quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

PERFIL DE CARLOS FIOLHAIS POR ALEXANDRE PEREIRA

Porque  sempre gostei de ajudar os estudantes dei no ano passado uma entrevista ao Alexandre Pereira que pretendia realizar um trabalho académico, para o Mestrado Comunicação de Ciência da NOVA FC da disciplina “Jornalismo de Ciência". O tema dele era o meu «perfil». Ouviu outras pessoas para o seu trabalho. Recebi agora o seu trabalho, que já teve avaliação académica. Na minha avaliação, estando bem pesquisado e escrito, achei que havia alguns exageros, mas percebo que venham das fontes que ele ouviu. Ninguém é isento a seu respeito, pelo que não comento o conteúdo e limito-me a agradecer a alguns amigos e conhecidos as palavras amáveis que transmitiram ao Alexandre Pereira.

 Pedi autorização ao autor para publicar aqui no blogue e ele amavelmente anuiu, uma vez que o trabalho não era para publicar em lado nenhum, tendo apenas um propósito formativo.  Agradeço-lhe o interesse pela minha pessoa. Há decerto pessoas mais interessantes para «perfilar», mas ele decidiu «perfilar-me» e eu  só tenho que ficar «perfilado»: 


PERFIL: O verdadeiro sábio de muitos saberes 


Professor, autor, bibliotecário, comunicador, empreendedor. Há várias formas de olhar para Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra jubilado em 2021. Mas uma palavra também pode chegar: cientista. 

 Por Alexandre Pereira 

 É porventura o melhor – seguramente o mais popular – comunicador de ciência português. É também, salta rapidamente à vista, bem humorado: “Não tenho um comunicómetro, mas obrigado por achar isso”, solta no início de uma conversa informal, sentado num cadeirão do Centro Rómulo de Ciência Viva da Universidade de Coimbra, que fundou em 2008 e ainda dirige, apesar de em maio passado se ter despedido das aulas que deu na instituição à qual está ligado desde 1973 – primeiro aluno, depois professor. 

 Antes desta conversa passou uma hora a apresentar o Rómulo, explicando como foi acumulando livros relacionados com ciência, como estão organizadas as coleções da biblioteca, mostrando mais tarde as reservas nas quais se orgulha de juntar obras antigas e raras. Para a tarde Carlos Fiolhais tem agendada a gravação de um podcast na rádio Observador. Será sobre vulcões, por causa da erupção nas Canárias, e falta-lhe reunir alguma informação. Sabe, porém, onde encontrar no Centro alguns livros sobre o assunto e em pouco tempo resolve o problema. “Quando vou falar a algum lado levo um powerpoint, que é uma boa bengala. Quando não levo as coisas acabam por sair melhor, mais espontâneas, uma pessoa faz mais gestos, tenta ter mais impacto. Mas o que eu gosto mesmo, sempre, é de ter um ou outro livro. Uma pessoa abre-o e faz logo ali uma performance, qualquer que seja a página. Ou então utilizo uns truques, levo já uma dobra nas páginas que interessam e faço um grande número.” 

 Carlos Fiolhais, 65 anos, deixa esta pequena confissão e solta uma gargalhada que lhe é muito frequente. O sentido de humor é qualidade que se lhe reconhece facilmente. José Urbano, professor, orientador de dissertação de licenciatura e mais tarde colega de Fiolhais no Departamento de Física da Universidade de Coimbra (UC), não resiste a contar um episódio antigo: “Passou-se durante uma longa viagem de automóvel entre Coimbra e Jülich, onde eu estava instalado e a minha mulher e os meus três filhos iam ter comigo. No automóvel seguia o professor Carlos Fiolhais, que tendo também de se dirigir à Alemanha aceitou a boleia que lhe foi oferecida. A certa altura, a minha mulher sentiu sono. Perante o perigo, o professor Carlos Fiolhais começou a cantar ópera, para a manter acordada. O que conseguiu, tal era a desafinação que imprimia ao seu canto!” 

 “Se estiver perante uma plateia cheia galvaniza-se. Diz piadas de 15 em 15 segundos, embora algumas só se percebam 45 segundos depois. É muito inteligente”, declara Manuel Coelho e Silva, professor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (UC), que em tempos partilhou assento com Fiolhais no Conselho Científico do Instituto de Investigação Interdisciplinar da UC. 

 O comunicador 

 Nasceu em Lisboa. O pai era de Sedielos, Peso da Régua, e a mãe de Selhariz, Vidago. “O meu pai estava a comprar no mercado da Ribeira, a minha mãe estava a vender e eu sou a mais valia da transação. Eu e os meus irmãos, claro.” 

 Carlos Fiolhais tem dois irmãos mais novos – Manuel, também professor de Física em Coimbra, e Rui, que lidera atualmente o Instituto de Segurança Social. O humor sempre presente: “É natural que ouça falar em Rui Fiolhais, ele é mais famoso que eu. Ou pelo menos tem muito mais dinheiro para gerir”, atira. Casado em segundas núpcias, tem um filho a tirar doutoramento em engenharia eletrotécnica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Passada a primeira infância, Carlos Fiolhais saiu de Lisboa para Coimbra antes de entrar para a então segunda classe do ensino primário. A mudança foi forçada pela carreira do pai, militar da Guarda Nacional Republicana. 

