sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

COMENTÁRIOS E RESPOSTAS AO MEU "POST": DEZ RAZÕES PARA A CRIAÇÃO DE UMA ODEM DOS PROFESSORES


                       “Fora da observação dos factos e da experiência dos fenómenos, o espírito                                                        não   pode obter nenhuma forma de verdade” (Eça de Queiroz).

Breve Introdução: Escrevo este texto, por entender que os comentários de leitores ao meu post, “Dez razões para a criação de uma Ordem dos Professores”, têm matéria suficiente, em prós, contras e dúvidas, para o leitor, em noites de insónia, formar uma opinião pessoal documentada prometendo eu, por meu lado e formalmente, não voltar a este assunto.

 Do cientista Jacob Bronowski, as premonitórias palavras: "O homem perdeu a capacidade de prever e prevenir, acabará por destruir o mundo".  Por outro lado,  a cultura judaica-cristã,  de pedra em pedra, vem sendo destruída sob o olhar complacente, ou mesmo cúmplice, do mundo europeu!

Transcrevo esses comentários e as minhas respostas para que o leitor possa,  paulatinamente, tirar as devidas  ilações:  

L. Santos25 de setembro de 2008 às 10:18

Agradeço ao Manuel António Pina, que num seu artigo, na notícias magazine, referiu este blog.
Muito bom, muito bom!
No entanto falta aqui um pequeno excesso de falsa brejeirice. E depois, é muito conhecimento junto!
Assim, entre uma coisa e outra, aprecio as duas, uma de cada vez. É que o miserável blog do http://totodasversas.blogspot.com é infinitamente...indecifrável!
Deviam proibir coisas dessas, mas enfim. Valha-nos este paraíso cultural.
Parabéns, Srs Doutores!
E muito especialmente ao Dr. Manuel António Pina

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Paulo Soares25 de setembro de 2008 às 11:15

Este interessante artigo, como outros do mesmo autor, é apenas manchado pela insistência em zurzir nos sindicatos. A pergunta nº 9 é totalmente destituída de sentido ao atribuir aos sindicatos competências que não lhes pertencem. Relembrando o óbvio: os sindicatos são associações de trabalhadores e quem deu trabalho aos indivíduos referidos foi o ME. O problema está, como sempre esteve, nos 'mandarins da 5/10' que, quando lhes convém, permitem que os sindicatos usem o seu poder em matérias que deveriam colocar fora do seu alcance.

É claro que para esses mandarins é reconfortante que haja gente que insiste em colocar os sindicatos na lista dos acusados pelo estado actual da educação.

Responder

 

Rui Baptista25 de setembro de 2008 às 23:16

Em comentário ao meu post, escreve Paulo Soares:
“Este interessante artigo, como outros do mesmo autor, é apenas manchado pela insistência em zurzir nos sindicatos. A pergunta nº 9 é totalmente destituída de sentido ao atribuir aos sindicatos competências que não lhes pertencem. Relembrando o óbvio: os sindicatos são associações de trabalhadores e quem deu trabalho aos indivíduos referidos foi o ME. O problema está, como sempre esteve, nos 'mandarins da 5/10' que, quando lhes convém, permitem que os sindicatos usem o seu poder em matérias que deveriam colocar fora do seu alcance”.
Transcrevo agora a 9.ª pergunta do meu post: “9. Será que os resquícios de uma política sindical mercantilista, que inscreveu sem qualquer critério de formação académica minimamente exigente indivíduos que lhes batiam às portas na defesa de direitos bastardos e deveres não cumpridos, não contribuíram para a perda de prestígio da classe docente e para a perda da sua identidade profissional?”
Vejamos, portanto, se esta minha pergunta é destituída de sentido. Como autor da afirmação. Compete-me o ónus da prova.
Os sindicatos têm por missão defender os direitos laborais dos seus associados, v.g., vencimentos, horários e condições de trabalho. Ao inscreverem, logo a seguir a 25 de Abril, indivíduos que davam aulas sem para tanto estarem habilitados, forçosamente, teriam que ser intérpretes junto dos poderes públicos das respectivas reivindicações com suporte , “et pour cause”, em “direitos bastardos e deveres não cumpridos”. Ou seja, os direitos dos professores que estudaram para o exercício da docência deveriam ser defendidos como idênticos propósitos aos daqueles que exerciam esporadicamente a função docente enquanto estudavam para serem advogados, médicos engenheiros, etc, sem “deveres não cumpridos” para um magistério futuro?
Claro que tem razão que a culpa dessa situação de emergência (não sucedida noutras profissões em que a falta de médicos não foi colmatada por estudantes de engenharia, por exemplo ), que levou os sucessivos ministérios da Educação a servirem-se de professores de pé-descalço – para utilizar a terminologia da Revolução Cultural Chinesa, no que respeita aos médicos de pé descalço - , cabe, em grande parte, a uma massificação/democratização do ensino que deu como resultado haver alunos que obtiveram, ou obtém, ainda, o diploma do final do ensino básico sem saberem ler, nem escrever, nem fazer as simples contas de somar ou subtrair .
Bem sei que para muito boa gente isto com as novas tecnologias não causa grande mal ao mundo. Para que precisa o aluno de saber a tabuada? Uma simples máquina de calcular, que se compra por dez réis de mel coado, resolve o problema. O aluno escreve com erros palavra sim palavra não. Ou mesmo palavra sim? Nada que o simples corrector de escrita do “Magalhães” não resolva. O aluno julga que o primeiro rei de Portugal foi o almirante Américo Tomás? Uma simples consulta na Internet esclarecê-lo-á que foi D. Afonso Henriques. Para que sobrecarregar a memória do adolescente com estas questões de “lana caprina” quando ele precisa da memória para saber de cor os nomes dos jogadores dos clubes de Futebol da 1,ª Liga?
Em resumo, os sucessivos ministérios da Educação agiram mal ao porem os bois à frente do carro, isto é, fazendo uma massificação do ensino que por falta de professores minimamente habilitados traria como consequência o descalabro a que chegou o sistema educativo nacional. O mal feito pelas tutelas oficiais não justifica que uns tantos sindicatos o tivessem sancionado, através de um política mercantilista na conquista de um maior número de sócios. Será que o sindicato dos metalúrgicos, mesmo em época conturbada, admitiu como sócios indivíduos preparados para serem meros remendões de meias solas?
Como muito bem escreveu, “o problema está, como sempre esteve, nos mandarins de 5/10 que, quando lhes convém, permitem que os sindicatos usem o seu poder em matérias que deveriam colocar fora do seu alcance”. Permita-me que pense que quando fala nessas “matérias” se refere a assuntos que deveriam competir a uma Ordem dos Professores. Será? Assim se compreende que os dois ministérios que tutelam a Educação prefiram combater apenas em uma só frente (sindicatos) e não em duas (sindicatos e Ordem dos Professores).
Aliás o abuso que alguns sindicatos fazem das atribuições que lhe estão legalmente atribuídas (como por exemplo, chamar a si a atribuições deontológicas típicas de ordens profissionais) está exemplarmente tipificado pelo professor universitário Eugénio Lisboa, quando escreve: “Para tudo isto os sindicatos têm dado uma eficaz mãozinha, não raro intervindo, com desenvoltura, em áreas que não são, nem da sua vocação nem da sua competência” – (“JL”, n.º 964, de 12 a 25. Set.2007).

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alf26 de setembro de 2008 às 03:17

Eu não sou professor mas há muito que me faz confusão que não exista uma Ordem dos Professores. A função básica da ordem é garantir a qualidade e prestigio da sua classe profissional e é evidente que isso é da maior importancia na profissão de professor. Não entendi ainda bem quem tem medo duma Ordem dos Professores mas parece que à cabeça vêm os próprios professores - pelo menos, nas poucas vezes em que me atrevi a tocar no problema, foram sempre professores quem saltou contra.

Conviria talvez perguntar aos professores que são contra a Ordem quais são as suas razões.

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Rui Baptista26 de setembro de 2008 às 11:39

Meu Caro "alf":

Eu como professor começo a ter um certo receio de que se possa abrir uma verdadeira caixa de Pandora que a sua sugestão, com muita lucidez, formula: "Conviria perguntar aos professores que são contra a Ordem quais são as suas razões".

"Alea jacta est", a pergunta está feita com a isenção de quem a faz por não pertencer à profissão. Desde já, lembraria que à criação da Ordem está adstrito um Código Deontológico que não estabelece, apenas direitos, mas que impõe deveres aos profissionais para uma prestação de serviços ao serviço da sociedade em geral e da qualidade do seu ensino. Venham as respostas que poderão criar um diálogo frutuoso a que me obrigo a responder com a melhor das vontades e sem arcas encoiradas. Valeu?

Aliás, esta uma das grandes virtudes dos blogues em que, por vezes, os comentários feitos aos post's assumem uma relevância que muito os valorizam. Por isso agradeço e valorizo a sua judiciosa participação.

P.S.: Peço aos leitores do meu comentário anterior desculpa por não ter espaçado os respectivos parágrafos para tornar a sua leitura mais fácil e menos maçuda. Quando dei por ela já o comentário tinha seguido o destino irreversível da publicação.

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Rui Baptista26 de setembro de 2008 às 13:24

Onde escrevi (5ª e 6ª linhas do 2º parágrafo do meu último comentário) "uma prestação de serviços ao serviço da sociedade...", queria escrever "uma prestação de serviços em prol da sociedade..."

