quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

FRONTEIRAS DA FÍSICA

Minha contribuição para a revista dos estudantes de Física da Universidade de Coimbra:

 

Embora correndo o risco de deixar importantes áreas de fora, esboço aqui algumas das actuais fronteiras da Física:

 

1- Cosmologia e Física de partículas

O tema do espaço é muito vasto. Sabemos que o Universo teve um início, o Big Bang, há 14 mil milhões de anos, sobre o qual é grande a nossa ignorância,  e sabemos que a história do Universo assentou na progressiva auto-organização de partículas devida a forças. Existe um modelo-padrão de partículas e forças. No quadro desse modelo, já foram unificadas três das quatro forças fundamentais, faltando a gravidade. Um grande projecto é a junção da teoria da relatividade geral  com a teoria quântica. Sendo a teoria das cordas uma tentativa dessa unificação, ela tem-se revelado insatisfatória: há alternativas como a teoria do loop quântica. Um enorme problema é o da natureza do tempo.  Do espaço podem sempre surgir surpresas: Técnicas de observação recentes como as das ondas gravitacionais poderão trazer novidades.

2- Computação quântica

Alguns aspectos estranhos da teoria quântica, como a sobreposição de estados, podem ser explorados tecnicamente para permitir uma computação muito mais rápida. Já existem protótipos de computação quântica, que, se forem desenvolvidos, poderão vir a revolucionar a computação, que está a atingir os limites da lei de Moore, isto é, os transístores estão a aproximar-se da escala atómica.

3- Nanotecnologia e novos materiais

A engenharia à escala atómico-molecular - uma ideia apresentada em 1959 por Richard Feynman - tem crescido muito desde que foram fabricados os primeiros fulerenos em 1985.  Já há aplicações no mercado dessas tecnologias, que consiste em fabricar novas moléculas e materiais, juntando os átomos ou moléculas um a um. O sonho é que novos materiais com propriedades desejadas sejam fabricados à medida. No domínio dos novos materiais, permanecem muitas questões teóricas e práticas, por exemplo as que se  ligam à supercondutividade a altas temperaturas.

4- Sistemas não lineares e complexidade

Um domínio interdisciplinar muito fértil tem sido o dos sistemas não lineares, sistemas cujos outputs são muito sensíveis aos inputs. É o que sucede na meteorologia: um abanar de asas de uma borboleta pode causar um furacão do outro lado do mundo. Este domínio, que se liga com a geometria fractal, encontra aplicações não só nas ciências físico-naturais, mas também nas ciências sociais e humanas. É neste domínio dos sistemas não lineares que surgem as interessantes questões do não-equilíbrio.

5- Vida extraterrestre e exoplanetas

Só se conhece vida na Terra, mas procura-se vida quer no sistema solar, por exemplo em luas de Júpiter, quer fora do sistema solar através de espectroscopia. Poe esta via foram recentemente descobertas moléculas (fosfinas) em Vénus cuja origem poderá ser biológica, o que significa que o planeta mais próximo de nós poderá albergar ou ter albergado vida microscópica.  O crescimento do número dos exoplanetas, que hoje em dia são mais de quatro mil, permitirá revelar “novas Terras”, isto é, planetas à distância certa da sua estrela para poderem acolher vida. Não sabemos se esta se baseará no código genético que une toda a vida na Terra.

6- Inteligência artificial e neurociências

O cérebro é a última fronteira da ciência. A inteligência artificial surgiu em 1956 e desde então não parou de crescer. A ideia é imitar partes do cérebro humano. Algoritmos de inteligência artificial permitem hoje o tratamento de big data, incluindo interpretação da fala e da imagem, sendo por isso úteis em robôs. O problema da consciência continua a desafiar-nos. Além disso, doenças do cérebro, visualizadas por meios da física, constituem um grande desafio, quando cresce o número dessas doenças.

7—Ambiente e clima

As alterações climáticas são um dos grandes problemas do mundo. A humanidade enfrenta desafios científico-tecnológicos tremendos para impedir maior acumulação de gases de efeito estufa e o consequente aumento de temperatura do planeta. Há que desenvolver novas fontes de energia e novos meios de mobilidade, uma área em que trabalham muitos físicos.

São muitos os problemas para os jovens físicos! E, em Portugal e no mundo, não faltarão oportunidades e trabalho.

 

Ciência em Directo


 Minha contribuição para o último "AS ARTES ENTRE AS LETRAS":

A Gradiva acaba de publicar o livro “Apanhados pelo vírus- Factos e mitos acerca da COVID-19”, da minha autoria do bioquímico e divulgador de ciência David Marçal. Eis um excerto do último capítulo:

“O novo coronavírus tem representado um grande desafio para a ciência, mas esta tem conseguido dar uma boa resposta. Não apenas o vírus foi rapidamente sequenciado, como se determinou a forma pormenorizada devárias das suas proteínas, incluindo da importante proteína da espícula, a sua superfície, e foi elucidado o modo como esta se liga a membrana das células do hospedeiro humano. Cultivaram‑se os vírus em laboratório, analisando o processo da sua multiplicação. Estudou‑se a patologia dos tecidos afectados. Investigou‑se a epidemiologia — quem era infectado e como era infectado — a fim de circunscrever o mais possível a contaminação. Estudaram‑se as formas de transmissão e a eficácia das medidas de prevenção. Analisaram‑se os efeitos fisiológicos da doença. Ensaiaram‑se e ensaiam‑se antigos fármacos e procuram‑se novos. Numa impressionante corrida contra o tempo que tem lugar em várias regiões do globo, busca‑se uma vacina que imunize contra o SARS‑CoV‑2.

Há muita gente, incluindo alguns políticos, que se interroga por que razão, estando a ciência tao avançada — e esta! —, ela não resolve rapidamente este assunto. A resposta e que a ciência tem o seu tempo próprio, que não e o tempo dos políticos. Obter conhecimento não é um processo administrativo que possa ser simplesmente resolvido com a alocação de mais recursos (embora os recursos acrescidos possam acelerar a obtenção de conhecimento), pois estamos a desvendar intrincados segredos da Natureza. Neste tempo de crise, nas áreas mais relacionadas com o vírus e a pandemia, a ciência esta mais activa do que nunca. A comunidade científica relacionada com esta área está a trabalhar todos os dias, dia e noite, numa luta para compreender melhor o vírus e a doença. Os cientistas têm dialogado entre si — um processo essencial para a produção de ciência — preferencialmente através dos meios informáticos que a própria ciência (de novo, a física, com os computadores e as fibras ópticas que os ligam) proporcionou nas últimas décadas e que hoje estão ao serviço de toda a humanidade, para os mais variados fins.

De facto, temos assistido ao desenrolar da ciência em directo, com notícias, muitas vezes sem quaisquer filtros críticos, de avanços na prevenção, detecção e tratamento da COVID‑19, que podem ser falsos avanços. Nem tudo o que luz e ouro. Há trabalhos que são melhores do que outros, ou porque as amostras são mais amplas ou porque o tratamento dos dados e mais rigoroso, colocando de lado todos os possíveis efeitos perturbadores. Não é de maneira nenhuma fácil, quer para um jornalista quer para um cidadão comum, aquilatar o grau de fiabilidade dos resultados que vem sendo anunciados com compreensível avidez pelos media. Claro que não há, em princípio, mal nenhum que os resultados da ciência apareçam na praça publica: a ciência é, em larga medida, um empreendimento público e deve, sem restrições, estar acessível ao público. Mas o público não deve tirar conclusões precipitadas de um só trabalho ou de poucos trabalhos. Terá de ser a própria comunidade científica, tornando‑se no que podemos chamar “advogado do diabo” de si própria, a verificar o que se confirma do que e anunciado e o que não se confirma e que, por isso, deve ser inequivocamente refutado. Há trabalhos que têm de ser repetidos não uma, mas varias vezes, para que o erro seja evitado e as conclusões possam ser tomadas como seguras. E um processo de “filtração”, cujos resultados devem evidentemente ser anunciados ao público.

