quarta-feira, 8 de abril de 2020

SAIU "COSMOS. MUNDOS POSSÍVEIS" DE ANN DRUYAN


Informação recebida da Gradiva:
GRADIVA LANÇA COSMOS: MUNDOS POSSÍVEIS de Ann Druyan
A viagem empolgante pelo universo prossegue contada por quem viveu com Carl Sagan a odisseia de Cosmos

  • Cosmos: Mundos Possíveis de Ann Druyan está já disponível para venda nas livrarias virtuais e no site da Gradiva - www.gradiva.pt -  e é a continuação da emocionante odisseia que Carl Sagan e Ann Druyan começaram juntos com a série e o livro Cosmos editado pela Gradiva na década de 80. Cosmos: Mundos Possíveis é publicado internacionalmente em simultâneo com a exibição da série homónima desde dia 9 de Março (à segunda-feira, às 22h10m) no canal National Geographic.
Em Cosmos: Mundos Possíveis, Ann Druyan prossegue a aventura electrizante que iniciou há 40 anos com Carl Sagan transportando o espaço para as salas de estar de milhares de famílias  e inspirando uma geração de futuros cientistas. Baseado na série de televisão homónima actualmente em exibição e apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson, este livro inovador e visualmente deslumbrante mostra como a ciência e a civilização cresceram juntas. Desde o surgimento da vida no fundo do mar até à construção de naves espaciais movidas a energia solar, passando pelo Big Bang e pelos meandros da inteligência em muitas e diversificadas formas de vida. Ao longo de 13 capítulos Ann Druyan documenta o percurso da humanidade até ao presente e antecipa o futuro que nos está reservado através do seu talento ímpar em simplificar a explicação de conceitos científicos complexos.

Através de fotografias evocativas e de um vasto leque de ilustrações Ann Druyan relata descobertas importantes para o progresso da humanidade, desde as missões Voyager nas quais participou com o seu marido, Carl Sagan, até às mais recentes descobertas da missão Cassini-Huygens sobre as luas de Saturno. Este contagiante Cosmos: Mundos Possíveis, numa narrativa de tirar o fôlego, sublinha, como o havia feito Carl Sagan na edição de Cosmos dos anos 80, como nós, humanos, podemos ser portadores de uma nova consciência da nossa existência na Terra e no cosmos - lembrando novamente que o nosso planeta é um ponto azul claro num imenso universo de possibilidades.

Numa entrevista dada recentemente ao canal National Geographic e à Gradiva, Ann Druyan afirmou ter esperança que o cenário de pandemia que vivemos «seja o momento para despertarmos» e «começarmos a viver de acordo com a escala de tempo dos cientistas».

Tenho imensos sonhos interestelares. Primeiro, tenho sorte. Este pode parecer um tempo vazio e sombrio em que a nossa auto-estima nunca esteve tão baixa como está agora, mas penso quão afortunados somos por vivermos numa época em que a ciência afastou a densa cortina da noite, permitindo-nos ver e compreender as estrelas e tudo o que nos rodeia. Os inputs das descobertas científicas são tão poderosos como as quedas de água, trazem-nos tanto conhecimento. E, no entanto, ao mesmo tempo, assemelhamo-nos a uma civilização de zombies que parece não querer acordar para que possamos salvar-nos, salvar o nosso futuro, proteger os nossos filhos e netos... Neste período de quarentena devida ao vírus COVID19, as pessoas começaram subitamente a ouvir os cientistas e a levar finalmente a sério aquilo que eles dizem. E a minha esperança é que façam o mesmo com os avisos que andam a fazer há cerca de 20 anos relativamente ao aquecimento global, ao aumento da temperatura média do planeta e acerca dos danos que estamos a provocar ao nosso habitat, ao ambiente de todo o planeta e às outras espécies... Que este seja o momento para despertarmos, para começarmos a pensar seriamente e para começarmos a viver de acordo com a escala de tempo dos cientistas, não apenas até às próximas eleições ou de acordo com os mais poderosos interesses corporativos, mas tendo em mente de forma muito séria o futuro dos nossos descendentes.

Leia aqui na íntegra a entrevista com a autora dada em exclusivo para Portugal num trabalho conjunto entre a Gradiva, através do actual director da colecção Ciência Aberta, Carlos Fiolhais, e o canal National Geographic.
A AUTORA

Ann Druyan foi directora criativa do Voyager Interstellar Message Project da NASA e directora do programa da primeira missão espacial a vela solar, lançada num míssil balístico intercontinental russo em 2005. Com Carl Sagan, seu falecido marido, foi co-autora de Cosmos: Uma Viagem Pessoal, e de seis êxitos de vendas do New York Times. Foi a principal produtora executiva, directora e co-autora de Cosmos: Odisseia no Espaço, com que ganhou os prémios Peabody, Producers Guild e Emmy em 2014. Druyan é produtora executiva, escritora, directora e criadora de Cosmos: Mundos Possíveis, transmitido pela primeira vez em 2020.

LEMBRANDO A TUBERCULOSE


Recupero aqui um post meu antigo sobre a tuberculose ou tísica. Julgo que vem a propósito não só porque também agora estão a morrer pessoas da cultura como por o caso da tuberculose ilustrar bem quão salvífica pode ser uma vacina (o BCG diminuiu drasticamente a epidemia):

http://dererummundi.blogspot.com/2007/03/o-porto-e-tsica.html

LIDERANÇAS EM TEMPO DE CRISE


Santana-Maia Leonardo escreve sempre com muita inteligência e graça (as duas coisas combinam!) sobre a falta de liderança em tempos como a da actual crise. Transcrevo este passo da crónica dele nas Beiras de hoje:
"(...) Os medíocres são invencíveis porque são a maioria. Disso ninguém duvida. Em todo o caso, os medíocres, apesar de serem a maioria, dividem-se em dois grandes grupos: os inteligentes e os carapau-decorrida. Qual a diferença? É que os medíocres inteligentes valorizam as pessoas que são mais inteligentes do que eles, enquanto os carapaus-de-corrida têm-lhes um ódio de morte, desenvolvendo uma inveja doentia, ao ponto de ficarem mais satisfeitos com o mal dos outros do que com o bem próprio. Por esta razão, dizia Bernard Shaw, com uma certa graça, que “a democracia é um mecanismo que garante que nunca seremos governados melhor do que aquilo que merecemos.”  
E, se há alturas onde é essencial ser liderado pelos melhores (os dotados da sabedoria da coruja e da visão do falcão), é precisamente nas épocas de guerra, de grandes calamidades e de pandemias. Nem populares, nem populistas, precisamente os dois tipos de políticos que os carapau-de-corrida mais apreciam: os primeiros porque lhes dão palmadinhas nas costas e os carapaus-de-corrida tornam-se todos dengosos, quando algum senhor presidente do que quer que seja lhe dá uma palmadinha nas costas ou os elogia; os segundos porque têm a desfaçatez de dizer do alto do seu púlpito as atoardas que os carapaus-de-corrida dizem nas redes sociais e nas mesas de café. "
Conclui dizendo que dos líderes actuais só confia em Angela Merkel. Bem o percebo, pois, mostrando a formação científica que tem (é doutorada em Química Teórica), foi das poucas a avisar da possibilidade real de a epidemia apanhar milhões de pessoas. Certo é que a Alemanha realizou a devida preparação e deve ser em boa parte por isso que apresenta tão baixa taxa de letalidade.

