No campo da educação formal as decisões mais razoáveis são, aparentemente, as mais difíceis de tomar. E quando isso acontece, pela sua estranheza, são notícia nacional e, mesmo, internacional. É o caso da proibição do uso do telemóvel na escola. França foi um país pioneiro nesta matéria, logo esteve (ver aqui) e está hoje nos noticiários e nos jornais (pelo menos) da Europa.
Depois de o Presidente da República a ter apontado, o Ministro da Educação bateu-se por ela, levou-a à Assembleia Nacional e hoje foi traduzida em letra de lei: a partir de Setembro de 2018 nem alunos nem professores podem ter telemóveis, tanto nas aulas como nos espaços exteriores, e isto é válido para todos os níveis de ensino, incluindo o superior. Haverá excepções para casos especiais.
As razões do Ministro da Educação (cito a notícia do jornal Público) afiguram-se-me perfeitamente válidas: evitar a distracção na sala de aula e fazer face a problemas de comportamento entre alunos. São, na verdade, dois problemas de que os professores se queixam reiteradamente no nosso país.
É claro que o Ministro tem a contestação dos partidos da oposição e do sindicato de professores. A estas duas entidades hão-de associar-se outras: empresas de tecnologia, pais/encarregados de educação, investigadores que advogam a aprendizagem com este equipamento...
Ao que parece, mais ou menos como cá, cada escola pode prever (nos seus regulamentos) regras para o uso dos telemóveis, mas a complicação que isso causa e o tempo faz gastar (recolha e devolução, queixas de pais, prevaricação dos alunos, etc.) faz com que a desistência ou o aligeiramento do controle seja uma tentação quando não uma realidade. Talvez, por isso, o dito Ministro se tenha batido pela necessidade de "uma base legal muito mais forte".
É preocupante ler esta declaração pois os directores, professores e outros educadores deveriam (poder) assegurar que os alunos se focalizam na aprendizagem e que vão adquirindo um comportamento socialmente aceitável, mas as várias pressões de que são alvo têm o seu efeito. Assim, talvez esta legislação seja, para já, um mal menor, uma via para recuperar a atenção/concentração que o trabalho escolar requer e a convivência.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
De novo, feliz, em Lourenço Marques
Mais uma belíssima crónica de Eugénio Lisboa, publicada inicialmente no "Jornal de Letras", que a mim muito me diz sentimentalmente por nessa bela cidade do Índico ter vivido 18 anos de intensa e saudosa memória:
A felicidade
é caprichosa: não se deixa facilmente capturar por quem a persegue. Dizia
Bertrand Russell que a melhor maneira de se conseguir a felicidade não é
procurá-la, directamente. Ela é,
repito, caprichosa. Surpreende-nos, quando menos a esperamos. E toma conta de
nós, pelas vias mais insuspeitadas.
Toda a gente
conhece, de o ter lido ou de nele ter ouvido falar, o episódio relatado pelo
narrador de À la recherche du temps perdu
(de Proust), relativo à pequena “madeleine” que, embebida em chá e oferecida ao
narrador pela sua tia, lhe trouxe inesperadamente e involuntariamente à
memória, pelo seu sabor, todo um mundo do passado: a velha casa cinzenta, a
cidade, a praça, a igreja, Combray e os seus arredores, a boa gente da terra…
Um universo que, assim involuntariamente trazido à memória, se revela portador
de uma indescritível felicidade. Levar à boca a pequena “Madeleine” impregnada
de chá de tília foi a via insuspeitada de activar uma memória criadora de
felicidade.
Todos nós, ao
longo das nossas vidas, passámos por experiências análogas, mas, na maioria dos
casos, passa-se por isso com alguma desatenção e sem se lhe atribuir
importância ou significado de maior. Por vezes, porém, a experiência toca-nos
tão fundo que, por momentos, não podemos deixar de reparar nela. Proust,
psicólogo e anotador minucioso, deu-lhe, na sua Recherche, uma importância e um significado enormes. É um exemplo extraordinariamente elaborado de
“memória involuntária”, capaz de surpreender e encher de felicidade quem passa
por tal experiência. Eis, nas inesquecíveis palavras de Proust: “E assim que
reconheci o gosto do pedaço de madeleine embebido no chá de tília que me dava a
minha tia (embora não soubesse ainda e devesse remeter para bem mais tarde
descobrir a razão por que essa recordação me tornava tão feliz), imediatamente
a velha casa cinzenta na rua (…), e as boas pessoas da aldeia e as suas
pequenas habitações e a igreja e toda a Combray e os seus arredores, tudo isso
que ganha forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá.”
Trata-se de uma passagem justamente célebre, naqual se poderá rever – agora
arrancado da sua desatenção pela minúcia
da atenção de Proust – o leitor do romance celebrado.
Tenho
voltado muitas vezes a este momento do folhetim psicológico de Proust, que
profundamente me tocou por ter eu próprio vivido momentos idênticos e tão ou
mais intensos do que os experimentados pelo narrador de À la recherche du temps perdu. É um desses momentos que agora aqui
vos trago.
Vivi em
Londres dezassete bem fruídos anos – de 1978 a 1995 – na qualidade de
conselheiro cultural da nossa embaixada. Foram dezassete anos cheios de uma
variada vivência cultural, numa cidade em que a oferta era imensa e de grande
qualidade. Foram anos felizes mas muito diferentes da vida que deixara para
trás: 38 anos de experiência africana, em Lourenço Marques, cidade onde nascera
e onde passara os primeiros dezassete anos da minha formação. Ali me casara e
ali me nasceram duas filhas.
Culturalmente
falando, Lourenço Marques não era uma cidade sem interesse: com um bom
Cine-Clube, um Núcleo de Arte, grupos de teatro amador de grande qualidade (um
deles dirigido por Mário Barradas) e páginas culturais cheias de vivacidade em
vários jornais, com cinema onde a censura era menos apertada do que nas salas
de Lisboa ou Porto (no Cine-Clube, vimos todo o cinema soviético – Eisenstein,
Pudovkine, etc - , polaco, checoslovaco, romeno, húngaro, francês, sem que o
censor visse objecção), com uma vida de grande convívio e tertúlia, cimentada
nas reuniões de A Voz de Moçambique ou do Cine-Clube ou, aos sábados de manhã,
nas visitas às boas livrarias que por lá havia – não se morria propriamente de
tédio. De uma maneira muito intensa e muito especial, era-se feliz. E era uma maneira de se ser feliz muito diferente da
maneira de se ser feliz, em Londres.