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António Duarte26 de setembro de 2008 às 15:16

Mesmo pondo de parte as posições anti-sindicais que muitos defensores da Ordem frequentemente assumem (não necessariamente o autor do texto, até há pouco tempo dirigente sindical) tenho muitas dúvidas em relação ao que realmente queremos quando defendemos a Ordem dos Professores:
- a ordem teria que inscrever todos os professores, incluindo os que não têm "formação académica minimamente exigente"?
- defenderia também os direitos destes últimos, "bastardos" ou não?
- ou estes teriam apenas deveres, nomeadamente o de pagar a cota?
- incluiria os educadores (ensino pré-escolar) ou não?
- em caso afirmativo, um educador poderia ser eleito bastonário da ordem?
- incluiria os docentes do ensino superior?
- em caso afirmativo, não se instituiria a regra não escrita de o bastonário ser deste nível de ensino (como acontece em regra com o cargo de ministro de educação, quando não há um engenheiro ou economista disponível para o cargo)?
- como é que fariam os professores que protestam contra as direcções sindicais "rasgando o cartão" quando não concordassem com eventuais "traições" da direcção da ordem aos interesses da classe?
- se o ME conseguisse fazer eleger uma direcção da ordem alinhada com os seus interesses, como fez por exemplo na CONFAP, o que faríamos?
- se por hipótese Mário Nogueira se conseguisse fazer eleger bastonário da ordem, os professores que não gostam de Mário Nogueira, como por exemplo o professor Rui Baptista, poderiam sair e formar outra ordem, uma vez que a original se teria desvirtuado em relação aos sonhos dos seus mentores?

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Setora26 de setembro de 2008 às 15:48

Não me tem parecido que as Ordens existentes cumpram excelente trabalho "em prol da sociedade".

Que faria essa Ordem dos Professores em prol da sociedade? Pergunto eu não sindicalizada mas também desconfiada e evitando ser posta na ordem.

Põe-se em causa no texto, e bem, os "professores" feitos por magia em tempos de massificação. Serão possivelmente alguns desses, agora em tempos de massificação da avaliação, os avaliadores dos seus pares, também por artes mágicas saídos de uma qualquer cartola e cuja actividade será também perniciosa, acrescentando a perda de prestígio e rumo do ser professor. Como agiria uma Ordem neste quadro?

E faço minhas muitas das dúvidas do António Duarte.

Responder

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Anónimo26 de setembro de 2008 às 17:02

Relativamente às perguntas que coloca aqui vão as minhas respostas.

1. Porque será que tantos estratos laborais de formação académica superior se estruturaram em ordens profissionais e outros, com formação escolar de igual exigência, se limitam a ansiar por idêntico estatuto?

Para que determinados profissionais se organizem numa Ordem ou numa Associação Profissional não basta terem uma formação superior. Devem cumprir um conjunto de exigências que se encontram explanadas na Lei nº 6/2008 de 13 de Fevereiro. O facto de, no passado, algumas profissões tivessem constituído Ordens Profissionais sem que, de facto, reunissem essas condições (estou a pensar, em concreto, na Ordem dos Biólogos e na Ordem dos Economistas) não deve justificar a criação de outras Ordens profissionais.

2. Porque será que os psicólogos lutaram anos a fio pela sua Ordem e se regozijam hoje por a terem finalmente conseguido?

Sou psicólogo de formação e fiquei satisfeito pelo facto de o Estatuto da Ordem dos Psicólogos ter sido aprovado pela Assembleia da República, embora os referidos estatutos contenham algumas lacunas e especificidades que considero negativas. De qualquer das formas, a psicologia é, pelas suas características, uma área científica e profissional que se adequa em absoluto ao seu enquadramento numa associação profissional ou ordem. Resulta de uma formação superior e os psicólogos não só devem pautar a sua intervenção por exigentes por critérios científicos como devem obedecer a um código deontológico que obrigue, por exemplo, ao segredo profissional. Este código até ao momento não existe.
Por outro lado, a atribuição da carteira profissional de psicólogo é actualmente uma prerrogativa do Estado, ao abrigo de uma legislação do Estado Novo. O resultado desta situação fez com que fossem atribuídas milhares de carteiras profissionais a pessoas sem a formação de base em Psicologia, por exemplo, a licenciados em Filosofia que tivessem defendido uma tese de licenciatura em psicologia…Os psicólogos constituem um grupo profissional que, de facto, pela especificidade da sua área, requer uma ordem profissional que, através de mecanismos de auto-regulação, se substitua ao Estado que tem sido um péssimo regulador da sua profissão.

3. Porque será que a Fenprof, o sindicato com maior representatividade em número de associados, se inquieta tanto só de ouvir falar na criação da Ordem dos Professores?

Não faço a mínima ideia. Se assim sucede penso não dever motivos para tal. A Lei nº 6/2008, de 13 de Fevereiro, é clara ao afirmar, no ponto 2 do Art.º 4º, que as Ordens “estão impedidas de exercer ou de participar em actividades de natureza sindical ou que tenham a ver com a regulação das relações económicas ou profissionais dos seus membros.”

4. Porque será que o partido com a responsabilidade da maioria absoluta parlamentar não deu provimento, na Assembleia da República, a uma petição, apresentada em 2 de Dezembro de 2005, para a criação da Ordem dos Professores, subscrita por 7857 docentes?

Provavelmente porque entendeu, e na minha opinião bem, criar previamente uma lei-quadro da criação das Associações Profissionais antes de proceder à autorização de novas ordens. Foi essa a razão que fez com que o projecto de Estatutos das Ordem dos Psicólogos estivesse tanto tempo na Assembleia da República, tendo entrado antes da actual legislatura.

5. Terá sido por a Ordem dos Engenheiros não ter permitido a inscrição de licenciados pela Universidade Independente que a recente legislação regulamentadora de novas ordens profissionais retirou a essas associações a validação dos respectivos cursos de acesso?

Não foi só a Ordem dos Engenheiros que colocou entraves à acreditação de cursos. A Ordem dos Arquitectos fez o mesmo, sendo obrigada a admitir como associados, em sede de decisão judicial, arquitectos licenciados pela Universidade Fernando Pessoa. A actual legislação fez bem em retirar esse poder às Ordens passando-a para a actual Agência de Avaliação e Acreditação para a Garantia da Qualidade do Ensino Superior

6. Porque será que outras profissões, de idêntica projecção e responsabilidade sociais, se subordinam a um código deontológico específico que lhes impõe direitos e lhes exige deveres, responsabilizando os seus membros por uma prestação de serviços qualificados à comunidade, e os professores não?

Os professores são abrangidos pela Carta Deontológica do Serviço Público, aprovada pela Resolução 18/93 do Conselho de Ministros publicada no Diário da República em 17 de Março de 1993. A questão reside em saber se um outro código deontológico deveria ser aplicado aos professores e quem o deveria aplicar.

7. Não serão merecedores de igual tratamento os usufrutuários de um sistema de ensino consignado como um direito constitucional?

Existem outros direitos consagrados na Constituição. Sugere que todos os profissionais que de alguma forma se encontrem ligados a estes direitos devem ter uma Ordem Profissional?

8. Será que os professores se resignam ao papel de escravos ao serviço dos mandarins da Avenida 5 de Outubro?

É uma pergunta que deverá colocar aos professores. Mas acrescentaria uma outra: a existência de uma Ordem de Professores asseguraria que os professores deixassem de ser escravos ao serviço dos mandarins da 5 de Outubro?

9. Será que os resquícios de uma política sindical mercantilista, que inscreveu sem qualquer critério de formação académica minimamente exigente indivíduos que lhes batiam às portas na defesa de direitos bastardos e deveres não cumpridos, não contribuíram para a perda de prestígio da classe docente e para a perda da sua identidade profissional?

Estará eventualmente a referir-se a professores não profissionalizados que começaram a leccionar nos Ensinos Básico e Secundário sem a respectiva profissionalização. Mas saberá que, essencialmente ao longo das décadas de 70 e 80, a necessidade de professores que o sistema educativo reclamava era de tal forma avassaladora que ou sistema de ensino público admitia esses professores profissionalizando-os depois ou enfrentaríamos o colapso do sistema com uma falta generalizada de professores. É certo que foram cometidos muitos erros de natureza política e que uma exigência de qualidade ao nível da formação de professores nunca foi uma prioridade da política educativa até, pelo menos, à criação do Instituto Nacional da Acreditação da Formação Inicial dos Professores (INAFOP) no consulado do Eng.º Marçal Grilo. O INAFOP viria a desenvolver um trabalho meritório mas, infelizmente, foi extinto pelo governo de Durão Barroso sendo à altura ministro da educação o Prof. David Justino.

10. Finalmente, considerando um silêncio que, infelizmente, parece não prenunciar a máxima de quem cala consente, qual é a posição dos Ministérios da Educação e da Ciência e Ensino Superior sobre a criação da Ordem dos Professores?

Não sei.
Parece-me que o Rui Baptista, à semelhança de outros, sustenta que a criação da Ordem dos Professores permitirá fazer subir a exigência do sistema educativo português e combater as políticas oriundas da 5 de Outubro. Penso que está enganado.
Mas essencialmente julgo que a profissão de professor não se enquadra, pelas suas características, nas profissões que exigem a regulação de uma ordem. Os professores dos ensinos básico e secundário do ensino público leccionam programas cuja concepção não são da sua responsabilidade. O currículo também não é da sua responsabilidade. Os seus alunos transitam de ano e são, em muitas circunstâncias, avaliados por exames oriundos de serviços do Ministério da Educação. O enquadramento legal que condiciona a profissão de professor é bastante restritivo da sua actuação. Isso não sucede com algumas profissões que são enquadradas por ordens profissionais. O único grupo de docentes a quem, eventualmente, se poderia admitir ser enquadrado por uma associação profissional seriam os professores do ensino superior. Francamente não vejo nenhuma vantagem nisso.

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Rui Baptista26 de setembro de 2008 às 17:44

As inúmeras questões levantadas ao meu "post" levam-me a congratular-me por ter lançado as bases de uma polémica que finalmente vem em peso e com uma enorme artilharia de argumentos para a praça pública. De acordo com os autores do "De Rerum Natura". "objecções, contra-exemplos e discordâncias são bem-vindas". Comungo, em absoluto, com esta forma democrática de discutir os problemas que exige "respeito e cordialidade, ainda que crítica".

As questões levantadas são tantas e de interesse que me levam, com o maior gosto, a responder-lhes uma por uma. Peço, apenas, um pouco de paciência aos comentaristas dado a extensão das mesmas e a necessidade de sobre elas me debruçar com a devida atenção.

Os dois "links" que já mereceu o meu post são prova evidente que a blogosfera está atenta a esta temática. Grato fico, portanto, por essa atenção.