Nem vale a pena falar de Trump e Bolsonaro: são ambos casos perdidos. São dois líderes profundamente ignorantes, que não se tornam credíveis por ir emendando a mão à medida que a epidemia avança. Nos EUA está a ser uma tragédia que podia ter ser sido em parte evitada e no Brasil ainda não é uma tragédia, mas pode vir a ser. O gesto da Casa Branca de encerrar o tráfego aéreo com a Europa sem dizer nada a Europa diz tudo sobre a má criação, que acresce à atrevida ignorãncia. Nem falo de Boris Johnson, que é um pouco diferente (por ter alguma formação), acima de tudo porque está agora numa situação pessoal difícil.

Mas falo da Europa e é óbvio que falta liderança na Europa. E essa falta não se revela apenas no caso das "coronabonds", que não sei se são a melhor solução, por pouco saber dos mecanismos da economia (parece-me claro que não há ponto sem nó, pelo que uma dívida mutualizada obrigaria,  bem ou mal, à perda da margem de autonomia dos estados). Mário Centeno à frente do Eurogrupo revela-se incapaz de obter uma solução concertada e rápida. É acima de tudo a incapacidade ou falta de vontade de solidariedade no terreno, a de colaboração prática nas situações mais críticas na Itália e em Espanha. Esta crise está a por à prova a Europa e não sei - ninguém sabe - qual via ser o resultado do ponto de vista político.

E em Portugal como vai a liderança? Perguntou-me outro dia um jornalista e eu respondi que confiava minimamente no governo e gostaria de confiar mais, pois estou muito longe de confiar ao máximo. Não falo do Presidente da República, que de início se revelou atrapalhado por ter falhado o grande meio de comunicação que ele tinha - os afectos - e que está ainda à procura do seu lugar na nova situação. Falo do governo, que é quem tem responsabilidades executivas. É natural que António Costa tenha subido nas sondagens depois de ter usado a palavra "repugnante" sobre a atitude de um ministro holandês. E subiu também, à custa dessa única  palavra, a sua cotação na Europa do Sul (na Europa toda, não sei). Como o discurso manda na política, essa palavra anulou internamente a sua boutade que no SNS não faltava nada e nunca faltaria, uma rotunda inverdade.  Mas o governo esteve bem no lockdown atempado - algumas Universidades como a minha foram nisso pioneiras (nisso o Reitor de Coimbra tomou a atitude certa  no momento certo) e ainda bem. E esteve muito bem na medida que tomou de acolher com plenos direitos os estrangeiros que já que estavam (teve um tremendo azar e da medida ter sido quase contemporânea do putativo assassinato no aeroporto de um ucraniano por inspectores do SEF, um acto que devia ter tido uma reacção mais enérgica do ministro respectivo). A pandemia em Portugal tem tido menor impacto devido às medidas preventivas, para além de factores naturais como a nossa posição periférica: temos 18 dias de atraso de Itália e 10 de Espanha, pelo que podemos aprender com eles e fazer os devidos preparativos.

Mas o governo não está bem em tudo. O estado de emergência não impede de modo nenhum a liberdade de opinião. É óbvio para praticamente todos que a ministra da Saúde marta temido não incute confiança. Já não incutia antes e agora muito menos. Vai dizendo umas coisas num tom que não leva minimamente  à empatia e adesão. O seu discurso, particularmente em entrevistas, é bastante frouxo para não dizer pobre. O  secretário de Estado da Saúde, que é médico, faz melhor serviço, pelo menos fala com maior conhecimento de causa, embora sempre com excessivo tacto político. A Directora Geral de Saúde  Graça Freitas também tem algum conhecimento de causa, mas percebe-se que fala com excessivos cuidados políticos: o seu discurso, sempre cuidadoso, foi evoluindo a partir de uma quase minimização do problema. Os boletins de situação deveriam ser mais claros. Deveria haver recomendação de máscaras ptambém curioso como o discurso das autoridades de saúde chame a atenção para umas coisas e ignore outras, bem mais evidentes.

E é também curioso que quase nunca ninguém responsável admita falhas e peça desculpas.  E houve falhas graves, como a da duplicação dos números do Porto. Não percebo porque é que os participantes em conferências de imprensa não respondem cabalmente às questões dos jornalistas. Por que é que estes não replicam quando as perguntas objectivas ficam objectivamente por responder ?

Os outros ministros estão mais ou menos desaparecidos. A estrela das finanças Mário Centeno está internamente decadente, pois o seu sonho de um superavit desvaneceu-se da noite para o dia assim como provavelmente o seu sonho de ir para o banco de Portugal, O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que já andava apagado, agora apagou-se ainda mais. Vai a reboque dos acontecimentos, desde o fecho das universidades até à realização de testes por uma rede da comunidade científica e ao fabrico por impressoras 3D dos necessários equipamentos de segurança. Ninguém percebe o que o ministro anda a fazer: há uma comunidade científica em Portugal que não está a ser devidamente aproveitada. Os cientistas pediram dados sobre as vítimas do COVID, depois de devidamente anonimizados, e ainda hoje estão à espera.

Quanto a lideranças locais: sobressai o Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que ajudou na logística da testagem, preparou rapidamente um hospital de campanha no pavilhão Rosa Mota e falou forte quando a DGS colocou espuriamente a necessidade de um cordão sanitário no Porto (que, embora muito diferente, fez lembrar a reacção popular aos cordões sanitários na peste bubónica  no Porto em 1899).  Mal, muito mal, tem estado o Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado, que impede a participação por teleconferências nas reuniões municipais. O executivo de Coimbra, uma geringonça mal amanhada entre o PS e o PCP, está ainda na Idade da Pedra quando à sua volta o mundo já vai na Sociedade do Conhecimento. A Câmara de Coimbra tentou montar um centro de testagem junto ao rio Mondego e falhou rotundamente: existe um sítio sinalizado, mas nem funciona nem se sabe ao certo quando vai funcionar. A incompetência da Câmara é tanta que ela, pela voz dos seus dois maiores responsáveis, sacode a água do seu capote, dizendo que a culpa da falta de testes é do ministério da Saúde, curiosamente da sua própria área política (mais, a ministra da Saúde é de Coimbra!). Quer dizer o PS de Coimbra diz que o PS nacional é incompetente, sendo claro para todos que a sua incompetência é a maior de todas. Em Coimbra existe conhecimento na  Universidade (e também no Politécnico), mas a cidade revela-se, por falta de liderança política, incapaz de o levar às populações.