Nesta grande cidade, faltavam-nos as tertúlias, o convívio assíduo e de porta aberta, a conversa quotidiana, o desafio constante, as polémicas intermináveis, a cumplicidade entre amigos. Londres tinha coisas que em Lourenço Marques não havia, mas, por outro lado, não tinha outras que em Lourenço Marques havia. Era-se, em suma, feliz de modo diverso. Londres tinha indiscutivelmente uma maior diversidade de oferta e coisas (exposições, teatro profissional, música, ópera) de uma qualidade excelsa, que em Lourenço Marques eram impensáveis. Mas faltava-lhe a camaradagem quotidiana, o convívio quente, a amizade cúmplice sempre à mão de semear, a dialética vivificadora…
Nesta grande cidade, faltavam-nos as tertúlias, o convívio assíduo e de porta aberta, a conversa quotidiana, o desafio constante, as polémicas intermináveis, a cumplicidade entre amigos. Londres tinha coisas que em Lourenço Marques não havia, mas, por outro lado, não tinha outras que em Lourenço Marques havia. Era-se, em suma, feliz de modo diverso. Londres tinha indiscutivelmente uma maior diversidade de oferta e coisas (exposições, teatro profissional, música, ópera) de uma qualidade excelsa, que em Lourenço Marques eram impensáveis. Mas faltava-lhe a camaradagem quotidiana, o convívio quente, a amizade cúmplice sempre à mão de semear, a dialética vivificadora…
Ora, num
certo dia da minha estadia em Londres, resolvi ir de viagem, no meu carro, até
à margem sul do Tamisa (a South Bank), numa qualquer missão de serviço. Saí da
embaixada por volta das onze horas da manhã e fui ao meu destino. Estava um dia de sol relutante mas abafado e
ameaçando chuva. Chegado à South Bank, estacionei o carro e dirigi-me, a pé, ao
local onde tencionava ir. Fui andando e, subitamente, começou a chover. Não sei
bem porquê, soube-me bem. Recebi a
chuva quase como uma bênção, numa espécie de expectativa de nem sabia bem o
quê. E, de repente, subiu do chão até mim o bafo capitoso da terra molhada.
Uma
difusa sensação de felicidade tomou, com grande força e intensidade, conta de
mim. Aquele era o cheiro da terra molhada que eu tantas vezes experimentara, em
Lourenço Marques, nas minhas sortidas à praia da Polana: aquele bom cheiro da
terra fecundada pela chuva tropical. Era esse
mesmo cheiro que agora se me oferecia, ali, na margem sul do Tamisa.
Levava-me de novo, transportava-me a Lourenço Marques, numa viagem improvável
mas imensamente real. Por momentos, eu
estava em Lourenço Marques e não em Londres. E, repito, incrivelmente
feliz, não de uma felicidade londrina, mas de uma felicidade perfeitamente
laurentina.
Daquele cheirinho a terra molhada saíra todo um meu passado de
cumplicidades, amizades e convívio tal como os fruíra no meu tempo de Lourenço
Marques. Ao meio dia de um dia de calor, na margem sul do Tamisa, rodeado de
coisas londrinas, eu estava de novo a ser feliz em Lourenço Marques. Recuperara
uma felicidade antiga, que se substituía a outra mais recente. A felicidade
obtém-se, já o disse, por vias enviesadas. Por via do bom cheirinho da terra
molhada, em Londres, eu ascendi, nesse dia de verão chuvoso, à felicidade
peculiar que, tantos anos antes, me visitara em Lourenço Marques.
OS DESCOBRIMENTOS E OS SEUS INIMIGOS
Artigo de Guilherme valente no JL de ontem:
A mão treme quando evocamos os crimes cometidos pelos Árabes, enquanto o inventário dos crimes cometidos pelos Europeus, igualmente condenáveis, ocupa páginas inteiras.
Marc Ferro
Marc Ferro
I
Os títulos de quem escreve não tornam justo o que se escreve. Nos artigos que escrevi acentuei até à redundância muito do que António Hespanha referiu no artigo que acaba de publicar no JL.
Os títulos de quem escreve não tornam justo o que se escreve. Nos artigos que escrevi acentuei até à redundância muito do que António Hespanha referiu no artigo que acaba de publicar no JL.
Essa convergência diz-me não ser a mim que se dirigiu (porque haveria, aliás, de me ter lido e responder?) quando acentuou justamente que “O patriotismo não pode assentar em operações plásticas na face da pátria. Tristes patriotas os que só amam pátrias belas e de história impoluta...”
Nunca houve pátrias assim, acrescento eu.
Nunca houve pátrias assim, acrescento eu.
Amar a pátria é, pelo contrário, olhar a sua realidade nos olhos, criticamente, e empenharmo-nos em a tornar melhor. Nunca é, acentuo a propósito, odiar a pátria dos outros.
Esse ódio, que os horrores do século XX levaram a que se reserve o termo “nacionalismo” para o designar, nunca resulta de um excesso de pátria, mas de um défice. É por isso que quem ama a sua Terra é sensível e se pode entregar ao fascínio de outras civilizações sem perder nada, mas ganhando muito.
É um défice de pátria que explica pulsões (patológicas) que determinam muito do que está em jogo na questão do museu, na aversão, afinal, aos Descobrimentos.
De facto, se quisermos compreender esse jogo, teremos de ter presente o episódio da manifestação à estatua do Padre António Vieira, que poderia (quereria?) ter terminado com a sua vandalização. Manifestação, aliás, que o meu Presidente da Câmara se esqueceu de condenar.
E se o melhor da excelência académica que fazendo a diferença subscreveu o Abaixo-Assinado tivesse tido presente esse episódio, provavelmente não teria caído no logro de se embrenhar no tricot falacioso sobre a propriedade do termo "Descobrimentos”. Excelência académica que está a ser usada como bandeira de pressupostos e intenções que suponho não subscreverá.
Esse tricot terá servido pelo menos para confirmar não faltarem candidatos para o emprego na empreitada do museu. Lista e compromissos que já correm. Mas AH, que no mérito estaria bem colocado para a corrida, não consta dela, registe-se, nem aceitaria tal cargo, suponho.
Transcrevo o que recebi de um jovem intelectual de muito mérito, que me enche de esperança no futuro:
"Esta questão do nome do museu é mais uma demonstração da lavagem asséptica da linguagem que tem estado em voga. Esfrega-se bem até ficar tudo cinzento. Que um país com a nossa história não tenha um museu deste cariz, onde naturalmente se falará de escravatura (porque raio não se havia de falar?) como de tudo o resto, para mim é inexplicável. E mais inexplicável ainda que a primeira reacção dos académicos, que deviam ser parte integrante do projecto, seja um abaixo-assinado a rebater de imediato o nome informal que foi avançado. E realmente denota-se muito preconceito quando comparam o projecto do museu ao International Slavery Museum… Acho normal que se possa pensar noutra designação, mas o abaixo-assinado na verdade não o faz, e para além disso temo que os argumentos apresentados não tenham de facto boa-fé e isenção. Mas como tudo o resto vai por arrasto, e quem não pensa deixa que pensem por si, mais dia menos dia está aí um Museu-das-Viagens-Marítimas-Portuguesas-com-Intuito-Mercantil-cujo-Único-Resultado-Foi-a-Destruição-do-Povo-Indígena-Legado-que-os-Portugueses-Devem-levar- às - costas."