A sociedade tem natural urgência nas soluções: ambiciona o Santo Graal que será uma vacina que se revele eficaz contra a COVID‑19 assim como medicamentos antivirais específicos para o SARS‑CoV‑2, que funcionem melhor do que os outros antivirais usados noutras infeccoes. Várias equipas de cientistas estão a desenvolver uma vacina para a COVID‑19 e a ensaiar medicamentos antivirais. Já existem protótipos de vacinas, nos quais se deposita alguma esperança, mas eles têm de ser cuidadosamente testados num grande número de pessoas para avaliar tanto a sua segurança como a sua eficácia. Nenhuma vacina ou qualquer outro medicamento pode chegar ao mercado sem passar por um período de testes, que pode demorar anos, seguindo as exigências de prova da medicina baseada na ciência. O normal é precisamente demorar anos. A pressa não é boa conselheira no processo científico. No caso da COVID‑19, os cientistas estão a tentar acelerar os processos de desenvolvimento da vacina, sem que isso comprometa a indispensável segurança, mas não se pode acelerar para alem de um certo limite, uma vez que os investigadores tem de aguardar pelos tempos que são próprios do contagio viral que e naturalmente acidental. Nos ensaios clínicos das vacinas, há que esperar que os voluntários que neles participam sejam expostos ao vírus na comunidade e ver quais são as respectivas reaccoes. Há um outro tipo de ensaios — chamados de desafio — em que os participantes são expostos propositadamente ao vírus, mas estes ensaios são considerados pouco éticos. Há quem defenda a sua utilização neste caso, face à gravidade e urgência da situação, e decerto não faltariam voluntários. Veja‑se, por exemplo, que mais de 200 000 pessoas se ofereceram em 2016 para ir a Marte sem bilhete de regresso, no quadro de uma campanha da empresa holandesa Mars One. Não têm sido realizados ensaios de desafio, embora essa possibilidade não esteja completamente arredada. Na verdade, a primeira vacina, contra a varíola, foi testada com um ensaio de desafio: Edward Jenner inoculou o filho do seu jardineiro com varíola humana. Felizmente a vacina resultou e o rapaz de oito anos não desenvolveu a doença. Estávamos no seculo XVIII e as preocupações éticas não eram as que são hoje...

Também há que esperar para ver como o organismo humano reage a vacina. Se houver reacções que sejam fortemente adversas tem de se parar imediatamente para tentar perceber o que aconteceu: não se pode continuar como se nada tivesse ocorrido.(…)”

 David Marçal e Carlos Fiolhais

DAVID FARRIER E AS PEGADAS


 Minha recensão no jornal I da semana passada (com pequena edição):

A Elsinore, uma chancela da editora 20|20,  foi buscar o seu nome à designação em inglês da cidade dinamarquesa de Helsingor, onde fica o castelo de Kronborg, que inspirou Shakespeare na escrita de Hamlet. O surrealista Mário Cesariny foi buscar ao Hamlet o título do seu poema “Welcome to Elsinore” (Pena Capital, Assírio & Alvim, 2004), que vem transcrito a abrir os livros com aquela chancela. Na série de não-ficção da Elsinore estão obras de extraordinário êxito como Homo Sapiens: História Breve da Humanidade (2020; há uma edição anterior: Vogais, 2013) e Homo Deus: História Breve do Amanhã (2017), do historiador israelita Yuval Noah Harari. Mas estão também boas obras de divulgação de ciência como A Sexta Extinção (2014), da jornalista norte-americana Elizabeth Kolbert, e livros que ligam a ciência e a literatura como Vozes de Chernobyl (2016), da escritora bielorussa Svetlana Alexievich, Prémio Nobel da Literatura de 2015. O último volume publicado dessa colecção, Pegadas. Em busca dos fósseis futuros, tem a ver com a história do amanhã, como a “sexta extinção”, isto é, a grande extinção causada pela espécie humana, e com a tragédia de Chernobyl. A escrita, embora não ombreando com a de Alexievich, é literária e cativante.

Quem escreveu? David Farrier, professor de Literatura Inglesa na Universidade de Edimburgo, formado em Leeds, com experiência docente em Leicester e beneficiário de uma bolsa na Universidade de New South Wales, perto de Sidney, na Austrália, usada para redigir boa parte desta obra. Esta foi distinguida em 2017 com o Prémio St. Aubyn para primeiras obras de não-ficção da Royal Society of Literature. No entanto, só foi publicado em Março deste ano, tendo a sua tradução em português (muito competente, de Raquel Dutra Lopes) saído em Outubro. O livro, que não é grande (306 páginas), estende-se por oito capítulos, que são precedidos por uma introdução e seguidos por uma coda. Farrier tem-se interessado por temas ambientais, que cruzam ciência e literatura. Em 2019 publicou um livro sobre o mesmo tema, mas de âmbito mais académico: Anthropocene Poetics: Deep Time, Sacrifice Zones and Extinctions (University of Minnesota Press, 2019).

O livro trata das marcas humanas que poderão ser encontradas num futuro distante, daqui a dez mil anos ou a dez milhões de anos, tal como encontrámos na Tanzânia pegadas de hominídeos de há mais de 3,6 milhões de anos. O autor parte das pegadas em sentido estrito: “Às pegadas antigas, bem como a tocas, rastos e marcas de dentes, chamam-se ’vestígios fósseis’. Ao contrário de corpos fossilizados, falam-nos da vida, e não da morte. Embora incorpóreos, estes vestígios prestam testemunho do peso, do porte e dos hábitos de um corpo entretanto partido, contando histórias acerca de como eram vividas vidas antigas.“ Foi o economista norte-americano John Maynard Keynes que disse que “a longo prazo, estaremos todos mortos”. De facto, não sabemos se daqui a dez mil anos ou dez milhões de anos ainda existirão representantes do Homo Sapiens a caminhar sobre a Terra. Escreve Farrier: ”Talvez não haja gente no mundo para interpretar os nossos vestígios; não obstante, estamos – por todo o lado, constantemente e com uma prodigalidade espantosa – a deixar um legado que perdurará por centenas de milhares ou, até, centenas de milhões de anos.” Pode não haver pegadas em sentido literal. Mas haverá decerto marcas da presença humana neste planeta. Prossegue mais adiante: “Pegadas é a minha tentativa de descobrir como seremos recordados pelo futuro muito profundo. Há milhares de anos que as pessoas modificam a Terra e alteram os ecossistemas, mas as alterações feitas ao planeta e os materiais cada vez mais duradouros que nós (sobretudo no Norte global) criámos desde a revolução industrial surgiram com uma velocidade e um inventividade sem precedentes, e deixarão marcas persistentes, mais do que qualquer coisa que os seres humanos tenham produzido antes. Na minha busca por fósseis do futuro olho para o mar, para os oceanos e para a rocha, de uma bolha de gelo tirada do cerne da Antárctida a um túmulo de resíduos radioactivos nas profundezas do leito rochoso finlandês.”

O nome Antropoceno que Farrier tem no título do seu livro mais académico foi proposto no início dos anos 80 pelo biólogo norte-americano Eugene Stroemer, para referir o tempo marcado pelo impacto humano no planeta, mas foi o químico holandês Paul Crutzen, Nobel da Química de 1995, que, no ano 2000, propôs um novo tempo geológico que se sucedesse ao Holoceno, iniciado há 11,7 mil anos com o último grande período glacial e que é a última época reconhecida até agora do Quaternário. De facto, existe uma controvérsia sobre a existência dessa época e, caso ela exista, sobre o seu início. Crutzen defende que teve origem na Revolução Industrial, mas há quem o faça remontar à Revolução Neolítica e quem proponha que só começou com as primeiras explosões nucleares, no fim da Segunda Guerra Mundial. Em 2009, conforme lembra Farrier, a Comissão Internacional de Estratigrafia nomeou um grupo para estudar a possibilidade de criar essa nova unidade geológica, a “era do ser humano”. Em Abril de 2019, o grupo divulgou que iria propor à referida Comissão a nomeação do Antropoceno em 2021. Decisiva será a evidência da presença humana nos estratos, que se pode concretizar por microplásticos, metais pesados ou núcleos radioactivos provenientes das explosões nucleares (provavelmente a proposta será aprovada e o início será em meados do século passado).

Para procurar marcas humanas perduráveis Farrier não se poupou a esforços em excursões no Reino Unido, designadamente na paisagem à volta de Edimburgo (que, devido à deriva dos continentes, já teve clima equatorial, conforme pode perceber quem, como eu, já viu o museu “Dynamical Earth” naquela cidade escocesa) e noutras paisagens do planeta. Visitou, por exemplo, a Grande Barreira de Coral na Austrália, que está ameaçada pelas alterações climáticas globais. Esteve em Xangai, cidade com mais de 24 milhões de habitantes que corre o risco de ficar inundada se o nível das águas do mar continuar a subir. Não será só Xangai: Nova Iorque e Nova Orleães não poderão ficar no mesmo sítio, pelo que haverá uma Nova Nova Iorque e uma Nova Nova Orleães.

