sexta-feira, 3 de setembro de 2021

BRUNO DUBOIS E A DOENÇA DO SÉCULO


Minha recensão saído no jornal I a 10/6 passado:

A “doença do século” é a doença de Alzheimer, a enfermidade neurodegenerativa actualmente mais comum (é a causa de 60 a 70 por cento dos casos de demência) e cujo maior factor de risco é a idade. De facto, a longevidade tem crescido ao longo das últimas décadas, levando ao aparecimento de um maior número de casos. Em 2019, a esperança de vida à nascença era estimada em todo o mundo em 73,4 anos, sendo maior nas mulheres do que nos homens. Em Portugal era mais elevada: 81,1 anos para o total da população, sendo 83,7 anos para as mulheres e 78,1 anos para os homens. A Organização Mundial da Saúde estima que haja 48 milhões de casos de Alzheimer diagnosticados, prevendo que esse número suba para 76 milhões em 2030 e 136 milhões em 2050. Os dados para Portugal não são muito fiáveis nesta área, mas julga-se que existam mais de 200 000 casos, o que corresponde a cerca de dois por cento da população. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) diz, num relatório de 2017, que Portugal é o quarto país com mais casos de Alzheimer entre os países que dela fazem parte (a média da OCDE anda à volta dos 1,5 por cento). Cada um de nós conhecerá decerto casos na sua família ou em famílias próximas. Havendo estimativas que colocam Portugal em 2050 como o país mais envelhecido da União Europeia e o quarto mais envelhecido do mundo, forçoso é concluir que esta doença será nessa altura entre nós um problema muito mais sério do que é hoje.

Faltava em Portugal um livro recente e bem informado sobre uma enfermidade que nos apavora, dada a completa falta de memória na fase final da enfermidade e, portanto, a completa disrupção das relações sociais, para não falar já dos custos dos indispensáveis cuidados permanentes com as pessoas atingidas. Esse livro acaba de sair com a chancela da Guerra & Paz: O título é Alzheimer. A verdade sobre a doença do século, uma tradução do original francês saído na Grasset em 2019. É seu autor o neurologista francês Bruno Dubois, grande especialista em Alzheimer, e sua tradutora a neurologista portuguesa, que trabalha em França, Katia Andrade.

Bruno Dubois é professor de Neurologia na Sorbonne em Paris. Daí o título de professor na capa do livro, uma escolha editorial em que não me revejo, pois é muito comum encontrar livros cheios de pseudociência (por exemplo, sobre dietética e nutrição) que usam o poder persuasivo da autoridade académica para aumentar as suas vendas. O leitor pode ficar descansado que não é o caso deste livro, inteiramente baseado em ciência. Dubois justifica tudo o que escreve. Dirige o Institut de la Mémoire et de la Maladie d'Alzheimer, que ele próprio criou, no Hospital Pitié-Salpêtrière, uma instituição com largas tradições na Neurologia (foi lá que trabalhou Jean-Martin Charcot, o médico oitocentista que fundou a Neurologia moderna), Dubois lidera também no mesmo hospital uma unidade de investigação do Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (INSERM) sobre o cérebro e medula espinhal. Entre as suas contribuições para a Neurologia, está um teste para a identificar o Alzheimer: o “teste das cinco palavras”, no qual é pedido ao paciente para se lembrar de cinco termos de cinco grupos semânticos diferentes que lhe são apresentados. Este é o seu primeiro livro para o grande público pois os outros são obras de carácter mais especializado. Embora acessível a leitores minimamente cultos, devo prevenir, ao mesmo tempo que recomendo o livro a todos os interessados, que o autor não prescinde do uso de terminologia média nesta sua obra, tornando-a em certos excertos mais difícil de ler. Mas tem outras passagens fáceis e apelativas. As pessoas em busca de informação de confiança sobre o Alzheimer encontrá-la-ão neste livro bem organizado em três capítulos: “O que é a doença de Alzheimer”, “A aventura do conhecimento” e “A aventura moderna”.

A tradutora (a quem o editor também designa por “Prof. Dr.ª ”) é Katia Andrade, médica neurologista do Porto, que hoje trabalha em Paris, sendo próxima de Dubois. A tradução é bastante boa, como não podia deixar de ser, da parte de quem domina bem tanto o vocabulário médico como a língua portuguesa. Katia Andrade é autora de duas obras literárias publicadas pela Guerra & Paz: Retrato (2019, com António Bessa), uma homenagem a Sophia e Pessoa, e Poemas Fotográficos (2017), um livro trilingue de poesia ilustrada.

Quem foi Alzheimer? Aloís Alzheimer (1864-1915), psiquiatra e neuropatologista alemão, foi o primeiro a reconhecer a doença neurodegenerativa que hoje tem o seu nome. Alzheimer trabalhou com outro grande neurologista alemão, Emil Kraepelin, autor da primeira classificação moderna das doenças psicóticas. Foi este seu colega que ajudou a divulgar o trabalho de Alzheimer, fixando o nome da doença. Vale a pena contar a sua descoberta, que Dubois descreve no segundo capítulo. Em 1901, Alzheimer observou Auguste Deter, uma paciente com 51 anos, no asilo de Frankfurt am Main para doentes mentais e epilépticos. A paciente tinha uma clara perda de memória de curto prazo; Frau Deter permaneceu nesse asilo até morrer em 1906 tendo Alzheimer ficado com os seus registos médicos e lâminas do seu cérebro, que ele próprio examinou ao microscópio no laboratório de Kraepelin em Munique. Identificou o que hoje sabemos serem duas marcas inequívocas de Alzheimer: placas amilóides e emaranhados neurofibrilares. Também sabemos hoje que o Alzheimer, tal como outras doenças neurodegenerativas, resulta de desconformidades de proteínas do cérebro, que perturbam as funções cognitivas e motoras quando o seu número ultrapassa certos limites. Curiosamente, os registos de Auguste ficaram muito tempo perdido por terem sido mal arquivados, tendo sido descobertos em 1996. Dubois transcreve um excerto do questionário que Alzheimer fez à doente no asilo: “Como se chama? Auguste. Qual é o seu apelido? Auguste. Qual é o nome do seu marido? Auguste, acho eu. É casada? Com Auguste.”  Um exame genético de tecidos conservados do cérebro de Auguste revelou que se tratava de um dos raros casos de doença com origem genética, que se manifesta antes dos 65 anos. Alzheimer pensava que a “nova” doença aparecia antes dessa idade, mas o mais normal é a doença não ter carácter genético e ocorrer em idade mais avançada.