Responder

 

João26 de setembro de 2008 às 18:35

Certamente que no caso dos Engenheiros, Médicos, Arquitectos que não acontece o que acontece connosco! Existe alguém que os regula e tem forte poder na sociedade.

Aquela do "bloqueio" da Independente é um bom exemplo disso.

Possivelmente acabaria com muitos trabalhos fictícios o que desagradaria a muitos, mas por outro lado aumentava a qualidade e o poder da profissão que, indubitavelmente, agradaria a muitos mais.

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Luís Peça26 de setembro de 2008 às 23:06

Excelente artigo.
Mas o que precisamos é professores com o devido reconhecimento social.
E são os professores os primeiros a ter de trabalhar para isso.
Se o ordem contribuir para isso, venha ela.

Nota 1: sou professor

Responder

 

Ana Teresa27 de setembro de 2008 às 01:40

PJ,

Discordo globalmente da argumentação de todo o seu comentário. Adianto que sou sua colega (psicóloga) e sou colega de profissão de outros intervenientes neste debate. Professora.
Efectuei já diversos comentários em blogues sobre esta matéria. E há pouco realizei uma pequena intervenção no blog do meu colega professor, dr Paulo Guinote.

Discordo de:
"Para que determinados profissionais se organizem numa Ordem ou numa Associação Profissional não basta terem uma formação superior. Devem cumprir um conjunto de exigências que se encontram explanadas na Lei nº 6/2008 de 13 de Fevereiro. O facto de, no passado, algumas profissões tivessem constituído Ordens Profissionais sem que, de facto, reunissem essas condições (estou a pensar, em concreto, na Ordem dos Biólogos e na Ordem dos Economistas) não deve justificar a criação de outras Ordens profissionais."

1. Como psicólogo sabe que os aspectos ligados ao processo identitário de cada ser humano passa e muito pela identidade profissional. Ora se há profissão onde essa identidade deve ser mantida forte é no professorado que não tem uma Ordem Profissional. As razões para um psicólogo são óbvias.
O exercício da Psicologia estava a tornar-se igualmente caótico e uma Ordem tem algum peso para inverter esta situação. O exercício da Docência está igualmente a tornar-se caótico e tem do ponto de vista social muito maior relevância e importância real do que o exercício da Psicologia.
2. Outro aspecto diz respeito ao princípio de que há ordens que não deveriam sê-lo pela sua leitura restritiva mais ou menos subjectiva de determinado articulado dum decreto lei. Ora esqueceu-se decerto que a criação da Ordem de Psicólogos teve inúmeros precalços que decerto não tiveram lugar por uma interpretação da lei mas decorrentes de múltiplos e poderosos interesses de grupos da sociedade portuguesa.
3. Por último, apesar de não me considerar de todo a par desta questão em pormenor ou detalhe, o que já li sobre as restrições para a criação de novas ordens no actual momento político leva-me a desconfiar imenso de posições ideológicas de fundo. Aí estou bem em desacordo " de fundo" consigo.


Tentarei em outros comentários responder a outros argumentos seus com os quais estou francamente em desacordo.

Responder

 

Ana Teresa27 de setembro de 2008 às 01:58

ARGUMENTOS A FAVOR ORDEM DE PROFESSORES

No Fórum 96 – Pensar a Educação, realizado em Lisboa, em Setembro de 1996, foi apresentada uma comunicação pelo Professor António de Oliveira Marques (1933-2007), um académico louvado em vida e recordado em morte como um dos mais importantes historiadores do Portugal contemporâneo (a sua História de Portugal, em três volumes, Editorial Presença, Lisboa, vai em 13 edições)."
Ver
www.mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/2008/09/argumentos-em-favor-da-ordem-de.html

Responder

 

Rui Baptista27 de setembro de 2008 às 05:44

Meu Caro António Duarte:

Começo por esclarecer que na verdade fui presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL), desde a sua criação, em 92, sem dispensa, ainda que parcial, do exercício de funções docentes.

Esta organização sindical, criada especificamente para defender os interesses laborais dos professores licenciados e acérrima defensora da criação de uma Ordem dos Professores, teve uma acção muito meritória e diligente nesse sentido.

O meu pedido de dispensa deste cargo sindical ficou a dever-se unicamente à minha discordância com a integração do SNPL numa Plataforma Sindical em que os seus participantes tinham divergências de princípios que eu, quase diria, inconciliáveis e que se viriam a confirmar com o aparecimento, e futura constituição legal, de professores independentes desalinhados com um sindicalismo que já nada, ou pouco, lhes dizia por não defender os seus interesses mais legítimos.

Vou começar por responder aos comentários por si feitos ao meu “post, através da transcrição parcial de um projecto estatutário sobre a criação de uma Ordem dos Professores por mim elaborado de colaboração com dois outros elementos e publicado num opúsculo de 29 páginas, com a segunda edição datada de Fevereiro de 97, com o patrocínio do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) e o seu apoio logístico e financeiro.

Alguns dos princípios que constam desse opúsculo quase justificam, em parcela substancial, a necessidade da criação da Ordem dos Professores e seus objectivos contantes das respectivas atribuições (artigo 3º. da “Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores” –adiante designada por PEOP) :

a) Intervir na defesa do Ensino público e privado, através da salvaguarda e promoção da sua qualidade;
b) Zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de professor, assegurando o nível de qualificação profissional e promovendo o respeito pelos respectivos princípios deontológicos;
c) Atribuir o título profissional de professor e regulamentar o exercício da respectiva profissão;
d) Contribuir para a reestruturação das carreiras docentes;
e) Proteger o título e a profissão de professor, intentando procedimento judicial contra quem o use ou a exerça ilegalmente;
f) Representar os professores perante quaisquer entidades públicas ou privadas;
g) Emitir a cédula profissional de professor;
h) Exercer jurisdição disciplinar relativamente aos professores por actos de natureza docente praticados no exercício da profissão;
i) Elaborar estudos e propor aos órgãos competentes as medidas necessárias a um adequado e eficaz exercício da função docente, bem como emitir parecer sobre os projectos de diplomas legislativos que interessem à prossecução das suas atribuições;
j) Emitir parecer acerca de planos de estudo e cursos que tenham por objectivo a formação de professores;
k) Fomentar a cooperação, solidariedade e respeito entre os seus membros;
l) Incentivar, dinamizar e apoiar as acções de formação tendentes ao desenvolvimento e aperfeiçoamento da docência , nomeadamente através de cursos de especialização , reciclagem, congressos, seminários, conferências e outras actividades da mesma natureza;
m) Intensificar a cooperação com os organismos interessados, públicos ou privados, nacionais ou estrangeiros, em todas as matérias que se relacionem com a docência.

E porque um projecto de estatutos não é monolítico, qual inamovível Rochedo de Gibraltar, mas, pelo contrário, possuidor de uma plasticidade que permite alterar até artigos da própria Constituição Portuguesa, hoje, teria como necessária a seguinte alteração à respectiva alínea l): “Incentivar, dinamizar e apoiar as acções de formação a cargo, sempre que possível, das faculdades ou escolas superiores que promoveram a sua formação inicial e tendentes ao desenvolvimento e aperfeiçoamento (…)”

Explico porquê. Estas acções de formação têm estado a cargo dos sindicatos mandatados à face da lei para questões apenas laborais (v.g.,vencimentos, horários e condições de trabalho) tendo, apesar disso, promovido cursos chamados de formação para obtenção de créditos orientados para matérias que nada tem a ver com a disciplina leccionada: professores de Matemática a frequentarem cursos de formação destinados à Educação Musical, por exemplo. Para além disso, devido à diminuição crescente da natalidade da população portuguesa muitas faculdades e escolas superiores de educação correm o risco de terem que despedir professores, uma massa crítica necessária ao progresso do país e das suas populações.

Finalmente, depois de uma introdução extensa, mas havida como necessária, passo agora a responder às suas perguntas de forma cronológica:

As condições a satisfazer para a inscrição na Ordem dos Professores estão especificadas na PEOP. De forma resumida, haveria 2 espécies de associados: membros efectivos (artigo 13.º) que teriam que satisfazer a condição de uma licenciatura e membros associados (artigo 15.º) que à data da publicação do estatuto exercessem funções docentes com o grau de bacharel. A passagem a membro efectivo desses membros associados estaria condicionada à obtenção dos requisitos exigidos pelo artigo 13.º Com as recentes alterações que passaram a exigir a todos os docentes do ensino não superior um mestrado pós-Bolonha, ou uma licenciatura obtida anteriormente, teriam que ser feitas alterações para que a condição de membro associado deixasse de vigorar.

Utilizei a adjectivação de “bastardos” apenas para os docentes que fizeram, logo a seguir a 25 de Abril, desta actividade esporádica uma ocupação para ganharem uns cobres enquanto estudantes de cursos que os preparavam para outras profissões e que tão útil foram para aumentar as fontes de rendimento de certos sindicatos. Claro que a existência de uma Ordem dos Professores não permitiria a respectiva inscrição. Sem inscrição não haveria lugar a qualquer quotização, como é óbvio.

A inclusão dos educadores de infância não será um obstáculo intransponível. Bastaria para tanto alterar a respectiva designação para professor do ensino infantil, por exemplo.

Quanto ao bastonário da Ordem o respectivo artigo 38.º, n.º 2, especifica que “o bastonário deverá ser possuidor, no mínimo, do grau de licenciado por Universidade.

À sua pergunta se “incluiria os docentes do ensino superior” na Ordem dos Professores, a resposta é sim. O artigo 62.º outorga-lhes até a dignidade de presidirem aos respectivos Colégios da Ordem.

Os cargos dirigentes da Ordem teriam a duração de um biénio, não sendo renováveis, o que não sucede com os sindicatos em que as suas cúpulas se eternizam levando a que elas se afastem anos e anos da função docente e dos problemas com que ela se defronta no seu dia-a-dia no terreno escolar. Sendo a inscrição na Ordem obrigatória não daria azo “ao rasgar de cartões”. Unicamente a uma escolha mais criteriosa de personalidades em quem votar em próximo biénio para evitar o mau exemplo de sindicatos que renegam princípios estipulados nos próprios estatutos.

