quinta-feira, 7 de junho de 2018

Escola sem telemóveis

No campo da educação formal as decisões mais razoáveis são, aparentemente, as mais difíceis de tomar. E quando isso acontece, pela sua estranheza, são notícia nacional e, mesmo, internacional. É o caso da proibição do uso do telemóvel na escola. França foi um país pioneiro nesta matéria, logo esteve (ver aqui) e está hoje nos noticiários e nos jornais (pelo menos) da Europa.

Depois de o Presidente da República a ter apontado, o Ministro da Educação bateu-se por ela, levou-a à Assembleia Nacional e hoje foi traduzida em letra de lei: a partir de Setembro de 2018 nem alunos nem professores podem ter telemóveis, tanto nas aulas como nos espaços exteriores, e isto é válido para todos os níveis de ensino, incluindo o superior. Haverá excepções para casos especiais.

As razões do Ministro da Educação (cito a notícia do jornal Público) afiguram-se-me perfeitamente válidas: evitar a distracção na sala de aula e fazer face a problemas de comportamento entre alunos. São, na verdade, dois problemas de que os professores se queixam reiteradamente no nosso país.

É claro que o Ministro tem a contestação dos partidos da oposição e do sindicato de professores. A estas duas entidades hão-de associar-se outras: empresas de tecnologia, pais/encarregados de educação, investigadores que advogam a aprendizagem com este equipamento...

Ao que parece, mais ou menos como cá, cada escola pode prever (nos seus regulamentos) regras para o uso dos telemóveis, mas a complicação que isso causa e o tempo faz gastar (recolha e devolução, queixas de pais, prevaricação dos alunos, etc.) faz com que a desistência ou o aligeiramento do controle seja uma tentação quando não uma realidade. Talvez, por isso, o dito Ministro se tenha batido pela necessidade de "uma base legal muito mais forte".

É preocupante ler esta declaração pois os directores, professores e outros educadores deveriam (poder) assegurar que os alunos se focalizam na aprendizagem e que vão adquirindo um comportamento socialmente aceitável, mas as várias pressões de que são alvo têm o seu efeito. Assim, talvez esta legislação seja, para já, um mal menor, uma via para recuperar a atenção/concentração que o trabalho escolar requer e a convivência.

De novo, feliz, em Lourenço Marques


Mais uma belíssima crónica de Eugénio Lisboa, publicada inicialmente no "Jornal de Letras", que a mim muito me diz sentimentalmente por nessa bela cidade do Índico ter vivido 18 anos de intensa e saudosa memória:


A felicidade é caprichosa: não se deixa facilmente capturar por quem a persegue. Dizia Bertrand Russell que a melhor maneira de se conseguir a felicidade não é procurá-la, directamente. Ela é, repito, caprichosa. Surpreende-nos, quando menos a esperamos. E toma conta de nós, pelas vias mais insuspeitadas.
Toda a gente conhece, de o ter lido ou de nele ter ouvido falar, o episódio relatado pelo narrador de À la recherche du temps perdu (de Proust), relativo à pequena “madeleine” que, embebida em chá e oferecida ao narrador pela sua tia, lhe trouxe inesperadamente e involuntariamente à memória, pelo seu sabor, todo um mundo do passado: a velha casa cinzenta, a cidade, a praça, a igreja, Combray e os seus arredores, a boa gente da terra… Um universo que, assim involuntariamente trazido à memória, se revela portador de uma indescritível felicidade. Levar à boca a pequena “Madeleine” impregnada de chá de tília foi a via insuspeitada de activar uma memória criadora de felicidade.
Todos nós, ao longo das nossas vidas, passámos por experiências análogas, mas, na maioria dos casos, passa-se por isso com alguma desatenção e sem se lhe atribuir importância ou significado de maior. Por vezes, porém, a experiência toca-nos tão fundo que, por momentos, não podemos deixar de reparar nela. Proust, psicólogo e anotador minucioso, deu-lhe, na sua Recherche, uma importância e um significado enormes.  É um exemplo extraordinariamente elaborado de “memória involuntária”, capaz de surpreender e encher de felicidade quem passa por tal experiência. Eis, nas inesquecíveis palavras de Proust: “E assim que reconheci o gosto do pedaço de madeleine embebido no chá de tília que me dava a minha tia (embora não soubesse ainda e devesse remeter para bem mais tarde descobrir a razão por que essa recordação me tornava tão feliz), imediatamente a velha casa cinzenta na rua (…), e as boas pessoas da aldeia e as suas pequenas habitações e a igreja e toda a Combray e os seus arredores, tudo isso que ganha forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá.” Trata-se de uma passagem justamente célebre, naqual se poderá rever – agora arrancado da sua desatenção  pela minúcia da atenção de Proust – o leitor do romance celebrado.
Tenho voltado muitas vezes a este momento do folhetim psicológico de Proust, que profundamente me tocou por ter eu próprio vivido momentos idênticos e tão ou mais intensos do que os experimentados pelo narrador de À la recherche du temps perdu. É um desses momentos que agora aqui vos trago.
Vivi em Londres dezassete bem fruídos anos – de 1978 a 1995 – na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada. Foram dezassete anos cheios de uma variada vivência cultural, numa cidade em que a oferta era imensa e de grande qualidade. Foram anos felizes mas muito diferentes da vida que deixara para trás: 38 anos de experiência africana, em Lourenço Marques, cidade onde nascera e onde passara os primeiros dezassete anos da minha formação. Ali me casara e ali me nasceram duas filhas.
Culturalmente falando, Lourenço Marques não era uma cidade sem interesse: com um bom Cine-Clube, um Núcleo de Arte, grupos de teatro amador de grande qualidade (um deles dirigido por Mário Barradas) e páginas culturais cheias de vivacidade em vários jornais, com cinema onde a censura era menos apertada do que nas salas de Lisboa ou Porto (no Cine-Clube, vimos todo o cinema soviético – Eisenstein, Pudovkine, etc - , polaco, checoslovaco, romeno, húngaro, francês, sem que o censor visse objecção), com uma vida de grande convívio e tertúlia, cimentada nas reuniões de A Voz de Moçambique  ou do Cine-Clube ou, aos sábados de manhã, nas visitas às boas livrarias que por lá havia – não se morria propriamente de tédio. De uma maneira muito intensa e muito especial, era-se feliz. E era uma maneira de se ser feliz muito diferente da maneira de se ser feliz, em Londres. 