Assistir ao alheamento geral, ao silêncio ou cumplicidade de instituições e universitários que deviam estar na primeira linha da lucidez, da liberdade e da resistência, talvez seja mesmo o mais confrangedor e preocupante nesta história de sombras.
II
1. Não é preciso ser profissional ou sequer amador da História como sou para intervir no que está em causa.
Não foi o “outro” que veio, foram os portugueses de então que foram e encontraram o “outro”. (No caso dos Chineses porque estes decidiram mesmo não vir, pois possuíam tudo para terem chegado, saber, barcos formidáveis, riqueza e gente. E depois de terem navegado muitos mares, pararam intrigantemente perto.)
O resto são jogos semânticos para iludir o que não altera nada iludir. A realidade não deixa de ser o que é por impormos que seja diferente.
E como foram os nossos antepassados que partiram, obrigaram-se ao exercício de qualidades humanas e feitos extraordinários, medindo até aonde podia chegar então “a força humana”.
E continuaram nessa época, mas então num salto qualitativo inimaginável, o já longo percurso humano de abertura do mundo ao mundo, a descoberta entre si dos seres humanos, o reconhecimento e encontro de cada um consigo próprio. Os seus feitos alargaram surpreendentemente o horizonte da Humanidade toda.
O resultado dessa épica para o conhecimento e a criação humana global foi incomensurável. Novos continentes de aquisição e procura infindável de saber se abriram. Cultura, antropologia, ciências, medecina, literatura, nautica, geografia, astronomia, musica, pintura, costumes, valores, pensamento, o inventário é interminável. Fez-se, aconteceu. É um facto. E tem um mérito universal singular.
E nessa passada gigantesca, também as manchas impostas pelo tempo, os contextos e as inevitáveis universais misérias da condição humana.
Foi assim que o meu Pai me ensinou a História da minha Terra, com a verdade com que deve ser conhecida, mas exaltando o que intemporalmente deve ser exaltado. Recorrendo aos Quadros da História de Portugal de João Soares e Chagas Franco, às aguarelas belíssimas de Roque Gameiro e Alberto de Sousa. Quadros e figuras vivíssimas na minha memória. Como as do Gama e de Albuquerque, o meu Pai a mostrar-me o admirável dos seus feitos e deles próprios e o que compreendi dever ser lamentado nas suas acções e neles mesmos.
É assim que deve ser justamente celebrada “a glória dos feitos que fizeram”, que são património da Humanidade toda. Com uma informada celebração do bem, não com uma perversa hipertrofia do mal.
O museu dos Descobrimentos que os Portugueses devem a si próprios e ao mundo só pode ser amimado por este espírito, concebido com este objectivo.
Museu que sem ocultar nada, mas situando e documentando tudo, pode e muito bem chamar-se “Museu dos Descobrimentos”. Descobrimentos que nos cumpre mostrar e oferecer ao Mundo. Museu que por ser assim será também - outra designação bem adequada, mais expressiva, porventura, e rigorosa - um museu de “Portugal na Abertura [ou no Encontro] do Mundo”.
Ao contrário do museu (que antes fora estátua e museu da escravatura...) que nos querem impor os fugidos de lugares de horror, instalados na segurança e no conforto na nossa Terra que difamam insultando os Portugueses que os acolheram, impor-nos o remorso e a expiação eterna pelo que Portugal reconheceu há muito, situando-o no tempo e na História. E há alguém, algum país civilizado que não lamente os dramas da História?
Porque não reconhecem, se arrependem, expiam e choram eles próprios o horror praticado pelos seus antepassados? Horror que ainda continua HOJE a manifestar-se no seu mundo?
Escravatura e tráfico que começaram no mundo deles sete séculos antes e foram mais longos e mesmo mais cruéis por terem somado o genocídio e não terem tido a necessidade material de preservar a robustez e a vida dos cativos e lhes faltarem a moderação de uma religião do amor ao próximo. Impérios dizimados no interior da África, capturas impiedosas que só elas tornaram possível que o tráfico português e atlântico tivesse a dimensão quantitativa que teve *.
Porque não vão combater esse horror na África muçulmana e no Médio Oriente AGORA? RESPONDAM, NÃO SE ESCONDAM NUMA SUPOSTA IGNORÂNCIA!
Porque não vão combater esse horror na África muçulmana e no Médio Oriente AGORA? RESPONDAM, NÃO SE ESCONDAM NUMA SUPOSTA IGNORÂNCIA!
À fixação nas trevas prefiro a estrada da luz. À vitimização e ao martirio prefiro a religião da esperança, o encorajamento da alegria. À vitimização absurda deles que tentam projectar sobre nós prefiro a consciência critica e o impulso dos grandes exemplos para a construção do futuro.
Europeus e Portugueses enfrentaram no passado outros obscurantismos, fizeram, apoiaram, com que se regenerasse mesmo o que desviava, profanava o espírito e a fonte da religião presente na nossa identidade, venceram os flagelos polÍticos e ideológicos mais bestiais que ameaçaram a Civilização. Combateremos e venceremos hoje o fanatismo que flagela o mundo e parece começar a vislumbrar-se na nossa Terra. Larvarmente, com a cumplicidade dos que pensam poder instrumentalizá-lo em proveito ideológico próprio.
Absurdos ressentimento, impotência e remorso próprios que projectam sobre o “outro”, sobre nós, sobre o mundo. Colaborarmos, alimentarmos essa autoilusão não os ajudará no reconhecimento terapeutico libertador.
E não apagarão o nosso património imaterial. Não destruirão com o meu silêncio o nossos budas do afeganistão e as nossas ruínas de Palmira.
Guilherme Valente
*. “O único povo a aceitar a escravidão são os Negros, em virtude do seu grau inferior de humanidade, estando mais próximos do estádio animal”. Maomé Ibn Khaldun, (1332-1406), Polímata ÁRABE de origem iemenita ou berbére, assim legitimando o esclavagismo árabe-muçulmano.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
Partidos Políticos e Juventudes Partidárias
Meu artigo de opinião
saído hoje no “Diário As Beiras”, tendo por base um meu artigo publicado neste
blogue intitulado: “Ainda há lágrimas
espremidas...” (01/06/2018):
“A luta do homem
contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento” (Milan Kundera,
escritor expulso do Partido Comunista Checo).