Razão tem Santana-Maia Leonardo. O mundo está cheio de medíocres, uns minimamente inteligentes -  que reconhecem que são medíocres - e outros meros carapaus-de-corrida. Em Portugal vemos, infelizmente, demasiados medíocres e, dentro destes, demasiados carapaus-de corrida. Salvador Dali dizia aos jovens pintores:
"Se sois medíocres, mesmo que vos esforceis por pintar muito, muito mal, notar-se-á que sois medíocres". 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Carta Aberta ao Professor A. Galopim de Carvalho

Por esta Carta Aberta poder ser tida por ousada, só depois de ter consultado o meu travesseiro, lha endosso, Professor A. Galopim de Carvalho, tendo como leitmotiv o vosso post, publicado ontem no DRN, intitulado: “18 anos depois de Abril”. 
Pelo contrário, tem ela fundamento no respeito que voto ao vosso estatuto académico de professor catedrático e pela leitura atenta, com grande proveito meu, dos textos de divulgação cientifica de inspiração pedagógica aqui publicados. 
A minha ousadia, a ter, porventura, havido, não foi, de forma alguma, intencional, residindo, apenas, na minha condição de "retornado" de Moçambique tão pobre de fortuna quando lá cheguei e tanto quanto rumei a Portugal, após 18 aos de docência no ensino técnico-profissional de Lourenço Marques, passando a leccionar, neste rectângulo mais ocidental da Europa, nos ensinos secundário e universitário. 
Devo esclarecer, outrossim, o respeito que me merecem os oficiais oriundos da Academia Militar de que fui camarada e amigo de alguns deles como oficial miliciano. 
Passo, agora, para um assunto discutível e, possivelmente, melindroso: a chamada "Revolução dos Cravos" que quanto a mim foi um golpe de Estado ensaiado um mês antes por uma coluna de militares, comandada por um capitão, cujo nome não passou à história, saída do Quartel das Caldas que avançou sobre Lisboa tendo os seus intervenientes sido interceptados e presos pelo caminho. 
Foi esta acção como que um balão de ensaio para o vitorioso 25 de Abril em que o probo e valente capitão Salgueiro Maia assumiu um papel destacado no seu êxito sem, por vontade própria, ter colhido quaisquer benesses tidas por outros camaradas seus na ocasião. Mas esta é uma questão que só encontrará resposta no provir porque, fazendo fé em Gertrude Stein, “a História leva o seu tempo; a História faz memória”. 
Perdoe-me ter eu saído, porventura, dos trilhos da minha intenção que foi inspirada em conversas havidas entre mim e um colega em que a determinada altura damos connosco a dizer um para o outro: “Você é que parece de esquerda e eu de direita ou vice-versa", quando se diluem as fronteiras que delimitam aquilo que é justo ou injusto na actual política portuguesa! 
A vossa isenção, frontalidade e hombridade, Professor Galopim de Carvalho, levou-o ao desabafo de se referir ao caos que se instalou no ensino depois de 25 de Abril quando desalentado escreve a determinada altura: “Mais de quatro décadas em que o ‘gosto pelo saber’ foi institucionalmente substituído pela preocupação pelas estatísticas visando o ‘sucesso escolar’ Recuámos, mesmo em relação ao tempo de Salazar e Caetano. Neste quadro decepcionante todos perdemos. Perdem os professores amarrados que estão a ditames que não controlam, perdem os alunos e, em consequência, perdemos todos e perde Portugal”. 
Que bela lição de anti-maniqueísmo a vossa que leva a ver o bem onde está o bem e a ver o mal onde está o mal. 
Obrigado Professor por me levar a ansiar ter a vossa isenção de opinião pela qual também tenho pugnado, não sei se o conseguindo ou não, naquilo que escrevo em defesa do que que tenho por justo e verdadeiro, apesar de ser sabido, como nos avisa Fernando Pádua, "haver sempre um modo diferente de ver os problema dependente 'del cristal com que se mira´". 
Reside aqui a riqueza da controvérsia civilizada que não admite dogmas! 
Respeitosos cumprimentos com votos de boa saúde, 
Rui Baptista

O conhecimento visto por Rafael

Convido os leitores do De Rerum Natura a ler o excelente texto que o professor António Duarte publicou no seu blogue "Escola Portuguesa" com o título que se pode ver abaixo e que pode ser encontrado aqui. Permito-me mudar o título...


segunda-feira, 6 de abril de 2020

46 ANOS DEPOIS DE ABRIL

Passada que seja esta pandemia, que a todos assusta e que a muitos de nós calará para sempre, se não mudarmos grande número dos paradigmas que têm sido os nossos, não merecemos os cravos que os militares de Abril nos ofereceram.

Pergunto muitas vezes que infelicidade caiu sobre uma significativa parcela do nosso povo, que rejeita, com o sorriso da ingenuidade ou da iliteracia, tudo o que convide a pensar, a reflectir, com verdadeiro conhecimento de causa, sobre o mundo que o rodeia. 

Um mundo, tantas vezes, nas mãos de políticos incompetentes e oportunistas de que a nossa sociedade está cheia, onde, de há muito, impera o vírus do futebol profissional e, agora, o dos admiráveis, tentadores e universalíssimos smartphones. Uma parcela que bebe toda a alienação que lhe é servida de bandeja por uma comunicação social, em grande parte, prisioneira de interesses ligados ao grande capital.

No que respeita o nível e exigência de ensino nas nossas escolas, não aprendemos nada com o ideal da Instrução Pública posto em prática na primeira República. No preâmbulo do Decreto de 29 de Março de 1911, lê-se:
“Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias”.
Cidadãos, diga-se, no verdadeiro sentido da palavra, tal como os gregos antigos a criaram nas suas “polis” (as cidade-estado, como Antenas, Tebas, Esparta e outras) para referir os “polítikoi”, ou seja, os homens livres e iguais, verdadeiros protagonistas da “demokratia” (palavra construída a partir dos elementos “demós”, povo, e “kratós”, poder) que ali se viveu e onde a fomos buscar.

Foi, ainda, na Grécia antiga que, por volta do século VI a.C., nasceu “philosophia”, outra palavra que anda na boca de toda a gente, mas que nem todos sabem que quer dizer “gosto ou amor pelo saber”, e que foi criada com base nos elementos “philo“ (amor, gosto, interesse) e “sophia” (saber, conhecimento).

Não são, pois, “polítikoi”, isto é, cidadãos no verdadeiro sentido da palavra, os mais de 50% de portugueses que de abstêm de exercer o dever cívico de votar, um acto elementar em “demokratia”.

Não aproveitámos nada da verdadeira liberdade, em democracia, que nos foi oferecida, de mão beijada, pelos capitães de Abril. Mais de quatro décadas, em que o “gosto pelo saber” foi institucionalmente substituído pela preocupação das estatísticas, visando o “sucesso escolar”. Recuámos, mesmo, em relação ao tempo de Salazar e Caetano.

Neste quadro decepcionante todos perdemos. Perdem os professores, amarrados que estão a ditames que não controlam, perdem os alunos e, em consequência, perdemos todos e perde Portugal.

A. Galopim de Carvalho

Minha participação na Sociedade Civil: E depois da pandemia?

Programa Sociedade Civil de hoje, da RTP 2, com o tema "E depois da pandemia?", no qual participei via Skype:

https://www.rtp.pt/play/p6714/e465618/sociedade-civil


domingo, 5 de abril de 2020

A "vulnerabilidade como característica essencial da vida humana"

Pascale Seys, doutorada em Filosofia, professora na Universidade Católica de Louvaine, colabora, há mais de vinte anos, no programs Musiq3 com o apontamento La cronique de Pascale Seys.  faz reviver nomes da Filosofia, muitas vezes para dar sentido ao que se passa no mundo presente.

O apontamento de dia 1 de Abril - Sac de peau - foi sobre o vírus que nos ameaça. É como uma "picadela de aviso", disse: "aprendemos cada dia à cabeceira do mundo doente", como se tivéssemos esquecido, que "a vulnerabilidade constituiu a característica essencial da vida humana". 