Nesta grande cidade, faltavam-nos as tertúlias, o convívio assíduo e de porta aberta, a conversa quotidiana, o desafio constante, as polémicas intermináveis, a cumplicidade entre amigos. Londres tinha coisas que em Lourenço Marques não havia, mas, por outro lado, não tinha outras que em Lourenço Marques havia. Era-se, em suma, feliz de modo diverso. Londres tinha indiscutivelmente uma maior diversidade de oferta e coisas (exposições, teatro profissional, música, ópera) de uma qualidade excelsa, que em Lourenço Marques eram impensáveis. Mas faltava-lhe a camaradagem quotidiana, o convívio quente, a amizade cúmplice sempre à mão de semear, a dialética vivificadora…
Ora, num certo dia da minha estadia em Londres, resolvi ir de viagem, no meu carro, até à margem sul do Tamisa (a South Bank), numa qualquer missão de serviço. Saí da embaixada por volta das onze horas da manhã e fui ao meu destino.  Estava um dia de sol relutante mas abafado e ameaçando chuva. Chegado à South Bank, estacionei o carro e dirigi-me, a pé, ao local onde tencionava ir. Fui andando e, subitamente, começou a chover. Não sei bem porquê, soube-me bem. Recebi a chuva quase como uma bênção, numa espécie de expectativa de nem sabia bem o quê. E, de repente, subiu do chão até mim o bafo capitoso da terra molhada. 
Uma difusa sensação de felicidade tomou, com grande força e intensidade, conta de mim. Aquele era o cheiro da terra molhada que eu tantas vezes experimentara, em Lourenço Marques, nas minhas sortidas à praia da Polana: aquele bom cheiro da terra fecundada pela chuva tropical. Era esse mesmo cheiro que agora se me oferecia, ali, na margem sul do Tamisa. Levava-me de novo, transportava-me a Lourenço Marques, numa viagem improvável mas imensamente real. Por momentos, eu estava em Lourenço Marques e não em Londres. E, repito, incrivelmente feliz, não de uma felicidade londrina, mas de uma felicidade perfeitamente laurentina. 
Daquele cheirinho a terra molhada saíra todo um meu passado de cumplicidades, amizades e convívio tal como os fruíra no meu tempo de Lourenço Marques. Ao meio dia de um dia de calor, na margem sul do Tamisa, rodeado de coisas londrinas, eu estava de novo a ser feliz em Lourenço Marques. Recuperara uma felicidade antiga, que se substituía a outra mais recente. A felicidade obtém-se, já o disse, por vias enviesadas. Por via do bom cheirinho da terra molhada, em Londres, eu ascendi, nesse dia de verão chuvoso, à felicidade peculiar que, tantos anos antes, me visitara em Lourenço Marques.

OS DESCOBRIMENTOS E OS SEUS INIMIGOS

Artigo de Guilherme valente no JL de ontem:

A mão treme quando evocamos os crimes cometidos pelos Árabes, enquanto o inventário dos crimes cometidos pelos Europeus, igualmente condenáveis, ocupa páginas inteiras.
Marc Ferro