Ordens alinhadas com os respectivos ministérios tutelares não é situação de que eu tenha conhecimento. Diferentemente, a CONFAP (sigla de Confederação Nacional das Associação de Pais) não deve estar interessada em situações de conflito que possam comprometer interesses dos pais com despesas inerentes a possíveis, e indesejáveis, chumbos dos filhos, sem entrar em generalizações sempre perigosas e, sobretudo, injustas.

Quanto ao Mário Nogueira, para já não possui habilitações académicas que o habilitem ao cargo de bastonário. Se as tivesse, e fosse eleito em eleições democráticas, haveria que respeitar o seu biénio directivo sem possibilidade da criação de uma nova Ordem porque só pode haver uma ordem por profissão. Quanto a eu não apreciar, repudiar mesmo, a forma caceteira como o Mário Nogueira exerce funções sindicais, por vezes, à porta das escolas e na presença dos respectivos alunos, nada tem a ver com a sua condição como cidadão ou político várias vezes candidato a deputado pelo Partido Comunista. Só isso!

Como fará justiça de reconhecer não me esquivei em responder às suas perguntas com fundamento na PEOP ( Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores), elaborada por uma comissão que pôs nessa tarefa todo o seu empenho e toda a dedicação em horas retiradas ao seu descanso nocturno e de fim-de-semana sem qualquer compensação que não tenha sido do cumprimento de um dever para que foram mandatados e que tentaram cumprir o melhor que puderam e sabiam.

Como escreveria Camilo, se neste depoimento alguma omissão às suas perguntas, alguma vez, ocorreu , foi involuntária. Apenas e tão-só involuntária!

Por fim, de mal ficaria com a minha consciência se não lhe agradecesse a oportunidade que me concedeu em prestar este esclarecimento público, essencialmente, dirigido à classe docente, na opinião de Fernando Savater, festejado filósofo espanhol e catedrático de Ética da Universidade do País Basco, “a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantos trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático”.

Responder

 

António Duarte27 de setembro de 2008 às 12:31

Rui Baptista:
Louvo a sua disponibilidade para o debate e aprecio a convicção e persistência com que defende a ordem de professores.
Devo dizer que, se no plano teórico acho a ideia da criação de uma ordem perfeitamente defensável, na prática não me parece que estejam criadas (ou alguma vez o venham a ser) as condições para o seu aparecimento. Talvez a sua existência permitisse, em aspectos muito específicos, uma melhor defesa dos interesses da classe, mas julgo que as questões essenciais acabariam por lhe passar ao lado. Como já disse algures, não seria a ordem a dar ordens ao ministério, nem seria, pegando num exemplo caro a muitos, tendo uma ordem como os médicos ou os advogados passaríamos a ser como os médicos ou os advogados.

Responder

 

Rui Baptista28 de setembro de 2008 às 01:55

PJ:

Do seu texto retiro desde já a sua preocupação em manifestar as suas discordâncias sobre a criação da Ordem dos Professores que não cabem dentro do âmbito do seu exercício profissional. Estranho, mas aceito.

Por esse motivo lhe respondo com a disponibilidade que sempre tenho manifestado para com opiniões contrárias às minhas porque, segundo Karl Popper, “ igualmente importante é que podemos aprender muito a partir duma discussão, ainda que se não cheque a acordo; porque a discussão pode-nos levar a compreender alguns pontos fracos da nossa posição”.

Desde já discordo da analogia que pretende estabelecer entre a “sua” ordem profissional e a “minha” ordem ainda inexistente. Querer vestir a fatiota da Ordem dos Psicólogos (cuja criação eu saudei no meu “post”) a uma futura Ordem dos Professores – embora elas se identifiquem por siglas iguais, OP - trará como resultado que o fato ficará impecável a uma e comprido ou curto, largo ou estreito, a outra .

Para um melhor entendimento o articulado da Lei n.º 6/2008. de 13 de Fevereiro, que evoca, esclarece-se que se trata de uma Lei-Quadro que estabelece princípios a que devem obedecer a criação de novas ordens profissionais. Consequentemente, as ordens criadas anteriormente, como a Ordem dos Biólogos e a Ordem dos Economistas, por si citadas, a título exemplificativo, não poderiam estar enquadradas numa legislação inexistente à data das respectivas criações. Tão simples como isto. Só não entendo o motivo da criação dessas duas ordens profissionais não justificar a criação de uma Ordem dos Professores. Será por a Ordem dos Biólogos enquadrar maioritariamente (seria interessante saber a percentagem exacta dessa maioria) professores de Biologia dos vários graus de ensino, superior incluído?

Com espírito crítico de louvar tem para si que o Estatuto da Ordem dos Psicólogos “contém algumas lacunas e especificidades que considera negativas”. Mas quais as leis perfeitas, impecáveis, imaculadas que a sua aplicação no terreno não aconselhe “retoques” ou até derrogações?

Regista, por outro lado, a negatividade do exercício da Psicologia por parte de pessoas sem a respectiva formação de base, acusando o Estado de ser “um péssimo regulador da profissão” (nesta acusação somos almas gémeas!). E apresenta como exemplo os licenciados em Filosofia, apesar de (o apesar de é da minha lavra) terem defendido uma tese de licenciatura em Psicologia ( recordo aqui que no meu tempo de liceu a Psicologia fazia parte integrante da matéria curricular da disciplina de Filosofia e que, mais recentemente, os primeiros professores das faculdades de Psicologia foram indivíduos de formação filosófica).

Vejamos agora,o caso do exercício docente em anos não tão distantes que se percam na nossa memória colectiva. Transcrevo excertos de um meu artigo de opinião:

“Consultar códigos não habilita ninguém a considerar-se um profissional de leis. Ser oficial miliciano não implica o respectivo ingresso no Quadro Permanente das Forças Armadas. Receitar um desparasitante para o cão da vizinha não cumpre os requisitos de inscrição na Ordem dos Médicos Veterinários.

Certos sindicatos, ao aceitarem a inscrição de qualquer um que dê aulas, por escassos dias que seja, não cumprem preceitos tacitamente aceites pela sociedade portuguesa e pelo simples bom senso.

Talvez por isso, o estudante de Direito, quando ainda está a aprender, dá aulas e intitula-se (ou intitulam-no) professor! Quando já sabe, defende em juízo e é titulado como advogado, etc, etc.

Pior do que isso, os cábulas que nunca se formaram continuam a ser pagos para darem aulas, têm, por vezes vínculo ao Estado e reivindicam agora uma paridade com os professores licenciados.

Ser professor em Portugal é menos uma profissão e mais uma maneira de ganhar a vida para quem não se preparou para nada exigindo um futuro sem ter um passado! Até quando?” (“Jornal de Notícias”, 25 de Junho de 1992).

Diga-me agora se depois de todo este tormento motivado por uma profissão desempenhada por todo e qualquer bicho careta, os indivíduos que se prepararam para serem professores não têm direito em exigir uma cédula profissional outorgada por uma ordem própria e à atribuição de um código deontológico específico, a exemplo dos médicos, dos advogados e…dos psicólogos?!

Para a proibição das ordens exercerem funções sindicais, é por si evocado o n.º 3 da Lei nº 6/2008, de 13 de Fevereiro. Ora este lembrete pode ser havida como uma espécie de chuva no molhado, por o artigo 267, n.º 4, da Constituição Portuguesa, estabelecer que “as associações públicas (…) não podem exercer funções próprias das associações sindicais”. Deste ”statu quo” resulta evidente que os sindicatos dos professores não temem a concorrência de uma Ordem dos Professores por sobreposição de competências. A razão é bem outra.

Chamando os bois pelos nomes a existência de uma Ordem pulverizaria um grande número de sindicatos de menor expressão, enfraquecendo a sindicalização em sindicatos ainda mesmo que de maior expressão numérica de associados. Por outro lado, o grande número de sindicatos de professores (que não encontra paralelo noutras profissões), na ordem das dezenas, torna-se presa fácil para o ministério da Educação ciente de que essa divisão lhe traz inúmeras vantagens. Como diz o povo, “dividir para reinar”!

A existência de uma Ordem dos Professores, representativa de todos os professores, sem excepção, seria uma frente comum muito mais difícil de “domesticar” por parte dos mandarins da 5 de Outubro.

Coisa paradoxal e sem explicação plausível. Havendo um organismo mandatado publicamente para a validação da qualidade dos cursos superiores ministrados, como explicar que o ministério da Educação, ao arrepio desta medida oficial, se proponha realizar provas de acesso à função docente?

Penso que esta pergunta encerra, pelo menos por agora, com chave de ouro um debate que ainda fará correr muita tinta e martelar muitos teclados de computador!

Responder

 

Rui Baptista28 de setembro de 2008 às 02:23

Ana Teresa:

A sua dupla qualidade de psicóloga e professora, ou vice-versa, veio trazer a este debate uma perspectiva que não está ao meu alcance de professor ou à mão de semear de “pj”, tão-só psicólogo.

Daqui, as suas inúmeras, e julgo que irredutíveis, discordâncias relativamente aos pontos de vista defendidos por “pj” assumirem uma relevância redobrada quando escreve: “Ora se há profissão onde essa identidade [profissional] deve ser mantida forte é no professorado que não tem uma Ordem Profissional”.

Ademais, com uma frontalidade pouco comum nos dias de hoje de apatia opinativa em que, por isso, assumir posições ou opiniões transformam os seus autores numa espécie de “avis rara”, não se escusa, corajosamente, a Ana Teresa a um debate mais alargado e aprofundado sobre esta temática: “Tentarei em outros comentários responder a outros argumentos seus [de “pj”] com os quais estou amplamente em desacordo”.

Grato pela sua valiosa prestação neste debate merecedor pela temática abordada de uma ampla discussão e uma não menor divulgação.