Retomou o Livro IX de A República, de Platão, lembrando a questão que atormentou o filósofo e que ele formula assim:
Quem somos nós?, Quem é o homem? É um montão de carne? É um corpo dotado de alma?
Responde (as palavras são de Pascale em tradução/adaptação nossa) que àquele "Quem somos nós", Platão responde:
"somos seres complexos e em permanente conflito. E, recorrendo a uma imagem, adianta, seres semelhantes a um "saco de pele".
Nesse ensaio político, ele:
afirma esta coisa um pouco estranha, com efeito, que somos, ao mesmo tempo, ventre, coração e espírito. 
A noção grega de "epithumia" (o ventre) é a nossa parte animal, agitada pela voracidade, pela impaciência e pelas paixões monstruosamente egoístas; simbolizado pelo leão, o "thumos" é o coração, sede dos desejos movido pela ambição, pela honra e pela coragem. O "nõus" refere-se ao uso da nossa cabeça quando fazemos o esforço de compreender o mundo e de trabalhar sobre nós mesmos para sermos melhores. 
Dito de outro modo, somos ladrões de grande superfícies, por medo da privação, é verdade; somos estúpidos, predadores compulsivos de papel higiénico, é verdade, e é verdade também que rivalizamos entre nós. Mas somos igualmente pessoas sociáveis, capazes de nos ligarmos aos  outros,  de proteger e de cuidar. E perguntamos, no meio de tudo isto, para onde vai o planeta e nós com ele.

No fundo, Platão quer dizer que o ser humano não é da ordem da natureza, mas a qualidade de uma conquista: a conquista por si do animal que ruge em si. Uma conquista tornada possível por um esforço que se chama a "vida do espírito". 
 Se retomarmos, com Platão, a questão de saber o que é o homem, podemos responder com ele
"um saco de pele", ou ainda, um ser constantemente em conflito entre forças contraditórias "cosidas" juntamente. A nossa alma visa altas exigências, quer a justiça, em primeiro lugar, protecção, cuidados para cada um. Aspira a elevar-se além da loucura da besta selvagem e da ambição do leão. Quer alcançar, pelo esforço do espírito, num mundo que sabe ser movediço e caótico, o lugar onde se torna a justa medida das coisas e onde estão aqueles a quem cabe governar, com sabedoria e prevenção. E também, Platão o diz algures, a alma quer alegrar-se."
Pascale lembra que Platão tem o seus contestatários e dá como exemplo o escritor Tristan Bernard, que, pessimista, considera o nosso "saco de pele" como 
"um recém-nascido que não aprende nada com as lições da História que frequentemente se esquece dos ensinamentos que herdou do passado:"
E, contudo, acontece também isto: porque considera ter tido "uma bela vida" Suzanne, uma senhora de 90 anos, contaminada pelo "coronavírus", recusou o ventilador que teria podido salvá-la para o ceder a uma pessoa mais jovem.

Então, podemos imaginar Albert Camus, o clarividente, observando também cada dia a coragem dos filhos de Hipócrates (os médicos) e os trabalhadores que se afadigam e enfrentam riscos para assegurar a sobrevivência dos outros. Lembremos isto cada dia
"a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar ao presente" (Albert Camus, in O homem revoltado)
Maria Helena Damião e Isaltina Martins

Elucubrações num país futebolizado


Num país, no extremo mais ocidental da Europa, antes da pandemia do "coronavírus” que mudou por completo o “modus vivendi” da população do mundo, os jornais desportivos (e o próprio jornalismo generalista) dedicavam numerosas páginas ao chamado desporto-rei liderando a venda de jornais de todos os géneros pelo maior número dos seus  compradores..
Num país em que as “coisas do espírito” eram escravizadas pelo ser e endeusadas pelo ter, seria bem vinda uma brisa de esperança que arejasse certas mentalidades, numa linguagem sem freio na língua, que pensavam com os pés enredados numa teia de transferências faraónicas, de casarões, de bólides, das namoradas dos craques (qual delas a mais bela entre as belas). 
Num país, hoje, em época de defeso forçado sem “sine die” marcado para o seu término, e em que, ainda sobrevive uma matéria arrogante que diz a um espírito submisso: “Aqui estou, arreda-te para o lado!”   
Num país em que o pensamento reflexivo da Filosofia se debate na escuridão e a ignorância se ilumina com archotes.  
Num país herdeiro de uma época de decadência desportiva romana, sem sequer ter conhecido o apogeu de uma educação helénica integral. 
Num país futebolizado em que, porventura, corro risco de todo o apóstata de ser havido como um renegado, por estas minhas elucubrações, ao correr da pena, contra um clubismo exagerado e o ódio entre as claques, apoiando-me na máxima latina “ridendo castigat mores”, faço apelo final ao dito jocoso, de que o homem pode mudar de mulher, de partido, de clube isso é que não jamais em tempo algum. 
Neste “statu quo” encontro parte de justificação, para as disciplinas de Humanidades continuarem parentes pobres dos currículos escolares, centrados num mundo cientificado que se encontra, apesar do seu inegável avanço, tolhido de pés e mãos, tal como há milénios atrás, incapaz de combater um vírus que atacou a Humanidade ceifando milhões de vida. 

Daqui, retiro razão, em momentos de reflexão gerados por me encontrar em clausura entre quatro paredes, qual monge tibetano, para a reprodução de um meu artigo de opinião crítico sobre a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário (Diário de Coimbra, 13/02/2006). Trancrevo-o: 
“Vai para um ano, publiquei neste jornal (13/02/2006) um artigo de opinião em que criticava veementemente a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário. Duas notícias de jornal trouxeram para os media esta temática: Primeira: Um artigo do professor universitário de que ressalto: «Se a filosofia deixar de ensinar nas escolas, a comunidade científica no seu todo fica mais pobre» (Diogo Pires Aurélio, Jornal de Notícias, 19/12/2006). Segunda: Algumas empresas norte-americanas decidiram recrutar para os conselhos de administração quadros com formação superior em filosofia” (Mário Bettencourt Resendes, Diário de Notícias, 04/01/2007). 
Na Grécia Antiga, através da máxima “primum vivere deinde philosophari”, zombavam dos que só sabiam filosofar não sendo capazes de ganhar meios de subsistência. Em nosso tempo, assiste-se à guerrilha institucional entre gigantes do conhecimento científico e luminares de saberes humanísticos. 

Como escreveu Georges Gusdorf, professor da Universidade de Estrasburgo, festejado autor da bem documentada obra “Da História das Ciências à História do Pensamento” (Pensamento - Editores Livreiros, Lisboa 1988), em meados de 60 do século das luzes, docentes da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências de Paris, preveniam, “ex cathedra”, a família e os interessados que a passagem por um estágio na classe de filosofia representava para os futuros médicos “uma deplorável perda de tempo e de inteligência”.

Em testemunho, ainda, de Georges Gusdorf, um jornalista da radiodifusão foi então perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Com lúcida maturidade cultural, foi-lhe por eles respondido que lhes parecia, pelo menos, impensada.