I
Os títulos de quem escreve não tornam justo o que se escreve. Nos artigos que escrevi acentuei até à redundância muito do que António Hespanha referiu no artigo que acaba de publicar no JL.
Essa convergência diz-me não ser a mim que se dirigiu (porque haveria, aliás, de me ter lido e responder?) quando acentuou justamente que “O patriotismo não pode assentar em operações plásticas na face da pátria. Tristes patriotas os que só amam pátrias belas e de história impoluta...”
Nunca houve pátrias assim, acrescento eu.
Amar a pátria é, pelo contrário, olhar a sua realidade nos olhos, criticamente, e empenharmo-nos em a tornar melhor. Nunca é, acentuo a propósito, odiar a pátria dos outros.
Esse ódio, que os horrores do século XX levaram a que se reserve o termo “nacionalismo” para o designar, nunca resulta de um excesso de pátria, mas de um défice. É por isso que quem ama a sua Terra é sensível e se pode entregar ao fascínio de outras civilizações sem perder nada, mas ganhando muito.
É um défice de pátria que explica pulsões (patológicas) que determinam muito do que está em jogo na questão do museu, na aversão, afinal, aos Descobrimentos.
De facto, se quisermos compreender esse jogo, teremos de ter presente o episódio da manifestação à estatua do Padre António Vieira, que poderia (quereria?) ter terminado com a sua vandalização. Manifestação, aliás, que o meu Presidente da Câmara se esqueceu de condenar.
E se o melhor da excelência académica que fazendo a diferença subscreveu o Abaixo-Assinado tivesse tido presente esse episódio, provavelmente não teria caído no logro de se embrenhar no tricot falacioso sobre a propriedade do termo "Descobrimentos”. Excelência académica que está a ser usada como bandeira de pressupostos e intenções que suponho não subscreverá.
Esse tricot terá servido pelo menos para confirmar não faltarem candidatos para o emprego na empreitada do museu. Lista e compromissos que já correm. Mas AH, que no mérito estaria bem colocado para a corrida, não consta dela, registe-se, nem aceitaria tal cargo, suponho.
Transcrevo o que recebi de um jovem intelectual de muito mérito, que me enche de esperança no futuro:
"Esta questão do nome do museu é mais uma demonstração da lavagem asséptica da linguagem que tem estado em voga. Esfrega-se bem até ficar tudo cinzento. Que um país com a nossa história não tenha um museu deste cariz, onde naturalmente se falará de escravatura (porque raio não se havia de falar?) como de tudo o resto, para mim é inexplicável. E mais inexplicável ainda que a primeira reacção dos académicos, que deviam ser parte integrante do projecto, seja um abaixo-assinado a rebater de imediato o nome informal que foi avançado. E realmente denota-se muito preconceito quando comparam o projecto do museu ao International Slavery Museum… Acho normal que se possa pensar noutra designação, mas o abaixo-assinado na verdade não o faz, e para além disso temo que os argumentos apresentados não tenham de facto boa-fé e isenção. Mas como tudo o resto vai por arrasto, e quem não pensa deixa que pensem por si, mais dia menos dia está aí um Museu-das-Viagens-Marítimas-Portuguesas-com-Intuito-Mercantil-cujo-Único-Resultado-Foi-a-Destruição-do-Povo-Indígena-Legado-que-os-Portugueses-Devem-levar- às - costas."
Assistir ao alheamento geral, ao silêncio ou cumplicidade de instituições e universitários que deviam estar na primeira linha da lucidez, da liberdade e da resistência, talvez seja mesmo o mais confrangedor e preocupante nesta história de sombras.
II
1. Não é preciso ser profissional ou sequer amador da História como sou para intervir no que está em causa.
Não foi o “outro” que veio, foram os portugueses de então que foram e encontraram o “outro”. (No caso dos Chineses porque estes decidiram mesmo não vir, pois possuíam tudo para terem chegado, saber, barcos formidáveis, riqueza e gente. E depois de terem navegado muitos mares, pararam intrigantemente perto.)
O resto são jogos semânticos para iludir o que não altera nada iludir. A realidade não deixa de ser o que é por impormos que seja diferente.
E como foram os nossos antepassados que partiram, obrigaram-se ao exercício de qualidades humanas e feitos extraordinários, medindo até aonde podia chegar então “a força humana”.
E continuaram nessa época, mas então num salto qualitativo inimaginável, o já longo percurso humano de abertura do mundo ao mundo, a descoberta entre si dos seres humanos, o reconhecimento e encontro de cada um consigo próprio. Os seus feitos alargaram surpreendentemente o horizonte da Humanidade toda.
O resultado dessa épica para o conhecimento e a criação humana global foi incomensurável. Novos continentes de aquisição e procura infindável de saber se abriram. Cultura, antropologia, ciências, medecina, literatura, nautica, geografia, astronomia, musica, pintura, costumes, valores, pensamento, o inventário é interminável. Fez-se, aconteceu. É um facto. E tem um mérito universal singular.
E nessa passada gigantesca, também as manchas impostas pelo tempo, os contextos e as inevitáveis universais misérias da condição humana.
Foi assim que o meu Pai me ensinou a História da minha Terra, com a verdade com que deve ser conhecida, mas exaltando o que intemporalmente deve ser exaltado. Recorrendo aos Quadros da História de Portugal de João Soares e Chagas Franco, às aguarelas belíssimas de Roque Gameiro e Alberto de Sousa. Quadros e figuras vivíssimas na minha memória. Como as do Gama e de Albuquerque, o meu Pai a mostrar-me o admirável dos seus feitos e deles próprios e o que compreendi dever ser lamentado nas suas acções e neles mesmos.
É assim que deve ser justamente celebrada “a glória dos feitos que fizeram”, que são património da Humanidade toda. Com uma informada celebração do bem, não com uma perversa hipertrofia do mal.
O museu dos Descobrimentos que os Portugueses devem a si próprios e ao mundo só pode ser amimado por este espírito, concebido com este objectivo.
Museu que sem ocultar nada, mas situando e documentando tudo, pode e muito bem chamar-se “Museu dos Descobrimentos”. Descobrimentos que nos cumpre mostrar e oferecer ao Mundo. Museu que por ser assim será também - outra designação bem adequada, mais expressiva, porventura, e rigorosa - um museu de “Portugal na Abertura [ou no Encontro] do Mundo”.
Ao contrário do museu (que antes fora estátua e museu da escravatura...) que nos querem impor os fugidos de lugares de horror, instalados na segurança e no conforto na nossa Terra que difamam insultando os Portugueses que os acolheram, impor-nos o remorso e a expiação eterna pelo que Portugal reconheceu há muito, situando-o no tempo e na História. E há alguém, algum país civilizado que não lamente os dramas da História?
Porque não reconhecem, se arrependem, expiam e choram eles próprios o horror praticado pelos seus antepassados? Horror que ainda continua HOJE a manifestar-se no seu mundo?
Escravatura e tráfico que começaram no mundo deles sete séculos antes e foram mais longos e mesmo mais cruéis por terem somado o genocídio e não terem tido a necessidade material de preservar a robustez e a vida dos cativos e lhes faltarem a moderação de uma religião do amor ao próximo. Impérios dizimados no interior da África, capturas impiedosas que só elas tornaram possível que o tráfico português e atlântico tivesse a dimensão quantitativa que teve *.
Porque não vão combater esse horror na África muçulmana e no Médio Oriente AGORA? RESPONDAM, NÃO SE ESCONDAM NUMA SUPOSTA IGNORÂNCIA!
À fixação nas trevas prefiro a estrada da luz. À vitimização e ao martirio prefiro a religião da esperança, o encorajamento da alegria. À vitimização absurda deles que tentam projectar sobre nós prefiro a consciência critica e o impulso dos grandes exemplos para a construção do futuro.
Europeus e Portugueses enfrentaram no passado outros obscurantismos, fizeram, apoiaram, com que se regenerasse mesmo o que desviava, profanava o espírito e a fonte da religião presente na nossa identidade, venceram os flagelos polÍticos e ideológicos mais bestiais que ameaçaram a Civilização. Combateremos e venceremos hoje o fanatismo que flagela o mundo e parece começar a vislumbrar-se na nossa Terra. Larvarmente, com a cumplicidade dos que pensam poder instrumentalizá-lo em proveito ideológico próprio.
Absurdos ressentimento, impotência e remorso próprios que projectam sobre o “outro”, sobre nós, sobre o mundo. Colaborarmos, alimentarmos essa autoilusão não os ajudará no reconhecimento terapeutico libertador.
E não apagarão o nosso património imaterial. Não destruirão com o meu silêncio o nossos budas do afeganistão e as nossas ruínas de Palmira.
Guilherme Valente
*. “O único povo a aceitar a escravidão são os Negros, em virtude do seu grau inferior de humanidade, estando mais próximos do estádio animal”. Maomé Ibn Khaldun, (1332-1406), Polímata ÁRABE de origem iemenita ou berbére, assim legitimando o esclavagismo árabe-muçulmano.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Partidos Políticos e Juventudes Partidárias


Meu artigo de opinião saído hoje no “Diário As Beiras”, tendo por base um meu artigo publicado neste blogue  intitulado: “Ainda há lágrimas espremidas...” (01/06/2018):
“A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento” (Milan Kundera, escritor expulso do Partido Comunista Checo).