Responder

 

Fernando Oliveira Martins3 de outubro de 2008 às 23:55

Foi por manifesta falta de tempo que não comentei no seu post, com o qual concordo em absoluto. Se fosse possível gostaria de lhe sugerir um ponto de partida para outro texto: os Jornalistas têm um Sindicato (único...) que acaba por ter algumas funções deontológicas e bastante similares às das Ordens. Contudo, também por falta de uma Ordem dos Jornalistas, esta tem poderes estupidamente limitados: em certas situações pode punir os seus associados e fica impedida de punir os restantes prevaricadores por não estarem sindicalizados, como no "Caso Moderna" ...

Responder

 

 

          Anónimo26 de agosto de 2013 às 09:40

Está esquecido o tema da criação de uma ordem profissional? Penso que o tempo urge sob a pena de nunca nos livrarmos das opressões do MEC e das birras cheias de interesses obscuros de algumas organizações...

Pedro Santos


 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A BIPOLARIDADE NO COMBATE AO CORONAVÍRUS

Por se tratar de um caso de saúde pública que envole o nosso sistema escolar, com a devida  vénia, transcrevo este texto de Cid Valente:

 “É ASSIM QUE ESTAMOS

Janelas e portas abertas nas escolas em pleno Janeiro.

Tudo para afugentar o bicho malvado. Certo?

Pois bem, segunda-feira começou o segundo período.

O meu filho mais novo saiu cedo e agasalhado para mais um novo dia de aulas.

Passou as férias em casa e as poucas vezes que saiu foi na minha companhia.

Estava muito bem disposto e sem qualquer queixa.

Ao fim tarde chega com dores no peito e costas.

Disse que sentiu uma pontada durante uma aula onde havia corrente de ar e frio.

23 horas estávamos na Cuf

Pneumonia atípica bacteriana. RX foi claro.

Está em casa sob vigilância apertada e a ponderarmos se deve ou não ser reavaliado ao fim de três dias.

Acrescento que nunca esteve doente em 16 anos de existência.

Muito obrigada DGS e medidas anti bicho pop!

Cid”.

Este texto mereceu-me o seguinte comentário:

“Temos uma ministra da saúde e uma directora Geral da Saúde que andaram a dizer (ou a faltar à verdade, porque chamar mentirosas a duas representantes do belo sexo é muito feio!) que o perigo do corona vírus estava a ser empolado , a exemplo de Trump que só muito mais tarde reconheceu o seu erro! As rápidas melhoras de seu filho são os meus votos sinceros. “

P.S.: Tem-se assistido, nesta mórbida odisseia a critérios de bipolaridade  em que as entidades responsáveis governamentais ora oscilam entre um optimismo exagerado ora entre um pessimismo doentio, deixando-se arrastar pelos acontecimentos em vez de os prevenir castigando exemplarmente os prevaricadores  que promovem casamentos e festas privadas  com grande aglomeração de pessoas. Ou seja, estamos num país em que proibir é o convite a uma espécie de jogo do gato e rato - com personagens de Walt Disney -  em que o rato (coronavírus) leva sempre a melhor!

 

 

 

 

REVISITANDO O MEU POST: DEZ PERGUNTAS SOBRE A ORDEM DOS PROFESSORES

A um número difícil de contabilizar de “posts” sobre o Sistema Educativo Nacional por mim publicados, aqui no “De Rerum Natura”,  acresço dois meus livros: “Do Caos à Ordem dos Professores” (Janeiro de 2004) e “O Leito de Procusto - Crónicas sobre o Sistema Educativo” (Outubro de 2005).

De entre os post’s publicados, revisito, por exemplo, este, aqui, publicado em 25 de Setembro do ano 2008, intitulado “Dez perguntas sobre a Ordem dos Professores”. Mereceu ele 20 comentários, uns prós outros contra  (dada a extensão desses comentários, convido o leitor a lê-los “in loco”).

De lá para cá, numa espécie de águas podres estagnadas, a proposta da criação de uma Ordem dos Professores, em iniciativa do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL), foi discutida e “chumbada” no Parlamento, sendo eu ao tempo presidente da Mesa da respectiva Assembleia Geral, e tendo redigido, de colaboração com dois colegas, o seu projecto de estatutos.

Esta medida teve como relator um deputado do Partido Socialista, docente do 1.º ciclo do básico, nitidamente opositor a essa criação. Ou seja, foi posta uma raposa a tomar conta do galinheiro, como soe dizer-se.

Entretanto, sem que nada de substancial se tenha passado com excepção de Flor Mascarenhas que pela sua criação tem lutado com denodo contra a oposição encarniçada, caída no esquecimento da Fenprof. Por esse facto, entendo prestar-lhe o agradecimento que lhe é devido,

Porque entendo que o passado é sempre valioso em decisões a ter no futuro, republico esse meu texto tendo-o como valioso para nos orientarmos no futuro. Nada pior para o exercício “ad-hoc” da profissão docente do que águas estagnadas com a desculpa que os professores é que marcham com o passo certo levando a mais de dezena de ordens profissionais existentes – e outras que se projectam no futuro - levam o passo trocado.

Pelo ridículo de que se reveste esta excepção, ocorre-me  o exemplo de uma mãe que ao ver o seu filho a desfilar numa parada militar gaba-se ufana: “Todos levam o passo trocado, só o meu filho é que marcha com o passo certo”!

Passo a transcrever, integralmente, o meu post aqui supracitado: “Dez perguntas sobre a Ordem dos Professores

“À força de duvidar, chega-se a conhecer a verdade” (Descartes)

Em longos anos que só uma forte crença suporta, tenho-me batido pela criação de uma Ordem dos Professores. Com essa intenção, afadiguei-me em longas consultas de textos para desmontar argumentos, “a contrario”, mas sem suporte consistente, como sejam, por exemplo, não exercer o docente uma profissão liberal, mesmo que stricto sensu, e terem todas as ordens anteriores a 25 de Abril a sua génese bastarda em filiação do Estado Novo, sofrendo, com isso, do pecado original de associação corporativa com a exclusão intencional dos sindicatos nacionais, também eles, porém, integrados na política do Estado Corporativo, através do decreto-lei 23050 de 1933.

Porque como sentenciou J. Bronowsky, “faça uma pergunta pertinente e você estará no caminho para uma resposta pertinente”, fica-me a esperança que as respostas às dez perguntas que aqui deixo possam ajudar a colmatar omissões da minha argumentação ou mesmo a melhorar alguns dos seus pontos fracos. Passo a enunciar o decálogo das perguntas que fiz:

1. Porque será que tantos estratos laborais de formação académica superior se estruturaram em ordens profissionais e outros, com formação escolar de igual exigência, se limitam a ansiar por idêntico estatuto?

2. Porque será que os psicólogos lutaram anos a fio pela sua Ordem e se regozijam hoje por a terem finalmente conseguido? 

3. Porque será que a Fenprof, o sindicato com maior representatividade em número de associados, se inquieta tanto só de ouvir falar na criação da Ordem dos Professores?

4. Porque será que o partido com a responsabilidade da maioria absoluta parlamentar não deu provimento, na Assembleia da República, a uma petição, apresentada em 2 de Dezembro de 2005, para a criação da Ordem dos Professores, subscrita por 7857 docentes?

5. Terá sido por a Ordem dos Engenheiros não ter permitido a inscrição de licenciados pela Universidade Independente que a recente legislação regulamentadora de novas ordens profissionais retirou a essas associações a validação dos respectivos cursos de acesso?

6. Porque será que outras profissões, de idêntica projecção e responsabilidade sociais, se subordinam a um código deontológico específico que lhes impõe direitos e lhes exige deveres, responsabilizando os seus membros por uma prestação de serviços qualificados à comunidade, e os professores não?

7. Não serão merecedores de igual tratamento os usufrutuários de um sistema de ensino consignado como um direito constitucional?

8. Será que os professores se resignam ao papel de escravos ao serviço dos mandarins da Avenida 5 de Outubro?

9. Será que os resquícios de uma política sindical mercantilista, que inscreveu sem qualquer critério de formação académica minimamente exigente indivíduos que lhes batiam às portas na defesa de direitos bastardos e deveres não cumpridos, não contribuíram para a perda de prestígio da classe docente e para a perda da sua identidade profissional?

10. Finalmente, considerando um silêncio que, infelizmente, parece prenunciar a máxima de quem cala consente, qual é a posição dos Ministérios da Educação e da Ciência e Ensino Superior sobre a criação da Ordem dos Professores?” (fim de citação).

Porque, a exemplo de André Gide, “acredito naqueles que procuram a verdade”, são estas umas tantas perguntas (outras haverá, certamente) à procura de honestas respostas, porque isentas de “parti pris”.  A classe docente possui maturidade e “galões” que lhe permitem não continuar a ser, como até aqui, como escreveu Fernando Pessoa, um "arrabalde de si própria” e muito menos os professores com escravos do filhos dos senhores de Roma!

Facto digno de registo, o actual silêncio da Fenprof como se tudo o que se está  a passar actualmente no ensino nacional, como que por pós de perlimpimpim os docentes tenham saído do inferno para entrar num céu em que quanto menor são as respectivas habilitações no 2.º ciclo do básico  melhor é o ensino  ministrado. Irrealismo que  a realidade desmonta.

Por exemplo, “Zero foi a pontuação obtida na realização de problemas matemáticos por 40 % dos alunos, do 4.º e 6.º anos de escolaridade que efectuaram provas de afeição, no ano lectivo de 2000/2001. Este “status quo”, mantém-se estável a ponto de estar previsto, ou mesmo em marcha um novo programa para a disciplina de Matemática que provoca em mim o receio de ser uma reforma para que tudo continui na mesma! Na verdade o exercício deste grau de ensino melhorou - e que de maneira! - para determinados sindicalistas oportunistas que em escola privadas, logo ciadas para o efeito, e escolas oficiais facilitistas, ascenderam ao 10.º escalão do estatuto da carreira docente, a exemplo do macaco que cantava a lengalenga: “Do meu rabo fiz navalha/ Da navalha fiz camisa/Da camisa fiz farinha/Da farinha fiz menina/Da menina fiz viola “

Como se lamentava Sophia de Mello Breyner, ”depois de 25 de Abril, tenho-me sentido tentada a escrever uma peça que se chamaria “Auto dos Oportunista, mas é impossível de escrever porque há sempre mais um acto!