 A entrada no mundo da comunicação fez-se pela leitura ávida de jornais, primeiro, e pela participação em projetos jornalísticos desde tenra idade. No liceu Dom João III, hoje José Falcão, perto do qual morava, foi chefe de redação do jornal O Estudante. Aos 15 anos, um professor de Moral, padre, reconheceu-lhe qualidades e ofereceu-lhe duas páginas nas edições do Correio de Coimbra, o jornal da diocese. “O padre não nos censurava nada, era até progressista, mas a Censura oficial existia e aconteceu cortarem-nos coisas. Depois tinha de se andar ali a jogar com o grafismo”, recorda. Foi também ilustrador, porque “tinha jeito para desenhar, era artista” e chegou a ganhar prémios escolares de artes plásticas. 

 Na faculdade escreveu no jornal O Mocho e mais tarde dirigiu a Gazeta de Física, da Sociedade Portuguesa de Física. Depois de voltar de Frankfurt, na Alemanha, onde fez doutoramento após a licenciatura e um ano como professor assistente em Coimbra, começou a colaborar “em jornais nacionais”. Fê-lo a partir da relação que entretanto iniciou com a editora Gradiva, onde hoje dirige a coleção Ciência Aberta, em cujo catálogo constam vários dos seus 70 livros (cerca de metade são manuais escolares de Física e Química). Carlos Fiolhais fala numa carta escrita a Guilherme Valente, o editor da Gradiva. Guilherme Valente recorda um telefonema que ocorreu depois. A verdade é que o então recém-doutorado físico detetou erros em alguns livros da editora e queria chamar a atenção do editor para eles. “Uma pessoa tem 20 e tal anos e arma-se aos cucos, acha que sabe mais que os outros”, condescende Fiolhais. Seja como for, Guilherme Valente recorda um almoço e o início de uma forte amizade: “Combinámos um encontro em Leiria, onde moro. Ele acabou por almoçar lá em casa, com a minha família, e foi uma empatia imediata, nasceu uma amizade para sempre.”

O professor passou então a traduzir livros para a Gradiva e a publicar recensões na revista do Expresso. Quando ajudaram a fundar o Público, os jornalistas Vicente Jorge Silva e José Vítor Malheiros levaram-no para o novo diário: “Levaram quase a equipa inteira, colaboradores e tudo. Eu escrevia sobre livros, sobre ciência, escrevia que nunca mais acabava e eles pagavam, havia dinheiro, o Belmiro [de Azevedo, presidente da Sonae, entretanto falecido] pagava.”

 O primeiro livro de autor, Física Divertida, publicou-o em 1991 na Gradiva e foi o culminar de várias palestras realizadas em escolas ao longo dos anos. 

 O alvo de elogios 

Quando lançou o primeiro título em parceria com Carlos Fiolhais – Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência, em 2011 – o bioquímico David Marçal, também ex-jornalista e humorista (escreveu no Inimigo Público), detetou desde logo no físico “a grande capacidade de concretizar”, outra característica fácil de escutar quando se fala com pessoas que o conhecem e se cruzaram com ele. 

 Vítor Torres, um dos quatro colegas do curso de Física de Carlos Fiolhais, também fala em “capacidade de trabalho” e junta-se ao coro de elogios “à inteligência, à criatividade e à honestidade”. Guilherme Valente destaca “a qualidade de se emocionar” e o professor José Urbano lembra-se de um aluno “curioso, com extraordinária facilidade de comunicar e de levar a ciência às pessoas”. 

 David Marçal já colaborou com Carlos Fiolhais em mais três livros da coleção Ciência Aberta e numa série de podcast de divulgação de ciência. Chama-se Assim Fala a Ciência e foi uma produção para a plataforma de podcast do Público financiada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde Fiolhais foi coordenador da área do conhecimento. O bioquímico classifica “o amigo mais velho” de forma similar à generalidade das pessoas e acrescenta, com ênfase: “É extremamente culto, conhecedor das várias áreas humanas, da Bíblia ao futebol.” 

 De futebol, curiosamente, ouve-se Carlos Fiolhais falar pouco. É adepto da Académica, mas muito distante, afirmando mesmo que só foi uma vez ver um jogo ao antigo estádio do Calhabé para que o filho, então pequeno, “se inteirasse de toda a linguagem que os adultos usam”. Conta a história entre gargalhadas, confessando ainda: “A minha mulher diz que eu gosto de ver os jogos do Benfica. Temos Sport TV por causa dos filhos dela. Eu não posso ser do Sporting porque o meu pai era e tem de haver conflito geracional. Não posso ser do Porto porque o meu filho é e, além disso, não gosto do Pinto da Costa. Se calhar entre os grandes prefiro o Benfica, mas se fosse mesmo adepto assumia. Só que apenas assumo a Académica.” 

 Quem diz futebol diz política. Carlos Fiolhais classifica-se como apartidário e “muito feliz” por nunca o terem “puxado para a política”. Até hoje apenas apoiou publicamente Jorge Sampaio e Sampaio da Nóvoa em candidaturas à Presidência da República e, na cidade que é a dele desde menino, integrou o movimento cívico Somos Coimbra. “Esteve com José Manuel Silva até ele ser candidato pelo PSD. Aí sentiu que não era aquele o caminho e saiu”, conta Manuel Coelho e Silva, o professor da Faculdade de Desporto. Carlos Fiolhais confirma: “Nós, da Comissão Política, fomos quase os últimos a saber e não concordámos. Não queríamos ser comidos por um partido e saímos.”