Ainda segundo este mesmo autor, “os estudantes tinham cem por cento de razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo que existe entre os potentados universitários como no homem da rua”.
Ora, este descabido ataque à própria matriz de todas as ciências é tanto mais insólito porquanto nomes maiores da Ciência contemporânea se têm distinguido no deambular de uma Sabedoria sem fronteiras, v.g. Bertrand Russel e Albert Einstein. Razão de sobra para Georges Gusdorf sentenciar: “O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização ou antes, desorganização do ensino a todos os níveis. Esta desorganização com espaldar no sistema educativo português, em que as reformas curriculares se sucedem em vertiginoso carrossel, tem conduzido à desvalorização da Filosofia e, “ipso facto”, ao desprezo por um importante legado da antiga civilização grega: a do Homem que se questionar e ao mundo que o rodeia, tornando-se, simultaneamente, num processo de realização ética. Desta forma, pondo em causa o generoso papel do conhecimento filosófico como personagem de um processo cultural que abriria espaçosas fronteiras à Ciência hodierna”.
Regressando ao filósofo acima citado, Platão, encontro numa das sua máximas o conselho judicioso, diria mesmo profético: 
“Não espere por uma crise para descobrir o que é realmente importante na sua vida”!

Modo como a universidade reagiu à pandemia

Aisha Ahmad, professora de “Ciência política” da Universidade de Toronto escreveu, na passada semana, um texto sobre o ensino superior e a investigação neste tempo de pandemia provocada pelo Covid-19 (ver aqui). Faço, abaixo, um breve resumo dele.

Na sua universidade, diz, o corpo docente reagiu à crise com um estranho sentido de normalidade: mudou, de imediato, a leccionação para o regime online e continuou a produzir o seus artigos. Percebe-se que espera, dentro em breve, o regresso à normalidade. Mas estão enganados: a pandemia vai demorar a passar. 

Mesmo que seja contida nos meses mais próximos, o seu legado acompanhar-nos-á durante anos, talvez décadas. E será impossível recomeçarmos as nossas vidas como se ela nunca tivesse acontecido: mudará a maneira como nos movimentamos, aprendemos e comunicamos. 

Assim, de momento, não faz qualquer sentido o frenesim com a leccionação ou a obsessão com a produtividade académica, ambas derivadas da negação e da ilusão. 

Recorrendo à sua experiência diz:
“trabalhei e vivi em situações de guerra, de conflitos violentos, de pobreza e desastres em vários lugares do mundo. Experimentei escassez de alimentos, surtos de doenças, isolamento social, movimento restrito e confinamento. Em condições físicas e psicológicas muito difíceis realizei investigação que acabou por ser premiada. Por isso partilho os seguintes pensamentos na esperança de que eles ajudem outros académicos"

Vejamos quais são eles:
1. Segurança. Os primeiros dias e semanas são marcados pela desorientação, precisamos de nos ajustar mentalmente. Na verdade, uma pessoa equilibrada não se sente bem numa crise global; estranho é que se mantenha a produção anterior, como se nada estivesse a acontecer. É preciso ignorar as pessoas que fazem questão de mostrar que estão a escrever muitos artigos e também as que reclamam não poder fazer isso. O melhor é redireccionar a atenção, mantendo conversas razoáveis com as pessoas próximas.  
2. Mudança. As pessoas conseguem estudar e trabalhar mesmo em condições extremas. Conseguiremos alcançar estabilidade e acabaremos por encontrar desafios exigentes.  Mas importa abandonar o que é performativo e imediato em favor do que é autêntico e relevante. 
3: Adoptar uma nova rotina. O nosso cérebro mantém-se criativo e resiliente, por isso, haverá um momento em que tudo parecerá mais normal, passando o trabalho a fazer sentido. Mas deve ser mantido em condições sustentáveis, a produtividade não pode ser desligada da serenidade. 
E finaliza dizendo: esta crise há-de terminar e voltaremos às salas de aula, mas, por agora, estamos no começo de uma pandemia que, com todas as contrariedades, pode ser uma óptima professora.

A análise de Aisha Ahmad vai muito além das fronteiras da sua universidade: implantado que está um modelo universal uniformizado de "prestação de contas" e de "obrigação de publicar", diria que a reacção inicial não podia deixar de ser a que foi (ou talvez pudesse...), mas não tem de ser a reacção final.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Um Gabinete de Salvação Nacional (2)


Ontem
, publiquei aqui o post: “Um Gabinete de Salvação Nacional, uma utopia?”. Escrevi-o em oposição a uma opinião - segundo Goethe, "qualquer ideia proferida desperta outra ideia contrária -  que tinha lido,  e vi estes dias repetida, defendendo a criação de “Um Governo de Salvação Nacional”.

Estou em crer que a criação de um Governo de Salvação Nacional, numa altura em que  a humanidade  corre o risco de submergir afogada pelo coronavírus,  impõe que a orquestra de uma espécie de  Titanic a afundar-se  não continue a tocar com os passageiros a rodopiar  aos seus acordes,   retardando, assim,  o  respectivo embarque em baleeiras salva-vidas, contribuindo, desta forma, , com raras excepções, para a sua morte em águas geladas por um navio, tido por inafundável,  ter embatido contra um gigantesco icebergue 

Foi o actual Partido Socialista referendado e eleito pelos portugueses, propor a sua substituição, agora, por um Partido de Salvação Nacional seria plena loucura pelo vazio que se iria criar entre uma  situação e outra, por mais breve que fosse, numa altura em que todos os portugueses, em obediência a um desígnio nacional devem dar tréguas a divisões e quezílias entrelaçando as mãos em união de esforços, na defesa da sua sobrevivência à pandemia do coronavírus.

São ondas do passado que morrem chegadas à praia, em nada comparáveis ao tsunami em que vagalhões ameaçam varrer grande   parte da população do globo terrestre.  Para além disso,  quem fez  uma cama em desalinho é nela que se deve deitar, pese  embora as declarações posteriores, em alijar de culpas,  do primeiro-ministro   como que puxando as orelhas do edredom para cima.

Bem eu sei haver  uma tendência para apesentar questões sem buscar soluções,  aquilo que na gíria se diz “mandar bitaites”! Jugo não o ter feito, quando muito admito  ser acusado de  viver num mundo utópico de medidas nada consentâneo com a realidade que vivemos, sujeitando-me que me demonstrem estar eu errado ou mesmo a delirar, ao propor, em revisão de matéria dada no meu post anterior:

1. "Continuação do exercício em funções do actual  governo do Partido Socialista.
2. Demissão da actual ministra da Saúde.
3. Nomeação de um Gabinete  de Salvação Nacional”.

Este gabinete,  constituído por um só elemento indicado pelos partidos com maior representação nacional (PS, PSD,  BE,  PC e CDS)  seria da nomeação do Presidente da República. A sua acção abrangeria as áreas da Saúde, da  Economia e das Finanças restringindo-se ao tempo que durasse a pandemia. Terminada ela,  os actuais ministérios da Economia e das Finanças retomariam as suas actuais funções, com excepção do ministério da Saúde pela hipotética demissão da respectiva ministra.   

Para evitar um possível silêncio cúmplice à actual situação ou aos meus possíveis delírios motivados  pelo confinamento  obrigatório à paredes do domicílio,  apelo veementemente aos homens de boa-vontade, de ideias e de ideais deste país que digam da minha razão ou sem-razão, escrevendo comentários a denunciar o meu possível disparate (criação de um Gabinete de Salvação Nacional)  apresentando alternativas que nos dêem a garantia de um futuro menos negro e mais promissor na hora que passa.