Uma das marcas maiores do livro é o conjunto das suas citações literárias. Muitos escritores têm “pegadas” no livro. Louve-se o cuidado que a tradutora teve de usar as traduções de edições portuguesas de obras já publicadas em vezes de voltar a traduzir: Foi buscar, entre outros, e por ordem alfabética, Svetlana Alexievich, Walter Benjamin, Daniel Defoe (podemos ler a passagem em que Robinson Crusoe encontra uma pegada na areia, que o leva a pensar que não está sozinho), T. S. Elliot, Philip Dick, John Milton, William Shakespeare e Virginia Woolf.

As referências desse não tipo sucedem-se. Por exemplo, Farrier, quando fala dos plásticos, cita o ensaísta francês Roland Barthes, que em Mitologias (Edições 70, 1978), escreveu: “A hierarquia das substâncias é abolida, pois uma só as substitui a todas: o mundo inteiro pode transformar-se em plástico, e até a própria vida, pois, segundo parece, já começaram a fabricar-se aortas de plástico.” Barthes não imaginou, porém, que o plástico iria formar enormes ilhas nos oceanos… Nem que já há plástico fossilizado: o livro acaba com o encontro de uma corda fossilizada numa praia. Outro exemplo: Farrier cita a escritora norte-americana Ursula K. Le Guin, que, em “The carrier bag theory of fiction” (1986), diz que o primeiro instrumento humano não foi uma arma de arremesso, como sugere Stanley Kubrick em 2001. Odisseia no Espaço, mas sim um recipiente (um saco ou um balde) para levar uma coisa de um lado para outro. A metáfora de mudar uma coisa de um lado para o outro aplica-se à construção de cidades: fazemos edifícios de betão, aço e vidro, deixando grandes buracos nos sítios onde fomos buscar rochas, minérios e areia.

Farrier sabe bem usar metáforas. Serve-se por exemplo da “Biblioteca de Babel” de Jorge Luís Borges, para descrever o ar aprisionado em pequenas bolhas no gelo, que nos informa como foi o clima terrestre há muitos anos. O gelo funciona como uma biblioteca que guarda a memória dos tempos passados. É de lá que conhecemos o aumento das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera. E é lá onde ficará um registo do tempo de hoje.

Na minha opinião, Farrier não enfatiza suficientemente as grandes diferenças que haverá na Terra a longo prazo do ponto de vista geológico pois os continentes são “jangadas de pedra”. Nem os resultados da lenta evolução biológica, que conduzirá a espécies que nos terão como antepassados. Mas dá-nos uma perspectiva do futuro a longo prazo que nos suscita humildade. No final, escreve: ”Achamos que sabemos o que esperar do mundo em que vivemos e perdemos a oportunidade de ver as coisas não só como são mas também como estão a tornar-se. Novos mundos surgem todos os dias, observou Calvino, e nós não reparamos neles. Na correria do dia-a-dia, escapa-nos a mudança subtil; através do hábito, vemos o presente à luz do passado. O desafio encontra-se em aprender antes a examinar o nosso presente e a nós mesmos, à luz sinistra lançada por um futuro iminente.”

 

 

 

Jose Candeias - Há Conversa

Jose Candeias - Há Conversa: Livro História Global de Portugal - Prof Jose Pedro Paiva - Série contendo as conversas especiais e com destaque, nas manhãs com José Candeias, enqua

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia estão disponíveis em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS

 Volumes de Homenagem a Nair de Nazaré Castro Soares

António Rebelo & Margarida Miranda (Coords.), O Mundo Clássico e a Universalidade do seus Valores – Homenagem a Nair de Nazaré Castro Soares. Vol. I (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 490 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2032-9.

António Rebelo & Margarida Miranda (Coords.), O Mundo Clássico e a Universalidade do seus Valores – Homenagem a Nair de Nazaré Castro Soares. Vol. II (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 496 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2034-3.  

 

[Esta obra em dois volumes pretende homenagear a Prof. Doutora Nair de Nazaré Castro Soares, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra, num ato de reconhecimento pela sua carreira académica, que se desdobrou num profícuo e longo magistério, e numa investigação de excelência. Da sua longa e proveitosa atividade ao serviço da educação e da ciência beneficiaram muitas gerações de alunos e de investigadores, em Portugal e no estrangeiro. São esses discípulos, colegas e amigos que agora contribuem para a composição deste livro, com trabalhos que versam as várias áreas do saber em que ela se distinguiu e que conferem estrutura à organização desta obra: a literatura e a cultura greco-latinas, a tradição clássica medieval, os estudos do Humanismo e Renascimento, e a herança clássica no mundo moderno e contemporâneo.] 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A ESCOLA ÚNICA DOS ENSINOS TÉCNICO E LICEAL

 

 

“A escola única é uma ficção, um igualitarismo funcional que nada tem a ver com a igualdade real” (Jean-Luc Mélenchon, ex-candidato às eleições presidenciais francesas de 2012, “L’Éxpress”, 22/03/2001).

Durante mais de um década fui presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) de que me demiti quando ele se aliou à Fenprof numa frente comum de combate por questões sindicais, marginalizando a criação de uma Ordem dos Professores havida, por este sindicato como uma das razões para a sua criação, mas sempre combatida  por esta federação por a ter como desnecessária por se dizer capacitada para o desempenho dessas duas funções!. Que bem se encaixa aqui a sabedoria popular: "Presunção e água benta cada um toma a que quer".

Entretanto, iam sendo destruídos os caboucos de um ensino técnico devidamente valorizado na formação de técnicos que serviam de suporte a um saber académico em substituição de um fazer só de experiência feito  como se, por vezes, "a experiência, segundo , Oscar Wilde, não fosse o nome que damos aos erros que cometemos"!

Meses atrás, deparei-me com o postCursos técnicos x bobagens académicas (24/04/2012), publicado no blogue brasileiro, Boteco Escolar - Ensaios sobre uso de blogs em educação. Nele foi transcrito integralmente um outro meu , "O Deputado Paulo Rangel, Canudos e Desemprego” (22/04/2012), com a seguinte introdução: “Dias atrás, dois amigos me contaram as bobagens que certos acadêmicos andam fazendo com o ensino técnico no Brasil. A bobagem maior é a de oferecer muita teoria, esvaziando o conteúdo técnico dos cursos. Eu precisaria de mais informações para analisar com cuidado o que está acontecendo. Mas, acho que o texto sobre o assunto, escrito em Portugal, no blog “De Rerum Natura”, oferece um bom quadro daquilo que meus amigos me contaram. A matéria é escrita pelo educador Rui Baptista e achei por bem reproduzi-la aqui”.

Deveras honrado com o interesse que este meu post despertou no país irmão, publiquei um novo post, aproveitando a boleia do sugestivo título Cursos Técnicos x Bobagens Académicas, que muito foi valorizado pelos comentários aí deixados, mormente um deles, da autoria de um brasileiro, Jarbas Novelino Barato, que vim a saber mais tarde tratar-se de uma personalidade detentora do mestrado em tecnologia educacional pela San Diego State University e doutor em educação pela Unicamp, professor da Universidade São Judas Tadeu com especialização em educação profissional numa prática de mais de trinta anos no Senac São Paulo.

Pelo seu grande interesse, reproduzo esse comentário que muito valorizou o meu post“Rui, Muito bom ler sua crítica à desfiguração do ensino técnico aí em Portugal. Com pequenas mudanças, para tropicalizar a linguagem, tudo o que você escreve cai como luva para as bobagens que fizeram como ensino técnico no Brasil.Não vou muito longe. Começo com a história da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1971. Essa lei, que profissionalizou todo o ensino secundário no Brasil, sucateou o ensino técnico. Acadêmicos que nunca tinham visto uma oficina em suas vidas começaram a ditar regras para a formação profissional nas escolas. Resultado: um desastre, acompanhado pelo desmonte do ensino técnico que foi construído por gente que entendia de trabalho e gostava do que fazia em oficinas e empresas de aplicação (fazendas, lojas e hotéis escolas, por exemplo).