 O bibliotecário e historiador de ciência 

 O papel de diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que assumiu entre 2004 e 2011, marcou-o. Chegou a intitular-se, numa entrevista de vida, “guardião de um tesouro”. O convite do reitor da Universidade de Coimbra entusiasmou-o e de certa forma afastou-o da Física, ao mesmo tempo que o aproximava da História da Ciência: “Entrei num mundo que não era o meu e achei piada. Aquilo tinha 80 funcionários, era a segunda biblioteca do País, com fundos intermináveis, coisas mesmo a sério, desde Bíblias do século XV, uma delas judaica, a originais do Almeida Garrett, como o Frei Luís de Sousa. Tem a primeira Bíblia de Gutenberg com marca do impressor. Não exatamente a primeira, porque essa não tinha marca, mas uma se calhar até mais valiosa. A maioria das obras são ligadas à Igreja. Comecei a interessar-me pela História e a relacioná-la com a Ciência.” 

 O atual diretor da Biblioteca Geral, que enquanto diretor de imprensa da UC promoveu “várias realizações conjuntas de promoção do livro e da leitura” com Carlos Fiolhais, destaca “a grande bonomia” do professor e a já conhecida “gargalhada deliciosa”. João Gouveia Monteiro sucedeu ao sucessor de Fiolhais (José Bernardes, diretor entre 2011 e 2019) mas consegue facilmente enumerar o legado do físico à Biblioteca: “Reorganização interna de serviços, designadamente com a criação do SIBUC - Sistema Integrado das Bibliotecas da Universidade de Coimbra; maior abertura ao exterior; empréstimo domiciliário de livros a não docentes; valorização do piso térreo da Biblioteca Joanina; enriquecimento do património da biblioteca com incorporações relevantes.” 

 O professor 

 Enquanto diretor da Biblioteca Geral, Carlos Fiolhais continuou sempre a dar aulas. E foi nesse período que fundou o Rómulo. “Isto foi crescendo do zero, acho muita piada ao facto de os livros se multiplicarem a olhos vistos. Uns livros chamam os outros”, diz. 

 A última aula do professor de Física ocorreu a 28 de maio, na cadeira de Mecânica Quântica II. A 12 de julho teve uma “segunda última aula”, o verdadeiro jubileu, e aí casou amores, promovendo uma palestra sobre “História da Ciência na Universidade de Coimbra”. 

 Entre tantos papéis desempenhados na vida, há um que destaca, ainda que a custo: “Fui professor toda a vida, gostei de dar aulas e as pessoas dizem-me que algumas aulas saíam bem. Algumas pessoas lembram-se de mim é isso é gratificante. Somos herdeiros dos nossos professores e há gente que se diz minha herdeira, portanto ter sido professor marca-me muito.” 

 Ser bibliotecário também o marcou, ser autor e comunicador marca-o. E Carlos Fiolhais consegue uma vez mais juntar paixões: “Um bibliotecário é um ajudante de professores, que são os autores dos livros. O ser-se autor e comunicador é uma extensão de se ser professor, passa-se a ter alunos mais longe.” 

 Aos 65 anos, Carlos Fiolhais é o que já se viu: diretor do Rómulo Ciência Viva, diretor da coleção Ciência Aberta, colaborador da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Faz programas na rádio Observador e ainda recentemente, em novembro, anunciou workshops online sobre História da Ciência. 

 Não se queixa da vida. “Ao contrário do Fernando Pessoa, que dizia que a vida lhe tinha batido muito, eu acho que ela a mim não bateu. Vale sempre a pena viver mais e por isso costumo dizer: ‘Se me encontrarem morto investiguem bem que não fui eu!’. Uma pessoa acaba sempre por ter surpresas. Acho que amanhã ou depois vai haver outra. Na verdade não sei se haverá, de modo que é melhor ir até lá para ver se há ou não.” 

A conversa foi sempre fluindo, sem grandes formalismos retóricos. Carlos Fiolhais é um homem de comunicação prática. Termina o almoço meio à pressa, preocupado com o podcast combinado para daí a pouco. Consegue entretanto adiá-lo ligeiramente após um telefonema para o profissional da Rádio Observador. “Isto na Alemanha era adiado já para a semana ou para a outra, mas cá há alguma flexibilidade”, sublinha. Com o tempo ganho, ainda faz questão de passar pela livraria do Museu Nacional Machado de Castro. À saída, depara-se com uma exposição temporária de litografias de Paula Rego a partir de um conto de João de Melo intitulado “O Vinho”. Não sabia da existência da exposição ali tão perto do Rómulo e não resiste a entrar. Porque, como resume o editor Guilherme Valente, “nada do que é humano lhe é estranho”. 

 Alexandre Pereira 

Mestrado Comunicação de Ciência NOVA FCSH “Jornalismo de Ciência”
 Lisboa, dezembro de 2021

Luiz Teixeira - História do Parto no Brasil

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO: Carlos Fiolhais fala sobre «O Físico e o Filósofo: Debate entre Einstein e Bergson»


Realiza-se na terça-feira, dia
11 de Janeiro de 2022, pelas 18 horas, a palestra «O Físico e o Filósofo: O Debate entre Einstein e Bergson»  inserida no ciclo em cursoCiência às Seis! (temporada 6)”. Será palestrante o físico Carlos Fiolhais que trocará impressões com o público sobre o tema. 