Evoco a memória de meu avô materno José Pereira da Silva, presidente da Câmara Municipal do Porto (1925) num tempo em que esse honroso desempenho estava, apenas, ao alcance de personalidades da sociedade portuguesa com destaque cultural, social e ético  e hoje se fica a dever, sem pretender, de forma alguma generalizar (“vade rertro Satanas!”),  ao agitar frenético de bandeiras partidárias por parte de uma juventude que vê nisso uma forma de subir na vida perante o espectro do desemprego ou empregos mal remunerados.
Pela sua participação fracassada na Revolução do Porto (1927) foi ele deportado político para uma inóspita Angola em que as doenças tropicais e o mau clima ceifavam vidas como quem ceifa searas de trigo em terra lusitana, apenas com a roupa que vestia no corpo e com as algibeiras vazias de dinheiro, obviamente, das modernices dos actuais “offshores”, “em que se esconde o equivalente a um quinto da riqueza produzida” (“Jornal de Economia”, 19/09/2017) . 

Faleceu, este meu antepassado, nessa terra africana com escassos bens materiais por ter sacrificado, em nome dos seus ideários políticos, família, posição social, fortuna. Na actualidade, para perpetuar a sua gente no poder, através de votos nas eleições que se avizinham para conseguir uma maioria que permita governar sem uma “geringonça” a desconjuntar-se e a chiar por todos os lados, António Costa, no Congresso do Partido Socialista do mês passado, desfez-se em promessas para com os jovens, sintomaticamente, sem uma só palavra que seja de esperança para com os velhos, talvez, por este estrato populacional, apelidado de “peste grisalha” pelo deputado do PSD Carlos Peixoto, nem sempre poder votar por dificuldade em se deslocar às mesas de voto!
Na sua prédica vibrante sobre o futuro que diz esperar para juventude socialista, foi ele calorosa e longamente aplaudido pela mensagem de que, num futuro próximo, radioso de alvoradas de esperança, esses jovens futuros profissionais da política, tomem em suas mãos o leme do destino deste país através de uma profissão bem remunerada e  de altas reformas que os recompense de uma vida de “ascetismo”, trazida do hemiciclo de S. Bento em nome do povo e em aparente  lutas diárias contra tentações demoníacas, nem sempre vencidas, em que mais do que servirem o país  dele se serviram nem que seja à custa desonrosa de escândalos que enchem de manchetes os jornais diários. Bem dita e salutar liberdade de imprensa!
Mesmo sem pretender tomar a nuvem por Juno, vive-se hoje, sem generalizar, mais um vez o escrevo, uma época  da política portuguesa que dá razão a palavras premonitórias de Ruy Barbosa, membro fundador da Academia de Letras do Brasil (1849-1923) que perpassaram os anos e atravessaram o Atlântico: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha em ser honesto”.
Pelo andar da carruagem, tempo virá em que os cidadãos honestos serão apontados a dedo (se é que o não são já!) com palavras de espanto ou mesmo reprovativas: “Olha vai ali um tanso honesto!” Pobre país e pobres portugueses em que a desonestidade, substituindo-se a um hábito enraizado, assume um papel normativo que escapa às teias da lei!

NEANDERTAL



Na próxima 4ª feira, dia 13 de Junho, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra.

Neandertal", por João Zilhão Arqueologo, Professor na Universidade de Barcelona e em Lisboa. Fundador e Director do Instituto Português de Arqueologia. Dirigiu a equipa que em 1998 descobriu o menino do lapedo, a primeira prova científica de peso a favor da miscigenação entre os neandertais e as populações de origem última africana que os especialistas designam como “primeiros seres humanos anatomicamente modernos”.

Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.

Resumo da palestra:
Na realidade, a “arte” pré-histórica é comunicação por imagens. O seu valor estético faz com que continue a causar admiração ao homem de hoje mesmo quando, na falta de um registo escrito ou de informadores orais, o significado preciso dessas imagens está para sempre perdido. Para o arqueólogo, as questões que ela coloca são por isso aquelas para as quais o método científico pode trazer respostas relativas aos modos de vida das gentes do passado. Por exemplo: Quando foi feita? Por quem foi feita? Como é que os lugares de “arte” se relacionam com os lugares de “habitação” e o que é essa relação nos diz sobre mundivisão, organização social, etc.? E, no que respeita à evolução humana: Como é que esta abordagem arqueológica da “arte” pré-histórica contribui para esclarecer questões relacionadas com as origens da comunicação por símbolos visuais? E, à luz das últimas datações obtidas para os primórdios da arte parietal na Península Ibérica, em que é essa abordagem contribui para uma melhor compreensão do homem de Neandertal? Destas questões se tratará.

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

"A sério que acreditam que os professores são seres menores no sistema educativo?"

Num artigo do jornal Público de hoje, Paulo Guinote faz uma pergunta que não pode ser adiada: "há educação [escolar] sem professores?"

Forças de pressões, tanto a nível internacional como nacional, querem fazer crer que sim, que isso é possível: que podem ser as crianças e os jovens a determinarem o currículo, desde a sua concepção à sua concretização, e que podem aprender sozinhos e/ou uns com os outros com o método milagroso da aprendizagem baseada (e sublinho "baseada") em projecto, sobretudo se apoiados nas super novas tecnologias ditas da informação e da comunicação.