Conto uma história acontecida logo depois da Lei 5692/71. Com a unificação do ensino, carreiras de dirigentes do ensino geral e profissional foram equiparadas. Graças a tal equiparação, diretores de escolas primárias [formados em pedagogia por onde o trabalho não passa] puderam candidatar-se a cargos de direção das antigas escolas técnicas. Uma senhora, com muito tempo de experiência na educação de crianças, assumiu uma das escolas técnicas, da área de tecnologia agrária, situada numa fazenda. Ao inspecionar as instalações, a nova diretora viu um touro magnífico, bem nutrido de carnes. Ordenou que o animal fosse sacrificado para churrasco de posse. O touro da história era uma matriz importada, produtor de material genético que vinha sendo utilizado em experiências de reprodução em todas as escolas técnicas agrárias do Estado de São Paulo... Atualmente está em curso um projeto de educação integrada no ensino técnico brasileiro. A proposta é liderada por acadêmicos cujo saber sobre formação profissional é, quando muito, livresco. A consequência é uma desvalorização da técnica enquanto saber. Há muito que comentar sobre isso, mas fica para uma outra ocasião.

Se interessar, posso lhe encaminhar duas obras que analisam algumas das dimensões do assunto que é objeto dessa nossa conversa:"Educação Profissional: Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho", e"Saber no Trabalho: Valorização da Inteligência do Trabalhador". Sou autor do primeiro livro. O segundo livro é tradução de obra de Mike Rose, professor da UCLA. Mande-me seu endereço postal para que eu possa encaminhar-lhe as citadas obras. Para tanto, envie mensagem para o meu Email. Grande abraço, Jarbas”.

Como é óbvio, logo agradeci a generosa oferta, tendo-me chegado, pouco tempo depois, esses dois livros. Do livro do Professor Jarbas Novelino Barata, reproduzo integralmente a explicação por si dada sobre o título do seu livro, ao escrever na respectiva introdução (pp. 31 e 32):

“O conhecimento marcado pelos rigores intelectuais daquilo que chamamos de filosofia e ciência tem as suas origens numa cidade da antiga Ásia Menor, chamada Mileto. Tales, Anaximandro e Anaxímenes, são os primeiros pensadores conhecidos a formularem teorias explicativas e racionais sobre a origem e a evolução da matéria. Inauguraram um modo de pensar, libertado da religião e de mitos, cujo desenvolvimento foi ganhando os contornos daquilo que hoje recebe o nome de ciência. Como observava Gottlieb, segundo Aristóteles a produção dos filósofos de Mileto aconteceu graças ao tempo de lazer de que eles desfrutavam numa cidade cujo comércio internacional liberava alguns dos seus cidadãos para um pensar descomprometido com as coisas do dia-a-dia. Essa associação entre produção do conhecimento e ócio (assim como muitas outras observações de Aristóteles) marcou profundamente a cultura ocidental.. Acostumamo-nos assim a ver o conhecimento como teoria desvinculada do fazer.

A tradição aristotélica atravessou séculos e criou uma fronteira nítida entre teoria e prática. É preciso considerar, porém, que as actividades humanas, sobretudo aquelas às quais damos o nome de trabalho, começaram a se estruturar muito antes do surgimento do pensamento descomprometido dos filósofos de Mileto. Embora não fossem frutos de ócio, as técnicas de navegação marítima que garantiam a riqueza de Mileto eram conhecimento. Essa dimensão do saber dos homens não mereceu muita atenção de Aristóteles. Mais que isso: foi ignorada pelo pensamento e tradição aristotélica atravessou séculos e criou uma fronteira nítida entre teoria e prática. Por isso, em situações de educação sistemática, valoriza-se hoje o hegemônico que estruturou a educação sistemática no mundo ocidental.

No dia-a-dia dos educadores, a valorização dos saberes do ócio a correspondente desvalorização dos saberes do trabalho aparecem num discurso que subordina a prática à teoria. Mais do que isso: aparece em formulações que reduzem a técnica ao "status" de “mera habilidade”. Neste livro procuro mostrar um caminho que se contrapõe ao modo tradicional de pensar as relações entre o conhecimento construído por sábios que podem contar com tempo livre para elaborar suas teorias e sábios que inventam os fazeres que nos produzem enquanto seres humanos. Para marcar a tensão entre duas tradições distintas do saber, que certamente influenciaram e continuam a influenciar modos de ver percursos de educação profissional, escolhi um título pouco usual para esta obra. À referência ampla do tema (Educação profissional) agreguei uma pergunta que apresenta de modo contundente as ideias propostas neste livro: ‘Saberes do ócio ou saberes do trabalho?’ Espero que a minha contribuição sirva para mostrar que o modo hegemônico de privilegiar os saberes do ócio, nos sistemas e escolas que pretendem formar trabalhadores, empobrecem a educação profissional. Espero, ao mesmo tempo, que a valorização dos saberes do trabalho mostre um caminho que não ignora o conhecimento que nasce das actividades produtivas”.

Eu, por meu lado, espero (no dizer do povo: “A esperança é a última coisa a morrer") que a introdução deste livro, acima transcrita, seja lida e meditada pelos responsáveis governamentais pelo ensino profissional ou simples opinion-makers para que ilumine as esconsas e escuras vielas para que remeteram o ensino técnico em ambos os países irmãos abastardando a sua verdadeira função e poluindo-a, por vezes, com argumentos que nada acrescentam ao assunto baralhando-o mesmo. Para que tal aconteça é necessário que prevaleça o bom senso que tanto tem faltado às reformas que se vão seguindo em catadupa com o beneplácito da Fenprof em defesa de interesse sindicais dos seus manda-chuvas e associados.

E tanto assim é que a Fenprof passou de um tigre de garras afiadas contestatárias a um gatinho felpudo sentado a ronronar ao borralho de um único estatuto da carreira docente não superior. E se, segundo Pessoa, a “memória  é a consciência inserida no tempo”, no caso vertente, memória de um má consciência em que se igualaram desiguais ao arrepio do defendido pelo falecido professor catedrático de Direito e reitor da Universidade de Coimbra, Rui Alarcão: "O princípio da igualdade, que está na Constituição, significa que o que é igual deve ser tratado  igualmente e o que é desigual deve ser tratado desigualmente"! Isto é, igualar desiguais atenta contra a própria Constituição da República Portuguesa fazendo dela letra morta!

E o que dizer, ainda, de indecorosas situações de facilitismo em que em escolas do ensino oficial, em escassos meses, habilitados com um curso médio obtiveram uma equivalência a licenciatura de bradar aos céus e envergonhar o próprio inferno. 

E, por acréscimo, como encarar, finalmente, de escolas privadas que abriram no mercado negro das equivalências  pagas a peso de ouro? Ou seja, tudo isto houve tudo isto foi mau fado sendo, portanto, uma questão de honra não pactuar pelo silêncio com a desonra! Pelos vistos, é a única coisa que se pode fazer em tempos de rebaldaria que devia já pertencer ao  passado, mas que continua a procriar num presente de indulgência!.

domingo, 6 de dezembro de 2020

CULPAS DA DESCOLONIZAÇÂO

 

         ( Na foto chegada ao Aeroporto de Lisboa dos chamados "retornados" com parcos haveres ganhos após uma vida de trabalho )

Na crença popular não há dois sem três. Fiel que sou à voz do povo, depois, de nos primeiros dias deste mês natalício de 2020, ter publicado dois post’s, respectivamente, “Mais uma vez a Guerra do Ultramar” e “Fardos de Fome", cumpre-me publicar a fotografia de uma trilogia “Culpas da Descolonização” (“Correio da Manhã”, 28/09/1990).

Afirmou Pitigrill que “tudo deve ser discutido; sobre isso não há nenhuma discussão” até porque “não há factos eternos nem verdades absolutas,  segundo Nietzche.

Publico a foto do meu último artigo supracitado.


Em citação  de Eça: "Achais estas páginas cruéis? Pensais que não me dói tanto escrevê-las como a vós dói lê-las? Pensais que é com o espírito alegre, e a pena ao vento, que levantamos um por um, diante do público, os farrapos da vossa decadência?"

As verdades sempre foram duras de ouvir, esta é a minha verdade, embora eu saiba que cada um tem a sua verdade que flui com o tempo e que, dificilmente,  gera consensos. Consensos tanto mais difíceis  entre quem os vivenciou e aqueles que dizem por terem ouvido dizer, passe o plebeísmo, emprenhando pelos ouvidos da sua escravidão partidária! 

P.S.: Receoso que o texto seja difícil de ler por a foto estar pouco nítida, , transcrevo-o:

“Tendo vivido em Moçambique durante 18 anos e daí ter partido em vésperas da sua independência é natural que tenha uma perspectiva pessoal, embora a deseje desapaixonada sobre a acção colonizadora de Portugal em África.