Resumo: Em 1922, o físico alemão Albert Einstein e o filósofo francês Henry Bergson travaram uma disputa sobre a teoria da relatividade do primeiro, centrada no conceito de tempo. A questão  está hoje resolvida: é geralmente reconhecido que Bergson não entendeu a teoria da relatividade. Ele não considerava que a medição feita por um relógio fosse uma definição satisfatória de tempo. Por outro lado, Einstein não fez qualquer esforço para olhar para as dimensões psicológica e  filosófica do tempo. Ele disse na altura: "O tempo dos filósofos não existe." Bergson discutiu os aspectos psicológicos e ntuitivos do tempo, enquanto Einstein se restringiu aos aspectos matemáticos e racionais. O resultado foi um total mal-entendido. Este confronto foi considerado um exemplo moderno da separação entre física e a filosofia. Se a vitória científica de Einstein não pode ser refutada, é verdade que Bergson levantou pontos que valem a pena pensar hoje.


Essa disputa tem um predecessor na polémica sobre luz e cor que começou em 1810, quando o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe negou a óptica do físico inglês Isaac Newton. Como no confronto Einstein- Bergson, podemos dizer que o físico venceu claramente, se adoptarmos as regras científicas. No entanto, os argumentos de Goethe deram e dão o que pensar. Entre outros, os físicos alemães Hermann von Helmholtz, em 1853 e 1892, e Werner Heisenberg, em 1941, escreveram sobre a "Farbenlehre" de Goethe. O mesmo o fizeram os filósofos Arthur Schopenhauer e Ludwig Wittgenstein, respectivamente alemão e austríaco. Discutirei analogias e contrastes entre as duas disputas, separadas por mais de um século, tentando destilar as mensagens relevantes para o debate cultural contemporâneo.


Biografia: Carlos Fiolhais nascido em Lisboa em 1956, é professor aposentado de Física da Universidade de Coimbra, com interesse em História das Ciências em Portugal. É autor de mais de 60 livros, mais de 160 artigos científicos (um deles com mais de 20.000 citações) e  mais de 500 artigos de divulgação. Entre os seus livros estão "Biblioteca Joanina" (Imprensa Universidade de Coimbra, com Paulo Mendes), "História da Ciência em Portugal" (Arranha-Céus) e "Jesuítas, Construtores da Globalização" (CTT, com José Eduardo Franco). Foi Director do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, onde procedeu à instalação do maior computador português para cálculo científico, e da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, onde concretizou vários projectos relativos ao livro e à cultura. Fundou o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Foi o responsável pela área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Recebeu vários prémios e distinções nacionais e internacionais. Tem defendido a ciência e a cultura científica no espaço  público em Portugal.

 

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Romuloccvuc

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

"O que muda a vida de um estudante é um bom professor"

Porque há ideias que devem ser repetidas, conceitos que devem ser proclamados a altas vozes, deixo aqui alguns extractos de (mais) uma entrevista ao professor e pedagogo italiano Nuccio Ordine, concedida ao jornal "Diario de Sevilla", que pode ser lida na íntegra aqui:

"Hay muchos autores clásicos que explican que los libros son fundamentales para enseñarnos cosas y cambiar nuestras vidas para siempre. Suelo repetir a mis alumnos que no se estudia para buscar un título, al igual que los clásicos no se leen para aprobar un examen, sino porque te estimulan para comprender no sólo la vida en el pasado sino tu vida en el presente. "

"Un ordenador es bueno si es rápido pero para cultivar conocimiento y relaciones humanas tienes que poner tiempo de tu tiempo, lo que no significa perderlo, sino ganarlo para ti y los demás."

Actualmente la Universidad se empeña en vender títulos a los estudiantes y el título es importante pero no puede ser el final, la meta, porque si el estudiante cree que tiene que estudiar para ganar dinero entonces estamos corrompiéndolo. El estudiante tiene que estudiar para ser mejor. "  

"Porque la tecnología es ahora un sistema que no sólo ofrece cosas útiles sino que también está afirmando una manera de pensar la vida con los otros que es muy peligrosa. ¿Cuál es la filosofía de la tecnología? Crear consumidores pasivos. Lo vemos en la obsolescencia programada. Todo el dinero que la Universidad y la escuela invierten en tecnología, seis meses después no vale de nada, está obsoleta, y eso es un pozo sin fin. Esa lógica perversa de la obsolescencia programada me parece preocupante porque la Universidad en lo que tiene que invertir es en la formación de buenos profesores. Lo que cambia la vida de un estudiante no es un ordenador ni una plataforma sino un profesor ."  

"La Universidad y la escuela han convertido a los profesores en burócratas que pasan mucho tiempo en reuniones, inmersos en un sistema empresarial que no tiene nada que ver con la verdadera función de la educación. En el mundo ahora quienes dictan la programación, la agenda y la dirección de la educación son el Banco Mundial y la Organización Mundial del Comercio, agencias que persiguen crear consumidores pasivos sin pensamiento crítico."  

"La escuela y la Universidad hacen creer que Ítaca es el título pero ese pedazo de papel no sirve para nada si no tienes conciencia de todo lo demás."