A ESPERANÇA INESPERADA


Meu artigo hoje no PÚBLICO:

BNT162b2 é o nome de código da vacina para a covid-19 produzida pela empresa alemã BioNTech (vem daí o BNT) e pela norte-americana Pfizer. Também dá pelo nome, mais pronunciável, de tozinameran. Foi a primeira vacina aprovada para a covid-19​ e também a primeira a ser feita de material genético (recorre à molécula de RNA mensageiro, mRNA), aprovada para uso em humanos. A sua autorização começou a ser dada em 2 de Dezembro no Reino Unido, onde a vacinação começou seis dias depois. A 21 de Dezembro, também a União Europeia aprovou essa vacina e, cinco dias depois, a Hungria, antecipando-se aos outros países, começava a vacinar a sua população. (...)

Ver o resto em

(na imagem Karikó e Weissman, os autores da ideia da vacina, recebem a vacina há dias na Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, nos Estados Unidos).

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Sobre o (polémico) cânone literário - 1

O texto que abaixo transcrevo, escrito por Célia Mafalda Oliveira, presidente da Associação de Professores de Latim e Grego, abre o mais recente número do Boletim desta Associação (n.º 69, 2.ª série), que acaba de sair. Vale a pena lê-lo e retirar as devidas conclusões, num momento em que o "politicamente correcto" entra no currículo por onde pode e aí se instala, com consequências nefastas em várias áreas do conhecimento, nomeadamente na Literatura.

A nível da Cultura [em 2020] houve uma polémica que transbordou na imprensa e nas redes sociais: o cânone (literário). Muitos se questionaram, mais uma vez, de qual deve ser o verdadeiro cânone. Tal reacendimento foi trazido (...) pela publicação de O Cânone, com edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen. 

Escolhas, quiçá polémicas, fazem com que farpas tenham sido lançadas em distintos níveis de língua. Todavia o mais importante foi ter sido reacendida a temática em torno de literatura, leitura, escrita, autor e demais elementos relacionados. 

Ora, essa publicação fez-nos recordar O Cânone Ocidental, de Harold Bloom (1997), livro que distingue os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos (...). Bloom, à data da primeira publicação, professor de literatura na Universidade de Yale, entendeu ser necessário assumir-se contra o “mundo instruído” (pág. 10) em que os estudos literários eram ameaçados por “uma pura anarquia” prestes a ficar à solta. Referia-se ao contexto específico da vida cultural americana, com o seu agente principal na(s) universidade(s), os intelectuais dominados pelo “Politicamente Correto”, os “Roedores académicos” (academic lemmings off the cliffs). Sempre arrojado e sem receio de criar antipatias literárias, afirma, de forma muito convicta, o seguinte (pág. 43): 
“Ler ao serviço de qualquer ideologia não é, em minha opinião, ler. A receção do poder estético torna-nos capazes de aprender a falar com nós mesmos e a nos suportarmos a nós mesmos. O uso autêntico que devemos fazer de Shaskespeare ou de Cervantes, de Homero ou de Dante, de Chaucer ou de Rabelais, é aquele que leva a expandir o eu mais interior de cada um. Ler o Cânone em profundidade não fará de alguém uma pessoa melhor ou pior, um cidadão mais útil ou mais nocivo. O diálogo que a mente mantém consigo mesma não essencialmente uma realidade social. Tudo aquilo que o Cânone Ocidental pode trazer a alguém é a própria solidão desse alguém, aquela solidão cuja forma final é o confronto de cada um com a sua própria mortalidade.”
Interessante e verdadeira a sua ideia de que se possuímos o Cânone é porque somos mortais, e também porque chegámos razoavelmente tarde (referindo-se ao séc. XX). Chega até a deixar a “prova real” para o leitor (pág. 43): 
“Continua terrivelmente válido um antigo teste para encontrar o canónico: se a obra não pede releitura, então ela não possui os requisitos necessários.”
E é nesse jogo de referências intertextuais que encontramos os nossos autores clássicos: Homero, Hesíodo, Píndaro, Sófocles, Aristófanes, Platão, Aristóteles, Lucrécio, Virgílio, Horácio, Ovídio e Plutarco. Já no apêndice dedicado à Idade Teocrática, realça que não se encontram ali muitas das obras de grande valor pertencentes às literaturas grega e latina, justificando que “é pouco provável que o leitor comum tenha tempo para as ler” (pág. 517). Da sua eleição, elenca autores e algumas das suas obras (que prescindo de enumerar a fim de vos seduzir para a (re)leitura deste Canône de Bloom. 

No que diz respeito aos autores, segue-se a enumeração: os Gregos Antigos (Homero, Hesíodo, Arquíloco, Safo, Álcman; Píndaro, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Heródoto, Tucídides, os Pré-Socráticos: Heraclito e Empedócles, Platão e Aristóteles), os Gregos do Período Helenista (Menandro, Longino, Calímaco, Teócrito, Plutarco, Esopo, Luciano), os Romanos (Plauto, Terêncio, Lucrécio, Cícero, Horácio, Pérsio, Catulo, Virgílio, Lucano, Ovídio, Juvenal, Marcial, Séneca, Petrónio, Apuleio), a Idade Média (Santo Agostinho). 

Desengane-se o leitor se julga que os “aconselhamentos” de leitura ficam só por este editorial. Num tempo de dicotomias assaz marcantes (certeza/incerteza, proximidade/distância, amor/desamor, saúde/ doença), a leitura é uma excelente parceira qualquer que seja o suporte escolhido! Dir-me-ão que estas dicotomias são de todos os tempos! Claro! São-no, com certeza! Mas este é o nosso tempo! Que, em 2021, continuemos esperançosos na Educação e na Vida, capazes de revisitarmos as origens clássicas, lendo e relendo! 
Célia Mafalda Oliveira

Pedro Raposo - O Estudo dos Instrumentos Científicos

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

ADIAMENTO DE "SOCIOLOGIA DAS OUTRAS CIDADES" COM CARLOS FORTUNA

Por motivos de força maior esta atividade foi cancelada. Oportunamente será divulgada nova data. Pedimos desculpa pelo incómodo.

No novo ano que se inicia retomamos as actividades do Rómulo já na próxima terça-feira, dia 5 de Janeiro, às 18h via plataforma Zoom, com a palestra intitulada Sociologia das outras cidades com Carlos Fortuna, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do CES - Centro de Estudos Sociais. A palestra será moderada por Carlos Fiolhais, director do Rómulo.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade, neste semestre em formato Digital 💻📱 Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Falta de respeito pelos alunos e pelo acto de aprender

Maria do Carmo Vieira no Público de 2/1/2021:

Nunca senti tanto a imperiosa necessidade de agradecer publicamente a um Professor a sua intervenção crítica em relação ao Ensino e à Escola, como ao ler o artigo de Santana Castilho, “A política indecorosa de João Costa no confronto com Crato”. E faço-o, na base da minha experiência que ultimamente se alargou ao 1.º ciclo, relevando o que, no final do artigo, o autor afirma, com autoridade e num acto inteligente de alerta, em relação ao desenvolvimento gradual da capacidade de pensar abstractamente (12 aos 20 anos), enquanto dos 6 aos 12 anos a “capacidade de pensar com lógica se desenvolve de forma também gradual,” mas numa dimensão predominantemente concreta. 

Ainda que em muitas situações tenha sido também crítica em relação ao professor Nuno Crato, nomeadamente no seu pouco apreço pela Escola Pública, sem dúvida que a Reforma de 2003, na qual trabalhou com afinco João Costa e os do “perfil do aluno do século XXI”, fez desmoronar nos professores o sentido de ensinar, não me canso de o repetir, numa atitude ministerial perversamente consciente, movida pela avidez de transformar os professores em meros funcionários públicos, obedientes à esterilidade e ao absurdo de aventuras e teorias que, neutralizando o estudo, os submergiam ainda em papel, na redacção vã de relatórios e afins, aumentando desumanamente o seu cansaço e a consequente desmotivação. Surpreender-se-á alguém com o porquê de haver cada vez menos jovens a escolher a carreira de professor?

Nunca tanto se falou em pedagogia e respeito pelos alunos, como na preparação e concretização da Reforma de 2003 cujo espírito se mantém. No entanto, aquilo a que temos vindo a assistir desde então é de uma flagrante falta de respeito pelos alunos e pelo acto de aprender. E assim como se exige trabalho extenuante para os professores, treina-se igualmente os alunos nesse sentido, retirando-lhes tempo para estudo e exigindo que pensem, escrevam ou interpretem com rapidez, não lhes sendo concedido o tempo humanamente necessário para o fazer, para o bem-fazer. Exemplos flagrantes dessa postura são a sobrecarga horária e os exames, referindo especificamente os do 12.º ano de Português (8 folhas e 16 com critérios de correcção), nos quais se forçam os alunos a ler diferentes textos, normalmente longos, distribuídos por 2 grupos, o primeiro dos quais com 3 partes, e cuja interpretação implica respostas a questões e a escolhas múltiplas, tornando-se estas últimas, pela confusão que geram, verdadeiras ciladas, para além de 2 estruturações de texto, um expositivo que deve ser “breve” e outro de opinião que não deverá ultrapassar as 200 palavras. Tudo em grande variedade, não permitindo a tranquilidade de espírito necessária para uma efectiva ligação ao que se lê; tudo a ser feito com rapidez, como se os actos de ler, de pensar, de analisar e de escrever não requeressem tempo. Não são os exames que são nocivos e antipedagógicos, mas o sistema que assim os elabora. Nunca serão os alunos vítimas de exames, antes vítimas de quem os menospreza, desprezando o seu futuro. O que é a vida senão a experiência de múltiplos exames? 