Muitas questões sobre o Alzheimer são respondidas no livro de Dubois. Como se diagnostica o Alzheimer? Os primeiros sintomas são, como foi dito, a perda de memória, mas o autor avisa-nos para não confundirmos falhas amnésicas passageiras com prenúncios de Alzheimer. Fiquei feliz em saber pois há dias aconteceu-me esquecer-me do meu número fiscal de contribuinte, que estou farto de repetir (entretanto já me lembrei, sem consultar o registo). Não nos lembrarmos de palavras ou números que costumamos saber acontece com mais frequência à medida que progredimos na idade, mas isso não é, geralmente, sinal de doença neurodegenerativa. Após testes de memória, que podem ser mais elaborados do que o “teste das cinco palavras”, podem fazer-se exames imagiológicos, como TAC ou RMN, e análises ao sangue, para despistar causas de más formações, como tumores cerebrais. Em casos mais avançados da doença, podem fazer-se punções lombares que permitem analisar o líquido da medula espinhal em busca de biomarcadores da doença. De qualquer modo um diagnóstico concludente só pode ser feito post mortem com a análise de células cerebrais, tal como Alzheimer fez. Sabemos hoje a partir de inúmeras autópsias que as lesões que ele detectou são mais comuns do que os diagnósticos de falta de memória, o que significa que a doença é muitas vezes assintomática. O nosso cérebro dispõe de redundâncias que compensam eventuais danos.

A doença de Alzheimer é hoje incurável, apesar de todos os esforços da moderna investigação: conduz à morte em média em sete anos após o diagnóstico. Acaba de ser anunciado que a FDA, a agência norte-americana que regula os medicamentos, autorizou o uso de um novo fármaco que promete retardar o desenvolvimento do Alzheimer, embora tenha havido controvérsia e parecer negativo da comissão de peritos que foi consultada. A autorização acabou por ser dada em boa medida por pressões de associações de familiares de doentes, que têm muito poder nos Estados Unidos.

Hoje sabemos que o exercício intelectual é um factor que previne o aparecimento da doença. Não conhecemos bem quais são os mecanismos que desencadeiam a doença, mas sabemos que as pessoas com maior actividade intelectual tendem a ter menos Alzheimer. Deixo um excerto do livro em que se refere um estudo feito ao longo dos anos com base em cérebros de freiras:

“A estimulação cognitiva nos primeiros anos de vida desempenha um papel primordial (…) Isto foi belissimamente confirmado pelo ‘Nun study’, um estudo realizado numa população de freiras americanas que ‘tinham escolhido oferecer as suas almas a Deus… e os seus cérebros à ciência’, tal como titulava a reportagem que a revista Science fez sobre o assunto. O exame post mortem dos cérebros dessas freiras mostrou uma relação entre a densidade das alterações cerebrais da doença de Alzheimer e o seu nível de escolaridade (…).”

Portanto, caro leitor, o melhor é ir usando o cérebro. Por exemplo, lendo este livro e outros. Ou envolver-se em actividades sociais, por exemplo apresentar e discutir os livros que leu com os seus familiares e amigos.

 

BIBLIOGRAFIA DE VICTOR GIL

 

Victor Manuel Simões Gil nasceu em 1939 em Santana, Figueira da Foz, e faleceu em 2018.

Foi Professor de Química na Universidade de Coimbra, onde liderou o primeiro laboratório de Ressonância Magnética Nuclear. Dirigiu o Exploratório Infante D. Henrique, Centro Ciência Viva de Coimbra. Foi o primeiro reitor da Universidade de Aveiro.

Para além da produção científica, foi autor de publicações de divulgação científica e de vários manuais de ensino da Química. Escreveu também poesia, editada postumamente sob o título Poréns e encantos, e uma autobiografia, intitulada Arrumar a casa antes dos 80, publicada em 2021.

A lista bibliográfica que se segue apresenta os títulos disponíveis na Biblioteca do Rómulo e noutras Bibliotecas da Universidade de Coimbra. Nos manuais, geralmente reeditados sucessivamente, é dada a referência da primeira edição. No final, acrescenta-se um conjunto de obras de Victor Gil, sobretudo de divulgação de ciência, que não se encontram nas Bibliotecas da Universidade de Coimbra.