Porém , provando que o facto de se ter vivido em África, e dela se ter feito uma segunda pátria, não é  condição “sine qua non” para um completa compreensão  da sua controversa  problemática, transcrevo um excerto de Salazar (1959) sobre o caos  que se viria  a abater sobre os territórios ultramarinos, evitável  para muitos por uma descolonização feita  a seu devido tempo e noutras circunstâncias: “(…)  esses povos (…) têm  apenas diante de si duas alternativa: a regressão  ou a submissão  a novos dominadores”.

Na acusação de Portugal não ter criado uma elite negra capaz de governar, cometem muitos uma injustiça  para com , entre outros, Amilcar Cabral (Guiné-Bissau), Agostinho Neto (Angola) e Eduardo Mondlane (Moçambique) todos licenciados, os dois primeiros com diplomas obtidos em universidades portuguesas.

Parece-me, portanto, que o fracasso da descolonização não se ficou  dever tanto  à escassez de um escol africano mas deles próprios se não se aperceberem  quando chegaram ao poder, que o que estava em causa era o progresso social (económico, educativo e sanitário) das populações e não o seu ou de uma clientela que passou da clandestinidade à acção governativa  ou partidária de um só partido

Após  a descolonização, pela ausência unificadora da presença portuguesa e de um forte sentimento nacionalista que se não gera  pelo simples agrupamento de etnias diversas com costumes, culturas e religiões diferentes, logo a população moçambicana se lançou em lutas tribais que  provocaram um verdadeiro genocídio entre gente da mesma raça.

Talvez por isso e/ou por os portugueses não serem colonizadores, no sentido pejorativo da palavra, a luta no mato nunca se assumiu com o cunho de uma verdadeira guerra de libertação nacional. Prova-o a livre circulação de civis desarmados, na maior parte do território moçambicano (dias antes de 25 de Abril deslocava-me eu e a família de automóvel  de noite, a centenas de quilómetros de distância), e o esmagador número de negros que se bateram na frente de combate ao lado dos brancos, sem memória de deserções significativas ou de desobediência para com os superiores..

Durante o governo de transição surgiram os “soldados” da Frelimo (nascidos em Moçambique e levados em criança, à força, para países limítrofes de expressão inglesa, Tanzânia e Zâmbia, onde eram politizados e recebiam instrução militar) maltrapilhos e descalços mas com as mais modernas armas de fabrico soviético ao ombro e exprimindo-se em dialecto prezado próprio ou num inglês arrevesado  e sem entenderem patavina do idioma de Camões.

Cheia de razão muita gente se interroga (de entre elas eu próprio ), sobre a quem cabe a responsabilidade da desastrosa descolonização portuguesa. Ser-me-ia cómodo remeter a culpa para a “utopia marxista, cega e néscia ” (Soljenitsyne ) e, mais ainda, encostar à barra da opinião  pública o peito dos homens que na altura governavam ou das eminências pardas que influenciavam as decisões do Terreiro do Paço.

Cometeria, porém, a injustiça de deixar à porta da memória colectiva dos portuguese os civis e militares que, isoladamente ou à sombra dos partidos políticos  com a imposição de “nem mais um soldado para as colónias”  criarem um clima de pressão para a retirada ultramarina de Portugal, rápida e quase  sem condições.

E a que título se podem inocentar  países como os Estados Unidos ou Cuba, por exemplo, que na cobiça das riquezas do continente africano fizeram uma política semelhante à da União Soviética para a emancipação precipitada e desastrosa dos territórios portuguese a sul do Equador?

Porque os terrenos diamantíferos e os poços de petróleo produzem mais em tempo de paz, agora, segundo os media, sob proposta do governo português e alguma relutância angolana, a União Soviética e os Estados Unidos estarão presentes, na qualidade de observadores, no próximo encontro MPLA/UNITA que procura um acordo definitivo de cessar de fogo em Angola.

Mas cairá bem aos olhos do mundo e da diplomacia montar um cenário internacional com eles, em que os incendiários  escondem  a sua responsabilidade na descolonização portuguesa, aparecendo agora no papel de soldados da paz, num fogo que atearam antes´(fim de citação).

À laia de "post scriptum", não posso deixar de me interrogar sobre a culpabilidade dos políticos portugueses responsáveis  por uma descolonização por eles tida, por não fazerem a coisa por menos, como exemplar! Em descrença minha e por experiência de vida, escrevi  que quem diz o o que pensa é reacionário, quem diz o que lhe manda o partido é progressista! E ser progressista não pode ser, de forma alguma, adjectivar a descolonização portuguesa como exemplar, facto que o genocídio no norte de Moçambique desmente ao vitimizar um povo bom, generoso  e hospitaleiro que bem melhor sorte merecia. As culpas, como de costume, num país de passa-culpas,  não podem, e muito menos, devem morrer solteiras. Faça-se, pelo menos, uniões de facto ainda que só para varrer uma testada de vergonha!

sábado, 5 de dezembro de 2020


 MAIS UMA VEZ A GUERRA DO ULTRAMAR

Na minha declarada iliteracia informática, ontem toquei inadvertidamente numa tecla, e este meu post disse-me adeus. Reproduzo-o aqui.

“Eu faço tudo com muita verdade, procuro não mentir nunca para o povo. E os que mentem, escamoteiam, viram-se para a melhor luz, esquecem a paixão e desaparecem logo. Há mil exemplos". (Lima Duarte, actor brasileiro).

Filho de pais nascidos em Portugal Continental, conheci a luz do dia no ano de 1931, em Luanda onde meu Pai era sócio  da Farmácia Central. Aos catorze anos, tendo meu pai passado a sua quota na supracitada farmácia, vim para Lisboa tendo ido depois de formado e feito o serviço militar com oficial miliciano para Lourenço Marques (1956 ) onde vivi 18 anos de uma saudade imensa.

Com a Descolonização vim viver para Portugal. Hoje posso dizer que tenho três “pátrias”: de nascimento Angola, de vivência Portugal e do coração Moçambique. Por vezes, com ironia amarga digo que não sou um retornado mas um refugiado em torrão natal dos meus progenitores.

Com esta minha experiência de vida, não posso deixar de me revoltar com situações de que dou testemunho  pessoal,  embora   haja que quem pense ser um assunto tabu, embora permitido a quem, como Joacine Katar e Mamadou, o abordem  com um ódio aos portugueses que transcende os limites da decência em insulto pelo antigo Portugal Ultramarino dizendo dele coisas  que nem Maomé disse do toucinho.

Abreviando razões, a este tipo de desinformação  há que opor uma informação que colho de um meu meu artigo “A Guerra Colonial na Sic., O Diabo” 08/02/94, que transcrevo integralmente:

“O debate do passado do dia 26, sobre a Guerra Colonial na Sic, degenerou em divórcio litigioso, no tribunal da opinião pública. De um lado, com esgares trocistas, queixas sem fim, o major Tomé em tiradas tribunícias. Do outro, com porte educado e atitudes calmas oficiais de carreira e um miliciano que combateu como voluntário em África.

Dos depoimentos prestados, destacou-se o do capitão-comando Francisco Van Unden, que afirmou “sentir-se mais português, mais realizado, mais cristão” em presença do esforço português nos antigos territórios ultramarinos, na vanguarda da maioria dos  países africanos independentes. Do coronel Rodrigo da Silveira recordo a declaração de ter tido muita honra em combater no Ultramar. As intervenções dos generais Ricardo Durão e Duarte Silva atestaram a dignidade de soldados ao serviço da Grei e da sua e da sua identidade  nacional. Foram eles próprios e a época que viveram, e não figuras do “cartoon” de um jornal parisiense: “Tu eras estalinista  em 1950. Não fui eu, era a época”.

De permeio, José Arruda, presidente da Associação de Deficientes das Forças Armadas, compreensivelmente revoltado com um regime que o mobilizou para a guerra de Moçambique, sua terra de nascimento e de criação, de que saiu estropiado para o resto da vida.

Compreende-se, de resto, em frágil e fugaz de penoso sofrimento, Jesus Cristo revoltou-se e contra o próprio Pai! Por direito jurídico e força moral, adquiriu o furriel miliciano Arruda a nacionalidade portuguesa que foi negada a pretos que nasceram em terras  e aí combateram com a maior bravura em nome de Portugal do Indico que e aí combateram  com a maior bravura, em nome de Portugal e que brancos desertores ostentam no Bilhete de Identidade. Essa denegação levou denodados soldados guineenses a pelotões de fuzilamento e ao remorso dos que só tardiamente terão compreendido que ser português terão compreendido que ser português devia ter sido devia ter sido uma questão de sentimento pátrio e não de cor da pele.