Evoco a memória de meu avô materno José Pereira da Silva,
presidente da Câmara Municipal do Porto (1925) num tempo em que esse honroso desempenho estava, apenas, ao alcance de personalidades da sociedade
portuguesa com destaque cultural, social e ético e hoje se fica a dever, sem pretender, de forma alguma
generalizar (“vade rertro Satanas!”), ao
agitar frenético de bandeiras partidárias por parte de uma juventude que vê
nisso uma forma de subir na vida perante
o espectro do desemprego ou empregos mal remunerados.
Pela sua participação
fracassada na Revolução do Porto (1927) foi ele deportado político para uma
inóspita Angola em que as doenças tropicais e o mau clima ceifavam vidas como quem ceifa searas de trigo em
terra lusitana, apenas com a roupa que vestia no corpo e com as algibeiras vazias de dinheiro, obviamente,
das modernices dos actuais “offshores”, “em
que se esconde o equivalente a um quinto da riqueza produzida” (“Jornal de
Economia”, 19/09/2017) .
Faleceu, este meu antepassado, nessa terra africana com
escassos bens materiais por ter sacrificado, em nome dos seus ideários políticos, família, posição social, fortuna. Na
actualidade, para perpetuar a sua gente
no poder, através de votos nas eleições
que se avizinham para conseguir uma maioria que permita governar sem uma
“geringonça” a desconjuntar-se e a chiar por todos os lados, António Costa, no Congresso do Partido Socialista do mês
passado, desfez-se em promessas para com os jovens, sintomaticamente, sem uma só palavra que seja de esperança para com os velhos, talvez, por este estrato populacional, apelidado de
“peste grisalha” pelo deputado do PSD Carlos Peixoto, nem sempre poder votar por dificuldade em se
deslocar às mesas de voto!
Na sua prédica vibrante sobre o futuro que diz esperar para
juventude socialista, foi ele calorosa e
longamente aplaudido pela mensagem de que, num futuro próximo, radioso de alvoradas de esperança, esses jovens futuros
profissionais da política, tomem em
suas mãos o leme do destino deste
país através de uma profissão bem
remunerada e de altas reformas que os
recompense de uma vida de “ascetismo”, trazida do hemiciclo de S. Bento em nome do povo e em aparente
lutas diárias contra tentações
demoníacas, nem sempre vencidas, em que mais do que servirem o país dele se serviram nem que seja à custa
desonrosa de escândalos que enchem de manchetes os jornais diários. Bem dita e
salutar liberdade de imprensa!
Mesmo sem pretender tomar a nuvem por Juno, vive-se hoje, sem generalizar, mais um vez o escrevo, uma época
da política portuguesa que dá razão
a palavras premonitórias de Ruy Barbosa,
membro fundador da Academia de Letras do Brasil (1849-1923) que perpassaram os anos e atravessaram o
Atlântico: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a
desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se os poderes
nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a
ter vergonha em ser honesto”.
Pelo andar da carruagem, tempo virá em que os cidadãos
honestos serão apontados a dedo (se é que o não são já!) com palavras de
espanto ou mesmo reprovativas: “Olha vai ali um tanso honesto!” Pobre país e
pobres portugueses em que a desonestidade, substituindo-se a um hábito
enraizado, assume um papel normativo que escapa às teias da lei!
NEANDERTAL
Na próxima 4ª feira, dia 13 de Junho, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra.
Neandertal", por João Zilhão, Arqueologo, Professor na Universidade de Barcelona e em Lisboa. Fundador e Director do Instituto Português de Arqueologia. Dirigiu a equipa que em 1998 descobriu o menino do lapedo, a primeira prova científica de peso a favor da miscigenação entre os neandertais e as populações de origem última africana que os especialistas designam como “primeiros seres humanos anatomicamente modernos”.
Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.
Neandertal", por João Zilhão, Arqueologo, Professor na Universidade de Barcelona e em Lisboa. Fundador e Director do Instituto Português de Arqueologia. Dirigiu a equipa que em 1998 descobriu o menino do lapedo, a primeira prova científica de peso a favor da miscigenação entre os neandertais e as populações de origem última africana que os especialistas designam como “primeiros seres humanos anatomicamente modernos”.
Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.
Resumo da palestra:
Na realidade, a “arte” pré-histórica é comunicação por imagens. O seu valor estético faz com que continue a causar admiração ao homem de hoje mesmo quando, na falta de um registo escrito ou de informadores orais, o significado preciso dessas imagens está para sempre perdido. Para o arqueólogo, as questões que ela coloca são por isso aquelas para as quais o método científico pode trazer respostas relativas aos modos de vida das gentes do passado. Por exemplo: Quando foi feita? Por quem foi feita? Como é que os lugares de “arte” se relacionam com os lugares de “habitação” e o que é essa relação nos diz sobre mundivisão, organização social, etc.? E, no que respeita à evolução humana: Como é que esta abordagem arqueológica da “arte” pré-histórica contribui para esclarecer questões relacionadas com as origens da comunicação por símbolos visuais? E, à luz das últimas datações obtidas para os primórdios da arte parietal na Península Ibérica, em que é essa abordagem contribui para uma melhor compreensão do homem de Neandertal? Destas questões se tratará.
*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.
ENTRADA LIVRE
"A sério que acreditam que os professores são seres menores no sistema educativo?"
Num artigo do jornal Público de hoje, Paulo Guinote faz uma pergunta que não pode ser adiada: "há educação [escolar] sem professores?"
Forças de pressões, tanto a nível internacional como nacional, querem fazer crer que sim, que isso é possível: que podem ser as crianças e os jovens a determinarem o currículo, desde a sua concepção à sua concretização, e que podem aprender sozinhos e/ou uns com os outros com o método milagroso da aprendizagem baseada (e sublinho "baseada") em projecto, sobretudo se apoiados nas super novas tecnologias ditas da informação e da comunicação.
Deixo de lado, a tónica posta pelo autor do artigo na actualização salarial, não por falta de importância mas porque, na continuação de textos anteriores, interessa-me destacar o que se segue:
Forças de pressões, tanto a nível internacional como nacional, querem fazer crer que sim, que isso é possível: que podem ser as crianças e os jovens a determinarem o currículo, desde a sua concepção à sua concretização, e que podem aprender sozinhos e/ou uns com os outros com o método milagroso da aprendizagem baseada (e sublinho "baseada") em projecto, sobretudo se apoiados nas super novas tecnologias ditas da informação e da comunicação.
Deixo de lado, a tónica posta pelo autor do artigo na actualização salarial, não por falta de importância mas porque, na continuação de textos anteriores, interessa-me destacar o que se segue:
... o que questiono é se a Educação seria possível sem professores e se há quem leve mesmo a sério aquelas teorias neo-construtivistas que estão na origem de algumas das reformas promovidas pelo secretário de Estado João Costa e alguns micro-feudos associativos e académicos e que afirmam que o conhecimento é algo que pode ser construído pelos alunos ab nihilo, apenas com uma espécie de orientação que não carece de especial qualificação académica.