Bibliografia disponível na Biblioteca do RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Monografias

Química. Coautor A. Correia Cardoso. Coimbra : Livraria Almedina, 1981. Vol. 1: Fundamentos da estrutura e propriedades da matéria. Vol 2: Dinâmica química e transformações da matéria. Cota: RC 54 GIL

As minhas primeiras investigações científicas : um projecto para crianças (a partir dos 10 anos). Coimbra : Livraria Almedina, 1983. Cota: RC 82-93 GIL

33 casos de acaso em ciência : 33 descobertas científicas quase ... por acaso. Lisboa : Gradiva, 1996. Cota: RC 82-93 GIL 

Orbitais em átomos e moléculas. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. Cota: RC 54 GIL

Olhares cruzados sobre a educação em ciências II. Coautora M. Helena Caldeira. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2011. Cota: RC 37 GIL

A química no centro da confusão. Il. Ana Curado Silva. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2011. Cota: RC 82-93 CIE

Arrumar a casa antes dos 80 : viagem ao passado em entrevista do próprio : as perguntas que já foram feitas e as outras. Alfragide : Texto Editores, 2021. Cota: RC 92 GIL

Manuais

8 CFQ : sustentabilidade na terra : ciências físico-químicas : 8.º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2007. CD de apoio ao professor. Cota: RC C37 CFQ

Universo FQ : ciências físico-químicas : 7.º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2012. CD. Cota: RC C37 UNI

Universo FQ : ciências físico-químicas : 8.º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2014. CD. Cota: RC C37 UNI

Tradução

MURPHY, Glenn – Porque é que o ranho é verde? e outras perguntas (e respostas) extremamente importantes. Lisboa : Gradiva Júnior, 2011. Cota: RC 82-93 MUR

Bibliografia disponível noutras Bibliotecas da Universidade de Coimbra

Monografias

Problemas de química geral. Coautor Fernando Pinto Coelho. Coimbra : Coimbra Editora, 1962. 

Espectros de ressonância magnética nuclear de 1H, 13C e 14N em alguns compostos : suas relações com a estrutura molecular. Coimbra : Coimbra Editora, 1966. Tese de doutoramento em Química apresentada à Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.

Introdução à estrutura electrónica de átomos e moléculas. Coimbra : Almedina, 1971. 

Fundamentos das reacções químicas. Coimbra : Almedina, 1974.

Introdução à estrutura de átomos e moléculas. 2.ª ed. Aveiro : Universidade, 1977.

Fundamentos das reacções químicas. 2.ª ed. Aveiro : Universidade, 1980.

Ressonância magnética nuclear : fundamentos, métodos e aplicações. Coautor Carlos F. G. C. Geraldes. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.

Orbitals in chemistry : a modern guide for students. Cambridge : University Press, 2000 

Ressonância magnética nuclear : fundamentos, métodos e aplicações. 2.ª ed. Coautor Carlos F. G. C. Geraldes. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

QPQ3 : entre quês e porquês, a partir dos três. Coautor João Relvas Pires. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2012.

À conquista dos castelos do Mondego : história, ciência e aventura nos castelos do Mondego. Coautores Ivânia Monteiro e João Pires. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2016.

Manuais

Apontamentos de química inorgânica. Coimbra : Serviço de Textos Univ. Coimbra, 1972/1973.

Química : testes com soluções. Coautor A. Correia Cardoso. Coimbra : Almedina, 1981. 2.ª ed. 1984.

Química : 12º ano de escolaridade. Coautor A. Correia Cardoso. 2.ª ed. Coimbra : Almedina, 1982. 2 vol. 3.ª ed. 1982-1983. 3.ª ed. rev. 1987. 4.ª ed. rev. 1989 

Química : testes. Coautor A. Correia Cardoso. 2.ª ed. Coimbra : Almedina, 1983.

Química : questões, problemas, testes. Coautor A. Correia Cardoso. Coimbra : Livraria Minerva, 1987. 2.ª ed. 1988.

Materiais de apoio aos novos programas : ciências físico-químicas : química : 10º ano, aluno. Coautor Sebastião Formosinho. Lisboa : Direcção Geral dos Ensinos Básico e Secundário, 1992.

Materiais de apoio aos novos programas : físico-química : química : 8º ano, aluno. Coautor Sebastião Formosinho. Lisboa : Direcção Geral dos Ensinos Básico e Secundário, 1992 

Materiais de apoio aos novos programas : físico-química : química : 9º ano, aluno. Coautor Sebastião Formosinho. Lisboa : Direcção Geral dos Ensinos Básico e Secundário, 1992.

Química : 10º ano : caderno de laboratório ao encontro do novo programa. Lisboa : Gradiva, 1992.

Aventuras em química : caderno de experiências : 8º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano, 1993. 2.ª ed. 1994. 4.ª ed. 1996. 

Química : 10º ano. Lisboa : Plátano Editora, 1994.

Química : 10º ano : caderno de laboratório. Lisboa : Plátano Editora, 1994.

 Química dia a dia : 8º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano Editora, 1994. 2.ª ed. 1995. 3.ª ed. 1996. 4.ª ed. 1998.

Aventuras em química : caderno de experiências : 9º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano, 1995. 2.ª ed. 1996.

Notas PPP para o professor : respostas às questões "pare, pense e pergunte" e as outras actividades : química 10º e 11º ano. Lisboa : Plátano Editora, 1995.

QPQ - 11 : questões e problemas em química : 11º ano. 3.ª ed. Lisboa : Plátano Editora, 1995. 4.ª ed. 2003.

 Química : 11º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano Editora, 1995.

 Química : 11º ano : caderno de laboratório. Lisboa : Plátano Editora, 1995. 

Química dia a dia : 9º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano Editora, 1995. 2.ª ed. 1996. 3.ª ed. 1997.

Química : 12º ano. Coimbra : Plátano Editora, 1996. 4.ª ed. 1997.

Química dia a dia com aventuras em química : cadernos de experiências, 8º ano : livro do professor. Lisboa : Plátano Editora, 1996.

Química dia a dia com aventuras em química : cadernos de experiência, 9º ano : livro do professor. Lisboa : Plátano Editora, 1996.

QPQ - 12 : questões e problemas em química : 12º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano Editora, 1996-1997. 2 vol. 2.ª ed. 1997. 3.ª ed. 1998. 5.ª ed. 2000. 8.ª ed. 2001.

Química : 10º ano. Lisboa : Plátano Editora, 1997. 2.ª ed. 2000.

Química : 11º ano. 1.ª ed. Coimbra : Plátano Editora, 1998. 2.ª ed. 2000. 3.ª ed. 2003.