Deixo de lado, a tónica posta pelo autor do artigo na actualização salarial, não por falta de importância mas porque, na continuação de textos anteriores, interessa-me destacar o que se segue:
... o que questiono é se a Educação seria possível sem professores e se há quem leve mesmo a sério aquelas teorias neo-construtivistas que estão na origem de algumas das reformas promovidas pelo secretário de Estado João Costa e alguns micro-feudos associativos e académicos e que afirmam que o conhecimento é algo que pode ser construído pelos alunos ab nihilo, apenas com uma espécie de orientação que não carece de especial qualificação académica. 
A sério que acreditam que os professores são seres menores no sistema educativo (...)? 
(...) sem eles não há Educação, por muito que seja o deslumbramento com as novas tecnologias.

2027, CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA


Meu artigo de opinião no Público de hoje:


Em 1994 Lisboa foi Capital Europeia da Cultura, em 2001 foi o Porto e em 2012 Guimarães. A iniciativa da União Europeia visa “acentuar a riqueza e diversidade de culturas na Europa, celebrar as marcas culturais partilhadas pelos europeus, aumentar nos cidadãos o sentido de pertença a um espaço cultural comum e fomentar o contributo da cultura para o desenvolvimento citadino.” Começou em 1985 com Atenas, sob o impulso da ministra grega Melina Mercouri, e prosseguiu nos anos seguintes com Florença e Amesterdão. A experiência tem mostrado que, para além dos objectivos atrás apontados, as capitais da cultura têm sido óptimas oportunidades para “regenerar cidades, aumentar o seu perfil internacional, aumentar a autoimagem dos habitantes, reanimar a cultura urbana e desenvolver o turismo.” Estes fins foram atingidos nas três capitais portuguesas, apesar das costumadas limitações orçamentais e dos também habituais percalços das organizações lusas. Do Porto 2001 ficou, para além da regeneração do espaço público, a Casa da Música, e de Guimarães 2012 ficou, para além de similar reabilitação urbana, a Plataforma das Artes e da Criatividade.

É, por isso, natural, que esteja instalada a corrida para a organização da próxima Capital da Cultura em Portugal. Será só em 2027, mas o processo de selecção é longo e complexo, iniciando-se seis anos antes. As regras europeias são exigentes e pormenorizadas e a escolha entre as várias candidaturas será feita até 2023 por um comité internacional de especialistas (o governo nacional será mero observador). Os critérios são “a contribuição para a estratégia a longo prazo, a dimensão europeia do projecto, o conteúdo cultural e artístico, a capacidade de realização, o impacto e a gestão”. Várias cidades de Norte a Sul do país aceitaram o desafio e arregaçaram as mangas: Viana do Castelo, Braga, Aveiro, Coimbra, Viseu, Guarda, Leiria, Caldas da Rainha (congregando vários sítios do Oeste), Oeiras, Cascais, Évora e Faro. Nalguns casos há responsáveis e equipas em pleno funcionamento: Aveiro nomeou Carlos Martins, que dirigiu a Fundação Cidade de Guimarães, Leiria escolheu João Bonifácio Serra, que liderou Guimarães 2012, e a Guarda optou por José Amaral Lopes, ex-secretário de Estado da Cultura. Algumas urbes procuraram reforçar o seu perfil internacional: foi o que fez Aveiro ao participar na Roménia numa conferência de cidades candidatas e ao anunciar que a próxima reunião será cá, Évora ao apresentar o seu projecto no Salão Internacional do Património Cultural em Paris, e a Guarda a propor uma ligação privilegiada a Salamanca. O envolvimento das organizações e agentes culturais locais tem enriquecido sobremaneira as candidaturas anunciadas: ele é bem visível em Aveiro (a Câmara prepara mesmo um Plano Estratégico de Cultura, valorizando os recursos regionais), Leiria e Guarda.

Eu gostava muito que a melhor candidatura fosse a de Coimbra. Se olharmos para a história, para o património, para a intensa actividade cultural nalguns sectores e pela presença científica e cultural da Universidade, verificaremos que existem condições ímpares para esse êxito. Infelizmente, por manifesta incapacidade da Câmara Municipal, o processo, que estava atrasado, começou da pior maneira. A Câmara acaba de anunciar, num passe de mágica, que o responsável pela candidatura será Luís de Matos, um ilusionista com o seu mérito mas a quem não é conhecida qualquer ideia sobre a cultura (curiosamente, integrou a comissão de honra da campanha eleitoral do Presidente da Câmara e tem feito vários contratos com ele). Há do lado da Câmara coimbrã, que nem sequer consegue fazer uma feira do livro decente, um penoso vazio cultural. Não são marcas fortes da intenção ora anunciada nem a necessária dimensão global, que deveria ser potenciada pela classificação em 2013 da Universidade de Coimbra como Património Mundial da UNESCO, nem o imprescindível trabalho conjunto dos agentes culturais da cidade, alguns deles com pergaminhos reconhecidos no país e lá fora, mas feridos pelo recente despautério na pasta da Cultura. Coimbra bem poderia ser uma lição. Mas, a continuar como começou, o seu projecto de Capital da Cultura não passará de uma ilusão.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Minha entrevista ao "Notícias ao Minuto"

Ler neste link:

https://www.noticiasaominuto.com/vozes-ao-minuto/1016391/quase-so-falta-dizer-que-a-medicina-causa-o-cancro

Introdução do jornalista Fábio Nunes:

"Carlos Fiolhais assistiu de perto às mudanças na área da ciência em Portugal. Do período antes do 25 de Abril ao período que se seguiu à Revolução, quando a ciência já registava alguma evolução, até ao momento determinante: o primeiro Ministério da Ciência e da Tecnologia.

Embora ainda haja tempo a recuperar, o professor, uma das principais referências da Física em Portugal, salienta o progresso da divulgação científica, para a qual tem contribuído. Autor de vários livros, um dos mais recentes intitula-se 'A Ciência e os Seus Inimigos' da editora Gradiva, escrito em conjunto com David Marçal.
Tal como David Marçal já havia feito em entrevista ao Notícias ao Minuto, também Carlos Fiolhais deixa duras críticas às medicinas e terapêuticas alternativas, cujos profissionais ainda esta segunda-feira protestaram junto ao Parlamento, reclamando direitos iguais.
(...)"