Constata-se que nunca ministro algum da Educação considerou ter cometido erros. Infantilmente, e sem decoro, omitem-nos ou apontam o dedo ao anterior, protegendo-se numa insuportável e peganhenta autocomiseração. Reconsiderou alguma vez João Costa (na verdade, é ele o ministro) recuar no erro que foi a TLEBS, agora “Dicionário Linguístico”, e que tem atormentado professores e alunos e impedido uma salutar compreensão da língua? Tinha pretensamente como intuito a uniformização da nomenclatura gramatical, mas mais não foi que uma obcecada invenção de palavras, extenuantes subdivisões e penosas enumerações classificativas em estéreis descrições. “Livro”, por exemplo, que a gramática morfologicamente classificava como “substantivo comum, masculino do singular”, passou, e apesar da polémica, a “nome comum, masculino do singular”, a que “inovadoramente” se acrescentou “contável, não humano e inanimado”. Só o bom-senso dos professores determinou que se encurtasse a longa enumeração, mas a designação de “substantivo” perdeu-se na famigerada aventura de João Costa. 

Tal como em 2003, manteve João Costa a ideia de considerar “tempo perdido” a contextualização de um autor e da sua obra, questionando a esse propósito sobre “qual o interesse de um aluno saber que um escritor nascera em Freixo-de-Espada-à-Cinta?” Muitos serão os escritores, pintores ou compositores que o rebaterão não só através das suas reflexões sobre o sentido da arte, mas também porque o lugar onde nasceram se reflecte substancialmente na sua obra. E penso, a título de exemplo, em Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira, Rúben A. ou Tomás de Figueiredo; em Chagall, e na influência de Vitebsk (Bielorrúsia) na sua pintura ou no concerto n.º 2 para violino de Prokofiev cuja história está tão intimamente ligada ao seu lugar de origem. Não será, no entanto, tempo perdido, para João Costa, analisar demoradamente textos “reais” e “funcionais” que povoam os manuais de diferentes anos da disciplina de Português. As crianças do 1.º ciclo não escaparam à má-sorte e também elas (2.º ano) podem demorar uma manhã a olhar pasmadas para um bilhete da CP, preenchendo, sem interesse e penosamente, o que lhes é solicitado: “classe em que se viajou”, “tipo de serviço que permitiu”, “data em que se viajou”, etc., etc.

Encaradas como adultos em miniatura, pede-se a crianças de 7 anos que aprendam teoricamente a “compreender textos”, explicitando-se estratégias que devem ser utilizadas, depois de lerem para si próprias: “Aprendi que devo tentar perceber quais são as consequências das atitudes das personagens no desenvolvimento da história e juntar isso ao conhecimento que tenho daquilo que são comportamentos corretos e incorretos. Depois, dou a minha opinião, argumentando com base nisso.” (sublinhado nosso). A compreensão de um texto exige em primeiro lugar uma leitura minimamente fluente porque só dessa forma pode haver uma aproximação ao que se lê. Compreender pode conduzir a amar e deveria ser esse o objectivo ao acompanhar uma criança na análise de um texto literário. O que de forma alguma acontece com a obcecada e torturante orientação acima transcrita.

 O terror do exemplo não fica por aqui porque agora são também as crianças que devem zelar pelos seus direitos e pela sua protecção, num perverso mundo às avessas. Num trabalho sobre o tema e em que se explicitam, dos 54 referidos, 4 artigos da Declaração Universal dos Direitos da Criança (2 – “Tens todos esses direitos seja qual for a tua raça, sexo, língua ou religião. Não importa o país onde nasceste, se tens alguma deficiência, se és rico ou pobre.”; 19 – Protecção contra a violência; 24 – Direito à saúde; 28 – Direito à educação), alunos de 7 anos devem “explicar por palavras suas” o que está escrito no artigo 2 (por isso o pus na íntegra) ou ainda pensar “noutro artigo que considerem estar escrito nesta Declaração”. E porque a avaliação se tornou actualmente uma obsessão, forçando-nos a que nos transformemos num “big brother” para nós próprios, as crianças do 1.º ciclo são igualmente treinadas a olhar-se criticamente e a olhar os outros do mesmo modo. Anteriormente, no Estado Novo, sem pedagogia, dividiam-se as turmas, tragicamente, em filas de “Oiro”, de “Prata”, de “Bronze” e de “Chumbo” – eu experimentei-o; hoje, encharcados em teorias, e com muita, muita (falsa) pedagogia, as crianças auto-avaliam-se com cores: verde (Bom), amarelo (menos bom) e vermelho (negativo) e assim não só os colegas são estigmatizados, como eles próprios se estigmatizam perdendo toda a motivação para ir à escola e dando início ao caminho da perda da auto-estima. É na base da minha recente experiência que o afirmo.

 No que diz respeito à Matemática, e entre muitos aspectos que haveria a salientar, relevo a realização de contas, seja de adição, subtracção, multiplicação ou divisão e repito o que, em 2014, disse numa entrevista conduzida por Mário Carneiro, na RTP. Nessa altura, recebi indicações de avós e encarregados de educação, muitos dos quais ex-alunos, que davam conta de que netos e filhos resolviam facilmente as contas, com o método tradicional, mas, com a aplicação de novas estratégias, não conseguiam fazê-las, algumas das quais recorrendo ao sistema da árvore, como acontecia na famigerada Gramática Generativa. Hoje, sou eu própria a constatá-lo e a verificar em muitas crianças essa dificuldade. Esperemos que o novo programa de Matemática, que se prepara, possa respeitar as características específicas de cada nível etário, para bem das crianças do 1.º ciclo e do estudo da Matemática. 

Confesso o meu desapontamento perante o que folheio em manuais do 2.º ano, não só de Português (e aproveito para referir a pouca qualidade de muitos textos, ditos literários, usados em manuais), mas também de Estudo do Meio e de Matemática em que sobressaem actividades e estratégias, exigindo um pensar abstracto que as crianças não adquiriram ainda, para além de um vocabulário desadequado à idade. Não será assim que incitaremos os alunos a ler, desenvolvendo um hábito que a vida nos tem mostrado ser imprescindível, seja social seja espiritualmente. Para muitas crianças também, sem acompanhamento dos pais, em casa, e que se defrontam com o inferno da incompreensão do que lêem (os que conseguem minimamente ler), que esperar senão um abandono escolar futuro? Agrava esta situação o verdadeiro maltrato (físico e psicológico) que é o facto de muitas crianças permanecerem na escola um exagerado número de horas, saindo de manhã cedo de casa (a escola recebe-as a partir das 8h00) e regressando, muitas delas, à hora do jantar, já exaustas e incapazes de fazer seja o que for. Onde está a Pedagogia?

domingo, 3 de janeiro de 2021

UM PAÍS DE "YES-MEN"!


“O homem vulgar não cuida em se valorizar e aperfeiçoar. Aliás, afirma o direito à vulgaridade porque ser diferente, isto é, selecto e nobre é indecente" (Ortega y Gasset).

Neste princípio de ano, em que uns olham para o futuro, eu dou comigo a olhar para o passado recordando o saudoso tempo em que os post’s publicados eram “vítimas” de comentários, quer pró quer contra.

Era o tempo de uma sociedade com ideias  que se não deixava ir a reboque de ideias feitas e não contraditadas. Hoje, vivemos numa sociedade controlada pelos grandes órgãos de informação afectos ao Governo com colaboradores pro bono” com a ingratidão de verem censurados os seus textos, ou mesmo deixados de serem publicados.

Contra este estado de coisas de uma sociedade sem poder de reacção a desculpas esfarrapadas do Governo, no que respeita a erros por si cometidos, como por exemplo, dar tachos aos seus boys ou girl's, alegando “lapsus calami” para nomeações apetecíveis em lugares quer nacionais ou da Comunidade Europeia, só uma reacção poderosa, através dos novos meios de comunicação aportados pelas novas tecnologias, poderá pôr cobro para não terminarem, como habitualmente, em águas de bacalhau!

Simultaneamente, deverá apelar-se, ainda que possa ser uma simples utopia, para o civismo de que esses comentários não sejam cloaca para insultos cobardes sob anonimato! Mas para isso há uma condição a cumprir: haver um Governo que respeite e se faça respeitar pelos portugueses!

sábado, 2 de janeiro de 2021

DESILUSÃO


 “A auto-satisfação é inimiga do estudo. Se queremos realmente aprender alguma coisa, devemos começar por libertar-nos disso. Em relação a nós próprios devemos ser 'insaciáveis na aprendizagem' e em relação aos outros, insaciáveis no ensino'” (Mao Tsé-Tung, 1893-1976).

Passaram-se vários decénios desde que escrevi, aqui no “De Rerum Natura”, o primeiro texto que fez de mim um desiludido sem esperança num ensino de excelência por ter sido tutelado na sombra por um sindicalismo com rosto político de esquerda que serviu, essencialmente, os desígnios pessoais de ascensão  na carreira docente dos seus próceres.

Na minha idade e experiência de anos passados na docência de vários graus de ensino, aposentado aos 70 anos de idade,  já nada me devia desiludir Mas o que é certo é que me desilude. Desilude-me que se possa ter ingressado na universidade através das “Novas Oportunidades” (ou novos oportunismos?) e, simultaneamente, se obrigue os jovens alunos a fazer exigentes exames do 12.º ano (exames aliás da minha inteira concordância). Desilude-me, ainda, que o sério “Exame AD-HOC” de acesso ao ensino superior, para quem fosse um verdadeiro autodidacta (e não, como escreveu o poeta brasileiro Mário Quintana, “um ignorante por conta própria”) com exigentes provas, a nível nacional, de Português, Cultura Geral e uma prova específica em função do curso superior de candidatura, tenha sido substituído por uma "Prova de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos", a cargo dos próprios cursos que precisam, como de pão para a boca, de angariar alunos para manterem portas escancaradas que deviam estar, há muito tempo, fechadas a cadeado.