 

sábado, 8 de janeiro de 2022

DICIONÁRIO DE IDEIAS FEITAS 2ª PARTE

 

Continuação do Dicionário de Ideias Feitas do escritor Eugénio Lisboa:

Para a 1.ª parte ver:

https://dererummundi.blogspot.com/2021/12/dicionario-de-ideias-feitas-1-parte.html 


Devido à sua natureza

coisificada, os clichés

podem ser coleciona-

dos como selos ou…

anedotas.

Anton Zijderveld

 

Embora pareçam coisa ligeira, os clichés ou ideias feitas ou frases feitas, têm sido submetidos a sérias análises, por gente do calibre de Orwell, T. Adorno, W. Benjamin ou H.Harendt. Os clichés sempre tiveram boa fortuna nas mãos de tiranos e tiranetes de todos os formatos e cores. São assunto sério, embora se possa brincar com eles. Flaubert ruminou sobre eles toda a sua vida e não apenas na fase final de BOUVARD EI PÉCUCHET e do DICTIONNAIRE DES IDÉES REÇUES. A Emma Bovary, do seu primeiro romance, já tinha a cabeça cheia dos clichés ardidos do romantismo serôdio, o que não pouco contribuiu para o enfastiamento dos seus amantes e para a sua queda final.

Dou hoje mais um punhado de ideias feitas, colhidas no nosso milieu, um pouco ao acaso.

Não é certo que esta colheita seja a última, porque o milieu é fértil.


CARLOS REIS – é o maior admirador de Carlos Reis. Quando passa por um espelho, fixa atentamente a sua imagem ali reflectida e diz, imitando Peter Sellers, numa situação idêntica: “My God, you are lovely!” Vai propor o Nobel para si próprio, para evitar que o seu muito amado Saramago fique eternamente sozinho.

CENTENÁRIOS – bons para se tentar resgatar do esquecimento escritores ou outros vultos interessantes, suspeitando-se, embora, que estes remergulharão no esquecimento, no dia seguinte. A propósito, não esquecer que passa este ano o centenário do “nosso único Nobel”.

CONCERTOS – dizer, com ar de gozo, que Mário Soares não gostava de os frequentar. Não tinha ouvido e fazia uma boa soneca o tempo todo. E não se importava nada de o dizer, o que era, aliás, desnecessário, pois estava bem à vista das pessoas, que preferiam olhar para ele, em vez de escutarem os já muito ouvidos “clássicos”.

Pode também, falando-se de concertos, dizer que os da Gulbenkian são muito bons e que não falha um.

CORRUPTOS – São todos os políticos. São todos a mesma coisa. Há uma justiça para os ricos (corruptos até dizer chega) e uma para os pobres (que, coitados, não têm outro remédio senão deixarem-se corromper). Esta corrupção é endémica e não há nada a fazer, a não ser uma revolução que faça um saneamento total. Barrela completa. Do que estamos a precisar é de um novo 25 de Abril, mas, desta vez, à séria.

CRÍTICOS DE ARTE – dizem, sobre as obras que criticam, coisas inesperadas e extraordinárias, nas quais os próprios artistas nunca tinham pensado. Aliás, é aos críticos e não aos artistas que compete pensar. Se fossem os artistas a pensar, não íamos a lado nenhum. Cada macaco no seu galho.

CRÍTICOS DE LITERATURA – dizem ou não dizem, conforme os casos, coisas que tenham a ver com a obra criticada (na maior parte dos casos, não dizem). Citar, escarninhamente, o crítico escocês que dizia nunca ler um livro, antes de o criticar, para não ficar com ideias preconcebidas. De resto, se um crítico fala, semanalmente, de três ou quatro livros, como é que se pode obrigá-lo a lê-los todos. Haja caridade.

DOUTORAMENTO – permite ao recentemente doutorado passar a falar, com pompa merecida, na sua “preparação científica”. E atirar à cara de quem não tenha passado por essa prova de fogo, um enorme desprezo, mesmo que se trate de Leonardo da Vinci. Quem o mandou a ele não se doutorar.

ERNESTO de MELLO E CASTRO – mostrar alguma hesitação em escrever Mello com dois “l”: antes do 25 de Abril, dava-lhe jeito aquela dupla e aristocrática consoante; com o 25 de Abril, pareceu-lhe apropriado fazer cair um “l” e assim aconteceu, dando-lhe porta aberta para ingressar na esquerda dura, a qual, por sua vez, eventualmente se foi esbatendo. Creio ter recuperado aquela consoante cheia de sangue azul, que teve de andar escondida, como muitos aristocratas franceses, durante o Terror (1793).

Mello e Castro é conhecido e estudado, como poeta vanguardista, concretista, experimentalista, contabilista, cientista, sofista, extremista, tecnicista, trapezista, solipsista, catequista, esgrimista e, eventualmente, comunista (tendo, mais tarde, ganhado juízo e mudado outra vez para elitista). Como se vê, a nada era alheio o seu talento. Gostava muito que se soubesse que era engenheiro têxtil (formado em Inglaterra, note-se), o que lhe dava o direito de se tratar por tu com o Binómio de Newton (no qual fazia afocinhar a ignorância impotente dos outros poetas).

FILMES – dizer mal, sempre que o filme pareça bem feito, com boa fotografia, profissional, bem dirigido, bem interpretado e com uma história cheia de substância. Dizer, com enorme desprezo, que é um filme “muito linear” e que lhe falta “um toque de opacidade”. Dar-lhe, com ar de generosidade imerecida, uma estrela e vivó velho.