Racismo mais horrendo, este, para uma nação e um povo de que se deviam orgulhar de cinco séculos de convivência racial!

Uma referência muito especial à participação do tenente-coronel Vasco Lourenço , que na vida militar de capitão passou a general e de general. a major. Pois não é que segundo ele, alguns elementos da Comissão Executiva do Monumento aos Combatentes do Ultramar queriam que nele figurasse “um soldado branco a espetar a baioneta na barriga de um preto! “

Desastrosamente, apela para o testemunho de Arruda (um elemento da referida comissão acima de qualquer suspeita), que o desmente com a veemência e a dignidade de um homem de honra  incapaz de se fazer cúmplice de uma falsidade.

Pagos para isso, porventura, oficiais que debandam do campo de batalha por divergências ideológicas, médicos que deixam de tratar os doentes por questões políticas ou professores que se negam a dar aulas por convicções  partidárias, deverão ser apontados como  escol de um nação e o exemplo das suas virtudes?

É do conhecimento público que nem sempre princípios nobres e atitudes  altruístas  estiveram na génese das reuniões dos capitães que antecederam o 25 de Abril.

Isto leva a pensar que esta data não deve ser tida, na verdadeira acepção do termo, como uma revolução mas como um movimento de oficiais do quadro permanente, oriundos da Academia Militar, dispostos a fazer abortar de armas na mão o perigo de serem ultrapassados nas promoções por oficiais milicianos a frequentarem cursos “à la minute” na Academia  Militar" (fim de citação).

Julgo ter deixado passos para impedir  a contra-informação de cidadãos que pouco tempo atrás ainda usavam cueiros, trazendo informação à colação de quem, como eu, viveu “in loco” estes trágicos acontecimentos a merecerem esta transcrição de Miguel Torga: “Recomeça… se puderes, sem angústia nem pressa e os passos que deres nesse caminho do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum futuro queiras só metade”. 

E muto menos um passado de  faúlhas para atear novas labaredas de fogo posto de ódios raciais como por exemplo a regressão às campanhas de Mouzinho na África portuguesa erigindo exemplos do combate de trincheiras da II grande Guerra Mundial como se tivessem passado em emboscadas e minas porque na guerra do ultramar os combates eram feitos com metralhadoras e outras armas mais sofisticadas.

Reza a história que durante as campanhas de Mouzinho em Moçambique foi o chefe Vátua Gungunhana capturado (1894) tendo sido enviado para os Açores com o seu séquito onde deixou enorme prol em miscigenação não seguida por nenhum outro povo europeu, acontecendo até, ao que se diz, que as mulheres belgas que seguiam  seus maridos em simples comissões de serviço para o Congo Belga quando grávidas iam ter os seus filhos à Bélgica. Em contrapartida, os portugueses que iam para os antigos territórios ultramarinos aí se fixavam vindo deles a aí viverem e a serem sepultados. Situação a que a descolonização pôs cobro fim ou tornou em excepção, passe a redundância, muito excepcional!

Num mundo de promessas por cumprir de amor e fraternidade de homens de diversas raças, credos e costumes resta o lenitivo, apenas, de saudades doces e acres dessas terras africanas que permanecem intactas e invioláveis no recôndito dos mais profundos sentimentos lusitanos. Para mim, duvidar disso é quase como duvidar que a terra seja redonda!

P.S.:O meu engano em apagar o texto fez com que as  inúmeras leituras que ele contabilizava na altura (68) tenham desaparecido.

Por influência de minha falecida Mãe, habituei-me a ler os livros da literatura  portuguesa, do século XIX, com incidência maior em Eça e Camilo, dois polemistas  "primus inter pares"!

Eça com uma prosa elegante, mas demolidora de fina ironia,  reconhecida por ele próprio,  quando diz (cito de memória) que uma boa gargalhada faz aluir instituições, e Camilo em estilo caceteiro. Por esse facto, fico desiludido quando um jornalista moçambicano vem a Portugal para, em casa alheia que lhe devia merecer respeito, acusar este país, que deu "novos mundos ao mundo", de ser responsável pelos "fardos de fome" que assolam o continente africano sem referenciar os respectivos e actuais governos dessa responsabilidade. 

Mas melhor será o leitor ler essa acusação de Machado da Graça e a minha resposta a esse desaforo, até porque eu não sou de levar desaforos para casa. Em face de antagónicas posições o leitor poderá tirar as suas ilações. Curial me parece esclarecer que Machado da Graça, quem sabe se para não me dar confiança para terçar armas com um profissional da escrita, não deu continuação a uma temática que deve ser escalpelizada sem ficar no ar um simples cabelo de suspeita. 

Infelizmente, por ele já ter falecido, resta aos defensores da "Descolonização Exemplar" explicar a adjectivação de "exemplar" em que os novos colonizadores pertencem ao povo desses países , explorando-o, sem pingo de vergonha, até ao tutano. "Alea jacta est"!

P.S.: Se, porventura, o leitor tiver dificuldade em ler o texto da foto, disponibilizo-me a transcrevê-lo.

Por via das dúvidas, transcrevo-o. Assim:

"No limiar do meio milénio da demanda de Vasco da Gama à "Terra da Boa Gente" (Inhambane - 1493 ) e de uma miscigenação que fizeram dos portugueses uma excepção dos povos que nuca se fixaram verdadeiramente em  solo africano - muitas mulheres belgas iam ter os filhos à Bélgica para que não nascessem em África.

O jornalista moçambicano Machado da Graça [ "tripeiro" de nascimento ] escreve,, no passado dia 30 de Julho, sob o título "Falar de fardos numa manhã de verão", "que não pode deixar de pensar na velha imagem colonial de uma longa fila de negros transportando à cabeça os fardos dos homem branco (...) com as riquezas  que o dito homem branco trazia para melhorar a vida na sua civilizada Europa".

E porque o indisfarçável  rancor só deixa ver o lado feio das coisas insiste ele: "O homem branco (...) deixou-nos fardos como, por exemplo,  97 por cento de analfabetismo", percentagem muito discutível e que desvia a atenção do facto  de não haver  memória de terem  morrido de fome os nativos de Moçambique, antes da descolonização!

Falemos claro! Para o senhor Machado da Graça o analfabetismo era quase total no ano de 1974. Paradoxalmente, de acordo com a insuspeita revista "Jeune Afrique" (1972), "Moçambique possuía o maior índice de escolarização  de grande  parte dos estados africanos".

Não será essa a actual percentagem actual de mortes em combates fratricidas  e por carências alimentares de toda a ordem, e daqueles esfaimados que aguardam o mesmo destino trágico? Contas feitas, dos escassos 3 por cento restantes, um está de férias bem burguesas e descansadas em praias portuguesas - o senhor Machado da Graça.

Lá longe, na sua pátria distante, incontáveis mães pretas, seios esqueléticos, e em abraço derradeiro, aos filhos que em lenta e dolorosa agonia lhes morem de fome - que os frutos da ideologia e as raízes do sofrimento não alimentam como o leite materno.

Nessa mesma hora, o senhor Machado da Graça, segundo ele próprio, "pega na toalha e volta para a beira-mar, que lá é que se está bem.!

Bem-aventurado e fresco que nem uma alface, em terra hospitaleira e mar português, de regresso aos seus estivais aposentos, através de  indelicado e polémico texto, transfere para os "retornados  das colónias", ou para a recordação ainda dolorosa das mães que em "Lágrimas de Portugal" (Pessoa) que viram partir os seus filhos para um guerra que, aparentemente, a seu olhos,  de não lhes dizia respeito, com o custo dos erros de uma desastrosa política económica. Os fardos de fome não foram os portugueses que os lá deixaram"! (fim de citação).


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

1 de Dezembro de 1925: uma efeméride sem importância

 


Post de Luís Alcácer, sobre uma data  reelvante para a  Física que passou há poucos dias:

A 1 de Dezembro de 1925 foi publicado pela Royal Society (Londres) um artigo intitulado ‘As Equações Fundamentais da Mecânica Quântica’ [P. A. M. Dirac. ‘The fundamental equations of quantum mechanics’  Proc. Roy. Soc. A 109 (1925) 642-653;  https://doi.org/c6bfrz ].

No princípio de Setembro de 1925, o jovem estudante de doutoramento na Universidade de Cambridge, Paul Dirac, recebeu do seu supervisor, Professor Ralph Fowler, as quinze páginas das provas de um artigo de Werner Heisenberg que marca o nascimento da teoria quântica. O artigo, em alemão, dava um vislumbre de uma perspectiva completamente nova para a compreensão dos átomos, baseada exclusivamente em grandezas que se podiam medir, como, por exemplo, as frequências e as intensidades das riscas dos espectros atómicos, descartando a ideia de que era possível pensar em termos de electrões a descrever órbitas em torno de um núcleo.