Minha entrevista ao podcast "Hominum" da Rádio Universidade de Coimbra

Basta clicar neste link:

https://soundcloud.com/hominumpodcast/hominum-08-carlos-fiolhais

para ouvir a entrevista que dei a David Lopes. Introdução do entrevistador:

"Carlos Fiolhais é Professor Catedrático de Física na Universidade de Coimbra e um dos maiores maior divulgadores e mais reconhecidos escritores de ciência em Portugal, com cerca de mais de 30 livros publicados.
Foi ele que veio esta vez até ao nosso estúdio, para falarmos sobre a sua visão do futuro da humanidade, sobre Inteligência Artificial, o seu percurso escolar, e claro, sobre ciência."

domingo, 3 de junho de 2018

PORQUE NÃO PODEMOS DESISTIR DE PENSAR A EDUCAÇÃO ESCOLAR

Apontamento na sequência de um texto mais antigo (A voz dos alunos: questões de legitimidade e de possibilidade) e de um mais recente ("Nós é que sabemos" ou a desistência de pensar a educação escolar).

Por pressão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), consolida-se, a um nível muito global, a ideia de que têm de ser os alunos a decidir o currículo escolar. Isto porque eles sabem bem o que querem aprender, para que querem aprender e como querem aprender. Professores, directores e, agora, políticos, devem seguir o que eles decidem no respeitante à sua própria educação formal.

Não é preciso aprofundar muito a reflexão para se perceber que a OCDE orienta com grande precisão a expressão dos alunos, levando-os a dizer o que quer que eles digam. Trata-se de uma forma (enganosa) de legitimar as "orientações" que previamente estabeleceu e que os países transformarão em políticas e medidas. 

Ainda que o exercício seja retórico, redundando na negação da própria voz dos alunos, consolida um modo de pensar inaceitável: que as decisões dos adultos respeitantes ao currículo, ou seja dos educadores, dependem da manifestação de vontade das crianças e dos jovens, ou seja dos educandos. Uma inversão que traduz demissão da responsabilidade de educar.

Em Portugal esse exercício tem tido particular destaque.

Em 2016, o Conselho Nacional de Educação fez a seguinte recomendação:
"que se ouçam os alunos, que tão esquecidos são, e se escute cuidadosamente o muito que têm para dizer e sugerir, em liberdade, em ordem à melhoria dos processos de ensino e de aprendizagem” (CNE, 2016, 18 - aqui).
Em 2017, o Ministério da Educação, através da Direcção-Geral da Educação,
no âmbito da discussão pública Currículo para o Século XXI auscultou as opiniões dos alunos (aquiaquiaqui)
Em 2018, o mesmo Ministério levou à sede da OCDE a maior delegação de alunos, tendo ficado bem claro que:
"Para a OCDE, os alunos não só têm razão como estão a apontar a direção certa aos decisores (aqui). Para se fazer face à demagogia, ao doutrinamento, à pressão e, em última instância, à ignorância, só há um caminho pensar 
Acredito, é mesmo uma questão de crença, que há professores e directores que não desistiram das suas responsabilidades curriculares, que sabem que as crianças e os jovens não se educam sozinhas nem uma às outras e porque chegadas hà pouco temo ao mundo estão num estado de devir, não sabem, não podem saber, que decisões as beneficiam e as prejudicam. 

Uso aqui a linha de pensamento da filosofa H. Arendt para recomendar dois textos em que, a partir dessa linha, se explica com grande pormenor, rigor e clareza o que acima enunciei.
A criança e o mundo, de Marcio Ferrari, e publicado em 2016. 
A crise da educação no contexto da crise política da modernidade, de Maria Rita César e André Duarte, e publicado em 2010.

sábado, 2 de junho de 2018

Professor Victor Gil, Universidade de Coimbra

Imagem encontrada aqui

Faz muitos anos que conheci o Professor Victor Gil, do Departamento de Química da Universidade de Coimbra, mas foi no Exploratório da cidade que tive oportunidade de falar por diversas vezes com ele sobre aquilo que era um dos seus grandes interesses: a educação e, muito em particular, a educação formal e não formal da ciência. 

Por uma vez, teve a amabilidade de estar presente na minha Faculdade, conjuntamente com a Professora Helena Caldeira, numas provas públicas de mestrado em Ciências da Educação, de um trabalho que orientei. Lembro-me bem de quão edificante e agradável foi a longa conversa que se proporcionou, um momento único nestes tipo de circunstâncias.

O Professor Victor Gil faleceu ontem. 