A sério que acreditam que os professores são seres menores no sistema educativo (...)?
(...) sem eles não há Educação, por muito que seja o deslumbramento com as novas tecnologias.
2027, CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA
Meu artigo de opinião no Público de hoje:
Em 1994 Lisboa foi Capital
Europeia da Cultura, em 2001 foi o Porto e em 2012 Guimarães. A iniciativa da
União Europeia visa “acentuar a riqueza e diversidade de culturas na Europa,
celebrar as marcas culturais partilhadas pelos europeus, aumentar nos cidadãos o
sentido de pertença a um espaço cultural comum e fomentar o contributo da
cultura para o desenvolvimento citadino.” Começou em 1985 com Atenas, sob o
impulso da ministra grega Melina Mercouri, e prosseguiu nos anos seguintes com
Florença e Amesterdão. A experiência tem mostrado que, para além dos objectivos
atrás apontados, as capitais da cultura têm sido óptimas oportunidades para
“regenerar cidades, aumentar o seu perfil internacional, aumentar a autoimagem
dos habitantes, reanimar a cultura urbana e desenvolver o turismo.” Estes fins foram
atingidos nas três capitais portuguesas, apesar das costumadas limitações
orçamentais e dos também habituais percalços das organizações lusas. Do Porto
2001 ficou, para além da regeneração do espaço público, a Casa da Música, e de Guimarães
2012 ficou, para além de similar reabilitação urbana, a Plataforma das Artes e
da Criatividade.
É, por isso, natural, que esteja
instalada a corrida para a organização da próxima Capital da Cultura em
Portugal. Será só em 2027, mas o processo de selecção é longo e complexo,
iniciando-se seis anos antes. As regras europeias são exigentes e
pormenorizadas e a escolha entre as várias candidaturas será feita até 2023 por
um comité internacional de especialistas (o governo nacional será mero
observador). Os critérios são “a contribuição para a estratégia a longo prazo,
a dimensão europeia do projecto, o conteúdo cultural e artístico, a capacidade
de realização, o impacto e a gestão”. Várias cidades de Norte a Sul do país aceitaram
o desafio e arregaçaram as mangas: Viana do Castelo, Braga, Aveiro, Coimbra, Viseu,
Guarda, Leiria, Caldas da Rainha (congregando vários sítios do Oeste), Oeiras,
Cascais, Évora e Faro. Nalguns casos há responsáveis e equipas em pleno
funcionamento: Aveiro nomeou Carlos Martins, que dirigiu a Fundação Cidade de
Guimarães, Leiria escolheu João Bonifácio Serra, que liderou Guimarães 2012, e a
Guarda optou por José Amaral Lopes, ex-secretário de Estado da Cultura. Algumas
urbes procuraram reforçar o seu perfil internacional: foi o que fez Aveiro ao
participar na Roménia numa conferência de cidades candidatas e ao anunciar que
a próxima reunião será cá, Évora ao apresentar o seu projecto no Salão
Internacional do Património Cultural em Paris, e a Guarda a propor uma ligação privilegiada
a Salamanca. O envolvimento das organizações e agentes culturais locais tem
enriquecido sobremaneira as candidaturas anunciadas: ele é bem visível em
Aveiro (a Câmara prepara mesmo um Plano Estratégico de Cultura, valorizando os
recursos regionais), Leiria e Guarda.
Eu gostava muito que a melhor candidatura
fosse a de Coimbra. Se olharmos para a história, para o património, para a
intensa actividade cultural nalguns sectores e pela presença científica e
cultural da Universidade, verificaremos que existem condições ímpares para esse
êxito. Infelizmente, por manifesta incapacidade da Câmara Municipal, o
processo, que estava atrasado, começou da pior maneira. A Câmara acaba de
anunciar, num passe de mágica, que o responsável pela candidatura será Luís de
Matos, um ilusionista com o seu mérito mas a quem não é conhecida qualquer
ideia sobre a cultura (curiosamente, integrou a comissão de honra da campanha
eleitoral do Presidente da Câmara e tem feito vários contratos com ele). Há do
lado da Câmara coimbrã, que nem sequer consegue fazer uma feira do livro
decente, um penoso vazio cultural. Não são marcas fortes da intenção ora anunciada
nem a necessária dimensão global, que deveria ser potenciada pela classificação
em 2013 da Universidade de Coimbra como Património Mundial da UNESCO, nem o imprescindível
trabalho conjunto dos agentes culturais da cidade, alguns deles com pergaminhos
reconhecidos no país e lá fora, mas feridos pelo recente despautério na pasta
da Cultura. Coimbra bem poderia ser uma lição. Mas, a continuar como começou, o
seu projecto de Capital da Cultura não passará de uma ilusão.
terça-feira, 5 de junho de 2018
Minha entrevista ao "Notícias ao Minuto"
Ler neste link:
https://www.noticiasaominuto.com/vozes-ao-minuto/1016391/quase-so-falta-dizer-que-a-medicina-causa-o-cancro
Introdução do jornalista Fábio Nunes:
https://www.noticiasaominuto.com/vozes-ao-minuto/1016391/quase-so-falta-dizer-que-a-medicina-causa-o-cancro
Introdução do jornalista Fábio Nunes:
"Carlos Fiolhais assistiu de perto às mudanças na área da ciência em Portugal. Do período antes do 25 de Abril ao período que se seguiu à Revolução, quando a ciência já registava alguma evolução, até ao momento determinante: o primeiro Ministério da Ciência e da Tecnologia.
Embora ainda haja tempo a recuperar, o professor, uma das principais referências da Física em Portugal, salienta o progresso da divulgação científica, para a qual tem contribuído. Autor de vários livros, um dos mais recentes intitula-se 'A Ciência e os Seus Inimigos' da editora Gradiva, escrito em conjunto com David Marçal.
Tal como David Marçal já havia feito em entrevista ao Notícias ao Minuto, também Carlos Fiolhais deixa duras críticas às medicinas e terapêuticas alternativas, cujos profissionais ainda esta segunda-feira protestaram junto ao Parlamento, reclamando direitos iguais.
(...)"
Minha entrevista ao podcast "Hominum" da Rádio Universidade de Coimbra
Basta clicar neste link:
https://soundcloud.com/hominumpodcast/hominum-08-carlos-fiolhais
para ouvir a entrevista que dei a David Lopes. Introdução do entrevistador:
https://soundcloud.com/hominumpodcast/hominum-08-carlos-fiolhais
para ouvir a entrevista que dei a David Lopes. Introdução do entrevistador:
"Carlos Fiolhais é Professor Catedrático de Física na Universidade de Coimbra e um dos maiores maior divulgadores e mais reconhecidos escritores de ciência em Portugal, com cerca de mais de 30 livros publicados.