Física 8. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva e Graça Ventura. 1.ª ed. Lisboa : Gradiva Escolar Ciência, 1999 

Química 8. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva e Graça Ventura. 1.ª ed. Lisboa : Gradiva Escolar Ciência, 1999.

Física 9. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva e Graça Ventura. 1.ª ed. Lisboa Gradiva Escolar Ciência, 2000

Química 9. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva e Graça Ventura. 1.ª ed. Lisboa : Gradiva Escolar Ciência, 2000.

Química : 12º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano Editora, 2001. 2.ª ed. 2001. 3.ª ed. 2002. 4.ª ed. 2003. 5.ª ed. 2004.

QPQ - 12 : questões e problemas em química : 12º ano. 1.ª ed. Lisboa : Plátano Editora, 2001-2002. 2 vol. 2.ª ed. 2002-2004. 3.ª ed. 2002. 4.ª ed. 2003. 5.ª ed. 2004.

A Terra no espaço. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva e Graça Ventura. Lisboa : Gradiva, 2002.

10 Q : ciências físico-químicas : química 10º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva e Graça Ventura. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2003. Nova ed. 2007.

O universo dos átomos : química : 10º ano. Coautoras Ana Maria Morais, Conceição Lopes. 1.ª ed. Lisboa : Didáctica, 2003. 

O universo dos átomos : química : 10º ano : caderno de laboratório. Coautoras Ana Maria Morais, Conceição Lopes. 1.ª ed. Lisboa : Didáctica, 2003. 

12 Q : química 12º ano. Lisboa : Texto, 2005. 

12 Q : química 12º ano : caderno de exercícios e problemas. Lisboa : Texto, 2005.

7 CFQ : Terra no espaço, Terra em transformação : ciências físico-químicas 7º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2006.

8 CFQ : sustentabilidade na terra : ciências físico-químicas : 8.º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2008.

9 CFQ : viver melhor na Terra : ciências físico-químicas : 9.º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2008.

12 Q : química 12º ano. Lisboa : Texto, 2009.

12 Q : química 12º ano : caderno de exercícios e problemas. Lisboa : Texto, 2009.

Universo FQ : ciências físico-químicas : 7.º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2012. 

Universo FQ : ciências físico-químicas : 9.º ano. Coautores Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, João Paiva, Carla Morais e Sandra Costa. 1.ª ed. Lisboa : Texto, 2015.

Artigos

Aplicação da espectrofotometria de absorção à determinação da estrutura e estabilidade de complexos em solução : métodos das variações contínuas. Coautor Fernando Pinto Coelho. Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, Vol. 30 (1961)

Contribuição para o estudo dos complexos de cobalto-II com a hidrazida de ácido isonicotínico. Coautores Fernando Pinto Coelho e Jorge dos Santos Veiga. Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, Vol. 31 (1962).

Contribuição para o estudo dos complexos de cobalto-II com hidrazida do ácido isonicotínico. Coautores Fernando Pinto Coelho e Jorge dos Santos Veiga. Publicações do XXVI Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, Tomo 2 (1962).

Espectros R. M. N. e estrutura molecular. Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, Vol. 38 (1966).

Constantes de acoplamento de "Spins" nucleares e estrutura molecular. Revista Portuguesa de Química, 1968 

NMR studies of nitrogen containing molecules : III : the conformation of salicylalanilines. Coautora Maria Emília Lopes Saraiva. Revista Portuguesa de Química, Vol. 13 (1971).

On the shapes of atoms. Revista Portuguesa de Química, Vol. 14, n.º 3 (1974).

 Uses and misuses of hybrid orbitals. Coautor Carlos F. G. C. Geraldes. Revista Portuguesa de Química, Vol. 16 (1974). 

Prefácio

DIAS, Alberto Romão – Lq : ligação química. 2.ª ed. Lisboa : IST Press, 2009.

Coordenação científica

Challenges in teaching & learning in higher education. Com Isabel Alarcão e Hans Hooghoff. Aveiro : University, 2004.

Para além da bibliografia acessível na Universidade de Coimbra, Victor Gil é também autor/coordenador de:

Ciência & religião : diálogos de boa fé. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2011.

Crianças na ribalta da ciência. Coord. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2011.

ETs com sentido. Coord. com M. Helena Caldeira. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2011.

Perguntas de miúdos para graúdos II : ciência desde o jardim de infância. Coautora M. Helena Caldeira. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2011.

Poesia & ciência : implicações para a educação formal e não formal em ciência. Coautora M. Cristina Pinheiro. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2011.

Dolly, uma ovelha especial. Coautor João Relvas Pires. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2012.

Descobertas científicas acidentais em BD. Coautora Ana Curado Silva. Coimbra : Exploratório, Centro Ciência Viva, 2014.

 Poréns e encantos. Aveiro: Sana, 2020.

Rómulo CCVUC

Setembro 2021

Licínia Ferreira

REGRESSO ÀS AULAS


Meu artigo de opinião no Público de ontem:

 Pela primeira vez, desde que comecei a ensinar, há 44 anos, não regresso às aulas. Dei em Julho a “última aula” na Universidade de Coimbra, dizendo que poderia, se houvesse interesse, vir a dar mais “últimas aulas”, o que tem vindo a acontecer de um modo informal. A diferença é que não vou iniciar nenhum curso para uma nova leva de alunos.

Já me perguntaram se não sinto um vazio. Respondo que não, pois tenho, tal como a Natureza em geral, horror ao vácuo. Tenho muitas coisas para fazer, a começar desde logo por ler uma pilha de livros que me aguarda há muito. É agora tempo para tudo aquilo que andava adiado. Como diz o belo trecho do Eclesiastes (3:1,2), “Para tudo há um momento, e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:/ tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou.”

Mas, mesmo apartado do ensino formal, quero deixar uma palavra aos professores que vão agora começar um novo ano lectivo. 