Dirac, que tinha algum conhecimento da lingua alemã, leu o artigo, mas à primeira vista, achou-o muito complicado e sem interesse. Uns dias depois voltou ao artigo, pois tinha ficado intrigado com o facto de que a teoria implicava que algumas grandezas como as coordenadas de posição e o momento linear (massa vezes velocidade) tinham uma propriedade muito peculiar. Se atribuísse um símbolo, por exemplo, q, à posição e um outro símbolo, p, ao momento linear, constatava que a regra de multiplicação de um pelo outro era muito bizarra: q vezes p não era igual a p vezes q. Era o mesmo que dizer que 3 vezes 2 não é igual a 2 vezes 3. E o mais intrigante era que a diferença entre q vezes p e p vezes q, ou seja, q vezes  p menos p vezes q era proporcional à constante de Planck.

Segundo contou anos depois, foi durante um passeio de domingo, que Dirac se lembrou de, nos seus estudos de física, ter visto algo parecido numa construção matemática conhecida pelo parêntesis de Poisson. Não encontrando nada nos apontamentos e livros que tinha em casa, teria de esperar impacientemente pelo dia seguinte para ir procurar numa biblioteca. Uma vez na biblioteca facilmente encontrou o que procurava: a fórmula do matemático francês Siméon-Denis Poisson, que tinha a forma de uma diferença entre a multiplicação de duas quantidades por ordem diferente: algo parecido com q vezes p menos p vezes q, que fazia parte de um formalismo clássico para a descrição do movimento de um objecto. É claro que nas equações do movimento da física clássica com os parêntesis de Poisson não aparece a constante de Planck, que é coisa quântica. No entanto, em poucas semanas, Dirac estabeleceu as bases matemáticas de uma teoria quântica em analogia com a teoria clássica, e que até continha a constante de Planck! Uma vez que, tal como Heisenberg já tinha proposto, não era possível descrever o movimento dos electrões nos átomos, ou de qualquer objecto que não pode ser visualizado, pela sua extremamente pequena dimensão, era de bom senso procurar uma maneira de descrever as propriedades desses sistemas sem usar quantidades que não podem ser observadas. 

Nasceu assim a noção de observável na nomenclatura da mecânica quântica. E a teoria quântica estabelece relações entre observáveis, recorrendo a um formalismo em que as quantidades clássicas assumem um carácter abstracto. Recorrendo a analogias com a mecânica clássica, nomeadamente com o parêntesis de Poisson, Dirac encontrou relações entre as quantidades abstractas que eram necessárias para a teoria, incluindo a equação fundamental que relaciona a entidade abstracta correspondente à posição, representada por um símbolo q, com a entidade abstracta correspondente ao momento linear, representada por um símbolo p, que permitem formular uma teoria coerente para a descrição de sistemas quânticos. Essa equação é válida, não apenas para a posição e o momento linear mas também para outros pares de entidades matemáticas abstractas que representam observáveis e desempenha um papel fundamental na mecânica quântica.

Dirac demonstrou que quando um electrão num átomo salta de um nível de energia para outro emite (ou absorve) um fotão cuja energia é igual à diferença entre os dois níveis. A teoria reproduz assim os resultados experimentais sem ser preciso assumir que os electrões se movem em órbitas, como num sistema planetário. Dirac acabou de escrever o artigo, a que deu o ambicioso título de “As Equações Fundamentais da Mecânica Quântica”, no princípio de Novembro. Foi enviado por Fowler, seu supervisor, para a Royal Society e publicado a 1 de Dezembro.

Paul Dirac fez as provas de doutoramento em Junho do ano seguinte, com a primeira tese a ser submetida com o título “Mecânica Quântica”. A tese, escrita à mão, tem a data de Maio de 1926.

Algumas páginas e notas da tese podem ser vistas aqui, https://fsu.digital.flvc.org/islandora/object/fsu%3A641/datastream/OBJ/view/Dissertation_of_Paul_A__M__Dirac_for_Ph_D__degree.pdf

Vale a pena ver!  E meditar sobre as exigências para a escrita de teses de doutoramento em Portugal.  Esta foi a motivação deste post.

Luís Alcácer

CARTA ABERTA EM DEFESA DA CIÊNCIA

A ciência em Portugal volta a estar em estar em risco. Quem concordar, faça o favor de assinar:

https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=movimento8&fbclid=IwAR3F1Ts-GyuEVFbr3W3-S8_QRwHH4RiiaUMyXxRuIRle-ui3GTiaDKPS9Tw

É PRECISO DENUNCIAR

Novo artigo de Galopim de Carvalho: 

O meu post de ontem no Facebook, começava assim:

“Num tempo em que ainda havia as então chamadas “classes especiais” (andámos de cavalo para burro) para crianças, algumas a roçarem a adolescência ou já nela entradas, com necessidades educativas especiais, mais concretamente, com problemas na aprendizagem, na sociabilização e outros, a Isabel, terminado o curso do saudoso Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, foi colocada numa destas classes, em Lisboa….” 

Sou um crítico, não tão activo como devia e, ao mesmo tempo, um defensor tenaz da classe dos educadores e professores dos ensinos pré-escolar, básico e secundário, classe que deveria estar (e, desgraçada e infelizmente não está) entre as primeiras (talvez, mesmo, a primeira) preocupações dos governantes.

Todos os pais conscientes sabem que há professores sem qualidade ou vocação para exercerem essa missão (sim, porque é de uma missão que se trata e não de um qualquer emprego), a imensa maioria, prisioneira de múltiplas obrigações que nada têm a ver com o acto de ensinar, merece o meu respeito e a minha consideração.

Uma classe desacarinhada, desprotegida e mal paga, a que a democracia retirou os ditos respeito e consideração. Já o disse e escrevi aqui e noutros media, que, em termos de educação, não estamos a formar a maioria dos cidadãos que a democratização do ensino trouxe às nossas escolas. Estamos a trabalhar para os “rankings” e para as estatísticas. Estamos a forçar os professores a amestrarem os alunos a acertarem nas questões que irão encontrar nos exames finais. 

Em alguns casos, como disse atrás, a propósito das infelizmente extintas “classes especiais”, andámos de cavalo para burro, Aquele meu post mereceu o comentário que transcrevo e assino por baixo: “Hoje, a pretexto do que se chama «inclusão», integram-se meninos com problemas sérios em turmas de alunos sem dificuldades de aprendizagem, exigindo-se aos professores que individualizem o ensino, com o apoio de alguns técnicos que, na maior parte dos casos, não conseguem facilitar o trabalho dos docentes.

Depois inventa-se "sucesso" tristemente irreal, em anos sucessivos. E, como a lei o permite, invocam-se estatutos específicos que evitam que esses meninos façam exames. A isto todo o mundo fecha os olhos: há alguns empregos, os pais podem deixar os seus filhos nas escolas e até se dá a ideia de que esses meninos tiveram sucesso. Já os professores lamentam-se em voz surda, com medo de serem ouvidos.” É esta a nossa triste realidade.

Quando, em 2015, no começo do seu mandato, o Primeiro Ministro afirmou que o nosso maior défice era o da Educação, deu-me razão, mas já passaram cinco anos e nada de verdadeiramente importante aconteceu. 

 A imagem que aqui mostro (capa de uma publicação do Gabinete de Avaliação Educacional, do Ministério da Educação) confirma o que ando a dizer há anos: Mercê dos programas, dos manuais usados, das orientações superiores e do tipo de exames, os professores, em vez de poderem ensinar e formar cidadãos, são levados a "amestrar" os alunos a acertar nas questões que lhes são colocadas nos exames. É bom para as estatísticas, mas é mau para os alunos e para o País. 

António Galopim de Carvalho

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

DO ERRO DE DESCARTES AO SENTIR & SABER


 



“O homem pensa com o corpo todo” (Krestchemer, psiquiatra e filósofo alemão, 1888-1964).

De quando em vez, dou comigo em revisitar uma pasta de artigos de opinião meus publicados ("Jornal Novo", "Jornal de Notícias "Correio da Manhã", "Público",   "Diário de Coimbra"),  a partir de 1955, mais de um milhar, sem ter em conta inúmeros "post's" publicados em blogues  com destaque no “De Rerum Natura",  de que sou co-autor.

