotes de "adivinhação" que a racionalidade permite sustentar. Os seus superprevisores, embora com informação pública, conseguem bater os analistas dos melhores serviços de informação americanos! Bem escrito, lê-se de uma assentada.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

LEIO E PASMO

Leio e pasmo. Parece que o ministro Tiago Brandão Rodrigues é indiferente à qualidade na educação. Anda, com a sua secretária de estado, perdido em guerrilhas ideológicas que pouco têm a ver com o futuro dos nossos jovens e com as necessidades do país:

http://observador.pt/opiniao/obrigado-tiago-por-condenares-mais-uma-escola-neste-caso-a-melhor-escola-do-distrito-de-santarem/

quinta-feira, 8 de junho de 2017

TEXTOS INTEGRAIS DA MINHA LISTA BIBLIOGRÁFICA

Estou a colocar on-line todos os meus capítulos de livros (não, obviamente, os livros da minha autoria ou co-autoria ou minhas traduções ou edições), prefácios, artigos e comunicações em encontros. Deixo aqui o link para os interessados. Faltam juntar poucos itens para a lista ficar completa.

LIVROS




Artigos 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

As escolas têm sido confrontadas com "paradigmas a mais"

Voltou a ouvir-se falar do "Perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória", redigido por uma equipa de missão a pedido do Ministério da Educação.

Depois de ser amplamente anunciado (ver aqui e aqui), foi posto em discussão pública (por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui) e segui-se um silêncio.

Hoje, por iniciativa do PSD e do PS, a Comissão de Educação da Assembleia da República, ouviu hoje o Presidente do Conselho das Escolas que disse o seguinte, cito a notícia do Diário de Notícias (aqui):
o perfil implica "quase uma revolução" nas escolas, com repercussões na formação docente, avaliação, autonomia e dimensão das turmas. 
Notou uma deputada do PS
estar em causa "um novo paradigma".
Ao que o mencionado Presidente respondeu:
as escolas têm sido confrontadas com "paradigmas a mais" e com alterações a mais. "Os novos paradigmas nem sempre são bons, às vezes ficam pelo caminho. Concordamos mais com aperfeiçoamentos do que com mudanças".
Aguardemos serenamente o resultado de uma discussão que já tem pelo menos um ano, sem que se percebam consensos mínimos acerca de uma questão crucial no sistema educativo.

"BURACOS NEGROS E ONDAS GRAVITACIONAIS: OS PRIMEIROS 100 ANOS"



No próximo dia 13 de Junho, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada “Buracos negros e ondas gravitacionais: os primeiros 100 anos”. O palestrante será Carlos Herdeiro, Físico, Professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro.



Resumo da palestra:
No dia 11 de Fevereiro de 2016 foi anunciada a detecção de ondas gravitacionais, provenientes de uma colisão de buracos negros que aconteceu há 1.3 mil milhões de anos. Dois outros evento semelhantes foram posteriormente anunciados pela colaboração LIGO. A detecção destas ondas, previstas por Albert Einstein há precisamente 100 anos, dá-nos acesso a uma nova camada da realidade, até agora inacessível. Num certo sentido, estávamos surdos e passamos a ouvir. Nesta palestra irei falar de uma previsão teórica controversa, de uma experiência impossível, de desenvolvimentos técnicos extraordinários e finalmente, da sinfonia e dos diálogos cósmicos que estão à espera de ser ouvidos e dos enigmas que poderão esclarecer/criar.


Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

Entrada livre
Publico em geral

Link para o evento no facebook

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...