(...)
(só para assinantes)

ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA, O INTELECTUAL INDOMÁVEL:

 

Minha recensão no I de ontem:

 A maioria dos meus livros foram publicados pela mesma editora de dois dos maiores intelectuais portugueses do século XX – António José Saraiva e Eduardo Lourenço. O mérito de publicar os livros desses grandes vultos da cultura portuguesa é, decerto, do editor Guilherme Valente, que foi amigo dos dois e que me dá também a honra de ser meu amigo. É nessa casa editora que acaba de sair uma fotobiografia de António José Saraiva (1917-1993): António José Saraiva. Fotobiografia. A Intimidade de um Intelectual Indomável. É um livro de grande formato, de capa dura, com 262 páginas de bom papel, ilustrado com numerosas fotografias a preto e branco, e bem revisto por Maria de Fátima Carmo. São seus autores os três filhos do biografado: António Manuel Saraiva, José António Saraiva e Pedro António Saraiva, todos António como o pai. O primeiro é engenheiro agrónomo e arquitecto paisagista com actividade em Macau, o segundo, arquitecto de formação, dirigiu o Expresso e o Sol, e o terceiro foi quem tomou conta do pai nos últimos nove anos de vida. José Cabrita Saraiva, jornalista do I, é neto de António José Saraiva. O prefácio da pena do escritor Ernesto Rodrigues, que conhece bem a obra de Saraiva, é uma mais-valia do livro, que inclui, como parte muito substancial, uma antologia de textos do biografado. O livro encerra com um depoimento tocante do seu irmão, o historiador José Hermano Saraiva, que foi ministro da Educação no governo de Marcello Caetano. Os dois sempre se deram bem, embora o seu pensamento político estivesse nos antípodas. Uma foto do livro mostra-os, em 1940, de chapéu e lacinho: dois dandys!

Desde que tenho consciência do país e do mundo que comecei a ouvir falar de António José Saraiva. Ele foi o professor com livros proibidos pela censura salazarista e que, demitido da função pública em 1949, se viu obrigado a ir primeiro para Paris em 1960, onde se dedicou à investigação, e depois para Amesterdão, onde ensinou português na universidade. Regressou a Portugal em 1975, tendo sido até à sua jubilação professor na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas) e na Universidade de Lisboa (Faculdade de Letras). Foi membro do Partido Comunista Português (PCP), mas saiu, desiludido, ainda antes da invasão da Checoslováquia pelos soviéticos, em 1968. Exibiu uma atitude bastante céptica para com os políticos do pós-25 de Abril. O facto de não deixar que ninguém pensasse pela cabeça dele levou alguns a “arrumá-lo” na direita.

O primeiro livro de Saraiva que li Inquisição e Cristãos-Novos (1.ª edição: Inova, 1969), uma obra que levantou alguma polémica (teve edição em inglês). Mas claro que utilizei para aprender literatura portuguesa a sua muito conceituada História da Literatura Portuguesa (1.ª edição: Porto Editora, 1955), escrita a meias com Óscar Lopes, que conheceu 21 edições. Em 1977 saiu, sob o seu impulso, a revista de inspiração ecológica da qual possuo todos os 19 números  Raiz e Utopia. Sou também o feliz possuidor da sua obra saída na Gradiva, em 24 volumes, dos quais o primeiro é O Crepúsculo da Idade Média em Portugal (1993) e o último a reedição do já referido Inquisição e Cristãos-Novos (2019). Tiro da estante um desses volumes sempre que preciso, seja sobre Fernão Lopes, Luís de Camões ou o Padre António Vieira. Destaco a Cultura em Portugal, em dois tomos (1991), e As Navegações e as Origens da Mentalidade Científica (2010), vol. III da História da Cultura em Portugal. A fotobiografia contém uma lista bibliográfica de Saraiva, incluindo alguns livros póstumos, entre os quais Só Para Meu Amor É Sempre Maio (Gradiva, 1997), cartas de amor entre ele e Maria Isabel Saraiva, a mãe dos seus três filhos, e Cartas de Amor de António José Saraiva a Teresa Rita Lopes (idem, 2013).

Na ampla iconografia do livro, que são documentos do século XX português, encontrei a imagem gravada na minha mente dele de bigode e camisola de lã com gola alta, em Paris, e depois, mais velho e já em Portugal, de boina basca. No livro encontra-se uma fotografia dele com Guilherme Valente em Macau.

António José Saraiva teve escassas honras em vida, como normalmente acontece a quem é verdadeiramente independente. Recebeu o Prémio de Ensaio do PEN Clube Português de 1991 e o Prémio Jacinto do Prado Coelho de 1992. Morreu diante do público quando estava a agradecer o prémio do PEN, que distinguia a obra A Tertúlia Ocidental, e, emocionado, falava das influências do seu pai e de Nunes de Figueiredo, seu professor de Português no liceu.

Lida a fotobiografia, o que mais me impressionou foi a força do seu carácter, forjada na educação que recebeu. Nascido em Leiria, porque o pai (um self-made man, natural da aldeia de Donas, perto do Fundão, onde António Guterres também tem raízes familiares) tinha sido nomeado reitor do Liceu de Leiria, António José teve ensino doméstico e fez o exame da 4.ª classe em Lisboa, preparado por uma tia e madrinha. Começou o liceu em Leiria e acabou-o em Lisboa, no Gil Vicente. Concluiu em 1938 o curso de Filologia Românica na Universidade de Lisboa com uma tese sobre Bernardim Ribeiro e quatro anos depois o doutoramento na mesma escola com uma tese sobre Gil Vicente. Doutorou-se aos 25 anos, num tempo em que os doutoramentos costumavam durar muito.