Foi ele que veio esta vez até ao nosso estúdio, para falarmos sobre a sua visão do futuro da humanidade, sobre Inteligência Artificial, o seu percurso escolar, e claro, sobre ciência."
domingo, 3 de junho de 2018
PORQUE NÃO PODEMOS DESISTIR DE PENSAR A EDUCAÇÃO ESCOLAR
Apontamento na sequência de um texto mais antigo (A voz dos alunos: questões de legitimidade e de possibilidade) e de um mais recente ("Nós é que sabemos" ou a desistência de pensar a educação escolar).
Por pressão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), consolida-se, a um nível muito global, a ideia de que têm de ser os alunos a decidir o currículo escolar. Isto porque eles sabem bem o que querem aprender, para que querem aprender e como querem aprender. Professores, directores e, agora, políticos, devem seguir o que eles decidem no respeitante à sua própria educação formal.
Não é preciso aprofundar muito a reflexão para se perceber que a OCDE orienta com grande precisão a expressão dos alunos, levando-os a dizer o que quer que eles digam. Trata-se de uma forma (enganosa) de legitimar as "orientações" que previamente estabeleceu e que os países transformarão em políticas e medidas.
Ainda que o exercício seja retórico, redundando na negação da própria voz dos alunos, consolida um modo de pensar inaceitável: que as decisões dos adultos respeitantes ao currículo, ou seja dos educadores, dependem da manifestação de vontade das crianças e dos jovens, ou seja dos educandos. Uma inversão que traduz demissão da responsabilidade de educar.
Em Portugal esse exercício tem tido particular destaque.
Em 2016, o Conselho Nacional de Educação fez a seguinte recomendação:
Uso aqui a linha de pensamento da filosofa H. Arendt para recomendar dois textos em que, a partir dessa linha, se explica com grande pormenor, rigor e clareza o que acima enunciei.
Por pressão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), consolida-se, a um nível muito global, a ideia de que têm de ser os alunos a decidir o currículo escolar. Isto porque eles sabem bem o que querem aprender, para que querem aprender e como querem aprender. Professores, directores e, agora, políticos, devem seguir o que eles decidem no respeitante à sua própria educação formal.
Não é preciso aprofundar muito a reflexão para se perceber que a OCDE orienta com grande precisão a expressão dos alunos, levando-os a dizer o que quer que eles digam. Trata-se de uma forma (enganosa) de legitimar as "orientações" que previamente estabeleceu e que os países transformarão em políticas e medidas.
Ainda que o exercício seja retórico, redundando na negação da própria voz dos alunos, consolida um modo de pensar inaceitável: que as decisões dos adultos respeitantes ao currículo, ou seja dos educadores, dependem da manifestação de vontade das crianças e dos jovens, ou seja dos educandos. Uma inversão que traduz demissão da responsabilidade de educar.
Em Portugal esse exercício tem tido particular destaque.
Em 2016, o Conselho Nacional de Educação fez a seguinte recomendação:
"que se ouçam os alunos, que tão esquecidos são, e se escute cuidadosamente o muito que têm para dizer e sugerir, em liberdade, em ordem à melhoria dos processos de ensino e de aprendizagem” (CNE, 2016, 18 - aqui).Em 2017, o Ministério da Educação, através da Direcção-Geral da Educação,
no âmbito da discussão pública Currículo para o Século XXI auscultou as opiniões dos alunos (aqui, aqui, aqui)Em 2018, o mesmo Ministério levou à sede da OCDE a maior delegação de alunos, tendo ficado bem claro que:
"Para a OCDE, os alunos não só têm razão como estão a apontar a direção certa aos decisores (aqui). Para se fazer face à demagogia, ao doutrinamento, à pressão e, em última instância, à ignorância, só há um caminho pensarAcredito, é mesmo uma questão de crença, que há professores e directores que não desistiram das suas responsabilidades curriculares, que sabem que as crianças e os jovens não se educam sozinhas nem uma às outras e porque chegadas hà pouco temo ao mundo estão num estado de devir, não sabem, não podem saber, que decisões as beneficiam e as prejudicam.
Uso aqui a linha de pensamento da filosofa H. Arendt para recomendar dois textos em que, a partir dessa linha, se explica com grande pormenor, rigor e clareza o que acima enunciei.
- A criança e o mundo, de Marcio Ferrari, e publicado em 2016.
- A crise da educação no contexto da crise política da modernidade, de Maria Rita César e André Duarte, e publicado em 2010.
sábado, 2 de junho de 2018
Professor Victor Gil, Universidade de Coimbra
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| Imagem encontrada aqui |
Faz muitos anos que conheci o Professor Victor Gil, do Departamento de Química da Universidade de Coimbra, mas foi no Exploratório da cidade que tive oportunidade de falar por diversas vezes com ele sobre aquilo que era um dos seus grandes interesses: a educação e, muito em particular, a educação formal e não formal da ciência.
Por uma vez, teve a amabilidade de estar presente na minha Faculdade, conjuntamente com a Professora Helena Caldeira, numas provas públicas de mestrado em Ciências da Educação, de um trabalho que orientei. Lembro-me bem de quão edificante e agradável foi a longa conversa que se proporcionou, um momento único nestes tipo de circunstâncias.
O Professor Victor Gil faleceu ontem.
Deixo aos leitores uma breve nota biográfica sua, escrita, com grande sensibilidade, por João Paiva (aqui).
Não são todos os cientistas que pintam ou fazem poemas, nem todos os químicos que se entregam ao árduo, difícil e gozoso trabalho de promover o ensino e a divulgação da ciência para todos. Na sequência de uma carreira brilhante como químico, com destaque particular para o seu doutoramento em Sheffield, na Inglaterra, e para a responsabilidade pelo primeiro laboratório de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) português, Victor Gil foi o primeiro (jovem) reitor da Universidade de Aveiro.
A par da sua atividade científica sempre teve intervenções na educação e na divulgação da ciência. São inúmeras as suas obras publicadas no país e no estrangeiro, não só na investigação química mas também em domínios educativos e culturais. Sou coautor de algumas dessas obras, pelo que posso testemunhar o empenhado, competente e original papel daquele que foi e é o meu mestre na minha profissão.
Na parte mais avançada da sua carreira, como aliás acontece com muitos cientistas, o Prof. Victor Gil dedicou-se quase em exclusivo ao ensino e à divulgação científicas. A forma como emprestou a esta causa a sua inteligência e criatividade foi impressionante. Colaborei nos primeiros passos do Exploratório: as nossas conversas inspiradas em algumas visitas a Centros de Iniciação Científica estrangeiros, as ideias que íamos tecendo e algumas noitadas a manufacturar as montagens de demonstrações e pequenas exposições deixam-me uma grata saudade.