Na medida económica que a minha condição de reformado permite, acabo de comprar o livro de António Damásio: “Sentir & Saber -  A Caminho da Consciência" (Círculo dos Leitores, Nov. 2020). Este género de leitura sobre os complexos meandros da complexidade da  investigação do cérebro humano, no dizer poético, por mim roubado a Sherrington,  “um tear encantado”, desde a cultura helénica aos nossos dias,  tem despertado a atenção de filósofos e cientistas, acaba, uma vez mais,  por ser enriquecido com o último livro   de António Damásio supracitado.

Sobre este livro, que merece ser lido com tempo e devota atenção, não me sinto para já capacitado para emitir  uma mera e apressada opinião, ainda mesmo num país em que toda a gente opina sobre tudo e sobre nada do alto da sua tribuna. Assim, cito apenas o que escrevi, decorria o ano de 1995, no “Correio da Manhã” (19/09/1995), justificado pela minha paixão por esta matéria que é o desbravar  dos segredos que o funcionamento do cérebro encerra, e sobre o qual a professora  de Filosofia  do ensino secundário Regina Sardoeira (“O Independente”, 25/08/1995) pontifica atrevidamente :  “”O dualismo cartesiano: eis o erro apontado - e parece- descoberto no século XX por António Damásio!” 

E porque este novo livro de António Damásio traz para as luzes da ribalta cientifica novas e valiosas achegas, resolvi, em modesta contribuição, transcrever esse meu artigo fotografando o  que  escrevi,  em Setembro do ano de 95 , intitulado “O erro de Descartes”. Ou  seja, para não ser havido como um surfista arrivista que cavalga um onda  ocasional!

P.S.: Verificando que a foto, pela sua falta de nitidez está pouco perceptível, transcrevo o artigo em causa. Assim:


“O ERRO DE DESCARTES

(Meu artigo publicado no “Correio da Manhã”, em 19/09/1995)

Em  1987, a oito anos da publicação do ‘best-seller” de António Damásio,  ‘O erro de Descartes, nos dias 18 e 19 de Novembro, eram publicados no ‘Diário de Coimbra’ dois artigos meus, respectivamente, intitulados,  ‘Biologia e Filosofia antagonizadas’ e ‘No limiar da neurofisiologia’.

Rematava eu o segundo artigo da forma seguinte: ´Não é o cérebro corpo? Só o desconhecimento da fisiologia que preside ao funcionamento do cérebro  justifica o crime  de tentar separar os  órgãos que o vivificam , o animam e lhe dão o suporte sublime do Pensamento: cérebro, coração, pulmões e músculos’.

Neles chamei a atenção  para a subalternidade  em que a filosofia cartesiana colocou o corpo (‘res extensa’) relativamente à mente (´res cogitans’) . Essa realidade, o da ditadura do espírito sobre o corpo, está presente na crítica perfeita  que o filósofo contemporâneo Jean François Lyotard (1988) lhe faz: “Toda a energia pertence ao pensamento que diz o que diz, que quer o que quer,  matéria é o fracasso  do pensamento, a sua massa inerte, a estupidez.

Destarte,  a licenciada em filosofia, Regina Sardoeira ( “O  Independente”,  25 de Agosto de 1995), pontifica atrevidamente: “O dualismo cartesiano: eis o erro apontado – e parece- descoberto no século XX por António Damásio!”

Para esta professora de filosofia, o facto de nas suas aulas falar sobre o dualismo cartesiano parece-lhe condição mais que suficiente para que ele  não subsista.  Não pensa assim Whewel quando nos diz que “ as teorias duma época tornam-se os factos da época seguinte".

Estranha ela, para mais,  que as aulas de Filosofia não sejam havidas como suficientes para terem o título do livro de Damásio como “pompa ilusória e as quatro páginas com que ele o legitima insignificantes”.

Descartes quase permanece impune no seu erro que a ciência se nos encarregou de denunciar e para o qual chamei a atenção  em comunicação apresentada este ano num Congresso realizado em Março deste ano, em que escrevi: “Fica a esperança, portanto, que entre as conquistas do 3.º milénio muitos dos fantasmas que ainda assombram o Corpo serão definitivamente esconjurados, De entre eles,  numa neurociência inovadora e descomprometida  com a Filosofia – existo, logo penso dando lugar a existo logo penso- da autoria de António Damásio, a trabalhar nos Estados Unidos, e laureado em Portugal conjuntamente com sua mulher Hanna com o "Prémio Pessoa/93", o da escravidão do corpo ao espírito”.

Para Delfim Santos (1947), “no pensamento de cada filósofo há algo de vivo e algo de morto e o morto é, quase sempre, o científico”. Segundo Jean-Pierre Changeux (1983) Aristóteles, com lugar no pódio dos maiores filósofos da humanidade, ao debruçar-se sobre  funcionamento do corpo humano , bralhou os espíritos durante séculos por considerar o cérebro como um sistema de arrefecimento  como a sede dos sentimentos”.  Ora, o coração é apenas uma prosaica bomba muscular aspirante-premente que não ama e não odeia, não rejubila e não sofre, não age e não sonha! Mas,  mesmo ainda hoje, na tradição gestual da representação teatral é difícil de aceitar esta realidade que obriga até o próprio conhecedor do sistema nervoso a levar a mão ao peito no  sítio em que o coração galopa em tropel para exprimir à sua amada o fogo da paixão que lhe corrói as entranhas e as labaredas do amor que lhe enrubesce as faces. De igual modo, pensa Georg Gusdorf (1977): “A biologia aristotélica só foi verdadeiramente ultrapassada depois de  um intervalo de 2.000  anos”,

Mas voltemos a Descartes. Heresia das heresias, segundo Jacques-Michel Robert  (1982), este filósofo “localiza o elo da ligação da alma com o corpo na glândula pineal” que fisiologistas coevos de inspiração filogenética, confrontados com o seu obscuro significado  funcional disseram ser o vestígio de um órgão de visão por nós herdados dos répteis. Saberes recentes esclarecem , agora,  que ela segrega uma hormona (melatonina) necessária ao desempenho do ritmo biológico dia-noite.

Assim, é minha convicção que os neurofisiologistas continuam à espera  de alguém que lhes desvende os segredos ocultos por uma caixa negra (na analogia poética de neurofisiologista Sherringtonm, "um tear encantado"), sintetizada de forma perfeita, em linguagem metafórica muito expressiva, por David Kech (1979), académico muito respeitado nas ciências do cérebro: “A neuro fisiologia encontra-se num sótão escuro procurando um gato escuros sem ter a certeza que ele lá está. Seu único indício são leves ruídos que parecem miados”.

Devido a  esta tremenda complexidade, esse alguém terá que ter a coragem de um William Harvey, inicialmente ridicularizado pela própria classe médica,  por destruir, três século atrás, falaciosas teorias sobre o sistema circulatório, veiculadas pela Metafísica, tendo sido capacitado para anunciar jubilosamente os processos  “circulação do pensamento”. O estudo deste notável  fisiologista que lançou para o cesto dos papéis a teoria aristotélica sobre os fenómenos circulatórios, assumiu a importância  de um tiro de partida para a corrida célere da Biologia contemporânea de olhos postos numa perspectiva molecular, depois de séculos de imobilismo dogmático.

Num interessante artigo (Science & Vie, Outubro/94) , é-nos mostrada a imagem do córtex frontal (obtida por uma câmara de  emissão de positões), onde se metaboliza a serotonina, um dos neurotransmissores das emoções,  sob o título “A cólera em imagens”.

Sobre o futuro das ciências da mente, o neurofisiologista  Alcetis Berg não esconde o seu optimismo: “As imagens oferecidas pela Tomografia  por Emissão de Positrões permitem detectar e visualizar os processos bioquímicos cerebrais, através do consumo de glicose pelas diferentes partes do cérebro. Talvez por seu intermédio possamos um dia localizar com precisão os processos neurológicos que compõem o Pensamento”.

É, portanto, nesta perspectiva que o livro ,“O erro de Descartes”, assume o inconcusso valor de trazer luminosidade ao sótão escuro de que nos fala David Krech. Em contrapartida, tentar demonstrar que  a dicotomia cartesiana não  continua a influenciar o nosso século é desmentido pelo historiador Robert Aron quando responsabiliza a demasiada assimilação do cartesianismo pela actual fraqueza do mundo ocidental, pese embora a informação colhida em Regina Sardoeira de que “Descartes e o Discurso do Método” têm sido temas  dos programas de Filosofia do ensino secundário”.


E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...