Pelo livro ficamos a saber facetas curiosas da vida familiar e social. Por exemplo, a sua mulher Maria Isabel foi sua aluna e conheceu-a quando um dia a chamou ao quadro e ela não se inibiu de criticar o professor. Ainda antes de casar com ela, Saraiva teve uma violenta polémica com o catedrático Vitorino Nemésio, de quem era assistente, por causa da nota de uma outra aluna. A cena deve ter sido cinematográfica, pois voou um tinteiro… Quando Nemésio depois lhe ligou, ele desligou-lhe o telefone na cara. Ganhou a disputa o mais poderoso, pelo que Saraiva foi posto na rua. Obteve um lugar de professor no liceu de Viana do Castelo.

António José Saraiva era um homem de princípios, que transmitiu aos seus filhos. Disse ao filho José, quando este referiu que se roubavam livros nas livrarias de Paris, porque eles faziam mais falta aos estudantes pobres do que aos livreiros ricos: “As pessoas não devem roubar pela falta que isso possa fazer aos outros, mas por respeito para consigo próprias.” E ao filho Pedro: “Sabes, Pedro, na vida temos de nos habituar a viver com pouco; caso contrário, teremos de nos sujeitar a fazer muitas coisas de que não gostamos.” Era espartano, estóico mesmo. Gostava de acampar na serra, arrostando com privações. Viveu em certos períodos da vida com extremas dificuldades (“Cortaram-nos a luz e o gás, e cozinhava-se a petróleo, num pequeno fogareiro”, escreve a mulher numas memórias ainda inéditas). Em 1953 foi preso pela PIDE e metido em Caxias por ter ido ao aeroporto receber Maria Lamas vinda de um “Congresso da Paz” em Moscovo. Libertado, regressou de Caxias a pé até à sua casa em Belém (morava na Calçada do Galvão, onde eu também morei em pequeno: Portugal é muito pequeno).

Não foi fácil a sua vida de exilado em Paris, onde assistiu ao Maio de 1968, sobre o qual escreveu. Nessa altura já tinha abandonado o ideário comunista. Quando, na conversa final, o controleiro do PCP lhe disse “E agora o António José Saraiva vai calar-se, porque a partir daqui quem vai falar não sou eu, mas o partido”, Saraiva ripostou: “Então o partido fale com aquela parede, porque eu vou-me embora”. E seu dito, seu feito…

Foi em Paris que Saraiva conheceu Teresa Rita Lopes, de quem tinha 19 anos de diferença de idade, facto que não impediu um prolongado romance entre os dois, animado pela festa do 25 de Abril. Mais tarde, Saraiva tomou-se de amores com Martha Telles, uma pintora da Madeira, mas a coisa não correu bem. Também simpatizou, no final da vida, com uma aluna da Faculdade de Letras, Leonor Curado Neves, que morreu precocemente, aos 55 anos, não sem antes organizar alguns papéis de Saraiva, incluindo a correspondência com o seu amigo Óscar Lopes. Sobre as mulheres confessou um dia ao filho José: “Sabes, Zé, eu passei a vida a tentar entender as coisas e a ler e a escrever sobre as pessoas, mas há uma coisa que nunca consegui compreender: as mulheres.”

Entre os seus amigos figuraram, entre outros e por ordem alfabética, Joel Serrão, Jorge de Sena, José Augusto Seabra, José Cardoso Pires, Luísa Dacosta (com quem trocou ampla correspondência), Maria Lamas, Orlando da Costa (pai do primeiro-ministro António Costa) e Vicente Jorge Silva. A fotobiografia informa sobre as suas preferências literárias: “Dos contemporâneos, admirava Herberto Hélder, Nuno Bragança (A Noite e o Riso), Lídia Jorge (O Cais das Merendas), Eugénio de Andrade e sobretudo Agustina-Bessa Luís. Para ele, Agustina era um génio da língua.” Detestava os neorealistas, em especial depois de ter saído do PCP.

Colando-se ao estereótipo de sábio distraído, não ligava nem a papéis nem a dinheiro. Era quase surdo, devido a uma grave otite infantil: controlando o seu aparelho, só ouvia o que queria. Em 1985 numa entrevista a um jornal declarou: “Eu sou existencialmente inconformista. Eu sou, de origem, um camponês. Eu fui espiritualmente cristão e teoricamente marxista. Eu estou contra a sociedade, independentemente das teorias. Eu acredito no espírito, mas não sou capaz de o definir. Eu estou pronto a emigrar de novo, se necessário. Eu sou António José Saraiva.” Esta é, uma autobiografia muito resumida de um português de têmpera.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

"Referências internacionais que podem, devem e têm de ser seguidas"

Apontamento na sequência de dois anteriores (acesso aqui aqui)

No Diário de Notícias de hoje, em papel e online, foi publicada uma entrevista ao Ministro da Ciência e do Ensino Superior, realizada pela jornalista Ana Meireles. Da extensa entrevista destaco as questões pedagógicas abordadas. Nada de novo no discurso do Ministro em relação ao que há escassos meses declarou ao jornal Expresso, com excepção do destaque dado ao empreendedorismo, uma referência internacional que, na sua perspectiva, "pode, deve e tem de ser seguida". Para quê pensarmos se existem essas sacrosantas referências que nos exigem obediência?
Defende que deve haver menos aulas teóricas e mais práticas... 