Foi com base nesses primeiros humildes mas ousados gestos que a ciência, com novos edifícios, foi colocada na praça pública e nas mãos de todos as pessoas curiosas, principalmente dos mais novos. Com o tempo as construções foram-se cimentando (no duplo sentido da palavra). Primeiro na Rua Pedro Monteiro e depois na margem do Mondego, o Exploratório Infante D. Henrique ofereceu-se à cidade e ao país, num espaço onde o “mexer” para questionar era incentivado.
Juntamente com a Prof.ª Helena Caldeira e outros colaboradores interessados e interessantes, o Prof. Victor Gil contribuiu durante décadas para erguer uma das estruturas culturais mais relevantes da cidade, um pólo competente e cativante da Ciência Viva do nosso país. Este legado tem um óbvio e reconhecido valor (não seria preciso ser discípulo, como é o meu caso, para concordar).
A cidade, a universidade, o país, a ciência e a cultura devem ao Prof. Victor Gil uma sentida palavra de grande reconhecimento. A química, sua pátria primeira e apaixonada, interessa-se pela transformação. A natureza oferece-nos exemplos notáveis de mudança e de renascimento, como acontece com sementes que, na dor do confronto com a terra agreste se abrem para mais tarde dar o fruto que as justifica.
Victor Gil já nos deu frutos enormes da semente que sempre foi mas o meu repto de amizade e cidadania é para que interprete o eventual deserto de descontinuidade como a terra em que novos desafios se lançarão.
Já lhe devemos muito mas eu desejo saborear a sombra de mais árvores que ele poderá plantar. Eu, como muitos outros, estamos profundamente agradecidos e estamos também na expectativa de tudo aquilo que nos poderá ainda dar.
2 + 2 = 22 OU UM RETRATO IRÓNICO-REALISTA DA ESCOLA
Vale pena ver este filmezinho, publicado há menos de um ano:
Usando um registo irónico, retrata o que pode ser a negação do ensino e da função da escola. O cenário são os Estados Unidos da América mas poderia um outro qualquer, na América ou na Europa.
Usando um registo irónico, retrata o que pode ser a negação do ensino e da função da escola. O cenário são os Estados Unidos da América mas poderia um outro qualquer, na América ou na Europa.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
NOVIDADES DA GRADIVA
Michael F. Patton e Kevin Cannon
Introdução à Filosofia em Banda Desenhada
Introdução à Filosofia em Banda Desenhada
Filosofia em todo o rigor da sua exposição. As ideias nucleares, referência de todas as outras, marcam a história da filosofia ocidental, do século IV a. C. aos nossos dias.
Um percurso que não se esquece, pelos debates essenciais sobre o nosso conhecimento do mundo, da natureza da mente, da existência de Deus, dolivre‑arbítrio, de nós próprios. Guiados pelo filósofo Michael Patton e pelo premiado ilustrador Kevin Cannon num livro inteligente, criativo e actualizado. Para todos.
Um percurso que não se esquece, pelos debates essenciais sobre o nosso conhecimento do mundo, da natureza da mente, da existência de Deus, dolivre‑arbítrio, de nós próprios. Guiados pelo filósofo Michael Patton e pelo premiado ilustrador Kevin Cannon num livro inteligente, criativo e actualizado. Para todos.
«Fora de Colecção», n.º 514, 176 pp., € 13,50
http://www.gradiva.pt/?q=C/
Kazuo Ishiguro
A Minha Noite do Século XX e Outras Pequenas Descobertas
Um ensaio sobre a matéria de que se faz um escritor, por um dos autores maiores do nosso tempo. Ishiguro reflecte sobre o seu passado e os pontos de viragem da sua carreira que o levaram ao que é. Mas vai além de si e analisa o mundo que as novas gerações de escritores herdarão. Uma ocasião rara para conhecer o homem por detrás dos livros.
«Fora de Colecção», n.º 515, 48 pp., € 8,00
Luís Portela
Da Ciência ao Amor
Pelo Esclarecimento Espiritual
O autor de Ser Espiritual dirige‑se com este novo livro aos leitores que querem avançar no conhecimento da espiritualidade. Sem ferir a racionalidade, Luís Portela, um grande mecenas da investigação, continuou a ensaiar um caminho que realize o seu anseio para um encontro mutuamente fecundo entre a Ciência e a Espiritualidade. Inteligente e edificante, merece bem os inúmeros leitores que tem.
«[…] Desta vez Luís Portela foi mais longe... entrou, em grande, pela espiritualidade superlativa!»
Mário Simões, Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
«Fora de Colecção», n.º 511, 160 pp., € 11,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/
Richard Dawkins
O Gene Egoísta
Edição comemorativa do 40.º aniversário, com novos textos.
Há livros assim, raros. Mas muitos na colecção «Ciência Aberta», que perduram no tempo, durarão enquanto se manifestar a inteligência e a curiosidade humana, sempre susceptíveis de leituras novas, de significados acrescentados por cada nova leitura. Clássicos, portanto.
Esta obra foi pioneira e marcante na área científica que trata. Avançou no conhecimento e abriu uma porta por onde os avanços continuaram a progredir.
Considerado o melhor livro de ciência de sempre, numa votação pela Royal Society em 2017.
«Grandes Clássicos Ciência Aberta», n.º 227, 488 pp., € 17,50
http://www.gradiva.pt/?q=C/
Glenn Murphy
Robôs – E toda a história da tecnologia
Robôs – E toda a história da tecnologia
Até aqui já toda a gente sabe: com Glenn Murphy a informação junta‑se à diversão, em livros sem nenhumas partes chatas. Falta dizer que neste livro se incluem questões e, claro, respostas, que interessam a todos os jovens de hoje. Senão vejamos:
Quando é que os trabalhos de casa vão começar a ser feitos com jogos? Que língua falam os computadores? Como funcionam os smartphones? Um livro fascinante sobre tecnologia, cheio de ilustrações e factos acerca de múltiplas coisas incríveis.
«Gradiva Júnior», n.º 171, 144 pp., € 10,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/
Nos cinemas a partir de 5 de Julho
Na Praia de Chesil
Uma obra‑prima de Ian McEwan, agora também em filme.
Não perca toda a obra de Ian McEwan publicada pela Gradiva.
Com os melhores cumprimentos
Helena Rafael
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Ainda há lágrimas espremidas...
“A verdade que eu
conto nua e pura/ Vence toda a
grandíloqua escritura.”