“Alea jacta est!" , nunca deixar tudo na mesma  por silêncio cúmplice,  porque como escreveu Sophia de Mello Breyner, “calar-se equivale a deixar crer que não se julga e que nada se deseja, e em certos casos, isso equivale, com efeito, a não desejar coisa alguma”. Ora, eu não  acredito haver alguém que não deseje uma solução que tente minimizar o horror de um mundo  em pesadelo  comparável aos terríficos guiões  dos filmes de ficção científica.

"O país que se segue": COVID-19: Mitos e factos científicos, com David Marçal

A falar sobre a evidência científica acerca do COVID-19, com Pedro Santos Guerreiro, na rubrica da "O país que se segue", da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

"Isto não é uma guerra"

Nestes dias trágicos que vivemos, têm-se multiplicado os comentários e análises da situação e da possível mudança que esta terrível experiência pode trazer aos nossos hábitos, a toda a sociedade. Nada voltará a ser igual... 
Para lá dos comentaristas de ocasião, importa ouvir/ler aqueles que há muito são vozes esclarecedores, na atenção que dedicam à análise deste nosso mundo e da sua evolução.
O sociólogo francês Alain Touraine, com 95 anos, pertence a uma geração que marcou o pensamento ocidental do século XX e deste século XXI, que viveu épocas conturbadas, tornou-se com os seus estudos uma referência do pensamento de esquerda, sendo bem conhecidas as suas fortes convicções contra qualquer totalitarismo.
Numa entrevista ao jornal espanhol El País (aqui), no passado dia 28 de Março de 2020, falou no “grande vazio” que se sente nesta “guerra” sem oponentes visíveis, sem combatentes. Analisa a situação que vivemos e estabelece relações com outras épocas da história, dando a sua opinião, desalentada, sobre este presente sem ideias, sem uma liderança forte, sem um rumo traçado.

Respigámos algumas das suas afirmações:
“Não há um estratega: o vírus não é um chefe de Governo. E, do lado do humano, creio que vivemos num mundo sem actores.” 
 
“Nunca tinha visto um presidente dos Estados Unidos tão raro como Donald Trump, tão pouco presidencial, uma personagem tão fora das normas e fora do seu papel. ... os Estados Unidos abandonaram o papel de líder mundial. Hoje já não há nada. E na Europa, se atentarmos nos países mais poderosos, ninguém responde.“

“Hoje não há nem actores sociais, nem políticos, nem mundiais, nem nacionais, nem de classe. Por isso o que acontece é bem o contrário de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direcção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.”

“O que me impressiona agora, enquanto sociólogo ou historiador do presente, é que há muito tempo que não sentia um tal vazio. Há uma ausência de actores, de sentido, de ideias, de interesse... Nem sequer temos vacinas... Não temos armas, vamos de mãos vazias, estamos encerrados sozinhos e isolados, abandonados."

"Isto não é guerra!”

À pergunta “Onde está a Europa?”, responde:

“Ouviu muitas mensagens europeias nestes dias? Eu não.
Esta epidemia acontece num período em que não sabemos nem como nem porquê...
Estamos no não-sentido e creio que muita gente ficará louca pela ausência de sentido."

— O vírus não irá mudar tudo?

“Não creio. Haverá outras catástrofes... As epidemias não são tudo. E creio que entramos num novo tipo de sociedade: uma sociedade de serviços entre humanos. Esta crise porá em destaque a categoria dos cuidadores.”

A gaiola onde vivemos

Pela sua pertinência e clareza, tomo a liberdade de reproduzir um artigo de opinião do biólogo Jorge Paiva, antes saído no Público online (aqui). Permito-me mudar o título pela expressão usada pelo autor para traduzir o estado do mundo - Gaiola.

Não vamos referir a relevância de todos os predadores, mas apenas de dois. Um, macroscópico e muito conhecido, o lobo, e outro, mais ou menos microscópico e absolutamente desconhecido da generalidade do público, os mixomicetes. 
Como qualquer predador, o lobo sempre foi vilipendiado e inimizado pelos humanos, que o abatem indiscriminadamente, colocando-o na situação de risco de extinção. Como qualquer outro predador, os lobos são extremamente úteis para o equilíbrio da biodiversidade e dos ecossistemas naturais, que existem no Globo Terrestre, a Gaiola onde vivemos, antes do aparecimento da espécie humana, o animal mais perigoso desta Ilha do Universo. Num só dia, ao meio-dia: o mundo em suspenso com a covid-19. 
No início do século passado, foi decidido eliminar os lobos do Parque de Yellowstone, o primeiro Parque Nacional dos Estados Unidos. Isto porque os lobos não só competiam com os caçadores desportivos que se “divertiam” a caçar veados e outros mamíferos que existiam nas áreas limítrofes do parque, como também porque, por vezes, os lobos se aproveitavam dos descuidos dos criadores do gado que pastava nas cercanias do Parque Nacional. 
Assim, a partir de 1930, deixaram de existir lobos no Parque de Yellowstone. Então, a população de herbívoros, particularmente de alces, aumentou exponencialmente, de tal modo que os ecossistemas do parque sofreram uma drástica modificação, particularmente os prados das margens dos rios, que foram praticamente dizimados. Essa erosão não só diminuiu a biodiversidade desses ecossistemas marginais, como também a população de castores, sem o predador (lobo) aumentou de tal modo, que derrubou as árvores e arbustos da floresta ripícola que marginava o rio.  
Com as margens dos rios desertificadas, a erosão progrediu rapidamente, com arrastamento de solos nas cheias sazonais, levando ao assoreamento dos rios, que passaram a serpentear por áreas do parque onde nunca tinham corrido, provocando, além da erosão, alterações profundas nos ecossistemas do parque. 
Depois disto, os lobos foram reintroduzidos, os herbívoros deixaram de pastar nas margens dos rios por estarem a descoberto e mais facilmente visualizados pelos lobos, voltando a alimentarem-se abrigados na floresta, que estava transformada num ecossistema desequilibrado, onde até os ursos tinham já poucos frutos, porque as plantas tinham crescido demasiadamente ramificadas e, portanto, com poucos frutos. 
Os ecossistemas das margens e da floresta voltaram ao equilíbrio normal, os rios passaram ao leito primitivo, sem inundações nem assoreamento drástico. 
Enfim, o Parque Yellowstone recuperou do desastre para que caminhava. 
Em Portugal, os lobos foram quase aniquilados. Eu ainda conheci lobos na serra da Estrela. Assim, os javalis proliferaram de tal modo que, em 1996, foi atropelado um próximo da entrada principal do Hospital da Universidade de Coimbra; no dia 9 de Janeiro de 2018, de madrugada, vi uma fêmea de javali descendo a rua onde moro (R. Carolina Michaëllis), em Coimbra, e no dia 18 de Agosto de 2017, alguns javalis banharam-se na praia de Galapinhos (Setúbal); além dos prejuízos que causam nos campos agrícolas. 
Nós, em vez de procedermos de modo idêntico ao acontecido no Yellowstone, resolvemos a questão aos tiros, permitindo a caça temporária aos javalis. Vamos, agora aos mixomicetes, que não são animais e, como não são produtores de biomassa (não são verdes), também não são plantas. 
São eucariotas, portanto, não são bactérias nem vírus. Reproduzem-se por esporos, mas não são plantas, pois não são produtores de biomassa. Constituem um subfilo, os Mycetozoa, com cerca de 1000 espécies. São seres microscópicos, plasmodiais, que se deslocam como as amebas, alimentam-se de microrganismos, como bactérias (provavelmente também de vírus), leveduras e fungos. As florestas são dos ecossistemas onde são mais abundantes, quer na manta morta, quer na superfície das plantas. 
Costumo mostrá-los aos jovens quando vou às escolas na minha actividade cívica ambiental. Mostro-os na casca das árvores das florestas tropicais. Nestas florestas, as árvores atingem 120 metros de altura. 
Chamo à atenção dos alunos que uma árvore dessas tem, na casca, milhares de mixomicetes. Quando se deita abaixo uma árvore dessas, estamos a matar também milhares de predadores de microrganismos. E quando, além disso, destruímos também o ecossistema florestal, estamos a libertar milhões de bactérias e vírus que podem provocar novas doenças, como, por exemplo aconteceu com a designada sida, que não existia quando eu era jovem e que surgiu na região florestal do Congo. 
Nessa altura culparam-se os símios, espalhando que o vírus (HIV) tinha passado para a nossa espécie através do contacto com símios dessa região. Poderá ter sido assim, mas o vírus estava no corpo dos símios, depois de se ter disseminado por falta dos predadores (mixomicetes), que desapareceram com o derrube da floresta tropical da região. Também já houve quem culpasse animais selvagens desta epidemia que nos assola agora. 
Na China há um grande mercado de animais selvagens para a alimentação e misticismo. A explicação é, pois, a mesma e o único culpado é o Homo sapeins L., que parece não ter nada de sapiens
Neste momento, há apenas 20% das florestas que existiam quando a nossa espécie surgiu neste Globo, uma Gaiola que temos vindo a sujar e na qual temos vindo a dizimar predadores de microrganismos, que podem vir a ser agentes de novas enfermidades letais e que não vamos poder controlar com tirinhos como fizemos com os javalis, pois os microrganismos não se vêem para os podermos dizimar a tiro. 
De realçar que esta pandemia alastrou mais rapidamente e tem sido mais letal nas regiões do Globo mais poluídas e de maior concentração populacional (China e Norte da Itália). 
Estou imensamente apreensivo, pois quando esta pandemia atingir (porque vai mesmo atingir) as populações de todas as favelas americanas, africanas e asiáticas, não vão conseguir controlá-la. Será o caos da humanidade, tanto para pobres como para ricos, pois a morte não se compra. É por isso que me incomodo com empresários e políticos mais preocupados com os problemas económico-financeiros do que com o gravíssimo e rapidíssimo alastramento do coronavírus, julgando que eles não serão atingidos. 
Apesar desta lição, que ainda não acabou, continuo a ouvir justificar que o aeroporto terá que ser no Montijo, por ser o local economicamente mais favorável, sem olhar, minimamente, para as consequências ambientais e para o próximo desastre que aí vem, bem pior do que este, como alertou o filósofo José Gil: “Esta terrível experiência que estamos a viver constitui apenas uma antecipação, e um aviso, do que nos espera com as alterações climáticas.