Até pode não haver uma diferença entre aulas teóricas e práticas. O que nós temos é um número muito grande, comparativamente a nível europeu ou internacional, do número de horas de contacto dos nossos estudantes. No sul da Europa, e em Portugal, no ensino superior um estudante tem no mínimo 22 horas de contacto, nalguns cursos ainda tem 26 horas. Isto é definido no quadro de autonomia de cada instituição. Sobretudo nas sociedades anglo-saxó­nicas, o número de horas de contacto é, maioritariamente, com professores e são de 14 a 16 horas. Portanto, são menos 30%. 
A ideia é cada vez mais ter ensinos presenciais, mecanismos de interação e aprendizagem ativa, com grupos de trabalho, com mecanismos de autoaprendizagem, mas com muita interação social, não necessariamente só em horas de contacto com os professores. Isso facilita integrar os estudantes em atividades de investigação e inovação, quer em estágios profissionais quer em estágios científicos. 
Passa, sobretudo, por uma adaptação gradual dos temas de aprendizagem e dos currículos, para uma maior integração da investigação e da inovação. Esse é um percurso que temos necessariamente de fazer, também, em articulação com o processo de acreditação dos cursos, o qual tem de ser sempre independente. A modernização curricular é um dos desafios importantes que a pandemia nos despertou. Se os outros usam 14 horas de contacto, ou entre 14 e 16, porque é que nós temos de usar 22? 
 
O Técnico, por exemplo, vai reduzir em 50% as aulas teóricas e a Nova vai implementar em todos os cursos cadeiras ligadas à programação e ao empreendedorismo. Acha que é algo que será seguido por outras universidades em Portugal?

São referências internacionais que podem, devem e têm de ser seguidas. Temos outras boas experiências internacionais de formas de ensino ativo, de trabalho de projeto, de ensino orientado para desafios, quer sociais quer científicos ou humanitários. E, por isso, cada vez mais sabemos que é preciso diversificar as metodologias de ensino. Não é apenas estando sentado numa sala de aula que se aprende, aprende-se de várias formas. Cada vez mais, também, com tecnologias digitais, e em colaboração interinstitucional, deve ser possível modernizar o sistema de ensino. E se é verdade que em Portugal já há boas práticas de ensino, continuam a persistir práticas que eu diria que são menos boas ou que são mesmo más práticas. 

E é algo para o qual tem sensibilizado as universidades?

O mais possível! E mais uma vez no Plano de Recuperação e Resiliência é critério de avaliação a modernização pedagógica. Um critério claro na avaliação das propostas é a necessidade de as instituições modernizarem os seus currículos e sobretudo os sistemas de ensino e aprendizagem.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

CONVOCATÓRIA. CONVERSAS PARA IR A JOGO. Minha táctica: olhar para o mundo com as lentes da Física



Início do "meu" capítulo do livro "Convocatória. Conversas para ir a jogo" que acaba de sair na  Casa das Letras (grupo Leya) . O seu autor é o jovem (24 anos) treinador de futebol Francisco Guimarães que noutros capítulos reproduz entrevistas que fez a pessoas do desporto como Fernando Santos, Bernardo Silva, José Mourinho, Miguel Oliveira assim como a pessoas doutras áreas (23 convocados no total). O meu lugar na convocatória é na baliza, talvez atendendo á idade (os guarda-redes jogam mais anos). O que está em itálico são as minhas declarações, que foram gravadas e são comentadas pelo Francisco. 

A conversa que tive com Carlos Fiolhais foi  medida do Universo – caótico e ordeiro, extenso e sucinto. Teve tanto de surpreendente como de interessante, como os biliões de partículas que, habitando dentro de nós, pertencem ao Cosmos.

 Possivelmente, muitos de nós tivemos a experiência de não gostar de Física na escola. Eu, pelo menos, não gostava nada. Era uma disciplina difícil, quase impossível. A sua linguagem própria era inacessível para mim, uma mente levada pelas Letras e Humanidades, e, logo que pude, substituí-a por Filosofia e Psicologia. Assim passei o 12.º ano, escapando à tortura que eu imaginava ser energia =  massa x velocidade da luz ao quadrado.

 Mas, por culpa de Carlos Fiolhais, Henrique Leitão e outros mestres que se atravessaram no meu caminho, converti-me ao fascínio da Física, e percebi, através da sabedoria e da paixão, ou, como disse Albert Einstein, da “curiosidade apaixonada”, com que os maiores génios explicavam o propósito desta disciplina, que afinal a física era sobre mim e sobre as coisas mais fantásticas que via acontecer em meu redor. E mais, tinha tudo que ver com o futebol, ainda que eu e tanta gente pensasse erradamente que, além da bola ser semelhante à Terra e à Lua na sua forma, eram mundos totalmente distantes. Mas não são assim tão distantes. Tanto a bola como os astros são imprevisíveis e emocionantes. O seu conhecimento requerem uma técnica e uma perícia para se conhecerem na sua globalidade. Ainda por cima, como diz Carlos Fiolhais, nos relatos de futebol costuma falar-se muito no esférico. Portanto, podemos ver o futebol pelos olhos da física. E ver a Física pelos olhos do futebol também é interessante. Como no futebol, existem uns de um lado e outros de outro, e também tem de haver árbitro. O que é o árbitro nas disputas da Física? O árbitro das disputas da Física é a Natureza. Ela modera, regula, diz quem é que tem razão, diz quem é que ganha. Uma pessoa pode ter as ideias que julga serem as melhores do mundo e ser contrariada por outras ideias e, o que é pior, pelas ideias do próprio mundo. Existe uma disputa, porque a Física e a Ciência em geral são sempre disputas de ideias; não há muita gente a ver o jogo, mas há sempre gente a ver o jogo. É a chamada comunidade cientifica. E há disputas acesas dentro da comunidade científica. Às vezes, também há capitães de equipa. Há uns que transmitem as ideias formando um conjunto, agrupando pessoas á sua volta. Também há treinadores e táticas. Mas a diferença é que quem ganha o jogo – estou a falar do jogo das ideias sobre o mundo – é o próprio mundo. A nossa realidade, o sitio onde estamos, é como é, e não de outra maneira, e a Física consiste em descobrir as regras do jogo do mundo. Mas, ao contrário do futebol, no funcionamento do mundo, não somos nós que inventamos as regras. As regras já estão estabelecidas desde que o mundo existe.