Deixo aos leitores uma breve nota biográfica sua, escrita, com grande sensibilidade, por João Paiva (aqui).
Não são todos os cientistas que pintam ou fazem poemas, nem todos os químicos que se entregam ao árduo, difícil e gozoso trabalho de promover o ensino e a divulgação da ciência para todos. Na sequência de uma carreira brilhante como químico, com destaque particular para o seu doutoramento em Sheffield, na Inglaterra, e para a responsabilidade pelo primeiro laboratório de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) português, Victor Gil foi o primeiro (jovem) reitor da Universidade de Aveiro. 
A par da sua atividade científica sempre teve intervenções na educação e na divulgação da ciência. São inúmeras as suas obras publicadas no país e no estrangeiro, não só na investigação química mas também em domínios educativos e culturais. Sou coautor de algumas dessas obras, pelo que posso testemunhar o empenhado, competente e original papel daquele que foi e é o meu mestre na minha profissão. 
Na parte mais avançada da sua carreira, como aliás acontece com muitos cientistas, o Prof. Victor Gil dedicou-se quase em exclusivo ao ensino e à divulgação científicas. A forma como emprestou a esta causa a sua inteligência e criatividade foi impressionante. Colaborei nos primeiros passos do Exploratório: as nossas conversas inspiradas em algumas visitas a Centros de Iniciação Científica estrangeiros, as ideias que íamos tecendo e algumas noitadas a manufacturar as montagens de demonstrações e pequenas exposições deixam-me uma grata saudade. 
Foi com base nesses primeiros humildes mas ousados gestos que a ciência, com novos edifícios, foi colocada na praça pública e nas mãos de todos as pessoas curiosas, principalmente dos mais novos. Com o tempo as construções foram-se cimentando (no duplo sentido da palavra). Primeiro na Rua Pedro Monteiro e depois na margem do Mondego, o Exploratório Infante D. Henrique ofereceu-se à cidade e ao país, num espaço onde o “mexer” para questionar era incentivado. 
Juntamente com a Prof.ª Helena Caldeira e outros colaboradores interessados e interessantes, o Prof. Victor Gil contribuiu durante décadas para erguer uma das estruturas culturais mais relevantes da cidade, um pólo competente e cativante da Ciência Viva do nosso país. Este legado tem um óbvio e reconhecido valor (não seria preciso ser discípulo, como é o meu caso, para concordar). 
A cidade, a universidade, o país, a ciência e a cultura devem ao Prof. Victor Gil uma sentida palavra de grande reconhecimento. A química, sua pátria primeira e apaixonada, interessa-se pela transformação. A natureza oferece-nos exemplos notáveis de mudança e de renascimento, como acontece com sementes que, na dor do confronto com a terra agreste se abrem para mais tarde dar o fruto que as justifica. 
Victor Gil já nos deu frutos enormes da semente que sempre foi mas o meu repto de amizade e cidadania é para que interprete o eventual deserto de descontinuidade como a terra em que novos desafios se lançarão. 
Já lhe devemos muito mas eu desejo saborear a sombra de mais árvores que ele poderá plantar. Eu, como muitos outros, estamos profundamente agradecidos e estamos também na expectativa de tudo aquilo que nos poderá ainda dar.

2 + 2 = 22 OU UM RETRATO IRÓNICO-REALISTA DA ESCOLA

Vale pena ver este filmezinho, publicado há menos de um ano:


Usando um registo irónico, retrata o que pode ser a negação do ensino e da função da escola. O cenário são os Estados Unidos da América mas poderia um outro qualquer, na América ou na Europa.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

NOVIDADES DA GRADIVA

Michael F. Patton e Kevin Cannon
Introdução à Filosofia em Banda Desenhada

Filosofia em todo o rigor da sua exposição. As ideias nucleares, referência de todas as outras, marcam a história da filosofia ocidental, do século IV a. C. aos nossos dias.
Um percurso que não se esquece, pelos debates essenciais sobre o nosso conhecimento do mundo, da natureza da mente, da existência de Deus, do
livre‑arbítrio, de nós próprios. Guiados pelo filósofo Michael Patton e pelo premiado ilustrador Kevin Cannon num livro inteligente, criativo e actualizado. Para todos.

«Fora de Colecção», n.º 514, 176 pp., € 13,50
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9582

Kazuo Ishiguro
A Minha Noite do Século XX e Outras Pequenas Descobertas

Um ensaio sobre a matéria de que se faz um escritor, por um dos autores maiores do nosso tempo. Ishiguro reflecte sobre o seu passado e os pontos de viragem da sua carreira que o levaram ao que é. Mas vai além de si e analisa o mundo que as novas gerações de escritores herdarão. Uma ocasião rara para conhecer o homem por detrás dos livros.

«Fora de Colecção», n.º 515, 48 pp., € 8,00

Luís Portela
Da Ciência ao Amor
Pelo Esclarecimento Espiritual

O autor de Ser Espiritual dirige‑se com este novo livro aos leitores que querem avançar no conhecimento da espiritualidade. Sem ferir a racionalidade, Luís Portela, um grande mecenas da investigação, continuou a ensaiar um caminho que realize o seu anseio para um encontro mutuamente fecundo entre a Ciência e a Espiritualidade. Inteligente e edificante, merece bem os inúmeros leitores que tem.

«[…] Desta vez Luís Portela foi mais longe... entrou, em grande, pela espiritualidade superlativa!»

Mário Simões, Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

«Fora de Colecção», n.º 511, 160 pp., € 11,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9581

Richard Dawkins
O Gene Egoísta

Edição comemorativa do 40.º aniversário, com novos textos.

Há livros assim, raros. Mas muitos na colecção «Ciência Aberta», que perduram no tempo, durarão enquanto se manifestar a inteligência e a curiosidade humana, sempre susceptíveis de leituras novas, de significados acrescentados por cada nova leitura. Clássicos, portanto.
Esta obra foi pioneira e marcante na área científica que trata. Avançou no conhecimento e abriu uma porta por onde os avanços continuaram a progredir.

Considerado o melhor livro de ciência de sempre, numa votação pela Royal Society em 2017.

«Grandes Clássicos Ciência Aberta», n.º 227, 488 pp., € 17,50
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/54

Glenn Murphy
Robôs – E toda a história da tecnologia

Até aqui já toda a gente sabe: com Glenn Murphy a informação junta‑se à diversão, em livros sem nenhumas partes chatas. Falta dizer que neste livro se incluem questões e, claro, respostas, que interessam a todos os jovens de hoje. Senão vejamos:
Quando é que os trabalhos de casa vão começar a ser feitos com jogos? Que língua falam os computadores? Como funcionam os smartphones? Um livro fascinante sobre tecnologia, cheio de ilustrações e factos acerca de múltiplas coisas incríveis.

«Gradiva Júnior», n.º 171, 144 pp., € 10,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9583

Nos cinemas a partir de 5 de Julho
Na Praia de Chesil
Uma obra‑prima de Ian McEwan, agora também em filme.
Não perca toda a obra de Ian McEwan publicada pela Gradiva.
Com os melhores cumprimentos
Helena Rafael

Ciência no sofá: (Ep. 12) "Carlos Fiolhais apresenta 3 livros sobre monstros"

Ainda há lágrimas espremidas...