GONÇALO M. TAVARES II – especialista em afirmações que não podem ser verificadas, no género desta: “Deus gosta mais de harpa do que de violino”. Os jovens acham isto invulgarmente profundo e fazem bicha para obter autógrafos. Ele dá – por enquanto. Até um dia entrar em oclusão total, como a Greta Garbo ou  Salinger.

LIVRO DIFÍCIL – se tiver de o apresentar, não hesite, mesmo tratando-se de um livro difícil de digerir. Para não ter de se chatear, fale de outra coisa qualquer: ninguém reparará porque ninguém ainda leu o livro e o que V. disser sempre fará um sentido qualquer. O autor do livro ficará contente, na mesma, por ter sido V. a apresentá-lo. E meterá isso no curriculum.

MANOEL DE OLIVEIRA – os seus filmes são chatos, muito lentos, alguns actores não sabem representar, mas fartou-se de ganhar prémios internacionais. Ninguém tem pachorra para ver os seus filmes (excepto o ANIKI BÓBÓ e o DOURO, FAINA FLUVIAL), mas é uma glória nacional. Convinha não lhe fazer muitas perguntas sobre os seus filmes, porque ele dava respostas muito desconcertantes. Quando era inquirido sobre uma passagem difícil de um romance da Agustina, que ele andava a filmar, respondia, enfadado, que lhe perguntassem a ela. Ele só filmava, era o que faltava, ainda ter de compreender o que ela queria dizer com o que escrevia. Talvez ela soubesse explicar, se ainda se lembrasse.

MATEMÁTICA – fica bem aos literatos dizerem que, nesta matéria, nunca deram uma para a caixa. Cai bem, no milieu literário. Tem sempre muito cachet esta confissão sorridente de incompatibilidade com os números. Fica sibilinamente inculcado que esta falta de vocação para as abstracções matemáticas é, por assim dizer, uma garantia de invulgar inclinação para as letras. Convém inserir esta inapetência no curriculum. Se, por grande bizarria e improbabilidade, gostar um bocadinho de matemática, não o confesse. Pode ser-lhe fatal.

 

(Hoje, fico por aqui, mas voltarei

em breve, porque as ideias feitas

são a mercadoria mais bem distri-

buída neste nosso Portugalinho.)

 

Eugénio Lisboa 

 

O ANO DO BRASIL

 


Minha última crónica no Público:

O ano de 2022 é fértil em efemérides. Permito-me destacar os duzentos anos da independência do Brasil e os cem anos da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada por Sacadura Cabral (piloto) e Gago Coutinho (navegador).

O processo de independência do Brasil principiou quando D. Pedro, o príncipe português e regente do Brasil, ao receber no Rio de Janeiro em 9 de Janeiro de 1822 uma petição popular para que não abandonasse o país como queriam as Cortes, decidiu ficar. O dia permaneceu como “dia do Fico”, dada a resposta categórica do regente: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto. Digam ao povo que fico!” A independência tem o seu símbolo maior no grito “Independência ou morte” lançado por ele a 7 de Setembro do mesmo ano nas margens do riacho Ipiranga em São Paulo. Mas só se consumou com a sua aclamação como imperador do Brasil a 12 de Outubro de 1822, no Campo de Santana, no centro do Rio de Janeiro, hoje Praça da República, posição de que haveria de abdicar em 1831 (pelo meio foi rei de Portugal, sob o nome de D. Pedro IV, por dois meses em 1826).

Ver o resto em (exclusivo para assinantes)

https://www.publico.pt/2022/01/06/opiniao/opiniao/ano-brasil-1990890


P.S. – Como “todo o mundo é composto de mudanças”, cesso aqui a minha coluna de opinião neste jornal, iniciada em Fevereiro de 2007. Aos directores e demais jornalistas do PÚBLICO só tenho a agradecer as continuadas atenções. E aos leitores expresso também a minha enorme gratidão pelas suas inúmeras manifestações de estima. A todos o meu bem haja!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O homem e o gato (poema escrito depois de ter consultado a Ísis)

 




POEMA DE EUGÉNIO LISBOA

 

A minha linda gatinha,

que tem comigo conversas               

com alguma pitadinha

de malícias controversas,

faz-me boa companhia,

mostrando que só os gatos

é que são seres aptos

a resolver os problemas

que afligem a nação.

Mas nada de teoremas,

eles querem é acção:

“com comida sempre a horas”,

dizem, “um sono comprido

e apetecidos lá foras,

o problema é resolvido!”

Os homens tudo complicam,

sem necessidade alguma:

de bom senso abdicam,

na cabeça sumaúma!

Se copiassem o gato

que sabe valer a pena

e sai mais barato

fazer uma vida amena

e sem grandes ambições

- comer, dormir, brincar –

veriam que soluções

são fáceis de encontrar!

Imitando o gato sábio,

com galões muito antigos,

não é preciso astrolábio

para chegarmos aos figos!

Tudo isto sabe o gato,

há muitos milhares de anos,

mas transformá-lo em acto

não é próprio de humanos.

tem o gato bem tentado

civilizar o humano:

empreendimento falhado,

esforço balzaquiano!

 

Eugénio Lisboa, em co-autoria

com a Ísis, que, discretamente,

lhe foi soprando umas ideias

e também umas rimas.