(Luiz Vaz de Camões)
Em resposta ao comentário anónimo (30/05/2918 às 13.57), publicado no meu meu post
da véspera, intitulado “Há lagrimas
espremidas…", começo por evocar a memória
de meu avô materno José Pereira da Silva, presidente da Câmara Municipal do
Porto (1925) num tempo em que esse
honroso desempenho estava, apenas, ao
alcance de personalidades de alto destaque cultural e social e, hoje, se fica dever ao agitar frenético de bandeiras
partidárias por parte de uma juventude que vê nisso a forma de subir na vida, num
abrir e fechar de olhos, a maior parte das vezes, sem honra e mérito.
Pela sua participação
fracassada na Revolução do Porto (1927), foi José Pereira da Silva, escassos dias após, deportado político para uma inóspita Angola, em que o paludismo, e
outras doenças tropicais, ceifava vidas como quem ceifa searas de trigo, apenas
com a roupa que vestia e com as
algibeiras vazias de dinheiro, obviamente, das modernices dos actuais “offshores”,
“em que se esconde o equivalente a um
quinto da riqueza produzida” (“Jornal de Economia”, 19/09/2017). Foi ele um idealista que morreu na pobreza por tudo ter sacrificado
em prol da política: família, posição social, fortuna.
Não pela sua posição social de destaque
que não possuo e fortuna inicial ainda menos,
encontro, todavia, razão para a minha luta em citação do escritor Milan Kundera, que
abandonou o Partido Comunista Checo por discordância: “A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o
esquecimento”.
Em minha vida de octogenário, encontro no baú das coisas impressas em letra de forma, uma forma de luta quixotesca, reconhecida por um grande amigo de meus tempos de Moçambique, Augusto Cabral, depois independência desse território, director do Museu Álvaro de Castro de Moçambique/Maputo e professor universitário desta urbe, falecido anos atrás, que, em prefácio ao meu livro “Sem contemporizar” (1972), escreveu: “Defesa essa em que ele tem sido intransigente, mesmo quando fica sozinho e luta até ao último alento até quando lhe falta o apoio daqueles que sobre estes assuntos se deveriam pronunciar e o não fazem, limitando-se a colher benefícios, quando os há, da luta que ele tem travado”.
Em minha vida de octogenário, encontro no baú das coisas impressas em letra de forma, uma forma de luta quixotesca, reconhecida por um grande amigo de meus tempos de Moçambique, Augusto Cabral, depois independência desse território, director do Museu Álvaro de Castro de Moçambique/Maputo e professor universitário desta urbe, falecido anos atrás, que, em prefácio ao meu livro “Sem contemporizar” (1972), escreveu: “Defesa essa em que ele tem sido intransigente, mesmo quando fica sozinho e luta até ao último alento até quando lhe falta o apoio daqueles que sobre estes assuntos se deveriam pronunciar e o não fazem, limitando-se a colher benefícios, quando os há, da luta que ele tem travado”.
Injustiça minha (vade
retro Satanas!) seria não relevar os numerosos comentários de apoio que
tenho recebido relativamente a uma causa que gostaria não perdida pela justiça
que encerra e moralidade de que se faz voz. Não o faço, ou farei, em nome dessa solidariedade sempre presente que muito me
contenta e apraz registar.
Na intenção de se perpetuar no poder através de votos nas
eleições que se avizinham, António Costa para obter uma maioria que lhe permita governar sem uma “geringonça” a
desconjuntar-se e a chiar por todos os lados, no Congresso do Partido Socialista do mês
passado, desfez-se em promessas para com a juventude - sem uma palavra de estímulo ou apoio a velhos, doentes ou deficientes por saber que muitos deles não votam por dificuldade em se deslocarem às mesas de voto - sendo
longamente aplaudido por ela, por fezada em, num próximo
futuro radioso de alvoradas de esperança, tomar em suas mãos o leme do destino deste país onde a falta de emprego
será substituída por uma profissão bem
remunerada (apesar de lamúrias que se ouvem por aí), até que reformas, obtidas num abrir e fechar
dos olhos, os recompense do serviço a
uma vida de sacrifícios como, v.g., terem refeições no luxuoso restaurante da Assembleia da
República em preço de saldo de fim de verão. Tudo isto em nome do povo num
hemiciclo de tentações demoníacas em que,
por vezes, mais do que servirem o
país dele se servem, com escândalos que
enchem de manchetes os jornais diários pelo aumento, por vezes, escandaloso e não justificado dos seus proventos. Bem dita
liberdade de imprensa!
Por depositar grandes esperanças numa presidência de afectos,
com ingenuidade que a minha idade desaconselhava, mas que a recordação do final feliz das histórias
infantis em que o mal é sempre castigado e os bons recompensados justificava,
escrevi um artigo de opinião, intitulado “Carta Aberta ao Presidente da
República” (“Diário as Beiras”, 26/10/2017), com o seguinte desfecho: “Finalmente, por considerar que se trata de importantes questões de natureza
social, por atingir pessoas velhas e doentes, por vezes, em situação em que, como sói dizer-se, se vão
os anéis para ficarem os dedos, ‘no uso da licença e liberdade de quem não
pede favor senão justiça’, como foi
hábito de vida do padre António Vieira, submeto-as, como ultima ratio, à consideração de Vossa Excelência”.
Respeitosamente. Rui Baptista.”
Passados dias, em mera hipótese, por os serviços
burocráticos de apoio à Presidência da República terem assumido o simples papel de caixa de correio, recebi
um ofício da ADSE, assinado pelo respectivo presidente, Liberato Baptista, qual
raposa a tomar conta do galinheiro, endossando-me para a leitura da medida legislativa em que
justificava a sua razão ou sem razão, como se eu, porque desabilitado
de um “valioso diploma” das Novas Oportunidades,
ainda que só para fins meramente estatísticos que nos coloque, em pós de
perlimpimpim, a par da literacia de outros países mais avançados da Comunidade
Europeia, não tivesse bestunto bastante para a interpretar e aceitar a sua retroactividade
Ou ele não compreendeu, ou fez-se desentendido, que a minha
petição se destinava à alteração do conteúdo que expulsava antigos familiares
de titulares numa altura em que a ADSE, sob a sua tutela directa procedia,
dia-sim-dia-não, a mudanças sucessivas legislativas, dando o dito por não dito e o não dito por
dito, em procura de nova clientela cheia
de saúde e estaleca que lhe voltasse a encher os cofres arruinados por uma má
gestão que o obrigou ao respectivo pedido
de demissão. Vá lá a gente entender esta gentinha!
P.S.: Ao
leitor que possa, porventura, estar interessado em visitar a fonte da minha evocação a meu avô, poderá
fazê-lo no meu post “In memoriam de
José Pereira da Silva e sua participação na Revolução do Porto de 25 de
Fevereiro de 1927” (“De Rerum Natura”, 18/06/2012).
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