“A verdade que eu conto nua e pura/ Vence toda a grandíloqua escritura.”
(Luiz Vaz de Camões)

Em resposta ao comentário anónimo (30/05/2918 às 13.57), publicado no meu meu post da véspera, intitulado “Há lagrimas espremidas…", começo por evocar a memória de meu avô materno José Pereira da Silva, presidente da Câmara Municipal do Porto (1925) num tempo em que esse honroso desempenho estava, apenas, ao alcance de personalidades de alto destaque cultural e social e, hoje, se fica dever ao agitar frenético de bandeiras partidárias por parte de uma juventude que vê nisso a forma de subir na vida, num abrir e fechar de olhos, a maior parte das vezes, sem honra  e mérito.
Pela sua participação fracassada na Revolução do Porto (1927), foi José Pereira da Silva, escassos dias após, deportado político para uma inóspita Angola, em que o paludismo, e outras doenças tropicais, ceifava vidas como quem ceifa searas de trigo, apenas com a roupa que vestia e com as algibeiras vazias de dinheiro, obviamente, das modernices dos actuais “offshores”, “em que se esconde o equivalente a um quinto da riqueza produzida” (“Jornal de Economia”, 19/09/2017). Foi ele um  idealista que morreu na pobreza por tudo ter sacrificado em prol da política: família, posição social, fortuna.

Não pela sua posição social de destaque que não possuo e fortuna inicial ainda menos, encontro, todavia, razão para a minha luta em citação do escritor Milan Kundera, que abandonou o Partido Comunista Checo por discordância: “A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”.

Em minha vida de octogenário, encontro no baú das coisas impressas em letra de forma, uma forma de luta quixotesca, reconhecida por um grande amigo de meus tempos de Moçambique, Augusto Cabral, depois independência desse território, director do Museu Álvaro de Castro de Moçambique/Maputo e professor universitário desta urbe, falecido anos atrás, que, em prefácio ao meu livro “Sem contemporizar” (1972), escreveu: “Defesa essa em que ele tem sido intransigente, mesmo quando fica sozinho e luta até ao último alento até quando lhe falta o apoio daqueles que sobre estes assuntos se deveriam pronunciar e o não fazem, limitando-se a colher benefícios, quando os há, da luta que ele tem travado”.
Injustiça minha (vade retro Satanas!) seria não relevar os numerosos comentários de apoio que tenho recebido relativamente a uma causa que gostaria não perdida pela justiça que encerra e moralidade de que se faz voz. Não o faço, ou farei, em nome dessa solidariedade sempre presente que muito me contenta e apraz registar.
Na intenção de se perpetuar no poder através de votos nas eleições que  se avizinham, António Costa para obter uma maioria que lhe permita governar sem uma “geringonça” a desconjuntar-se e a chiar por todos os lados, no Congresso do Partido Socialista do mês passado, desfez-se em promessas para com a juventude - sem uma palavra de estímulo ou apoio a velhos, doentes ou deficientes por saber que  muitos deles não votam por dificuldade em se deslocarem às mesas de voto -  sendo longamente aplaudido por ela, por fezada em, num próximo futuro radioso de alvoradas de esperança, tomar em suas mãos o leme do destino deste país onde a falta de emprego será substituída por uma profissão bem remunerada (apesar de lamúrias que se ouvem por aí), até que reformas, obtidas num  abrir e fechar dos olhos, os recompense do serviço a uma vida de sacrifícios como, v.g., terem refeições no luxuoso restaurante da Assembleia da República em preço de saldo de fim de verão. Tudo isto em nome do povo num hemiciclo de tentações demoníacas em que, por vezes, mais do que servirem o país dele se servem, com escândalos que enchem de manchetes os jornais diários pelo aumento, por vezes, escandaloso  e não justificado dos seus proventos. Bem dita liberdade de imprensa!
Por depositar grandes esperanças numa presidência de afectos, com ingenuidade que a minha idade desaconselhava, mas  que a recordação do final feliz das histórias infantis em que o mal é sempre castigado e os bons recompensados justificava, escrevi um artigo de opinião, intitulado “Carta Aberta ao Presidente da República” (“Diário as Beiras”, 26/10/2017), com o seguinte desfecho: “Finalmente, por considerar que se trata de importantes questões de natureza social, por atingir pessoas velhas e doentes, por vezes,  em situação em que, como sói dizer-se, se vão os anéis para ficarem os dedos, ‘no uso da licença e liberdade de quem não pede favor senão justiça’, como foi hábito de vida do padre António Vieira, submeto-as, como ultima ratio, à consideração de Vossa Excelência”. Respeitosamente. Rui Baptista.”
Passados dias, em mera hipótese, por os serviços burocráticos de apoio à Presidência da República terem assumido o simples papel de caixa de correio, recebi um ofício da ADSE, assinado pelo respectivo presidente, Liberato Baptista, qual raposa a tomar conta do galinheiro, endossando-me para a leitura da medida legislativa em que justificava a sua razão ou sem razão, como se eu, porque desabilitado de um “valioso diploma” das Novas Oportunidades, ainda que só para fins meramente estatísticos que nos coloque, em pós de perlimpimpim, a par da literacia de outros países mais avançados da Comunidade Europeia, não tivesse bestunto bastante para a interpretar e aceitar a sua retroactividade  
Ou ele não compreendeu, ou fez-se desentendido, que a minha petição se destinava à alteração do conteúdo que expulsava antigos familiares de titulares numa altura em que a ADSE, sob a sua tutela directa procedia, dia-sim-dia-não, a mudanças sucessivas legislativas, dando o dito por não dito e o não dito por dito, em procura de nova clientela cheia de saúde e estaleca que lhe voltasse a encher os cofres arruinados por uma má gestão que o obrigou ao respectivo pedido de demissão. Vá lá a gente entender esta gentinha!
P.S.: Ao leitor que possa, porventura, estar interessado em visitar a fonte da minha evocação a meu avô, poderá fazê-lo no meu post “In memoriam de José Pereira da Silva e sua participação na Revolução do Porto de 25 de Fevereiro de 1927” (“De Rerum Natura”, 18/06/2012).

OLHE LÁ, VOCÊ ...

Isaltina Martins e Maria Helena Damião Num texto ainda recente com o título O 'Você' (ver aqui ), Jorge Mangorrinha, pós-doutorado ...