 

 

 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

AS VERDADEIRAS E AS FALSAS RIQUEZAS (SOBRE O POETA JOÃO PEDRO GRABATO DIAS)

Novo texto de Eugénio Lisboa: 

O morto tem o pavor
de já não servir.
Há que dizer-lhe que
não, que é útil e prová-lo.
J.P. Grabato Dias

O génio, em definitivo, não 
é mais do que a faculdade
de perceber as coisas de
forma pouco habitual.
William James 

Vai para trinta anos que morreu uma das mais extraordinárias, completas e complexas figuras de que a nossa cultura pode orgulhar-se: um verdadeiro homem da Renascença, como já foi observado por António Cabrita, um dos ensaístas que, ultimamente, mais se tem esforçado por que se não deixe cair num esquecimento obsceno este personagem singularíssimo: poeta, pintor, escultor, apicultor, arquitecto, agricultor, ensaiador de teatro, cenógrafo, guionista de cinema, maquetista de jornais, artista gráfico, construtor de barcos, professor de qualidade invulgar, tudo foi este homem e foi-o com uma profundidade e empenho quase demoníacos, desdobrando-se em heterónimos como António Quadros (ortónimo), João Pedro Grabato Dias (poeta), Frey Ioannes Garabatus (poeta anti-épico), Mutimati Barnabé João (poeta militante).

Em vida, lidei pessoalmente com vária gente invulgar, mas conheci apenas três pessoas obviamente feridas de genialidade: José Régio, José Tiago Oliveira (matemático) e João Pedro Grabato Dias. (Considero Herberto Hélder um poeta genial, mas nunca lidei com ele pessoalmente e, por isso, não o incluo nesta pequena lista).

Sabemos muito bem quando estamos na presença de um verdadeiro génio: pela forma muito singular como consegue projectar uma luz muito nova em problemas muito antigos, encontrando, para eles, soluções inesperadas, que completamente nos desarrumam. 

A epígrafe do filósofo americano, William James, irmão do grande romancista Henry James, que pus à cabeça deste texto, diz isto mesmo que acabo de escrever, mas por outras palavras: 
“O génio, em definitivo, não é mais do que a faculdade de perceber as coisas de forma pouco habitual.”
Foi isto mesmo, em longas, frequentes e continuadas conversas – e, é claro, na leitura porfiada das suas obras – que encontrei, de modo particularmente vincado, nestas três grandes figuras da nossa cultura: uma fulgurante capacidade de ver e fazer ver tudo de outra maneira.

É precisamente por me ter cruzado e profundamente convivido com gente deste invulgar calibre – e também com outra também notável, mas não atingindo talvez o patamar da genialidade – que me faz mau sangue ver hoje, por aí, entronizados, de maneira comicamente obscena, tantos falsos ídolos sem o mínimo asseio intelectual e criativo. Esta promoção escandalosa, ao lado do esquecimento de figuras como Grabato Dias, é pecado sem perdão. Esquecer o grande poeta de 
40 E TAL SONETOS DE AMOR E CIRCUNSTÂNCIA E DUMA CANÇÃO DESESPERADA (1970), O MORTO (1971), A ARCA – ODE DIDÀCTICA NA PRIMEIRA PESSOA (1971), UMA MEDITAÇÃO – 21 LAURENTINAS E DOIS FABULÍRIOS FALHADOS (1971), PRESSAGA (1974), EU, O POVO (1975), FACTO-FADO (1986), O POVO É NÓS (1991), QUYBYRYCAS (1972), SAGAPRESS (1992), 
poeta que está várias oitavas acima de tantos aclamados e vastamente premiados poetas – é um caso de cegueira ou de temer quem lhes faz sombra. Por isso, transcrevo aqui, com gosto, uma passagem de um belo e longo ensaio de António Cabrita: 
“Tem sido um destino. De cinco em cinco anos vejo-me obrigado a reeditar este texto, pelo mesmíssimo motivo: a insuportável obscuridade que caiu sobre um dos mais interessantes e completos espíritos da literatura e da arte portuguesa do século XX: António Quadros/Grabato Dias (1933/1994), (…); um homem da Renascença como antes dele só houve em Almada Negreiros. Vivendo no limbo, entre Moçambique e Portugal, ninguém o reivindica porque a todos faz sombra e a sua obra está toda por reeditar.” 
Não foi inocentemente que pus também em epígrafe uma passagem desse extraordinário livro: O MORTO. Como ali se diz, o morto “tem pavor de já não servir”. Parecia premonitório: Grabato Dias, desaparecido em 1994, estará agora metaforicamente apavorado por já não servir. Todo o seu génio multifacetado não foi suficiente para o tornar “útil”. Mas a resposta a isto foi também prevista por ele e encontra-se no segundo verso da epígrafe: “Há que dizer-lhe que não, que é útil e prová-lo”. 

Prová-lo, como? É muito simples: reedita-lo. A responsabilidade cabe ao herdeiro, pois sei que não faltarão editores interessados. Voltarei a isto muito em breve.
Eugénio Lisboa

A SEGUNDA VINDA

 Citei recentemente, porque vem no final de Civilização, de Kenneth Clark, um poema pessimista de W.B.Yeats de 1919. O leitor Herculano Esteves brindou-me com uma tradução sua. Fica aqui para benefício geral, original e tradução:

THE SECOND COMING

 

Turning and turning in the widening gyre  

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere  

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst  

Are full of passionate intensity.