Prova essa crismada com a designação (por o nome de baptismo ser demasiado abreviado?) de “Provas especialmente destinadas a avaliar a capacidade para a frequência do ensino superior dos maiores de 23 anos” (Decreto-Lei n.º 64/2006, de 21 Março). Ufa!, receio bem que se fique mais cansado em pronunciar este majestático nome do que em cumprir as respectivas provas. Desilude-me, finalmente, haver pessoas que julguem poder endireitar a sombra torta de uma vara sem a tirar do sol de um descarado facilitismo. Mas que quer, meu caro leitor, acha que quem se tem batido contra todos estes atropelos, cometidos num ensino em que a mediocridade, pouco a pouco, e de forma insidiosa, se foi sobrepondo ao mérito, não tem motivos de sobra para comungar do desânimo do Poeta de “Orpheu”: “Já não me importo / Até com o que amo eu creio amar /Sou um navio que chegou a um porto / E cujo movimento é ali estar”.

Importemo-nos, portanto, para que o dia em que o prestígio do professor do ensino secundário seja recuperado. Aquele prestígio de que nos falou Clara Pinto Correia que, ao referir-se aos antigo professores do liceu, escreveu que “devíamos beijar-lhes as fímbrias do manto" (“O Render dos Heróis”, Diário de Notícias, 09.Julho.1995). Em nome de um prestígio perdido granjeado, por exemplo, pelo antigo Liceu Pedro Nunes de Lisboa por ter tido no seu corpo docente, entre outros, a figura muito respeitada do pedagogo Rómulo de Carvalho e ter diplomado gente de grande valor no domínio da vida científica, literária, artística, económica e social do país, não seria boa altura acabar com o nome de escola secundária devolvendo-lhe o nome de liceu proscrito em resquícios revolucionários? Ou terão sido, assim, tantos os maus serviços prestados pelo chamado liceu que justifique ter sido castigado com uma borracha que lhe apagou uma identidade secular? Ou, ainda, pior do que isso, matando dois coelhos de uma só cajadada cometendo idêntico e monstruoso agravo para com um ensino técnico industrial e comercial de muito prestígio pelos excelentes serviços prestados ao país e à sociedade portuguesa que se viu privada desses valiosos quadros técnicos.

Ora, quer se queira ou não, a tomada de medidas terapêuticas corajosas para a educação passa, também, por um actividade docente com poderes de autoridade sobre alunos indisciplinados  que não se compadeça com uma simples aspirina para acalmar uma sintomatologia dolorosa deixando que as maleitas do sistema educativo prossigam o seu devastador caminho. Enganam-se os seus detractores, de natureza sindical ou não, que, em veredas de influências políticas ou em vielas esconsas de inconfessáveis interesses pessoais ou institucionais, teimam em não ver que a criação de uma Ordem dos Professores deixou de ser uma pequena bola de neve para se tornar numa avalanche que nenhuma prepotência sindical em abuso de poder poderá deter alegando desempenhar essas funções em acumulo de competências ao atropelo do preceito da Roma Antiga, “ a César o que é de César”, nunca a César o que não é de César.

Mas porque  nada se resolve, segundo a parábola de Marcos, com “remendo novo costurado em vestes velhas”, são estas questões a merecerem uma resposta pronta e enérgica de quem de direito que não deve ficar para a história por se acomodar aos erros do passado e do presente, não dando aos vindouros um futuro sem ser erradicado em verdadeiros e continuados crimes de uma educação nacional, em que se joga aos dados o destino da própria sociedade portuguesa.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

“TUDO COMO DANTES, QUARTEL GENERAL EM ABRANTES” (uma reflexão em final da segunda década do século XXI)

Um segundo texto do Professor Galopim de Carvalho, na continuação do anterior, reforçando o que nele disse.

Continuo profundamente desiludido com o andar da nossa escola pública. Quando, em 2015, no começo do seu mandato, o Primeiro Ministro afirmou que o nosso maior défice era o da Educação, deu-me razão, mas já passaram cinco anos e nada de verdadeiramente importante aconteceu. 

“Tudo como dantes, quartel general em Abrantes”, a frase que nos ficou do tempo da primeira invasão francesa, tem aqui total cabimento. 

Cada vez há menos incentivos que tragam os jovens para a docência. Espera-os uma ocupação mal paga, que perdeu o respeito e a dignidade que já teve. Espera-os o terem de andar de terra em terra, longe da família, com toda a frustração e os gastos que isso implica.

Muitos dos actuais professores que ainda resistem, estão cansados, desmotivados e desiludidos, ansiosos pela aposentação. Dentro de alguns anos não temos professores que cheguem para assegurar o ensino escolar obrigatório, universal e gratuito, até ao 12.º ano ou aos 18 anos de idade. E isto é grave. É, mesmo, muito grave.

Como o escrevi e não é demais insistir, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 46 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada” entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos cultura civilizacional e humanística, o que é muito grave, colocando-nos muito abaixo dos países que sabemos estarem mais avançados.

Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com a liberdade que, de facto, estamos a viver, e esta abertura à democracia, está a educação. E, aqui, a escola falhou completamente. É notório e os professores sabem bem que temos vindo a trabalhar para as estatísticas e para os “rankings”. 

Não é difícil acreditar que:
1 - A par de excelentes professores, que os há e são muitos, existem outros, sem preparação suficiente, que fazem do ensino um emprego, não uma profissão e, muito menos, uma missão, e outros, ainda, francamente maus, que, em avaliações a sério, já teriam sido afastados;
2 - O nível sóciocultural de milhares de famílias carentes de tudo, é umas das causas mais gritantes da situação que se vive no sector;
3 - A deficiente preparação científica e pedagógica de muitos professores também conta, e muito, na dita falência. Sempre defendi, devem saber muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino. Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm. Há, pois, que libertá-los das tarefas que não sejam as de ensinar;
4 - É necessário e urgente fomentar, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade e que a democracia não soube aproveitar, e é igualmente necessário e urgente que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, em democracia;
5 - É necessário e urgente rever toda a política dos manuais de ensino, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e à correspondente supervisão, impondo-se repensar a política de exames e de classificação do aluno;
6 - É necessário resolver o grave problema da colocação de professores, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;
7 - Impõe-se rever a remuneração dos professores que como tenho defendido, tem de ser compatível com a sua real importância na sociedade. Um(a) professor(a) universitário(a) não é nem mais nem menos importante do que um(a) educador(a) de infância ou de um(a) professor(a) do ensino secundário ou do básico;
8 - À semelhança dos professores universitários, que são avaliados, a sério, pelo menos três vezes ao longo da carreira, os professores do básico e do secundário têm de se submeter a avaliações dignas desse nome;
9 - É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na cuidada escolha dos titulares, como nas dotações orçamentais que permitam dar às escolas e aos professores as necessárias condições de trabalho;
10 - E necessário e urgente olhar para esta realidade e haver vontade política (despida de constrangimentos partidários) para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial” poderosa e nebulosa, de há muito instalada, a ver desfilar ministros e secretários de estado. 
Cada vez estou mais convicto de que os graves problemas que nos afectam a nível da Escola (além de outros) decorrem do modelo económico da sociedade, dita do desenvolvimento, dominada pelo dinheiro. Se assim for, não conseguiremos inverter este estado de coisas sem ir ao âmago do problema.

A. Galopim de Carvalho

É PRECISO DENUNCIAR

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho

Em post recente no Facebook, comecei assim: 
“Num tempo em que ainda havia as então chamadas “classes especiais” (andámos de cavalo para burro) para crianças, algumas a roçarem a adolescência ou já nela entradas, com necessidades educativas especiais, mais concretamente, com problemas na aprendizagem, na sociabilização e outros, a Isabel, terminado o curso do saudoso Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, foi colocada numa destas classes, em Lisboa….” 
Sou um crítico, não tão activo como devia e, ao mesmo tempo, um defensor tenaz da classe dos educadores e professores dos ensinos pré-escolar, básico e secundário, classe que deveria estar (e, desgraçada e infelizmente não está) entre as primeiras (talvez, mesmo, a primeira) preocupações dos governantes.

Todos os pais conscientes sabem que há professores sem qualidade ou vocação para exercerem essa missão (sim, porque é de uma missão que se trata e não de um qualquer emprego), a imensa maioria, prisioneira de múltiplas obrigações que nada têm a ver com o acto de ensinar, merece o meu respeito e a minha consideração.

Uma classe desacarinhada, desprotegida e mal paga, a que a democracia retirou os ditos respeito e consideração.

Já o disse e escrevi aqui e noutros media, que, em termos de educação, não estamos a formar a maioria dos cidadãos que a democratização do ensino trouxe às nossas escolas. Estamos a trabalhar para os “rankings” e para as estatísticas. Estamos a forçar os professores a amestrarem os alunos a acertarem nas questões que irão encontrar nos exames finais. Em alguns casos, como disse atrás, a propósito das infelizmente extintas “classes especiais”, andámos de cavalo para burro.

Aquele meu post mereceu o comentário que transcrevo e assino por baixo:
“Hoje, a pretexto do que se chama «inclusão», integram-se meninos com problemas sérios em turmas de alunos sem dificuldades de aprendizagem, exigindo-se aos professores que individualizem o ensino, com o apoio de alguns técnicos que, na maior parte dos casos, não conseguem facilitar o trabalho dos docentes. Depois inventa-se «sucesso» tristemente irreal, em anos sucessivos. E, como a lei o permite, invocam-se estatutos específicos que evitam que esses meninos façam exames. A isto todo o mundo fecha os olhos: há alguns empregos, os pais podem deixar os seus filhos nas escolas e até se dá a ideia de que esses meninos tiveram sucesso. Já os professores lamentam-se em voz surda, com medo de serem ouvidos.” 
É esta a nossa triste realidade. Quando, em 2015, no começo do seu mandato, o Primeiro Ministro afirmou que o nosso maior défice era o da Educação, deu-me razão, mas já passaram cinco anos e nada de verdadeiramente importante aconteceu. A imagem que aqui mostro (capa de uma publicação do Gabinete de Avaliação Educacional, do Ministério da Educação) confirma o que ando a dizer há anos: Mercê dos programas, dos manuais usados, das orientações superiores e do tipo de exames, os professores, em vez de poderem ensinar e formar cidadãos, são levados a "amestrar" os alunos a acertar nas questões que lhes são colocadas nos exames. 

É bom para as estatísticas, mas é mau para os alunos e para o País.
A. Galopim de Carvalho

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...