QUANDO VAI ACABAR?



Meu artigo no Público de hoje (na imagem, a gripe espanhola de 1918-1919):

Estávamos esquecidos das epidemias. No entanto, a história está cheia delas. A peste negra, causada por uma bactéria oriunda da China, dizimou a meio do século XIV mais de um terço da população europeia. A gripe espanhola, devida ao vírus H1N1, cuja origem não é consensual, atacou em 1918, estimando-se que tenha causado a morte de 2,8 por cento da população mundial. Em 2009, tivemos a gripe A, devida a uma nova estirpe do H1N1 vinda do México, que deve ter custado a vida a mais de 200 000 pessoas. Agora, bateu-nos à porta, vindo da China, o vírus SARS-CoV-2 (o nome provém da grande semelhança genética com o vírus do SARS, surgido em 2002), que, à hora em que escrevo, causou mais de 800 000 casos em todo o globo, com mais de 40 000 mortos. O pior é que estes valores estão a subir à taxa diária de 10%.
Para ler o resto ver aqui

(só para assinantes)

Um Gabinete de Salvação Nacional, uma utopia?

Hoje, dia 1 de Abril em que comecei a escrever este artigo é o dia das mentiras que devia ser abolido por se mentir todos os dia neste país mais ocidental  da Europa. Disso mesmo nos dá conta Eça:
“Entre nós, a mentira é um hábito público. Mente o homem, a política, a ciência, o orçamento, a imprensa, os versos os sermões, a arte, o País é todo ele uma grande consciência falsa. Vem tudo da Educação”.
Por coincidência ou não, foi este o dia em que António Costa foi entrevistado, “tête-a-tête” num sala da casa televisiva de Cristina Ferreira, com contenção dos seu habituais gritos, risadas e voz estridente, a propósito ou a despropósito, que transformam o seu programa numa  espécie de Mercado da Ribeira em dias de enchente de clientela!

Entrevista  que, pela solenidade repetida como foi, correu o risco de se tornar trivial em que o entrevistado falou sobre a hora actual da sua governação prisioneira nas garras impiedosas do coronavirus que igualiza nos seus efeitos a população quer de ricos ou pobres, letrados ou iletrados, anjos ou demónios. Ademais, julgo ter esta entrevista, como finalidade principal, manter o primado de audiências matutinas da televisão numa hora de sacrifício, a merecer palmas gratas da multidão, em que médicos e enfermeiros arriscam a vida diariamente em prol dos doentes. Nesta ocasião não posso deixar de me lembrar  do histórico discurso de Wintson Churchill em homenagem ao pilotos da Royal Air Force, durante a II Guerra Mundial: 
“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.
Li há dias a defesa, ou simples sugestão, de vir a ser criado um Governo de Salvação Nacional num altura em que, em linguagem de caserna, “em tempo de guerra não se limpam armas”. Em contraponto, defendo um Gabinete de Salvação Nacional  incidindo unicamente sobre as prementes matérias da Saúde e da Economia/Finanças com poucos elementos de destacadas e competentes figuras públicas com provas dadas de incontestável valor nestes domínios, adstrito ao Presidente da República e indicados pelos maiores partidos políticos com assento na Assembleia da República (PS, PSD, BE, PCP e CDS), em número apenas de dois por partido, porque muita gente junta só serve para a confusão e para não suceder o mesmo que na constituição do actual governo  em que para uma população de 10 milhões de habitantes  existem governantes em número bem maior que na Holanda com uma população 17 milhões e com um PIB bem maior que o nosso. Nada de espantar por o nosso país ter um governo familiar numa terra de grande e generoso parentesco.