 

Surely some revelation is at hand;

Surely the Second Coming is at hand.  

The Second Coming! Hardly are those words out  

When a vast image out of Spiritus Mundi

Troubles my sight: somewhere in sands of the desert  

A shape with lion body and the head of a man,  

A gaze blank and pitiless as the sun,  

Is moving its slow thighs, while all about it  

Reel shadows of the indignant desert birds.  

The darkness drops again; but now I know  

That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,  

And what rough beast, its hour come round at last,  

Slouches towards Bethlehem to be born?

 

A SEGUNDA VINDA

 

         Às voltas e às voltas na orla da espiral

         O falcão já não ouve o falcoeiro;

         Tudo se esboroa; nada se segura por dentro;

         A pura anarquia solta-se no mundo,

A maré ensanguentada avança, e por todo o lado

Afoga-se a cerimónia da inocência;

Os melhores estão sem resto de crença,

Os piores plenos de intensa paixão.

 

Sem dúvida, uma revelação está próxima;

Sem dúvida, a Segunda Vinda está próxima.

A Segunda Vinda! Mal a pus por palavras

Uma imagem imensa saída do Spiritus Mundi

Perturba essa minha visão: algures nas areias do deserto

Uma forma, corpo de leão e cabeça humana,

Fita em branco e sem piedade como o sol,                              

Mexe as pausadas coxas e sobre ela toda,

         A rodopiar, sombras de desérticos pássaros fora de si.

         A escuridão cai outra vez; mas eu sei agora

         A pedra de um sono de vinte séculos

Rearranja-se em pesadelo embalada num berço.

         Que besta crua, chegou por fim a hora dela,

         Rasteja para nascer em Belém?

 

 

 

domingo, 2 de janeiro de 2022

AS 10 DESCOBERTAS CIENTÍFICAS DO ANO DE 2021 SEGUNDO A SCIENCES ET AVENIR


Respigo este top 10 da revista francesa, que mostra que a ciência «não-COVID»  acabou o ano coroada de êxitos. Para mim o maior feito foi o n.º 4, relativo ao uso da IA na biologia molecular, que não por acaso foi também distinguido pela Science

1- As pinturas mais antigas estão na Indonésia
Um salto no tempo e também no espaço: é na Ásia e não na Europa que temos de situar o nascimento da arte paleolítica. Mas esta pode ainda ser mais antiga e encontrar-se no continente africano.

2- Encontrou-se matéria escondida!
Uma parte da matéria vulgar permanecia inalcançável desde há décadas. Uma equipa de investigadores conseguiu encontrá-la, sob a forma gasosa, no seio dos filamentos galácticos do nosso Universo.

3- O berço dos cavalos domesticados foi identificado
A maior análise genética jamais feita sobre os equídeos permitiu estabelecer que a domesticação dos primeiros antepassados dos nossos cavalos modernos foi feita no norte do Cáucaso há cerca de 4200 anos.

4- O enrolamento das proteínas resolvido com IA
A Inteligência Artificial será o Santo Graal da biologia? É o que sugere o resultado espectacular do Aplhafold, o algoritmo da Deepmind que prevê a forma das proteínas. Pode ser uma revolução na concepção de novos medicamentos.

5- A optogenética dá vista a um cego
Um tratamento inovador levado a cabo por uma equipa francesa conseguiu sensibilizir para a luz certas células da retina. É yua estreia mundial.

6- Primeiro enxerto bem sucedido do porco num ser humano
O rim de um animal não foi rejeitado pelo corpo de um paciente e funcionado sem anomalias. Este ensaio experimental oferece novas esperanças face à falta de enxertos humanos.

7- O interior de Marte revelado até ao cerne
É graças a um sismómetro de construção francesa  que a estrutura interna do Planeta Vermelho começa a ser conhecida.

8. Duas partículas abalam a física fundamental
Experiências levadas a cabo com o muão e o mesão B revelaram anomalias incompatíveis com o modelo padrão que descreve o comportamento de particula elementares. Os físicos estão entusiasmados.

9- A família dos buracos negros completa-se
Um buraco negro de massa intermédia foi finalmente observado, É uma proeza pois esses objectos estão demasiado isolados para poderem absorver suficiente matéria e tornar-se asism visiveis.

10- O ADN está mais velho
Dois investigadores conseguiram analisar molares de mamutes contendo ADN mitocondrial com 1,2 milhões de anos. É um record de datação com ADN.

sábado, 1 de janeiro de 2022

FIM DE ANO

De Eugénio Lisboa, neste primeiro dia do ano.

Um fim de ano que é um fim de mundo,
Nunca sonhara vir a viver isto!
Muito mundo meu fora já ao fundo,
Segundo um plano há muito entrevisto. 

Se viver é sobretudo perder,
Se viver cava em torno um deserto,
Se vamos acabar sem perceber
O que, em nós, está errado ou certo,

Que milagre foi este, sem sentido?
Foi então vã a nossa aventura?
O que ganhámos foi tudo perdido?

O que sabemos é só noite escura?
Descobrir a luz foi então um logro?
O amor, o sol, a vida, um malogro? 

Eugénio Lisboa
31.12.2021

"UM INDIVÍDUO VULGAR"

“De repente as portas abrem-se e vemos um homem patético, simples, pequeno, igual a qualquer um, não tinha chifres, nada. E este homem tinha...