 A Natureza vence sempre. Tudo o que se faça segue as leis do Universo, mesmo que pareça estarmos a forçar ou a contrariar um certo comportamento – como rematar uma bola com efeitos, por exemplo – no fundo, estamos sempre a ir a cumprir as regras estabelecidas. As leis que regulam o Cosmos são fixas e a tarefa da Física é descobri-las, é romper o mistério de quais elas são. Os grandes pensadores da Física – Galileu, Newton, Einstein – tiveram esta preocupação de saber como é a Natureza.  Precisaram de  uma grande imaginação para conseguirem imaginar o mundo tal qual ele é. Dito de uma forma metafórica: a imaginação do mundo é muito maior do que a nossa. Então, temos de ser muito imaginativos para saber como ele é. Newton percebeu a lei da gravitação universal de um modo muito curioso, segundo uma história inventada por ele, que é fácil de lembrar: a história da macieira. Ele estava debaixo de uma macieira quando  lhe uma maçã na cabeça –  e a maçã  é aproximadamente esférica. Essa maçã, devido a uma atração, cai para a Terra, um esférico maior. É claro que nos tempos antigos havia outras maneiras de descrever isto. O Aristóteles dizia que o lugar natural das coisas é junto à terra. E, portanto, as coisas iam para o seu lugar natural… Da mesma maneira que o ar sobe porque o seu lugar natural é acima da terra e da água. Essa é uma ideia que, no fundo, não explica nada. Diz apenas como as coisas são. O pensamento de Newton é mais sistémico: há uma força, a força faz mover uma coisa, e o estado natural não é apenas o repouso. Mas é muito curioso:  Galileu já tinha dito que o estado natural pode ser o repouso ou pode ser um movimento uniforme. A força vai mudar o estado do movimento, quer seja repouso, quer seja de velocidade constante. Uma velocidade mantém-se eternamente se não for perturbada por uma força.

 Se observarmos atentamente aquilo que os nosso olhos alcançam, somos forçados a perguntar: se a maçã cai, porque é que a Lua não cai? Porque é que as estrelas não caem, como fazem os meteoritos e as frutas maduras?  A questão é: ‘porque é que a Lua não cai nas nossas cabeças?’.  É  uma boa questão. Eu costumo colocar aos meus alunos com este tipo de perguntas. É com elas que os físicos se preocupam. De facto, a Lua cai.

 Há cerca de 4,5 mil milhões de anos formou-se, a partir de uma nebulosa, o Sistema Solar. Começou com um disco a rodar e a parte mais quente dele, que estava no centro, acendeu-se para formar a estrela Sol. Formaram-se, mais perto do Sol, planetas rochosos,, entre os quais está  a Terra (é a terceira bola a seguir à bola do sol) e, mais longe,  grandes bolas gasosas: Júpiter, Saturno, etc. Nessa altura havia uma grande confusão. Parecia um jogo de matraquilhos com muitas bolas… Aconteceu  que  um dos astros vadios, um  pequenos corpo, que  andava nessa confusão inicial, bateu na Terra. E houve um choque cósmico, numa altura em que ainda não havia vida na Terra. O choque foi  de grandes proporções e a Lua é o resultado desse choque. Uma parte caiu na Terra, outras podem ter-se espalhado no Espaço. Mas a parte que ficou a orbitar, que corresponde à nossa Lua, e cujas rochas são tão antigas como as da Terra (já lá fomos buscá-las!), tinha a velocidade certa para estar em órbita.

 Tal como a Lua, a maçã também poderia estar em órbita. Newton percebeu isso. A maçã pode ser transformada num satélite, imitando a Lua. Se lhe conferirmos uma velocidade na horizontal, ela cai mais à frente. E com uma velocidade maior, que os meus alunos conseguem calcular, fica em órbita da Terra. Isto são as leis da mecânica de Newton em ação. Passa-se a mesma coisa com um objeto a maior altitude, que pode ficar em órbita a uma velocidade menor – a velocidade varia conforme a distância à Terra. Portanto, no início do Sistema Solar, a Lua, ficou com a velocidade certa para estar em órbita à distância em que está. Senão, não tinha ficado assim, já tinha caído, ou ido para outro lado. Repare-se na  unidade do mundo (os físicos adoram falar da unidade do mundo – existem regras universais e imutáveis): a força que faz a Lua manter-se em órbita é do mesmo tipo da força que faz a maçã cair para a Terra. É a força de gravitação universal. Se a Lua estivesse quieta, agarrada por uma mão muito poderosa, e fosse largada, era certo e sabido que viria bater na Terra. E podemos calcular quanto tempo demoraria, com que velocidade caía, etc. É um problema que dou aos meus alunos. Alguns deles demoram tanto tempo que eu, a brincar, até lhes digo: ‘A Lua já teria caído!’.

 A Lua foi fundamental para o espalhamento da vida no planeta Terra. O encadeamento de vários acontecimentos, numa relação causal, é fascinante. A Lua tem influência na Terra. Não é astrológica. Tem principalmente que ver com as marés. As marés  foram muito importantes na evolução da vida. Muito provavelmente, não sabemos – há muitos mistérios sobre o modo como a vida começou –, a vida começou no mar. E foi o fenómeno repetido das marés que fez com que, em certa altura, a vida  se ‘espraiasse’, isto é,  aparecesse na praia. E os seres vivos viram que a praia era boa. Há uns que vão da terra para a praia divertir-se no mar. Mas queles indivíduos, microrganismos ou seja lá o que for, vieram do mar para terra e estabeleceram-se aí.

 A realidade, de facto, existe. Os cientistas procuram descobrir o que é, o que há, o que se move, por que razão se move e como é que se move. A Ciência descobre e explica a realidade como ela é, tendo desenvolvido ferramentais mentais para compreender o mundo em que vivemos.

(...)

Francisco Guimarães e Carlos Fiolhais

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...