Para pertencer a esse Gabinete de Salvação Nacional devia ser imposto, por exemplo, o cumprimento do Código dos Cavaleiros  da Távola Redonda, a saber:
"Buscar a perfeição humana, respeitar os semelhantes, amor pelos familiares [mas sem lhes dar lugares no governo como o acontecido em território lusitano], piedade com os enfermos etc".
Mas antes disso substituir a actual ministra da Saúde e sua directora geral, por um dia apresentarem uma razão para o descalabro da sua acção e passado pouco tempo uma outra diferente esperando eu não ser por serem mentirosas, apenas cábulas com a lição mal estudada correndo, com isso, o perigo representado para estas frágeis figurinhas o ódio de cabeças em desvario pela quarentena que lhes foi imposta com a intenção de salvar a vida de pessoas em risco de contraírem o coronavírus. Quiçá por isso, como li em notícia a merecer confirmação ou desmentido oficial, estão elas sob protecção policial.

Sem querer vestir as roupagens cáusticas do dramaturgo inglês Oscar Wilde, acredito que 
“o progresso não é senão a realização da utopia”. 
Seja bem vinda essa utopia, portanto, em clima de uma calamidade que só encontra paralelo na pandemia da chamada gripe espanhola (1918-1919) que infectou 27% da população mundial e matou milhões de pessoas do globo terrestre. Haja coragem e pulso forte para tentar evitar que a historia se repita ou mesmo atinja proporções ainda maiores!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

MINHA ENTREVISTA AO DIÁRIO DE NOTÍCIAS SAÍDA NO SÁBADO PASSADO


"Só há três competidores no planeta: o homem, os vírus e as bactérias"



https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-mar-2020/carlos-fiolhais-so-ha-tres-competidores-no-planeta-o-homem-os-virus-e-as-bacterias--11992515.html

O MECANISMO DO MEDO


Artigo do psiquiatra Nuno Pereira:

   A emoção – que significa literalmente movimento para o exterior – predispõe para a ação. Tem funções de sobrevivência, como defesa contra o perigo e procura de alimento e sexo. Como respostas adaptativas a estímulos aversivos distinguem-se o medo, a ansiedade e o stress.

   O medo constitui uma reação emocional de defesa ativa (fuga/luta/imobilidade) perante um perigo presente. É uma emoção básica, universal, de saída duma situação de ameaça certa. Funciona um sistema ativador da ação. Trata-se da resolução do problema. A ansiedade consiste numa reação emocional de defesa passiva (hesitação) perante um perigo potencial. Envolve um misto de emoções (expetativa/medo) – em que o medo desempenha o papel mais importante – de entrada numa situação de ameaça incerta. Há um conflito apetitivo/aversivo, de aproximação/afastamento. Funciona um sistema inibidor da ação. Trata-se da tentativa de resolução do problema. O stress ou tensão consta duma reação de adaptação geral a uma mudança (negativa ou positiva) do meio (interno ou externo). Os fatores de stress podem ser biogénicos (frio, calor, barulho) – com reações inatas e independentes da avaliação - ou psicossociais (acontecimentos agudos ou dificuldades crónicas) – com reações dependentes da avaliação. O stress pode gerar emoções negativas (como a ansiedade) se a avaliação for negativa.

   O medo apresenta duas faces: uma, objetiva, a resposta a um estímulo; a outra, subjetiva, o sentimento. Frente a uma situação ameaçadora (o estímulo), desenvolve-se um programa de quatro passos: avaliação (o sensor), preparação (o alarme), ação (o reator) e sentimento (a experiência do consequente estado modificado do corpo). O pânico não é mais do que a reação a um perigo iminente.

   As situações indutoras de medo, ansiedade ou stress (os estímulos) podem ser externas (de natureza física ou psicossocial) ou internas (sensações corporais, pensamentos, imagens). Dum modo geral, são insuficientes por si sós para perturbarem o indivíduo. Assumem pois importância relativa, já que dependem do significado que lhes é atribuído. Assim, a mesma situação-estímulo pode gerar reações diversas em pessoas diferentes.

   A avaliação cognitiva (o sensor) foca-se não só no significado da ocorrência (p.ex., a perceção do perigo) como nos recursos pessoais (a perceção do controlo) e sociais (o apoio dos outros). Pode ser rápida/automática (via direta) e lenta (via indireta). A avaliação cognitiva é um processo dinâmico, retroativo, com desenvolvimento de hipervigilância (atenção muito focada nas fontes externas ou internas da ameaça).

   Na preparação fisiológica (o alarme), face a um estímulo aversivo dá-se a ativação  para preparar o indivíduo para fugir ou lutar. Dilatam-se as pupilas (para ver melhor), aceleram-se os batimentos cardíacos (para bombear mais sangue), sobe a tensão arterial (para melhorar a irrigação sanguínea), aumenta o ritmo da respiração (para oxigenar mais o sangue), eleva-se a glicose no sangue (para maior fornecimento de energia), aumenta a agregação plaquetar (para facilitar a coagulação sanguínea), flui a transpiração (para resfriar o corpo), retesam-se os músculos com tremor (para preparar para a ação), há palidez e extremidades frias (por necessidade do sangue periférico para o interior do corpo e os músculos). Em caso de medo intenso, pode haver também vómitos e perda de fezes e/ou urina (esvaziamento do tubo digestivo e da bexiga que evita a rotura destes órgãos, em caso de choque) e mesmo desmaio (o que, ao passar por morto, permite escapar ao predador na natureza). Na tentativa de recuperar o equilíbrio perdido, isto é, restabelecer a homeostase, elevam-se os níveis de glicose no sangue e o seu aporte ao cérebro, fígado e coração, inibe-se o sistema imunitário e diminuem os processos de tumefação e inflamação.

   A ação (o reator) tem como objetivo o afastamento da ameaça e consequente alívio da ativação fisiológica, através de comportamentos defensivos de emergência (e hipoalgesia). De facto, face a uma ameaça, o indivíduo defende-se, imobilizando-se, fugindo ou lutando (e sentindo menos dor). Exibe também comportamentos comunicativos (expressão facial, gestual e não verbal), em que informa os outros mediante expressão de medo (ou ira), gesticulação e gritos. Pode em alternativa realizar movimentos repetitivos, consumir substâncias, isolar-se, passear, praticar exercício físico.

   O sentimento compreende a experiência subjetiva da reação emocional. O indivíduo, ante um estímulo ameaçador, recebe a informação sensorial e desencadeia uma resposta corporal. As informações do corpo (viscerais e comportamentais) vão então ser representadas em mapas cerebrais, de que o indivíduo toma consciência, formando a base do sentimento do medo.

    O medo fixa-se automaticamente com a fuga, o evitamento ou mesmo a tentativa de controlo duma situação de perigo real ou imaginário. A própria distração (como evitamento da coisa temida) acaba também por alimentar o medo, embora alivie transitoriamente, pelo que o provérbio «quem canta seu mal espanta» vale apenas de mero expediente. Ao invés, o medo extingue-se progressivamente com a exposição intencional - sem fuga, evitamento ou tentativa de controlo - de modo prolongado e reiterado, a uma situação ameaçadora, o que pode fazer baixar a guarda e significar um risco se o perigo for real. Por outro lado, a distorção cognitiva por processamento defeituoso da informação pode provocar quer medo excessivo, quer falsa segurança, conforme a avaliação exagera ou minimiza o perigo.

    Em conclusão, o medo, a ansiedade ou o stress normais são necessários para proteger do perigo, graças ao estado de alerta que permite a busca de soluções adequadas para o problema, tanto melhor quanto mais a avaliação do risco assentar numa informação esclarecida e, num nível mais exigente, com evidência científica.
                                                                      
 Nuno Pereira  (psiquiatra)

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...